Finalizamos aqui nossas visitas aos antigos cinemas de Porto Alegre. Não obtivemos todas as fotos necessárias para se façam as comparações entre o então e o agora de cada endereço, mas acreditamos ter feito um bom levantamento acerca da situação daqueles prédios, alguns deles derrubados, outros reformados, reaproveitados ou abandonados.
Sabemos que faltaram algumas salas. O principal motivo é que não encontramos registros fotográficos de alguns cinemas. Em outros casos, havia dúvidas até acerca de seus endereços.
Como curiosidade, vale informar que, para a edição de hoje, nosso fotógrafo estagiário, Bernardo Ribeiro, percorreu, de cinema fantasma em cinema fantasma, exatos 41,5 Km em sua bicicleta.
O cinema Marrocos ficava na Av. Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus, quase esquina com José de Alencar.
Verdadeiramente imenso, azul e absolutamente frio durante o inverno, foi inaugurado em 26 de setembro de 1953. Fechou em 30 de junho de 1994.
Hoje é uma garagem, como vemos abaixo, na foto de nosso leitor Fernando Guimarães.
Além da garagem, há uma farmácia, pequenas lojas e, sobre o velho cinema, um restaurante.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
O Coliseu é de 1915 e ficava na Av. Voluntários da Pátria, esquina com a Pinto Bandeira, junto à Praça Osvaldo Cruz.
Esse prédio lindíssimo era um cinema para 3000 lugares
Hoje abriga a loja Du Pé, além de outras casas e salas comerciais.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
Em 24 de junho de 1914 surgiu o Colombo, na Av. Cristóvão Colombo, nº 1370.
Nada mais resta dele.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
Em 1952, foi aberto cinema Miramar na rua Aparício Borges, nº 2730, quase esquina com av. Bento Gonçalves, bairro Partenon.
O Miramar em 1978
Hoje é uma loja da Piccadilly.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
Em 16 de dezembro de 1957, é inaugurado o Pirajá, na Av. Bento Gonçalves. Fomos informados que ficava na esquina com a rua Teixeira de Freitas, no bairro Partenon e que lá haveria hoje uma loja de ferragens.
Observando a foto abaixo, concluímos que o prédio não ficava exatamente na esquina, mas era o segundo. Aquele cuja foto abaixo só mostra parcialmente, à esquerda. Durante a semana substituiremos a foto.
.oOo.
O cinema Rey abriu em 26 de junho de 1954, na av. Assis Brasil, nº 1894, na Volta do Guerino, bairro Passo D’Areia.
O cinema deixou de funcionar em agosto de 1980. No seu lugar foi construída a loja Empo.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
O cinema Teresópolis é de 1953. Ficava na Av. Teresópolis, 3235.
Em seu lugar, hoje há uma agência da Caixa Econômica Federal.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
Mesmo depois de muitas tentativas, não conseguimos fotos do valente, artístico e sofisticado Palermo, sala do centro da cidade, na Av. Sete de Setembro. O cinema é de 1953 e não sabemos quando foi fechado. Hoje, temos em seu lugar a Garagem Ceres.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
O Mônaco foi efêmero. Iniciou suas atividades em 1958 com Corações em Angústia e fechou em 1960. Não encontramos imagens antigas do Mônaco.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
O Brasil era de 1943 e não há fotos suas. Ficava na Av. Bento Gonçalves, 1960, esquina Cel. Vilagran Cabrita, no Partenon.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
O brioso e duradouro Gioconda permaneceu em atividade entre os anos de 1925 e 1972. Abriu com o pouco comercial nome do bairro: era o Cine Tristeza. Ganhou o nome da obra de da Vinci em 1934. Ficava nas proximidades da rua Armando Barbedo. Inclusive há ali uma rua chamada “Beco do Cinema Gioconda”.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
.oOo.
Finalizamos com o pequeno Tamoio. Nasceu em 1957 no número 2129 da Av. Cavalhada. Casa para 600 lugares, hoje abriga os vazios e as picanhas da boa Churrascaria Kasarão”. Quem entra na churrascaria, logo nota o cinema que ali havia.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21
Os atuais donos projetam imagens de TV na antiga tela.
