A Pior das Notícias

Publicado em 14 de janeiro de 2007

Amigos.

Através de um post e de um e-mail de Paulo José Miranda – seu grande amigo, com o qual ela conversava todos os dias e que abandonou a blogosfera para estar mais tempo com – ela, fiquei sabendo que nossa queridíssima amiga Meg, a Maria Elisa Guimarães do blog Sub Rosa, deixou-nos esta noite após uma hospitalização de vários meses. É uma notícia inacreditável, da qual ainda não consigo ou desejo me convencer totalmente.

A última vez que ela me escreveu, em 30 de dezembro, foi da forma mais alegre possível:

Querido.

Teus bombons – DE CASTANHA, Mirto – estão lá em Belém, esperando que te mandem. Beijos, beijos. E escrevi em comentário de blog que sou igualzinha a ti. Não curto Natal e fico assanhada no Ano Novo.

QUE SEJA O MELHOR DE TODOS até o fim e dê lugar a outro mais e mais feliz, quando a Claudia e tu engravidarão e o filhote sairá. Eu mando esses desejos de fada.

Meguita
beijos

Estou inconsolável.

O Paulo – certamente o melhor, o mais leal, sábio e compreensivo dos amigos dos últimos dias da Meg (*) – pede para avisar:

Milton.
Às 14h00m e às 20h00m, no Brasil,
vai haver duas missas em intenção da Meg.
Se puderes partilha uns momentos conosco.
Ela vai gostar.

abraços
Paulo José Miranda

Gostaria de convidar os muitos amigos da Meg para uma postagem coletiva no próximo dia 23. O assunto pode ser a própria Meg ou algo de que ela gostasse. Faço um pedido aos que postarem: deixem um comentário no Sub Rosa a fim de que possamos encontrar todos os posts.

Chega, não consigo escrever mais.

(*) A Internet, que nos faz estar tão perto e tão longe do cotidiano das pessoas, a ponto de ignorarmos seus reais vínculos, deixa margem a que o Paulo José Miranda me corrija:

Mas a Meg não era só minha amiga.
Era minha mulher.
É minha mulher.

Comentários:

Conheci a Meg há uns 5 anos atrás. Criei um blog, quando ela fechou o Subrosa, em 2003, chamado VoltaMeg que circulou até 2005. Sentirei muitas saudades da minha doce Meg. Abraços
Alvaro

Ola, Milton, parece nunca tive oportunidade de conversasr com voce. Terei tido? Meu nome eh Tereza Quetzal e sou da familia da Meg (sabendo da velha blague:cunhando nao eh parente, inda menos ex-cunhado) Queria escrever em todos os blogs cujos donos escreveram para ela, e ainda até hoje têm uma palavra de apoio. De imenso carinho. Claro que fico atónita diante de pessoas, cuja reação foi realmente a que ela imginava rs.. Mas ela não se arrepende. Au contrário. Creio que vc sabe que ela era sua admiradora numero 1 e o pacote inclui blog e escritor do blog. Sem esquecer que ela sempre achou vc bamba (BAMBA) como escritor. Repito two times para não condundir.lol E third of all, ela acha um trabalho nunca visto antes e que eh esse: É você tambem responsável por difusao incrivel um tabalho onde poe grande parte da sua inteligencia, alma e coracao nas músicas eruditas, uma verdadeira Educacao Musical. Nao, ela diria melhor, se eu puder escrevo um email para voce. Methinks, just me, que Meg sempre esteve certa em relacao a vc e não sei se mortos veem, mas diremos para ela: Olhe, tudo o que Milton deseja, e mais tudo que vc deseja pro Milton vieram (come true)realidade total. Ela jamais fez mal para alguém, ao contrário dizia: “Hoje fazer o bem a alguém é fazer mal, ele nunca esquecera quando estiver em cima que ja precisou de vc..” lol. Só entrava em lugares livres para ela assim como seu (your) coracao. Não imagina o quanto riram ela e o Paulo, e eu depois, quando vc a chamou de ASSANHADA. Eu tambem. PS agora ou amanha tenho que ir a Li Stoducto (uma das mulheres mais belas do Rio de Janeiro, assim disse)

Tereza Quetzal

Fiquei arrasada, Milton… Acabei de saber.

Alma

DO OUTRO LADO DO RIO by Ramiro Conceição À memória da Meg Talvez do outro lado rio, o dia esteja alegre! e assim compense a tristeza de cá… Talvez do outro lado, apareça a lucidez que lave e leve bravamente a insensatez da dor deixada pelo Amor que precisou partir ao outro lado… Talvez, Lá, comece tudo novamente pra voltar pra Cá. Talvez tudo tenha somente um lado e, assim, MORTOS E VIVOS façam parte dum Universo sem lados! Talvez, Lá, a morte seja a vida… E, Cá, a nossa vida seja, Lá, batizada de morte… Quem realmente sabe sobre a imensidão entre Lá e Cá? É, sempre efêmeros estagiários, sempre aprendizes de Lá e Cá, sempre laicos da existência seremos! É muito interessante, pois quando chegamos Cá ou Lá: pousamos sempre — calados! Cá: um tapinha… nos faz gritar e chorar! Mas, e lá? Talvez um tapinha na alma… nos faça voar! Mas pra onde? Para as plagas primaveris dos querubins benditos ou para àquelas outonais dos tempos das colheitas dos frutos apodrecidos? Quem realmente sabe o que acontece entre Lá e Cá? Humanidade, Humanidade, Humildade! Tanto Lá quanto Cá — somos laicos! Tanto Cá quanto Lá — “nascemos” calados!

Ramiro Conceição

Conheci a Meg através da lista das Artémis e logo me apercebi da paixão dela por Portugal onde viveu e entusiasmada que era por poesia e sentimentos nobres ligou daí para mim uma noite. Não esqueço a sua voz. A Meg era uma referência de qualidade na Blogiosfera e um enorme coração…Uma ponte de afabilidade entre as pessoas… Ela será sempre a SUBROSA… rosa leonor

rosa leonor

Bela a frase da Magaly. Lembremos da Meg, sempre com carinho, admiração e amor, pelo tempo que ainda temos pela frente…

Inagaki

De novo, eu nos teus comentários, Milton. Sorry! Mas é que o comentário repetido sem intenção pela Magaly, acabou ficando bonito. É como uma prece. Beijos.

Ane Aguirre

Milton Houve um erro de colagem em meu comentário. Fiz pelo teclado e ele repetiu umas 12 vezes o mesmo trecho. Desculpe-me , não queria enfear seu sistema de comentário. Estou nervosa Não quero vezes, Faça-me o favor de remover as repetições ou removê=lo odo assim como este

Magaly

Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.Mílton, demo-nos as mãos e as ergamos em homenagem a essa companheira sem igual por todas as suas qualidades e virtudes e vibremos por ela pelo tempo que temos pela frente.

Magaly

Meg Hiper-Rosa. Saudades.

gugala

Eu talvez tenha sido eu o ultimo amigão que a ,já querida Meg, fez ha poucos dias!Vou contar tudo no meu BLOG. Farei hoje uma homenagem e dia 23 com certeza outra!Estou sem palavras e chocado!

Eduardo

Infelizmente não tive tempo de conhecê-la. mas vejo que era uma alma iluminada, generosa em compartilhar o que sabia com todo mundo. vai fazer falta.

Serbon

Puxa, Milton… Tudo é tão delicado nesses momentos, mas sou obrigada a concordar com o Sergio. Desculpe-me. Talvez eu mesma não tenha entendido. Eu queria escrever algo sobre Meg e tenho medo da minha sinceridade. Às vezes, falar demais é bobagem. Falo demais agora. Beijo. Fica bem.

Ane Aguirre

Estava acompanhando em silêncio respeitoso a notícia da mudança de plano da Meg, sabidamente uma pessoa querida por muitos. Eu costumava discordar de muita coisa que ela dizia e tivemos ótimas discussões. Eu ria muito ao implicar com ela e durante bom tempo, trocamos vários e-mails onde ela tentava explicar seus pontos de vista. Mulher inteligente, amável e culta, certamente continuará mandando suas dicas, onde quer que esteja. Interrompi meu silêncio em função desse comentário do Ramiro, que aparentemente não entendeu o que aconteceu. Se fosse no meu blog, eu deletava. “For God’s sake!” Forte abraço.

Sergio Fonseca

Nossa, que tristeza. Obrigada pelo post. Eu não sabia de nada. Que a meg fique em paz.

Maria Fabriani

Milton, conheci a Meg há pouco tempo. Ela ia ao Bala de vez em quando e era sempre muito simpática. Eu soube através do Aomirante. Chocado é pouco para o que estou sentindo. Vou deixar um comentário lá abração

JULIO CESAR CORRÊA

Ah Milton… saudasdes da nossa amiga, de conversar com ela por telefone, por seu carinho, cuidado e brilho…. claro, vou homenageá-la dia 23, claro… beijo, querido

Quel

Que triste.

hermenauta

Será um de meus maiores arrependimentos da vida não me haver movido a tempo de conhecê-la em pessoa, ou “in natura” como lembro que disse a ela no primeiro e-mail que trocamos, já tentando driblar as barreiras de distância que a internet apenas muito ilusoriamente faz que dribla. Não só a voz nos trai, a nossa própria palermice o faz de modo ainda bem mais incisivo e dolorido…

[Anonymous]

Acabei de saber, Milton… Todos os que sabíamos da situação dela estávamos ciente de que poderia acontecer a qualquer hora. E isso todavia não significa o menor alívio ou consolo. Acho que só nos resta permanecer “remetidos à nossa própria sombra”, para citar o último post-homenagem do Paulo em “A voz que nos trai”. E até quando não sei.

Luigi

Recebi dois emails da Meg, datados de sábado, às 20h, um com “Take de walk on the wild side” (do Lou Reed que ela ama) e outro com “The passanger” (com o Bowie, sua outra paixão) – que abri e estava ouvindo agora quando entro no blog do Cals e soube. E agora? me fugiu o chão

claudio boczon

Algo que ela gostasse? O verbo, amor dela, amor nosso. Abre para tudo. Preito, sim, sem espartilho. Dia 23.

João Sedas Nunes

Caro Milton Deus-do-céu! Não quero acreditar em uma notícia dessas. Meg era queridíssima amiga. Foi em Belém, Milton? Ontem à noite? Que triste notícia, meu amigo. Vou colocar uma nota no blog do Globo. Abs Gravatá

Luiz Gravatá

Estou chocada e sinto muito. Mesmo.

Silvia Chueire

Oi, Milton, estou desolado! Nunca conheci a Meg pessoalmente, mas era como se a conhecesse. Sempre tivemos corpondências, via blogues ou e-mails, dos mais afetuosos. Pra mim, uma grande amiga, muito mais do que virtual. Fiquei “chapado” com essa notícia, sobretudo pela coragem e ânimo da Meguita, que sempre soube suportar sua doença de forma elevada. De tal forma que nunca a imaginei em alguma situação mais dolorosa. Dificil, dificilimo, escrever esse comentário! Muita tristeza! Abraço, desconsolado, amigo! fernando cals

fernando cals

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Para aprender e cantar

Temos até quarta-feira para isso. A letra é fácil!

Há cinco grandes times argentinos fora da Libertadores: Boca, River, Racing, San Lorenzo e Grêmio.

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E a melhor canção dos Beatles vai para…

… Bem, quem me conhece sabe que eu guardo extremado amor por umas 60, talvez 100 músicas dos Beatles. Mas se eu — após horas de tortura — fosse obrigado a escolher 5, ficaria com duas de Paul, For no one e She`s leaving home, duas de John, as típicas I`m the walrus e Rain, e uma de George, While my guitar gently weeps. Porém, se meu torturador ameaçasse enfiar um arame em minha uretra se eu não dissesse uma e apenas uma canção, eu gritaria a plenos pulmões que a melhor é While my guitar gently weeps! Isso hoje, né? Amanhã, posso gostar mais de outra, sei lá.

