Judas é o último romance de Amós Oz (1939-2018), publicado em 2014, aos 75 anos de idade do escritor. Sem dúvida, é um belo ponto final para a grande obra de Oz. Trata-se de uma indiscutível obra prima. É um livro que nasceu clássico, mas não pense em algo acadêmico, pense em algo rebelde. Oz ousa muito em Judas. Ele reinventa a história do homem do qual se diz ter beijado e traído Jesus e questiona a criação do estado de Israel. Só isso. Sem artifícios exagerados ou grandes invenções, apenas empurrando as peças para ali adiante ou para o lado, Oz reconstrói a história do cristianismo e de seu povo. A leitura de Judas é um sereno convite para a livre reflexão. Mas sabem o que eu acho? Há duas histórias contadas paralelamente e a melhor é a outra.
A outra história, a de dentro de casa, é a do trio formado por Shmuel Asch, um jovem, reflexivo e quase desistente estudante universitário; por Guershom Wald, um velho professor inválido que é cuidado às noites por Shmuel; e por Atalia Abravanel, nora de Wald. Os três moram na mesma casa, que é de Atalia. Após desistir (temporariamente?) da universidade, Shmuel serve de interlocutor para Wald entre às 17 e às 22h, já que o velho gosta de tagarelar e tagarelar de forma inteligente e contumaz. Atalia é a nora viúva, pois seu marido, filho de Wald, morreu na guerra. É lá, em uma casa de pedra que cheira à mofo, que são discutidas algumas das grandes questões políticas e religiosas da região.
Não pensem em um livro onde as teses políticas competem com os personagens e a fabulação, pense num livro onde a situação dos personagens diz tanto sobre as teses que tudo se confunde. Alívio! Judas não tem um texto que descamba para a filosofia ou a política, tem um texto onde as situações falam tanto quanto as teses.
Shmuel, um estudante ateu de judaísmo, foi contratado por Atalia para conversar com o velho, dar-lhe alguns remédios e alimentá-lo no horário que citamos. No resto do tempo, ele pode fazer o que quiser. Então, ele dorme, passeia e pensa na tese de pós-graduação que talvez jamais escreva, pois está sem dinheiro e desanimado. Mas talvez o que mais faça é o que fizeram seus antecessores no cargo: apaixona-se pela misteriosa e bela Atalia, uma mulher amarga que não quer nada com homens — além de, eventualmente, seu instrumental.
Shmuel fala muito de Judas Iscariotes. Ele acredita que Judas, na verdade, não traiu Jesus, mas foi seu discípulo mais leal. O velho fala sobre seu sogro, um certo Shaltiel Abravanel, pai de Atalia, famoso traidor na época de sua expulsão do Executivo sionista em 1947, por se opor à criação do Estado de Israel. Abravanel acreditava que judeus e palestinos poderiam viver juntos sem fronteiras. Foi considerado também traidor. O velho e o menino conversam sobre as ideias desses dois mortos, mas acima de tudo sobre suas condições de supostos traidores. Quem decide quem é traidor e por quê? Esse é o verdadeiro tema do romance. Oz conhece bem o tema, já que também teve problemas com o nada tolerante fundamentalismo judaico.
Enquanto isso, desenvolve-se o amor sem chances do jovem Shmuel pela bela, atraente e desiludida Atalia, que tem 45 anos, o dobro da idade dele.
Judas é um romance que lida com a questão da traição. Por que Judas teria traído Jesus em troca de 30 moedas de prata? Não é verdade que Judas honrou seu mestre mais do que todos os outros discípulos e só queria provar que Jesus era todo-poderoso e poderia salvar a si mesmo da cruz? A resposta toca o cerne da relação entre judeus e cristãos e tem importância não apenas teológica, mas também política. A descrição da crucificação de Jesus da perspectiva de Judas é uma das passagens mais impressionantes do livro. Mas há mais, há o processo de introdução de Shmuel no cotidiano da casa, também lindamente descrito.
É magistral a forma como Oz consegue evocar a Jerusalém de 1959 e 1960. Na atmosfera densa e cinza, fica claro desde o início que também a história de amor que surge entre Atalia e o (ex-)estudante de Teologia está condenada ao fracasso. Nas conversas, nas perdas e nas esperanças dos três moradores da casa refletem-se todas as turbulências históricas não apenas das últimas décadas, mas dos últimos 2 mil anos.
Certo dia, um grande amigo me disse que as obras-primas literárias sempre giram sobre estes três temas — o amor, a morte e a existência (ou não) de Deus. Judas é um livro que fala de todos estes temas.
Recomendo fortemente.
Amós Oz não era antissemita, mas criticava Israel. Quem elogia sistematicamente? Os fanáticos, ora. Mas isso é outro papo.
O Rádio-Leitura de hoje [apresentado pelo ótimo jornalista Pedro Palaoro] traz o livreiro Milton Ribeiro, da Bamboletras, uma das mais tradicionais livrarias de rua de Porto Alegre. Ele comenta sobre a reinvenção do comércio nesses tempos de pandemia e reflete sobre os ensinamentos que o período de isolamento social podem trazer.
O livreiro também dá dicas de leituras e compartilha conosco um trecho de uma das grandes escritoras portuguesas contemporâneas.
Estou num relacionamento sério com o livro Judas, de Amós Oz. Livraço. Leio Oz apenas pela segunda vez e repetidas vezes parece que estou numa atmosfera Charles Dickens. Esse cara deve amar Dickens, essa frase poderia ser de Dickens. Mas o tema do livro nada tem a ver. Oz não é sentimental. Judas não é nada semelhante a qualquer livro de Dickens. Oz conjetura, Dickens conta. Estou doido.
Resolvo guglar “Dickens Amós Oz” e descubro um monte de referências de Oz ao inglês. Um monte, principalmente a um dos livros que mais amo, Grandes Esperanças, e ao Um Conto de Duas Cidades. E alguma coisa acontece no meu coração que só quando cruzam e dialogam dois queridos gênios numa esquina qualquer.
Eu li bastante da primeira metade da obra de Rubem Fonseca. Conheci-o adolescente quando houve a censura ao ótimo Feliz Ano Novo. A censura era uma boa propaganda na época.
Acho que conheço quase tudo de sua obra até Agosto ou Bufo & Spallanzani ou Vastos Pensamentos, não sei qual foi o último. Achei que sua literatura, antes sinceramente noir, estava decaindo.
Gostava de sua habilidade para inserir a maldade em seus textos. Ela estava sempre rondando.
Creio de Feliz Ano Novo, Lúcia McCartney, O Cobrador e A Grande Arte ficarão.
Era um mineiro muito carioca que recebeu seis Jabutis e era um sujeito conservador, apoiador do golpe de 64 e homofóbico, mas isso não chegava a transparecer com clareza em sua obra, que é o que interessa.
A romancista revela como a loja de que ela é proprietária em Nashville está fazendo e refazendo planos para levar livros aos leitores que os querem mais do que nunca
Por Ann Patchett, no The Guardian (traduzido livremente por mim)
‘Nós fazemos nossos planos. Mudamos nossos planos. Esta é a nova ordem mundial ‘… Ann Patchett, da Parnassus Books. Foto: Heidi Ross / The Guardian
Nós fechamos a Parnassus Books, a livraria de que eu sou sócia em Nashville, no mesmo dia em que todas as lojas em torno de nós fecharam. Não sei dizer quando foi porque não tenho mais um relacionamento com minha agenda.
Todos os dias agora são oficialmente os mesmos, iguais. No dia do fechamento, eu e minha parceira de negócios, Karen, conversamos com a equipe e dissemos que, se não se sentissem confortáveis em entrar, tudo bem. Continuaríamos a pagá-los pelo tempo que pudéssemos. Mas se eles se sentissem bem em trabalhar em uma livraria vazia, tentaríamos continuar enviando livros para os clientes.