Édouard Dujardin é o inventor do monólogo interior, também chamado de fluxo de consciência. A técnica, cuja invenção e utilização são normalmente atribuídas a Joyce, foi creditada pelo irlandês a Dujardim (1861-1949), assim como também parte de sua inspiração para escrever Ulysses. E paramos por aí, pois o livro do simbolista francês não tem nada a ver com uma leitura de Joyce. Apesar de ser bem mais que um tuíte, o livro de Dujardin está mais para a curiosidade histórica ou para uma aula de como tudo isso começou. Publicado em 1888, Os loureiros estão cortados (Brejo Editora; 2005; 117 páginas) acompanha os pensamentos de um jovem que, durante seis horas, caminha por Paris à espera de sua amante. A história é interessante, pois o homem morre de medo da bela mulher que o suga financeiramente.
É um bom livro, simples, fácil de ler, mas é arqueologia literária, trampolim para escritores maiores, como Woolf, Faulkner, Joyce e meio mundo. O engraçado é que o autor francês definiu seu achado:
Discurso sem interlocutor e não pronunciado através do qual um personagem exprime seus pensamentos mais íntimos, mais próximos do inconsciente, anteriores a qualquer organização lógica, isto é, no seu estado original, por meio de frases diretas reduzidas à sintaxe mínima, de maneira a dar a impressão de não terem sido elaboradas.
Menos, Dujardin, menos. Quem conseguiu foram outros. Teu texto parece prosa poética. Menos.
Delicioso relato sobre uma das mais frutíferas esquinas de Porto Alegre. No encontro entre as avenidas Osvaldo Aranha e Sarmento Leite, havia quatro bares que eram frequentados por universitários e intelectuais durante as décadas de 60 e 70. Dentre eles, havia um jovem homônimo que por ali esteve em incontáveis noites entre os anos de 1975 e 1982, sempre fiel ao Alaska e a seu garçom Isake, todos abençoados pelo seu Alfredo, que comandava tudo lá do fundo. Esquina Maldita (Libretos, 2012, 215 páginas) analisa cada um dos bares, suas histórias, características e personagens. Considerando o que é hoje a vida cultural de Porto Alegre, pode-se dizer sem exageros que quase todo mundo que hoje tem entre 50 e 70 anos formou-se na Esquina, mais exatamente no Alaska. Como escreve o autor Paulo César Teixeira, havia dois grandes grupos naqueles bares: o dos que pretendiam transformar o mundo e o dos que propunham revolucionar a própria vida. Diria que havia um terceiro, o dos agentes da ditadura, que nos visitavam, revisitavam e revistavam-nos com enorme frequência. Foi uma época da qual não me arrependo.
Minha memória conta que eu ficava entre os dois grupos descritos pelo Paulo. Estava encantado pela recém descoberta liberdade sexual e mobilizado pela necessidade de mudar o país. Muitos de meus parceiros de mesa foram para a luta armada; outros não. O jornalista Carlos Leonam inventou um termo genial para caracterizar “o meu tipinho”: eu fazia parte da esquerda festiva — estudantes, artistas e intelectuais que davam palpites sobre tudo e brigavam com aqueles que tomavam parte em ações contra o regime militar, defendendo outros gêneros de mobilizações. Hoje, ânimo serenado, admito que preferia derrubar o governo em bares e festas, às vezes aos cochichos para que os possíveis ratos não ouvissem, às vezes em brindes ruidosos. Depois, com os anos, as mulheres começaram a aparecer por lá e a expressão de Leonam deveria ser de alguma forma ampliada.
Sim, tergiverso. Afinal, estou aqui é para dizer que Esquina Maldita é uma belíssima crônica de uma época que mudou a cara de Porto Alegre. Talvez isso sirva como espantalho para meus sete leitores, mas confessarei: fui entrevistado durante a pesquisa de Paulo César e estou lá em três trechos.
(Acho que aprendi a falar sobre literatura dentro do Alaska. Saía de lá quase todas as noites discutindo alguma coisa pela Osvaldo Aranha. Lembro de observar, bêbado, as palmeiras ao vento, iluminadas. Lembro de muito mais. Inclusive de discutir Faulkner com uma menina loira nos anos 70. Eu era razoavelmente efetivo porém tímido — ou enrolado. Quando chegamos à aquele ponto onde a Osvaldo Aranha entorta, próximo da Garibaldi, ela me disse para eu parar de falar de Luz em Agosto e de O Som e a Fúria. Em seguida, perguntou quando nós iríamos para “as vias de fato”. Assim era a Esquina Maldita).
