Um ano de Bamboletras

Um ano de Bamboletras

Hoje, 12 de março, faz um ano de uma de minhas maiores loucuras, a de me tornar livreiro aos 60 anos. Se era um sonho antigo, também era um daqueles que todo mundo tem em devaneios irrealizáveis. Às vezes pensava em me tornar um velhinho de óculos vivendo em meio aos livros… E ia fazer outra coisa. Neste último ano, várias pessoas me cumprimentaram pela coragem. Não me acho corajoso. Apenas corri atrás quando soube que a Lu queria repassar a livraria a quem a mantivesse. E larguei a atividade de jornalista sem olhar para trás. A Elena ri, diz que eu garanti uma terapia ocupacional vitalícia, o ideal para quem nunca pensou em se aposentar. Ela está certa. Mas olha, jamais pensei que desse tanto trabalho. É claro que há uma maioria esmagadora de bonitos momentos atrás do balcão, mas há também um intenso trabalho de retaguarda que aprendi do zero.

Auden escreveu que “Quando o processo histórico se interrompe, quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar”. Talvez por não haver tédio nem horror, apenas necessidade e liberdade, virei livreiro e não dono de bar, sei lá.

A Livraria Bamboletras é um ícone de Porto Alegre. A Livraria Bamboletras é um ícone de Porto Alegre criado com extremo cuidado e carinho pela Lu Vilella. Digo-lhes claramente que virei um livreiro por herança. Tentei preservar o estilo ao máximo, mas inevitavelmente uma nova cara deve ter aparecido.

Sim, nosso acervo é escolhido criteriosamente e não apenas recebido; sim, ficamos felizes quando um cliente retorna e diz que nossa última sugestão foi fantástica e que o livro era ótimo (conhecemos o que vendemos); sim, há muita tensão em razão do mercado instável; sim, as distribuidoras querem nos enfiar best sellers; sim, vocês pedem e a gente vai atrás e muitas vezes dá certo (a gente se orgulha), outras vezes não (contrariedade); sim, estamos com todas as contas em dia mas não pensem que sobra muita coisa (a gente realmente quer ver vocês nos visitando mais, sabe?); sim, coloquei a herança da minha mãe na compra da livraria; sim, ainda estamos pagando a citada ex-dona que deixou a Bamboletras assim tão linda (fazemos isso direitinho); sim, fizemos e fazemos parcerias com escritores, instituições, artistas e bares; sim, vamos atrás dos melhores lançamentos às vezes enchendo o saco de meio mundo (às vezes, receber uma reposição ou livros para um evento mais parece um thriller); sim, visitamos as distribuidoras para escolher as obras uma a uma e… Não, não pretendemos ser menos exigentes.

A Bamboletras não sou eu, é uma equipe. Tem a Bárbara, a Cacá, a Eliane, o Gustavo, a Zair. E durante o ano ainda tivemos a Ana, a Josi e a Vitória. É uma baita equipe e falo da qualidade. Agradeço a todos.

Só não pensem que é fácil. Aliás, qual é o trabalho sério que é fácil? Porém é também divertido, estou muito feliz.

Ah, dia 24 de abril faremos 24 anos sempre independentes e agora, devido à circunstâncias que não vamos citar para não emporcalhar este texto pobre mas limpinho, também resistentes.

Particularmente, agradeço à Elena, à Bárbara, ao Bernardo e à Iracema pelo apoio neste ano e nos que virão.

E também a todos os que nos visitam e que apreciam nosso trabalho.

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Assombrações, de Domenico Starnone

Assombrações, de Domenico Starnone

Eu jamais pensei que este livro fosse de assustar, mas o fato é que ele me envolveu de tal forma — e o caso é tão preocupante — que não consegui largá-lo da metade até o final. Precisava saber o final da história e, bem, ela me ASSUSTOU de verdade. Mas não vou estragar a leitura de vocês contando a trama. Também peço a meu leitor que não reduza Assombrações (Todavia, 184 páginas, R$ 49,90) aos sustos que citei, pois o livro carrega enorme simbolismo e real dramaticidade. Deste modo, sigamos sem spoilers.

