Trevas ao meio-dia, editorial da Carta Capital sobre a Veja, por Mino Carta

Encontrado aqui.

Por que a mídia nativa fecha-se em copas diante das relações entre Carlinhos Cachoeira e a revista Veja? O que a induz ao silêncio? O espírito de corpo? Não é o que acontece nos países onde o jornalismo não se confunde com o poder e em vez de servir a este serve ao seu público. Ali os órgãos midiáticos estão atentos aos deslizes deste ou daquele entre seus pares e não hesitam em denunciar a traição aos valores indispensáveis à prática do jornalismo. Trata-se de combater o mal para preservar a saúde de todos. Ou seja, a dignidade da profissão.

O Reino Unido é excelente e atualíssimo exemplo. Estabelecida com absoluta nitidez a diferença entre o sensacionalismo desvairado dos tabloides e o arraigado senso de responsabilidade da mídia tradicional, foi esta que precipitou a CPI habilitada a demolir o castelo britânico de Rupert Murdoch. Isto é, a revelar o comportamento da tropa murdoquiana com o mesmo empenho investigativo reservado à elucidação de qualquer gênero de crime. Não pode haver condão para figuras da laia do magnata midiático australiano e ele está sujeito à expulsão da ilha para o seu bunker nova-iorquino, declarado incapaz de gerir sua empresa.

O Brasil não é o Reino Unido, a gente sabe. A mídia britânica, aberta em leque, representa todas as correntes de pensamento. Aqui, terra dos herdeiros da casa-grande e da senzala, padecemos a presença maciça da mídia do pensamento único. Na hora em que vislumbram a chance, por mais remota, de algum risco, os senhores da casa-grande unem-se na mesma margem, de sorte a manter seu reduto intocado. Nada de mudanças, e que o deus da marcha da família nos abençoe. A corporação é o próprio poder, de sorte a entender liberdade de imprensa como a sua liberdade de divulgar o que bem lhe aprouver. A distorcer, a inventar, a omitir, a mentir. Neste enredo vale acentuar o desempenho da revista Veja. De puríssima marca murdoquiana.

Não que os demais não mandem às favas os princípios mais elementares do jornalismo quando lhes convém. Neste momento, haja vista, omitem a parceria Cachoeira-Policarpo Jr., diretor da sucursal de Veja em Brasília e autor de algumas das mais fantasmagóricas páginas da semanal da Editora Abril, inspiradas e adubadas pelo criminoso, quando não se entregam a alguma pena inspirada à tarefa de tomar-lhe as dores. Veja, entretanto, superou-se em uma série de situações que, em matéria de jornalismo onírico, bateram todos os recordes nacionais e levariam o espelho de Murdoch a murmurar a possibilidade da existência de alguém tão inclinado à mazela quanto ele. E até mais inclinado, quem sabe.

O jornalismo brasileiro sempre serviu à casa-grande, mesmo porque seus donos moravam e moram nela. Roberto Civita, patrão abriliano, é relativamente novo na corporação. Sua editora, fundada pelo pai Victor, nasceu em 1951 e Veja foi lançada em setembro de 1968. De todo modo, a se considerarem suas intermináveis certezas, trata-se de alguém que não se percebe como intruso, e sim como mestre desbravador, divisor de águas, pastor da grei. O sábio que ilumina o caminho. Roberto Civita não se permite dúvidas, mas um companheiro meu na Veja censurada pela ditadura o definia como inventor da lâmpada Skuromatic, aquela que produz a treva ao meio-dia.

Indiscutível é que a Veja tem assumido a dianteira na arte de ignorar princípios. A revista exibe um currículo excepcional neste campo e cabe perguntar qual seria seu momento mais torpe. Talvez aquele em que divulgou uma lista de figurões encabeçada pelo então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, apontados como donos de contas em paraísos fiscais.

Lista fornecida pelo banqueiro Daniel Dantas, especialista no assunto, conforme informação divulgada pela própria Veja. O orelhudo logo desmentiu a revista, a qual, em revide, relatou seus contatos com DD, sem deixar de declinar-lhes hora e local. A questão, como era previsível, dissolveu-se no ar do trópico. Miúda observação: Dantas conta entre seus advogados, ou contou, com Luiz Eduardo Greenhalgh e Márcio Thomaz Bastos, e este é agora defensor de Cachoeira. É o caso de dizer que nenhuma bala seria perdida?

Sim, sim, mesmo os mais eminentes criminosos merecem defesa em juízo, assim como se admite que jornalistas conversem com contraventores. Tudo depende do uso das informações recebidas. Inaceitável é o conluio. A societas sceleris. A bandidagem em comum.

Capa da revista:

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Um Jules e Jim gaúcho?

Matéria 1:

Rosane de Oliveira sobe o tom nas críticas a Tarso

A jornalista Rosane Oliveira, editora de Política do jornal Zero Hora, tem subido o tom nas críticas ao governo do sr. Tarso Genro.

. O caso não é isolado na RBS.

. A RBS está alarmada com os maus sinais que vinha recebendo desde o início do governo, porque seu concorrente, o Correio do Povo, há mais tempo assumiu um tipo de jornalismo político menos alinhado com o Piratini.