Ontem foi a noite de autógrafos do livro — estive lá. Hoje, há o complemento necessário: um pós-lançamento no Bar do Marinho (Sarmento Leite, 964). O evento está recebendo o nome de Confraternização e Homenagem ao Isake, o genial e memorioso garçom do Alaska.
Por Bruno Zortea Advogado e sócio colorado Nº 545.022, matrícula 087125.00
Estamos nos aproximando de uma decisão importantíssima para o Sport Club Internacional. Contudo, esta não passa pelo gramado, nem pelas hoje quase ausentes arquibancadas. Amanhã, quinta-feira (8), os rumos do clube serão decididos nas entranhas do Conselho Deliberativo, onde se dará a disputa entre as três chapas postulantes ao comando do clube no próximo biênio.
O evento de amanhã deveria ser apenas o prólogo da eleição real, aquela em que os associados do clube do povo decidem quem serão os merecedores de conduzirem sua paixão pelos dois anos seguintes. Porém, e há sempre um porém em tudo, corremos o seríssimo risco de vermos este inalienável e sagrado direito de escolha retirado de nós por questão burocrática. Com efeito, a previsão da chamada cláusula de barreira — a qual só dá acesso ao segundo turno a dois candidatos com mais de 25% dos votos no Conselho — visa evitar a participação no pleito final de algum “aventureiro” ou “cabeça-de-bagre” que pretenda apenas aparecer, tumultuar e dificultar a escolha do associado. Por falar em “cabeça-de-bagre”, lembramos que dirigente ruim é como jogador ruim, uma hora acabará jogando e comprometendo.
Entretanto, a meu juízo, não é o que se verifica entre os três postulantes ao cargo máximo do Colorado, vez que são pessoas sabidamente comprometidas com seus projetos para com o Internacional há muitos anos e que representam correntes consolidadas dentro do clube.
A grande questão é a possibilidade de apenas um dos candidatos romper a tal barreira e redundar numa patética eleição indireta, totalmente à revelia das bases democráticas de uma instituição que conta com mais de 100 mil sócios. Ou devemos considerar que o associado é tão somente uma massa de manobra que deve apenas pagar a mensalidade, torcer para que o conselho acerte na escolha e ser posteriormente convocado a apoiar o time de forma incondicional, até quando é derrotado por “rebaixatários” dentro do Beira-Rio?
Contra isso eu me ergo, como devem se insurgir todos os associados, sem procurar desafetos. Não podemos admitir que os escolhidos para o comando do glorioso Internacional não passem pelo crivo do voto direto. Essa eleição precisa ser decidida no pátio. Vivemos uma fase de transição e a próxima direção não pode iniciar a necessária reformulação no elenco sem o respaldo da torcida.
É inegável que muitíssimos erros foram cometidos, que este foi um ano perdido, mas se os dois próximos também o forem, só teremos outra oportunidade de mudar o presidente após a Copa de 2014! O grande problema que viceja no Internacional hoje parece ser uma deletéria mistura de ressaca, continuísmo e conformismo, na expectativa de que alguma solução mágica nos recoloque na senda de vitórias.
Não acredito que o atual modelo de gestão se encontre ultrapassado ou esgotado — pelo contrário, estratégias semelhantes se mostram altamente eficazes em outros clubes — , a questão é que os atuais mandatários não souberam ou não puderam traduzir seus atos e investimentos em um time. Alguém se aventura a lembrar a ultima atuação convincente do Internacional? Estamos tão saturados com o conformismo que já sabemos de antemão as desculpas para os constantes reveses. Ninguém mais aguenta o “pensar jogo a jogo”, as lesões, as convocações, a defesa dos atletas “com biografia”, etc.
As últimas notícias, por exemplo, confirmam a total falta de rumo no comando do futebol: um atleta que há pouco tempo foi nosso capitão (vai entender), hoje se especula que será dispensado; outro que também foi nosso capitão e que estava totalmente fora dos planos — talvez por decisão própria — deve jogar no próximo domingo. Cadê a convicção, onde está a política de futebol? Daqui a pouco deverão começar a falar em grupos dentro do vestiário. Da mesma forma, o modo como foi tratada a questão com a Andrade Gutierrez traduziu-se em meses de angústia da torcida, corneta e exposição negativa de nossa imagem.
