Sentindo-me uma Clara Corleone no Bom Fim

Eu tinha corrido 4,8 Km na Redenção (em 30 min) e empurrava meu corpo Santo Antônio acima. Me arrastava suado, sem camisa, com minha barriga à mostra.

Na minha calçada, em sentido contrário, vinham duas mulheres de uns 40 anos. Ao chegarem perto de mim, uma se virou pra outra num tom muito cúmplice e disse em voz alta, de forma pouco natural:

— Tem uns caras mais velhos que são bem gostóóósos.

A outra riu enquanto me media. Quando passamos uns pelos outros, emiti uma de minhas especialidades sonoras, fazendo (com a boca) um autodepreciativo

— Pfff…

Será que é efeito da máscara? Logo pensei nas aventuras da Clara [Corleone] pelo Bom Fim e em contar para Elena só para me fazer.

Entrando no edifício, fiz a frase definitiva:

— Vertendo suor e borogodó, Milton Ribeiro volta para casa quase enfartando.

.oOo.

Obs.: Borogodó (substantivo masculino):
1. atrativo pessoal irresistível.
2. afeto, carinho.

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Pelé x Maradona

Como jogadores de futebol, Pelé e Maradona são difíceis de comparar. Vi ambos ao vivo em campo. Não apenas eram muito diferentes, como preferiam jogar em posições distintas no ataque. Um é de uma geração, outro de outra e o futebol mudou muito entre os anos fim dos anos 50 e o início dos 70 — período de Pelé — e os anos 80 e 90 — período de Maradona. Como se não bastasse, Pelé gostava de ser medido pela quantidade de seus gols, Maradona nunca fez isso.

Uma coisa dá para dizer: há pouco ou nenhum sangue europeu em ambos.

Mais fácil de comparar são Messi e Cristiano Ronaldo. Hoje, um tem 33 e o outro 35 anos, jogaram na Espanha em times quase análogos e começaram a disputar quem fazia mais gols, quem dava mais assistências e quem ganhava mais títulos para seus times. Fica mais fácil de comparar.

São mais como os tenistas Djokovic e Nadal, que têm diferença de um ano e estão sempre disputando um contra o outro. Está 29 a 27 para o sérvio.

.oOo.

Ontem, vi um cara ficar visivelmente contrariado pelo nível de informação futebolística de uma mulher que falava sobre Maradona. Eu só ri.

Imagina só, inteligente e ainda falando de futebol como um homem!

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Hoje, os 15 anos da patética Batalha dos Aflitos

Hoje, os 15 anos da patética Batalha dos Aflitos

Sou colorado, mas sei que neste 26 de novembro de 2020, comemora-se os 15 anos de um dos momentos mais sensacionais, nervosos e patéticos da história do futebol gaúcho. Revendo o jogo, acho que, antes de uma epopeia, foi um inconfundível jogo de Segunda Divisão em um estádio e com jogadores típicos da categoria. Não sei como o Grêmio chegou àquilo. Atualmente, é muito outro. Ver em ação Sandro Goiano, Nunes, Galatto, Escalona, Lipatín, Marcel, Domingos e outros menos votados é uma alegria indizível para qualquer colorado. E, bem, a verdade é que a grande vitória gremista passa muito mais pelo despreparo e ruindade do Náutico do que pela atuação do tricolor gaúcho.

O Grêmio precisava apenas do empate para voltar para a Série A, mas jogava muito mal no primeiro tempo. Lá pelo final desta etapa, Domingos cometeu um pênalti em Paulo Matos. O lateral Bruno Carvalho chutou no canto direito de Galatto, acertando o poste. Até hoje, o goleador Kuki recusa-se a falar no assunto, mas os jornais do dia seguinte disseram que o terceiro maior artilheiro da história do clube pernambucano amarelou e acabou não batendo o pênalti. Bateu o tal Bruno.

No segundo tempo, o time gaúcho voltou melhor. Aos 15 min, entrou o jovem Anderson, de 17 anos, que seria decisivo apenas no rumo da partida, pois o empate era suficiente. Aliás, não dá para explicar as escalações de Marcel e Ricardinho tendo Anderson no banco. Com o menino em campo, o Grêmio logo ganhou velocidade e contra-ataques, diminuindo um pouco a pressão do Náutico. Não obstante, o Náutico seguia perdendo gols, alguns com Kuki, que jogava bem.

Aos 30 min do segundo tempo, Escalona, o lastimável lateral esquerdo do Grêmio, tomou cartão vermelho e, logo depois, houve um pênalti não marcado contra o Grêmio, como pode ser visto aos 14`27 do vídeo abaixo. Para compensar, o árbitro Djalma Beltrami, logo depois, marcou outro numa bola que bateu no cotovelo de Nunes. Hoje, aquilo é pênalti; na época não seria, pois o toque não fora intencional. Os jogadores e a comissão técnica do Grêmio indignaram-se e começou uma confusão varzeana. Parecia o campo de futebol do Parque Saint-Hilaire. E é disso que o Grêmio se ufana nesta data. Todo mundo entrou em campo. Patrício, Nunes e Domingos foram expulsos e Odone ameaçou ir embora várias vezes. Estávamos na Segunda Divisão, não esqueçam.

Após 25 minutos de chinelagem, a torcida pedia Kuki, mas ele — ou o técnico, que diz que o artilheiro estava com as pernas pesadas — deixou a tarefa para o lateral-esquerdo Ademar. A cobrança foi no meio do gol e Galatto, que caía para o lado esquerdo, defendeu com a perna.

O Grêmio comemora e Kuki, deitado, desespera-se | Foto: gremio.net
Ademar (6) erra, o Grêmio comemora e Kuki (deitado) desespera-se | Foto: gremio.net

Na continuação do lance, o zagueiro Batata, do Náutico, cometeu falta violenta em Anderson e recebeu cartão vermelho. Na cobrança, Anderson aproveitou a perturbação do Náutico e fez o gol da vitória, que valeu também o título da Série B. Entre o erro de Ademar e o gol de Anderson, passaram-se 71 segundos. O conto diz que foram decisivos, mas repito: o empate bastava.

No momento do gol, eram 10 jogadores do Náutico contra 7 do Grêmio.

Tive a sorte de não ver tudo isso ao vivo. Estava viajando. Lembro apenas que calculei o horário do final da partida e entrei numa lan house romana, louco para confirmar que o Grêmio ficara pelo segundo ano consecutivo na Segundona. Mas o site do Terra estava estranho: dizia que eram 57 minutos do segundo tempo e estava 0 x 0. Devia estar errado. Um bug, com certeza. Fui fazer outra coisa. Quando retornei a Porto Alegre, tudo já era uma grande lenda.

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Morreu Diego Maradona (1960-2020)

Morreu Diego Maradona (1960-2020)

“Sou o argentino que menos se parece com um argentino. Nasci em um bairro pobre, não sou de ascendência europeia e amo Pelé — mas nunca lhe digas isso”.
Diego Armando Maradona

Lembro daquelas manhãs de domingo nos anos 80 em que víamos o Napoli jogar com Maradona, Careca e Alemão em seu time. Lembro da narração de Sílvio Luís italianizando o nome de Careca para Careconi. Careconi e Maradona.

Depois, Maradona disse que o brasileiro fora seu melhor companheiro de ataque. Foi um justo reconhecimento.

Na época não havia ainda a cocaína — ou não se sabia ainda dela. Mas como jogava Maradona! Sua habilidade miraculosa com a perna esquerda e a notável intuição para atuar em espaços mínimos era algo inexplicável. E que lançamentos!

Sim, foi-se um ídolo meu. Quando Maradona estava em campo, todos os outros jogadores pareciam esforçados aprendizes. A bola se dirigia para ele com visível prazer.

Maradona sempre se expôs, nunca negou seus problemas e sempre disse, por exemplo, que não existiam ex-viciados. Como disse Galeano, foi o mais humano dos deuses.

RIP, Diego.