A matéria saiu no blog de Políbio Braga, que costuma dizer que este blog é do Eixo do Mal. Porém, um minuto depois:

Matéria 2:

Tarso nomeia Tailor Netto Diniz para chefe de Divisão da secretaria da Cultura

O governador Tarso Genro acaba de nomear o sr. Tailor Netto Diniz para chefe de Divisão, padrão CCE-10, mais gratificação de 50%, na secretaria da Cultura.

. O ato já foi publicado no Diário Oficial.

Políbio não explica mais. O detalhe é que o escritor Tailor Diniz (muito bom, por sinal) é marido de Rosane. Estou curioso para saber como acabará esta história que envolve sexo, paixão e política. Em vez de Jules e Jim, Tailor e Tarso.

Se bem que o nome correto seria Rosane e Tarso, pois o objeto de paixão, a Catherine da história, é Tailor.

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Parte da série 1/2, do artista venezuelano Jesús González

Achei divertido.

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Schumann: Quinteto para Piano, Op.44 II. In modo d'una marcia (ou o tema de Fanny e Alexander)

Complementando o post abaixo, este é o tema de Fanny e Alexander. Feio, né? A gravação abaixo não é nada modesta; são só estrelas: Hélène Grimaud ao piano, Renaud Capuçon e Sayaka Shoji nos violinos, Lars Anders Tomter na viola e Mischa Maisky no cello. Te mete!

Aliás, a bela Hélène Grimaud já foi tema de um Porque hoje é sábado.

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Dia do Trabalho

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O excelente concerto da Ospa de hoje pela manhã

Muito bom iniciar o domingo com um concerto desses:

Ney Rosauro: Concerto para vibrafone e orquestra
Edward Elgar: Concerto para Cello, Op. 85
Nicolai Rimsky-Korsakov: A Grande Páscoa Russa

Fernando Bueno Menino saiu-se maravilhosamente no concerto para vibrafone, a mais contida e melodiosa das obras de Rosauro que conheço. Menino é um jovem percussionista da Orquestra Sinfônica de Santa Maria.

O concerto de Elgar ficou famoso nos anos 60 e início dos 70 por ser a pièce de résistance da violoncelista Jacqueline du Pré, a queridinha dos britânicos na época. O concerto grudou nela de tal forma que quase todos lembram de sua beleza, virtuosismo e da esclerose múltipla que a forçou deixar os palcos aos vinte e oito anos. Anderson Fiorelli não é tão bonito, mas levou muito bem o concerto do qual gosto do primeiro movimento e menos do resto.

A Grande Páscoa Russa foi o final perfeito para um concerto sem pontos baixos. A música ao vivo tem o poder de nos mostrar o motivo pelo qual amamos uma obra. As belas melodias, mas principalmente o dinâmico e colorido arranjo orquestral de Korsakov dão à Páscoa uma sedução que me é irresistível. Excelentes participações de Klaus Volkmann, Augusto Maurer, Omar Trinajstich, José Milton Vieira, Inge Volkmann e de todo o time de metais e percussionistas sob o comando .Manfredo Schmiedt

Sugestões para a série Concertos da Juventude:

— os concertos deveriam ser discretamente didáticos — isto é, com palestras sucintas e bem preparadas para não se tornarem belardianas, Seriam encontros pré-concerto sempre ministradas por algum músico da orquestra, não necessariamente o regente;

— alguma coisinha de etiqueta para o público, explicando de forma bem humorada o ritual concertístico. Afinal, a ideia é boa música + formação, certo?

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Ainda há mulheres de verdade neste mundo:

“Eu perdoaria uma traição do Kaká. E sabe por quê? Porque quando o homem trai, é sinal de que a sua mulher falhou em algum ponto. Eu não estaria dando o necessário. E não falo só de sexo. Falo de carinho, diálogo, cumplicidade. Se eu descobrisse um caso do Kaká, seria complicado, claro. Mas se ele me trair, tenho certeza de que o motivo seria algo de muito errado feito por mim”.

A mulher do Kaká é da igreja Renascer. Indico a todas.

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O blog está sorteando 4 pares de ingressos para Così Fan Tutte, de Mozart

Com exclusividade, imagem e som perfeito, o Cinemark está apresentando a temporada do Royal Opera House de Londres. Tenho ido e vale muito a pena. Prova disso é que as óperas e balés são as sessões com maior público daquele cinema e isto não é um chute, perguntei a eles. Nos próximos dias, em três datas, haverá a apresentação da ópera Così Fan Tutte, de W. A. Mozart. Serão em 28 de abril (sábado) às 14h, em 29 de abril (domingo) às 18h e 3 de maio (quinta) às 19h. Eu estou sorteando 4 pares de ingressos para quem comentar abaixo. Vou sortear o ingresso através do mesmo software que usamos no Sul21, OK? É sorteio mesmo, não tem essa de amiguinho. Os vencedores retirarão seus ingressos no centro de Porto Alegre, aqui na sede do Sul21 onde trabalho. Os sorteios anteriores foram pelo Sul21, mas agora resolvi fazer por aqui num post com menos revisão e responsa.

Ah, fecho a promoção às 18h de hoje.