Resumindo, a torcida colorada merece, após este ano medíocre, o direito de ir às urnas e indicar por quem pretende torcer, vaiar ou cornetear nos próximos dois anos. O momento é sim de união, mas não entre os diversos movimentos políticos do clube e sim entre este e a sua apaixonada torcida. É preciso que a próxima gestão possua legitimidade, e esta, convenhamos, não advém dos salões acarpetados do conselho, e sim do primitivo cimento do pátio, irmão da arquibancada, onde a torcida tantas vezes se somou ao time em suas conquistas.
Senhores Conselheiros, da mesma forma que não vamos a campo pelos jogadores e sim pela camisa, não iremos às urnas pelos senhores, mas sim pelo glorioso Sport Club Internacional.
Por favor, não nos soneguem a oportunidade desta importante manifestação democrática. Não aprontem mais essa. Segundo turno já!
Faleceu ontem em Nova Iorque o compositor americano Elliot Carter poucos dias antes de completar o seu 104º aniversário. Carter é alguém muito particular: conseguia ser totalmente atonal e manter grande lirismo.
Ele foi extremamente produtivo em seus últimos anos. Publicou mais de 40 obras, entre seus 90 e 100 anos e mais de 14 depois que ele fez 100 em 2008, sem baixar a qualidade. Nas entrevistas abaixo, Carter nos ensina um monte de coisas.
(Trecho de Meus Prêmios – Companhia das Letras, 111 págs. Nada como um agradecimento, digamos, emocionado…):
“Ilustre senhor ministro, ilustres presentes,
Não há nada a louvar, nada a amaldiçoar, nada a condenar, mas muito há de ridículo; tudo é ridículo quando se pensa na morte.
Vai-se pela vida, perturbado, imperturbado, atravessa-se a cena, tudo é intercambiável, escolado em maior ou menor grau no Estado feito de adereços: um equívoco! Compreende-se: um povo sem noção de nada, um belo país – são pais mortos ou de uma conscienciosa inconsciência, gente simplória e vil, com a pobreza de suas necessidades… É tudo uma história pregressa altamente filosófica e insuportável. As épocas são imbecis; o demoníaco em nós, um cárcere pátrio permanente, no qual os elementos da burrice e da falta de consideração se transformaram em necessidade básica cotidiana. O Estado é uma construção condenada para todo o sempre ao fracasso; o povo, à infâmia e à fraqueza mental ininterruptas. A vida é desesperança, na qual se apoiam as filosofias, um desespero que, em última instância, conduz todos à loucura.
Nós somos austríacos, somos apáticos; somos a vida sob a forma de um desinteresse abjeto na vida, somos, no processo da natureza, a megalomania sob a forma de futuro.
Tudo que temos a relatar é que somos deploráveis, presas, pela força da imaginação, de uma monotonia filosófico-econômico-mecanicista.
Um meio cujo fim é o declínio, criaturas da agonia; se algo se explica, não entendemos. Povoamos um trauma, temos medo, temos o direito de ter medo, porque logo vemos, ainda que ao fundo, sem nitidez, os gigantes do medo.
Tudo que pensamos foi pensado depois; o que sentimos é caótico; o que somos não está claro.
Não precisamos nos envergonhar, mas afinal não somos nada e não merecemos nada além do caos.
Em meu nome e em nome dos demais agraciados, agradeço ao júri e, expressamente, a todos os presentes.”
Este blog serve para várias coisas. Há as resenhas, as mulheres, o futebol, o cinema, as provocações e piadas, alguns comentários objetivos, mas quem tem um blog sempre acaba fazendo textos pessoais ou deixando escapar opiniões que jamais externaria em um meio mais formal, como, por exemplo, um jornal. Como minha mãe morreu na quarta-feira passada, 31/10, é natural que faça comentários sobre isso em meu espaço. Quanto mais não seja pela simples razão de que, obviamente, é um dos assuntos mais presentes em meus pensamentos nestes dias.