Daniele Mallarico é um respeitado ilustrador que já passou dos 70 anos. Vive solitário em Milão, é abastado e está convalescendo de uma cirurgia quando é chamado a cuidar por uns dias de seu neto Mario. Os pais de Mario, Saverio e Betta, filha do ilustrador, passam por um péssimo momento. Saverio é um daqueles ciumentos trágicos que imagina, pensa ou tem absoluta certeza de que a mulher está apaixonada por um poderoso professor do Departamento de Matemática onde trabalham.

Mas o livro gira muito mais sobre a relação entre neto e avô, entre o pequeno ser de quatro anos cheio de energia e o velho debilitado. À carência e à fraqueza de Daniele, Mario responde de forma mimada e descontrolada, típicas da infância super-protegida de hoje. Pior: aos quatro anos, demonstra enorme talento para o desenho, o que perturba o velho ilustrador. Enquanto cuida de Mario, Daniele deve produzir ilustrações para uma edição de luxo de The Jolly Corner, de Henry James. O editor que fez encomenda recebeu os primeiros esboços e está muito descontente, o que faz Daniele pensar que a fonte secou.

Daniele mal suporta o neto que parece saber tudo sobre a casa napolitana onde mora e que é a mesma onde passou sua infância. “Eu copiei do vovô”, é a última frase do livro. O inferno de Assombrações está nos detalhes de uma narrativa onde o velho busca um impossível acordo com suas opções e ambições.

Infância, decrepitude, inadequação, raiva, desconforto, inveja. Starnone é um mestre que faz com que grandes temas fluam através da descrição de pequenas ações cotidianas.

Recomendo muito.

Domenico Starnone

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O Capote & O Retrato, de Nikolai Gógol

O Capote & O Retrato, de Nikolai Gógol

Sem jamais perder sua gloriosa e característica verve humorística, Gógol faz de O Capote uma obra-prima de compaixão humana para com a pobreza e a falta de perspectivas de outrem. “Todos nós descendemos de O Capote“, afirmava Dostoiévski. Otto Maria Carpeaux escreveu, concordando com Dostô: “Gógol é o fundador da grande literatura russa do século XIX. Do Capote descende toda aquela literatura de compaixão algo sádica de Dostoiévski e a sensibilidade cinzenta de Tchékov que, assim como o próprio Gógol, chorava por trás do riso do humorista”.

Sem spoilers. O Capote narra a história de Akaki  Akakiévitch, funcionário público em São Petersburgo. O protagonista é um solitário e  copista de processos que vive para seu trabalho mas que é alvo das brincadeiras de seus colegas em razão de seu casacão — o tal capote — gastíssimo e puído. Ele passa frio com ele durante o inverno. É claro que não contarei o restante da ótima história.

A novela O Retrato é menos conhecida, mas não é muito inferior, não. Tchartkov é um pintor em início de carreira que se vê pressionado por dívidas e está sob a perseguição do proprietário do apartamento onde mora. Um dia, num mercado, ele adquire por baixo preço uma pintura, um retrato que o deixa muito intrigado. Há ali um olhar perturbador, impossível de não considerar. E ele vai cumprir uma rotina de Fausto. O segundo e esclarecedor capítulo é extraordinário.

Recomendo.

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Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane

Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane

Este livro foi um presente de um leitor deste blog e amigo meu do Facebook. Jonas Fernando Pohlmann é um gaúcho e colorado de Ijuí que mora em Maputo, Moçambique. Como a maioria dos que leem este blog, Jonas é uma pessoa altamente qualificada, tendo estudado na Ufrgs e na London School of Economics and Social Science.

Já Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, em 1990. Suas histórias têm gerado discussões em um país que pratica a poligamia. É o caso de Balada de Amor ao Vento.

A história do amor de Sarnau e Mwando é longa e cheia de reviravoltas dentro do contexto do sul de Moçambique. Não vou contar tudo, claro, só que Mwando queria ser padre, mas também desejava Sarnau e, por isso, acabou expulso do seminário. Ela engravidou e ele a rejeitou, pois seus pais tinham-lhe arranjado outro casamento. O casamento é infeliz e ele tenta voltar para Sarnau, que já era uma das esposas do chefe local. E mais não conto.