Mozart escreveu 22 óperas, das quais 5 estão entre as principais do gênero (O Rapto do Serralho, As Bodas de Fígaro, Don Giovanni, Così fan tutte e A Flauta Mágica). Così fan tutte (“Assim fazem todas”) é um conto satírico escrito em parceria com Da Ponte que, testa até seus limites a traição e confiança de dois casais. É possível que dois casais aparentemente fiéis tenham suas vidas afetivas arruinadas por um jogo de traições aparentemente inofensivo? A produção de Jonathan Miller transpõe o século XVIII para os dias de hoje – pois, embora a moda e a tecnologia possam ter mudado bastante desde os dias de Mozart, o comportamento humano permanece tão volúvel e manipulador quanto naquele tempo. Thomas Allen volta ao palco encabeçando um soberbo elenco de cantores, sob a direção do regente alemão Thomas Hengelbrock. O título parece sugerir que esse é o jeito natural de as mulheres se comportarem – ‘Assim Agem Todas’–, mas aqui parece que isso é válido para os homens também. Nessa ópera, muito sofisticada sob todos os pontos de vista, ninguém sai ileso.

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Associação dos Amigos da Ospa: pouco mais de dois dias, 2361 apoiadores

Saiu ontem na Agenda Lírica de Porto Alegre do grande Aury Hilario:

Não foram poucas as vezes que nos manifestamos neste espaço sobre a Associação. Sempre a entendemos um elo importante entre a Orquestra e seu público.

Uma pergunta nunca foi respondida: por que motivo foi extinta?

Aleluia!!!  Esqueçamos isso, porque algo maior e inesperado aconteceu!

Graças ao  extraordinário  poder de agregação  das Redes Sociais,  em  24 horas, no Facebook, 2232 pessoas (isso era ontem à noite) aderiram ao  Grupo ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DA OSPA, cujo objetivo é “APOIAR A  ORQUESTRA SINFÔNICA  DE PORTO ALEGRE  EM SUAS FINALIDADES.”

Ora, se isso não é uma evidência  de que a criação oficial ou a reativação da antiga Associação é atitude que se impõe, então já não entendemos mais nada!

No ritmo atual das adesões, em 1 semana contará com um número tão expressivo de seguidores que,  se  somente  10 por cento se associassem à OSPA, teríamos, além de casa  cheia  nos espetáculos, arrecadação mensal importante para  minorar as históricas deficiências financeiras da entidade.

Senhores da OSPA! Mirem-se no exemplo da Dª Sopher, seu Theatro São Pedro e sua ASSOCIAÇÃO DE AMIGOS!

Aury Hilario

Finalizo dizendo que somos do Movimento dos Melômanos Incondicionais e Opiniáticos e que nossas ações não se limitarão à Internet. Aguardem!

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De Walter Schinke, spalla dos contrabaixos da OSPA

Caro Milton e demais colegas e amigos.

Assim como eu, creio que a grande maioria dos colegas da OSPA não têm absolutamente nada contra críticas aos nossos concertos, nossa programação e até ao nosso desempenho nos concertos. O que eu particularmente gostaria de ver e sentir por parte de nosso público fiel e amante da orquestra é um engajamento maior no sentido de apoiar nossas inúmeras demandas frente aos nossos dirigentes.

Mandem suas críticas e idéias diretamente aos nossos Diretores, Secretários, Presidentes das Fundações e imprensa. Entupam os e-mails deles com seus comentários, sugestões e críticas. Façam que eles se sintam realmente pressionados pelas pessoas que afinal sustentam nosso existir, nosso público! Quem sabe assim teremos mais apoio real para nossas demandas e dessa forma teremos sim uma OSPA muito melhor futuramente! Nos ajudem, esse engajamento de toda sociedade à nosso favor É MUITO IMPORTANTE!!! Uma grande orquestra começa pelo amor e interesse dos cidadãos que clamam e merecem uma qualidade excelente da mesma. Os governantes devem fazer a sua parte, dando todas as condições para que esse trabalho atinja o nível desejado. A maior pressão deve ser feita em cima de nossos governantes que simplesmente não priorizam a cultura nesse estado (o estado do RS tem o de menor orçamento pra cultura do Brasil). Somos sempre a última opção na lista de prioridades, infelizmente.

Apoie a reabertura da Associação dos Amigos da OSPA, aqui.

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A música de Dimitri Cervo hoje à noite

Como se dividir em dois (ou quatro): mitose ou meiose?

Há dias em que parece que todos se combinam para marcar eventos juntos. Vejam o que acontecerá nesta noite:

2) Às 19h30: Fronteiras do Pensamento com o economista Amartya Sen, Nobel de Economia e um dos idealizadores do Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, elaborado pela ONU para avaliar as condições de vida da população nos diversos países.

3) Às 19h: Lançamento do Projeto Simões Lopes Neto, no Centro Cultural Palacinho (Av. Cristóvão Colombo, 300), homenageando o centenário dos Contos Gauchescos.

4) Às 22h: Internacional x Fluminense pela Libertadores da América.

E 1) O compositor e pianista Dimitri Cervo, acompanhado de quarteto de cordas, apresenta-se às 19h, no Música na UFCSPA (acho que a sigla é esta, trata-se da ex-Faculdade Católica de Medicina ali da Sarmento Leite). O quarteto é formado por Elena Romanov e Ariel Polycarpo no violino, por Cosmas Griessen na viola e Philip Mayer ao violoncelo. A entrada é gratuita. Música brasileira e minimalista compõem o programa.

Dimitri Cervo começou a destacar-se nacionalmente em 1995, quando sua Abertura e Toccata recebeu o primeiro prêmio no Concurso de Obras Orquestrais do XV Festival de Londrina e foi executada por cinco orquestras brasileiras. Em 2006, lançou seu CD Toronubá, que recebeu o Açorianos de melhor CD erudito.