Maradona tiene que cargar con una cruz muy pesada en la espalda: llamarse Maradona. Es muy difícil ser Dios en este mundo, y más difícil comprobar que a los dioses no se les permite jubilarse, que deben seguir siendo dioses a toda costa. Y el de Maradona es un caso único, el deportista más famoso del mundo, a pesar de que hace años que ya no juega, esa necesidad de protagonismo derivada de la popularidad mundial que tiene. Quiero decir que es el más humano de los dioses, porque es como cualquiera de nosotros. Arrogante, mujeriego, débil… ¡Todos somos así! Estamos hechos de barro humano, así que la gente se reconoce en él por eso mismo. No es un dios que desde lo alto del cielo nos muestra su pureza y nos castiga. Entonces, lo menos que se parece a un dios virtuoso es la divinidad pagana que es Maradona. Eso explica su prestigio. Nos reconocemos en él por sus virtudes, pero también por sus defectos.

Se convirtió en una especie de Dios sucio, el más humano de los dioses, eso explica la veneración universal que él conquistó más que ningún otro jugador. Un Dios sucio, que se nos parece: mujeriego, parlanchín, borrachín, tragón, irresponsable, mentiroso, fanfarrón, pero los dioses por muy humanos que sean no se jubilan.

Eduardo Galeano

A homenagem do River Plate, o maior rival.

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Contra Amazon, de Jorge Carrión

Contra Amazon, de Jorge Carrión

O título italiano deste ótimo livro de ensaios é bem mais justo: Contra Amazon. Dezessete textos em defesa das livrarias, das bibliotecas e da leitura. Sim, pois o ensaio Contra Amazon ocupa apenas 17 das 304 páginas do livro. Pode ser que seja o melhor dos ensaios, mas há outros igualmente extraordinários.

Contra Amazon é um livro altamente inteligente, preciso e estimulante. Fala mal da Amazon, mas se dedica muito mais ao elogio de bibliotecas e de pequenas livrarias. Fala mal da compra de livros pela internet e valoriza o contato com o livreiro, a surpresa e a humanidade.

São dezessete textos — alguns menos longos, outros ensaios literários de grande profundidade — que servem, como escreve o próprio autor, para compreender que “a realidade não existe se a linguagem não a precede. E a viagem não tem sentido se você não encontrar palavras”. Os livros, livrarias, bibliotecas, livreiros são espaços de palavras, encontro e paz.

Escreve Jorge Carrion em seu manifesto Contra Amazon, “ainda não somos capazes de lembrar com a mesma precisão o que lemos no papel e o que lemos no e-book”. Aqui está uma das chaves da importância deste livro. Também é curiosa a vida do autor: ele viaja por Seul, Genebra, Tóquio, Capri, Miami, Londres, etc., sempre com uma desculpa livresca. Sempre procurando por pistas de autores, livrarias, livreiros e bibliotecas.

Dentre os ensaios há duas maravilhosas entrevistas — uma com Alberto Manguel e outra com Luigi Amara.

Contra Amazon, por ser uma afronta a um gigante da Internet — que não é uma livraria, mas um hipermercado –, propõe que sejamos inteligentes e evitemos a lógica do monstro de Jeff Bezos em benefício de nossa própria experiência nas livrarias. Com aquelas livrarias que podem, por exemplo, nos oferecer uma indicação de leitura. Isso traz à tona as ideias de proximidade e lentidão, de conversa e contato. De tempo expandido, enfim. Uma vez que ninguém pode competir com uma biblioteca que nos proporciona experiências únicas, personalizadas e inesquecíveis.

“Conviver com uma biblioteca pessoal significa saber que você não se rende, que sempre terá pela frente menos livros lidos do que livros para ler, que os livros são encadeamento de significados, contextos mutantes, perguntas que mudam de entonação e respostas. Uma biblioteca precisa ser heterodoxa: só a combinação de elementos diversos, de relações problemáticas, pode conduzir a um pensamento próprio.”
Jorge Carrión, em Contra Amazon.

A maravilhosa felicidade de ler um livro físico – novo ou usado — é o tema deste livro. E aqui concordamos fortemente com as posições éticas colocada pelo autor em defesa do velho comércio de livros.

O livro brasileiro termina com dois textos extras de Carrión sobre a pandemia e com alguns depoimentos de livreiros brasileiros. Neste ponto, a coisa torna-se altamente desigual, pois há textos ótimos, textos ruins e outros que parecem não ter entendido o proposito do livro e sua profundidade.

Recomendo fortemente!

O catalão Jorge Carrión

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Via Whats, um amigo que não acompanha futebol me pergunta quem é este Marcelo Medeiros

Eu respondo:

Presidente do SC Internacional que sai agora em dezembro. Sua gestão foi de 4 anos de gestão e ele é o único — desde que acompanho futebol — que não ganhou nada, nem Gaúcho. Duplicou a dívida do clube que hoje está em 1 bilhão e é impagável. É óbvio que uma coisa dessas ameaça a sobrevivência do clube. Podemos virar um América do Rio ou uma Portuguesa de São Paulo. O grupo que representa ama tanto o poder que apoia duas chapas nas eleições: a de Spode e a de Aquino. Tudo para confundir. São ‘inimigos’.

É bolsonarista e porta-se como um reizinho. Chamou a BM pra atacar torcedores e perseguiu juridicamente torcedores de esquerda, para agradar a ala fascista da gestão e conselho. Um péssimo gestor, um leão contra a torcida colorada e um gatinho contra o rival.

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O Café Zimmermann, uma casa de Bach

O Café Zimmermann, uma casa de Bach

O Café Zimmermann, ou Zimmermannsches Kaffeehaus foi a cafeteria de Gottfried Zimmermann em Leipzig que serviu de local para as estreias de algumas das Cantatas Seculares de Bach como, por exemplo, a Cantata do Café (Schweigt stille, plaudert nicht) e obras instrumentais.

Em 1723, ano em que Bach se mudou para Leipzig, o Zimmermann era a maior e mais bem equipada Kaffeehaus de Leipzig e um centro de encontro para as pessoas cultas da cidade. Importante: embora as mulheres fossem proibidas de frequentar os cafés, elas podiam assistir aos concertos no Zimmermann. O café estava localizado na Katharinenstrasse 14, então a rua mais elegante de Leipzig. O nome da rua fora retirado da velha capela de Santa Catarina, demolida em 1544.

O Café Zimmermann (detalhe de uma gravura de Johann George Schreiber (c. 1720)

Com seus prédios barrocos, a Katharinenstrasse era um boulevard conhecido muito além das fronteiras de Leipzig no século XVIII. O edifício de quatro andares e meio do Zimmermann foi construído pelo famoso arquiteto Christian Doering por volta de 1715. O salão do Zimmermann era suficientemente grande para receber grandes conjuntos musicais barrocos — incluindo trompetes e tímpanos — e uma plateia-comensal de cerca de 150 pessoas.

A partir de 1720, o Café sediou o Collegium Musicum, fundado por Georg Philipp Telemann na época em que este era estudante de direito em 1702. Explicando melhor, o Collegium Musicum era uma sociedade musical amadora-profissional fundada em Leipzig por Georg Philipp Telemann em 1702. Posteriormente, foi dirigido por Johann Sebastian Bach entre 1729 e 1739. Os concertos dirigidos por Bach duravam cerca de duas horas e consistiam de óperas alemãs e italianas, música de câmara, cantatas seculares e obras para orquestra.

Esses concertos eram patrocinados por Zimmermann, que fornecia o espaço e possivelmente algum apoio financeiro aos músicos, mas Bach não recebia um “salário fixo” por isso. Era mais uma oportunidade de divulgar sua música secular (como as Suítes Orquestrais e os Concertos de Brandenburgo). A parte principal de seus ganhos vinha da Igreja de São Tomás e do Conselho da Cidade de Leipzig (como Kantor). Os concertos no café eram um extra, possivelmente rendendo-lhe honorários por performances específicas ou apoio de mecenas.

Zimmermann vendia taças de café, além de outras bebidas e comidas. Os concertos reavivaram o negócio do café e o restaurante de Zimmermann, tanto que ele comprou instrumentos para o Collegium Musicum às suas próprias custas. Os concertos terminaram com a morte de Zimmermann em 1741. O público era bastante qualificado e os músicos de fora que visitavam a cidade faziam questão de apresentar-se no Zimmermann.

O grupo de música clássica francesa Café Zimmermann deve o seu nome a este café.