Para a compreensão completa do livro é importante saber o que é o lobolo. Lobolo é um costume cultivado até hoje no sul de Moçambique. Segundo esta tradição, a família da noiva recebe dinheiro pela perda que representa o seu casamento e a ida para outra casa. A cerimônia consiste numa oferta de bens — gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros — à família da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família do homem. Por esse motivo, aos olhos ocidentais e dos colonizadores portugueses, a mulher estaria a ser vendida. O dote oferecido serve de fundo para a família da moça. E também como um seguro, pois para anular a união seria necessária a devolução do dote… Imaginem o problema de uma mulher querer se separar: isto obriga sua família a devolver o dote ao seu esposo. Assim funciona o lobolo.

A história de Sarnau e Mwando faz-nos pensar. Ela gira e espreme algumas tradições, dando-nos uma visão clara do que representa a poligamia —  e até dando algumas vantagens a ela quando diz que é uma forma do pai jamais deixar os muitos filhos abandonados –, mas sempre deixando claro que é uma vida insatisfatória para a mulher — brigas, ciúmes entre as esposas, tudo pela atenção do homem — e que garante a inteira supremacia do homem.

A prosa de Paulina Chiziane é leve, fluida e colorida. Não pense que ela discute o lobolo, a pobreza e o colonialismo através de teses ou discursos. SE fosse assim, o livro perderia muito de sua força. Ela apenas demonstra as situações e é brilhante nisto.

Recomendo.

A escritora moçambicana Paulina Chiziane.

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Chiclete

Chiclete

Era um problema. Um pequeno grande problema. Não, era um grande problema. Simplesmente, ele não tinha dinheiro para comprar o presente de aniversário para o filho. Ele possuía uma pequena empresa à qual não conseguia dar atenção e havia um acordo do casal: a mulher estava fazendo doutorado — estudava, pesquisava e recebia uma bolsa, enquanto ele cuidava da empresa e das crianças. Júlio levava-as e buscava-as no colégio, ia e vinha, trabalhava apenas até às 16h30, depois saía correndo para pegá-las. Em vários dias de semana, levava-as para almoçar ao meio-dia. Pela manhã, chegava cedo na empresa a fim de organizar as coisas, mas os clientes só chegavam ou telefonavam mais tarde. Os finais de semana também eram passados com os guris. Ele vivia na certeza de que ia falir. Sentia-se como se acelerasse um carro de encontro a um muro, sem conseguir uma forma de desviar ou parar.

Seu sócio já estava atrás de um emprego. Era uma boa pessoa, disse que eles não tinham perfil de empreendedores e que ia embora logo que pudesse.

Ele não podia — ou pensava que não podia — descumprir o acordo com a mulher. Tinha garantido que tirava de letra. Dissera para ela gastar o dinheiro da bolsa com ela mesma e ele arranjaria o resto. Seria briga certa e grave se ele quisesse alterar o acordo. Com a palavra empenhada, escondia as dívidas da mulher — o colégio dos filhos estava com pagamentos em aberto — e tinha vergonha de pedir dinheiro a ela que, além disso, faria perguntas. A situação já perdurava há meses e ela já falara que o salário dele na firma devia ser uma pensãozinha. Ah, se ela soubesse…

Júlio adorava os filhos. Gostava de brincar e de conviver com eles. Esquecia dos problemas na companhia dos filhos. Divertia-os com sua presença. Então, havia uma ilha de pobreza em casa, ilha que ele tratava de esconder sob as névoas da alegria infantil e do bom humor.

Mas como não dar um presente?

No domingo seguinte, ele levou Leo a um jogo de futebol para o qual o menino tinha sido convidado. O pai de um amigo do filho tinha alugado uma quadra de futsal pras crianças. Júlio tinha só o pouco dinheiro do bolso. Os valores no banco, estes só apareciam em algarismos vermelhos. Quando chegaram, Leo pediu para que ele colocasse uma moeda numa máquina que dava em troca uma bolinha transparente. Era uma surpresa. Dentro vinha um chiclete e um bichinho de plástico que quebrava em dois dias. A moeda não mudaria grande coisa da situação, mas mesmo assim Júlio hesitou em gastá-la e o menino deve ter notado.

Então Leo disse:

— Tu não me deu nada de aniversário. Quero isso. Vale como presente.

Recebeu a moeda.

— Taqui meu presente, pai! Achei legal! Guarda pra mim?

Ele foi jogar bola e Júlio ficou na beira da quadra, lutando contra as lágrimas, ainda mais isolado. Sem poder e sem saber como gritar.