Suas obras já foram apresentadas em todos os estados brasileiros, e em países como Estados Unidos, Argentina, Paraguai, Portugal, França, Alemanha, Bulgária, Grécia, Suíça, Noruega, Israel e Sérvia.

O Música na UFCSPA é realizado no Salão Nobre da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, na Av. Sarmento Leite, 245, Centro.

Programa:
— Improviso Sobre temas da Abertura Brasil 2012, (para piano solo)
— Série Brasil 2000 n. 2 – Papaji (para violoncelo e piano)
— Série Brasil 2000 n. 6 – Aiamguabê (para piano e quarteto de cordas)
— Série Brasil 2000 n. 8 – Uguabê (para piano e quarteto de cordas)
— Minimalizei-te Baiãozinho! (para quarteto de cordas)
— Série Brasil 2010 n. 4 (para piano e quarteto de cordas)

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Carros, vapor e velocidade

Se alguém souber de quem é a foto, favor informar (Turner, obrigado pelo título do post).

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Carta aberta ao maestro Tiago Flores

Prezado maestro e demais visitantes.

Na última sexta-feira, publiquei um post bastante curto, quase uma anotação, onde reclamava da programação da OSPA para 2012. Quem acompanha este blog sabe que meus reparos ao repertório vêm de anos e que vou aos concertos da OSPA por amor à música — mesmo que repetida ad nauseaum — e à própria orquestra, a qual assisto desde a memorável noite em que, acompanhado de meu pai, ouvi o maestro Komlós reger a Sétima Sinfonia de Beethoven. Tinha por volta de sete anos de idade e pensei que não poderia haver música mais bela do que aquele segundo movimento. Lembro de ter ficado tão excitado que não conseguia parar quieto nos dançáveis terceiro e quarto movimentos. Naquela noite, algum circuito de meu cérebro foi ligado e eu me tornei um melômano, sim, um melômano fanático capaz de ouvir mais de oito horas de música por dia, de administrar um blog que tem mais de 3000 CDs comentados de forma sucinta, de entrevistar o Secretário de Cultura em seus primeiros dias a fim de lembrá-lo de seu passado como ex-ospista numa tentativa patética de auxiliar com meus pobres argumentos a construção da sede da orquestra e de dar palpites sobre muita coisa, sobretudo a respeito de andamentos de sinfonias…

Meu pequeno texto, se pode ser assim chamado, era uma crítica ao repertório, jamais aos músicos, apesar de que vários deles o tomaram como uma crítica pessoal. Crasso engano. Conheço quase tudo a respeito da orquestra e sei que eles são heróis ensaiando nas piores condições. Visitei a sala de ensaios e torturas da orquestra. Fui apresentado aos anteparos de acrílico que separam os músicos da surdez. Mesmo assim, mesmo sob tais condições e mesmo com o local de concertos estando longe do ideal, o resultado artístico insiste em ser consistente e bom, prova de que as falhas devem ser procuradas em outros fatores.

Dizer que o repertório é monótono é espelhar a realidade. É muita música do período clássico e principalmente dos ROMÂNTICOS do século XIX. Há fixações irritantes e incompreensíveis sobre determinados compositores. Mahler é raro, Bruckner nem se fala, o século XX participa mui discretamente em seus anos iniciais. Este ano, a Ospa mais parece um museu dedicado aos russos da metade do século XX e a Rachmaninov, que viveu depois mas que parece ser de 80 anos antes. Sim, há exceções, mas estas são poucas, muito poucas. Como se não bastassem não há grande disposição em divulgar compositores vivos ou a música brasileira. O desconhecimento e desrespeito à música nacional é tanto que, no dia 17 de novembro de 2009, quando se comemorava (ou se lamentava) o cinquentenário de morte de Villa-Lobos, o programa da OSPA foi:

Novembro, 17, 2009  — 20:30 — 15º Concerto Série Oficial 
Festival Mendelssohn – 200 anos de nascimento
Obras:
Trumpet Ouverture em Dó Maior op.101
Concerto nº 2,em ré menor,op.40,para Violino e Cordas
Sinfonia nº3, op. 56, em lá menor _ “Escocesa”

Solista:Marcio Cecconello
Regente: Karl Martin      
Local:Salão de Atos da UFRGS 

Detalhe: Mendelssohn nasceu em 3 de fevereiro de 1809, não em 17 de novembro, data de Villa-Lobos. Este gênero de descuido ocorreu em 2009, mas poderia repetir-se hoje, tal é o equívoco de orientação de uma orquestra cuja curadoria parece estar sob descuido da restrita Fundação Cultural Pablo Komlós. A orquestra parece não dar importância a seu publico. Vejamos, por exemplo, a OSESP: ela conta não apenas com o apoio do Governo do Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura, e de  patrocinadores privados — até aqui está tudo igual à OSPA — , mas também de um público fiel de 11.353 assinantes para sustentar um projeto que engloba orquestra (109 músicos), coro (60 cantores), coros juvenil e infantil, uma editora de partituras de autores brasileiros, projetos educativos (que atenderam 77 mil crianças e adolescentes em 2010), mediateca (aberta para consulta pública), ciclos de aulas e palestras, e website com podcasts gratuitos, sem falar em mais de 30 CDs lançados. Eles estão em São Paulo, um centro muito maior, porém que deveria nos servir como exemplo. Ah, tenho certeza de que os assinantes são ouvidos. Daqui, eles foram corridos.