O filme abaixo mostra While my guitar gently weeps num daqueles eventos pós-morte de Harrison. Ignoro quem sejam todos eles, mas digo que quem canta mal no início é Tom Petty, quem salva com brilhantismo o vocal é o ex-Electric Light Orchestra Jeff Lynne, há Paul McCartney nos teclados, além do filho de George, Dhani Harrison, e há principalmente Prince, que finaliza tudo com um solo de guitarra que beira a falta de educação, se pensarmos que ele estava num evento-velório… Ou não há nada disso? Confiram aí! É um belo solo do anão de Minneapolis.

Ou clique aqui.

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Escrito no dia seguinte ao do aniversário de Jean-Luc Godard, para o blog de Milton Ribeiro:

Por Fernando Monteiro

Anna Karina o tempo todo em cena, quase sempre em PP, aqui nessa sequência de abruptos luscos-fuscos de “Alphaville” (1965):

Ou clique aqui.

PS: Quando era jovem e impaciente (e burro), eu detestei. Hoje, adoro. E gostaria de voltar a ver filmes assim solenes e comovidos e nervosos, em preto-e-branco, e não essas porras de agora, filmadas em rodas gigantes descarrilhadas que os americanos débeis mentais trouxeram para o cinema como uma praga (e todo mundo da geração de Coppola / Scorcese tem culpa, de algum modo, sem esquecer o cretino do diluidor Spielberg, e aquelas manhas murmuradas por Woody Allen como se Bergman fosse um “exu” que ele incorporasse falando, falando, falando, o desgraçado, o tempo todo).

“Cinema não é gente falando”, dizia — acertadamente — um cineasta que me inspira certa desconfiança, por vezes, mas que estava frequentemente com a razão, quando reclamava dos colegas ianques: o gordo Hitchcock.

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Amanhã, colorado, vote Chapa 2 para o Conselho

Amanhã, das 9 às 17h, no Gigantinho, haverá a maior eleição de direta de um clube brasileiro em todos os tempos. São mais de 47 mil sócios  elegendo o novo presidente do clube e fazendo a renovação de 50% do Conselho Deliberativo.

Se você for ler a lista de candidatos da Chapa 2 ao Conselho do Inter, encontrará meu nome. Na posição em que estou — em 95º, lá na rabada — é impossível que me torne Conselheiro (Ayres?) amanhã. Mas obviamente desejaria que você desse seu voto à Chapa 2. Devo ser o mais veterano e um dos menos participantes da Chapa, mas conheço bem a maioria dos candidatos e, olha, afirmo-lhes com convicção que não há segunda opção para quem deseja um clube mais democrático. O primeiro e mais importante motivo que me leva a pedir seu voto na Chapa 2 para o Conselho é que todas as reuniões e jantares de que participei — formais e informais — demonstraram aquela clareza de intenções que só pode aparecer num grupo que nasceu na Internet, que se acostumou a discutir (e a brigar) abertamente na rede e cujos principais locais de encontro são dois: os bares antes dos jogos e o Beira-Rio, com a bunda enquadrada no cimento ou em pé. O debate é público demais para o conchavo. São todos santos? Não, longe disso, apenas estamos metidos nesse troço democrático e aberto da Internet, sujeitos à críticas e ao debate, dando a cara ao tapa.

Já há gente nossa no Conselho. Aliás, fomos muito bem na última eleição e acho que repetiremos a dose nessa. Hoje, as reuniões do Conselho são pautadas pelo mistério, pelo “eu decido, eu resolvo” e por risadas quando pedimos explicações mais detalhadas. Sabemos que o Inter ganhou a Libertadores em 2006 e 2010, que foi Campeão do Mundo em 2006 e que pode voltar a sê-lo em 15 dias; não somos burros em querer uma revolução ou a alteração radical de toda a administração do futebol, mas fazemos questão da profissionalização e da abertura do clube ao menos para o Conselho — coisas negadas pelos atuais dirigentes. Sei que a política é algo tortuoso e que somos obrigados a acomodar ou esquecer fatos para que consigamos dar o próximo passo. Não somos um grupinho ingênuo, apesar do idealismo e juventude serem (quase) ubíquos. Mas não aceitamos que o Conselho seja TÃO da situação a ponto das reuniões serem absolutamente inócuas. O atual grupo de conselheiros está lá para assentir e aceitar tudo, com ou sem restrições contábeis. Bem, aqui está o Plano de Gestão da Chapa 2 e calo minha boca. Leiam lá.

E, para presidente, com a situação dividida entre as Chapas 1 e 3, eu fico com a Chapa mais futebolística, a 3 de Giovanni Luigi.

Então, colorado, sugiro que você vote 3 para presidente e 2 para o Conselho.

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As Afinidades Eletivas (não as de Goethe, por favor)

Não pensem que sou a favor de Lula e Dilma fazerem visitinhas ao Papa da hora. Aliás, o problema de Lula é a carolice, que mantém ao menos da boca pra fora e em acordinhos com Vaticano. É de última categoria.

Abaixo, dois apertos de mão que poderiam ter sido evitados.

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Tô brincando com o pensamento, pai

Publicado em 12 de fevereiro de 2004

Só a indiferença é livre. O que tem caráter distintivo nunca é livre; traz a marca do próprio selo; é condicionado e comprometido.

THOMAS MANN

Tento ser duro, mas resisto tanto quanto um pedaço de gelo ao sol. As crianças viajaram em férias com sua mãe, C. foi fazer um trabalho a 467 Km de distância e eu me vi com a toda a liberdade e tempo do mundo. Que beleza! Fiz planos para trabalhar muito e, nas folgas e nos finais de semana, ouviria Mahler no devido volume – os vizinhos têm de ser culturalizados, não? -, leria sem interrupções até dizer chega e, quando cansasse de tudo isto, abriria a porta de casa em direção a um cinema, sem ter que combinar nada nem esperar longamente, fora do quarto, por aquela tradicional escolha de roupas femininas…

Nos primeiros dias, cumpri meus objetivos com brilhantismo; depois, algo começou a emperrar além da falta da presença física que começava a incomodar. Eu havia lido, ouvido e visto tanta coisa que precisava comentar com alguém. Pensei em escolher alguns interlocutores inteligentes, mas este estava em férias, aquele compreenderia a parte Mahler do discurso mas não a parte Thackeray/Bernhard, aqueloutro não tem muito humor e… é melhor ligar logo para a C.

Descubro assim que aquilo que observava em meu filho quando criança acontece também comigo. Explico: Bernardo, quando pequeno, narrava sua vida para quem estivesse perto e, mesmo que não houvesse ninguém para ouvir, seguia descrevendo para si mesmo todos os acontecimentos e idéias que lhe ocorriam. Muitas vezes eu chegava perto dele e perguntava: “E daí, narrando a vida?” Não foram poucas as vezes que achei que estava criando o Rei dos Chatos! Porém, a idade fez-lhe muito bem.

Agora sou eu quem precisa descarregar suas histórias e acontecimentos sobre a namorada. Já minha filha foi diferente, era muito silenciosa. Brincava em tal silêncio que era bom sempre verificar se ela brincava de verdade ou se estaria desacordada (talvez morta) em algum canto da casa. Bárbara hoje fala pelos cotovelos, mas não é raro termos dúvidas sobre sua presença conosco, tais os silêncios em que abisma-se. Muitas vezes, sem fazer barulho, vou observar o que ela faz. É incrível, seu passatempo preferido é o de caminhar sobre os sofás, pulando de um para outro e voltando pelo mesmo caminho enquanto ouve a música que ponho no CD. Por que faz isto? De início, pensava que ela gostava de ouvir música erudita, mas mudei de opinião. Hoje sei que aquilo é somente uma trilha sonora para…

— Bárbara, o que tu tá fazendo?
— Tô brincando com o pensamento, pai.

Tendo hoje 10 anos, minha filha não é mais uma criança potencialmente suicida como são as pequenas e, muitas vezes, confiro sua presença e estado – vígil ou soporífero -, gritando assim:

— Babi, tá brincando com o pensamento?
— Sim!

Sou hábil em criar subterfúgios, não? O que eu queria dizer desde o início é que estou morrendo de saudades deles. São 22 dias sem ver meus filhos e 19 – com uma pequena interrupção durante o Fórum Social Mundial — sem ver a C. Isto me faz mal. Voltem, por favor, sinto falta de vocês!

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Entrevista com Tiago Casagrande, do blog Bereteando

Publicado em 20 de janeiro de 2005

O blog Bereteando (a definição deste neologismo pode ser encontrada vocês imaginam onde) , do portoalegrense Tiago Casagrande, é um dos mais surpreendentes da blogosfera. Tiago – ou Tiagón, como ele gosta – parece ser capaz de escrever em todas as formas com brilhantismo – deve ser um equívoco meu não admirar sua poesia – e desenvolvi naturalmente enorme curiosidade por este talentoso conterrâneo capaz de posts absolutamente impecáveis nos quais podem estar presentes tanto o non-sense, o poético e o cômico, como algo confessional, pessoal e sério, ou irresistivelmente engraçado. Para os exemplos foram utilizados apenas posts recentíssimos.

Tiago, de apenas 26 anos – sendo ainda, sob minha perspectiva, uma criança -, deu-me a belíssima entrevista que transcrevo abaixo. Ele é direto, objetivo e não costuma fugir às perguntas.

Gosto dos blogs que retratam amplamente seus autores, sem atuação ou pose. O teu é assim. Extremamente bem (d)escrita, tua circunstância está ali, dentro do possível completa. Podemos encontrar no Bereteando qualquer coisa, desde reclamações da pindaíba, ficções, piadas do melhor nível da blogosfera, comentários sobre música, loucuras, quadrinhos e ensaios. Qual é o papel e a importância que tem o Bereteando para ti?

O Bereteando mantém minha (in)sanidade! Ele é uma espécie de túnel de vento da minha criatividade. Enquanto estou trabalhando, mantenho um bloco de notas (do Windows) aberto; e à medida em que idéias, frases ou sentimentos vão surgindo, eu escrevo. Depois seleciono, corto e formato. Desse jeito, o Berê nunca se torna um fardo, uma obrigação.
Além disso, meus bereteios também servem para que eu me enxergue, me colecione; faço micro-fotografias (mesmo que muitas vezes cifradas) do meu cérebro no dia-a-dia. Escrevo para os leitores, muitas vezes, mas também me reservo a liberdade de ser confessional e pessoal, porque acho que esse é um jeito de fazer um blog interessante: achar um meio-termo entre o famigerado “diarinho” e o afastamento completo. (E é uma fórmula que tu dominas com maestria!) Até por isso tenho resistência com blogs puramente de contos ou poesia.
Mas me afasto da resposta; o Bereteando tem uma função essencial por ser minha válvula de escape no dia-a-dia. O blog não é apenas um lugar onde me encontro; também me estimula a manter-me escrevendo. Se de vez em quando me arrogo o direito de não pensar no leitor e ser hermético, pelo outro lado, se não fossem os amigos que fiz na blogosfera, não teria escrito dezenas de textos que gosto muito.

Charlie Mingus iniciou sua autobiografia (Beneath the underdog) dizendo que era três. Penso que o mesmo valha para ti. Há o Tiago humorista, o non-sense quase poeta, o sério (seríssimo), o elegíaco, etc. Quem ganha esta disputa? Há quantos Tiagos aí?

Dezenas! Mas eles ramificam-se de dois primordiais, cada qual numa ponta da corda: um é divertido, canastrão, cara de pau, confiante; o outro é romântico, sensível, birrento, fatalista. É como se meu cérebro escolhesse três dessas características para formar o “humor do dia”. Isso se reflete claramente no blog – no conteúdo e no tipo de texto. Durante muito tempo me preocupei, ao ler minha produção (a do Bereteando e a de casa), por não enxergar um estilo; eu fico indo de um lado para o outro ao sabor do meu temperamento. A verdade é que eu sou muito indisciplinado e escrevo só o que tenho vontade… Então que esse seja o “estilo”!
Quem vence a contenda? Espero que uma mistura entre tudo isso… Talvez eu descubra quando tiver alta da análise 😀

Tua produção para o blog é imensa. Há outra produção?