A morte de minha mãe veio após longa doença e acredito que seu sofrimento deveria ter sido mais curto, ou seja, deveria ter sido dada à família a opção da eutanásia. Ela faleceu aos 85 anos e sofria, desde 2004, de uma doença muito parecida e irmã do Mal de Alzheimer: a Demência por Corpos de Lewy. Vários amigos que tiveram casos de Alzheimer ou de Lewy me alertavam para eu me preparar. Em fevereiro de 2007 — após uma queda em casa — ela passou a não mais caminhar. Também deixou de construir uma frase de mais de quatro palavras, raramente com sentido. Certa vez, chamei-a aqui de “minha bobinha feliz”. Ela vivia uma vida de total dependência, mas parecia satisfeita. Sua grande alegria era comer e nisto não se diferenciava muito de mim… Só que a doença seguia seu devastador curso e ela passou a simplesmente não interagir com as pessoas, até comer comia de olhos fechados. E, a partir de maio de 2011 — um ano e meio atrás — foi-lhe tirada sua única alegria.
Como ela não se dava conta mais de mastigar e engolir, parte do alimento ficava por muito tempo em sua boca e acabava indo para o pulmão. Este passou a funcionar muito mal. A asma eventual que ela sempre teve passou a ser regra. Eram várias nebulizações por dia, mas isso é apenas uma parte do problema. Foi-lhe colocada uma sonda. A comida passou a vir de uma garrafa plástica que ficava no alto de sua cadeira ou da cama e a ela ganhou um tubo de oxigênio para poder respirar.
Ou seja, minha mãe não interagia — foram meses e meses de visitas em que ela ficava de olhos fechados e, quando os abria, não acompanhava as pessoas, nem quando dirigíamos a palavra a ela — , não sentia o gosto de sua derradeira alegria — a comida — e respirava com auxílio de aparelhos. Uma mulher que era um furacão, como escreveu minha mulher no post abaixo, perdera toda a dignidade. Como se não bastasse, volta e meia agitava-se muito e confusamente, pois, apesar do oxigênio auxiliar, tinha fortes crises asmáticas. Seu estado variava entre a completa apatia e zero de interação — suas maiores reações eram à temperatura da água durante o banho — e o sofrimento visível. Tinha a impressão de que ela gostava de ser beijada nas bochechas e na testa, mas é claro que nisto havia muito de desejo meu.
Digam-me, por favor, para que tudo isso? Por que minha mãe teve que sofrer tanto? Sei que não é permitida a eutanásia em nosso país, mas passei os últimos 18 meses querendo que ela fosse sedada e que fosse permitida à natureza agir. Era de opinião que deveriam cessar todas as ações que tivessem como objetivo prolongar sua vida. Todos trabalhavam em torno dela como se ela fosse se recuperar, mas só havia sofrimento naquela pessoa que mal parecia ser a Maria Luiza que conhecíamos. Durante o período, ela foi extremamente bem tratada. O pessoal da Villa Argento fez um trabalho magnífico. Ela passava todo o tempo deitada ou sentada, amarrada para não cair. Apesar disso, recebia tais cuidados que nunca teve escaras ou quaisquer sinais de mau tratamento. Minha irmã e eu sempre concordamos em lhe dar o mesmo que ela sempre nos deu, ou seja, tudo o que fosse possível, mas nunca imaginei aquele cenário. Este era o do sofrimento diário e confuso. Ela devia não entender de onde via a dor, o desconforto e a impossibilidade de respirar.
Para que meus sete leitores tenham uma ideia: na última visita que fiz a ela, acompanhado de minha filha e de minha mulher, ambas saíram de lá chorando. E, na minha opinião, ela estava muito bem naquele dia, respirava sem muito ruído e, bem, era um corpo tranquilo. Só. Como estava acostumado a coisas muito piores — grande agitação e forte asma — estava saindo de lá quase feliz, o que é um conformismo absurdo. Através de minhas acompanhantes, vi o estado de minha mãe.
Mas lhes digo uma coisa: toda vez que ia lá — não ia todos os dias — , mesmo que parecesse normal, acabava o dia em frangalhos. Alguma coisa do que via lá acabava penetrando em mim de tal forma que ia dormir mais cedo. Com certa indignação misturada à ironia (sou assim e não vou mudar), pensava: “hoje fui ver minha plantinha e fiquei desse jeito. Que merda”.
Passei meses desejando que alguém pudesse realizar NÃO um ato que provocasse a morte, mas nenhum que a impedisse. Porém, é claro, a Dra. Maria Luiza foi até o último dia segundo as regras da “ética” vigente. Tal fato tornou seu fim muito mais longo e sofrido para todos, principalmente para ela.
