A Filoca chamava-se Orfila, tia Orfila. Ponho a mão no fogo por ela: foi a pessoa que mais certamente morreu virgem na ala cruz-altense da família. Por algum motivo, ela ocupava o cargo de “reserva moral”. Perfeitamente mal-humorada, era digna do posto. Cada vez que algo parecia fora do lugar, a família ia lá consultar a Filoca. E a Filoca dava seus palpites. Normalmente era obedecida pelos meus pais e tios. Já nossa geração… No final dos anos 60, lembro dela reclamando das minissaias, recordo das meninas da família puxando suas saias para baixo quando a Filoca se aproximava, das piadas sobre ela. Eu a evitava como se ela fosse um bolsonaro. Era a única coisa ruim em minhas férias em Cruz Alta.
Ela jamais casara, mas dava palpites nos casamentos de todos. Pior, dava soluções. Nunca tivera filhos, mas sabia tudo sobre a educação das crianças. Hoje, lembrando de algumas de suas observações, dou risadas.
Depois, o mundo evoluiu e a revolução sexual deixou as coisas em patamares não ideais, mas muito melhores. Mesmo durante a ditadura, o discurso foi ampliado em assuntos tabus como sexo, comportamento e doenças. Houve maior liberdade. A educação também mudou e, trinta anos depois, nos anos 90, criei meus filhos muito mais razoavelmente do que fui criado. Mas, burraldo que sou, pensava que o mundo sempre evoluiria para melhor.
Como diz Carpeaux a respeito da época de Laurence Sterne, nosso início de século também tem uma parte importante da juventude que é dotada de um discurso bem mais pudico do que os das gerações anteriores. Há o que não deve ser visto, há o que não deve ser ouvido, há o que não deve ser mostrado. O medo às representações impõe coisas que a realidade, essa boba, insiste em mostrar.
Essa semana tive frouxos de riso ao saber que esta propaganda cazaque tinha sido criticadíssima naquele país:
Só que a agência de propaganda sabia que as redes sociais iriam gritar indignadas — criar escândalo era uma estratégia da agência — e, menos de dois dias depois, já tinha um contra-ataque preparado:
Se o mau gosto é óbvio, muito melhor é a explicação da empresa: “Os vídeos não mostram nada que não se veja em qualquer praia ou piscina”. Caramba, é mesmo! Sim, senhores, a hipocrisia está cada vez mais ampliada, e não somente no governo Temer.
Porém, para mim, o mais engraçado é que, após caírem na estratégia comercial da empresa, as redes sociais disseram que os homens usam chapéus de comandantes e as mulheres de comissárias. Sim, referiam-se ao tapa-sexo! OK, é verdade, mas… A realidade não é quase essa? Ou o comercial deve ser educativo e apontar novos caminhos? É essa sua função? Pensei que o objetivo fosse a venda de passagens aéreas… Ou será que ele vai impedir o correto e inevitável percurso das mulheres às posições mais importantes?
E aqui fala um dos defensores das maestrinas, um cara que traduz artigos feministas, um cara que escreveu sobre a lamentável sujeição de Clara Schumann ao marido, um cara que fez o mesmo sobre Camile Claudel, um cara que publicou sobre Fanny Mendelssohn quando ninguém sabia de sua existência, que apresentou a muita gente boa o notável ensaio feminista Um teto todo seu, de Virginia Woolf, que é um sujeito que se orgulha de ser filho de uma das primeiras dentistas do RS, talvez a primeira. Lembrem bem disso. Meu problema é com a nova moralidade.
Bem, mas sou burro mesmo: meu exemplo veio do Cazaquistão, terra onde grassa o sexo. Aqui, isto jamais ocorreria. Imaginem se vamos retornar àquela época triste da Filoca? De jeito nenhum.
Aquele momento em que um autor abre teus olhos para as maravilhas insuspeitadas de outro. Shostakovich me convenceu que a fase neoclássica de Stravinsky foi a forma mais bonita e inteligente de conter o descabelamento romântico. A Suíte Pulcinella e Apollon Musagète salvaram minha sexta-feira, não obstante todas as idiotices que ouvi depois e que somem como folhas levadas pelo vento. Uma música profundamente inteligente, leve e ousada, que é tudo o que espero da vida.