A Cantata do Café

Schlendrian é um pai durão e está preocupadíssimo porque sua filha Lieschen entregou-se à nova mania de tomar café. Todas as promessas e ameaças para desviá-la de tão detestável hábito foram infrutíferas até que, para dissuadi-la, ofereceu-lhe um marido. Lieschen aceita a ideia com entusiasmo e o pai parte apressadamente para conseguir-lhe um. Esta é a ideia principal da Cantata do Café, obra cômica de J. S. Bach, uma mini-ópera, que foi apresentada entre 1732 e 1735 na Kaffeehaus de Zimmermann, em Leipzig. A primeira Kaffeehaus da cidade foi aberta em 1694 — o café chegara à Alemanha em 1670 — e em 1735 a burguesia podia escolher entre oito privilegiadas casas.

A Kaffeekantate, BWV 211, foi encomendada a Bach por Zimmermann e é, em parte, uma ode ao produto (sim, puro merchandising) e, de outra parte, uma punhalada no movimento existente na Alemanha para impedir seu consumo pelas mulheres. Acreditava-se que o “negro veneno” pudesse causar descontrole e esterilidade ao sexo frágil, mas Bach, em troca do pagamento de Zimmermann, ignorou estes terríveis perigos. Senão, talvez não musicasse uma ária que diz: “Ah, como é doce o seu sabor. / Delicioso como milhares de beijos, / mais doce que um moscatel. / Eu preciso de café”; e nem nos brindaria com estas delicadezas…: “Paizinho, não sejas tão mau. / Se eu não beber meu café / as minhas curvas vão secar / as minhas pernas vão murchar / ninguém comigo irá casar”.

Bach aprendera muito bem, em sua vida familiar e em seu trabalho como professor, que influenciar os jovens não era assim tão fácil. Portanto, adicionou um recitativo no qual os planos de Lieschen são revelados: o homem que quiser casar com ela terá de consentir numa cláusula: o contrato matrimonial preverá que ela possa tomar café sempre que lhe apetecer.

No final, há um breve coro de três cantores, onde o café e a evolução são admitidos como coisas inevitáveis. Esta Cantata — ao lado de outras poucas obras vocais profanas — é uma evidente exceção na obra de Bach. O compositor, que possui a injusta fama de sério, aceitou o convite de Zimmermann para compor uma propaganda de seu Café e, como quase sempre fazia, produziu uma obra-prima, uma pequena comédia que funciona tanto no palco quanto nas salas de concertos. O efeito da primeira apresentação deve ter sido consideravelmente ampliado pelo fato de que às mulheres não era permitido cantar em cafés (nem em igrejas) e o papel de Lieschen foi, provavelmente, interpretado por um cantor em falsete. Bach, com o auxílio do poeta Picander, construiu dois personagens muito humanos e verossímeis: um pai resmungão e rústico e uma filha obstinada e cheia de caprichos. O compositor parece estar à vontade ao traçar a caricatura do pai com o baixo pesado, os ritmos acentuados e a prescrição con pompa, enquanto os violinos rosnam para indicar seu temperamento irascível.

Quando ele ameaça privar Lieschen de sua saia-balão de última moda, Bach indica seu tremendo diâmetro de forma escandalosa. A ária de Lieschen em louvor ao café é convencional, tão convencional que parece que o compositor quer insinuar que ela futilmente adotara tal hábito apenas para seguir a moda, o que seria um gol contra para Zimmermann. Entretanto, seu entusiasmo por um possível marido não é simulado… A alegria expressa na melodia em ritmo de dança popular é contagiosa. Para os puristas, o divino e sacro Bach chega a ser grosseiro: afinal, quando Lieschen diz que quer um amante fogoso e robusto, os violinos e as violas silenciam, como para deixar bem clara aos ouvintes a afirmativa sem rodeios (ou para expressar pasmo). O Café Zimmermann deve ter vindo abaixo…

 

A Katharinenstraße em 1905

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Dia Nacional da Consciência Negra: os cartões-postais dos linchamentos da Ku Klux Klan

Dia Nacional da Consciência Negra: os cartões-postais dos linchamentos da Ku Klux Klan

Retirado daqui.
Tradução livre deste blogueiro

A humanidade pode ser pior do que você imagina, muito pior.

Terrorismo é definido como “o uso de violência e intimidação na busca de objetivos políticos”. A mídia ocidental gosta de pintar terroristas com rostos morenos, mas uma das mais horríveis campanhas de terror aconteceu no século passado em solo norte-americano — os estimados 3.436 linchamentos de homens e mulheres negros americanos entre 1882 e 1950, com o objetivo de controlar e intimidar a população negra pouco antes libertada. Não muitas coisas são mais perturbadoras do que ser confrontado com a evidência visual do lado sombrio da humanidade, especialmente quando são evidências de um ódio generalizado e da violência de um ser humano para com o outro. Este ódio veio do medo e foi impulsionado pela religião e pela crença de que os assassinatos são atos de moralidade. Esta violência visava intimidar e suprimir quaisquer aspirações que uma comunidade possa ter por igualdade e um futuro melhor.

Quando me deparei com a coleção de cartões-postais norte-americanos de James Allen e John Littlefield, publicada em um livro intitulado Without Sanctuary: Lynching Photography in America, notei quão importante é conhecer essas imagens, hoje mais do que nunca. Esses cartões-postais foram feitos para comemorar eventos que fizeram muitos brancos norte-americanos se sentirem orgulhosos — de sua raça, de sua superioridade, de sua civilização e de sua inteligência. Eles tiraram fotos de suas realizações nojentas e covardes para serem conhecidas e lembradas. Nas costas, eles escreveram para amigos e familiares numa empolgação de sociopatas. Esses cartões-postais capturam turbas testemunhando com alegria o assassinato de rapazes e moças, cujo crime mais grave foi a cor da pele. Os cadáveres pendurados e carbonizados nesses cartões-postais viviam em um mundo que contava os dias até seu assassinato, a partir do momento em que colocavam ar em seus pulmões infantis. Essa história é poderosa, de revirar o estômago e de importância essencial. E o mais impressionante sobre essas fotos é que elas não apagam os perpetradores como muitas histórias e memoriais fazem hoje, preferindo focar em quem foi vitimado em vez de naqueles que orgulhosamente — e com o apoio do governo — torturaram, estupraram e assassinaram pessoas. Os assassinos nessas fotos estão orgulhosos, são homens adultos olhando para a câmera com a convicção sorridente de que o adolescente que eles acabaram de matar, um contra cem, merecia seu ódio, medo e frustração. Nenhum grande júri era necessário; a lei estava nas mãos dos assassinos. 

A história não é linear. A história está acontecendo ao nosso redor, o tempo todo. Essas fotos são contexto, são realidade, são fotos do terrorismo norte-americano. Esteja ciente de que essas fotos são repugnantes e muito reais.

O linchamento de Elias Clayton (19 anos), de Elmer Jackson (19) e de Isaac McGhie (20), em 15 de junho de 1920, Duluth, Minnesota.

Por James Allen

Eu tenho um brique, sou um catador, um colecionador. É minha vida e minha vocação. Eu procuro itens que algumas pessoas não querem ou não precisam mais e os vendo para outros que precisam. As crianças são catadoras naturais. Eu fui uma delas. Eu brincava com isso desde quando colecionava abelhas em potes.

Meu pai trazia para casa sacos de lona estufados com nomes de bancos, sacos de moedas de cobre ou meio dólar e nós, crianças, sentávamos em volta dos montes de moedas como se estivéssemos em volta de uma fogueira e gritávamos sons de bingo quando encontramos alguma moeda especial.