Na primeira semana, realizamos entregas, o que significava que um cliente poderia ligar para a loja e nos dizer o que queria. Pegávamos as informações e depois corríamos com os livros para o estacionamento e os jogávamos na janela aberta do carro. A entrega parecia uma boa ideia, mas o problema era que havia tantas pessoas ligando que a equipe acabou se agrupando em torno das caixas registradoras, organizando os pedidos e tratando de despachá-los o mais rápido possível. Uma correria. Nós reavaliamos e decidimos que todos os livros teriam que ser enviados pelo correio, mesmo para os clientes que moravam descendo a rua.
Nós fazemos nossos planos. Mudamos nossos planos. Esta é a nova ordem mundial.
Nossa livraria é espaçosa e arrumada, com escadas para alcançar as prateleiras mais altas, um grande sofá de couro e uma alegre seção infantil com um mural colorido com um sapo contando uma história para um grupo extasiado de animais variados. A sala dos fundos é o exato oposto, é um tumulto cheio de mesas, pilhas de caixas vazias ou cheias de livros que chegaram ou a serem devolvidos, etc. Há decorações de Natal, displays giratórios abandonados. Ficamos lá juntos, forçados a ouvir as conversas telefônicas um do outro e a cheirar o perfume um do outro.
Não é o cenário do distanciamento social.
Então, na ausência dos clientes, o pessoal dos bastidores mudou-se para a ampla frente da loja, com mesas distantes umas das outras a fim de criar nossos espaços privados. Nós aumentamos o volume do som nas caixas. O chão é um mar de caixas de papelão — pedidos concluídos, pedidos ainda aguardando mais um livro. Não fazemos nenhuma tentativa de arrumar nada antes de sair à noite. Não temos nem o ímpeto, nem a energia. Existem peixes maiores para fritar: os pedidos de clientes e para os fornecedores ativos.
Penso em como eu costumava falar no mundo pré-pandemia, defendendo a importância de ler e de fazer compras localmente, de apoiar as boas livrarias independentes. Hoje em dia, percebo até que ponto isso é verdade — agora entendo que somos parte de nossa comunidade como nunca antes e que nossa comunidade é o mundo. Quando um amigo meu, preso em seu minúsculo apartamento em Nova York, me disse que sonhava em poder ler o novo livro de Louise Erdrich, eu realizei o sonho dele. Não consigo resolver nada, não posso salvar ninguém, mas caramba, posso enviar para Patrick uma cópia de The Night Watchman.
Pelo menos por enquanto. Fazemos parte de uma cadeia produtiva que conta com editores para publicar os livros, distribuidores para enviá-los e as bikes e o serviço postal para pegar os pacotes e levá-los aos clientes. Até agora, esse frágil ecossistema está se mantendo, embora eu entenda que basta o tempo entre eu escrever este texto e você lê-lo para ele desmoronar. Mas, nesta época em que finalmente há tempo para ler novamente, é o que temos. Portanto, ligue para a livraria local e verifique se os livros podem ser enviados. Acontece que a comunidade de leitores e livros é a comunidade que precisávamos antes, e é a comunidade que precisamos em tempos difíceis, e é a comunidade com quem queremos estar quando tudo isso acabar.
Faz quase dez anos que Guy Roland não sabe quem é. Após uma crise de amnésia, não lembra nem de seu nome, nem do que fazia, nem do que aconteceu com ele. Nos últimos tempos, ele trabalhava em um escritório auxiliando um detetive. Mas, após ver fechado o local em razão da aposentadoria do dono, sai em busca de pessoas que possam lhe ajudar a dizer quem, afinal, é (ou foi). Uma trama policial? Não, a busca da identidade.
Modiano se utiliza de algumas características da literatura e do film noir, só que os usa para contar uma história entre o charme a a filosofia. O charme: Guy está sempre entrando em ambientes noir — ruas mal-iluminadas, bares enfumaçados, apartamentos velhos e sujos. A filosofia: Guy demonstra o valor da memória, da perda e a necessidade de pertencimento do indivíduo. Durante a busca, as perguntas a si mesmo são:”Esse sou mesmo eu?”, “Teria eu essa vida?”, “Teria eu morado aqui?”, “O que essa pessoa significava para mim?”, “Por que esse nome não me desperta nada?”, “Essa música deveria me remeter a algo?”.
O livro é melancólico, cheio de belas cenas com ligações entediantes entre elas.
Em 2014, Patrick Modiano recebeu o Prêmio Nobel de literatura “pela arte da memória com a qual ele evocou os destinos humanos mais inacessíveis e descobriu o mundo da vida da ocupação”. OK. Com a aprovação do prêmio, parecia que seria um bom momento para ele estourar, o que não aconteceu. Compreensível. É o cara é o arquétipo de certo gênero de vencedores de Nobel: o chato de grandes temas.
Voltando. O livro começa portentosamente com a frase: “Não sou nada”. Como disse, é somente depois que seu chefe se aposenta que ele é libertado do trabalho para finalmente assumir a tarefa de buscar saber quem é. Naturalmente, isso envolve uma investigação. A princípio, Guy é levado a acreditar, erroneamente, que ele pode ser um homem chamado Freddie Howard de Luz. No entanto, com o tempo, sua pesquisa o leva a acreditar que seu nome verdadeiro seja Jimmy Pedro Stern, e ele que nasceu na Grécia. Mas algumas evidências indicam que seu nome e identidade reais possam de um certo Pedro McEvoy, nascido na República Dominicana. Se ele é Stern, desapareceu em 1940. Se ele é McEvoy, ele deixou a França antes da guerra.
Em sua busca para descobrir quem é, Guy trabalha por intuição, premonição, suposição e imaginação onírica. Ele constantemente faz hipóteses sobre os motivos e o comportamento das pessoas. Os detalhes díspares que descobre servem como o fio de Ariadne que ele espera que o leve a si mesmo. Mas mesmo quando sente que está fazendo algum progresso, reconhece: “Fragmentos, fragmentos vieram à tona como resultado de minhas pesquisas … Mas então é isso que uma vida significa… É realmente minha vida que estou rastreando? Ou de outra pessoa na qual eu me infiltrei de alguma forma?”.
Finalmente, sua investigação o leva a concluir que ele e uma mulher, Denise, provavelmente foram vítimas de uma cilada enquanto atravessavam a fronteira franco-suíça no inverno, durante os últimos dias da guerra. Denise desapareceu. E ele também pode ter desaparecido. O trauma de ser enganado e deixado nas montanhas para morrer de frio pode ter sido, ele decide, o choque que produziu sua amnésia. O paradeiro de Denise permanece desconhecido, mas, graças ao trabalho de Guy, ela agora tem um nome e uma história. No final, o ex-Guy está fisicamente presente, mas apesar de seus esforços, ele continua sendo uma pessoa desaparecida, sem nome ou história verificável. Ele pode ser Jimmy Pedro Stern ou Pedro McEvoy. Ou ele pode ser nenhum dos dois. Ou pode ser que, como ele diz no começo do romance, que ele não seja nada.
Um livro entre o interessante e o chatinho.
Modiano conseguiu a proeza de ser interessante e chato ao mesmo tempo
Jesús Trueba, da La Buena Vida, livraria de Madrid | Divulgação
A livraria La Buena Vida, de Madri, foi reconhecida como livraria cultural em 2018. Por conta da crise do coronavírus, está com as suas portas fechadas, mas não deixou de atender seus clientes. Jesús Trueba, proprietário e livreiro da La Buena Vida, falou com o PublishNews em Espanhol para contar como está a sua rotina de trabalho nesse período de isolamento social. A conversa com Jesús dá início à série Papo do Confinamento, que vai traduzir entrevistas publicadas pelo nosso colega Lorenzo Herrero, editor do PublishNews em Espanhol.
PublishNews – Como você acha que o mercado do livro será afetado pela crise provocada pela pandemia de covid-19? Quais as áreas ou companhias que sofrerão mais?