(Então, como havia quatro pais assistindo o jogo, Júlio foi convidado a jogar. Dois para cada lado. Os pais não procuravam tirar a bola das crianças, mas enfrentavam-se um ao outro em jogadas gentis, sem nenhum impacto físico. Não queriam machucar um ao outro, tratavam-se com respeito enquanto riam e gritavam como crianças. Júlio era um bom jogador, mas estava desconcentrado, ainda comovido com o gesto de Leo. Foi quando recebeu uma batida de ombro do pai que era o dono da festa. Não foi com força, mas Júlio pensou vou cair e caiu. O outro pediu desculpas e estendeu-lhe o braço, perguntando se tinha se machucado. Não, não foi nada, estou bem.

Júlio foi invadido por um ressentimento avassalador. O cara que lhe derrubara tinha um tremendo carro, esbanjava seu dinheiro para divertir o filho. Os outros dois pais também tinham aquele jeitão de bem-sucedidos. E Júlio deixou de correr, com um azedume tipicamente infantil. Quando cruzou com o pai rico, tentou dar-lhe uma rasteira.

O homem não gostou

)

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O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson

O Médico e o Monstro (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde) é uma novela escrita por Robert Louis Stevenson para o Natal de 1865. Este período é tradicionalmente associado a histórias horripilantes na Inglaterra. Lembram de A Christmas Carol de Dickens e de O Ladrão de Cadáveres do próprio Stevenson? Pois é, são o mesmo tipo de narrativa, mas inferiores em qualidade. A publicação de O Médico e o Monstro acabou adiada para janeiro de 1886. Era uma encomenda, devia ter aproximadamente 100 páginas para custar bem baratinho. O resultado foi espantoso: o livrinho foi um enorme sucesso, vendeu 40 mil exemplares nos primeiros seis meses na Inglaterra, foi lido por todo mundo, inclusive pela Rainha Vitória, influenciou toda a literatura de inspiração gótica de sua época, que costumava usar castelos, épocas e locais remotos como palco de estranhos acontecimentos.

Já a novela de Stevenson era diferente. Tinha sua ação situada na Londres da época, com suas ruas escuras e seu fog. Não havia precedentes de histórias que pudessem acontecer na casa vizinha. Mais: não havia precedentes de histórias relativamente plausíveis. Mr. Hyde não é sobrenatural, não é um monstro, apesar de pisar em criancinhas.

O primeiro rascunho de Jekyll e Hyde foi queimado. A esposa de Stevenson, Fanny, reclamou que a alegoria não era forte o suficiente e simplesmente jogou o manuscrito no fogo. Stevenson ficou de cama por três dias e depois escreveu uma nova versão. Envergonhado, disse que era a pior coisa que tinha escrito, mas Fanny gostou da nova versão. Ela sabia das coisas.

O impacto do romance foi enorme e tornou coloquial a expressão “Jekyll e Hyde” usada para indicar uma pessoa que age de forma moralmente diferente, dependendo da situação. A obra explora brilhantemente não somente o terror e a violência, mas o fenômeno das múltiplas personalidades — ou, no mínimo, do lado escuro, mau e escuso que carregamos.

Ou seja, a novela é uma parábola que assusta não somente por conter acontecimentos extraordinários, mas também por estar muito perto de nossa vida psicológica. Quem não tem um lado escuro que por vezes deseja o mal, quem não peca em segredo? E quem não cultiva uma imagem melhor do que a que vê de si mesmo? Note-se também que a Inglaterra vitoriana respeitava neuroticamente reputações e aparências. E Stevenson nos mostra um médico com um lado indefensável.

Quando a Escócia tinha seu próprio dinheiro, Stevenson estava no verso das notas

Sem spoilers: na narrativa, o advogado londrino Gabriel Utterson investiga estranhas ocorrências entre seu velho amigo médico Henry Jekyll e um certo Edward Hyde. Utterson estava preocupado, pois recentemente seu cliente, o respeitável médico Dr. Henry Jekyll, tornou Hyde beneficiário de seu testamento. Quem seria Hyde?

Alguns dias depois, o advogado consegue se encontrar com Hyde e fica muito impressionado. É um ser repugnante e asqueroso, lombrosiano. Sua simples visão deixa o advogado congelado e enojado. Após um jantar na casa de Jekyll, Utterson discute o assunto com o médico, mas este garante que está tudo sob controle e que não precisa absolutamente se preocupar. Meses depois, numa noite, Hyde espanca um importante membro do parlamento com uma bengala que Utterson presenteara a Jekyll.