Sim, em casa, que anda muito esporádica; de contos e poesia. Já fui mais aplicado em outras épocas, hoje estou desleixado. Porque sou movido muito pelo entusiasmo (não sou nada esotérico, mas associam essa característica aos de Áries, onde me enquadram) e já não gosto mais dos meus escritos como gostei antes. Não tenho conseguido criar contos “lineares”, como aqueles que estão na gaveta. Mas ultimamente tenho feito alguns experimentos com forma, fiquei contente com os resultados e tenho enxergado aí um viés a explorar.
E tenho tanta vontade quanto medo de escrever um romance, mas essa é uma meta para 2005 – só não determinei ainda de que jeito, pela mesma resposta da pergunta anterior.

A maior surpresa que me pregaste foi aquela de dizer que tu e o Geva (Gejfin) recolheram histórias de pessoas do interior do Rio Grande do Sul com a finalidade de… Que projeto é este?

Eu e o amigo-gêmeo Gejfin partilhamos da mesma fascinação pela memória humana. Pensar que cada pessoa tem uma História pessoal riquíssima, não importa quem seja ou onde vive, nossa – é o que os antigos definem como “muito louco”. Começamos a imaginar quantas histórias não estão enterradas pelas pequenas cidades do Rio Grande (só pra ficar dentro da nossa galáxia), à margem da capital, e logo, dos holofotes. Nossa idéia é compor ficção como patchworks, a partir de memórias diversas, agrupadas por cidades (de no máximo 10 mil habitantes), e junto a isso um ensaio fotográfico. Ano passado fizemos a viagem-piloto, para Agudo, bem no centro do estado. A acolhida foi fantástica, conhecemos o interior da cidade, conversamos com muita gente e recolhemos vasto material. Paramos no ponto em que se monta um boneco para tentar vender – e viabilizar – o projeto. Mas devemos retomá-lo este ano.

Tiveste um conto premiado na Feira do Livro de Porto Alegre, publicaste na Paralelos, foste convidado para a Oficina de Parati… Que reconhecimentos te deixaram realmente feliz em tudo isto? Outros?

Meus dois contos premiados deram a exata noção do quanto heterogêneo é o que eu escrevo. No Revelação Literária Câmara do Livro/Nova Prova 2002, selecionaram um conto difícil, quase sem pontuação, um monólogo num fôlego só (Excrescência, se não me engano enviei para tu leres); ano passado, pelo Habitasul/Feira do Livro, foi um texto cotidiano e engraçadinho. Isso me acalmou na angústia de “pra que lado vou?” Vou para os dois, ora bolas.
Mas sempre fico muito feliz quando consigo me enfurnar, achar um espacinho pra mostrar minha literatura; e quero alargá-lo até conseguir colocar uma cadeira e me sentar confortavelmente. Quero um lugar nessa tal de Nova Literatura!

Disseste estar desiludido com a profissão de publicitário. Do alto de minha inútil experiência, digo que é normal, pois às pessoas criativas raramente é dado o espaço que precisam (ou seriam as empresas que não precisam de – ou não sabem utilizar a – criatividade…?) e dá um imenso trabalho abrir o seu próprio. Creio que teu destino é o de produzir cultura, provavelmente passando por um período infeliz, espero que curto… Para onde gostarias de te direcionar?

Teu poder analítico é sub-atômico, Milton. Já que (ainda) não posso viver da escrita, quero trabalhar nas direções da cultura e da comunicação social. Tenho vontade de abraçar todas as manifestações culturais e artísticas; seja criando, seja trabalhando para que elas sejam acessíveis ao maior número de pessoas. (Se tem algo que me irrita é o distanciamento que se cria entre as pessoas e a arte – quem disse que é preciso ser “erudito” para escrever, pintar, compor? Arte é o sentimento expresso, e todos tem sentimentos a expressar. Depois é que vem a técnica.) Espero poder trabalhar nesse sentido, o de desmistificar e aproximar a cultura das pessoas.
Outra direção que posso tomar o mundo acadêmico. Talvez retornar às ciências sociais e suas implicações com a cultura e as tecnologias… É um caminho possível.

Ao mesmo tempo que és bem anárquico, falas em encontrar a mulher perfeita (a mais bela da cidade?), em casar, ter filhos (aquele afilhado…), etc. Ao lado da amizade e da admiração, havia muito de “queria isso para mim” quando escreveste sobre o casamento do Ander. Às vezes, penso em ti como o intelectual que adoraria ter seus cravos tirados por uma bela mulher na beira da praia, enquanto pensa na próxima história…

Milton, essa cena é tão perfeita que eu não poderia tê-la imaginado!
De fato, eu vivo transitando nessa dicotomia – um pedaço de mim quer mudar o mundo, outro quer encontrar, sim, a garota mais linda da cidade (que minha sensibilidade possa enxergar), casar, ter dezoito filhos e um sobrado no Lindóia. Certo ou errado, por alguma razão essas duas coisas surgem como antagônicas na minha mente; é como se eu precisasse escolher revolução ou amor. Não faço a mínima idéia de onde isso termina; vejamos por quem me apaixono primeiro… Ou quem sabe a garota mais linda da cidade não é também uma revolucionária?

Conheces o What Next da Gramophone? Bem, eu explico. Hoje, chegarás em casa com vontade de ouvir música. Começarás com um CD e ele, por algum motivo, te levará a outro e este a outro e assim por diante. Explique o que ouvirás e por quê.

(Milton, segui tua orientação e não respondi a essa pergunta, porque acho que a maioria dos teus leitores – e dos meus, também, na verdade – não vão conhecer muita coisa do que vou citar… Hoje, por exemplo, comecei com Carcass, passei por Paradise Lost e estou ouvindo Amorphis; tudo heavy metal. Se tu, por curiosidade, quiser publicar mesmo assim, respondo com mais cuidado e detalhamento)

Não falas muito em literatura no Bereteando. Mas sairam elogios a Gogol aqui, referências a Zola ali. Além deles, quem mais merece elogios?

Não falo porque leio vergonhosamente pouco… minha biblioteca não deve chegar a cinqüenta volumes. Gogol está no topo, é pra mim dos mais geniais escritores; Almas Mortas é o livro mais fascinante que já li. Além da obra-prima, os contos fantásticos como O Nariz, O Retrato e O Capote foram possivelmente meu primeiro contato com a não-linearidade. Ainda nos russos, gosto muito de Dostoiévski (o que são os diálogos em O Jogador?) e Tchekhov.
Outro que ocupa destaque é o Bukowski em prosa. A crueza da narrativa me estarrece toda vez que leio.
Um autor que admiro muito é Ray Bradbury – li muita ficção científica, incentivado pelo meu pai. Suas Crônicas Marcianas são absolutamente perfeitas.
Mas o que leio e releio sem cansar são os livrinhos de contos do Woody Allen, publicados pela L&PM. Muito do que escrevo tem fonte ali; Allen consegue fazer a costura perfeita entre a bobagem pura e a citação erudita colocada fora de contexto para criar uma situação engraçada. No humor, também me inspiro muito com P.J. O’Harvey, escritor americano autor de Guia do Solteiro e Etiqueta Moderna (ambos editados por aqui pela Conrad). Puro wit.
Da poesia, gosto dos contemporâneos cariocas, Chacal e Michel Melamed. Viviane Mosé derrete minhas sinapses e, todas as vezes que abro um livro do nosso Quintana, prometo nunca mais escrever outra poesia. (Mas Haroldo de Campos sempre acaba me convencendo de que não preciso parar…)

Aquela citação de Theodor Adorno sobre jazz é das coisas mais absurdas que li. Em minha opinião, demonstra a incompreensão de muitos intelectuais quando tratam de manifestações “seculares”. É o oposto de ti. Das pessoas que tenho lido, tu és o que melhor faz este tráfego entre o profano e o “sagrado”.

Era na sexta série, aula de literatura, quando num texto de, acho, Clarice Lispector, eu encontrei o que julgava ser um erro de português. Perguntei para a professora, e ela confirmou que não era a forma correta da língua – mas que a autora podia, e os alunos não, porque, afinal… ela era Clarice Lispector!
Ora, e será que ela já era Clarice Lispector quando escreveu o “erro”?
O que é “sagrado”? Eu fico me coçando todo quando as pessoas aceitam velhos costumes sem ao menos pensar no que estão fazendo. Não há mais espaço para preconceitos! Por exemplo: quando re-ordenei as categorias do Bereteando, criei uma chamada “poesia” – assim, com aspas, porque temi parecer arrogante afirmando que aquilo lá é poesia, sem aspas. Pouco depois eu me dei conta de que isso é muito besta! É poesia, sim, pra mim e pra quem mais entender que aquilo é poesia. Entender pela forma, pelo conteúdo ou pura e simplesmente pela sensibilidade.
Outro exemplo: durante toda minha adolescência eu acreditava que, já que eu era um “metaleiro”, tinha que odiar tudo que não fosse heavy metal. E odiava e execrava, mesmo. Até que ouvi bebop e meu queixo caiu, levando consigo esses paradigmas cretinos. Hoje eu transito entre rock, metal, jazz, blues e música eletrônica sem nenhuma vergonha, e com duas caipirinhas até axé eu danço!
Misturar Dickens com Patrick Swayze e Pterodáctilo, como fiz no Especial de Natal, pode ter feito o velho escritor revolver-se no caixão – ou conservadores se rebostearem nas cadeiras, enfim. Mas botá-lo no liqüidificador é trazê-lo para perto de todos. Dogma e santidade criam abismos.

A Verbeat Blogs é uma reunião livre de blogueiros ou é algo semi-político no estilo Wunderblogs? Fui convidado por ti para entrar na coisa, indico para todo mundo que tem problemas com seus provedores e irei para lá quando a Blogger voltar a sacanear, mas há algum critério?

Nada político. Quando o Blogger fez aquela sujeira toda com seus usuários, resolvemos juntar meia dúzia de amigos, dividir as despesas de hospedagem e pronto, estávamos a salvo da instabilidade e dos contratempos de tudo que é grátis na internet. Ora, já que tínhamos espaço, porque não chamar os bons de texto? Assim acabamos aliciando pessoas talentosas e próximas a nós na blogosfera, como a pop star espevitada Olivia e o Three Times Blogs of Note Winner Marcão. E tu sabes que o teu lote tem reserva permanente… ainda que, nesse ritmo em que tua popularidade cresce, vais acabar virando pontocom!

E o projeto Poetikaos? Morreu? Alguns sacanas não apareceram? Como é que é?

Ele fica de cantinho, esperando o lugar ideal, ainda. Já tivemos problemas com barulho, com espaço, com pessoas… enquanto a casa ideal para nossos saraus abertos não aparecer, o evento Poetikaos espera. Mas a primeira edição fora do RS deve acontecer em março: na gloriosa Rio do Sul, SC, nova casa do membro fundador Anderson.

Quando vamos nos conhecer? Te convidei para meu aniversário mas não aconteceu nada…

Muito em breve, eu espero! Até porque eu e o Gejfin estamos iniciando um novo projeto, e tu serás o primeiro a conhecer… e, esperamos embarcar conosco!

(É, eu sei; se projetos e idéias malucas dessem dinheiro, eu ia reclamar menos da pindaíba…)

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O Questionário de Proust (VII) – Responde Branco Leone e/ou Albano Martins Ribeiro (*)

(*) Ele explicou, ou tentou…, num e-mail:

Sua pergunta procede sobre como me apresentar. O Inagaki já abriu as “identidades”, relacionando uma com a outra. Se você quiser fazer o mesmo, relacionar o “blogueiro” Branco Leone com o “escritor e dramaturgo” Albano Martins Ribeiro, fique à vontade.

Se quiser material pra compor um curriculinho à sua maneira, tem coisa aqui, no meu “site pessoal”. Fique à vontade. Tem coisas que podem interessar, como o Dezamores, a peça de teatro, a entrevista pra EntreLivros, revistas onde publico e tal.

Pronto, nem precisei escrever nada!

Com vocês, Branco Leone ou Albano Martins Ribeiro:

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

A arrogância, que é a forma mais feroz da burrice.

Como gostaria de morrer?

Sem saber.

Qual é seu estado mental mais comum?