Por Bernard Shaw (*)
Traduzido muito livre e irresponsavelmente pelo autor do blog Aqui, a primeira parte
Vale a pena assinalar aqui — eu não consigo resistir em mencionar isso — que o editor geralmente acha que o crítico de música é um inútil dentro do jornal. Ele sempre pensa que tem disponíveis críticos que servem a todo e qualquer propósito. Ele tem certeza de que o crítico cujos artigos são do interesse de pessoas que só querem informação cultural ou se divertir é um impostor. Sim, o editor tem certeza absoluta disso. Quando meus artigos sobre música começaram a atrair um pouco de atenção, a piada na redação dava conta do fato indiscutível de eu não saber nada sobre música. Muitas vezes aconteceu de eu ser apresentado a admiradores que, ao ouvirem minha resposta à pergunta: “O que você aprendeu para poder escrever sobre música?” — ficavam decepcionados, desiludidos, certos de meu nenhum mérito em razão de minha explicação sincera e prosaica. Minha resposta: “Nada em especial, a música é a forma de arte que eu mais conheço”.
Quando a hipótese de minha total ignorância consolidou-se, mesmo assim eu encontrava pessoas que candidamente pediam que eu admitisse publicamente que meus conhecimentos de música não se estendiam a aspectos técnicos. Eles tinham certeza de que eu apenas fazia exercícios parvos de análise para impressionar leigos, mais ou menos como um cavalo bem treinado impressiona o pessoal da cidade em uma feira.
Um mau crítico tem duas vantagens. Primeiro, se ele escreve para um jornal diário e precisa de assunto, ele pode fugir de análise, tornando-se útil e interessante coletando as últimas notícias sobre os próximos eventos e o escândalo mais divertido sobre os últimos. Em segundo lugar, sua incompetência só pode ser comprovada comparando-se suas opiniões de um mês atrás com as de hoje, coisa que ninguém vai se dar ao trabalho de fazer. Um jornalista pode descrever de forma imponente A ou B, mas se você ler a descrição feita um mês atrás para X ou Y, se ele não for crítico, será quase a mesma. Quando ele tentar particularizar as qualidades especiais dos artistas que ele analisa, você o encontrará louvando Sarasate e Paderewski pelos mesmas características presentes na forma de tocar de seus alunos…Mesmo que ele esteja louvando ou arrasando o artista, ele sempre se ocupará de algumas das centenas de pontos que todos os executantes têm em comum, e perderá os detalhes que fazem toda a diferença entre a mediocridade e o gênio. Vai escolher ao acaso, destacando quase sempre o que não distingue um artista do outro.
Eu conheço isso por experiência própria. Há quase vinte anos, um músico queria me ajudar a assumir um posto como crítico de música em um jornal de Londres. Eu escrevia as críticas, ele assinava e me repassava o dinheiro recebido sem descontos, contentando-se com o fato de me auxiliar financeiramente. Eu era um jovem literato desamparado. Ele ficava com a honra e a reputação decorrente de meus artigos. A tais textos devo todo o meu conhecimento sobre as características da má crítica musical. Não posso aqui transmitir uma impressão adequada de seus deméritos sem ultrapassar os limites do decoro. Eu ficava muito triste na época, sem saber o que acontecia comigo. O fato é que eu não era maduro o suficiente para entender que o que estava me torturando eram a culpa e a vergonha que acompanham a ignorância e a incompetência.
O jornal, com minha ajuda, morreu, e meus pecados estão enterrados com ele. Mas eu ainda mantenho, em um esconderijo seguro, um conjunto dos crimes de crítica que escrevi, mais ou menos como um assassino mantém a faca manchada de sangue, sob a qual sua vítima caiu. Sempre que sinto que estou muito presunçoso ou atribuindo-me uma superioridade natural junto a um irmão mais novo no ofício, releio algumas dessas coisas antigas. E vejam, eu não era deficiente nem na habilidade literária, nem no conhecimento da música.
George Bernard Shaw (1856-1950)
Eu teria sido um crítico excelente para aquela idade, se soubesse como fazê-lo. Não sabendo, meu conhecimento musical e poder de expressão literária tornaram-me um ser muito mais nocivo do que se eu fosse um mero jornalista. Quando eu retornei ao ofício de crítico, cerca de dez anos depois, já era um cidadão (item muito importante) pelo trabalho constante como autor, crítico de livros, palestrante e político. Tudo isso não tinha nada a ver com a música, mas a experiência fez toda a diferença. Eu fui enormemente ajudado como crítico pelos meus estudos econômicos e minha prática política de reformador social. Isto me deu uma inestimável compreensão das condições comerciais a que a arte está sujeita.