E não vou contar o resto.

A narrativa é espetacularmente bem escrita. Seu estilo foi tão copiado, mas tão copiado que parece conter clichês. É claro que há mistério e reviravoltas na luta entre o bem e mal. O palco desta luta é interno, psicológico. Não é uma novela apenas para assustar, ela deixa-nos espreitar que toda pessoa carrega diferentes características dentro de si. Algumas delas são exibidas, outras não.

Recomendo demais.

Robert Louis Stevenson

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Eu não sou médico

Eu não sou médico

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O Outro Lado, de Aldyr Garcia Schlee

O Outro Lado, de Aldyr Garcia Schlee

Dias antes do falecimento de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018), em novembro do ano passado, recebemos na Bamboletras seu último livro, O Outro Lado – Noveleta Pueblera (Ardotempo, 152 páginas). A leitura do livro, realmente muito bom, só pode nos deixar ainda mais tristes pela perda. A primeira coisa que chama a atenção é a linguagem fronteiriça, algo que talvez só se mantenha naquela região. Costumava ouvir muitas daquelas palavras e expressões da boca de meus pais, parentes e amigos. E isso só até os anos 60 ou 70, porque depois parece que fomos invadidos por um dicionário urbano, feio e descolorido. A linguagem utilizada por Schlee é linda, muito influenciada por uruguaios e argentinos.

Schlee foi escritor, jornalista, tradutor, desenhista e professor universitário. Fundou a Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas / UCPel e de lá foi expulso durante o golpe civil militar de 1964. Sua cidade, Jaguarão, é ligada ao Uruguai pela bonita ponte que está na capa de O Outro Lado.

O Outro Lado conta a história de Martita e José Jacinto, personagens humildes em uma paisagem deserta. José Jacinto é um andariego sem paradeiro que gosta mais de pueblos do que de cidades e que vive circulando entre as coxilhas. Martita é a mulher que o espera. É daqueles livros em que delicadas nesgas poéticas giram em torno de um fato muito forte que… não contarei. É um livro é comovente sem ser piegas — ou uma história nada simples de gente humilde. É diferente daqueles livros amalucados de Schlee – também ótimos — sobre Gardel, Jaguarão e Melo, como, por exemplo, O Dia em que o Papa foi a Melo, livro de contos que deu origem ao filme O Banheiro do Papa.

Schlee tem extremo senso de estilo e bom gosto literário. Ele amava o Brasil de Pelotas e o Inter de Porto Alegre. Nossa, foi uma pessoa perfeita, daquelas que estavam lá no topo da evolução.

Recomendo muito.

Aldyr Garcia Schlee | Foto: Gilberto Perin

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Na Crokodilo

Na Crokodilo

Que coisa linda a revista Crokodilo que chegou hoje aqui em casa. Publicação de acabamento e conteúdo de primeira linha — apesar de contar comigo –, é editada por Céllus Marcello Monteiro. Estou acompanhado por um time que me humilha, tão superiores que são. Mesmo.

Foi uma honra participar.

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A Vegetariana, de Han Kang

A Vegetariana, de Han Kang

Em 2016, A Vegetariana venceu o Man Booker International Prize, em cuja lista de finalistas estavam livros de Elena Ferrante, Orhan Pamuk e José Eduardo Agualusa.

No início, A Vegetariana parece ser um romance sobre pessoas absolutamente comuns. Kang brinca de Gógol, ao dizer que Yeonghye era alguém que não tinha nada de especial: não era alta nem baixa, tinha o cabelo nem curto nem comprido, não era atraente nem repulsiva etc. Quando a conhece, o marido pensa que não havia motivo para não casar com alguém tão modesta, silenciosa e comum. Mas um dia ela subitamente decide deixar de comer carne. O marido — também um ser mediano, nem inteligente nem burro, nem bonito nem feio –, acha um absurdo vê-la jogando fora tudo o que tinha de carne na geladeira.

O fato não parece ter grande importância a não ser para o marido, mas leva a vida do quarteto principal de personagens — a vegetariana Yeonghye, a irmã dela e seus maridos — a uma espiral de destruição.

O livro tem três capítulos bastante distintos. O primeiro é narrado pelo marido da vegetariana; o segundo, pelo marido da irmã, que tem enorme tesão por Yeonghye, e o terceiro vem da parte da irmã da vegetariana.