Jesús Trueba – Como em qualquer setor, as consequências desta crise são totalmente imprevisíveis, porque não há precedentes. O que posso te assegurar é que o tecido das livrarias independentes tem um grau de exposição ao risco muito alto. Por um lado, estamos muito atomizadas e passamos por baixo do radar de muitas políticas públicas. Por outro, todos os grandes problemas econômicos nos afetam: a gentrificação e o boom imobiliário; a crise do comércio de vizinhança e do varejo tradicional; a escassa margem de lucro e o baixo poder de negociação.
PN – Como livreiro, acredita que a sua livraria poderá minimizar essas perdas?
JT – Nós nos consideramos um serviço público e nos posicionamos como um comércio de bairro, que assegura uma forma de vida e a interação social em nossas comunidades. Seus problemas são nossos problemas. Temos potencializado nossa competitividade no mercado eletrônico, oferecendo serviços e atividades. Mas nada pode ser feito contra a competição desigual com multinacionais que pagam nem um terço dos impostos que nós pagamos. E pagamos com prazer porque entendemos que colaboramos com os nossos serviços sociais públicos.
PN – Como você acredita que a crise afetará o mercado de livros digitais? Acha que pode criar um desequilíbrio com o livro físico?
JT- O livro digital segue sem decolar. É ainda uma expectativa. Em mercados mais maduros, inclusive, até diminuiu. Não quero falar do livro digital. É como se me pedisse para falar de cinema. O livro em papel subvenciona boa parte dos conteúdos digitais, cujas receitas dificilmente poderiam custear as traduções e os adiantamentos. Essa sim é uma realidade.
PN – Como o vírus afetou a sua vida profissional?
JT – Mesmo com as portas fechadas, estamos trabalhando de segunda a sexta, das 11h às 13h para dar conta de pedidos, fazer a manutenção, cuidar da parte administrativa e para nos sentir úteis. Caso contrário…
PN – O que recomendaria às pessoas que estão confinadas em casa?
JT – Há muito mais não leitores do que leitores. Esta crise é uma oportunidade para que pessoas que nunca pegam um livro nas mãos descubram o poder curador de se concentrar mentalmente em uma história que não é a sua própria e, mesmo assim, se envolver com ela. É aprender e adquirir empatia. Começar com sessões de leitura de dez minutos, várias vezes ao dia. Essa é a minha recomendação.
PN – A La Buena Vida segue atendendo sua cliente pela internet. Por que tomou essa decisão?
JT – Seguimos porque, entre outras coisas, o próprio Estado tem ajudado, há alguns anos, o setor comercial como um todo a se digitalizar e nós nos aproveitamos essa oportunidade. Creio que fazer o uso dessas ferramentas agora é a única coisa que podemos fazer para ajudar-nos e fazer que as instituições vejam que as ajudas têm efeitos benéficos em todo o tecido empresarial.
No nosso caso, chegamos a um acordo com alguns dos nossos fornecedores habituais que realizam a operação de pedidos dentro das suas próprias instalações, eliminando etapas e intervenções de pessoas, assim como otimizando os recursos disponíveis, que são escassos.
Não seria justo deixar que só os grandes conglomerados, que não pagam impostos equivalentes em nosso país, pudessem operar. Se, por razões sanitárias, se decretasse que estes serviços não poderiam ser oferecidos, não teríamos nenhum problema em respeitar, porém, daí, ninguém poderia oferecê-los de igual modo.
PN – Como tem gerenciado todo o processo, respeitando os protocolos sanitários?
JT – Não existe nenhum processo além daqueles realizados por um supermercado no fornecimento de alimentos, por exemplo. Além disso, nosso produto não é perecível. Existem serviços mínimos e não há contato com o público. Em Bruxelas, as livrarias ficaram de fora do fechamento do comércio. Eles entendem que as livrarias não são lugares de aglomeração de pessoas e que, ao contrário, servem de oxigênio social e intelectual para o confinamento.
PN – Há algo que queira acrescentar?
JT – Me parece surpreendente que, em uma situação como a atual, sociedades de grande tradição democrática como as europeias possam confinar seus cidadãos em casa mediante um decreto e que, no entanto, não consigam decretar medidas igualmente excepcionais para impor a grandes empresas de tecnologia a retenção de impostos na fonte. É realmente triste e significativo.
O Bardo sobreviveu à praga, referenciou-a em algumas de suas peças mais famosas e tornou suas quarentenas produtivas | Ilustração fotográfica da revista Slate. | Fotos da Biblioteca de Manuscritos Raros da Universidade de Yale e Wikipedia.
William Shakespeare (1564-1616) é considerado por muitos o maior escritor de língua inglesa de todos os tempos. Autor de clássicos da dramaturgia como Romeu e Julieta, Macbeth, Rei Lear, A Tempestade e Hamlet, o “Bardo” foi um escritor prolífico, que sabia como ninguém trabalhar e interpretar os caminhos e lacunas da psicologia humana. O que pouca gente sabe, porém, é que a epidemia de Peste Bubônica na Europa teve um papel fundamental em sua vida e obra.
É realmente verdade o pouco que se sabe sobre Shakespeare? Bem, talvez. Mas, certamente, é justo dizer que, como todos os elizabetanos, a carreira do dramaturgo foi afetada pela peste bubônica de maneira quase impossível de se conceber agora, mesmo em meio a pandemia do Covid-19. Quando criança, teve a sorte de sobreviver à doença: é que Stratford-upon-Avon foi devastada por um enorme surto no verão de 1564, logo após seu nascimento, e até um quarto da população da cidade morreu. Ao crescer, Shakespeare deve ter ouvido inúmeras histórias sobre esse evento apocalíptico e se ajoelhado na igreja em lembrança e respeito solenes aos mortos. Seu pai, John, esteve intimamente envolvido nos esforços de assistência e participou de uma reunião para ajudar os mais pobres de Stratford. Ela foi realizada ao ar livre em razão do risco.
Quando Shakespeare se tornou um ator profissional, além de dramaturgo e acionista de uma empresa de Londres, a peste representou uma ameaça tanto profissional quanto existencial, tanto econômica quanto médica. Por falar em médicos, os doutores elisabetanos não tinham ideia de que a doença era transmitida por pulgas de ratos e, no momento em que um surto explodia — muitas vezes durante os meses de primavera ou verão, estações de pico dos teatros –, as autoridades proibiam as reuniões de massa. Pior, isolavam pessoas em casas por onde os roedores passeavam com suas pulgas. Dado que as autoridades naturalmente suspeitavam da arte como um incentivo à indecência e às fantasias e Deus sabe o que mais, os teatros eram, invariavelmente, os primeiros a fechar. Além dos bordéis, claro. Como um pregador da época disse categoricamente: “A causa das pragas é o pecado, e a causa do pecado é a peça de teatro”. Entre 1603 e 1613, quando a capacidade de Shakespeare como escritor estava no auge, o Globe e outros teatros de Londres foram fechados por um total surpreendente de 78 meses…
Em tempos de isolamento social em razão do COVID-19, a revista americana Slate publicou um excerto do livro The Hot Hand: The Mistery and Science of Stakes, de Ben Cohen, que conta como isso aconteceu.
Como disse, Shakespeare já nasceu em meio a uma epidemia na pequena cidade de Stratford-upon-Avon. Foi o terceiro filho de oito, sendo o mais velho a sobreviver. De acordo com Cohen, apesar da peste ser “a força mais importante na vida dos seus contemporâneos”, ela era um tabu para Shakespeare e outros escritores. Eles não falavam dela, não era de bom tom.
Porém, ela surge num momento decisivo de sua obra. Em Romeu e Julieta, a principal reviravolta da história acontece por causa da peste. A trágica falha de comunicação entre os amantes mais famosos de todos os tempos acontece por um motivo insólito… O personagem Frei Lourenço, responsável por entregar a carta que revelaria os planos de Julieta a Romeu, não conseguiu sair de casa por causa de uma quarentena!