Intermezzo: criamos uma Associação de Amigos da OSPA no Facebook. Curta e faça a revolução conosco!

A caixa-preta da Ospa merece ser aberta. A direção artística deve CONSIDERAR o público cada vez mais diminuto em vez de ficar apenas ouvindo e desconsiderando sugestões. Sei que há músicos na orquestra que desconsideram o público como leigo, pensando que apenas músicos possam opinar, mas eu, por exemplo, um mero melômano, tenho sugestões até para os concertos populares.

E muito, muito mais para os chamados “Oficiais”. Vocês, músicos, nem imaginam quanta coisa eu e o público conhecemos. Agora, vamos à conversa que tive hoje à tarde no Facebook. Vejam a vontade que algumas pessoas demonstram de discutir todas as questões de forma civilizada. Elena Romanov, violinista da Ospa, iniciou a conversa sem maiores intenções e a coisa explodiu..

Elena Romanov ao meu amigo Milton Ribeiro.
Estou tentando fantasiar que um jornalista criticou, por exemplo, um filme em seu blog e veio uma longa discussão virtual entre ele e o elenco com desculpas, explicações, ameaças e xingamentos. Ou que criticou um livro e o escritor veio para brigar e “se defender ”online”. Que falta de classe! Gente, isso é simplesmente surreal… cada um tem o direito de criticar as coisas e ter uma opinião. Relaxem!

Claudia De Ávila Antonini Cara Elena Romanov, é que no Brasil não existe crítica, este é que é o problema. Não sei se ainda é um reflexo da ditadura, mas o costume é só elogiar ou ficar quieto, discordar jamais.

Elena Romanov Pior que já percebi isso. Continuo não entendendo porque no caso da programação da orquestra sinfônica não pode haver crítica e no caso do livro/filme pode.

Claudia De Ávila Antonini Mas Elena, na minha opinião há pouquíssima crítica também a livros/filmes. A maioria das críticas que temos, na verdade, fala só do que já está demonstrado ser inevitável criticar, ou seja, algo que já está muito exposto e comentado pela opinião coletiva e que o “não criticar” seria em si uma “omissão vergonhosa” para o crítico.

Francisco Marshall Quem quiser brigar tem que apanhar pra aprender a se comportar! Ora…

Claudia De Ávila Antonini O que temos com isso é a ausência de um pensamento crítico em geral. Todos os que escrevem, atuam, tocam são elogiados. Não vês que há sempre aplausos de pé no final dos concertos? Eu adoro a orquestra, sou a maior fã mas esta unanimidade me soa muito mal. Não seria esta uma atitude reservada para os dias “especiais”?

Claudia De Ávila Antonini Mas meu caro Francisco Marshall, o Milton adora a possibilidade de discutir o assunto, não está nem um pouco triste com os ânimos quentes.

Ricardo Branco Nos falta um pouco a Kritik , no sentido alemão do termo. Emitimos a opinião pessoal e ela pode ser questionada mas não discutida. Neste caso, criticar é uma adesão e não um desabono ao autor.

Elena Romanov Eu, assim como Augusto Maurer, achei as observações do Milton bastante amigáveis, não sei se é porque tenho outra mentalidade…

Claudia De Ávila Antonini É óbvio que foram amigáveis! Ele ama a OSPA, e eu também.

Claudia De Ávila Antonini Aliás, completando, a gente se preocupa, discute, se informa. Até quando das audiências públicas para a sede no Shopping Total estavamos em todas.

Milton Ribeiro Vi só agora teu post Elena Romanov. É verdade. Eu ia responder hoje ao Tiago Flores e a outras pessoas, mas vieram outros assuntos. É claro que nada tenho contra a instituição, critico apenas o repertório repetitivo e conservador. Agora, eu falo  disto aqui e recebo um contra-ataque lá longe, em outro assunto. Isto me coloca numa falsa posição de ataque à OSPA. Ridículo.

Philip Gastal Mayer Opiniões são opiniões, não há o certo e o errado, há a minha impressão e a sua impressão. A coisa começa a ficar perigosa quando a impressão de uma maioria toma ares de “certo”. Sempre defenderei a crítica, ela é a “oposição” necessária para polir e tornar o objeto ainda mais virtuoso.

Francisco Marshall Não podemos viver sem a OSPA, nem ela sem nós, o público, especialmente o público apreciador e culto. Muitos músicos e dirigentes acham, equivocadamente, que a OSPA existe para eles. Errado. Ela existe para a música, para a história da música (passado, presente e futuro) e para as comunidades de profissionais e de ouvintes que podem e querem preservar e se nutrir do patrimônio musical, viciados em arte como nós dessa lista.

Francisco Marshall Os músicos que amam a música, como Elena Romanov e Augusto Maurer, leem as opiniões com o merecido desprendimento não porque são nossos amigos, mas porque amam a música como nós, ou mais.

Francisco Marshall Acho que o Tiago Flores respondeu educadamente, e tentou esclarecer.

Milton Ribeiro Sem dúvida. Mas os músicos me mandam cópias de e-mails trocados e tem gente que me encara como um hooligan.

