Sally Rooney contra o Reino Unido

Sally Rooney contra o Reino Unido

A questão com Sally Rooney é muito boa pra se pensar. Ela não se calou, não fingiu que “não toma partido”. Disse que, se apoiar a Palestine Action faz dela uma “apoiante do terrorismo”, então que seja. Como consequência, seus livros foram retirados do mercado britânico.

É uma excelente escritora e, conhecendo seus personagens, sei que ela é uma pessoa de enorme inteligência e, intuo, duríssima de roer. Gosto dela. Não por ser corajosa, mas por ser séria.

É irlandesa. A Palestine Action foi proibida no Reino Unido, mas não na Irlanda. Ela podia perfeitamente ter escrito algo ambíguo, do tipo “apoio o povo palestino, mas não a violência”, e continuado a vender livros, a receber prêmios, a aparecer na BBC. Ninguém a obrigava a tomar posição.

Ela escreveu um artigo para o The Irish Times, dizendo: “Tenciono continuar a usar os rendimentos do meu trabalho para apoiar a Palestine Action, é o meu modo de apoiar a ação direta contra o genocídio. Por vezes é difícil para os artistas verem-se como parte de algo maior. Ver-nos como uma parte pequena mas importante de uma luta mais ampla liberta-nos do individualismo tóxico.”

Agora os seus livros estão fora do mercado britânico. O formato digital já desapareceu. Nas livrarias, quando o estoque acabar, acabou. Sua editora, a Faber, foi clara: vender os livros dela sem poder repassar os royalties é uma situação inaceitável. Ela não se queixou, não se vitimizou. Disse apenas: “Estou totalmente preparada para assumir as consequências.”

Não a considero uma “escritora ativista”, basta ler seus livros para se convencer disso. É uma escritora jovem e talentosa, uma pessoa que escreve romances e que, por acaso, é do tipo que não mente sobre aquilo que importa. Seus livros falam precisamente de relações humanas desajeitadas, sinceras, impossíveis de fingir.

Aliás, uma escritora desapareceu de um país “democrático” por ter dito a verdade. Isto dá um bom romance.

Não estamos diante de uma divergência entre uma autora e sua editora, nem de um boicote espontâneo promovido por leitores. Estamos diante de uma situação em que a legislação antiterrorista produz consequências sobre a circulação de obras literárias, porque a autora destina seus royalties a uma organização proibida no país. O efeito ultrapassa a autora: alcança leitores, livrarias, editoras e a própria liberdade de circulação de ideias.

A questão não é se um Estado pode combater atos criminosos. Evidentemente, pode e deve. Tampouco se trata de conceder imunidade a qualquer organização que se apresente como defensora de uma causa justa. A questão é outra: classificar uma organização como terrorista deve significar que toda forma de apoio a ela se torna criminalmente suspeita, mesmo quando esse apoio é público, declarado e motivado por uma posição política? E que tipo de democracia se constrói quando uma escritora precisa aceitar que seus livros desapareçam do mercado de um país porque não pode destinar livremente os rendimentos de seu trabalho?

O debate jurídico britânico torna a situação ainda mais preocupante. Em fevereiro de 2026, o Tribunal Superior considerou ilegal a proscrição da Palestine Action, apontando, entre outros problemas, a interferência desproporcional na liberdade de expressão e de reunião. Em junho, porém, o Tribunal de Apelação reverteu essa decisão. O caso deve ser examinado pela Suprema Corte. Portanto, a controvérsia não está encerrada: a própria legalidade da medida continua sendo objeto de disputa judicial.

É nesse contexto que devemos pensar na fragilidade das democracias. Elas não deixam de existir de um dia para o outro. Podem continuar realizando eleições, mantendo tribunais e preservando suas instituições enquanto estreitam, gradualmente, o espaço em que os cidadãos podem expressar discordância. Conhecemos isso. Basta examinar as eleições que vivemos. A fragilidade aparece quando leis concebidas para enfrentar ameaças graves passam a produzir efeitos que atingem também a manifestação de convicções políticas, a liberdade de associação e a circulação de ideias.

Enquanto palestinos continuam sofrendo as consequências de uma guerra devastadora, uma escritora decide que não quer tratar essa realidade como um assunto distante. Ela compromete parte de seus próprios rendimentos com uma causa em que acredita. Podemos discutir se escolheu a organização adequada. Não podemos, porém, fingir que a disposição de assumir custos pessoais por uma convicção seja, em si, uma ameaça à democracia.

A pergunta que fica é simples: um cidadão que emprega o próprio dinheiro para apoiar uma causa política, por mais controversa que seja a organização escolhida, merece ver seu trabalho excluído do mercado de um país?

Sally Rooney não precisa ter razão em tudo para ter o direito de se manifestar. Não precisa ser uma heroína, tampouco uma escritora infalível. Basta reconhecer que uma democracia saudável deve tolerar posições que incomodam o governo, desafiam consensos e obrigam a sociedade a confrontar as consequências de suas próprias decisões.