Foi a quarentena também a responsável por um dos períodos mais produtivos do “Bardo”. Entre os anos de 1605 e 1606, a maioria dos teatros da Inglaterra estavam fechados por medidas sanitárias, fazendo com que Shakespeare não pudesse se apresentar com sua companhia teatral. Ele se aproveitou disso para escrever. Foi nesses anos que produziu alguns dos seus maiores clássicos: Antônio e Cleópatra, Rei Lear e Macbeth.
Vamos ao texto de Cohen?
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A pestilência infecciosa reinou
Como a praga devastou o mundo de William Shakespeare e inspirou seu trabalho, de Romeu e Julieta a Macbeth
Traduzido livremente por mim da Revista Slate
Texto original de Ben Cohen
Num dia de verão em 1564, o aprendiz de um tecelão morreu em uma pequena vila no interior da Inglaterra, uma tragédia local que foi imortalizada nos registros da cidade. Ao lado do nome do aprendiz, foram escritas três palavras ameaçadoras em latim: “Hic incipit pestis” (Isso inicia pestes).
A epidemia destruiu uma porção considerável da vila. Sobreviver foi aparentemente uma questão de sorte. A praga poderia dizimar uma família e poupar a família ao lado. Em certa casa, numa rua chamada Henley Street, por exemplo, havia um jovem casal que já havia perdido dois filhos devido às ondas anteriores da peste, e seu filho recém-nascido tinha três meses quando eles trancaram as portas e janelas para tentar impedir que a praga invadisse sua casa novamente. Eles sabiam, por infelizes experiências, que os bebês eram especialmente vulneráveis a essa doença. Entenderam muito bem que seria um milagre se ele sobrevivesse. Era como se eles estivessem jogando uma moeda num cara ou coroa, apostando a vida de seu rebento. Mas quando a peste foi embora naquela pequena vila no interior da Inglaterra, chamada Stratford-upon-Avon, o casal deu um suspiro de alívio por seu filho ainda estar vivo. O nome dele era William Shakespeare.
Existe a possibilidade de Shakespeare ter desenvolvido imunidade em razão de sua exposição quando criança, mas essa especulação começou apenas séculos mais tarde e somente porque a peste foi um incômodo constante para Shakespeare. “A peste foi a força mais poderosa que moldou sua vida e a de seus contemporâneos”, escreveu Jonathan Bate, um de seus biógrafos. As epidemias eram naturalmente um assunto tabu na sociedade da época. Mesmo quando as pessoas só pensavam a respeito dela, ninguém falava a respeito. E os londrinos iam aos teatros da cidade para que pudessem esquecer temporariamente do medo.
Mas a peste também era uma arma de Shakespeare. Ele não a ignorou. Ele a usou.
Um exemplo deste curioso fenômeno é Romeu e Julieta. É basicamente impossível apreciar a natureza verdadeiramente louca dessa peça quando você a lê pela primeira vez. Então vamos apontar alguns detalhes agora. Você provavelmente se lembra do básico da trama: Romeu e Julieta nascem em famílias rivais; Romeu e Julieta se apaixonam; Romeu e Julieta morrem. Mas você se lembra como isso acontece? Talvez não. E você sabia que a peste é o que acaba separando Romeu e Julieta? Aposto que não lembra.
Há outra morte no 3º Ato de Romeu e Julieta, um assassinato. Romeu mata Tybalt, primo de Julieta. Isso é um problema, porque não somente porque a família de Romeu é inimiga jurada da de Julieta, mas porque, como consequência, Romeu é banido de Verona. Julieta não sabe o que fazer. Quando ela conversa com Frei Lourenço, ele decide que há uma maneira de acabar com a rixa entre as famílias: ele casará Romeu e Julieta. E traça um plano que exige que Julieta tome uma poção que a faça dormir por tanto tempo que sua família achará que ela está morta. Ao mesmo tempo, Lourenço escreverá uma carta para Romeu explicando o esquema preparado. Frei João entregará essa carta a Romeu na cidade de Mântua, onde ele está agora. Romeu voltará furtivamente e roubará Julieta para que eles possam se casar e viver felizes para sempre.
Era um plano absolutamente maluco que funcionará pessimamente — mas não pelas razões que você poderia esperar. Julieta bebe a poção. A família dela acha que ela está morta. Romeu volta furtivamente para vê-la. Por enquanto, tudo bem. Mas a parte mais confiável desse plano ridículo não funciona: Frei João nunca chega a Mântua e, assim, a carta de Frei Lourenço nunca chega a Romeu. O que acontece a seguir é uma série de eventos altamente infelizes. Romeu acha que Julieta está morta. Ele se mata. Julieta acorda de sua falsa morte e descobre que Romeu está morto de verdade. Ela se mata.
Vamos retroceder algumas cenas e ler como Frei João explica a Frei Lourenço o motivo pelo qual ele nunca chegou a Mântua. (Eu, Milton Ribeiro, reli na tradução de José Francisco Botelho e copio aqui para vocês). A conversa deles revela como o esquema se desfez.
FREI LOURENÇO
Vens de Mântua. E Romeu, o que nos diz?
Se ele escreveu, me entregue sua carta.
FREI JOÃO
Eu fui atrás de um outro irmão descalço,
Da nossa Ordem, pra me acompanhar
Na visita aos doentes da cidade
Fui atrás e encontrei, mas a patrulha,
Foi à casa onde estávamos, nós dois,
Suspeitando que a praga ali imperasse,
Selou as portas, nos prendeu lá dentro,
E, por isso, eu não pude ir a Mântua.
FREI LOURENÇO
E quem levou a carta até Romeu?
FREI JOÃO
Eis a carta. Não pude enviá-la,
Nem buscar mensageiro que a trouxesse,
Tamanha era a suspeita de contágio.
FREI LOURENÇO
Acidente infeliz!
Por que Frei João não entregou a carta de Frei Lourenço a Romeu? Porque ele ficou preso em QUARENTENA. Deste modo, Romeu e Julieta foram indiretamente atingidos pela peste. A praga é a reviravolta que transforma a mais famosa história de amor já contada em uma tragédia.
Toda a peça desemboca e gira em torno dessa cena final. Talvez você não lembrasse de como a praga criou a tragédia final. Shakespeare foi propositadamente discreto. Ele escreveu em linguagem velada, mas o subtexto era óbvio na época. Ele não precisava explicar o assunto. Mencionar a praga era o equivalente shakespeariano de terminar um tweet com ridículo emoticon. Não havia necessidade de qualquer tipo de explicação adicional. “A peste era onipresente”, diz James Shapiro, professor da Universidade Columbia. “Todo mundo na época sabia exatamente o que essas uma ou duas linhas significavam.”
Aquele que seria o balcão de Julieta em Verona | Foto: Wikipedia
Mas como Shakespeare usaria a praga mais tarde em sua vida?
Estudiosos acreditam que Shakespeare escreveu Rei Lear, Macbeth, e Antônio e Cleópatra em poucos meses entre 1605 e 1606. O consenso era o de que Shakespeare escrevia duas peças por ano, mas isso é dito por estudiosos de literatura nada estatísticos. Eles chegaram a esse número simplesmente dividindo o número de peças que ele escreveu pelo número de anos produtivos. Deu duas por ano. Segundo estes cálculos, se Shakespeare escreveu 10 peças em cinco anos, escreveu duas peças por ano… Bobagem, isso não é nem remotamente verdade.
Acontece que “Shakespeare não era um conta-gotas teatral, ele escrevia em espasmos, em grupos”, diz Shapiro. “Foi algo que demorei um pouco para entender, simplesmente porque eu sempre acreditei nas alegações infundadas de que ele produzia duas peças por ano. Mas nunca foi o que ele fez. Shakespeare escrevia em surtos de criatividade. Suas peças não foram espalhadas de forma homogênea ao longo de sua carreira. Elas vinham agrupadas. “E quando você começa a ver essas peças realmente agrupadas, começa a perguntar: o que explica tantas peças em um período muito curto de tempo?”