Francisco Marshall Mas lembro que deixei de pagar o carnê de sócio da OSPA, com pesar, cansado das numerosas repetições de Sherezade, que é uma linda música, mas conservadora pra caramba. Aliás, ainda existe carnê da OSPA?

Francisco Marshall Há que se buscar um equilíbrio entre tradição e vanguarda, o universal e o local. Se tudo for feito com altíssima qualidade, o valor será indisputável sempre.

Milton Ribeiro Como disse alguém, é uma orquestra sem amigos… E que conversa pouco com seu público.

Elena Romanov ‎Francisco Marshall, a minha lógica é a seguinte: o Milton tem muitos seguidores. Talvez alguns deles consideram que a música clássica foi para extinção antes dos dinossauros. “Mas este cara é legal, valoriza as coisas bonitas, tem um humor brilhante… quem sabe, se ele GOSTOU de alguns programas, eu vou também?”
Eu pagaria por uma propaganda dessas =)

Francisco Marshall Eu e Marcos Abreu sempre deploramos esta perda do sentido comunitário da OSPA, que foi um erro de gestão catastróffco.

Philip Gastal Mayer Perfeito Elena Romanov!

Francisco Marshall Eu acho que os seguidores do Milton Ribeiro, eu incluso. acreditamos apenas que os dinossauros foram extintos, talvez até mesmo por não terem música clássica!

Marcos Abreu Acho que o Francisco Marshall se refere aos “amigos”. Sempre falo e volto a repetir, acho que a OSPA precisa de uma Associação de amigos reais, participantes, atuantes, contribuintes. Todas as orquestras são assim. Afinal, fidelização de clientes é o “trend” do momento. Vejamos que ela tem 1418 curtindo a página, mais 5000 no perfil, 6418 pessoas que curtiram, marcaram, sei lá qual a idéia, mas aposto que menos de 5% sabem do que se trata ou frequentam os concertos. Além do que, nada contribuem além de um click no facebook.

Augusto Maurer Fico feliz por ter ateado fogo a esta auspiciosa e bem frequentada discussão. A parte sobre a burrice de toda unanimidade logo me fez lembrar de

Augusto Maurer ‎Milton Ribeiro: o que esperas para promover isto a post? (o face ainda acarretará a extinção dos blogs) / Francisco Marshall: onde posso ler os esclarecimentos prestados pelo Tiago.

Claudia De Ávila Antonini Apoio totalmente o Marcos Abreu, me deu até vontade de criar uma página “Eu quero ser amiga(a) da OSPA” para reunir interessados e peticionar ao governador, secretário de cultura, presidente e direitores da OSPA para que volte a haver este instrumento democrático de participação do público.

Francisco Marshall Lembro que no debate sobre o horrendo projeto arquitetônico da nova sala, no Caderno de Cultura ZH, respondendo a Maturino Luz, o presidente da FOSPA, Ivo Nesralla, afirmou, entre outras coisas, que a FOSPA é uma autarquia que não devia satisfações à opinião pública. Sintoma claro do que aqui comentamos. Quando e como foi sucateada a Associação de Amigos da OSPA?

Milton Ribeiro Penso que a OSPA mereça melhores cuidados de seus gestores. A criação de uma Associação de Amigos é fundamental por dois motivos: (1) a fidelização e (2) o feedback. Não entendo uma instituição que não dialogue e sei que a OSPA tem entre seus membros verdadeiros apologistas do não-diálogo. Conheço muita gente que teria contribuições a dar. E, sobre o mau repertório, estou cada vez mais tranquilo. Tenho recebido vários e-mails de músicos da OSPA me apoiando. Recebi inclusive um pequeno estudo de repetições de programação, inclusive lembrando o grande dia em que Villa-Lobos completava uma data redonda e foi programado um Festival Mendelssohn. O problema é que eles não querem se identificar. Vá entender!

Francisco Marshall Hehehehe, está em um texto postado em um link do Milton Ribeiro que conta com o teu “curtir”, caro Augusto Maurer:

Francisco Marshall Quantas vezes a OSPA executou a linda fantasia coral de Beethoven com Ney Fialkow?

Francisco Marshall ‎Augusto Maurer, isso foi o que defendi naquele artigo, lembras?

Milton Ribeiro Outra coisa que todas a maioria das orquestras do mundo fazem é música de câmara, normalmente programadas para logo após o intervalo com, obviamente, um efetivo menor de músicos. No caso da OSPA, haveria um ganho secundário: aliviaria um pouco os os músicos dos ensurdecedores ensaios no cais do porto, além de abrir caminho para um repertório imenso e de qualidade. E nem vou falar na valorização dos músicos envolvidos.

Francisco Marshall Eu ofereci o StudioClio ao Dr. Nesralla para agendas de música de câmara, ele gostou da ideia, mas nunca fomos em frente. Independentemente disso, músicos da OSPA formam a elite concertante na agenda de música de câmara do StudioClio. Nós poderíamos realizar também notas de concerto, previamente, ampliando a divulgação, a compreensão e a mobilização para cada concerto. Uma AAOSPA cuidaria disso com uma mão nas costas.

Milton Ribeiro ‎Augusto Maurer, mostra esses argumentos todos para o Tiago Flores. Até para tirar meu estigma de INIMIGO DA INSTITUIÇÃO.

