Se há uma artista que amo e com quem gostaria de passar horas conversando, esta é Carla Bley, que hoje completa injustos 80 anos. Nunca vou esquecer do dia em que ouvi pela primeira vez o som de uma das suas Big Bands. Cheguei tarde. Eu a conheci apenas em 1996, quando comprei o CD The Carla Bley Big Band Goes to Church. E eu tinha comprado aquele disco da ECM só para experimentar, nem sabia direito quem era ela e aquele nem era o melhor de seus discos. Depois, comecei a ouvir todo o resto. Desconheço artista capaz de maior variedade. Ela vai do tradicional ao nunca dantes, do tango ao hip hop, do camerístico ao sinfônico, do clássico ao popular com absoluta naturalidade, classe e humor. A amplitude do que escrevo não é exagerada, é bem calculada, ouça e comprove.
Um dos fatos que garante minha profunda admiração por esta extraordinária artista criativa — e quem a conhece sabe porque faço questão de chamá-la de criativa — ocorreu ontem. Fiquei na rua durante um concerto da Ospa porque Paulo Moreira estava apresentando algumas de suas obras na FM Cultura. Querem mais? Quando eu estava ali, o trombonista Julio Rizzo passou por mim e perguntou o que eu estava fazendo. Depois de informado, ele pôs a mão na boca, contraiu o rosto e disse:
— A Carla é muito foda, cara! Mas 80 anos??? Já?
Pois é, quem ouve a música e as entrevistas de Carla Bley sabe de sua juventude. Hoje é um dia triste para democracia brasileira. Imaginem que acabo de ouvir um discurso 100% filha-da-puta e mentiroso da senadora Ana Amélia, mas vou tentar abrir um espaço para Carla Bley. Pois, como escreveu hoje o Sérgio Karam em seu Facebook:
É provável que hoje seja o dia da institucionalização definitiva (?) do golpe, com uma votação no Senado que tem toda cara de tragédia anunciada. Lamentável, portanto, que esse dia coincida com o aniversário de 80 anos de uma das mentes mais criativas, generosas e libertárias do mundo musical, a querida Carla Bley, compositora inimitável e ser humano especialíssimo. Um brinde carinhoso a ela, apesar de tudo, desejando que possa ainda escrever muitas outras obras-primas, para alegria de seus ouvintes. (A foto, recente, é de Lauren Lancasterneste artigo do NYT.) Cheers!!!
Se há uma obra que me emocione ao ponto de eu ficar me controlando é esta “A Reforma” de Felix Mendelssohn-Bartholdy. Isso por várias razões: a primeira é sem dúvida a forma como o compositor faz a releitura do Bach sacro. A obra é um elo entre o barroco perdido e o classicismo, tendo sido composta para comemorar os 300 anos da Reforma Religiosa, em 1830. É a sinfonia mais austera de Mendelssohn, que tratou de olhar para o passado da música alemã e nele viu a imensa e protetora sombra de Bach. Não apenas o movimento final é baseado no hino luterano Ein’ feste Burg ist unser Gott — também utilizado por Bach na célebre Cantata BWV 80 e aqui anunciado por uma flauta — , como o primeiro movimento leva o chamado “Amém de Dresden”, depois utilizado por Wagner no Parsifal. “A Reforma” foi publicada em 1868, depois da morte do autor, e sua estreia foi somente em 15 de novembro de 1832. A intenção de estreá-la em 1830, nas comemorações do tricentenário da Confissão de Augsburgo (1530), fracassou por motivos políticos. Ficou uma belíssima sinfonia, séria e cheia de elementos retirados da liturgia protestante. Curiosamente, Mendelssohn dizia-se insatisfeito com a obra, mas ainda bem que não sofria da Síndrome de Bruckner, deixando-a chegar até nós sem revisões. Nos movimentos rápidos, há claros ecos de beethovenianos. Compreensível. Afinal, o mestre tinha falecido 3 anos antes.
É incrível a sensação que tenho no final do primeiro minuto do terceiro vídeo. Parece que vai surgir um coral de Bach. Confiram.
Mesmo para um incondicional ateu como eu, a música, além de bela, tem tamanho referencial histórico que é irresistível ouvi-la e reouvi-la como se estivessem me ditando uma História de Música com a mais alta temperatura emocional. O grande Ton Koopman, experiente regente de Cantatas de Bach e da música barroca, está inteiramente à vontade. E muito feliz.
Vamos a um auto-elogio? Eu estou longe de ter o melhor ouvido do mundo, mas se há algo que consigo fazer no mundo dos sons é reconhecer um bom músico. Eu não acompanho a música pop, só que quando Prince me bateu no ouvido, ficou. Cheguei a comprar três ou quatro discos seus. Tinha quase vergonha de carregá-los pela rua por causa de meus amigos, que poderiam fazer esgares de escárnio. Hoje, é óbvio, perdi totalmente qualquer pudor. Tendo por instrumento preferencial a guitarra, o vídeo abaixo demonstra a aguda musicalidade de Prince, um ícone do rock, ao piano. Ele comete um erro no início, mas depois vai tocando Summertime, de Gershwin, enquanto dá instruções ao pessoal do som. Claro que era uma diversão — ele nem parece prestar atenção ao piano –, e é justamente aí que está a demonstração.
O autor do vídeo é o produtor Steve Purcell. Ele escreve: “Isto é uma passagem de som feita em 2 de agosto de 1990, em Osaka, no Japão. Passei seis anos da minha vida trabalhando para Prince. Com ele, criei e estabeleci as bases para o resto da minha carreira. Aqueles anos foram e sempre serão meu auge. Obrigado pelos bons tempos. RIP Kid”.
Serguei Sergueievitch Prokofiev nasceu em Sontsovka, atual Krasne, na região de Donetsk, Ucrânia, em 23 de abril de 1891. Se é autor de sólida obra musical, Prokofiev escolheu péssimas datas para nascer e morrer. Ele nasceu no mesmo dia em que Shakespeare e Cervantes morreram, o que lhe dá o terceiro lugar quando se comemora seu nascimento. Como se não bastasse, resolveu morrer no exato dia em que Stálin fez o mesmo. Desta maneira, seu enterro ficou destituído de flores, música e atenção por parte de um público que o amava.
Mas não é só isso, ele é celebrado por obras como o balé Romeu e Julieta, as óperas, a composição infantil Pedro e o Lobo e duas trilhas sonoras para filmes de Serguei Eisenstein. Bem, peço desculpas, pois o que realmente interessa em sua obra são as Sinfonias, os Concertos para Piano, os para Violino — todos extraordinários –, as Sonatas e óperas como Guerra e Paz, O Jogador e O Amor de Três Laranjas. Prokofiev tem o dom de surpreender, com linhas melódicas inesperadas que são acompanhadas de humor e lirismo luminosos, muito peculiares, únicos.
Ele andou bastante pelo mundo. Saiu de sua cidade provinciana para São Petersburgo, de lá foi para a Europa e América do Norte. Retornou aos poucos a seu país, já chamado de União Soviética e lá morreu. Sua música esconde de forma admirável o quanto sofreu. Vamos então a um resumo de Prokofiev pontuado de muita música?
Vida
Prokofiev nasceu no Império Russo. Foi filho único. Sua mãe era pianista e o pai engenheiro agrônomo. A família tinha uma condição financeira confortável. Desde criança, mostrou-se talentoso ao piano e como compositor. Muito precoce, aos nove anos, compôs sua primeira ópera, O Gigante, assim como uma abertura e outras peças. Em 1902, sua mãe conseguiu uma audiência com Serguei Taneyev, diretor do Conservatório de Moscou. Taneyev sugeriu que Prokofiev participasse eventualmente como ouvinte das aulas de composição com Reinhold Glière — Serguei tinha apenas 11 anos. Deu certo. Paralelamente, ele aprendeu o jogo que seria sua segunda paixão de uma vida inteira, o xadrez.
Pouco tempo depois, o menino sentiu que o isolamento ucraniano estava restringindo seu desenvolvimento musical. Apesar de seus pais não apoiarem a entrada de seu filho na carreira musical tão cedo, em 1904, aos 13 anos de idade, ele se mudou para São Petersburgo e se inscreveu no Conservatório da cidade após encorajamento de Alexander Glazunov, o qual seria depois professor de Shostakovich. Entre seus mestres estava o grande Rimsky-Korsakov. Ele passou nos testes introdutórios e começou seus estudos de composição no mesmo ano. Sendo muito mais jovem que seus colegas de classe, era visto como excêntrico e arrogante. Na verdade, ainda criança, considerava chato o Conservatório. Em 1909, aos 18 anos, graduou-se em composição, e, paradoxalmente, escolheu permanecer no conservatório para tornar-se regente e um virtuose ao piano. Já não era visto como arrogante, apenas como imprevisível e maluco, imagem que cultivava dedicadamente.