O verdadeiro teste da liberdade não está em permitir que todos repitam o que já é aceitável. Está em garantir que as pessoas possam defender aquilo em que acreditam sem que o Estado transforme a discordância em crime. Não era para ser assim?

Quando uma democracia começa a tratar o compromisso político de uma escritora como um problema de segurança nacional, talvez seja hora de perguntar não apenas o que Sally Rooney está defendendo, mas também o que o Reino Unido está disposto a sacrificar para impedir que ela o defenda.

Sally Rooney (1991)

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Dia Nacional da Consciência Negra: os cartões-postais dos linchamentos da Ku Klux Klan

Dia Nacional da Consciência Negra: os cartões-postais dos linchamentos da Ku Klux Klan

Retirado daqui.
Tradução livre deste blogueiro

A humanidade pode ser pior do que você imagina, muito pior.

Terrorismo é definido como “o uso de violência e intimidação na busca de objetivos políticos”. A mídia ocidental gosta de pintar terroristas com rostos morenos, mas uma das mais horríveis campanhas de terror aconteceu no século passado em solo norte-americano — os estimados 3.436 linchamentos de homens e mulheres negros americanos entre 1882 e 1950, com o objetivo de controlar e intimidar a população negra pouco antes libertada. Não muitas coisas são mais perturbadoras do que ser confrontado com a evidência visual do lado sombrio da humanidade, especialmente quando são evidências de um ódio generalizado e da violência de um ser humano para com o outro. Este ódio veio do medo e foi impulsionado pela religião e pela crença de que os assassinatos são atos de moralidade. Esta violência visava intimidar e suprimir quaisquer aspirações que uma comunidade possa ter por igualdade e um futuro melhor.

Quando me deparei com a coleção de cartões-postais norte-americanos de James Allen e John Littlefield, publicada em um livro intitulado Without Sanctuary: Lynching Photography in America, notei quão importante é conhecer essas imagens, hoje mais do que nunca. Esses cartões-postais foram feitos para comemorar eventos que fizeram muitos brancos norte-americanos se sentirem orgulhosos — de sua raça, de sua superioridade, de sua civilização e de sua inteligência. Eles tiraram fotos de suas realizações nojentas e covardes para serem conhecidas e lembradas. Nas costas, eles escreveram para amigos e familiares numa empolgação de sociopatas. Esses cartões-postais capturam turbas testemunhando com alegria o assassinato de rapazes e moças, cujo crime mais grave foi a cor da pele. Os cadáveres pendurados e carbonizados nesses cartões-postais viviam em um mundo que contava os dias até seu assassinato, a partir do momento em que colocavam ar em seus pulmões infantis. Essa história é poderosa, de revirar o estômago e de importância essencial. E o mais impressionante sobre essas fotos é que elas não apagam os perpetradores como muitas histórias e memoriais fazem hoje, preferindo focar em quem foi vitimado em vez de naqueles que orgulhosamente — e com o apoio do governo — torturaram, estupraram e assassinaram pessoas. Os assassinos nessas fotos estão orgulhosos, são homens adultos olhando para a câmera com a convicção sorridente de que o adolescente que eles acabaram de matar, um contra cem, merecia seu ódio, medo e frustração. Nenhum grande júri era necessário; a lei estava nas mãos dos assassinos. 

A história não é linear. A história está acontecendo ao nosso redor, o tempo todo. Essas fotos são contexto, são realidade, são fotos do terrorismo norte-americano. Esteja ciente de que essas fotos são repugnantes e muito reais.

O linchamento de Elias Clayton (19 anos), de Elmer Jackson (19) e de Isaac McGhie (20), em 15 de junho de 1920, Duluth, Minnesota.

Por James Allen

Eu tenho um brique, sou um catador, um colecionador. É minha vida e minha vocação. Eu procuro itens que algumas pessoas não querem ou não precisam mais e os vendo para outros que precisam. As crianças são catadoras naturais. Eu fui uma delas. Eu brincava com isso desde quando colecionava abelhas em potes.

Meu pai trazia para casa sacos de lona estufados com nomes de bancos, sacos de moedas de cobre ou meio dólar e nós, crianças, sentávamos em volta dos montes de moedas como se estivéssemos em volta de uma fogueira e gritávamos sons de bingo quando encontramos alguma moeda especial.

As mães não aconselham seus filhos a serem catadores. Nenhum adulto deseja ser chamado disso. No Sul dos EUA, é um termo pejorativo. É coisa de gente muito humilde e ignorante, talvez ladra. Tenho tentado trazer dignidade a meu trabalho, viajando incontáveis ​​estradas em meu estado natal, adquirindo coisas que creio serem úteis e reveladoras — móveis feitos à mão, potes feitos por escravos, colchas remendadas e bengalas esculpidas. Muitas pessoas que me vendem estão sobrecarregadas de bens, ou prontas para irem para o lar dos idosos ansiando pela morte. Alguns são vendedores são relutantes, outros ansiosos. Alguns são amáveis, gentis e acolhedores, outros são mesquinhos, amargos e meio enlouquecidos pela vida e pelo isolamento. Nos EUA tudo está à venda, até uma vergonha nacional. Um dia, deparei-me com um cartão-postal de um linchamento. Os cartões-postais pareciam triviais para mim, eram produtos de segunda mão. Ironicamente, a busca por essas imagens me trouxe um grande senso de propósito e satisfação pessoal.

O linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith. Este foi um grande encontro de linchadores acontecido no dia 7 de agosto de 1930, em Marion, Indiana. Inscrito a lápis na moldura: “Bo aponta para seu niga.” Fora da moldura está escrito: “Klan 4º Joplin, Mo. 33.” Achatadas entre o vidro e o papel há cabelos da vítima. ”
Este é o cadáver carbonizado de Jesse Washington suspenso em um poste. O verso diz “Este é o churrasco que fizemos ontem à noite, minha foto está à esquerda com uma cruz sobre seu filho Joe.” 16 de maio de 1916, Robinson, Texas.

O estudo dessas fotos gerou em mim um enorme medo dos brancos, medo da maioria, dos jovens, da religião, dos aceitos. Talvez certo cuidado a respeito dessas coisas já estivesse em mim, mas certamente não tão ativamente como após a primeira visão de um frágil cartão-postal de Leo Frank morto em um carvalho. Não foi o cadáver que me impressionou, foram os rostos delgados como cães de uma matilha, circulando atrás da morte. Centenas de mercados de pulgas depois, um comerciante me puxou de lado e em tom conspiratório me ofereceu um segundo cartão, este de Laura Nelson, presa como uma pipa de papel em um fio elétrico. A visão de Laura criou uma camada de pesar sobre todos os meus medos.

Acredito que os fotógrafos destes cartões foram mais do que espectadores dos linchamentos. A arte fotográfica desempenhou um papel tão significativo no ritual quanto a tortura. A luxúria impulsionou sua reprodução e distribuição comercial, facilitando a repetição infinita da angústia. Mesmo mortas, as vítimas não tinham abrigo.

O linchamento de JL Compton e Joseph Wilson, vigilantes. Ocorreu no dia 30 de abril de 1870, em Helena, Montana. A inscrição impressa no canto superior direito diz: “Hangman’s Tree, Helena Montana”. O verso deste cartão afirma: “Mais de vinte homens foram enforcados nesta árvore durante os primeiros dias.”
O corpo espancado de um homem afro-americano, apoiado em uma cadeira de balanço, roupas respingadas de sangue, tinta branca e escura aplicada no rosto e na cabeça. Na parede, há a sombra de um homem usando uma vara para apoiar a cabeça da vítima. Postal de 1900.

Essas fotos provocam em mim um forte sentimento de negação e um desejo de congelar minhas emoções. Com o tempo, percebo que meu medo do outro é medo de mim mesmo. Então, esses retratos, arrancados de outros álbuns de família, tornam-se os retratos da minha própria família e de mim mesmo. E os rostos dos vivos e os rostos dos mortos se repetem em mim e na minha vida diária. Já vi John Richards em uma estrada remota do condado, balançando-se em passadas de cavalinho de pau, cabeça baixa, olhos no chão. Já encontrei Laura Nelson em uma mulher pequena e robusta que atendeu minha batida na porta de uma varanda dos fundos. Em seus olhos profundos, observei uma multidão silenciosa desfilar em uma ponte de aço brilhante, olhando para baixo. E na Christmas Lane, a apenas alguns quarteirões de nossa casa, Leo, um menino pequeno, com a fralda da camisa para fora e o boné descentrado, vai para as orações do sábado.

A silhueta do cadáver do afro-americano Allen Brooks pendurado no arco em Elk, cercado por espectadores. O linchamento aconteceu em 3 de março de 1910 na cidade de Dallas, Texas. Inscrição impressa na borda, “LYNCHING SCENE, DALLAS, MARCH 3, 1910”. Inscrição a lápis na borda: “Tudo bem e gostaria de receber um postal seu, Bill’. O verso do cartão diz “Bem, John – este é um registro de um grande dia que tivemos em Dallas … Um negro foi enforcado por agressão a uma menina de três anos. Eu vi a agressão.”
Os cadáveres de cinco homens afro-americanos, Nease Gillepsie, John Gillepsie, “Jack” Dillingham, Henry Lee e George Irwin com espectadores.6 de agosto de 1906. Salisbury, Carolina do Norte.
Cartão postal do linchamento de Will James, Cairo, Illinois 1909
Bennie Simmons, ainda vivo, embebido em óleo de carvão antes de ser incendiado. 13 de junho de 1913. Anadarko, Oklahoma.
O linchamento de Leo Frank. 17 de agosto de 1915, Marietta, Geórgia. Sobreposta à imagem: “o fim de Leo Frank, enforcado por uma turba em Marietta. Agosto 17. 1915. ”

Imagens do linchamento de Frank Embree, Fayette, Missouri 1899

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