Francisco Marshall Não há esse estigma, Milton Ribeiro, tenho certeza. Aliás, no teu post no Sul21 foi só uma musicista que se manifestou exasperada, estatisticamente irrelevante.

Francisco Marshall Bueno, fratres, com tudo isso, acho que a revolução se aproxima! Tomada pelas letras e ideias!

Milton Ribeiro Vou transformar em post hoje à noite, se tiver tempo. Não vou querer perder esta discussão

Augusto Maurer Ansioso por compartilhar, Milton Ribeiro, com a ressalva de que NÃO FUI EU ! Pois adoro riscar fósforos em tanques de gasolina.

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Isso eu nunca tinha visto — acho melhor o DoRival e o Bolívar se cuidarem…

Ontem, minha cara-metade me chamou para assistir uma matéria espantosa na RAI. Era o mais inusitado dos fatos. O capitão do Genoa recolhia as camisetas de seus companheiros, uma a uma, a pedido da torcida. Só que havia alguns detalhes a entender. O jogo estava no início do segundo tempo e a atitude apoiava-se num pedido da torcida, que, indignada, dizia que aqueles jogadores eram indignos de vestir a camisa do clube e pediam que eles entregassem as camisetas, uma por uma.

Tudo isso aconteceu em Gênova, no Estádio Luigi Ferraris. A manifestação das arquibancadas começou aos 8 do segundo tempo, quando o Genoa era goleado por 4 a 0  pelo Siena e o técnico Alberto Malesani, do Genoa, tinha cometido colocar o zagueiro Kaladze no lugar do atacante Sculli, certamente para não tomar ainda mais gols. Os “ultras” começaram a atirar fogos de artifício e rojões no gramado, causando a interrupção do jogo em razão da fumaça no gramado e do medo de alguns jogadores do Genoa de serem atingidos. O impasse durou 40 minutos. O capitão Rossi recolheu as camisas, mas o atacante Sculli subiu corajosamente as arquibancadas para dizer que não retiraria a sua e que o time deveria seguir jogando. Com medo, os outros jogadores entregaram suas camisas a Rossi, enquanto a torcida ameaçava invadir o campo.

Apesar da manifestação ter ocorrido bem acima da porta do visitante e do árbitro, os torcedores não incomodaram os jogadores do Siena, nem a arbitragem. Os torcedores estavam (devem estar ainda) nervosos e irritados com a ameaça de rebaixamento no Campeonato Italiano. Com os ânimos mais ou menos acalmados, o árbitro retomou a partida normalmente. O Genoa conseguiu fazer um golzinho no final, descontar para 4 x 1.

O gol, contudo, não mudou a situação perigosa do time na tabela. O Genoa soma apenas 36 pontos, um a mais que o Lecce, o primeiro na zona de rebaixamento, faltando apenas cinco rodadas para o fim do campeonato.

Acho que deveríamos fazer o mesmo para pedir a saída do técnico DoRival e de Bolívar, para começar.

Obs.: À noite, logo após a partida, o Genoa demitiu o técnico Alberto Malesani. O clube contratou Luigi De Canio para as últimas cinco rodadas no Campeonato Italiano.

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Hollande, Sarkozy, mas principalmente o fascismo de Le Pen

Le Pen: fascismo em alta na França.

Estive na França durante o ano passado. Foi apena uma semana, uma maravilhosa semana em novembro, mas vocês sabem, viajar a um outro país é estar com a sensibilidade à flor da pele. Recém saído da tranquila Inglaterra, a situação na França me pareceu tão pesada quanto a medonha Igreja de la Madeleine. Havia visível tensão social. Imigrantes eram procurados nos metrôs e mesmo o pessoal da esquerda reclamava da presença de árabes e africanos por todo lado. Muitos franceses diziam que “os negros não gostam de nós e os árabes são muito diferentes”. Quando aparecia alguém estuprando e matando — fatos que ainda causam surpresa na França — , os franceses conjeturavam se o culpado seria um negro indignado ou árabe fundamentalista. Era um ambiente propício à direita, obviamente, e, quando diziam que Mélenchon subia nas pesquisas encostando em Le Pen, eu pensava que tudo tinha mudado rapidamente em poucas semanas. Só que não tinha mudado.

O socialista Holande ganhou por 1,4%, aproximadamente. Sarkozy saiu-se melhor do é com 27,18%. Mélenchon sumiu com seus 11,1%. E Marine Le Pen, da extrema-direita, obteve 17,9% dos votos. Pois é. Aí está o fato principal destas eleições. Quando a extrema-direita xenófoba consegue mobilizar quase vinte por cento do eleitorado de um país como a França, algo vai mal. De 2007 e 2012, Le Pen quase duplicou a votação. A abstenção foi de 19%, superior à de 2007.

Se, no segundo turno, em 6 de Maio, Hollande acrescentar a seu percentual todos os votos da esquerda e extrema-esquerda (Mélenchon, Joly, Poutou e Arthaud), obterá 43,76% dos votos. Por seu turno, se os votos de Le Pen forem todos para Sarkozy, o atual presidente ficará com 45,08%.