As mães não aconselham seus filhos a serem catadores. Nenhum adulto deseja ser chamado disso. No Sul dos EUA, é um termo pejorativo. É coisa de gente muito humilde e ignorante, talvez ladra. Tenho tentado trazer dignidade a meu trabalho, viajando incontáveis ​​estradas em meu estado natal, adquirindo coisas que creio serem úteis e reveladoras — móveis feitos à mão, potes feitos por escravos, colchas remendadas e bengalas esculpidas. Muitas pessoas que me vendem estão sobrecarregadas de bens, ou prontas para irem para o lar dos idosos ansiando pela morte. Alguns são vendedores são relutantes, outros ansiosos. Alguns são amáveis, gentis e acolhedores, outros são mesquinhos, amargos e meio enlouquecidos pela vida e pelo isolamento. Nos EUA tudo está à venda, até uma vergonha nacional. Um dia, deparei-me com um cartão-postal de um linchamento. Os cartões-postais pareciam triviais para mim, eram produtos de segunda mão. Ironicamente, a busca por essas imagens me trouxe um grande senso de propósito e satisfação pessoal.

O linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith. Este foi um grande encontro de linchadores acontecido no dia 7 de agosto de 1930, em Marion, Indiana. Inscrito a lápis na moldura: “Bo aponta para seu niga.” Fora da moldura está escrito: “Klan 4º Joplin, Mo. 33.” Achatadas entre o vidro e o papel há cabelos da vítima. ”
Este é o cadáver carbonizado de Jesse Washington suspenso em um poste. O verso diz “Este é o churrasco que fizemos ontem à noite, minha foto está à esquerda com uma cruz sobre seu filho Joe.” 16 de maio de 1916, Robinson, Texas.

O estudo dessas fotos gerou em mim um enorme medo dos brancos, medo da maioria, dos jovens, da religião, dos aceitos. Talvez certo cuidado a respeito dessas coisas já estivesse em mim, mas certamente não tão ativamente como após a primeira visão de um frágil cartão-postal de Leo Frank morto em um carvalho. Não foi o cadáver que me impressionou, foram os rostos delgados como cães de uma matilha, circulando atrás da morte. Centenas de mercados de pulgas depois, um comerciante me puxou de lado e em tom conspiratório me ofereceu um segundo cartão, este de Laura Nelson, presa como uma pipa de papel em um fio elétrico. A visão de Laura criou uma camada de pesar sobre todos os meus medos.

Acredito que os fotógrafos destes cartões foram mais do que espectadores dos linchamentos. A arte fotográfica desempenhou um papel tão significativo no ritual quanto a tortura. A luxúria impulsionou sua reprodução e distribuição comercial, facilitando a repetição infinita da angústia. Mesmo mortas, as vítimas não tinham abrigo.

O linchamento de JL Compton e Joseph Wilson, vigilantes. Ocorreu no dia 30 de abril de 1870, em Helena, Montana. A inscrição impressa no canto superior direito diz: “Hangman’s Tree, Helena Montana”. O verso deste cartão afirma: “Mais de vinte homens foram enforcados nesta árvore durante os primeiros dias.”
O corpo espancado de um homem afro-americano, apoiado em uma cadeira de balanço, roupas respingadas de sangue, tinta branca e escura aplicada no rosto e na cabeça. Na parede, há a sombra de um homem usando uma vara para apoiar a cabeça da vítima. Postal de 1900.

Essas fotos provocam em mim um forte sentimento de negação e um desejo de congelar minhas emoções. Com o tempo, percebo que meu medo do outro é medo de mim mesmo. Então, esses retratos, arrancados de outros álbuns de família, tornam-se os retratos da minha própria família e de mim mesmo. E os rostos dos vivos e os rostos dos mortos se repetem em mim e na minha vida diária. Já vi John Richards em uma estrada remota do condado, balançando-se em passadas de cavalinho de pau, cabeça baixa, olhos no chão. Já encontrei Laura Nelson em uma mulher pequena e robusta que atendeu minha batida na porta de uma varanda dos fundos. Em seus olhos profundos, observei uma multidão silenciosa desfilar em uma ponte de aço brilhante, olhando para baixo. E na Christmas Lane, a apenas alguns quarteirões de nossa casa, Leo, um menino pequeno, com a fralda da camisa para fora e o boné descentrado, vai para as orações do sábado.

A silhueta do cadáver do afro-americano Allen Brooks pendurado no arco em Elk, cercado por espectadores. O linchamento aconteceu em 3 de março de 1910 na cidade de Dallas, Texas. Inscrição impressa na borda, “LYNCHING SCENE, DALLAS, MARCH 3, 1910”. Inscrição a lápis na borda: “Tudo bem e gostaria de receber um postal seu, Bill’. O verso do cartão diz “Bem, John – este é um registro de um grande dia que tivemos em Dallas … Um negro foi enforcado por agressão a uma menina de três anos. Eu vi a agressão.”
Os cadáveres de cinco homens afro-americanos, Nease Gillepsie, John Gillepsie, “Jack” Dillingham, Henry Lee e George Irwin com espectadores.6 de agosto de 1906. Salisbury, Carolina do Norte.
Cartão postal do linchamento de Will James, Cairo, Illinois 1909
Bennie Simmons, ainda vivo, embebido em óleo de carvão antes de ser incendiado. 13 de junho de 1913. Anadarko, Oklahoma.
O linchamento de Leo Frank. 17 de agosto de 1915, Marietta, Geórgia. Sobreposta à imagem: “o fim de Leo Frank, enforcado por uma turba em Marietta. Agosto 17. 1915. ”

Imagens do linchamento de Frank Embree, Fayette, Missouri 1899

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Enquanto Marcelo Medeiros estiver presidente, eu não escrevo sobre futebol

Enquanto Marcelo Medeiros estiver presidente, eu não escrevo sobre futebol

Não tem tática e estratégia. Hoje era necessário jogadores experientes pela importância do jogo.
Braga, Abel

O Inter está melhorando, hoje já fez um gol.
Guerra Filho, Adroaldo.

Após ter fritado Eduardo Coudet, estava na cara que o MIG (Movimento Inter Grande) entraria em campo com as preferências de seu chefe, Fernando Carvalho. E seu factótum (*), Marcelo Medeiros, depois de ter feito a fritura, trouxe Abel.

Abel é um monumento do clube. Mas está desatualizado e a desgraça estava desenhada mesmo sem ele.

Tudo começou com a absurda saída do diretor de futebol Alessandro Barcellos. Mesmo candidato à presidência, deveria ter ficado. Homem que se relacionava bem com o técnico e os jogadores, sua saída perturbou o ambiente. E em futebol, ambiente é quase tudo. Uma vez quebrado, fica difícil de segurar. O nível cognitivo é muito baixo. Renato Portaluppi, por exemplo, não é um nenhum gênio, mas cuida do ambiente direitinho. Nosso ambiente se foi. A política tirou o diretor de futebol. O treinador foi fritado e explodiu. Os jogadores sentem-se à deriva.

O que havia balançado com a saída do Barcellos, foi derrubado com a fritura de Coudet. O torcedor já sabia que o boi já tinha ido com as cordas. Se nós, que somos simples torcedores, notamos a bagunça tática que o Abel proporcionou, imaginem o que está passando na cabeça dos jogadores. Sim, acabou a temporada. Vamos ver o time só cair até o final do ano. Mas a imprensa seguirá elogiando. Eles gostam de Carvalho, como vemos acima..

Não vi o Inter perder para o sub-20 do Santos e nem a eliminação de ontem. Só quero que o ano acabe e que Marcelo Medeiros e o MIG, representado pelos candidatos à presidência Spode e Aquino, sejam extirpados do clube.

Sigo pagando minha mensalidade de sócio só para votar e para não piorar a lambança que MM fez nas finanças, mas ninguém vai me obrigar a ver o Inter jogar hoje. Ontem, parei de ler a escalação em Rodinei. Fui ver quem estava no banco e lá estava Heitor!

Bah, isso me faz mal.

#ForaMIG #ForaMedeiros #ForaCaetano

(*) Indivíduo cuja função é ocupar-se de todos os afazeres de outrem.

Piffero e Marcelo Medeiros: dois factótuns do leque de Carvalho

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Nagelstein, ontem

Ontem, Valter Nagelstein afirmou que os vereadores eleitos pelo PSOL para a Câmara Municipal na próxima legislatura são pessoas “sem nenhuma tradição política, sem nenhuma experiência, sem nenhum trabalho e com pouquíssima qualificação formal” e ainda disse que “muitos deles são jovens e negros, quer dizer, são eco àquele discurso que o PSOL foi incutindo na cabeça das pessoas”.