No ano seguinte, seu pai morreu, o que resultou no fim da tranquilidade financeira. Mas Prokofiev já tinha boa reputação como compositor e foi em frente. Seus dois primeiros concertos para piano foram compostos nessa época. Eles lhe deram péssima fama. Nesta opinião, além de carradas de conservadorismo, havia imensa má vontade contra quem não fazia música nacionalista.
O Concerto Nº 1, por exemplo, é um vertiginoso mergulho que, como dissemos, irritou profundamente os críticos da época. As sumidades se ofenderam, dizendo que só faltava o pianista pegar um martelo para destruir seu instrumento. Por favor, gente, menos. É uma obra-prima, como vocês podem ver e ouvir abaixo neste show da dupla Argerich-Rabinovitch. São 16 minutos da mais pura, linda e absoluta taquicardia.
Prokofiev fez sua primeira excursão fora da Rússia em 1913, viajando a Londres e depois a Paris, onde encontrou o Ballets Russes de Serguei Diaguilev. No ano seguinte, terminou o curso do Conservatório em São Petersburgo. Foi um aluno tão brilhante que levou um prêmio Rubinstein, o que lhe rendeu um piano. Ainda na Rússia, compôs a ópera O Jogador, com base na obra homônima de Fiódor Dostoievski, um estudo sobre obsessão do jogo. A estreia foi cancelada devido à Revolução Russa de 1917.
No verão do mesmo ano compôs sua primeira sinfonia, a Sinfonia Clássica, Op. 25. Alegre e delicada, é dividida em quatro andamentos. Prokofiev tinha 25 para 26 anos escreveu a Clássica enquanto estava conhecendo as obras inovadoras de Debussy e Schoenberg. Antes, ele dizia que suas influências intuitivas eram as estéticas da pintura de Kandinsky e a literatura de Maiakovski. Na Clássica, ele abandona a aspereza harmônica e rítmica dos dois primeiros Concertos para Piano, dando vazão a um melodismo no estilo de Haydn. É uma sinfonia encantadora, mas falsamente simples. Perguntem para quem já tocou esta obra se o Haydn de Prokofiev é tão simples quanto as 104 do Pai da Sinfonia.
Depois da Revolução, Prokofiev estava resolvido a deixar a Rússia temporariamente. O motivo era óbvio. Naquele ambiente, não havia chances para a música experimental. Em maio, mudou-se para os Estados Unidos, onde teve contato com alguns bolcheviques espertos como Anatoly Lunacharsky. Para não ter problemas no país natal, Anatoly convenceu-o a divulgar que o motivo da emigração era estritamente musical, e não uma oposição ao novo regime instalado. E era verdade, Prokofiev não era um opositor, ao menos naquela época.
Vida no exterior
Prokofiev passou a viver em São Francisco. Ao chegar, foi imediatamente comparado a Serguei Rachmaninoff. Só se for pelo primeiro nome, magreza e altura. Lá escreveu a ópera O Amor de Três Laranjas, mas o diretor morreu durante os ensaios e a ópera não foi estreada. Com problemas financeiros, mudou-se para Paris em abril de 1920, sem querer retornar à Rússia como um fracasso.
Em Paris, procurou Diaghilev e Stravinsky, e retomou trabalhos antigos e inacabados como o extraordinário Concerto para Piano Nº 3. Para Diaguilev, compôs os bailados O Bufão (1921, Op. 21) e O Passo de Aço (1927, Op. 41). Este último saudava o processo de industrialização que estava a acontecer na Rússia. No fim do ano, O Amor das Três Laranjas finalmente estreou em Chicago, sob desaprovação do compositor.
Em março de 1922, mudou-se com sua mãe para a cidade de Ettal, nos Alpes da Baviera. Passou mais de um ano naquele ambiente paradisíaco com a finalidade de se concentrar na criação de novas composições. Nessa época, sua música repercutia bastante na URSS, porém, apesar dos convites para retornar, permaneceu no exterior. O motivo era a cantora espanhola Lina Llubera, com quem casou em 1923.
Lina Prokofiev em 1921Serguei e Lina em 1924, já com o filho Sviatoslav
Em 1927, realizou diversas bem sucedidas turnês pela União Soviética. Era a preparação para a volta ao país natal. Dois anos depois, sofreu um acidente de carro em Domrémy-la-Pucelle — cidade de nascimento de Joana d`Arc, hoje com míseros 167 habitantes — , machucando as mãos. Nada grave. Se o acidente impediu-o de tocar e reger em Moscou; deu-lhe a oportunidade de aproveitar a cena musical russa da época. Após sua recuperação, ele foi buscar a forra nos Estados Unidos. E dessa vez foi calorosamente recebido, refletindo lá seu recente sucesso na Europa.
No início da década de 1930, Prokofiev deu mais um passo na direção da União Soviética. Já permanecia mais em Moscou do que em Paris. Recebeu uma encomenda para escrever a trilha sonora de um filme russo: Tenente Kijé. A trilha é maravilhosa. Também escreveu o balé Romeu e Julieta para o Kirov de Leningrado. Porém, este estreou a peça somente em 1938, em Brno. Os motivos foram desavenças sobre a coreografia. Atualmente, este é um dos trabalhos mais conhecidos de Prokofiev. Também foi a época do Concerto Nº 2 para Violino e Orquestra, uma tremenda música.
Retorno à União Soviética
No mesmo ano, Prokofiev voltou à União Soviética para ficar. Sua família voltou somente no ano seguinte. Só foi bem recebido no aeroporto, pois, na época, a política musical soviética havia mudado; uma agência havia sido criada para vigiar os artistas e suas criações. Ela era chefiada pelo temido Andrei Alexandrovitch Jdanov, parceiro de Stálin. Ele era um ferrenho defensor do Realismo Socialista nas artes e sufocou toda uma brilhante geração de artistas da época através de parâmetros políticos e estéticos rígidos, principalmente a partir da década de 1940. E por que Prokofiev decidiu ficar? Aparentemente por saudades.
A URSS ia se fechando. Limitando a influência externa, o país gradualmente isolou seus compositores e escritores do resto do mundo. Tentando se adaptar às novas circunstâncias, Prokofiev escreveu uma série de canções usando letras de poetas aprovados oficialmente pelo governo, além do oratório Zdravitsa (Op. 85). Na mesma época, compôs para crianças. É o período de Pedro e o Lobo, para narrador e orquestra, uma obra pedagógica e bem comportada, feita para agradar Josef Stálin e o regime. É famosíssima e até hoje é montada no mundo inteiro.
Em 1938, Prokofiev colaborou com o cineasta Sergei Eisenstein no épico Alexander Nevsky. Apesar do filme ter péssima qualidade sonora, a coisa era impressionante. Prokofiev adaptou boa parte da obra numa cantata, que também tem sido apresentada e gravada frequentemente.
Em 1941, com apenas 50 anos, o compositor sofreu o primeiro de uma série de infartos, resultando numa piora gradual de saúde e numa queda de sua produção. Em razão da Segunda Guerra Mundial, ele foi evacuado para o sul junto com outros artistas. Isso trouxe consequências para sua família. Ele conheceu a poetisa Mira Mendelson e o novo relacionamento fez com que Prokofiev se separasse de Lina, apesar de nunca terem se divorciado. Mira já havia o ajudado em libretos. 1942 é o ano da Sonata Para Piano Nº 7, ocasionalmente chamada de Stalingrado. É sensacional.