Faleceu hoje, depois de prolongada e dolorosa enfermidade,
a mãe do Milton, minha sogra, Maria Luiza Cunha Ribeiro.
Era uma mulher à frente de seu tempo,
formou-se dentista, quando a profissão era dominada pelo outro sexo,
trabalhou, quando lugar de mulher era em casa,
e certamente chefiava a família, quando o normal era a esposa se submeter.
Eu a conheci quando tinha 75 anos e já estava aposentada,
não era mais o furacão que todos relatavam.
Era generosa, carinhosa e, como todos diziam,
um exemplo de mulher, mãe e profissional.
O velório será na sala 04 do Crematório Metropolitano, na Av. Professor Oscar Pereira, 584, acerimônia de cremação será às 19h.
POEMA DA DESPEDIDA
[Mia Couto]
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.
Brasse era fotógrafo antes da guerra. Por este motivo, foi convocado à tarefa de tirar e revelar fotos dos judeus de Auschwitz. Elas serviam para documentação e controle dos nazistas. O resultado pessoal é que, após a guerra, Brasse teve de largar a profissão. Passou os últimos 67 anos de sua vida sem tocar numa máquina fotográfica. Estava traumatizado.
Quando recomecei a tirar fotos depois da guerra, vi os mortos. Eu estava tirando uma fotografia de uma menina, um retrato comum, mas por trás dela imaginava fantasmas de mortos. Eu vi todos aqueles grandes olhos, aterrorizados, olhando para mim. Eu simplesmente não podia ir em frente.
Poucos sabem aqui, mas eu gosto de tênis tanto quanto de futebol. Ontem, saiu o novo ranking. Roger Federer está com 12.165 pontos contra 11.970 de Novak Djokovic nas últimas 52 semanas. São apenas 165 pontos de diferença, mas há um detalhe que beneficia o sérvio. Em 2012, Nole somou 11.410 pontos, contra 9.255 do suíço. São 2.155 de vantagem, com apenas três torneios restando no calendário: Basileia (500), Paris (1.000) e ATP Finals (1.500). Isto é, Federer tem muitos pontos a defender e provavelmente deixará de ser o número 1 nas próximas semanas. Mas isto é daquelas probabilidades das quais a gente duvida. Federer sempre tira um coelho da cartola, mesmo que Nole esteja voando.
Novak Djokovic
Pois bem, os dois tomaram atitudes diversas. Djokovic não disputou na Basileia, ficou treinando à espera de Federer em Paris. Sua sorte é que Federer não venceu na Basileia, perdendo a final para Del Potro. E agora, alegando cansaço — o que deve ser verdade — , o suíço desistiu de Paris. Ou seja, a estratégia deu certo. Até demais. A atitude tem duas consequências: (1) Na segunda-feira que vem, Djokovic será o novo número 1, pois, haja o que houver em Paris, Federer perderá os pontos parisienses do ano passado para efeito de ranking e (2) Federer usa a estratégia de Djokovic para o contra-ataque: vai descansar, priorizando o ATP Finals de Londres, evento que encerra a temporada do tênis masculino. Ou seja, Federer não está morto, podendo retomar a liderança em Londres. Bonita briga.
Neste domingo, o cantor em cuja certidão de nascimento consta o imenso nome de João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira completa 81 anos. É um aniversário especial, pois coincide com o lançamento do livro João Gilberto, pela Cosac & Naify. Trata-se de um livro inteligente e oportuno — sua principal missão é a desfocar o João Gilberto como homem difícil, esquisito e maniático (palavra que não existe na língua portuguesas mas que faz uma falta tremenda), focalizando o músico, sua importância e originalidade. Já não era sem tempo. O livro não nega as confusões, hesitações, brigas, cancelamentos, nem o estilo de vida do cantor, apenas dá a devida importância a este fatos com os quais o ouvinte não tem contato quando este baiano de Juazeiro pega o violão, senta no banquinho e canta. E encanta, diríamos, em trocadilho que pisa a linha divisória e invade a área do mau gosto.