Estou aqui pensando sobre as qualificações que vejo em Nagelstein. Por enquanto, só encontrei qualificativos.

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Dois Poemas para Shostakovich

Dois Poemas para Shostakovich

O primeiro, de Anna Akhmátova:

Música
Para Dmitri Shostakovich

Algo de miraculoso arde nela,
e fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar,
depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.
Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

2. O segundo, de Fernando Monteiro:

O dia 24 era um domingo e no dia seguinte, 25 de setembro de 2006, minha filha completaria doze anos. No mesmo dia, o mundo musical comemorava os cem anos de nascimento de Dmitri Shostakovich. Lá pelas tantas, naquele tranquilo domingo, resolvi olhar os e-mails e havia um do escritor pernambucano Fernando Monteiro.

Era um poema, uma litania que Fernando escrevera e dedicara a mim — seu geograficamente longínquo amigo — e a Bárbara. Fiquei honradíssimo com a dedicatória, li o poema para minha filha e aquela Litania nos cem anos de Shostakovich acabou publicada em alguns jornais. Lembro que planejei fazer referências a estas publicações, mas nunca as fiz.

Hoje, ao procurar uns papéis, encontrei a Litania grampeada a outros dois papéis: um da imagem de uma página de 23 de fevereiro de 2007 do caderno “Anexo – Ideias” do jornal A Notícia de Joinville, onde a Litania tinha sido publicada, e outro, um e-mail de Fernando, explicando-me que as alusões “venezianas” do poema – detritos, crianças, gradis, febre, scirocco -, eram uma homenagem a Mahler que, para ele, é o que Shostakovich é para mim.

Fernando, digo-te que meu coração musicalmente promíscuo coloca Mahler ao lado de meu amado Shostakovich…

Antes de escrever este post, examinei demorada e amorosamente a primeira folha, a da litania sozinha, onde há a linda e enorme letra infantil de minha filha. Bem sobre o B.R., ela escreveu Bárbara Ribeiro.

Litania nos cem anos de Shostakovich
Para M.R. e B.R.

O torso de beleza afastando-se
Como se afasta um afogado
Das margens da praia
Também recuada para trás
De onde o Mediterrâneo
Vinha beijar os pés das sílfides,
Debaixo do sol silencioso.

Abandonados pelas crianças,
Os brinquedos da marina
Zunem de calor no metal
Aquecido como as águas.

O planeta está mais quente
E mais enlouquecido
Entre os pios nublados
Do pássaro escondido
Em árvores molhadas
Da chuva ácida que se filtra
De um céu de tempestade.

Aviões caíram nesta manhã,
Levando passageiros
Para o fundo de uma laguna
E o nenhum lugar da selva
Remota que irá retomar
Seu espaço sobre azulejos
Encardidos e embalagens
Não-degradáveis
Num mundo que prefere o desastre.

Tudo o prenuncia, de certa forma,
E nada está perdoado
Nem foi esquecido
Com todas as coisas que já foram
E com aquelas que ainda serão
Ou que apenas dormem na tarde
À espera dos anos sem emoção.

Os humanos repousam
No sono da sombra de toldos
Estalando na Veneza insalubre
Deste lado do Atlântico
De exímios nadadores
que não viram as crianças
Se afogando.

Sim, eu prefiro estar
Por apanhar um resfriado
Antes da peste
No limite da cerca-viva
De mato e detritos do lixo
Avançando até o antigo gradil
De gladíolos brancos.

É minha a opção de não manter
A saúde, fumar e perder esperança
Na vigilância sem objeto,
Exposto ao vento da tarde,
Ao siroco da mente
Igualmente desistindo
Das perguntas a ninguém
Muito depois de Pã
Anunciado como morto
Antes da morte dos mares.

Então, não importa molhar
Os sapatos da espuma de solfejos
Rumorejando as queixas do Adriático
Como outrora o mar dos gregos
Deixava leve gosto de salgado
Entre os artelhos limpos
De náiades banhando-se
Nos oceanos mitológicos
Que hoje são de plástico
Cor de chumbo.

Dmitri Shostakovich (1906-1975)

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Os Supridores, de José Falero

Os Supridores, de José Falero

O primeiro livro de José Falero esteve várias vezes na minha mochila para ser lido, mas sempre aparecia um cliente na Bamboletras pedindo Vila Sapo e lamentando-se de que não tinha mais… Então, eu abria a mochila e entregava o meu. Um dia, me disseram que tinha simplesmente acabado. Fim. Acabou. E eu fiquei sem conhecer Falero.

Agora, quando chegou este volume da Todavia, eu decidi que o primeiro era meu. Botei meu nome no exemplar e comecei imediatamente a lê-lo. Não me arrependi.

Pedro e Marques trabalham como supridores num supermercado. Supridores são aqueles caras que tratam de preencher as gôndolas vazias, repondo silenciosamente os produtos. São pessoas com mínimas perspectivas de ascensão, mesmo dentro da estrutura da empresa. Pedro percebe claramente o fato. Ele é muito inteligente e dá explicações absolutamente incríveis — em seus termos — e lógicas para o que acontece com eles. Por que eles são o que são? Quais direitos têm ou deveriam ter? Quem, no supermercado, é dono do quê? Ele passa a ser o mentor de Marques, falando uma linguagem cheia de analogias e contextualizações originais. E propõe a Marques um plano para virarem o jogo trabalhando como traficantes num nicho pouco explorado pelos donos do tráfico. A coisa funciona. Bem, funciona por um tempo.

Falero é um tremendo narrador, um contador de histórias de primeira linha, alguém que muda da linguagem culta para a língua falada na periferia porto-alegrense com total naturalidade. Sabe criar clima e tensão. O ritmo do livro é veloz, os diálogos são ótimos, o encadeamento entre cenas engraçadas e dramáticas não para nunca, fazendo com que tenhamos dificuldades em largar o livro sem ler o próximo capítulo.

O autor também evita os clichês, percorrendo caminhos pouco óbvios. Tudo indica para uma história de ascensão e queda financeira. Sim, mas não é apenas isso: há todo o cenário da desconhecida vida nas vilas de Porto Alegre – com seus rituais de concessões e proibições — e humor, muito humor. O humor catalisa a ação, dando força, velocidade e interesse às cenas. Os Supridores não é apenas um romance sobre jovens pobres e espertos atrás de grana como também um livro grudento e engraçado. O capítulo 17, O mais bem-guardado dos segredos, é um exemplo disso. Nele, o humor e um fato trágico para o esquema entrelaçam-se perfeitamente, comprovando que Falero é um narrador que sabe que os contrastes são fundamentais.

Claro que o momento final é triste, mas o percurso até a tragédia é o que interessa. Então, Os Supridores é um livro trepidante e de boa história, narrado por uma voz original e muito brasileira. Para finalizar, tenho que sublinhar a boa observação da editora Todavia, que pegou um excelente autor logo em seu segundo pulo.

Recomendo!

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Resumo da eleição na visão de um porto-alegrense

Resumo da eleição na visão de um porto-alegrense

Positivo: Marchezan fora do segundo turno.
Negativo: Melo na frente de Manuela. Os votos de Fortunati migraram pra ele.
Positivo: Melhorou a representação da esquerda na Câmara. PSOL cresceu muito.
Negativo: Cézar Schirmer — que evitou concorrer em Santa Maria após a Kiss — e Mônica Leal foram eleitos.
Positivo: Boulos.
Negativo: Paes x Crivella
Positivo: Fernanda já está falando com Manuela. Vão juntas para o segundo turno.
Negativo: Todas as baterias da imprensa conservadora de São Paulo se virarão contra Boulos, especialmente a praga evangélica e as rádios.
Positivo: Bolsonaristas não tiveram vida fácil.
Negativo: Ataques coordenados tentaram desacreditar a eleição.
Positivo: Representação negra na câmara aumenta.
Positivo: Valter tem votação para ser o vereador eleito com maior número de votos, mas optou por concorrer à prefeito. Tchau, Valtinho.

Agora é Manuela 65!