Preocupado.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Brancaleone da Nórcia: pobre, cheio de esperança e, por isso, idiota.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Ter procriado.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Não me lembro de uma só pessoa que mereça a deferência. Talvez por desprezá-la.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Donald Trump.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Um cão perdigueiro. Ou uma orca. Mas a padronagem é apenas coincidência.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Quando estou escrevendo.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Mulher e filhos, comida e bebida, cachorros e cabras, tempo e sossego, dias de sol e noites frescas, tudo junto num mundo sem mosquitos e impostos.

Qual é seu maior medo?

Sobreviver a meus filhos.

Qual é seu maior ressentimento?

Ter agido, por muito tempo, como se eu fosse eterno.

Que talento desejaria ter?

O de transformar trabalho em dinheiro.

Qual é seu passatempo favorito?

Nenhum. Quando me lembro de que o tempo está passando, perde a graça.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Reintegraria os membros que se foram.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Não ter quem acredite em você.

Onde desejaria viver?

Aqui mesmo, mas sem pagar aluguel.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

A beleza, que nem virtude é.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

Saber dizer o que pensa sem se preocupar com o que pensem.

Quando e onde você foi mais feliz?

Amanhã, onde eu estiver.

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O Questionário de Proust (VI) – Responde Cynthia Feitosa

Publicado em 27 de fevereiro de 2007

Até aceito que um homem seja burro; mas uma mulher, nunca! Não, não precisam ter doutorados, PhDs e nem sequer universidade – conheço algumas muito “formadas” que são imbecilíssimas, provando que titulação está longe de ser conhecimento ou cultura e que educação de direito é uma coisa, educação de fato é outra -, basta que sejam surpreendentes e que sua inteligência se derrame pelos olhos (fato fundamental). Detesto as mulheres que trabalham a favor do marasmo, adoro as cheias de respostas imprevistas e pertinentes e se ainda forem gentis e sorridentes… Credo!

A Cynthia é assim. Há nela algo de transbordante que capta nossa atenção quando estamos em sua presença. Nunca se sabe o que virá dali. Pode ser uma ironia risonha, uma frase sorridente e educada ou uma acolhedoramente solidária, mas pode vir também outra prazenteira e destruidora… Ela é o máximo. O Nelson Rogério tem razão.

Cynthia Feitosa:

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

A burrice arrogante.

Como gostaria de morrer?

Velha, até então saudável, de forma rápida e indolor.

Qual é seu estado mental mais comum?

Irritada.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Emília, do Monteiro Lobato.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Não sou extravagante.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

George W. Bush.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Gabriel García Márquez.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Num gato de estimação, amado e bem-tratado.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Quando a verdade pode ferir os sentimentos dos outros.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Ter saúde, amor, dinheiro suficiente e um interesse/causa/paixão/talento a que se dedicar.

Qual é seu maior medo?

Doenças degenerativas.

Qual é seu maior ressentimento?

Ter levado muito tempo para aprender coisas sobre o mundo e sobre mim.

Que talento desejaria ter?

Musical.

Qual é seu passatempo favorito?

Ler.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

A mania de guardar e ruminar mágoas.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Material, intelectual ou moral? Sei lá, o Brasil.

Onde desejaria viver?

Num lugar um pouco mais frio e um bocado mais civilizado.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

A “simpatia”.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

A capacidade de se colocar no lugar dos outros.

Quando e onde você foi mais feliz?

Depois de descobrir quem eu era e o que queria, e antes da saúde começar a se deteriorar.

Próximo: Branco Leone.

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António Barbeiro Fala Francamente a João Cunha

À medida que nossa história avança, chegam-me notícias cada vez mais surpreendentes de Portugal. Em meu post anterior, dizia-lhes que António Barbeiro nunca existira. Não é verdade. Rogério Simões transcreveu nos comentários de meu post anterior um texto de seu pai, hoje com de 82 anos: trata-se de uma nota biográfica de um certo amigo seu chamado João Barbeiro. Este é, sem tirar nem pôr, António Barbeiro. Isto fez com que este humilde escriba pensasse nas vantagens e desvantagens de dividir esta história em capítulos. O lado positivo é a participação dos leitores corrigindo fatos e sugerindo episódios para a trama; o lado negativo é que, quando me apontam os erros, estes já foram publicados e lidos por meus 7 fiéis leitores. Antes de voltar à história, faço uma referência ao que escreveu Ery Roberto: concordo que o episódio com o vô João Cunha parece coisa saída de Dias Gomes – parece mesmo! -, só que este João Cunha é meu avô materno (meu nome completo é Milton Luiz Cunha Ribeiro) e o fato realmente aconteceu entre 1966 e 1969, ano de sua morte.

(continuação do post anterior)

O Dr. João Cunha não era dado a grandes expansões, era da espécie dos homens de poucas palavras, daqueles que preferem demonstrar sua amizade e solidariedade mais por atos concretos do que verbalmente. Não era tosco ou indiferente, era apenas silencioso. Tinha noção de que a presença de António em Cruz Alta era mais do que estranha, mas não comentaria com ninguém suas suspeitas, nem procuraria confirmá-las com o português. E suas suspeitas não eram graves: na sua opinião, António Barbeiro fugira de Portugal por motivos políticos e, naquela época, podia-se ser preso por pertencer ao proscrito Partido Comunista, por falar mal de algum potentado da cidade ou até por salpicar tchekoviana e involuntariamente um general com um espirro. Havia que obedecer e ponto final. E João Cunha intuía que António não era homem de simplesmente obedecer.

O episódio com o vô João Cunha havia aberto a porta da política nas relações entre os dois amigos. Passaram a conversar sobre os problemas de Brasil e Portugal e, pouco a pouco, António foi contando sobre sua ativa participação na vida de Pampilhosa da Serra. Era o responsável pelo Posto dos Correios da aldeia, era um dos poucos homens sabia ler na cidade, possuía livros de medicina onde estavam escritas as composições dos medicamentos que receitava (!) e tornara-se o principal “médico” de Pampilhosa e das povoações das redondezas. Depois contou que participara da Comissão de Melhoramentos, que conseguira implementar o Lavadouro Público, assim como a abertura da mina na fonte velha. Administrara a canalização para a fonte nova e aí já estávamos no âmbito da burocracia, dos escritórios, das solicitações e da política, no âmbito da necessária adulação e dos pagamentos aos homens responsáveis pelos recursos e para isto não servia António Barbeiro.

Então, uma noite, recebeu uma visita de um colega dos correios. Este lhe anunciou atropeladamente que alguns homens em Lisboa haviam feito perguntas sobre o tal Barbeiro que pontificava na aldeia e que, segundo eles, era um enviado de Moscou que desejava “libertar o povo” e implantar o voto feminino. António, que também não era tosco, sabia que havia chegado o momento de partir.

João ouviu muito pouco surpreso o relato; é certo que não conhecia as circunstâncias, mas já imaginava seu cerne. O que não esperava era o pedido de António:

— João, necessito de teu auxílio, preciso de uma nova identidade para voltar à Portugal.

Ora, o corretíssimo João Cunha jamais imaginara fazer algum ato ilícito em sua vida e era uma espécie de campeão do anticomunismo na cidade, então as obrigações da amizade com António faria-lhe passar várias noites em claro. Sua honestidade era indiscutível, era uma espécie de reserva moral de sua família e da cidade. Esta característica não costumava gerar-lhe vantagens, antes gerava convites para que participasse do Conselho de clubes de futebol ou sociais de Cruz Alta, tarefas que sempre recusava educadamente. Ao mesmo tempo, seu caráter estava sendo desafiado pela imperiosa necessidade de ajudar um amigo, o melhor deles, aquele com quem conversava até altas horas da noite, seu parceiro no rádio-amador e o amigo da família preferido de suas crianças, especialmente da mais nova, Lilinha.

Um dia, João Cunha foi a Porto Alegre com a filha Iara que prestaria exame vestibular na Universidade Federal. Como do seu feitio, não disse nada a António, mas em Porto Alegre tinha planos de conversar com um político cruzaltense situacionista sobre um passaporte e uma carteira de identidade autênticos — isto é, emitidos pela Secretaria de Segurança Pública — e perfeitamente falsos.

(continua)

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Goiás x Independiente, o jogo do ano, sem dúvida

Como colorado, devo torcer para o Goiás, mas essas diablitas do Independiente…

Ah, detalhes sobre o grande jogo aqui ou aqui. E agora, vamos ao que interessa!

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António Barbeiro Volta a Escrever Cartas (II)

Este interessante projecto, continuado no Brasil, poderia ter uma continuidade interessante…
Enquanto o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, se aventurava à procura por Antares, no Rio Grande do Sul, a sua família, que desconhecia o seu paradeiro, sofria na Serra.
Certo dia, o António, escreveu uma carta em segredo para um parente da sua confiança em Lisboa. A família quando soube que o António estava vivo… partiu a pé para Fátima…
Até breve…

(continuação de post anterior)

António continuou na barbearia ouvindo seus clientes. Gostava de suas histórias e, quando emudeciam, estimulava-os falando do tempo, das crianças que não cuidavam ao atravessar a rua, da inflação, do dólar, oferecia-lhes jornais, o que sempre fazia com que comentassem alguma notícia. E que dias eram aqueles! Com os meios de comunicação sob censura, parte das acontecimentos eram inevitavelmente coloridos pelas imaginações dos clientes.

Certa manhã, ocorreu um fato cômico e triste. O pai do Dr. João Cunha era um octogenário aposentado que sofria do Mal de Alzheimer. Durante sua vida ativa, fora um daqueles “construtores da casas sem diploma” e marceneiro. Eram de sua autoria muitas das residências de estilo açoriano que havia na cidade. Porém, na época de António, este homem às vezes não reconhecia mais nem seus netos e passava seus dias dizendo inumeráveis (e memoráveis) sandices. Em seus curtos momentos de lucidez, tinha o hábito de comentar política e de recitar de memória poesias de Casimiro de Abreu – o único poeta que lera com paixão durante sua vida. Pois, numa manhã nublada, vô João Cunha plantou-se bem em frente ao quartel do 17º Regimento de Infantaria com a finalidade de atacar os militares e mudar os rumos do país. A primeira fase de sua estratégia incluía um notável discurso contra a ditadura naquele local. Como era muito cedo da manhã, o orador não tivera tempo de vestir-se e apresentava-se ainda de pijamas. António — que aquela hora matinal estava barbeando um militar — tomara um susto ao ouvir inesperadamente a poderosa voz do velho iniciando seu ataque:

— Parasitas da Nação! Saiam de suas tocas e venham expor seus motivos! O fechamento do Congresso Nacional…

Quando o barbeiro viu de quem se tratava, correu a alertar João Cunha pelo telefone:

— Meu amigo! Seu pai está aqui a apostrofar os milicos! Quer briga! Ainda está de pijama; penso que acordou e veio enfrentá-los. Os milicos estão rindo dele, mas tens que tirá-lo daqui. Pode haver tumulto.

João deixou um cliente de boca aberta na cadeira de dentista para ir buscar o pai em seu Aero-Willys. Ao chegar, viu o velho, o barbeiro, alguns populares e militares frente ao portão aberto. Todos estavam sorridentes, exceto o indignado velho e António, que procurava convencê-lo calmamente a voltar para casa. Quando João Cunha saiu às pressas do carro, um dos militares gritou:

– Ô, Dr. João! Teu pai está organizando a reação comunista aqui na frente do quartel! Acho que já já vai chamar seus guerrilheiros!

Todos riram — os militares autenticamente, os populares para agradar ao piadista. Vô João Cunha continuava:

— Desrespeito, desrespeito, corrupção e violência! Esta é a verdadeira ideologia…
— Chega, pai! Vamos para casa!

O velho calou-se imediatamente, estava acostumado a obedecê-lo. Mas, ainda trêmulo, só aceitou voltar para a casa com uma condição.

— Tira este português maricas de perto de mim. Já me basta os milicos.