João, Tom e amigas
É um livro bastante esperado e que já nasce clássico — quanto mais não seja em razão de seu preço. Deverá figurar ao lado de outros clássicos como O Balanço da Bossa (1968), de Augusto de Campos, e Chega de Saudade (1990), de Ruy Castro. O livro da Cosac — lindíssimo, cheio de fotos como um livro de arte, valendo cada centavo de seus R$ 215 (512 páginas) — é organizado por Walter Garcia, professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, sob coordenação dos editores Milton Ohata e Augusto Massi. Dividido em quatro partes, João Gilberto traz ensaios e textos críticos escritos especialmente para o livro. Estes contextualizam a música de João na história da MPB e apontam afinidades entre sua produção e outras áreas da cultura brasileira. A obra também tem a proposta de ser uma compilação, um repositório de tudo o que já se escreveu de importante sobre João e que estava fora de circulação, além de apresentar uma seleção de entrevistas concedidas pelo cantor e reunir depoimentos de pessoas.
Num país onde muita gente não gosta de Elis Regina, por exemplo, por ela ter sido assim ou assado, e despreza João Gilberto por ele ser um ser humano complicado, o livro da Cosac parece ter vindo para equilibrar com ensaios sérios, o volume do farto anedotário que circula a respeito das esquisitices de João — tanto que possui um capítulo “desmitificador” chamado Antianedotário. “Este é um livro a favor”, diz Ohata. “Deixamos em segundo plano as histórias curiosas que aderiram à figura de João. Esqueça o homem que fez o gato se suicidar, que fala no telefone por código Morse, que só sabe reclamar do som e do ar-condicionado, que pede estranhos favores, que passa noites ao telefone, etc. Não por acaso, criamos a seção Antianedotário.
Na busca pela análise da música e das diferenças de João Gilberto, Milton Garcia trouxe o músico e professor Aderbal Duarte para demonstrar como se dá, na pauta musical, a famosa batida criada por João.
O livro leva a peito o que disse Vinicius de Moraes em 1964: “Eu sei que dentro da sua neurose, dentro da sua esquisitice, existe um lugar que ele rega diariamente com as lágrimas que chora por dentro. Um lugar que podemos chamar de Brasil, por exemplo”. Tem toda a razão. João Gilberto jamais deixou de traduzir o Brasil, de modernizá-lo em suas recriações musicais. Mas é complicado convencer o Brasil.
O fundador da bossa nova em ação
João ganhou um violão aos 14 anos e nunca mais largou. Nos anos 40, ouvia de Duke Ellington e Tommy Dorsey a Anjos do Inferno, Dorival Caymmi e Dalva de Oliveira. Aos 18 anos, foi para Salvador para cantar como crooner e logo depois para o Rio de Janeiro, onde fez parte do conjunto vocal Garotos da Lua. Sua história no grupo durou pouco. Cansados de seu comportamento — atrasos, faltas, etc. — os Garotos da Lua o demitiram num momento em que se tornava conhecido.
Em 1958, gravou dois compactos num estilo nunca antes ouvido e que inauguraram a bossa nova: “Chega de Saudade”/”Bim Bom” em julho, e “Desafinado”/”Oba-la-lá” em novembro. No mesmo ano, tinha acompanhado Elizeth Cardoso em duas faixas do LP “Canção do Amor Demais” (“Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e “Outra Vez”, de Tom), considerado outro marco inaugural na história da bossa nova.
As características que mais o notabilizaram foram a maneira de cantar em voa baixa, fugindo da tradição dos cantores do rádio, famosos por seus “vozeirões”. Também a forma de tocar violão traz uma batida diferente, que desloca o acento da tradicional batida de samba. Até hoje, não há concordância a respeito de quando começou a bossa nova. Alguns dizem que foram os compactos de 1958; outros que foi Canção do Amor Demais; outros dizem que foi Chega de Saudade (1959), primeiro disco solo de João Gilberto. Há muitas coisas em comum entre os três fatos: há Tom, Vinícius, mas principalmente há a famosa batida de João Gilberto, presente no violão de todos os trabalhos. Pouco sabem que a faixa-título do disco de João, Chega de Saudade, já aparecia no álbum de Elizeth.