Ora, a peste. A praga fechou os teatros de Londres e forçou a companhia de atores de Shakespeare, os King’s Men, a serem criativos em suas apresentações. Enquanto viajavam pelo campo inglês, parando em cidades rurais que não haviam sido atingidas pela praga, Shakespeare notou que escrever era uma melhor utilização de seu tempo. “Isso significava que seus dias eram livres pela primeira vez desde o início da década de 1590”, escreveu Shapiro em seu livro The Year of Lear: Shakespeare in 1606, o melhor relato desse momento estranho em sua vida.
Além disso, Shakespeare também se beneficiou da praga por um motivo do qual não tinha controle: ela dizimou a concorrência que permaneceu em Londres… Os King’s Men acabariam recuperando seus espaços de teatro por causa da doença que atacava mais os jovens. A praga criou a circunstância que fez explodir o talento de Shakespeare, primeiro ele escrevia durante o dia nas viagens para fugir da peste, depois voltou e viu o campo livre . E ele tinha com ele Rei Lear, Macbeth e Antônio e Cleópatra.
“Três tragédias realmente extraordinárias”, diz Shapiro. “Estou sempre interessado em como e porque essa coisa misteriosa aconteceu. Shakespeare entendeu completamente o mundo em que estava e era capaz de falar com ele e por ele!”. Muitas vezes, é tentador para os estudiosos examinar determinados momentos da carreira de Shakespeare através das lentes de sua vida pessoal. O problema com essa linha de pesquisa é que eles ainda não sabem muito da vida do Bardo. “Não temos ideia do que ele estava sentindo”, escreveu Shapiro em seu livro. “Sabemos muito mais sobre como uma visita de roedores em 1606 alterou os contornos da vida profissional de Shakespeare, transformou e revigorou sua companhia de teatro, prejudicou a concorrência e mudou a composição do público para quem ele escreveria (e, por sua vez, os tipos de peças que ele poderia escrever).
Shakespeare não era um escritor com um metrônomo na mão. Ele era participante de sua época. Estava envolvido pelo ambiente. E escrevia em surtos de criatividade. E esses surtos eram possibilitados pelo que ocorria lá fora. Eram forças além de seu controle. Foi por causa da praga que ele conseguiu transformar um período de grande convulsão social em algo completamente diferente: num arrebatador nível artístico cujo brilho dura até nossos dias.
Gerárd de Cortanze é um biógrafo de Frida Kahlo. Quando este livro, cujo título original é Los amantes de Coyoacán, foi lançado, ele disse ter feito um enorme trabalho de pesquisa, tornando-se uma espécie de Sherlock Holmes da relação entre Frida Kahlo e Leon Trótski, rastreando todos os números e provas, comparando dados e informações. E completou dizendo que tudo o que “afirmo e escrevo é justo e verdadeiro. A imprensa da época, testemunhos, os diários íntimos, as memórias, usei tudo para contar essa história.”
Ele denomina a obra de romance, mas a parte romanceada serviu apenas para corrigir dúvidas que os documentos deixaram vagos e para preencher e ligar cenas.
Trótski chegou ao México após oito anos de exílio. Ele era perseguido tanto por Stálin como pelos fascistas. Foi ao país a convite do pintor Diego Rivera, na casa de quem se hospedou. Ao chegar com a esposa Natalia, foi recebido pela mulher de Rivera, Frida. Trotski jamais tivera contato com uma mulher assim — inteligente, saltitante, sorridente e, principalmente, livre. A paixão foi imediata. A bissexual Frida logo atacou, atraindo-o para sua cama na Casa Azul, onde vivia desde a infância. O marido de Frida, Diego Rivera, tinha vários casos, um deles com a cunhada, Cristina. Para se vingar, Frida passou a encontrar Trótski no apartamento da irmã. Por fim, separou-se de Diego.
O livro humaniza duas importantes figuras históricas que costumavam trocar bilhetinhos de amor dentro de livros. Frida, sempre corajosa. Leon, apaixonado, mas sem nenhuma intenção de abandonar a esposa. O casal também podia se disfarçar para fugir dos seguranças em cenas nada engrandecedoras. Trótski diz que com Frida viveu seu grande amor. Feliz, Frida produz muito naquele período de paixão. Achei muito divertidas as cenas com o ultra chato surrealista André Breton.
Bem contextualizado, o romance mostra não somente um caso amoroso, mas como o marxismo era visto e combatido na época. Quase todos os intelectuais eram comunistas cindidos entre os campos stalinista e trotskista.
O livro não é uma obra-prima, mas eu curti.
Frida Kahlo e o líder comunista americano Max Schachtman (à direita) recebem Leon Trótski e a mulher, Natalia Sedova, no porto de Tampico, México, em 8/1/1937.
No final do ano passado, A Barata foi o livro da hora na Inglaterra. Ou foi o livro do desespero de McEwan com uma irreflexão coletiva, o Brexit. Claro que a pandemia deixou o livro na poeira. Ou não. Na cena mais inacreditável da novela (102 páginas), o primeiro-ministro inglês, a ex-barata Jim Sams, ouve sua análoga alemã (Angela Merkel?) perguntar:
— Por que o senhor está fazendo isso? Por que, com que objetivo está despedaçando sua nação? Por que está impondo essas exigências a seus melhores amigos e fingindo que são seus inimigos? Por quê?
E a resposta, meio constrangida, é:
— Porque sim.
A Barata começa como um inverso de A Metamorfose, começa com uma barata que se vê transformada em homem. Este é Jim Sams, barata que encarna no primeiro-ministro britânico. Depois de adaptar-se ao novo corpo, Jim leva a sério seu papel e sai-se muito bem na luta para implementar uma política econômica baseada em uma ideia ridícula, o “reversalismo”. Essa coisa faz com que o fluxo de dinheiro seja invertido. Por exemplo, o reversalismo faz com que as pessoas paguem para trabalhar e ganhem dinheiro ao consumir. Isso entusiasma as massas mais tolas. Jim sabe que é puro populismo e que é ruim para todos, mas trata de levar em frente a ideia, para felicidade do presidente dos EUA, um cara grosso que ama o Twitter.
O livro fala de populismo, linchamentos pela imprensa, anseios nativistas, amor a si mesmo e à terra e sangue, ignorância às mudanças climáticas, etc.
A ideia é boa e muito calcada na realidade, o que talvez torne o livro datado. Mas não o chamaria de panfletário em razão da alta qualidade da prosa de McEwan.
Bom mesmo é o posfácio, onde McEwan deixa claro seu horror e sobra pra todo mundo, até para o Brasil. É lá que está a chave para o entendimento da novela: está no parágrafo que começa assim: “O populismo, desconhecendo sua própria ignorância…”.
Mais um bonito livro da finada CosacNaify. Este é de 2012 e seus dois pequenos volumes vinham enrolados numa imensa folha de um jornal de São Petersburgo de 1836. Era realmente uma obra de arte (veja foto ao final da resenha para entender como os dois pequenos volumes vinham acondicionados). Um dos volumes era o muito cronístico Notas de São Petersburgo de 1836 e o outro — um pouco maior e bonito — era Avenida Niévski.
Avenida Niévski conta o cotidiano desta que é a rua principal de São Petersburgo e aparentemente um dos grandes amores de Gógol. O que é retratado no conto é cotidiano da rua, com seus horários, características, casas comerciais, governamentais e praças, para depois focar-se em dois personagens.
O primeiro é o jovem pintor Piskarióv. Ele vê uma linda mulher caminhando pela avenida e a segue. Ele nota que ela incentiva sua aproximação e fica louco de amor. Mas ambos, em vez de chegarem a uma casa respeitável onde a donzela mora com os pais, vão dar num puteiro chique. Só que o encanto da moça não abandona Piskarióv. Sob o efeito do ópio, ele a imagina virtuosa e vai procurá-la. Paramos por aqui.
O segundo é o tenente Pirogóv, um oficial russo também fisgado pela beleza de uma moça, que descobre ser casada com um artesão alemão. Mesmo assim, ele — extremamente confiante e vaidoso — vai atrás. E, novamente, paramos por aqui.