A guerra inspirou Prokofiev a mais uma ópera, Guerra e Paz, na qual ele trabalhou por dois anos, junto com mais uma trilha sonora para Sergei Eisenstein, dessa vez Ivan, o Terrível. O governo soviético revisou a ópera diversas vezes. Em 1944, Prokofiev se mudou para fora de Moscou a fim de compor sua fenomenal 5ª sinfonia (Op. 100) que se tornou a mais popular delas. Pouco depois, começou a sofrer distúrbios neurológicos sem nenhuma lesão identificada. Ainda sim, com muita lentidão, conseguia ainda trabalhar. Abaixo, a Quinta de Prokofiev. Note como ela simplesmente não tem momentos fracos, é perfeita. O ritmo de relógio, tão caro ao compositor, recebe seu melhor momento ao final do segundo movimento, quando quase emperra…
Após a guerra, Prokofiev ainda escreveu sua sexta e sétima sinfonias e uma Sonata para piano Nº 9, dedicada a Sviatoslav Richter. Então, o Partido Soviético começou a sufocá-lo. As atenções pós-guerra estavam voltadas novamente a assuntos internos e o governo passara a regular de perto a atividade dos artistas locais. Prokofiev, doente, frágil, amedrontou-se. Não era para menos. Seu amigo Vsevolod Meyerhold, diretor teatral, foi preso e executado. Foi sob tais condições que Prokofiev finalizou Ivan, o Terrível. Tinha em mente Joseph Stálin.
Se a doença, a política e o medo grassavam, havia Mira Mendelson. Ela foi sua salvadora. A nova união era intensamente inspiradora, e ele foi obtendo finalizar outra série de projetos inacabados.
Com Mira
Mas os ataques seguiram e, no dia 10 de fevereiro de 1948, uma resolução do Partido Comunista condenou “tendências antidemocráticas” em sua música, seja lá o que isto significasse. Descobriu-se o óbvio: que ele nunca criara obras dentro do realismo soviético. Toda sua música agora seria um enorme e dispensável conjunto cacofônico. Era um exemplo de formalismo e um “grande perigo” para o povo soviético. Em 20 de fevereiro, sua esposa espanhola Lina foi presa por espionagem, ao tentar enviar dinheiro para sua mãe na Catalunha. Lina foi sentenciada a vinte anos, mas foi solta após a morte de Stálin em 1953, deixando a União Soviética. Prokofiev teve que prometer oficialmente que modificaria suas composições — mesmo e principalmente as antigas — de forma a torná-las realistas, coisa quer nunca fez e talvez nem imaginasse como. Isso ocorreu logo após a composição da Sinfonia Concertante para Violoncelo e Orquestra, Op. 125.
Obra típica do Realismo Socialista. Crianças, flores, Stálin…A beleza da arte do realismo socialista: Stalin numa reunião do Politburo em 1949.
Esta nova batalha contra Stálin atingiu uma série de artistas geniais. Boris Pasternak, Anna Akhmatova, Mikhail Bulgákov, Aram Khachaturian, Shostakovich, Prokofiev e muitos outros foram censurados, cortados, impedidos de publicar e de terem sua produção divulgada. E a luta só terminou depois da morte do ditador.
As apresentações de seus últimos projetos foram canceladas, o que, em combinação com sua saúde, deixou-o em estado de depressão. Seus médicos ordenaram a limitação de suas atividades, fazendo com que ele reservasse somente uma ou duas horas diárias à composição. Sua última apresentação pública foi a estreia da sétima sinfonia em 1952, obra pela qual recebeu, paradoxalmente, o Prêmio Stálin. A Sétima não exaltava coisa nenhuma e muito menos a grandeza do Estado Soviético. É puro Prokofiev.
Prokofiev morreu aos 61 anos em 5 de março de 1953, no mesmo dia que Stálin, mais exatamente uma hora antes. O compositor morava próximo à Praça Vermelha, e por três dias, a multidão que se despedia de Stálin impossibilitou a retirada do corpo de Prokofiev para o serviço funerário. No funeral, não havia flores nem músicos, todos reservados ao funeral do líder soviético.
Ontem, fomos ao concerto da Ospa. Já na abertura, vinha o Concerto pra Violino de Beethoven com o solista Dmitri Berlinsky. Como diz o Augusto Maurer, um método quase infalível para saber se devemos ir ao um concerto é avaliar o que dizem os bons músicos da orquestra que dele participam. Devido ao burburinho, exagerei e fui ao ensaio da orquestra na segunda-feira à noite. O solista era realmente notável. Ouvindo-o, dava para pressentir toda a cultura que havia por trás de cada nota, nenhuma colocada por mero acaso ou vontade de correção. Beethoven, quando se deu conta de que era dono de um talento raro, disse que para ser um dos grandes necessitaria aprender também literatura e filosofia. Ele sabia que apenas vivendo a cultura poderia realizar a síntese que admiramos até hoje. É isso que nos traz Berlinsky. De uma forma misteriosa, ele arrasta consigo vasto conhecimento artístico e humano.
Foto: Augusto Maurer
Não precisava ler o currículo de Berlinsky para ter certeza, mas dei uma olhada. Hoje, aos 48 anos, é professor e solista. É cheio de glórias juvenis: foi o mais jovem vencedor do Paganini International Violin Competition em Gênova. Depois, venceu a International Tchaikovsky Competition e a Queen Elizabeth Competition em Bruxelas. Ainda dá aulas e fundou uma orquestra. Mas seu currículo diz que ele quer elevar a música a um ponto mais alto que o mero entretenimento. E consegue.
Como disse brincando o Lavard Skou Larsen, outro músico de mesma grandeza, quando se toca Beethoven fica-se tão tomado, tão invadido e encharcado de música que é bom até nem tomar banho depois. Quando se ouve é a mesma coisa, Lavard. Então, logo após a interpretação de Berlinsky, com as mãos vermelhas de tanto aplaudir, pensamos que era suficiente e retiramo-nos à francesa para o Atelier das Massas. Pedimos desculpas, mas nossos dias são estressantes ao mais alto grau e era fundamental manter aquilo em nosso cérebro pelo maior tempo possível.
Falei rapidamente com Berlinsky no ensaio. Da forma mais humilde, ele perguntou se seu som não ficara melhor na segunda parte do ensaio, quando pedira para os primeiros e segundos violinos recuarem a fim de que ele ficasse mais dentro do palco. Fiquei constrangido em interferir, mas — o que fazer? — tenho o defeito da opinião. É claro que ele deve ter feito a pergunta para mais uns dez, porém, na hora do concerto, lá estava no local onde eu “sugerira”. E, anote aí, Augusto: outra forma de avaliar um ser humano — e sua possível competência — é medir seu grau de acessibilidade e concluir que a arrogância é apenas uma forma de defesa.
A fluidez e elegância do texto de Chega de Saudade — referimo-nos ao livro de Ruy Castro, não à belíssima canção de Tom e Vinícius — é interrompida quando o autor fala na MPB. Subitamente, Ruy torna-se agressivo. Em sua opinião, a MPB e sua popularidade vieram destruir aquela bela mistura de samba, cool jazz e bebop chamada Bossa Nova. Até hoje, cerca de 50 anos depois, alguns amantes do gênero manifestam-se com certo ressentimento sobre o fim do movimento que deu algum protagonismo, em âmbito mundial, à música produzida no Brasil.
Em meados da década de 1960, a Bossa Nova deu sinais de uma cizânia à esquerda. Estimulados pelo Centro Popular de Cultura da UNE, novos (e grandes) artistas trouxeram uma crítica à influência do jazz norte-americano na bossa nova, propondo uma reaproximação com compositores de morro, como o sambista Zé Ketti. Eram eles Edu Lobo, Marcos Valle, Dori Caymmi, Francis Hime e outros.
Tom, Edu e Vinícius: sem problemas.
Um dos pilares da Bossa Nova, Vinícius de Moraes, logo descobriu em Edu Lobo um possível parceiro e, de forma saudável, passou a circular tanto ao lado da Bossa como no outro lado. Carlos Lyra e Nara Leão, que promoveram parcerias com artistas do samba como Cartola e Nelson Cavaquinho e do baião e xote nordestinos como João do Vale, logo abraçaram a nova ideia. Foi uma fase riquíssima de nossa música. Em 1966, Vinícius estendia sua mão ao novo movimento lançando o antológico LP Os Afro-sambas, dele e Baden Powell.
Alguns dizem que a data de fundação da MPB foi o início do mês de abril de 1965, quando Arrastão venceu o 1º Festival Nacional da Musica Popular Brasileira da extinta TV Excelsior. Arrastão era uma parceria de Edu Lobo e Vinícius de Morais e realmente não tinha nenhuma feição bossanovista. Impossível cantá-la com um banquinho e violão. Elis Regina detona na interpretação não apenas em termos de potência vocal como de performance física. O coreógrafo Lennie Dale mandou que ela cortasse os cabelos e agitasse os braços. E ensinou-lhe como fazer.