Depois deste episódio, as militares sempre referiam-se à terrível ameaça representada pelo velho João Cunha. António apenas ouvia, evitando falar sobre a política brasileira ou portuguesa. Também evitava pensar em Portugal e nos amigos que deixara, porém a saudade insinuava-se lenta no peito. Começou pela comida: passou a sonhar com pratos como cabrito recheado na telha ou como trutas à moda de manteigas, antecedidos de uma sopa beirã e seguidos de tigeladas ou filhozes. Passou a buscar em vão locais na cidade em que a gastronomia fugisse do cardápio habitual da região. Neste período, também caminhava pela cidade escrevendo mentalmente cartas a seus amigos em que descrevia longa e amorosamente a região onde se encontrava e apresentava seu amigo João Cunha e outros a qualquer destinatário português do qual sentisse saudade. E estes — os destinatários — eram muitos. Pedia em troca notícias dos amigos, principalmente de Manoel Martins Ribeiro, de Maria Branco, de Rogério Simões e de alguns de seus pacientes.

O nome Maria Branco ficou-lhe impresso e o próximo passo foi o de refletir em como poderia entrar em contato com ela de forma incógnita. Maria era sua melhor amiga. Ora, se escrevesse para Manoel Ribeiro, que morava em Lisboa, e lhe pedisse para que mandasse uma carta em seu nome para Maria, contando suas aventuras… Ou melhor, se colocasse em um mesmo envelope duas cartas, uma explicativa para Manoel e outra para Maria e pedisse para que Manoel repassasse sua carta para Maria utilizando seu nome como remetente…

Decidiu-se. Escreveu cuidadosamente as duas cartas. Nelas, contava sobre sua amizade com João Cunha, sobre a gastronomia local, informava detalhadamente todos os seus passos que seguira até Cruz Alta e pedia à Maria o favor do qual dependia sua tranquilidade:

Maria, querida. Avise os meus que estou bem. Fiz amigos no Brasil e pretendo aqui ficar pelo tempo necessário aos esbirros me esquecerem. Diga que morro a cada dia de saudades, que estou em uma pequena cidade, que se visse o mar ficaria melhor, que detesto a comida, que tenho bons amigos e que um dia volto.

(continua)

(1) O texto em itálico lá do início é de autoria de Rogério Simões. O restante é meu.
(2) Todos os personagens citados nesta história são reais, à exceção do personagem principal António Barbeiro. Maria Branco e Rogério Simões são blogueiros e os restantes são parentes meus de Cruz Alta.

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Este homem está transtornado: Grêmio JÁ É favorito à Libertadores 2011

Qual sera o alucinógeno que a RBS põe no café de seus funcionários? Leiam o inacreditável texto de Diogo Olivier. Deixo aqui registrado para que confiramos em junho-julho do ano que vem.

~o~

Grêmio pinta como favorito na Libertadores 2011

O futebol é traiçoeiro, esta á uma lição que se aprende logo. Então, dali a pouco o Botafogo de tantos azares e tragédias nas últimas décadas apronta para cima do Grêmio no domingo.

Ou o Goiás se enche de brio e festeja o título da Sul-Americana na Argentina contra o Independiente, o que seria uma zebra vistosa e lustrosa. Como não acredito nem na primeira, e menos ainda na segunda alternativa, penso que dá para dizer o seguinte.

O Grêmio é muito candidato ao título da Libertadores do ano que vem.

Delírio? Não creio. Entre os brasileiros que representarão o país em 2011, o Grêmio é o que está jogando mais. Ganha fora de casa (os 3 a 0 sobre o Guarani foram de uma naturalidade espantosa), ganha no Olímpico, faz gols de todas as maneiras, praticamente não os toma, tem o goleador, o melhor goleiro, o técnico do campeonato e não deve perder ninguém para o próximo ano.

O time está pronto. Se contratar pontualmente (um lateral-esquerdo, um zagueiro e um volante) jogadores de qualidade superior, terá time titular e grupo de fazer inveja. Isso sob o comando de Renato Portaluppi, obviamente.

Renato é o mágico deste show que foi o Grêmio no segundo turno. E não é tiro curto. Renato já enfrentou as mais variadas situações e tirou todas de letra (desfalques, expulsão, desvantagem no marcador, armadilhas táticas).

Para completar, os dois superclubes da Argentina estão fora: Boca Juniors e River Plate. O Estudiantes mostra sinais de cansaço. Os times uruguaios tornaram-se medianos, distantes daquelas esquadras de até os anos 80. Restamos brasileiros, e entre os brasileiros quem vem jogando melhor é o Grêmio.

Se o Grêmio ficar mesmo com a quarta vaga e contratar dois ou três reforços, talvez nem isso, é favorito ao título da Libertadores.

Que virada de ano surpreendente no Olímpico, que se viu preparando o rebaixamento a certa altura.

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A Chegada de António Barbeiro ao Brasil (I)

António Barbeiro é um personagem criado pelo poeta português Rogério Simões. Ele permitiu que eu desse continuidade à história de seu personagem António, notável escritor de cartas e, é claro, barbeiro. Transcrevo a seguir um pequeno texto de Simões no qual ele nos apresenta António. Ele jamais imaginaria onde António foi reaparecer…

O António da minha imaginação era um homem notável — barbeiro de profissão e médico-enfermeiro nas horas vagas. António buscou o saber nos velhos livros de medicina e, porque era letrado — poucos na sua Aldeia aprenderam a escrever — , escrevia e lia as cartas do povo. Mas António “Barbeiro” gostava de ouvir! (Os barbeiros escutam sempre e nem sussurram as confidências!).

E, mal tardasse a noite, pé ante pé como se fosse um salteador, acendia o velho aparelho que sintonizava a Rádio Moscovo. António era um homem prevenido. À noite colocava por cima do rádio um copo de água e no silêncio das quatro paredes se a telefonia emitia uns silvos esquisitos, baixava o som até quase não ouvir:

— Não viesse por ali algum “bufo”para o denunciar ou agente da polícia politica para o levar.

Mas o “Barbeiro” que sabia tanto… procurava descobrir na onda curta, da telefonia, o que as emissoras oficiais não lhes contavam. Foi por isso que ouviu dizer que os comunistas iriam libertar o povo e que as mulheres iriam votar…

Talvez por isso que o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, escrevia “abusivamente” nas entrelinhas, algumas linhas, com recados pessoais para quem eram dirigidas as cartas. Certa noite, de intensa tempestade, o António Barbeiro desapareceu e ninguém mais o viu vivo! Dizem na Aldeia que conhecia os caminhos como ninguém!

António chegou de navio ao Rio de Janeiro num dia ensolarado de verão. Gostava do calor e, após hospedar-se num hotel barato, saiu pela cidade. Em frente à Biblioteca Nacional, comprou um mapa do Brasil e começou a procurar por Santa Fé, no Rio Grande do Sul. Tinha lido O Continente e O Retrato, de Erico Verissimo, e decidira que moraria novamente em uma pequena cidade, exatamente naquela. Só que não encontrou Santa Fé no mapa. Estava encantado com a beleza do Rio, mas achava muito óbvio ficar naquele cidade cheia de portugueses. Mesmo que seu sotaque ficasse mais evidente numa cidade pequena, ele pensava que seria melhor ficar afastado. Entrou na Biblioteca Nacional e puxou conversa com um dos atendentes. Achou estranho seu nome, Hudson, mas como ele falava bom português, perguntou sobre a localização de Santa Fé. Foram aos livros e nada. Deve ser uma verdade ficcional, disse Hudson. António achou a expressão cômica. Voltou ao hotel para — dentre as poucas coisas que trouxera às pressas de Portugal — procurar seu exemplar de O Continente. Amava os livros de Erico, mas não sabia onde ele tinha nascido. Descobriu que o autor nascera em Cruz Alta e vivia em Porto Alegre, ambas cidades no estado do Rio Grande do Sul. A última era uma cidade pequena. Iria para lá.

Esperava que Cruz Alta não fosse mais aquele faroeste descrito por

Comprou passagens para o sul e, dois dias depois, estava chacoalhando dentro de um ônibus. Dormiu uma noite em Porto Alegre e embarcou em novo ônibus com destino à cidade natal daquele escritor que fazia os mortos saírem de suas tumbas a fim de enfrentar os poderosos do dia, pois só eles teriam coragem para tanto.

Cruz Alta era como ele imaginara. Caminhou pelas ruas tranquilas e sentou-se na praça principal. As pessoas que passavam o cumprimentavam. Não havia ali espaço para o anonimato e logo sentiu-se alvo de olhares. Pensou que deveria entabular conversação com alguém que não lhe criasse problemas, mas que havia tempo para fazê-lo com calma. Em frente à praça, havia um consultório dentário onde se lia: João Nepomuceno Cunha Filho — Cirurgião Dentista. Gostou daquele nome e algo difuso — talvez a cor da casa, sua localização, as letras da placa de metal — , dizia-lhe tratar-se de alguém confiável, de boa instrução, amigo; alguém semelhante a Erico. Falaria com aquele homem.

Esperou até o final da tarde e, quando concluiu que o último cliente entrara, sentou-se na ampla sala de espera. Ao despedir-se de sua vítima, o Dr. João Cunha surpreendeu-se com aquela figura desconhecida e sorridente encarapitado no sofá.

— Como vai? — disse o dentista.

A resposta de António fez com que João Cunha risse, pois o que menos esperava era ouvir aquele sotaque puramente português.

— O senhor fala como meus amigos de Portugal!
— Ah, sim? O doutor tem muitos amigos portugueses?
— Sim, tenho amigo por todo o lado sem nunca ter ido muito longe daqui. Sou rádio-amador.
— Que interessante!

O português tinha boa conversa e João convidou-o para ir fumar na praça. Lá ficaram até às oito da noite, quando Débora, a esposa do dentista, veio chamar-lhe para o jantar. A curiosidade era mútua; António interessou-se por aquele dentista interiorano que desejava ser cosmopolita, enquanto João ficara encantado com aquele português tão informado que fora parar ali apenas por amor ao famoso filho da cidade.

— Onde o senhor está hospedado? — perguntou-lhe João Cunha.
— Estou no Hotel Santa Helena – respondeu António. – Convido o senhor a visitar-me. Devo encontrar um Adriano na cidade para oferecer-lhe.

João Cunha riu.

Ao entardecer do dia seguinte, o dentista abriu as cortinas de sua casa e viu António na praça com um jornal enrolado nas mãos. E assim ocorreu dia após dia. António passou a frequentar a casa do doutor — às vezes ficava operando sozinho o rádio-amador — , brincava com seus filhos e até passou a fazer-lhe a barba e a cortar o cabelo de seu filho João Reinaldo, sempre na cadeira de dentista. Em Cruz Alta, o rádio-amador servia de sucedâneo para as cartas que tinha deixado de escrever, mas tinha receio de procurar a Rádio Moscou. Com jeito, sem informar seu nome, perguntava aos rádio-amadores portugueses sobre as novidades do país. O que informavam — com todo o cuidado e muitas vezes através de intrincadas analogias — era deprimente. Certo dia, João perguntou-lhe se ele não desejava voltar a trabalhar.

Era o que António queria ou, mais exatamente, precisava. Não tinha vindo de Portugal com tanto dinheiro e necessitava voltar logo à ativa.

– Adoraria, João.
– Há uma barbearia perto do 17º Regimento de Infantaria. A casa é de minha familia e o barbeiro me paga aluguel. Quer dizer, paga quando quer e pode. Há dois quartos atrás que estão desocupados. O homem que trabalha lá — de nome Orlando — é um bêbado e os milicos não o suportam. Dou um jeito de te colocar lá. Vocês podem trabalhar lado a lado. Haverá freguesia para isto.

– Este homem tem família?
– É sustentado por uma santa, a Dora. Vou resolver o caso para ti.

Alguns dias depois, António voltou a trabalhar. A princípio trabalhava pouco, pois os militares o preteriam em favor do conhecido Orlando. Com António a seu lado, Orlando teve seu último período de abstinência, voltando a trabalhar sóbrio; depois, quando percebeu que António “roubaria” pouco a pouco a maior parte de sua clientela, voltou a beber. A qualidade principal de um barbeiro, segundo António, era, além de proporcionar um bom corte, a audição. António, que não apreciava muito os militares, logo notou que os dirigentes do país adoravam fazer bravatas e confidências que, somente em suas bocas, tinham o poder de alterar o rumo da vida de toda a gente. O que António não sabia é que sua amizade com o Dr. João Cunha e o pouco que falava sobre livros e Europa estavam tornando o barbeiro português uma respeitável figura da cidade. Todos queriam seus serviços, o que significava, para António, que todos desejavam ser ouvidos por ele.