O surgimento de Chega de Saudade marcou uma revolução na música brasileira. Foi um estrondoso sucesso no Brasil — onde os cantores e até mesmo João ainda eram crooners de voz empostada — , lançando a carreira do cantor e de todo o movimento da bossa nova. Além de Chega de Saudade no lado A, o disco — que mais parece uma antologia de clássicos — abria o lado B com Desafinado, de Tom e Newton Mendonça, e ainda continha Brigas nunca mais (Tom e Vinícius), Maria Ninguém (Carlos Lyra), Rosa Morena (Dorival Caymmi) e É luxo só (Ary Barroso), entre outras. Este disco foi seguido de outros dois, em 1960 e 1961, nos quais ele continuou apresentando músicas inétitas de uma nova geração de cantores e compositores, como Carlos Lyra e Roberto Menescal.
A influência de João Gilberto foi fundamental para toda a MPB que veio depois. Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco, até os atuais Fernanda Takai, Luiz Tatit e toda uma geração de cantores de pouca potência vocal são seus rebentos.
Além de hábitos exóticos, João Gilberto e seu violão carregam a música em suas entranhas. Prescidem de distorções, mixagens ou estratégias de engenheiros de som. Perfeccionista, ele percebe qualquer semitom fora do lugar, corrigindo o que pensa ser a surdez de alguns. Seu trabalho é via de regra impecável, dentro do mais alto senso de estilo. João Gilberto possui enorme discografia, porém seu acervo de novas canções cresce lentamente. É que ele vai polindo as velhas canções de parceiros da bossa nova ad infinitum, extraindo novas sonoridades e divisões, sempre surpreendendo.
Vaia de bêbado não vale…
Conta-se muitas histórias — a maioria verdadeiras — de suas excentricidades. O cantor vive recluso, porém passa horas ao telefone durante a madrugada, conversando com amigos. Tem um jeito tranquilo e doce, mas já dispensou subitamente orquestras que ensaiaram com ele para tocar sozinho na hora do show. Também já fez muitas plateias passarem calor por não aceitar que o ar condicionado fosse ligado e costuma passar meses em casa, deixando os amigos preocupados por apenas alimentar-se através de teleentregas… Na noite de inauguração do Credicard Hall foi incompreensivelmente vaiado e chamou os espectadores de bêbados. Talvez seja um chato ou maluco, mas, desculpem, o maluco permanecerá como o maior marco de nossa música.
Obviamente, este comentarista considera pouco profissional cancelar shows subitamente e imotivadamente, mas pensa que não tolerar sons de celulares em shows, cochichos da platéia, ares-condicionados barulhentos ou caixas de som desreguladas não seja exatamente loucura.
Discografia:
Quando Você Recordar/Amar É Bom – 78 rpm single (Todamerica, 1951)
Anjo Cruel/Sem Ela – 78 rpm single (Todamerica, 1951)
Quando Ela Sai/Meia Luz – 78 rpm single (Copacabana, 1952)
Chega de Saudade/Bim Bom – 78 rpm single (Odeon, 1958)
Desafinado/Hô-bá-lá-lá – 78 rpm single (Odeon, 1958)
Chega de Saudade (Odeon, 1959)
O Amor, o Sorriso e a Flor (Odeon, 1960)
João Gilberto (Odeon, 1961)
Brazil’s Brilliant João Gilberto (Capitol, 1961)
João Gilberto Cantando as Músicas do Filme Orfeu do Carnaval (Odeon, 1962)
Boss of the Bossa Nova (Atlantic, 1962)
Bossa Nova at Carnegie Hall (Audo Fidelity, 1962)
The Warm World of João Gilberto (Atlantic, 1963)
Getz/Gilberto (Verve, 1963)
Herbie Mann & João Gilberto (Atlantic, 1965)
Getz/Gilberto vol. 2 (Verve, 1966)
João Gilberto en México (Orfeon, 1970)
João Gilberto (Philips, 1970)
João Gilberto (Polydor, 1973)
The Best of Two Worlds (CBS, 1976)
Amoroso (Warner/WEA, 1977)
Gilberto and Jobim (Capitol, 1977)
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (WEA, 1980)
Brasil (WEA, 1981)
Interpreta Tom Jobim (EMI/Odeon, 1985)
Meditação (EMI, 1985)
Live at the 19th Montreux Jazz Festival (WEA, 1986)
Indicação de Alexandre Constantino. Sol é argentina e há pouco gravou o espetacular CD Duo, com Hélène Grimaud. Para quem tem rudimentos de alemão – eu tenho dois semestres feitos há três décadas no Goethe — , a entrevista após a música é bem legal. Entendi 23% dela, mais ou menos.