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Uma reflexão preguiçosa sobre a literatura e a sensibilidade femininas

Meu amigo S. era muito desejado pelas mulheres. Bonito e inteligente, falava com voz estereofônica e as moças do escritório — trabalhávamos numa grande multinacional — o seguiam com os olhos para cá e para lá. Nós, homens, reconhecíamos sua superioridade. Ele nascera em Antônio Prado, uma cidade histórica gaúcha. Certa vez, um jornal publicou uma reportagem sobre as velhas construções dos italianos da região. O título da matéria era Toda a Graça de Antônio Prado. Nossa secretária pôs a página no mural e completou com caneta vermelha: Toda a Graça de Antônio Prado ESTÁ CONOSCO.

Um dia, S. confidenciou-me algo espantoso:

— Milton, tenho inveja de ti –, pensei que vinha uma piada qualquer e esperei.

— As mulheres que saem contigo são intelectuais, inteligentes, de bom nível. Já meu séquito é formado por mulheres burras que se apaixonam pela minha cara.

Fiquei espantado. Seguimos conversando, mas o assunto não prosperou. Meses depois, S. sofreu um grave acidente. Dormira ao volante e fora de encontro à traseira de um caminhão parado. Estava a 80 quilômetros por hora. A comoção foi geral, era uma pessoa querida por todos. Após um mês no hospital, ele retornou com duas grandes cicatrizes no rosto. Falou-me de sua intenção de submeter-se a todas as cirurgias possíveis para recuperar o rosto de Adonis. Ao comentar com minha (então) mulher a respeito, ouvi uma opinião discordante.

— Milton, ele era perfeito demais. Agora ficou humano! Acuse-o de não entender nada de mulheres! É muito grave.

-=-=-=-=-=-=-

Passei grande parte das últimas três décadas procurando entender as mulheres. Evoluí muito. Hoje sei de alguns detalhes que, se não penetram a alma feminina, fazem que ela respire melhor. As mulheres têm um gênero de sensibilidade diversa da nossa, queiramos ou não. Trabalham, adornam-se, falam, escrevem e criam obras literárias distintas. Têm expressão tão diversa da masculina quanto sopranos e contraltos diferem de tenores e baixos.

Os primeiros críticos ingleses que escreveram sobre Jane Austen (1775-1817) referiram-se a tea-table novels. É uma interpretação muito superficial. Austen — que escrevia seus romances em seu quarto, temendo que alguém entrasse e interviesse — põe lentamente em movimento grandes e complexos personagens. Esta escritora genial é absolutamente irônica e realista. Foi a primeira a retirar a nota trágica do romance sério. Criou personagens e diálogos inesquecíveis dentro das velhas histórias tradicionais de mocinhas que só pensam em noivar e casar — na verdade, uma necessidade absoluta para evitar a pobreza ou o viver de favor. Quem leu Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) nunca esquecerá Elisabeth Bishop e Fitzwilliam Darcy e alguns críticos consideram Emma Woodhouse, de Emma, a maior personagem da literatura inglesa. Não é pouca coisa. Sua voz em Orgulho e Preconceito:

Mary não compreendia seus sinais. Uma tal oportunidade de exibir-se era-lhe deliciosa e ela começou a cantar. Os olhos de Elisabeth se fixaram nela com os mais dolorosos sentimentos. Ouviu as várias estrofes com uma impaciência muito mal contida, pois Mary, ao perceber entre os agradecimentos a sugestão de que ela pudesse ser instada a renovar o prazer que estava dando a seus ouvintes, recomeçou a cantar, depois de uma pausa de meio minuto.

A admiração atual por Virginia Woolf (1882-1941) é estrondosa e merecida. Foi romancista, contista, ensaísta e memorialista de primeira linha. Anos atrás, o Oscar de melhor filme foi dado à adaptação de um livro baseado na biografia de Woolf e em uma de suas obras, Mrs. Dalloway. As Horas (The Hours) era o título inicial de Mrs. Dalloway. Não pretendo resumir em poucas palavras uma escritora tão conhecida, ampla e de voz tão original, seria uma temeridade. É curioso saber que, nas margens de seus manuscritos havia observações como esta:

Eu não consigo escrever & todos os diabos aparecem – pretos e peludos. Ter 29 anos e ser solteira – ser um fracasso – Sem filhos – também doida, e não escritora. E, ao lado, esta outra: Fico deitada & penso na minha adorada fera, que me torna mais feliz a cada dia & instante de minha vida do que jamais pensei ser possível. Não há dúvida de que estou terrivelmente apaixonada por você. Ponho-me a pensar no que estará fazendo, & tenho que parar porque começo a querer muito beijar você.

Tais anotações, quais romances?

Lembro-me de George Eliot, Sylvia Plath e Doris Lessing, porém concluo com Clarice Lispector (1925-1977). Para mim é difícil chamar Clarice de intimista; ela é mais do que isto, torna-se íntima de quem a lê. Ela me é ou ela torna-se eu, poderia ter escrito Clarice. Longe dos padrões estabelecidos, temos de abdicar da segurança das convenções da literatura tradicional para deixar que sua maravilhosa invenção nos leve. A palavra é protagonista tão importante em sua criação que temos a sensação de que vem antes do pensamento: Como poderei saber o que penso até que veja o que digo? (*) Sua arte é de tal forma envolvente, que quando relemos nossas anotações anos depois, não compreendemos mais do que se trata. É melhor recomeçar o livro, reentrar em seu espaço, é melhor ir direto a Clarice de, por exemplo:

Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.

-=-=-=-=-=-=-

Querem saber se S. fez as tais cirurgias? Não, não fez. Talvez a vaidade masculina seja tão boa ouvinte quanto a feminina…

(*) André Gide, em “Os Moedeiros Falsos”.

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Bamboletras premiada com o Jacarandá 2020

Bamboletras premiada com o Jacarandá 2020

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Eggcident em Porto Alegre

Eggcident em Porto Alegre

De agora. Fica até domingo (15).

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Purcell: Music for a (Covid) while

Um vídeo impressionante da peça de Purcell no Teatro de Aachen:

O Teatro de Aachen diz: Music for a While, de Henry Purcell. Uma peça cujo título se encaixa bem neste momento porque, depois de pouco mais de dois meses, tivemos que fechar nossas portas novamente com o 2º lockdown. Mas estamos confiantes de que poderemos tocar para você novamente em breve! E acima de tudo: o teatro e a música como um bálsamo para a alma são muito importantes, especialmente nesses tempos! Então, aqui estão algumas músicas para você dos cantores do conjunto do Teatro de Aachen! Divirta-se e nos vemos em breve, pois nos bastidores continuamos ensaiando.

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A ascensão e a ascensão dos negociantes II

Parte II – A primeira ascensão dos negociantes

No dia seguinte à vitória na Libertadores, Tinga e Bolívar anunciaram suas saídas. Eu mal tinha dormido. Chegara em casa às 2 da manhã e, assim que pudera deitar minha campeã cabeça sobre o travesseiro, meu sobrinho começou a ligar perguntando sobre um ou outro endereço de gremistas amigos, pois estava inteiramente entregue à atividade de soltar rojões frente a suas casas. Porém, voltemos à nossa história, não sem antes dizer que, pela manhã, deixei a porta bater e fiquei lá fora, de pijama. Minha mulher já tinha saído e eu tive que pedir o celular de um passante a fim de ligar para minha sogra, suplicando-lhe que trouxesse a chave reserva. Fiquei no jardim da casa, lendo o jornal. Então, como vemos, o dia 17 de agosto de 2006 teve tantos sucessos quanto o dia anterior. Mais alguns dias e Rafael Sóbis e Jorge Wagner fizeram o mesmo que Tinga e Bolívar. Estava começando o desmonte, involuntário apenas no último caso.

Enquanto isso, a direção do clube, feliz com o título como todos nós, ia de festa em festa curtindo o ganho político e etílico da conquista. De forma ilógica, havia confiança de que os substitutos estavam dentro do Beira-rio. A torcida discordava e lembro de fortes críticas à diretoria no Fórum do extinto Portão 8. Isto acontecia antes do maior título do clube completar uma semana: o Inter ganhara a Libertadores e já anunciávamos – todos – o fim. E, pior, não estávamos paranoicos. É horrível quando somos obrigados a dar razão ao paranoico (como hoje temos que fazer diariamente com os DC’s, que atacaram Tite antes da letal assinatura de contrato).