O livro perde muito se for lido como uma história fechada em si, basta erguer os olhos do livro para concluirmos que há muitas referências externas e atuais. Há uma pesada ironia na repetida frase da vegetariana que diz  que “teve um sonho”, frase que ressoa outras vozes ligadas aos direitos civis dos negros americanos. Daí, podemos pensar que ela tem direito a seu próprio corpo e a não aceitar que se cometam o que pensa ser violências. O texto de Kang é literalmente muito próximo da pele da personagem. Yeonghye murcha, desenha flores sobre a pele, engorda, definha, respira, tudo sob os nossos olhos.

Não é um livro pra cima, claro. É um sufoco ler um história muito bem escrita a respeito de uma pessoa que quer abandonar a vida. Só não me venham reclamar que é um livro contra os vegetarianos ou veganos. Aí, sou eu quem se mata. Afinal, temos que usar metáforas e representações de coisas que estão no mundo, correto?

Han Kang

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Dona Flor e seus Dois Maridos, a opinião da censura portuguesa

Dona Flor e seus Dois Maridos, a opinião da censura portuguesa

PIDE era a sigla para Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Entre 1945 e 1969, a instituição foi a responsável pela repressão a todas as formas de oposição ao regime político salazarista. Como o nosso DOPS, a PIDE utilizava a tortura para obter informações e volta e meia assassinava alguém, às vezes inadvertidamente, outras realizando emboscadas para matar mesmo. Ela também cuidava de quem entrava e saía de Portugal. Abaixo, uma curiosidade: o veredito sobre Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado, aprovado para publicação em Portugal.

Passou por ser gordinho e caro…

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O Mito, poema de Augusto de Campos

O Mito, poema de Augusto de Campos

De “O Mito” ao zero (ou ao buraco), passando por “omito”.

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Contos para futuro nenhum (XIV)

Contos para futuro nenhum (XIV)

SÔNIA NABARRETE (São Caetano do Sul/SP)

Enquanto apoiava a tortura, esqueceu-se de que a filha não se conformava com a derrocada da democracia. Agora não tem nem ao menos um corpo para enterrar. Da moça só restou uma foto no celular. Tão bonita.

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Banksy: Mural “No Future”

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Contos para futuro nenhum (XIII)

Contos para futuro nenhum (XIII)

SILVANA MENEZES (Belo Horizonte/MG)

Pai e mãe aprovavam o novo governo. O filho agora mantinha distância da escola, das drogas, dos pervertidos, das vadias, da vida lá fora. Eles podiam ficar 24 horas colados no garoto, que mantinham asseado. A única literatura da casa era a Bíblia Sagrada. O menino não reclamava, embora achasse as historinhas de Jesus meio repetitivas. Aos domingos tocavam teclado e cantavam música gospel sertaneja. Tudo parecia bem para a família longe dos pecados, protegida por Deus e pela Taurus. Até que um dia o garoto tirou a arma do pai do armário e deu um tiro na cabeça. Ao seu lado, boiando em sangue, foi encontrado um papel escrito “eu gosto é de menino”.

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Contos para futuro nenhum (XII)

Contos para futuro nenhum (XII)

SILVANA GUIMARÃES (Belo Horizonte/MG)

Segundo turno, casa cheia, a fila enorme na seção eleitoral. Ele custou a esperar sua hora. Vestia calça cáqui e blusa amarelo-ouro, a bandeira do Brasil sobre os ombros. Quando chegou a sua vez, entrou marchando na sala. Antes de votar, bateu continência para a urna, lascou um “pela moral e bons costumes” bem alto e saiu de lá olhando por cima das pessoas. Semana passada, sua foto apareceu no jornal. Pederasta, pego em flagrante, quando obrigava o menino a lamber suas bolas, na praça, atrás da igreja. Antes de entrar na cadeia, ouviu do delegado: — Ordinário, marche!

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Contos para futuro nenhum (XI)

Contos para futuro nenhum (XI)

SÉRGIO FANTINI (Belo Horizonte/MG)

Só quando o milésimo cidadão-de-bem arrependido foi imolado em praça pública pelo Ministério da Eugenia, as pessoas começaram a apagar as suásticas que haviam pintado em suas casas. A única que permanece é aquela riscada a canivete no corpo da garota gaúcha.