E António ouvia.

(continua)

O António Barbeiro
(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)

Maria.
Espero que ao receberes esta carta estejas bem que nós por cá vamos na graça de Deus.
Recebi a tua última carta onde me dizias palavras lindas, como só tu sabes dizer, e com ela vinha a senha para levantar o cabaz das mercearias que nos mandaste pela camioneta.
Já recebemos a encomenda, estava tudo bem, mas escusavas de te incomodar.
Aqui na terra tudo vai como no costume.
A cabra da Ti Rosário entrou na horta e foi dar cabo da vinha do “tê” pai.
Ouvimos dizer que o Ti Chico fugiu para França. Que raio é que deu ao homem que tinha aqui tanto mato para roçar.
O Zé do fundo do lugar, coitado, é que não teve a mesma sorte. A família dele está de luto! Morreu de uma bala ao atravessar a fronteira. Mas esse, coitado, não tinha aqui de comer. Agora que vai ser dos filhos dele. É assim! Temos de nos conformar…
Maria! Vieram-me contar, (aqui na terra há cá umas mexeriqueiras), que estás apaixonada e que até lhe escreveste, numa carta, umas sem vergonhas.
Vê lá que eu nem queria acreditar. A TI Aninhas, que é cá uma coscuvilheira, pediu ao primo que trabalha aí em Lisboa para descobrir se era verdade.
Sabes lá: o Ti Manel da estiva, que é um magano, roubou a carta ao teu namorado.
Maria – nem sabes a vergonha por que estamos a passar. Ainda se fosses um rapaz… mas logo uma menina tão bem educada que fez a comunhão e tudo
Aproveito para te mandar uma cópia da carta que o barbeiro copiou.
Vê lá se a escreveste, pois quero desmentir o povo.
Desculpa a letra mas o Ti António barbeiro cortou-se na navalha.
Por hoje não tenho mais para te dizer. Espero a tua resposta na volta do correio.
Beijos da tua mãe

Maria Desculpa a letra e não ligues tudo vai passar.
Ouvi dizer na Rádio Moscovo que a PIDE vai ser corrida pelos comunistas e que as mulheres irão votar.
Por favor queima a carta e manda-me um frasco de “Pitralon” que depois pago.
Este que se assina
António Barbeiro.

(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)
Rogério Martins Simões.

P.S:
Estes desenhos da alma foram construídos a partir de um comentário que escrevi directamente a um texto, lindo de amor, que a amiga Maria, do antigo blog “Cumplicidades” escreveu.
Mas a Maria já respondeu! E escreveu à sua mãe uma linda carta.
Afinal porque estava na Cidade e não se preocupou com as “linguareiras”

Resposta da Maria na volta do correio
Mãe, Sim estou apaixonada. A carta que te chegou às mãos, minha querida mãe, fala de um amor imenso, puro e que me faz tão feliz. Por isso minha mãe te peço, fica feliz por a tua filha conhecer o amor, por a tua filha se viver em felicidade.
Sabes mãe, não conheço outra forma de viver que não através dele, e isso minha mãe, aprendi contigo. Por isso te peço, ignora o povo, e não sintas nunca vergonha. O amor não se vive dela. Nada do que consta nessa carta são sem vergonhas, minha mãe.
Lê, repara em cada palavra, em cada sentir que elas revelam, não é isso que é a vida minha mãe?
Não é assim que deveríamos todos viver, no amor? Acredito que se todos se vivessem nele, saberiam compreender, e com toda a certeza o mundo seria muito mais humano, estariam todos muito mais disponíveis para os outros. Não concordas? Não desmintas, mãe. Confirma que foi a tua filha que a escreveu. E não ligues à voz do povo, o importante não é que saibas que a tua filha, está bem? Da filha que te ama…
(Resposta escrita por Maria Branco, Blog Cumplicidades, a quem agradeço)

Mas a Maria esqueceu o “Petralon”, para a barba, que o Ti António Barbeiro pediu.
Mas o bom António quando a carta chegou já não a leu.
O narrador volta a chamar pelo poeta

Aos Homens grandes
O António que escreveu as cartas à Maria era um homem notável: barbeiro de profissão, médico-enfermeiro nas horas vagas.
António foi buscar o saber nos velhos livros de medicina, e, porque era letrado – poucos na sua Aldeia aprenderam a escrever – lia e escrevia as cartas do povo que não sabia ler nem escrever.
Mas o António “Barbeiro” gostava de ouvir!
(Os barbeiros escutam sempre e nem sussurram as confidências!),
Mal tarde tardasse a noite, pé ante pé, como se fosse um salteador, acendia o velho aparelho e de novo sintonizava a Rádio Moscovo.
António era um homem prevenido. À noite colocava por cima do rádio um copo de água e se no silêncio das quatro paredes a telefonia emitisse uns silvos esquisitos, baixava o som até quase não se ouvir:
– Não viesse por ali algum “bufo” para o denunciar e agente da polícia política para o levar.
Mas o “Barbeiro” que sabia tanto procurava descobrir na onda curta, da telefonia, o que as emissoras oficiais não lhes contavam.
Foi assim que ouviu dizer, aos comunistas, que iriam libertar o povo e que as mulheres iriam votar
Talvez por isso, o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, escrevia abusivamente nas entrelinhas, algumas linhas, com recados pessoais para quem eram dirigidas as cartas.
Certa noite de intensa tempestade o António Barbeiro desapareceu e ninguém mais o viu vivo!
Dizem na Aldeia que conhecia os caminhos como ninguém!
(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)
À Maria Branco o meu agradecimento por completar este diálogo.

Rogério Martins Simões.
(Homenagem póstuma ao Ti João Barbeiro da Póvoa, amigo de meu pai e que ainda conheci)
(Esta história foi continuada no Brasil por Milton Ribeiro)

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OSPA: a verdade que salva e liberta

Sim, eu sei. Meus sete leitores vêm aqui sempre em busca da verdade que salva e liberta. Então lhes digo que o primeiro clarinetista da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), Augusto Maurer, acertou na longa argumentação onde defendeu a ausência de regente titular na OSPA a partir de 2011. O músico fê-la publicar (chupa, Machado!) na edição de hoje do brioso Caderno de Cultura de ZH na forma de uma Carta Aberta ao futuro Secretário de Cultura do Estado, Luiz Antônio de Assis Brasil. Seu texto chegou convenientemente a nossa caixa de e-mails há mais ou menos uma hora.

O fato é que a discussão estava em banho-maria até o concerto da última terça-feira, quando o nervosismo da Orquestra fez entornar a água que aquecia o destino da Orquestra, deixando a coisa, para dizer o mínimo, bastante mais quente. Metemos nossa colher torta no debate e houve reações de diversos calibres – de Piaget a Pinochet, de Ademir da Guia a Edinho. Traduzo: houve reações compreensivas, reflexivas e serenas e outras surdas, truculentas e inábeis.

Comprovando que o dedo deste comentarista e de outros têm penetrado em locais bastante desconfortáveis do corpo da Orquestra, tivemos reações que merecem cuidadoso catálogo, apesar de que será mantida a identidade dos manifestantes em obsequioso sigilo, pois estamos cansados de processos, uf.

1. A ala Pinochet: Houve quem ressuscitasse a Segunda Escola de Viena ao flautear que estranhava nossa arrogância ao ousar fazer críticas aos andamentos do último concerto, ainda mais por serem advindas de um simples melômano, donde concluo que sou inadequado para criticar a Orquestra e, consequentemente, de ouvi-la, pois os seres humanos insistem em estabelecer juízos críticos mesmo sobre aquilo que não dominam e, mesmo sendo um reles melômano daltônico e cambota, ainda me classifico entre os seres humanos, até por gerado ter dois deles. (Não lhes disse que hoje dotei-me do poder de apenas declinar nestas linhas a verdade que salva e liberta?). O que mais nos estarrece neste grupo é a forma calorosa com que recebe nossos elogios, o que diz muito mais sobre a natureza humana do que toda a Obra de Paulo Coelho.

2. A ala Piaget: Mesmo hostis a este comentarista, a ala Piaget busca compreender nossas razões e a aqui declino outra verdade que salva e liberta: “Quem compreende perdoa”. Obviamente, é possível conversar com esta ala articulada da Orquestra que busca com seus arcos algum resquício de lógica em nossas opiniões e que, espertas, respeita os sete leitores que nos visitam.

3. A ala Ademir da Guia: esta ala é assim chamada pela serenidade e concordância com nossas teses. Como sou um ser humano dotado de falhas, inclino-me a achar inteligentes as pessoas que concordam comigo. Como pontuou Marcelo Backes em tempestiva manifestação, Serenidade é alegria, tranquilidade, sabedoria e clareza, tudo isso num som que ecoa o azul do céu e a claridade do éter. Parece a descrição do futebol de Ademir da Guia, não? Bem, esqueçam. O fato é que a bloco hostil (ver 1 e 2) foi furado de forma consistente quando músicos disseram que, sim, os andamentos estavam rápidos – bem como eu disse – talvez em função da péssima acústica. Este argumento é duplamente inteligente e não é por concordar comigo: (1) ele encaminha uma explicação e (2) projeta a discussão a outro nível, o da absurda e obscena penúria de uma instituição que os gaúchos dizem amar. (Imaginem o que fariam se a odiassem!!!). Os Pinochets não veem que o importante está logo ali atrás da questiúncula!

4. A ala Edinho: Jogando com três volantes na proteção da zaga, esta ala é irremediavelmente retranqueira e acha que os problemas da Orquestra devem ser discutidos reservadamente, como se não fossem “coisa pública” e sim pura magia. Não sei, mas acho que os gabinetes não têm sido legais à OSPA, que – e agora deixamos de lado as brincadeiras para adquirimos o cenho sério de quem vai falar grosso – está sem teatro, sem local para ensaios, sem regente, com defasagens pecuniárias, necessitada de mais músicos e, voltando à verdade que salva e liberta, cansada de tudo isso, tal como os ouvintes. Pois lhes afirmo que o cansaço é audível sim.

O catálogo acima deve servir como demonstração de que, quando a confusão impera, cada um corre para o lado que melhor lhe apraz, enquanto fala pelos cotovelos. Então, procuraremos objetivar para que nossos leitores, já sabedores do esquema das pequenas tragédias que cercam a OSPA, entendam o que há por vir.

Augusto Maurer pede para que Isaac Karabtchevsky seja substituído parcialmente em suas funções como regente e diretor artístico. Ele sugere Celso Loureiro Chaves ou Ney Fialkow para a direção artística da OSPA e a extinção da figura de regente titular. Concordo 100% com ele neste último quesito. Sobre os nomes sugeridos, tenho certeza de que o primeiro é excelente. Sei que ele não deixaria a Orquestra neste marasmo de repertório que é seu habitat atual. Só conheço Ney como pianista, então não posso nem cantar suas qualidades nem expor-lhes os defeitos. Mas o Augusto sabe julgar, posso garantir.

Mas você pergunta: por que é ruim ter um regente titular? Ora, além das razões explicitadas pelo Augusto abaixo, eu, como arauto da verdade, digo-lhes: os regentes titulares privilegiam seus concertos, além de terem a tendência de estender seus corpos na maldita “zona de conforto”, local inadequado para artistas, como vocês sabem.

Mas você ainda pergunta: esta é a maior das vicissitudes da OSPA? Não sei, porém, em minha opinião, é a primeira a ser tratada e então urge resolvê-la com critério, bom senso e caldo de galinha. Depois, há o repertório (argh!), os concursos, o teatro e a glória perdida. Como há um longo caminho para percorrer, certamente será melhor deixarmos o rebotalho e o regente único em casa. E, antes de nos despedirmos, somos obrigados a deitar aqui mais uma verdade daquelas que salvam e libertam: estaremos sempre ao lado da Orquestra, pois, não obstante nossas críticas aqui e ali, amamos a música e quem a faz. Podem contar conosco.

~o~

Carta Aberta ao futuro Secretário da Cultura do Rio Grande do Sul, por Augusto Maurer

“Sempre defenderei o regime estatutário de contratação pública por ser o único sob o qual se pode dizer o que se pensa.”