“É, eu rodopiava os braços”, disse Elis, anos depois. Aquela natação um tanto ridícula valeu a ela o apelido de Eliscóptero ou de Hélice Regina. Poucos ousaram criticá-la, pois a qualidade da música de Edu era indiscutível. Um dos poucos foi Ronaldo Bôscoli, que casaria com Elis pouco tempo depois. Assim como Tom Jobim, Bôscoli achava a gaúcha meio brega. Outro foi um Caetano Veloso cuidadoso. “Aquela dança marcada me pareceu cafona, mas cheia de talento”. Depois todos eles mudaram de opinião. Os gestos exagerados de Elis tornaram-se assunto em todo o Brasil, principalmente pelo ineditismo visual: num movimento desengonçado e pouco natural, mas movido aparentemente pelo entusiasmo, os braços da cantora pareciam dois remos no ar.
Lamentavelmente, há apenas registros incompletos do eliscóptero, mas dá para ver facilmente no vídeo abaixo que Elis seguiu não apenas os conselhos de Dale como leu direitinho o bilhete de Vinícius que lhe foi passado minutos antes de entrar no palco. Este dizia: “Arrasta essa gente aí, Pimentinha”. A melodia agressiva e a letra de Vinícius (“Valha-me meu Nosso Senhor do Bonfim / Nunca, jamais, se viu tanto peixe assim”) não tinha nada a ver com a Bossa Nova.
É estranho que o sofisticado e melodioso Edu Lobo tenha ido para a história como um dos exterminadores da Bossa Nova. Mais estranha ainda é a lenda de que Vinícius escreveu a letra de Arrastão em dez minutos em sua casa, na companhia de Edu.
Porém, outros dizem que a MPB, expressão derivada de Música Popular Brasileira, teria nascido em 1966, com a também chamada segunda geração da Bossa Nova. A MPB teria nascido quando um grupo novo de artistas efetivamente tomou conta da cena musical brasileira. Gente como Geraldo Vandré, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, etc. tornaram-se rapidamente famosos e alguém que tivesse ficado sem notícias do Brasil desde 1964 e aqui desembarcasse em 1966, não entenderia nada. Os novos ídolos eram muito jovens e recentes. Eles apareciam com frequência em festivais de música popular e na TV. Sua consistência e estabelecimento como figuras públicas teria feito naufragar a Bossa Nova. E pouco tinham de Bossa Nova.
Vencedoras do II Festival de Música Popular Brasileira, realizado em São Paulo em 1966, Disparada, de Vandré, e A Banda, de Chico, podem ser consideradas marcos desta ruptura e mutação da bossa em MPB.
Jair Rodrigues defendendo Disparada, de Vandré: “Prepare o seu coração / pras coisas que eu vou contar”
Na prática, não havia animosidade entre os movimentos. Assim como Vinícius, Chico Buarque trafegava em ambos. Mas o público discutia a manutenção da sofisticação musical ou a fidelidade à música de raiz brasileira. Quando a ditadura apertou, os dois movimentos se tornaram uma frente ampla cultural contra o regime militar, adotando a nova sigla MPB como uma de suas bandeiras de luta.
Zuza Homem de Melo afirma que o estilo da música dos Festivais foi o que sepultou a Bossa: “A grande transformação veio de um programa de televisão com competição de canções e participação do público torcendo abertamente. Ali, as canções da Bossa Nova não teriam êxito. Surgiu um novo formato”, conta. “O governo não percebeu que as canções poderiam se tornar uma bandeira da classe universitária contra a censura e contra a ditadura militar”, completa Zuza.
Exato. Os festivais perderiam sua força no momento em que o Governo Militar percebeu o poder de contestação que estava associado e eles, mas a MPB seguiu e segue até hoje.
Em 1967, na terceira edição do festival, já na Record, a Tropicália seria lançada, as mensagens políticas estariam mais cifradas e a MPB seria invadida por guitarras elétricas. Mas isso já é outra história.
Uma rápida lista de artistas que participam ou participaram da MPB demonstra um grande domínio qualitativo do gênero. Os críticos que votaram os 100 melhores discos brasileiros de todos os tempos da revista Rolling Stone, colocaram 52 discos de MPB na lista.
De memória e podendo cometer injustiças, listamos compositores, cantores e arranjadores ligados à MPB. Ele é impressionante: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Jorge Ben Jor, Elis Regina, Paulinho da Viola, Vinícius de Moraes, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Maria Bethânia, Rogério Duprat, Baden Powell, João Bosco, Gal Costa, Tom Zé, Guinga, Toquinho, Marisa Monte, Nara Leão, Cristóvão Bastos, Francis Hime, Mutantes, Mônica Salmaso, Paulo César Pinheiro, MPB-4, Carlos Lyra, Sidney Müller, Luiz Melodia, Marcos Valle, Geraldo Vandré, Belchior, Zizi Possi, Clara Nunes, Joyce, Sueli Costa, Moraes Moreira, Simone, Fagner, Lô Borges, Jards Macalé, Djavan, Lenine, Maria Rita, Sérgio Sampaio…
Eu penso que esta masterclass comandada pelo pianista Menahem Pressler, que tocou por 55 anos no mais bem sucedido trio de piano de todos os tempos do mundo, deve ser vista por todos os que se interessam por arte. Ele comprova na prática como tudo são detalhes. Uma pequena mudança no ângulo de abordagem e as partituras se iluminam. O senso de estilo, tão ausente em nossas pobres plagas e tão necessário em todo gênero artístico, aqui ganha o centro do palco.
Primeiramente, cada grupo toda sua versão de um movimento de um trio de Mendelssohn — o último toca Mozart — e depois Pressler vai ajeitando as coisas. A transformação é notável. Acho que este filme é uma oportunidade única de vemos um gênio trabalhando e o resultado de seus intervenções. Sim, são duas horas, mas façam como eu, assistam em três sessões! É uma esplêndida aula, meus amigos! O baixinho não apenas é um intérprete notável como um professor apaixonado.
Uma sabedoria dessas é indispensável.
(Particularmente, adorei quando ele tocou Mozart como uma caixinha de música e disse “This is not music”. E recomeçou a trabalhar.)
Depende. Vamos falar de 1582? Naquele ano, o calendário gregoriano foi introduzido em alguns lugares da Europa, não em todos. A Itália, a Espanha, Portugal e a Polônia, os mais católicos, aceitaram a mudança ditada pela igreja, o resto não. Só depois é que todos os outros países aderiram. O 21 de março de 1685 da Alemanha não era o mesmo 21 de março de 1685 na Itália, Espanha etc. Havia 10 dias de diferença. O dia em que Bach nasceu foi “chamado” de 21 de março na Alemanha, onde eles ainda estavam usando o calendário juliano. Mas Bach nasceu num 31 de março, considerando o calendário que todos usam hoje, o gregoriano. O que vale? Ora, segundo os historiadores, vale o que está escrito lá na igreja onde Johann Sebastian Bach foi registrado. Vale o 21 de março.
Da mesma forma, é muitas vezes dito que Shakespeare e Cervantes morreram exatamente no mesmo dia, 23 de abril de 1616, como uma diferença de menos de 24h. Não é verdade. As mortes foram separadas por 10 dias. A de Shakespeare ocorreu em 23 de abril de 1616 (juliano), que equivalente hoje a 3 de maio (gregoriano). A de Cervantes aconteceu no dia 23 gregoriano. Mas os historiadores dizem que o que vale é o que está escrito, então ambos morreram em 23 de abril, mas com uma diferença de dez dias porque se a Espanha já usava o calendário gregoriano, a Inglaterra ainda usava o juliano. Então, eles não morreram ao mesmo tempo… Vá entender!
O que é certo é que podemos comemorar dois aniversários de Bach, nosso maior ídolo. E sempre com (muita) cerveja, que Bach amava e produzia em quantidades industriais em sua própria casa. Mas esta já outra história.
Eu nasci em 21 de março e em 31 de março, entendem?
O maestro e quatro amigos não identificados estão restaurando a dacha (casa de campo) do compositor, na aldeia de Nikolina Gora, nos arredores de Moscou. Gergiev é amigo de Putin e o líder das comemorações do 125º aniversário de Sergei Prokofiev.
O regente adora publicidade, mas desta vez está sendo discreto. “Estou muito feliz por poder salvar a dacha de Prokofiev. Eu e quatro amigos vamos colocá-la em ordem”.
De acordo com Gergiev, a questão é o que será feito depois. “Se ela será utilizada como um museu ou não, não é algo discutir publicamente agora. O fato é que a casa estava caindo aos pedaços e precisa de um tratamento muito cuidadoso”, disse.