As substituições aos vendidos, dentro de um time formado à base de contratações (como demonstramos na Parte I), não foram realizadas e apenas um deles tinha suplente à altura: Bolívar, que foi substituído com vantagem por Índio. A posição de Rafael Sóbis ficou em aberto, ou melhor, ficou com o imprevisível velhinho legal Iarley. Para a posição de Tinga, a torcida, o Fórum do Portão 8, os jornalistas e o mundo indicavam Guiñazu, do Libertad do Paraguai. Mas seu custo era de US$ 1 milhão, valor considerado alto para nossos padrões. Qual não foi nossa surpresa nossos negociantes adquirirem, por US$ 1,5 milhão, o obscuro Pinga, um meia-esquerda que atuara no Torino, Siena e Treviso, sempre na segunda divisão italiana e cujo maior mérito era o de ter deixado Kaká na reserva em uma das seleções sub-algo da CBF, fato que parece não ter traumatizado Kaká e sim Pinga, coitado. Ora, trocar Tinga por Pinga foi muito mais do que trocar uma consoante, foi uma tragédia. Mas outros diziam que seria Vargas, ex-volante do Boca Juniors, aquele que entraria no lugar de Tinga. Vargas era bom jogador, mas só era parecido com Tinga… Não, não o era em nada. Para piorar, o colombiano contou com a antipatia gratuita de Abel Braga, que chegou a criticá-lo publicamente sem ninguém entender o motivo… O câmbio mais ridículo foi o de Jorge Wagner por Hidalgo. Quando todos pensavam que estávamos no Paraguai buscando Guiñazu ou articulando a futura vitória de Lugo, estávamos trazendo o lateral-esquerdo do Libertad chamado Hidalgo. Ninguém que vira nossos jogos contra o time paraguaio dera-se conta de que ali estava um craque… Saía um lateral brilhante no apoio e entrava um que só sabia marcar e olhe lá. Ou seja, a direção, meramente para contentar a torcida, pegou qualquer jogador de segunda linha com a única intenção de silenciá-la. Éramos chatos incompreensivos que, uma semana após ganhar a Libertadores, reclamavam.

Enfim, em alguns dias perdemos metade do time, uma metade bem boa., diga-se. A participação no Brasileiro de 2006 já demonstrava claramente o equívoco. Sem Tinga e Jorge Wagner, ficamos com poucas opções de ataque. Dependíamos das subidas de Ceará, baseadas na força, dos lampejos de Fernandão e dos raros – mas quase sempre belos – gols de Iarley, o goleador legal. Aos poucos, a ausência de Jorge Wagner foi sendo suprida inesperadamente por Fabiano Eller, que vinha de trás com a bola, deixando o Hidalgo na cobertura e passando por cima dos volantes Edinho e Wellington Monteiro, ambos de passes medonhos. A coisa ainda funcionava precariamente e a participação num Campeonato Brasileiro de baixo nível técnico ainda foi razoável.

Chegamos ao Japão para disputar o Mundial sem um grande time, porém muito bem preparados, com grandes conhecimentos sobre o Barcelona. Com enorme disciplina tática e sorte, vencemos o Al Ahly e, com enorme disciplina tática e merecimento, ao Barcelona. Nova festa e mais motivos para imobilismo…

O notável na nova diretoria é que ela não dava sinais de ter visto decadência alguma no segundo semestre de 2006, vira apenas uma vitória e seguiu fazendo bobagens. Por pura desídia – preferiu tirar férias em vez de ir à Turquia -, deixou Fabiano Eller decidir seu destino sozinho junto ao clube que detinha seus direitos federativos. (Explico: os turcos têm uma milenar “cultura de negociação”, querem falar sentados e cara a cara até quando compramos um paninho qualquer, querem abraço e amizade ao final e ficam ofendidíssimos se não sentamos para negociar e tomar chá – sempre excelente – com eles. Se não tomamos chá, não vendem nada. Onde estava o Império Otomano num momento desses?) Igualmente, ignorou a importância do multi-campeão Paulo Paixão em nosso vestiário e deixou-o ir para Rússia. Da forma mais arrogante imaginável, confiou na capacidade de renovação do próprio clube – o qual, como mostramos na Parte I, não subsiste de suas divisões inferiores – e tivemos que ouvir, derrota após derrota, a falta de conhecimento futebolístico de nosso presidente pronunciar-se:

– Somos o Campeão do Mundo, não precisamos de reforços. Temos grupo.

Discurso que, semanas depois, foi mudado para:

– Não entendemos o motivo de nossas derrotas, 90% do time Campeão do Mundo está aí…

Qualquer um sabe que, a cada início de temporada, há que se fazer algumas mexidas motivadoras. Jogador de futebol é assim. Então, Vitório Píffero, é culpa sua se o Inter do começo de 2007 espantava-se com limitações intransponíveis – “limitações intransponíveis” significam um Grêmio pouco respeitador no Gauchão e uma cômica Libertadores. Faltava um Paulo Paixão para evitar as panelinhas que tanto atrapalham. Erraste também, Vitório, nisto: se a saída de Jorge Wagner foi compensada por Fabiano Eller, a saída deste não teve substituto, ou melhor, o plano era substituí-lo por Rafael Santos… Erraste, Píffero, ao deixar tua arrogância tornar-te surdo à torcida, que sempre pediu reforços. Erraste também ao não te livrar dos jogadores protegidos por Abel ou por empresários influentes no clube: poderias ter começado por Michel ou pelo recém valorizado Gabiru ou talvez por Clemer, merecedor desde aquela época de uma aposentadoria dourada… Erraste mais ainda ao deixar que ele trouxesse mais amigos como o ridículo Jean, que foi inscrito na Libertadores sem nunca ter jogado, como se fosse um craque indiscutível, desses que entram como uma luva em qualquer time…

E, para matar de vez com nossas pretensões, tornou-se finalmente claro um erro cometido desde a época de Fernando Carvalho: os contratos longos para qualquer perna-de-pau. O Inter sempre se orgulhou de não perder jogadores de graça para o exterior. Casos como o de Ronaldinho Gaúcho nunca aconteceram no Beira-Rio e isto era motivo de ufanismo. Só que a profilaxia foi exagerada. Na metade de 2007, o Inter mantinha 66 jogadores sob contrato. Todos recebiam bem e em dia. Só que a maioria destes jogadores jamais revelou-se apta para ser titular. Era um enorme grupo de come-dormes (ou seria comes-dormes ou comem-dormem?…) que, ao receberem propostas de Figueirense e Goiás, como aconteceu, não fecharam seus empréstimos porque ganhariam menos e ainda tinham quatro ou cinco anos de contrato com o grande Campeão do Mundo. Diego, Mossoró, Ramón, Gustavo, Leo, Chiquinho e outros (muitos outros) são exemplos de atletas que não passaram de promessas e que ficaram meses confortavelmente instalados e com salários em dia. É difícil negociar jogadores ruins, caros e com longos contratos a cumprir. Imaginem qual era o nível do Inter B se o Inter A mantinha Michel e Gabiru em suas fileiras! Não chega a ser surpreendente que só haja negócios para quem é visto em campo, atuando bem. Atualmente, nem os coreanos são trouxas. Houve muita confiança nos come-dormes… (ou o correto seria “naqueles que, exclusivamente, comiam e dormiam”?) Só que, como diz o Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada”. Contratos longos é para quem joga muito e não para todo o Inter B, que hoje viaja pelo interior jogando a segunda divisão gaúcha a fim não ficar parado.

Quando chegamos a 16 de agosto de 2007, éramos um amontoado de lembranças.

Publicado em 11 de setembro de 2008 no Impedimento.

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A ascensão e a ascensão dos negociantes I

Parte I – Ascensão

Desejo fazer um registro histórico do que aconteceu com o Internacional desde julho de 2004 até sua atual decadência. Minha intenção é tentar entender e explicar como o Inter chegou a Campeão da Libertadores – seu auge como time de futebol -, a Campeão Mundial – já em decadência técnica -, até chegar à situação superavitária e sem perspectivas futebolísticas de hoje, apenas vinte meses após sua maior conquista. Escolho a data de julho de 2004 para iniciar minha análise e, especificamente, o Gre-Nal do primeiro turno do Brasileiro daquele ano, pois foi ali que Fernandão estreou, marcando o Gol 1000 em Gre-Nais.