LUIS OSVALDO LEITE, quando presidente da OSPA

Caro secretário,

não é preciso muita imaginação para adivinhar que, desde que sua participação no próximo governo do Estado foi anunciada, o senhor tenha se tornado alvo de intenso assédio por parte de uma variada gama de aspirantes a cargos de confiança vinculados a sua pasta. É, assim, igualmente fácil adivinhar que a corrida aos cargos com lotação na administração da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre também já esteja a pleno vapor, ainda que, compreensível e estrategicamente, distante dos olhares da mídia.

No delicado momento de transição governamental, em que mazelas e vícios administrativos facilmente se perpetuam ao mesmo tempo que virtuosos e legítimos anseios se postergam por, na melhor das hipóteses, ao menos mais quatro anos, tomo a liberdade de lhe falar franca e abertamente sobre a natureza e particularidades da gestão artística de corpos sinfônicos.

Pelas razões e circunstâncias abaixo, penso que as últimas coisas das quais a Ospa precisa, em nome da qualidade de sua programação e de seu progresso artístico, sejam mais um regente titular e outro maestro de carreira como seu diretor artístico.

Instituições públicas, dentre elas as culturais, são corpos volumosos cuja evolução é tremendamente limitada pela forte inércia de tradições caducas, por vezes blindadas à crítica e à atualização. É sabido, também, que em nosso sistema político a participação na esfera pública é muitas vezes não mais do que uma figura de linguagem exclusivamente presente na retórica eleitoral – já que, quando se trata de ocupar os cobiçados assentos de um governo, políticos eleitos costumam se voltar não à sociedade mas, invariavelmente, a quadros ociosos de sua base partidária de apoio – as honrosas exceções, neste caso, apenas confirmando a regra.

Ocorre, então, que, na pirâmide descendente de confiança decrescente das administrações direta e indireta, acabamos governados por afiliados e/ou afilhados políticos que jamais obteriam o consentimento social para o exercício das funções que desempenham. Não quero aqui, no entanto, falar de política, mas de suas nefastas implicações na gestão da coisa pública cultural, musical em geral e sinfônica em particular.

Qualquer músico que tenha tocado por algum tempo em orquestras sinfônicas públicas e, gosto de acreditar, ao menos a parte mais atenta de seus ouvintes percebe que uma orquestra qualificada toca melhor e mais motivada sob variadas batutas igualmente qualificadas do que quando submetida ao pulso tirânico, imutável e entediante de uma única. É claro que essa regra não vale para a escassa categoria dos regentes exponenciais, sonhos de consumo de qualquer orquestra – cujos honorários artísticos, no entanto, são comumente cotados muito além do cacife da grande maioria das orquestras, na qual a Ospa está incluída. Quando, todavia, uma orquestra de média magnitude logra, contrariando quaisquer expectativas, contratar para uma longa residência um desses salvadores, o resultado é, quase sempre, o seguinte.

O ás da batuta contratado como salvador logo se entedia da lida corriqueira com os mesmos músicos (a menos, é claro, que estivéssemos falando da Filarmônica de Viena ou similares). Como corolário, não tarda a descobrir (se já não sabia) que o melhor caminho para a superação deste quadro depressivo é o portão de embarque do aeroporto. Com efeito, regentes exponenciais são cidadãos do mundo, vivendo em hotéis e flertando com os melhores conjuntos do planeta a lhe disputar a agenda. Daí se tem que mesmo orquestras respeitáveis, como, por exemplo, a Filarmônica de Los Angeles sob Gustavo Dudamel, tendem a cair em abandono quando confiadas a salvadores notáveis.

Descartados, desse modo, os gênios, os prognósticos são ainda menos auspiciosos quando batutas públicas são delegadas apenas às mãos de um único regente suficientemente bom. Por uns poucos meses, o jovem, ambicioso, aplicado e, talvez, inocente maestro cativará orquestra e audiência até que, inevitavelmente, seu repertório se esgote – quando, então, também tomará, por pânico ou ambição, o caminho do aeroporto. Só que, não pertencendo ao concorrido jet set dos astros da batuta, terá sua arena de atuação limitada a orquestras geridas por pares pertencentes a sua rede de contatos, às quais se fará convidar mediante convites recíprocos para reger a orquestra que lhe foi confiada. Tal prática pode ser facilmente comprovada mediante o simples cruzamento entre a agenda do regente titular e as dos convidados de uma orquestra. Um exame mais cuidadoso das mesmas também revela que titulares itinerantes se valem amiúde de orquestras às quais atribuem menor prestígio (provincianas, como alguns as designam) como plataforma de treinamento para enfrentar repertórios mais exigentes diante de audiências mais cosmopolitas.

Nesse cenário pessimista, muitos já anteviram, como uma luz no fim do túnel, a possibilidade, jamais posta em prática no âmbito da OSPA, do não preenchimento, pela Secretaria de Cultura e pela Presidência da Fundação, de seu cargo de regente titular – ficando, neste caso, a qualidade da programação e o entusiasmo do conjunto assegurados mediante realização de uma temporada de concertos a cargo de regentes convidados para residências de curta duração – contratados, por sua vez, com os próprios recursos, geralmente volumosos, outrossim alocados à manutenção de titulares onerosos e de curta validade. Neste modelo, que já me resignei a considerar como utópico, repertórios, solistas e regentes convidados seriam fruto de um consenso viabilizado pela existência e atuação, de fato e de direito, de uma entidade colegiada com força deliberativa composta paritariamente pelo poder público, a orquestra e sua audiência. Gosto de pensar nisso como uma instância ideal do tão alardeado e nem sempre aplicado controle social.

Feito isso, restaria ainda ao secretário de Cultura e ao presidente da Fundação a complexa atribuição de designar para a Ospa um diretor artístico. Como amante e artífice das letras, talvez não lhe seja estranha uma passagem da formidável novela Árvores Abatidas – Uma Provocação (trad. Lya Luft, 1985), do grande Thomas Bernhard, em que o herói e alter-ego do autor cinicamente prevê, num banquete cultural em Viena, o inexorável declínio do prestígio de um incensado diretor artístico recém designado para um importante teatro em razão direta do desgaste inerente ao exercício do próprio cargo. Tivéssemos aqui mais tempo, traçaríamos sem dúvida deliciosos paralelos entre O Homem Amoroso e a novela de Bernhard.

Devo, no entanto, me ater, por hora, ao futuro da Ospa e, indo direto ao ponto, chamar a atenção para o fato de que a escolha de seu diretor artístico não deve de modo algum se restringir àqueles que sejam também maestros por ofício (empíricos) e/ou formação (diplomados). A tradição de que diretores artísticos de orquestras sejam, quase sempre, profissionais da batuta se deve exclusivamente ao fato de que, para atrair salvadores, tidos por muitos gestores como escassos, organizações sinfônicas recorram com freqüência ao duplo expediente de lhes permitir o acúmulo de vencimentos por ambos os cargos (de regente titular e de diretor artístico) – lhes garantindo, ao mesmo tempo, a centralização das decisões que lhe afetam a programação (uma moeda valiosíssima, como vimos acima).

Onde e como procurar, então, dentre os não maestros, aqueles com o perfil mais recomendável para exercer a direção artística de organizações sinfônicas? Evidentemente, entre os que mais conhecem música, isto é, músicos, compositores, musicólogos, críticos e, last but not least, ouvintes – desde que, é claro, comprometidos com a premissa anterior de gestão social da coisa artística pública. Pois, é bom lembrar, assim como a Osesp recorreu a Arthur Nestrovski para (espero) varrer o ranço autoritário de Neschling, penso que aqui Celso Loureiro Chaves (oxalá aceitasse!) ou Ney Fialkow, para citar uns poucos e apenas à guisa de exemplo, poderiam realizar, dada a magnitude de sua autoridade musical, um trabalho excelente e sem precedentes entre maestros diplomados ou empíricos à frente da gestão artística da Ospa.

Por isso, apelo para sua sensibilidade sem ser ingênuo em relação a forças políticas que se sobreponham eventualmente a seu cargo. Lembro, no entanto, que não raro esferas artísticas sirvam de contextos propícios ou mesmo ideais para movimentos em direção ao progresso social – como, por exemplo, na célebre instância em que o grande Kurt Masur chegou a ser cogitado para exercer o cargo de chanceler da Alemanha recém unificada.

Deste modo, se tiver a oportunidade e o apoio necessários para inovar em relação à gestão social e participativa da Ospa, dará um grande passo tanto no âmbito da cultura como no da política em nosso estado. Senão, terá sido para mim ainda assim um prazer debater e amadurecer ideias progressistas com alguém de sua estatura humanística.

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A Indústria do Elogio e A Arte do Combate

Publicado em 9 de outubro de 2003

Ia escrever sobre o blog português O Meu Pipi, mas, por pura sorte, entrei antes no blog do Inagaki e vi que ele já o fizera. Fica prá próxima, pois assunto é o que não falta.

Sempre me preocupa o fato de que há um sistema de “compra de comentários elogiosos” na blogosfera. A coisa funciona assim: eu visito um blog e escrevo um elogio, então o recebedor do afago fica em dívida comigo e se obriga a retribuir minha visita; nesta ocasião, ele convenientemente se desmancha de amores por meu último post. É isto. Gosto muito de visitar blogs e de deixar comentários neles. Fico feliz quando abro qualquer de meus blogs preferidos e vejo que há post novo. Estou no esquema, mas tenho muitas restrições.

Vou fazer uma confissão: confesso que – algumas vezes – me comportei como Machado de Assis quando escrevia sobre as obras de seus amigos: busco algo de positivo nos posts que leio e deixo de lado o que me desgosta. E, quando não encontro nada de positivo, simplesmente vou embora. Não creio ter sido hipócrita a ponto de elogiar o que detestei ou o que não li. Mas já fiquei muitas vezes intrigado ao receber comentários laudatórios que ignoravam e até contrariavam a tese defendida por meu texto. Ou seja, os autores das pequenas notas não haviam lido o post… Isto é uma temeridade, pois o maior interessado em ler o comentário é a pessoa que mais conhece o post.

Voltando a meu assunto. A esmagadora maioria dos blogueiros só comenta para louvar. Entramos nos blogs alheios como se entrássemos numa sala de estar desconhecida e formal, onde devemos nos comportar com fineza. Temos apenas sorrisos para nossos anfitriões e, se eles cometem uma gafe, voltamos pudicamente o rosto para o lado. Só que não estamos entrando na sala de estar de outrem, o blog é um espaço público onde há exposição e pode haver, eventualmente, críticas. Qualquer um que se exponha está sujeito a críticas, seja ele artista, jogador de futebol ou blogueiro. Se não temos intimidade com o anfitrião, é natural que sejamos educados, agradáveis e indulgentes, mas não é muito natural mantermos esta postura para quem não está “fazendo sala” para nós, mas sim opinando, poetizando, fantasiando, inventando, criando. Isto é, ficamos sorrindo para um anfitrião que se comporta como um louco. Em quatro meses de blog, posso dizer que recebi apenas um comentário discordante, obra do citado Inagaki. Ele foi veemente ao defender uma opinião contrária à minha. Não houve ofensa, nem repercussão, apenas discordamos cordialmente e permanecemos amigos e leitores mútuos. Outro blogueiro, o Zadig, me confidenciou que evita deixar comentários quando não gosta do post, é uma opção que o protege da hipocrisia.

Já eu devo ter lido centenas de posts que achei detestáveis, mas somente combati quando percebia que o dono do blog era muito inteligente e aberto ao contraponto. Ousei discordar do genial Pro Tensão – e não aconteceu nada -, do Ladeira da Memória (que espero seja reativado logo) – e não aconteceu nada -, do Literatus – a Andréa até agradeceu a interferência e, dias depois, convidou-me para escrever um artigo para o site literário de uma de suas clientes -, etc. Ou seja, não precisamos viver da indústria do elogio. Nossos grupos de comentários se ampliarão ou diminuirão com ou sem eles.