O legista afirmou que Keith Emerson, do Emerson, Lake & Palmer, matou-se com um tiro na semana passada. Ele vinha sofrendo há anos com dores musculares nos braços e tinha problemas cardíacos. Estava com 71 anos. Mas os reais motivos de seu ato não são conhecidos.
Esta manhã, apareceu um vídeo inédito de Wayne H. Lipton, administrador da Orquestra Sinfônica de South Shore, em Long Island.
Lipton explica que Emerson escreveu 3 Quartetos de Cordas que foram estreados na noite de aniversário de seus 70 anos, em outubro de 2014. O vídeo é incompleto, mas interessante. Um pouco depois dos 11 minutos, Keith faz uma entrada tranquila para tocar com o quarteto. Certamente esta é uma face que a esmagadora maioria de seus milhões de fãs desconhecem.
Cinquenta importantes figuras da música e das humanidades — lideradas por Daniel Barenboim, Riccardo Chailly, Placido Domingo, Daniele Gatti, Zubin Mehta, Antonio Pappano, Maurizio Pollini, Christian Thielemann, juntamente com nomes fundamentais da vida pública italiana — como Dario Fo, Bernardo Bertolucci, Andrea Camilleri, Claudio Magris, e Umberto Veronesi — assinaram um apelo ao ministro italiano do Patrimônio Cultural, relativo ao acesso acadêmico aos arquivos dos compositores Giuseppe Verdi e Giacomo Puccini.
As duas coleções — o Verdi Archivio (em Sant’Agata, Piacenza) e o Archivio Puccini (Torre del Lago, Lucca) — pertencem aos herdeiros dos compositores. Muitos manuscritos importantes, fundamentais para o estudo de como estes dois compositores viveram e criaram sua música, estão armazenados lá. Só que os atuais detentores dos materiais não dão acesso adequado a eles. Também não é possível saber das condições em que estão sendo preservados ou não, e muito menos de seus conteúdos.
Giuseppe Verdi & Giacomo Puccini: infelizmente, estes compositores italianos têm parentes também italianos
Por toda a Europa, o acesso dos pesquisadores é livre para estudar os manuscritos de compositores. Porém, os herdeiros de Pucciverdi recusam-se a permitir aos investigadores o exame dos manuscritos. Esta recusa viola Art. n. 127 do Código da Herança Cultural italiana.
O recurso para o ministro italiano do Patrimônio Cultural foi publicado pela revista italiana mensal “Voce Classica”. Os cinquenta signatários são:
Roberto Abbado, Salvatore Accardo, Alberto Arbasino, Rosellina Archinto, Daniel Barenboim, Giorgio Battistelli, Bernardo Bertolucci, Francesco Saverio Borrelli, Mario Brunello, Renato Bruson, Massimo Cacciari, Bruno Cagli, Andrea Camilleri, Riccardo Chailly, James Conlon, Azio Corghi, Plácido Domingo, Ivan Fedele, Juan Diego Flórez, Dario Fo, Carlo Fontana, Luca Francesconi, Daniele Gatti, Gianluigi Gelmetti, Adriano Guarnieri, Philippe Jordan, Raina Kabaivanska, Fabio Luisi, Nicola Luisotti, Claudio Magris, Giacomo Manzoni, Michele Mariotti, Mario Martone , Zubin Mehta, Francesco Meli, Kent Nagano, Gianandrea Noseda, Anthony Pappano, Michele Pertusi, Maurizio Pollini, Salvatore Sciarrino, Renata Scotto, Alessandro Solbiati, Peter Stein, Christian Thielemann, Marco Tutino, Uto Ughi, Fabio Vacchi, Umberto Veronesi e Alberto Zedda.
Admirador de Gustav Leonhardt e de Glenn Gould, Jacques Drillon abre mais uma vez o debate, não se afastando de nenhuma das interrogações estilísticas, práticas e mesmo morais.
Tradução de Evandro Martini, a partir do original na Diapason francesa.
Há cerca de 40 anos, uma questão espinhosa era debatida: Bach deve ser tocado no piano ou no cravo? A verdade estava escondida em algum lugar, e precisava ser descoberta. A questão se colocava à parte do debate sobre instrumentos antigos e orquestras historicamente informadas. Como se Bach tivesse um lugar especial na história, e merecesse um tratamento especial. É verdade que ninguém teria a ideia de escolher Kandinsky ou Mondrian para ilustrar a capa de um registro de Couperin ou Buxtehude, enquanto com a Arte da Fuga — música “abstrata”, “Feita para ser lida mais do que tocada” — isso acontecia regularmente…
Assim como a dimensão política do debate sobre os instrumentos antigos (conservadorismo / progressismo, direita / esquerda) era evitada, e como a dimensão econômica também nunca foi tocada (e eram enormes os interesses financeiros em jogo), o aspecto estilístico de “Bach-no-piano” foi cuidadosamente evitado. Como se Bach estivesse fora dos estilos, fora da história, fora da geografia: como se sua música, e Gould o afirmou, “transcendesse questões de evolução”. É por isso que tudo era “possível” com Bach: tocá-lo com vibrafone, orquestra, quarteto de saxofones. Sua música “resiste a tudo”, lê-se ainda às vezes
Aprendemos, nos últimos quarenta anos, que não era verdade. Nós sabemos hoje o quanto a Itália e a França entram na música de Bach, que é possível classificar por épocas, cidades de residência. E a Arte da Fuga pode ser vista como uma homenagem ao contraponto do passado, contra a música da moda no fim da vida de Bach.
Portanto, a questão permanece: piano ou cravo? Os argumentos se empilham: a polifonia seria mais clara no piano, a dança seria mais natural ao cravo; os ornamentos vêm mais facilmente para o cravo, no piano parecem fora de lugar; a dinâmica está presente na própria escrita da música para cravo (três notas tocadas juntas soam mais alto do que uma), e o piano adiciona dinâmicas artificiais, ou então se limita a um mezzo forte constante e entediante; o temperamento desigual do cravo melhor reflete os tons que o temperamento equalizado do piano; o baixo continuo no piano é simplesmente ridículo, e cantores ou instrumentistas preferem o acompanhamento do cravo; a música de Bach é essencialmente articulada enquanto o piano prefere o fraseado. E por aí vai…
O piano é derrubado por essa série de argumentos. O único aparentemente em seu favor, a clareza da polifonia, não resiste por muito tempo: Leonhardt, ou Koopman, ou Hantaï fazem uma polifonia perfeitamente clara no cravo.
Várias respostas são fornecidas pelos defensores do piano:
1. Não importa, eu faço como eu quiser.
2. Um bom pianista é melhor do que um mau cravista.
3. Eu tenho um piano em casa, não tenho um cravo.
4. É possível tocar Bach no piano de forma “historicamente informada”.
5. Colocar um instrumento de salão no Carnegie Hall?
E nossos debatedores não se entendem. Só que Glenn Gould não se importa. Enquanto outros pianistas passaram a nos servir um Bach morno, preocupados com um estilo “correto”, Gould negou a sua existência. Para ele, o estilo não existe. E é porque ele o declara ilegítimo, como um tribunal é declarado incompetente, que Gould é interessante. Outros pianistas sabiam e ainda sabem que o olho do estilo os examina. Eles tocam Bach com medo e fazendo concessões (por exemplo se abstendo do pedal e seguindo o tratado de C.P.E. Bach). Gould considera os críticos com indulgência e diversão: há muito tempo ele se liberou desse superego esterilizante, triste, mal humorado. Gould está tão longe destas questões! Ele não faz parte do debate, ele o recusa, foge. Na realidade, é o único pianista a interpretar Bach no piano: os outros tocam no não-cravo.
Mas Gould não pode ocupar todo o horizonte: nós continuamos a ouvir outros artistas, a ir ao concerto. É preciso agir como se Gould não existisse: temos de voltar para a terra e considerar a questão sob o ângulo trivial do trabalho, da rentabilidade musical, do custo-benefício. No piano, tocar sem dinâmica exige um investimento técnico considerável, articular sem afetação é um desafio, tocar rapidamente sem legato é horrivelmente difícil. Em suma, entendemos que o investimento pianístico para se tocar Bach é de ordem diferente do investimento cravístico. No cravo, basta encostar nele para encontrar o que procuramos. Ao piano, é preciso cavar profundamente. A rentabilidade é baixa, quase insignificante, mas a exploração da matéria-prima Bach tem esse preço. É uma situação comparável ao mercado de petróleo: antes, a exploração de alguns campos não era rentável; o preço do petróleo subiu, a exploração se tornou viável e todo o mundo compra gasolina mais caro. Se alguém quiser Bach no piano, tem que pagar o preço.