A fim de nos dar a impressão de estarmos passeando pela Niévski, as páginas do volume são divididas pela metade, em duas partes. A de cima com as letras normais e a de baixo com letras de cabeça para baixo. Assim:
Então, lendo a parte de cima, a gente vai toda a rua por uma calçada, chegamos ao final, viramos o livro e voltamos pela outra calçada, se me entendem. Tudo isso acompanhado de desenhos da própria avenida. Como eu disse, este livro é um objeto de arte.
O outro volume, Notas de Petersburgo de 1836 é um retrato comparativo da vida cultural de Moscou e São Petersburgo da época, com grande foco no teatro. É bastante interessante. São cidades muito diferentes. Em gostos, nas ocupações, divertimento, posturas, vaidades…
Leitores de todo o país estão recomendando livros, enquanto editores, escritores, livrarias e bibliotecas tentam manter a alegria na vida das pessoas
Massimo Carlotto — no The Guardian (tradução minha)
A neve cai nos telhados. O silêncio é sinistro. Apenas alguns dias atrás, este campo montanhoso na fronteira com a Áustria estava cheio de turistas. Agora está quase deserto. Suas estações de esqui, hotéis e restaurantes estão fechados. Geralmente atravessamos a fronteira para fazer compras e encher nossos tanques com gasolina que custa menos e é de melhor qualidade, mas agora a alfândega austríaca recebeu ordem de fechar. Não é mais possível passar. Não moro neste vale, mas tenho uma casa aqui para onde fujo quando preciso de paz para me concentrar na escrita — geralmente quando estou atrasada para o prazo de um romance e meu editor está começando a se preocupar. Mas agora eu prefiro ficar aqui. Não apenas porque o contato com outras pessoas é mínimo, mas porque eu quero assistir o que está acontecendo da distância certa. O coronavírus está mudando a imaginação coletiva dos italianos e nós, escritores, devemos estar em condições de registrá-lo. Eu assisto Pádua, minha cidade, via webcam. As belas praças estão desertas. Finalmente, as pessoas estão aceitando a gravidade da situação.
O bloqueio é absolutamente necessário: o sistema nacional de saúde não consegue acomodar o grande número de pacientes em terapia intensiva. A Itália está pagando o preço por cortes. Felizmente, porém, o governo teve a coragem de tomar medidas drásticas em um país que está culturalmente acostumado a interpretar regras com certa elasticidade. Parte da população, confinada em suas casas, está exalando sua ansiedade e frustração nas mídias sociais e houve incidentes como assaltos no supermercado. Mas celebridades e estrelas do esporte se uniram em uma campanha de divulgação chamada #IStayAtHome. A mensagem deles é insistente: não saia de casa.
O establishment cultural se mobilizou contra o medo: escritores, músicos, artistas, mas também editoras, livrarias e bibliotecas públicas. Todos se empenham em tornar este lar forçado menos triste e difícil.
O fechamento das livrarias foi um golpe para o mercado editorial, que está sendo mantido pelas vendas on-line, mas os leitores tomaram a iniciativa, desenvolvendo maravilhosas listas de leitura boca a boca, destacando clássicos esquecidos e autores de pequenas editoras. Houve uma ênfase em romances que se passam em momentos difíceis da história, de A Peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.
O bloqueio deve se tornar uma ocasião para reflexão coletiva, não apenas sobre nossos próprios medos, mas também sobre grandes temas sociais, como a solidão — um dos grandes problemas, que o vírus tornou ainda mais doloroso. Solidão não faz diferença de idade ou classe social; aqueles que sofrem com isso precisam de apoio concreto e consistente, mantido ao longo do tempo. O tempo do vírus é uma página na história da Itália; está sendo escrito por muitos, com tragédias e uma miríade de exemplos práticos de solidariedade.
Quando Adam e Evelyn inicia, estamos em 1989 em algum lugar da Alemanha Oriental. Adam é um cara de uns 30 anos que ganha a vida como alfaiate. Muito bom em seu ofício, deixa deslumbrantes mulheres comuns. É considerado por elas um artista e isso lhe traz uma satisfação tranquila. Vive satisfeito.
Sua namorada, Evelyn, tem aspirações mais vagas e acaba de demitir-se do local onde era garçonete. Eles talvez estejam apaixonados, mas Evelyn pega Adam literalmente sem calças, aceitando agradecimentos excessivos de uma cliente. Ela faz as malas e some.
A sonhada viagem de férias do casal ao paradisíaco lago Ballaton, na Hungria, cai por terra, mas eles acabam empreendendo a jornada ao país vizinho separadamente. Evelyn pega carona no Passat vermelho de um amigo da Alemanha Ocidental, enquanto Adam os segue em seu velho carro. A empreitada acaba tomando dimensões maiores quando as fronteiras da Hungria se abrem para o Ocidente e o muro de Berlim cai. Ingo Schulze cria aqui uma bonita história de amor encenada nos últimos suspiros da República Democrática Alemã e acompanha a entrada traumática deste casal em crise num mundo totalmente novo.
O que Adam empreende não é bem uma perseguição, porque ele não é nada agressivo nem insistente, apenas fica por ali pois a quer de volta e a negativa dela não é assim tão definitiva.
Na Hungria, eles estão indo para uma reconstrução bastante espetacular.
Durante a colorida viagem, ambos atraem amigos — ou admiradores. Evelyn inicia amizade com um cara chamado Michael (o dono do Passat), um sujeito esperto que Adam odeia. Michael quer Evelyn, que falsamente protesta que nada poderia estar mais longe da verdade. E há uma garota chamada Katja que faz amizade com Adam.
Ambos viajam carregados de coisas como mapas, passaportes de um país em extinção e, curiosamente, uma tartaruga. Eles se esforçam para obter os documentos para entrar na Hungria, mas esses documentos não são necessários. “Eles abriram a fronteira, algumas centenas de pessoas correram para lá e foram embora”, diz Katja. Aliás, Katja já arriscou a vida tentando atravessar o Danúbio a nado, só que aqui estamos quase no terreno da comédia romântica, então não há nada trágico na tentativa. A verdade é que ninguém sabe qual fronteira é melhor atravessar ou para onde ir. Só Adam quer voltar, os outros aspiram a doce vida ocidental.
Enquanto isso, Adam e Evelyn entram em intermináveis sessões de discussão. Quem é mais infiel? Mais sério? Mais divertido? Mais atrativo? Eles ficam em pousadas e com amigos aqui e ali. Lá pelo meio do livro notamos que eles realmente não querem ir para casa, nem têm mais certeza de onde fica sua verdadeira casa.
Adam voltará a ter uma carreira satisfatória? De que serve um alfaiate no Ocidente?
A história é ótima, com muitos diálogos. Porém, por detrás do ritmo alegre se encontram vidas sem rumo. É clara a intenção de Schulze de nos mostrar que Adam e Evelyn são como Adão e Eva de um novo mundo. Ele até encontra uma Bíblia num quarto de hotel e lê para ela a cena da maçã, da serpente, de Deus, etc. Ela fica pasma de como um adulto pode acreditar naquela baboseira, mas Schulze usa e abusa da história como metáfora.
Bom e despretensioso livro.
(Dizem que a obra-prima do autor é Vidas Novas, que também foi publicado pela defunta CosacNaify).
O Oficial de Justiça toca a campainha e aguarda. A porta da casa é aberta:
– Bom dia.
— Bom dia.
– Eu procuro pela senhora Alexandra Linden Silva.
– Sou eu mesma.
– Sou o Oficial de Justiça Luiz Cunha e trago uma intimação para a senhora. Trata-se de uma ação impetrada por Olavo Carvalho Silva.
– Meu marido!
– Seu marido?
– Sim. Ele está no trabalho. Deve haver algum engano.
– Não, o nome é este mesmo. Exatamente, Olavo Carvalho Silva contra Alexandra Linden Silva.
– Estou pasma. Cada uma…
– É isto mesmo. Olavo Carvalho Silva processa Alexandra Linden Silva por danos morais.