Até 2005, o Inter passou mais de quinze anos como o nono ou décimo time do país. Chegamos ao segundo lugar em 1997 e quase caímos para a segunda divisão em 1999 e em 2002, mas, em média, sempre ficávamos por detalhe fora dos oito classificados para as finais do Campeonato Brasileiro. Lembram que os gremistas diziam – com razão – que nadávamos, nadávamos e morríamos na praia? Foram muitos anos nesta situação de décimo time brasileiro. Tinha para mim que, apesar de nossa colocação do ranking da CBF, era torcedor de um time mediano. Hoje, não por coincidência, estamos na 11ª colocação.

Porém, naquele ano de 2004, o presidente Fernando Carvalho – maior criador e vilão desta história – iniciou uma pequena revolução. Tendo recebido em 2002 um clube com R$ 50 milhões em dívidas e sem jogadores, ele finalmente estava conseguindo manter os credores tranqüilos e começava a tomar atitudes anormais em uma instituição tão pacata como a nossa (e não por desejo da torcida!). Sem grande alarde, Fernando Carvalho seguiu vendendo nossas revelações jovens (Nilmar, Daniel Carvalho, etc), porém, do outro lado, principiou a montagem de uma equipe com jogadores de mais de 25 anos, com experiência na Europa e que, afinal, eram diferenciados ou, no mínimo, experientes.

A equipe que recebeu a contratação de Fernandão naquele Gre-Nal de julho de 2004 não era nada extraordinária: Clemer; Sangaletti, Wilson (Fernandão, int.) e Vinícius; Bolívar, Edinho, Marabá, Élder Granja e Alex; Rafael Sobis (Dauri, 43/2) e Danilo.

Os colorados sabem o quanto é curioso ver Bolívar na ala direita, Elder Granja no meio de campo e Alex na ala esquerda, mas era assim. Fernandão, fato hoje esquecido por muitos gaúchos, fracassara na Europa, rolando de um time francês para outro (Olimpique, Toulouse, Paris St. Germain…), mas chegou jogando demais em Porto Alegre. Seu segundo semestre de 2004 foi espetacular.

Mesmo assim, no Brasileiro de 2004, o Inter manteve sua característica de ficar lá pelo 8º e 10º lugares. Porém, ao final da temporada, quando foi desclassificado pelo Boca Juniors na Copa Sul-americana, o time-base já tinha uma cara mais reconhecível: Clemer; Wilson, Edinho e Sangaletti; Élder Granja, Marabá, Gavilán, Fernandão e Chiquinho; Rafael Sobis e Diego (Fernandão, lesionado, não jogou contra o Boca, mas era o titular; jogou Wellington).

O começo de 2005 foi o momento mais marcante para a formação do campeão da Libertadores do ano seguinte. Após complicadas negociações, trouxemos Jorge Wagner, Tinga e Índio. Seus perfis? Ora, os mesmos de Fernandão: Tinga, de 27 anos, voltava do Sporting de Lisboa onde era reserva; Jorge Wagner, também de 27 anos, fugia do gelado Lokomotiv de Moscou e Índio era o único não “europeu”, mas chegava aqui com 30 anos e com um invejável currículo no Juventude de Caxias. Naquele início daquele ano, o time mudava sua fotografia para melhor. Em maio daquele ano, vencemos – como costumávamos fazer – o Atlético-PR em Curitiba por 3 x 1 e o time já era este: Clemer; Élder Granja, Índio, Wilson e Jorge Wagner; Edinho, Gavilán, Tinga e Fernandão; Rafael Sóbis e Gustavo.

Na metade do ano, Fernando Carvalho seguiu em sua política e trouxe do México Iarley, também na faixa dos 30 anos e ex-jogador do Boca Juniors. Recebeu Perdigão e Ediglê que, se não são craques, chegaram aqui com 28 anos e muitos times da bagagem e Ricardinho, vindo do Paulista de Jundiaí, aos 29 anos. Todos experientes. Havia um projeto claro. Nossas contratações não eram de garotos, era de gente com rodagem, de jogadores que não se apavorariam com vaias ou ambientes hostis.

Observem pela escalação como a formação de nosso grande time veio não através de atletas formados no Beira-rio, mas por gente vinda de fora. Na partida em que Márcio Resende de Freitas nos roubou – e depois desculpou-se… – em São Paulo, contra o Corinthians, a formação de nossa equipe era a seguinte: Clemer; Élder Granja, Edinho, Ediglê e Alex; Gavilán, Perdigão (Márcio Mossoró), Tinga e Ricardinho (Wellington); Fernandão (Iarley) e Rafael Sobis. Jorge Wagner não jogou esta partida por estar punido.

Na virada do ano de 2005 para 2006, não precisávamos de quase nada. Era só impedir que o grupo se desfizesse. Perdemos apenas um jogador: Gavilán, para o Newell`s Old Boys de Rosário. Mesmo assim, contratamos um que mostrou-se fundamental – Fabiano Eller, 28 anos -, um que foi útil – Fabinho, 30 anos -, e o mais importante, Adriano Gabiru… Estava pronto o time.

Quando, no dia 16 de agosto de 2006, vencemos a Libertadores da América, a equipe era esta: Clemer; Índio, Bolívar e Fabiano Eller; Ceará, Edinho, Alex, Tinga e Jorge Wagner; Fernandão e Rafael Sóbis.

Ou seja, éramos uma equipe formada por

– Dois ex-juniores: Edinho e Sóbis;

– Sete jogadores muito bem pagos em razão de suas biografias, Clemer, Índio, Eller, Alex, Tinga, Jorge Wagner e Fernandão; e

– Dois jogadores baratos, “apostas” mesmo: Bolívar e Ceará.

Quais eram, então, os principais pontos da política de formação de grupo de Fernando Carvalho:

1. Contratações de jogadores experientes, baseadas em seu enorme conhecimento de mercado e de futebol.

2. Poucas contratações caras de jogadores jovens. E a maioria das que foram feitas não deram certo. Principais casos: Márcio Mossoró, Rentería e Leo. Apenas uma funcionou: Alex, contratado em 2003.

3. Contratos longos para lucrar na venda de jogadores. Tal política deu certo para os melhores jogadores, mas revelou-se catastrófica ao incluir um monte de “promessas” em contratos que durariam quatro ou cinco anos. Estamos pagando um monturo de ruindades até hoje. Por quê? Porque ninguém os quer, claro, e porque as multas rescisórias, que existem para beneficiar o clube, neste caso o prejudica. São contratos que serão cumpridos sem resultados até seu último dia.

4. Investimentos num Inter B e tentativas de formar jogadores no clube. Nada disso funcionou. Em média, formamos apenas um bom jogador por ano. 2004 foi o ano em que conhecemos Sóbis; 2005 foi o ano de não conhecer ninguém; em 2006 apareceu Renan como goleiro confiável; em 2007, os novos dirigentes passaram o papel de “grande estrela” a um menino de 17 anos e neste ano, novamente nada.

Ou seja, o Inter vencedor foi formado convencionalmente pela contratação jogadores bons e experientes que haviam fracassado na Europa ou que estavam em clubes menores e não através de suas divisões inferiores, cuja contribuição, ao menos recentemente, é uma espécie de mito. Quando paramos de contratar bem e seguimos vendendo, o time acabou, mesmo com um grupo de 66 profissionais que tínhamos em maio de 2007. Sim, sessenta e seis atletas contratados em maio de 2007.

Mas estou antecipando fatos. A decadência começou na gestão do próprio Fernando Carvalho, no dia 17 de agosto de 2006, um dia após a conquista da América. Faltavam 4 meses e meio para seu mandato acabar e, apesar de haver o Campeonato Mundial em dezembro, havia a necessidade de realizar lucros. Na semana que vem, veremos como pode ser rápida a destruição de uma grande equipe de futebol.

Publicado no Impedimento em 4 de setembro de 2008.

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Maria, de Leonard Bernstein (como nunca dantes ouvida)

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