A nomeação de uma regente titular para a orquestra de Birmingham é sinal inequívoco de novos rumos.
No Dia Internacional da Mulher,
Para todas as mulheres que trabalham em orquestras medievais.
A regente lituana Mirga Grazinyte-Tyla
O último bastião sexista da música erudita está indo ao chão. A City of Birmingham Symphony Orchestra, mais conhecida como CBSO, uma das mais respeitadas do planeta, anunciou no início de fevereiro que seu maestro titular será uma maestrina: a lituana Mirga Grazinyte-Tyla (Vilnius, 1986). Seus dois antecessores no cargo foram gigantes: Simon Rattle e Andris Nelsons. Rattle de saiu de Birmingham em 2002 para o cobiçado posto na Filarmônica de Berlim e Nelsons recentemente foi para a Sinfônica de Boston e a Gewandhaus Leipzig.
Grazinyte-Tyla é, de certa forma, ligada a outro craque da regência, o venezuelano Gustavo Dudamel. Ela foi assistente dele Dudamel na Filarmônica de Los Angeles a partir de 2012. Dois anos depois, ela começou a dirigir seus próprios concertos matinais no Walt Disney Hall. E logo surgiu na cidade californiana o que um crítico do Los Angeles Times denominou de “Mirgamanía”. Adjetivos como “naturalidade”, “dinâmico” e “forte” costumam acompanhá-la. Trata-se de uma excelente maestrina, e esta é sua outra conexão com Dudamel.
Mirga mandando ver.
Tais fatos vão mexendo as peças do jogo. Grazinyte-Tyla não faz o estilo fora de moda do gerentão irritado. Carrega com leveza aquilo que Elias Canetti chamou de “a expressão mais óbvia de poder”. Dona de grande carisma, ela constrói um modelo diferente com base na cumplicidade e empatia com os músicos: “Reger é algo que fica entre a inspiração e a comunicação. Com os músicos, busco encontrar uma forma de soar e de interpretar. A sensação de compartilhamento deste milagre é fundamental”, disse em uma entrevista para o site da CBSO.
A escolha do Grazinyte-Tyla para o chefia da CBSO não é um fenômeno isolado. É parte de uma tendência que está se consolidando.
Naturalidade
O feminino no pódio é um movimento ascendente. Para a mexicana-norte-americana Alondra de la Parra (Nova York, 1980), a chave reside na naturalidade do gestual: “Sou pianista e violoncelista, é claro que isto foi fundamental na minha formação, mas há que considerar como as mulheres são. Nós crescemos cantando, dançando e expressando-nos corporalmente”. De la Parra tem impressionado na Orquestra de Paris e na Filarmônica de Londres, o que lhe rendeu uma recente nomeação como chefe de uma das principais orquestras australianas. Já Karina Canellakis (Nova York, 1982) é uma violinista que trocou o arco pela batuta e trabalha em Dallas Symphony como assistente. Ela estreou na Europa em junho passado, substituindo Nikolaus Harnoncourt, já adoentado, na direção da Orquestra de Câmara da Europa. Outro caso de instrumentista transformada em maestrina é o da coreana Han-Na Chang (Suwon, 1982).
“Se um chefe de orquestra sabe o que quer, se tem conhecimento técnico de cada instrumento, se tem uma visão clara, a orquestra o segue sem se importar se é homem ou mulher”. É o que diz a única mulher a ganhar o Prêmio Alemão de Maestros, a estoniana Kristiina Poska (Turi, 1978), atualmente trabalhando na Komische Oper Berlin: “As diferenças entre os diretores de orquestra vêm mais da personalidade e caráter do que sexo”.
As pioneiras
Houve muitos obstáculos para as mulheres que se tornarem regentes. A geração anterior sabe muito bem disso. A australiana Simone Young (1961) ou as norte-americana Marin Alsop (1956) e Anne Manson (1961), abriram brechas nas salas de concerto, auxiliadas por seus mestres Daniel Barenboim, Leonard Bernstein e Claudio Abbado. Mas usavam um figurino artificial, masculinizado. Foi ainda mais difícil para as pioneiras no passado, que enfrentaram condições ideológicas e culturais totalmente hostis, vindas de músicos, críticos, agentes ou público como Ethel Leginska e Antonia Brico, que atuaram no pódio das Filarmônicas de Nova Iorque e Berlim em 1925 e 1930. A célebre Nadia Boulanger — formadora de toda uma geração de músicos notáveis — evitou a batuta. Outras tiveram uma carreiras confinadas no poço de um teatro para não serem visíveis ou ficaram em seus instrumentos sem poderem orientar uma orquestra.
Antonia Brico
Mas a melhor notícia sobre uma mulher conduzindo orquestras será quando… Isto não for mais notícia.
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O movimento é ascendente mesmo, tanto que já tenho três maestrinas em minha timeline do Facebook: Alessandra Arrieche, Ligia Amadio e Valentina Peleggi.
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Tradução livre (e certamente traidora) deste blogueiro a partir do El Pais espanhol. Sugestão de Helen Osório.
Poucas vezes eu fico triste quando um sujeito muito produtivo morre aos 86 anos. Teve longa vida, fez muito, foi reconhecido, morreu. Foi assim com Eco. Mas lamentei muitíssimo a morte de Nikolaus Harnoncourt (1929 – 2016) no último sábado. Conheci-o de forma contrária à maioria. Primeiro, li seus livros O Discurso dos Sons e O Diálogo Musical, depois fui ouvir seus discos, como por exemplo, a integral de Cantatas de Bach que ele gravou em parceria com Gustav Leonhardt. O incrível é que o músico era ainda maior do que o autor que me ensinara tanta coisa. A leitura de seus livros abriu minha cabeça para muita música que desprezava por limitação ou preconceito. Ele mudou totalmente minha forma de ouvir música, deu sentido a muita coisa que me parecia arbitrária. Suas explicações sobre a grandeza da Bach são absolutamente convincentes e brilhantes.
https://youtu.be/Vr5cKdC3v3E
Antes de se tornar maestro, foi excelente violoncelista. As gravações demonstram. Sua integral das Suítes para Violoncelo Solo de Bach são magníficas. Foi pioneiro na música historicamente informada, mas não era intolerante como alguns que não aceitam que cada época dê sua versão de um autor. Só que ele, Harnoncourt, preferia a recriação rigorosa daquilo que o compositor compôs e fora ouvido pelo próprio. Ele também trouxe à tona um repertório riquíssimo de compositores negligenciados, talvez pela preguiça dos intérpretes. Investiu sobre o classicismo e o romantismo, dirigindo orquestras como a Filarmônica de Berlim e a de Viena, a Ópera de Viena, a Orquestra de Câmara da Europa, o Concertgebouw de Amsterdã, entre muitos outros. Mas sua existência sempre ficará associada à orquestra que fundou em 1953 e com quem mais gravou: o Concentus Musicus Wien.
Alguns engoliam com dificuldade suas interpretações históricas, outros não suportavam suas decisões estilísticas. Mas a abordagem histórica de Harnoncourt às sinfonias de Beethoven abriu os ouvidos e corações do grande público. Sua influência foi sentida em toda a Europa. Na área da música de concerto, foi o mais importante músico dos últimos 50 anos.
Os depoimentos são inequívocos. Todos amavam Harnoncourt no invejoso e complicado mundo musical. Norman Lebrecht diz que poucas vezes conheceu uma pessoa mais benigna. Quando se conheceram, Harnoncourt apontou um pequeno erro no livro de Lebracht The Maestro Myth. Segundo Lebrecht, aquilo foi dito com tal simplicidade e interesse que não parecia vir de um músico. E o maestro respondia a seus próprios triunfos com humildade e indiferença. Apenas encolhia os ombros e sorria. Achava estranho que o chamassem de maestro. Nos ensaios, era muito sério, focado, recusando-se a deixar passar um trecho antes de ficar satisfeito com ele.