Mas por que estou pensando nisto? Por analogia à obra que meu amigo Marcelo Backes – um imenso intelectual gaúcho que está morando na Alemanha – lançará nos próximos dias pela editora paulista Boitempo. Ele abandonou temporária ou definitivamente suas excelentes traduções de Kafka, Goethe, Heine, etc., e escreveu o livro “A Arte do Combate”. No ano passado, durante sua visita anual ao Brasil, ele me comentou que julgava asquerosa a forma como os escritores gaúchos falavam da genialidade de seus colegas, por literariamente díspares e intimamente hostis que fossem. Não interessa a obra, o escritor X publica elogios rasgados a Y e fica esperando que venha a contrapartida. Um dia ela virá. Backes recusa-se a participar deste esquema, pois a eliminação da crítica e da pluralidade de opiniões não servem à literatura e só se justificam para enganar o público, fazendo-o comprar obras de segunda categoria. Na Alemanha, segundo Backes, a coisa é muito diferente. Os escritores combatem por suas opiniões e o resultado é uma das melhores literaturas da Europa, certamente muito acima da francesa e italiana, por exemplo. Não sou ingênuo a ponto de achar que apenas isto crie uma grande literatura, mas acredito que eventuais “combates” entre seus protagonistas não a prejudiquem.

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Mônica acorda, Paulo pragueja, Adriana seduz, Marcos viaja (fragmento)

Mônica acordou lentamente com a luz da manhã entrando por sua janela. Deitada ainda, seu rosto estava voltado para o céu nublado, o que fazia seus olhos parecerem muito úmidos e claros. Tinha 40 anos e gostava deste despertar lento e preguiçoso. Sempre evitara trabalhar cedo; alguns pensavam que ela ou tinha dificuldades para dormir ou tinha uma vida noturna movimentada demais para sair de casa cedo. Raramente alguém estranho a tinha visto em pé antes das 10h da manhã.

Sem virar o corpo, tateou atrás de si para assegurar-se da ausência do marido. Estava sozinha e a comissura de seus lábios denunciaram um leve sorriso. Durante o dia, aquele era o único momento todo dela, em que podia ficar apenas lendo, ouvindo música muito baixo ou pensando… Movo-me no vago plano estético da literatura. O que o autor desejará de mim hoje? Sorrindo a tais pensamentos, conjeturava sobre a agenda do dia, até que os barulhos da casa começam a chegar até ela. Reconhece o som de sua mãe caminhando pelo corredor, depois o da porta do banheiro, descarga, pia, escovar de dentes, porta do banheiro novamente e o som da cadeira de balanço. Por que sentou-se antes de tomar café?

Decide não preocupar-se com isto e estende o corpo para pegar a biografia do pianista Glenn Gould que está sobre o criado-mudo. Abre o livro na página 105 e lê. Desde o início de sua carreira de concertos, Gould falava bastante em abandoná-la. Fecha o livro e vira-se, deitada agora de costas, olhando o teto. O silêncio do quarto era um obstáculo às palavras.

~o~

Sou um homem pequeno, culto e pacífico. Raramente altero meu tom de voz gentil e cortês. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mantenho uma postura tranquila. Na verdade, minha gentileza é tão completa que tenho o costume de atrair todas as desgraças e culpas para minha pequena pessoa. Isto me torna alguém muito adequado para certos amigos e mulheres. Esta disposição é belamente ornamentada por meu aspecto físico. Parece ser mais simples culpar alguém que — além de gentil — é pequeno. Minha extrema gentileza retarda ou extingue qualquer reação de minha parte e, mesmo que reagisse descontroladamente — com uma agressão física, por exemplo — penso que causaria mais surpresa do que lesões a um homem comum. Há momentos em que me torno irritadiço e exacerbado. Mas só consigo chegar a este estado quando solitário.

É bom que lhes diga que tenho absoluta necessidade de não criar uma imagem própria que seja muito diferente da realidade. Da que represento. Às vezes, me atrapalho ao oscilar entre a gentileza de não querer magoar e a franqueza de não distorcer, coisas que estão entre minhas mais imperiosas necessidades internas. Tão imperiosas que muitas vezes hesito e deixo minhas frases pela metade.

Estou vivendo temporariamente com uma mulher bem maior do que eu, em todos os sentidos. Sim, meus amigos, ligar minha vida a alguém fisicamente tão abundante, com uma personalidade tão magnífica, com uma inteligência tão abrangente e com um poder econômico tão avassalador foi, no mínimo, uma imodéstia, pois sou diminuto em todos estes quesitos. Deixei-me levar pela euforia de ter-lhe conquistado a confiança. Ela queria um filho imediatamente, estava na idade de tê-lo. Temos um filho.

(continua?)

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O Questionário de Proust (V) – Responde Flavio Prada

Publicado em 14 de fevereiro de 2007

Amigos.

Na última quarta-feira, por pura sorte do blog, pedi a vários amigos para responderem a este questionário. Digo “por pura sorte do blog” porque, se não fosse o fato de muita gente tê-lo respondido, isto aqui estaria provavelmente parado. O que houve? Ora, no dia seguinte, minha mãe desabou sozinha em sua casa, batendo fortemente a cabeça. Desde então está hospitalizada. Ela tem 79 anos e a queda deixou-lhe alguns sangramentos cerebrais ainda não absorvidos. Talvez não precise de cirurgia, mas está muuuuuito confusa. Meus dias têm sido uma correria. Há o trabalho e há minhas três mulheres: uma no hospital, outra me auxiliando como pode e outra esperando – numa boa – alguma diversão durante suas férias comigo. As duas últimas não cobram nada. São uns amores. O problema é minha ânsia em atender a tudo e a todos com qualidade. Olha, normalmente sinto-me muito bem sendo filho, amante e pai; quando isso pesa, é porque não estou bem. Amanhã de manhã, depois de ter levado a Bárbara na equitação – sua maior paixão – e depois de marcar outras aulas em todas as próximas manhãs (cavalos não pulam carnaval), vou me sentir melhor e ainda vai faltar a Claudia…

Enquanto isso, vou mostrando para vocês as respostas. Hoje, vou de Flavio Prada. Bobagem explicar quem é. Vão a seu blog que vale – e como! – a pena. Conheço-o pessoalmente. Talvez vocês não imaginem quão multimídia esse cara é: arquiteto, artista plástico, guitarrista, tecladista, cineasta caseiro, escritor e cozinheiro. Garanto que ele é ótimo nas duas últimas funções. Na casa dele, só me sobrou lavar a louça. Achei suas respostas engraçadas e às vezes um tantinho mal-humoradas… Mas quem é que manda encher o saco dos outros com questionários, porra?!

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

O pior defeito das outras pessoas é que elas não são eu mesmo.

Como gostaria de morrer?

Quando estivesse ainda vivo.

Qual é seu estado mental mais comum?

Frio e preciso. Ou seja, “frio” porque o espaço vazio é sempre mais frio. E “preciso” porque preciso entender o que é “estado mental”.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Eu mesmo.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Ficar atento à respiração, da manhã até à noite.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Mario.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Recorro à faculdade de nao responder algo que possa me comprometer legalmente.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

O mais plausível ao retornar depois de morto: ossos.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Quando digo: “pra falar a verdade…”

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Nao responder à perguntas.

Qual é seu maior medo?

Receber perguntas para responder.

Qual é seu maior ressentimento?

Esquecer guarda chuvas nos lugares.

Que talento desejaria ter?

Pergunta inútil.

Qual é seu passatempo favorito?

Olhar o relógio.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Pergunta inteligentíssima, mas eu não posso.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Crianças com fome.

Onde desejaria viver?

O que quer dizer? Eu já estou vivo!

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Não sei o que isso quer dizer.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

Preciso de muito tempo pra responder isso.

Quando e onde você foi mais feliz?

O “mais” da pergunta objetiva excluir todos os outros bons momentos que tive e tenta me obrigar a eleger apenas um, como se fosse lógico que uma vida pudesse encontrar sentido em algum píncaro de glória, em algum fugaz átimo de ilusória alegria. Querem me reduzir a um ansioso infeliz, na verdade. Vão tomar no cu.

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O Questionário de Proust (IV) – Responde Luís Graça

Publicado em 12 de fevereiro de 2007

Luís Graça tem 44 anos e nasceu em Lisboa. Jornalista de profissão, é atualmente freelance. Freqüentou recentemente um workshop de criação teatral com o dramaturgo José Sanchis Sinistierra, no Teatro Nacional D.Maria II, em Lisboa.

Como obras individuais publicou “A Idade das Trovas” (Editora Universitária, 1999, poesia), “Meia-Dúzia de Maldades”, teatro, Inatel, 2000), “De boas erecções está o Inferno cheio, Polvo, 2004, poesia), “O homem que casou com uma estrela porno e outros contos perversos” (Polvo, 2003), “Neura 2004” (contos, Oficina do Livro, 2004) e “Fado, Futebol de Farpas, uma ventura psicadélica” (edição de autor, 2006, romance).

Começou a publicar no DN-JOVEM, suplemento literário para jovens até 25 anos, criado pelo “Diário de Notícias”. A sua escrita abarca os campos do romance, contos, poesia lírica e satírica, teatro, ensaio.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

A hipocrisia.

Como gostaria de morrer?

Tranqüilamente, durante o sono. A olhar um pôr do sol, como os índios, afirmando: “Está um belo dia para morrer”; de espada na mão, como um viking.

Qual é seu estado mental mais comum?

Actualmente, bastante irritado, com o momento actual do mundo. O termo mais correcto será revoltado. Algumas vezes, deslumbrado com as pequenas pérolas de que desfruto, seja no cinema, no teatro, na televisão, nos livros, nos CD, nos sorrisos das mulheres bonitas, nos afagos dos cães e dos gatos.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Corto Maltese, de Hugo Pratt. Simboliza o romantismo, o herói rebelde e muito humano, recheado de mundo e de vida.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Ter oferecido 40 cravos a 40 mulheres desconhecidas, no dia dos meus 40 anos, partindo de uma florista do Mercado da Ribeira (Cais do Sodré, Lisboa, junto ao Tejo) e acabando à porta de minha casa. E até encontrei uma pessoa que ia para um funeral e pretendia saber onde podia comprar flores. Acabei a dar-lhe os pêsames e ela a dar-me os parabéns.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Não tenho tempo para decidir entre um vasto rol de políticos portugueses e estrangeiros.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

É igualmente difícil decidir. Mas ainda hoje estive no lançamento de mais um livro do alpinista português João Garcia. É um herói. Já perdeu amigos nas escaladas, já arriscou a vida para tentar salvá-los. Continua a subir, sempre a subir. E não deixa de ter os pés na terra. Sempre humilde e disponível.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Um golfinho. Jim Clark. Leif Eriksson.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Nas ocasiões em que uma mentira é mais ética que a verdade.Nas ocasiões em que a verdade é demasiado dolorosa para ser dita. Nas pequenas mentiras do quotidiano, para evitar conflitos, como forma de auto-defesa.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Uma ilha tropical, um pôr-do-sol, um grande livro na mão, a Miss Universo deitada numa rede ao nosso lado, um fabuloso par dançando o tango na linha do horizonte, o tema musical seria “The fool on the hill”, dos Beatles.

Qual é seu maior medo?

O sofrimento físico. A perda das nossas memórias. Tornar-me num homem cada vez mais amargo.

Qual é seu maior ressentimento?

Não sei.

Que talento desejaria ter?

Gostava de ser um maravilhoso pianista de jazz.

Qual é seu passatempo favorito?

Ler.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Muita coisa. Mentalidades, atitudes, acções e omissões.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

A fome a a doença.

Onde desejaria viver?

Sydney.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

A beleza física.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

A solidariedade, a hombridade, a ternura.

Quando e onde você foi mais feliz?

Três dias em Sierre, Suíça, (1994), num festival de BD. A descer uma pista rápida de waterslide em Alcantarilha (Algarve 1988) e em Riccione (Itália), em 1995; sempre que cheguei ao topo do Monte Atalaia (Venda do Pinheiro, Malveira, a 30 km de Lisboa) e consegui vislumbrar ao longe, por entre a névoa, o Palácio da Pena, em Sintra. No dia em que me abracei a um cão Samoiedo e senti aquele pelo todo fofo ao meu redor, vendo apenas a sua cauda a abanar.

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