Portanto, quem vai decidir a eleição é o eleitorado da centro-direita de François Bayrou (9,13%) e dos nanicos Dupont-Aignan (gaulista, 1,79%) e Cheminade (um católico que obteve 0,25%). Estes três candidatos somam 11,17%. O desfecho dependerá da percentagem que se deslocar para Hollande ou Sarkozy. Segundo pesquisa do instituto Ifop, 83% dos eleitores de Mélenchon votarão em Hollande, os de Bayrou iriam 38% para Hollande e 32% para Sarkozy e os de Le Pen, 48% para Sarkozy, 31 para Hollande e 21 não votariam ou votariam em branco.

Ou seja, tudo está em aberto e mesmo Sarkozy pode seguir no cargo.  Afinal, Hollande é um baita chato e tudo conta numa final apertada.

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Intolerância religiosa

De Dráuzio Varela, o qual não conhecia, mas com o qual concordo de cabo a rabo no artigo abaixo

O fervor religioso é uma arma assustadora, disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso

SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.

Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.

Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.

O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.

Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

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Eu não entendo a OSPA

(Anotações para minha agenda)

Fiquei estarrecido ao ler atentamente a programação da OSPA até o mês de setembro. Nenhum Mahler, nenhum Shostakovich, nada de Bartók, só para dar alguns exemplos, poucos autores estreantes e brasileiros e raros programas com obras realmente diferentes. Ignoro quem faz a programação, mas sei que é alguém muito conservador, quem sabe um chato.

Os programas dos quais gostei são quatro. No dia 29 de abril, um domingo, às 11h, há um Concerto para Juventude que achei interessante:

Elgar: Concerto para Cello, Op. 85
Ney Rosauro: Concerto para vibrafone e orquestra
Rimsky-Korsakov: A Grande Páscoa Russa

Ouço bastante as coisas do Rosauro e tenho uma estranha tara pela Grande Páscoa Russa. Depois, lá em 5 de junho, às 20h30, há a Missa Solene de Beethoven. O único problema é que será lá na Igreja da Ressurreição, onde os fiéis, em seu desespero pela salvação, aceitam sentar em cruéis bancos de madeira. Como meu Para encarar, almofada é o mínimo.

Ludwig van Beethoven: Missa Solene, Op. 123 em Ré Maior

Uma semana depois (12/6), voltamos ao Auditório da Reitoria da UFRGS para um bom programa:

Aaron Copland: El Salon Mexico
Richard Strauss: Quatro Últimas Canções (Vier Letzte Lieder) <—
Sergei Prokofiev: Sinfonia nº 1 (Clássica), Op. 25
Igor Gandarias (Guatemala): Desde la Infancia
César Guerra-Peixe: Museu da Inconfidencia

E, no fim do mês, no dia 26/6, novamente na UFRGS, mais um dos bons:

Maurice Ravel: Alborada Del Gracioso
Jaques Ibert: Concerto para Flauta
Claude Debussy: Prelude a L´après Midi dun Faune
Claude Debussy: La Mer

Em 3 de julho, há outro quase só francês e bem legal

Maurice Ravel: Tzigane – Rapsódia para Violino e Orquestra
Camile Saint-Saëns: Introduction et Rondeau Capriccioso, Op. 28
Mussorgski (Ravel): Quadros de uma Exposição

Depois, até setembro, nada me seduziu. Há uma verdadeira epidemia de Tchaikovskis e Rachmaninoffs, compositor que parece estar recebendo uma bisonha homenagem este ano. Mas não é seu centenário nem nada. Já imaginaram se fosse?

P.S.– Vitor Necchi entra em campo para dizer que há um Mahler (a Sinfonia Nº 7) em novembro. Erro nosso.

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Duas grandes homenagens ao Índio

Sempre ao lado das minorias e buscando vencer a barreira do conservadorismo da sociedade brasileira, este blog tem defendido sem tréguas o indígena do Brasil. Devemos sempre lembrar que os índios já habitavam nosso país quando os portugueses aqui chegaram em 1500. Desde aquela data, o que vimos foi o desrespeito e a diminuição das populações indígenas. Este processo ainda ocorre, pois com a mineração e a exploração dos recursos naturais, muitos povos indígenas ainda estão perdendo suas terras. Desta forma, deixamos duas imagens cuja pujança e emotividade conquistará os visitantes deste pequeno órgão.

Baita cocar de uma mulher Seioux.
Feliz Dia do Índio!

* A segunda imagem foi roubada de José Luiz Rosa Filho, no Facebook. A primeira veio de nosso banco de imagens particular.

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Uma reação à música

Quando li Alucinações Musicais, do neurologista Oliver Sacks, fiquei impressionado com algumas reações que as pessoas têm à música, mas muito mais com a amusia — da qual decididamente não sofro — e com as pessoas que procuram ouvir músicas complexas em sua cabeça, meu caso, chegando a contar o “tempo de execução” para conferir se não faltou nada… Eu fazia isso com sinfonias de Bruckner, em primeiro lugar por serem longuíssimas e, em segundo lugar, por terem temas muito diferentes, o que para mim representava uma dificuldade a mais. Se não posso apresentar autocomprovações de ter executado a 7ª Sinfonia de Bruckner mais ou menos no mesmo tempo que Haitink faz com o Concertgebouw de Amsterdam, Sacks consegue demonstrar o efeito da música sobre o homem abaixo, um apaixonado por Cab Calloway. Eu adoraria ver também aquele pianista cujo Parkinson cessava assim que conseguisse tocar algo correto no piano. Vejam o filme abaixo que me foi apresentado por meu filho Bernardo (atenção para os olhos dele antes e depois):

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