Foi um idealista e como concordo com ele! Queria e queria que as pessoas tivessem acesso à música. Não dar acesso à música era um erro completo de educação. E, como brasileiro consciente de nosso IDH rasante, falo simplesmente em dar acesso, em dar contato. Já faria uma enorme diferença na vida de muita gente. Ninguém vai descobrir na primeira audição todo o ódio de Shostakovich por Stalin contido em sua 10ª Sinfonia, mas, tocado de alguma forma, poderia adquirir vivência com uma das formas mais sofisticadas e inteligentes de arte. Dar acesso, simples assim. Como diz Harnoncourt no vídeo abaixo:
Muito obrigado pela de lições, Nikolaus Harnoncourt. Foste um enorme e compreensivo mestre!
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Es ist vollbracht significa Está consumado. A regência é de Nikolaus Harnoncourt, a orquestra é o Concentus Musicus Wien, o solista de gamba é Christophe Coin, o coro — que se ergue mais não canta… — é o Tölzer Knabenchor e o menino é o desconhecido, genial e efêmero (refiro-me à voz, claro) Panito Iconomou. Ah, quem me apresentou a gravação foi o Gilberto Agostinho. É inacreditável.
Num dia como hoje, em 1953, morria o psicopata Stalin. Nem morto deixou de incomodar, pois, também num dia como hoje, em 1953, na URSS, morria Serguei Prokofiev. Sim, exatamente no mesmo dia. O compositor foi enterrado sem flores porque os baba-ovos compraram todas elas para o Grande Líder.
Prokofiev viveu seus últimos anos e morreu próximo à Praça Vermelha, e por três dias, a multidão que se despedia de Stalin impossibilitou a retirada de seu corpo para o serviço funerário. No funeral, não havia flores nem músicos. Todos tinham sido reservados.
A Filarmônica de Berlim, a Konzerthausorchester Berlin e a Staatskapelle Berlin convidaram os refugiados, suas famílias e voluntários para um concerto na Philharmonie de Berlim, a casa da primeira. O concerto foi ontem à noite, 1º de março. Nele, as três orquestras com seus titulares Simon Rattle, Daniel Barenboim e Iván Fischer desejaram as boas-vindas às pessoas que foram obrigadas a fugir de suas casas e ao mesmo tempo agradeceram aos voluntários por seu trabalho.
Daniel Barenboim, Iván Fischer e Sir Simon Rattle assinam: “Como músicos, nos sentimos bem-vindos em todo o mundo. Esperamos que isso também se aplique a pessoas que são cruelmente atingidas pelo destino e que são forçadas pela guerra, fome ou perseguição, a deixarem suas casas. Com o nosso concerto conjunto, queremos desejar dar boas-vindas às famílias de refugiados e expressar nosso agradecimento e apreço aos voluntários”.
Eles estão casados há 65 anos. Ele é o compositor e pianista György Kurtág, uma das figuras mais importantes da música erudita nos últimos 100 anos. Entre várias outras atividades, ele passou boa parte de sua vida apresentando-se ao lado de sua esposa Márta Kinsker, outra excelente pianista. O vídeo abaixo — de som apenas aceitável — foi gravado antes de um concerto ao vivo do casal, realizado em Budapeste. Ele revela enorme uma compreensão musical e muito mais.
As transcrições de Bach foram escritas pelo próprio Kurtáge. Trata-se do plácido Prelúdio Coral Das alte Jahr vergangen ist BWV 614, do alegre Dueto BWV 804 e da belíssima Sonatina da Cantata Actus Tragicus BWV 106.
György nasceu na Romênia em 1926, mudou-se para a Hungria em 1946, casando-se com Márta Kinsker em 1947. E o vídeo abaixo mostra o que acontece quando você vive e toca Bach junto com alguém durante 70 anos :
Tenho ouvido tantas Cantatas que resolvi roubartilhar isso aqui. A fonte está neste link. Texto de Rebello Alvarenga.
“Bach não tinha intenção de compor obras de arte musicais”
Para qualquer amante da música clássica, as Cantatas de Bach são uma espécie de testamento religioso. Objetos de adoração, as Cantatas são, entre os músicos, focos de infindáveis discussões acerca da maneira mais correta de se interpretar a “intenção artística de Bach”, no propósito de chegar a um entendimento perfeito da voz deste “verdadeiro deus da música”. Quanto ao público, os mais ardentes fiéis da música bachiana correm atrás das melhores interpretações de suas Cantatas e Paixões na esperança de também alcançar a “verdade artística” de sua música. É inegável que a performance de uma Paixão Segundo São Matheus é encarada pelos amantes de Bach como a oportunidade de contemplar, pessoalmente, um “milagre acontecendo diante dos olhos”. Como verdadeiros fiéis, postam-se em silêncio contemplativo, absorvendo ao máximo tudo o que o texto musical bachiano oferece em “todo seu esplendor”. No entanto, a realidade acerca da percepção e atenção com a música sacra pelos contemporâneos de Bach é muito distante do que nossa apreciação contemporânea idealiza.
É preciso antes de tudo saber que Bach viveu em uma época no qual o conceito de obra de arte musical ainda não regulava nem as práticas musicais e nem a apreciação do público. Como aponta a filósofa Lydia Goehr, J. S. Bach jamais teve a intenção de compor uma obra de arte (Goehr, 2007, XLII). A música ainda não possuía o discurso sacralizador que consagra o objeto artístico como uma criação única, advinda da vontade de uma espécie de semideus criador, o artista. O ser cuja vida é dedicada à sua fé artística e apartada das demandas comuns da vida como um criador cuja obra é a expressão de uma verdade superior é um discurso romântico e ainda não estava presente na mentalidade dos contemporâneos de Bach (Goehr, 2007, p.208). Antes do século XIX, a música era subordinada a uma função específica cujos propósitos ultrapassavam o campo musical e as Cantatas de Bach não são exceção. O próprio comportamento do público numa sala de concertos no século XVIII era completamente diverso do nossos hábitos contemporâneos. Conversas, perambulações pela plateia, pessoas entrando e saindo eram comuns nos concertos naquele século.
Nada, no entanto, nos autoriza simplesmente transportar o comportamento do público de concerto ao comportamento de um fiel num serviço religioso. Isto seria de uma generalização grotesca. O que é curioso, porém, é que outros fatores nos levam a desvendar um cenário que possui muitos paralelos com o comportamento público nas salas de concerto do século XVIII. A nossa compreensão acerca das condições de recepção dos fiéis na época das composições das Cantatas de Bach evoluíram muito com estudos recentes, como os dedicados à compreensão da recepção da música sacra durante a primeira metade do século XVIII em Leipzig, realizado pela musicóloga Tanya Kevorkian, e às transições e transformações da sociedade centro europeia, escrito por Carol K. Baron. Tais estudos nos trazem um painel no mínimo muito curioso.
Leipzig e os frequentadores dos serviços religiosos nos tempos de Bach
Leipzig no século XVIII
Antes de adentrarmos nas questões específicas acerca da receptividade das Cantatas de Bach, é preciso entender um pouco acerca de Leipzig e o intenso turbilhão social que a cidade passava no período. Quando Bach chega em Leipzig no ano de 1723, após perder espaço como músico do príncipe Leopold von Anhalt-Köthen, a cidade era o mais importante centro comercial da Europa central (Kevorkian, 2004, p. 61). A sua população aumentou mais de 50 porcento entre os anos de 1700 a 1750, indo de 21.000 para 60.000 (Baron, 2006, p. 3). O livro de endereços de Leipzig registrava, em 1715, 29 casas de comércio de seda, 13 atacadistas de algodão, três de comércio de vinho e nove casas de câmbio (Rueb, 2001, p.162). Mercadores enriqueceram, erguendo novas casas, colecionando arte e construindo parques públicos. Fora isso, Leipzig era o principal centro de comércio de livros de toda a Europa central, possuindo, em 1700, 18 casas de publicação e livrarias (Baron, 2006, p.5). Além disso, Leipzig possuía uma grande liberdade no que concerne à impressão e distribuição de livros. Durante o período abordado, a venda de livros cuja temática era laica cresceu enormemente e o público alvo passou do especialista ao leigo (Cleve, 2006, p.89).
A vida religiosa também sofria o impacto deste cenário agitado. A religião manteve um papel importante na vida cotidiana da cidade. Quatro novas igrejas foram construídas entre 1698 e 1715 (Kervokian, 2004, p. 65). O público dos serviços religiosos era notável. Apenas nas Igrejas de Saint Thomas e Saint Nicholas, os assentos comportavam em torno de 2.500 pessoas cada. A maioria dos frequentadores vinham de famílias burguesas que possuíam propriedades. A principal divisão social era entre as elites locais (mercadores, conselheiros municipais e suas famílias) e artesãos (padeiros, ferreiros, celeiros e suas famílias). Os tipos de assento e sua localização dentro da igreja obedeciam às respectivas divisões de classe bem como a separação entre mulheres e homens (Kevorkian, 2006, p.175).