– Danos morais? Que loucura! Que danos?
– A senhora tem que abrir o envelope e verificar.
– Eu não. Abra o Sr.
– Eu não posso.
– Pode sim, o senhor não é maneta, abra e leia!
– Bem, eu não devo fazer isso, mas vá lá. Bem… Ele lhe acusa de ter fingido orgasmos por 24 anos…
– …
– … e que ficou com graves problemas psicológicos ao descobrir. Teme que sejam irreversíveis.
– Mas ele dormiu comigo hoje!
– Bem, diz aqui que sofreu tal decepção, frustração e choque que não consegue mais.
Alexandra começa a chorar. O Oficial de Justiça olha para os lados. Ela o convida para entrar. Sentam-se na sala e ela continua:
– Danos morais? Por que não pediu separação?
– …
– Bom, é que não fazemos há algum tempo. Mas eu não sabia de maiores problemas.
– Ele pede uma indenização para se recuperar e recomeçar nova vida.
– Recomeçar? Ele é um velho! Tem 62 anos e quatro filhos!
– Eu mesmo tenho 59.
– Desculpe. Mas somos uma família evangélica e não haverá separação.
– Isto é com vocês.
– O que o Sr. acharia se recebesse uma intimação dessas?
– Eu não receberia, minha senhora.
– Ah, é? Você tem uma varinha de condão?
– Não, minha senhora. Sou normal… Eu e minha esposa nos entendemos.
– Você consegue segurar?
– Quase sempre.
– Quanto tempo?
– Nunca cronometrei, minha senhora, mas minha esposa é rápida.
– Rápida? E eu devo ser lenta, não?
– Eu não disse isto, Dona Alexandra, repito, eu não disse isto. E mais: eu nem deveria estar tendo esta conversa com a senhora. Eu só entrego papéis e colho assinaturas.
– Mas agora EEEEEUUU quero conversar e não assino este papel sem que o senhor me diga.
– Diga o quê?
– Olhe, eu sou católica desde pequena, depois virei evangélica, tinha vergonha até de olhar para minhas partes íntimas. No banho, só lavava. Não aprendi a me conhecer. Aquilo era para meu futuro marido. Nunca me masturbei.
– Bem…
– Quando casei, foi uma decepção. Ele vinha e me comia, só. Depois, comecei a fingir orgasmos e ele ficava satisfeito, todo pimpão. Comecei a fingir sempre; para apressar, entende? Tivemos quatro filhos.
– Neste caso…
– Aí, alguns dias atrás, quando minha filha mais velha começou a transar com o namorado e anunciou a todos, falei num jantar que não via graça naquilo, que era um sacrifício.
– Sim.
– Aí, naquela noite, o Olavo resolveu me comer e perguntou se eu não estava achando bom. O Olavo movimentava os quadris e perguntava “Você não gosta, Alejandrita? Vai dizer agora que é um sacrifício?”
– E aí?
– Disse-lhe que não gostava daquilo. Que tinha fingido sempre. E que sempre dera graças a Deus quando chegava no quarto e ouvia seu ronco. Ele broxou.
– Aí está o motivo da frustração, da mágoa e da depressão de seu hom… de seu marido, minha cara senhora.
– Depressão? Quem falou em depressão? Você é Oficial de Justiça ou psiquiatra?
– Oficial de Justiça.
– …
– …
– E então? Não gostaria de tentar?
– Tentar?
– Sei lá, tentar comigo. Talvez minhas dificuldades estejam ligadas a esta coisa de pele, de cheiro. As revistas falam nisso. Sou de origem alemã, o Olavo veio de Portugal, você tem carinha de judeu. Alemães e judeus, sei lá.
– Minha cara senhora, eu só vim aqui colher sua assinatura.
– Pois, meu prezado senhor, vou lhe dizer uma coisa: olhe, sinceramente, eu acho um absurdo alguém trazer à baila um problema e nem tentar resolvê-lo…
– Não é problema meu.
– Você entra em minha casa,…
– A senhora…
– …senta no meu sofá…
– …é uma histérica!
– …e nem quer conversar. Venho de uma família de posses, temos um tabelionato, posso colocá-lo lá. Você gosta do serviço burocrático, gosta de carimbos, não? Não quer ir lá brincar com eles? Ou aqui em casa?
– Eu preciso apenas de sua assinatura.
– Os burocratas não têm fetiche por carimbos? Você não quer me carimbar? Chega do Olavo, ele é insatisfatório, entende?
– Senhora! A senhora perdeu o controle!
– É exatamente o que preciso. Perder o controle… Me abandonar…
Alexandra olha para o vazio e diz:
– Está na hora de me separar mesmo. Os filhos estão grandes, ao menos serei autêntica!
– Assine aqui, por favor, e eu vou embora.
– Depois.
– A senhora não pode negar-se. Posso pedir à polícia para levá-la à força ao tribunal.
Ela olha ironicamente para o Oficial e pergunta:
– Quantos virão aqui? Os policiais são jovens? Se forem, quero muito ser levada.
– Assine logo, por favor!
– Está bem.
– Aqui.
– A tinta me excita.
Ela assina, torna-se imediatamente séria e aponta a porta ao Oficial.
– Tenha um bom dia, Dona Alexandra.
– Arrã, terei. Vá, vá!
Eu adoro os pequenos livros de Alessandro Baricco. Três vezes ao amanhecer (Alfaguara, R$ 39,90) pode ser lido em uma sentada (ou deitada) e é entusiasmante, de deixar feliz mesmo. São três histórias que ocorrem ao amanhecer, claro. A primeira é sobre um homem solitário que conversa com uma mulher no saguão de um hotel, ela o convence a fazer certas coisas. A segunda é a respeito de um porteiro idoso que tenta persuadir uma adolescente muito louca a abandonar o namorado violento. E a terceira é a linda história de uma policial de meia-idade que decide levar um menino órfão até a casa do homem que ama e que não vê há anos.
As histórias são habilmente entrelaçadas, os diálogos são rápidos, com alternância entre os discursos direto e indireto. São descritos três fatos onde os personagens dão de cara com a possibilidade de alterar o rumo de suas vidas ao amanhecer.
Três vezes ao amanhecer era um livro imaginário, criado em outro romance de Baricco, Mr. Gwyn. Perto do final de Gwyn, há uma discussão sobre um livro intitulado Three Times at Dawn, atribuído a Akash Narayan. Como a nota inicial sugere, Three Times at Dawn é o trabalho que o escritor ficcional Jasper Gwyn achou mais difícil de abandonar…
Três vezes ao amanhecer foi escrito por Baricco aparentemente após Mr. Gwyn, mas não há maiores ligações os ou continuidade entre os dois livros. São obras independentes.
Como escrevi no início, o livro é formado por três episódios separados, mas eles são conectados por intervalos de tempo bastante longos. Cada parte centraliza-se em um encontro entre uma figura masculina e feminina. Outras figuras também aparecem, mas são incidentais. Um dos personagens está de alguma forma fugindo, às vezes sem ser encorajado, outras vezes sendo trazido à segurança.
O primeiro encontro acontece no saguão de um hotel, com uma mulher entrando ali nas primeiras horas da madrugada e encontrando apenas um homem sentado, esperando a hora de sair para uma importante reunião de negócios. Ela parece ter se divertido um pouco demais à noite e puxa conversa, encontrando uma série de desculpas para mantê-lo ali. É um episódio que tem uma conclusão muito inesperada, com o encontro adquirindo uma natureza muito diferente daquela que fomos levados a acreditar. A primeira história fica um pouco mais explicada no episódio seguinte, que ocorre muitos anos antes e que começa com outro encontro no lobby do hotel nas primeiras horas do dia.
Não são exatamente os “retratos” que se poderiam esperar que Gwyn tenha escrito… “Você teria se esforçado para descobrir a história, vendo-a”, observa Baricco enquanto um dupla de personagens caminha nas primeiras horas da manhã. Sempre inteligente e sutil, Baricco nos apresenta os detalhes certos para que as peças se encaixem, aqui e lá adiante.