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Contos para futuro nenhum (X)

Contos para futuro nenhum (X)

RICARDO CELESTINO (São Paulo/SP)

Do Congresso, só um nome. Do Senado, uma lembrança. O STF, um contexto. Tudo está mais fácil e acessível na surfaceciberespacial de uma rede imersiva de criptografados. A vida integra bolhas meta(in)flexíveis de reação. (Trans)penetração em um trânsito intransitivo de galerias e galerias de informação. Comoção! A biopraticidade de metadados da próxima diversidade. O paraíso em foco. Comoção. Balada do louco. Comoção. Olhar rouco de um povo néscio, integrado em poços (trans)continentais. O cobertor das vaidades. A volta de todos os choques e a (sub)missão opressiva do verde-amarelo.

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Contos para futuro nenhum (IX)

Contos para futuro nenhum (IX)

RENATA PY (São Paulo/SP)

E os sonhos? Os sonhos a gente não controla, dizia Seu Zé. Era um homem que sempre devaneou esperança. Mas hoje não, acordou borocoxô, não quis nem comer. Disse apenas não desejar viver tanto para ver tamanha maluquice nesse mundão de meu Pai. Mirou pra longe da janela, ficou um tempo avantajado sem dizer uma única palavra. Comentaram até falta de lucidez. O pobre estava desacorçoado. Acontece com a realidade, ele desenterrou memórias que não gostaria. Tinha também consciência que não viveria para ver calamidade nenhuma findar. Sobre os sonhos? Roubaram, exclamou cansado.

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Contos para futuro nenhum (VIII)

Contos para futuro nenhum (VIII)

NATHALIE LOURENÇO (São Paulo/SP)

A unha parecia maior no alicate do que quando ainda era parte do dedo. A cabeça de Chicho pensava esse tipo de coisa inútil quando a dor escoava por um momento. Era a última unha do pé e ele ainda resistia bravamente. Não tinha dito nada para o homem de capuz, que escolhia agora um novo instrumento como quem escolhe um lápis de cor.

– Quem é você?

Era um cabo com presilhas de metal denteadas, os dentinhos a lhe morder os mamilos com força. E então veio a corrente elétrica. Uma vez e outra vez, a pele sofrendo a queimadura de mil cigarros. O torturador deu mais um ou dois choques e voltou para a mesa de instrumentos.

– O que está planejando?

Era um vidrinho de ácido com conta-gotas, e a dor da primeira gota, na coxa, parecia quase suave depois de tudo, mas foi ardendo e espalhando, incontrolável. Na terceira gota a pele parecia borbulhar, dissolver. Pela primeira vez quis confessar. Confessar… o que? Se deu conta que até agora, era apenas ele, torturado, quem tinha feito perguntas. Outra gota caiu e Chicho recomeçou a gritar.

– Me diz o que você quer saber! Eu falo! Eu falo…

– Não precisa falar nada, fique tranquilo, já estamos acabando.

– Então por que? Isso tudo não é pra arrancar a verdade?

– Isso aqui? É só tradição. Eu não preciso arrancar nada de você. Não preciso que você me diga a verdade. A verdade é o que eu disser que é.

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Contos para futuro nenhum (VII)

Contos para futuro nenhum (VII)

DANIEL LAKS (Rio de Janeiro/RJ)

João dizia que tortura era morrer na fila do hospital. Na verdade, nunca tinha enfrentado fila de hospital público. Ele e toda a sua família tinham plano de saúde. Era uma fala de revolta, mas isso foi antes. João agora tinha vergonha de dizer que apoiou ele, que votou nele, que fez campanha para ele. Hoje, João se sente enganado, queria um país melhor, ignorou os avisos e se deixou levar. A primeira coisa que o fez se sentir traído foi o aumento do preço dos planos de saúde. Aumentaram logo antes dele perder o emprego. Com tudo mais caro e ainda por cima desempregado, não tinha mais condições de pagar o plano de saúde do pai aposentado. Cancelaram o plano do pai pouco antes de descobrirem o câncer. Na sua revolta, João começou a participar de grupos de protesto contra o governo. Ele não sabe, mas neste exato momento, enquanto toma café da manhã, dois investigadores da polícia política estão a caminho da sua casa. Hoje João aprenderá na carne a diferença entre tortura e fila de hospital.

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Estamos publicando toda a série. Use este link para ler os contos já publicados.

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