As Cantatas de Bach, o comportamento e a atenção do público
Interior da igreja de São Thomas onde muitas Cantatas de Bach foram apresentadas
O serviço religioso era dividido em três partes. Durante a primeira hora, cantos, hinos, leituras de escrituras e uma Cantata eram executados. A segunda parte consistia no sermão, que também possuía a duração de uma hora. A comunhão era preparada, acompanhada de hinos religiosos ou uma Cantata, levando à parte final que consistia de anúncios, orações e benção final (Kevorkian, 2006, p. 175).
A maioria do público chegava durante a primeira hora do serviço, muitas vezes durante a performance de uma cantata. O objetivo de muitos era chegar no início do sermão e sair no final deste, pois este era considerado a parte mais importante de todo o serviço. Segundo Tanya Kevorkian, mesmo Bach chegava muitas vezes atrasado, ainda durante a primeira parte (Kevorkian, 2006, p. 177). Esta parte do serviço cumpria várias funções sociais. Muitas vezes o atraso de membros da elite estava ligado à sua entrada durante o serviço, chamando a atenção para si.
O comportamento do público era variado e surpreendente. Muitas vezes as pessoas ficavam se observando e trocavam cumprimentos com vizinhos e conhecidos que haviam acabado de chegar. Muitas igrejas enfrentavam problemas com relação aos fiéis. Muitos não obedeciam aos sinais de levantar e sentar, e muitos não erguiam as mãos e nem oravam no momento adequado. Estudantes da universidade costumavam cortejar mulheres visitando seus assentos. Muitos jogavam objetos na direção das moças na intenção de chamar as suas atenções, outros jovens faziam barulho no fundo da igreja.
Igreja de São Nicholas
Aqui é importante trazer um parênteses sublinhando o comportamento dos estudantes universitários de Leipzig. A música tomava grande parte do tempo dos estudantes fora das salas de aula. Eles estavam entre os mais talentosos e virtuosos músicos da cidade e eram os principais músicos de orquestra da cidade, trabalhando tanto na casa de ópera quanto nos serviços religiosos de Leipzig, executando muitas das cantatas de Bach. Suas reputações, no entanto, não eram das melhores. Muitas vezes eram associados à distúrbios públicos e confusões com senhorios. Muitos publicavam “literatura escandalosa” e tocavam “música decadente” nas ruas. Era, no entanto, nessas figuras polêmicas que a cidade tinha que depositar sua confiança. Muitos desses músicos estudantes eram, inclusive, auxiliares do Kantor da igreja (Kevorkian, 2004, p. 71).
Muitas coisas podiam, no entanto, também tirar os fiéis da atenção adequada da música e dos textos religiosos. O apelo visual era um deles. A decoração das Igrejas, as vestimentas coloridas, os objetos religiosos reluzentes costumavam tirar a atenção de muitos fiéis. Até a ornamentação do órgão era um motivo para a distração.
A questão do barulho no interior das igrejas, no entanto, nos chama mais a atenção. Como a Cantata era apresentada antes e depois do sermão, muitas pessoas estavam entrando e saindo e conversas paralelas ocorriam. Como aponta Kevorkian, a potência vocal e instrumental da música sacra do período era relativamente pequena. Certamente o barulho de fundo tirava muito da atenção e da capacidade de apreciação da música executada. Para muitas pessoas localizadas longe dos cantores e instrumentos, a música era praticamente inaudível (Kevorkian, 2006, p. 181). Deve-se deixar claro, no entanto, que obviamente, haviam aqueles cuja atenção para o serviço religioso e a música representavam o objetivo final de suas idas à igreja.
Surpreendentemente, a receptividade das Cantatas de Bach pode nos ensinar muito acerca das práticas musicais do período. Ligada a fatores alheios à própria música, a apreciação da música sacra no período dependia de inúmeros fatores externos. É na sala de concerto do século XIX, e não antes disso, que as obras sacras de Bach encontrarão o público atento e devoto da arte musical.
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Referências
BARON C. “Transitions, transformations, reversals: Rethinking Bach’s world, em Bach’s changing worlds: voices in community”, ed. Baron, C. (Sufolk: University of Rochester Press, 2006)
CLEVE, J. “Family Venues and Dysfunctional families: home life in the Moral Weeklies and Commedies of Bach’s Leipzig”, em Bach’s changing worlds: voices in community”, ed. Baron, C. (Sufolk: University of Rochester Press, 2006)
GOEHR, L. The immaginary museum of musical Works. An essay in the philosophy of music. New York: Oxford university press, 2007
KEVORKIAN, T. “The reception of the cantata during Leipzig church services 100-1750”, em Bach’s changing worlds: voices in community”, ed. Baron, C. (Sufolk: University of Rochester Press, 2006)
RUEB, F. 48 variações sobre Bach. São Paulo: Companhia das Letras, 2001
Por Julian Barnes, no The Guardian
Tradução e traições por Milton Ribeiro
Meu herói era um covarde. Ou melhor, muitas vezes considerava-se um covarde. Ou melhor, foi colocado numa posição em que não era possível não ser covarde. Você ou eu teríamos sido covardes em sua posição, pois ser o oposto de um covarde — um herói — seria tolo. Aqueles que se levantaram contra o poder naqueles dias foram mortos e os membros da sua família, amigos e associados foram desonrados, enviados para campos ou executados. Então, ser um covarde era uma escolha sensata.
Ele era Dmitri Dmitrievich Shostakovich, que, mais do que qualquer outro compositor em toda a história da música, sentiu a pressão diária do poder. Ele escreveu sua Primeira Sinfonia em 1926 com a idade de 19; foi um sucesso em todo o mundo; três anos depois, a pessoa a quem a obra era dedicada foi presa e fuzilada. Muita gente morreu. Qualquer um que parecesse remotamente suspeito aos olhos paranoicos de Stálin.
A música de Shostakovich tem estado comigo durante meio século. Hoje, aparecem finalmente suas opiniões, testemunhos e até obras musicais ridicularizando os líderes e a burocracia soviéticas. Ele sofreu muito e passou seus últimos anos de vida desejando a própria morte. Compôs músicas de encomenda, todas de baixa qualidade, deixando o poder divulgar, orgulhoso, verdadeiras porcarias. Tikhon Khrennikov, um puxa-saco do Partido que trabalhava na União dos Compositores, alegou — absurdamente — que o compositor era “um homem alegre, que não tinha nada a temer”. Mas, como diz um ditado russo, o lobo não pode falar do medo das ovelhas. Shostakovich foi muitas vezes ameaçado e tornou-se cauteloso e desconfiado. Foi censuradíssimo e seguiu trabalhando até onde sua saúde permitiu. Realizou alguns desafios calculados que demonstraram sua ojeriza a Stalin. Conversou algumas vezes com ele, enquanto o mesmo Khrennikov literalmente borrou-se nas calças na presença do ditador.
Shostakovich se manteve firme, pagou a César o que lhe era devido — e César era muito exigente naqueles dias –, protegeu a sua família, esperou por dias melhores e desesperou-se enquanto produzia uma obra verdadeiramente sofrida e brilhante. Há mais formas de heroísmo do que as óbvias.
No mesmo mês de abril de 2016, teremos os 400 anos da morte de Miguel de Cervantes (aqui, sobre Shakespeare). Os programadores dos repertórios das orquestras poderiam se ligar. Há menos repertório cervantino do que há para o bardo, mas mesmo assim tem bastante coisa. Não se justifica as orquestras ficarem de fora das comemorações universais dos 400 anos de morte destes dois autores fundamentais.
— Don Quichotte auf der Hochzeit des Camacho, de Telemann, baseado num episódio do romance
— Burlesque de Don Quixote, Overture-suite in G for strings and basso continuo, de Telemann
— Die Hochzeit des Camacho, de Mendelssohn, baseado no mesmo episódio que Telemann usou para sua ópera
— The Comical History of Don Quixote, de Purcell
— Don Quixote, balé de Ludwig Minkus
— Dom Quixote, de Richard Strauss
— Don Quichotte, de Jules Massenet
— Don Quichotte à Dulcinée, de Maurice Ravel
— El retablo de Maese Pedro, de Manuel de Falla
— Quatre Chansons de Don Quichotte, de Jacques Ibert