O Massacre de Babi Yar foi um enorme fuzilamento em massa conduzido pelos nazistas, durante a ocupação de Kiev na Segunda Guerra Mundial. A parte mais sangrenta do episódio aconteceu entre 29 e 30 de setembro de 1941, quando foram fuziladas 34 mil pessoas em 36 horas. Babi Yar é uma ravina existente em Kiev.
Em 28 de setembro, um aviso foi afixado nos postes e muros de Kiev, dirigido aos judeus:
Ordena-se a todos os judeus residentes de Kiev e suas vizinhanças que compareçam na esquina das ruas Melnyk e Dokterivsky, às 8 horas da manhã de segunda-feira, 29 de setembro de 1941 portando documentos, dinheiro, roupas de baixo, etc. Aqueles que não comparecerem serão fuzilados. Aqueles que entrarem nas casas evacuadas por judeus e roubarem pertences destas casas serão fuzilados.
Os judeus levados à ravina esperavam ser embarcados em trens. A multidão e a confusão de homens, mulheres e crianças era grande o bastante para que ninguém tomasse conhecimento do que estava para acontecer. Levados para a ravina, todos passavam por um corredor de soldados em grupos de dez e fuzilados. Ao escutarem o som das metralhadoras que matava o grupo logo à frente, não tinham mais como escapar.
Babi Yar, de Anatoly Kuznetsov, é um tremendo romance e documento autobiográfico em que o autor narra suas experiências naquela Kiev. Fica claríssimo contra quem foi e quem ganhou a Guerra. No total, em Babi Yar foram mortas 200 mil pessoas, com esmagadora maioria de judeus. Kuznetsov abre sua obra-prima com o famoso poema de Evgeny Evtushenko — também chamado Babi Yar e que foi musicado por Shostakovich — e que não foi nada apreciado pelos fascistas. Nem pelos soviéticos.
Kuznetsov começou a escrever suas memórias de guerra aos 14 anos, em um caderno. Ao longo do tempo, seguiu trabalhando nele, acrescentando novos documentos e testemunhos.
O romance foi publicado com cortes — feitos pela censura soviética — pela primeira vez em 1966, na revista literária mensal Yunost. Os editores reduziram o livro em um quarto do tamanho original e introduziram material adicional politicamente mais adequado.
Em 1969, Kuznetsov partiu para o exílio — foi para o Reino Unido — e conseguiu contrabandear filmes fotográficos de 35 mm, contendo o manuscrito completo. O livro foi publicado no Ocidente em 1970 sob o pseudônimo de A. Anatoli. Naquela edição, a versão soviética editada foi colocada em fonte normal, o conteúdo cortado pelos editores em negrito e o material recém-adicionado entre parênteses. Uma loucura. No prefácio à edição da editora Posev , com sede em Nova York , Kuznetsov escreveu:
“No verão de 1969, escapei da URSS com filmes fotográficos, incluindo filmes contendo o texto completo de Babi Yar. Publico-o agora como meu primeiro livro livre de toda censura política, e estou pedindo que você considere esta edição de Babi Yar como o único texto autêntico. Ele contém o texto publicado originalmente, tudo o que foi expurgado pelos censores e o que escrevi após a publicação, incluindo o polimento estilístico final”.
O romance começa da seguinte forma:
Tudo neste livro é verdadeiro. Quando contei episódios dessa história para pessoas diferentes, todos disseram que eu tinha que escrever o livro. A palavra ‘documento’ na legenda deste romance significa que forneci apenas fatos e documentos reais sem o menor trabalho de inventar como as coisas poderiam ou deveriam ter acontecido.
Kuznetsov descreve suas próprias experiências, complementando-as com documentos e testemunhos de sobreviventes. A tragédia de Babi Yar é mostrada no contexto da ocupação alemã de Kiev desde os primeiros dias de setembro de 1941 até novembro de 1943.
É também sobre o fato curioso de que um garoto de 14 anos pudesse aparecer em qualquer lugar sem que os adultos — soldados alemães — se importassem especialmente. Por acidente, então, vi o que os outros não tinham permissão para ver. E por acidente, ele sobrevivi à ocupação e vivi para escrever sobre ela.
O capítulo “Quantas vezes eu deveria ter sido baleado” lista 20 razões pelas quais os fascistas deveriam ter atirado nele de acordo com ordens emitidas pelos ocupantes nazistas. Quando fala sobre sua própria família, o autor não se esquiva de criticar o regime soviético.
Uma das partes mais citadas do romance é a história de Dina Pronicheva, atriz do Kiev Puppet Theatre. Ela foi uma das ordenadas a marchar para o barranco. Foi baleada. Gravemente ferida, ela se fingiu de morte sobre uma pilha de cadáveres e, finalmente, conseguiu fugir. Ela foi um dos poucos sobreviventes do massacre. Mais tarde, ela contou sua história a Kuznetsov.
O livro é notavelmente bem escrito. Kuznetsov não usa grandes frases e a indignação é até controlada. As formas de sobrevivência, as formas que a fome pode ter em contraste com um inimigo bem fornido são descritas com riqueza de detalhes.
Lembrei de Bolsonaro e de Guedes neste trecho:
O romance termina com um aviso:
Deixe-me enfatizar novamente que não contei nada excepcional, mas apenas coisas comuns que faziam parte de um sistema; coisas que aconteceram ontem, historicamente falando, quando as pessoas eram exatamente como são hoje.
Só, por favor, não confundam Kuznetsov com Soljenítsin. O primeiro é muito mais escritor. E não é doido varrido.
P.S. — Li na edição portuguesa da Livros do Brasil. Há uma edição brasileira da Civilização Brasileira, publicada em 1969. Acho que ambas as edições são as censuradas pelos soviéticos.
No último sábado, li num importante jornal — importante em âmbito mundial — uma resenha onde o cara utilizava envergonhadamente o pronome pessoal “eu”. Estava ali, nada escondido, até repetido. Aconteceu da argumentação ter sido concatenada de tal forma que ficaria estranho e desonesto escapar do “eu”. O editor deixou passar. Eu acho saudável por dois motivos. Primeiramente porque as avaliações são mesmo pessoais; em segundo lugar por que o texto não adquire aquele ar de lei. Crítica é opinião. Tem o valor de uma opinião. Usar a primeira pessoa é modesto e honesto.
Já certo editor de um jornal cultural — de obscuro âmbito internético — , me deu uma mijada quando fiz o mesmo. Não guardo ressentimentos, mas se rir do fato é guardar ressentimento, guardo sim!
O anjo do avesso (120 páginas) é um bom livro de estreia do carioca Marcos Vasconcelos. O volume alterna contos e crônicas, apresentando rara coerência temática. É uma delícia de livro, daqueles para ser devorado em uma sentada (ou deitada), apesar dos temas. Minha preferência foram para os contos Chinoca, Uma dose de gim e O açougueiro. Sim, todos tratam da morte de diferentes modos. Chinoca é uma engraçadíssima história gauchesca — o autor tem alguma admiração por esta nossa unidade federativa periférica e defunta –, Uma dose trata da emigração e é efetivamente triste e bem contado, enquanto O açougueiro tem original e sanguinolenta poesia. Apenas um dos contos foi absolutamente incompreensível para mim, um desconhecedor de Harry Potter que boiou feio para depois imergir definitivamente em A morte de Lord Voldemort.
Se os três temas fundamentais da boa ficção são o amor, o silêncio de Deus e a morte, Marcos dedica-se aqui à morte. A própria epígrafe do livro já dá a letra:
Começando do fim
ao invés do começo
a Morte é um anjo
do avesso
Mas não pensem em uma atmosfera bergmaniana ou sufocante, e sim numa abordagem mais leve daquilo que seria a Indesejada das gentes.
Recomendo.
Marcos Vasconcelos em foto do Marquinhos, garçom do Tuim.