Uma das funções do crítico é a de agitar, a de promover reformas e mudanças. E a menos que ele saiba o quanto as reformas irão custar, e se elas valem esse custo, e quem terá que pagar a conta, e uma dúzia de outras questões geralmente não incluídas em tratados sobre harmonia, ele não fará nenhuma impressão efetiva nas pessoas descansadas, conformadas e confortáveis com as situações. Na verdade, ele nem saberá quem são os responsáveis. Mesmo os seus vereditos artísticos serão muitas vezes destinados à pessoa errada. Um gerente ou um artista não podem ser julgados de maneira justa por qualquer crítico que não compreenda os movimentos econômicos que envolvem a arte. Uma coisa é criar um ideal de perfeição e reclamar que não são alcançados. Mas culpar os indivíduos por não alcançá-lo quando a coisa é economicamente inatingível é um absurdo. Por exemplo, o mau crítico culpa o artista quando a culpa é do gerente, ou o gerente quando a culpa é do público. Tais erros vão destruir metade da sua influência como crítico. Todo o contraponto ou brilho literário no mundo não salvará um crítico de erros deste tipo, a menos que ele entenda a economia da arte.
O salário de um crítico de música não é grande. Os proprietários de jornais oferecem de uma a cinco libras por semana para críticas de música, sendo o valor mais alto um caso excepcional, envolvendo a entrega de umas duas mil palavras de prosa extra brilhante todas as semanas. E, exceto na baixa temporada, o crítico deve passar a maior parte de suas tardes e noites, de três a meia-noite, em salas de concertos ou na ópera. Não preciso dizer que é praticamente inviável obter os serviços de um crítico de música qualificado nestes termos. É mais ou menos como obter um quilo de morangos frescos em todos os dias do inverno. Consequentemente, para todas as qualificações que sugeri, devo insistir que uma renda independente para sustentá-lo é fundamental. Também é basilar a crença no valor da crítica musical. E uma vez que a boa condição financeira do crítico é tão improvável, tão completamente fora do alcance do praticável, posso parar de pregar. Meu sermão terminaria, como todos os sermões que tenho feito, em mais uma demonstração de como nosso sistema econômico falha miseravelmente em proporcionar os incentivos necessários à produção de resultados de primeira linha.
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Este artigo foi apresentado a mim por Augusto Maurer. Foi publicado primeiramente no Scottish Music Monthly em dezembro de 1894. Foi reimpresso no New York New Music Review em outubro de 1912 e em Bernard Shaw, How to become a Music Critic, ed. Dan H. Laurence (Londres: Rupert Hart-Davis, 1960), pp. 1-6.
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(*) George Bernard Shaw (1856-1950) foi um dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês. Cofundador da London School of Economics, foi principalmente autor de comédias satíricas de espírito irreverente e inconformista. Ele e o cantor Bob Dylan são os únicos premiados com um Prêmio Nobel de Literatura (1925) e um Oscar (1938), por suas contribuições para a literatura e para o seu trabalho no filme Pigmalião, respectivamente. Uma curiosidade: Shaw quis recusar o Prêmio Nobel, pois não gostava de honrarias públicas, mas aceitou-o a mando de sua esposa. Ela considerou uma homenagem à Irlanda. Então, ele rejeitou o prêmio em dinheiro, pedindo que fosse utilizado para financiar a tradução de livros suecos para o inglês.
Por Bernard Shaw (*)
Traduzido muito livre e irresponsavelmente pelo autor do blog
Meu plano era simples. Entrei na equipe de um novo jornal como uma estrela. Nos primeiros tempos, minhas proezas espalharam tanto terror e confusão na redação que minha proposta de voltar minha atenção para a crítica musical foi aclamada com um alívio inexprimível. Na opinião geral, a música era um assunto que precisava de um lunático como responsável. Então me deram uma coluna de música como poderiam ter me dado uma sala confortável em um asilo e, desde aquele dia até hoje — um período de quase sete anos –, escrevi todas as semanas, nesse jornal ou em outro, um artigo sob o título geral de “Música”.
A condição que me impus era que a coluna de música deveria ser tão atraente para o leitor geral, músico ou não-músico, como qualquer outra seção. A maioria dos editores não acreditava que isso pudesse ser possível. Mas a maioria dos editores não sabe editar. O falecido Edmund Yates acreditava que uma boa coluna de música seria um reforço importante para seu jornal. Então ele disponibilizou uma página inteira do The World para tanto. O sucesso desta página provou que, nas mãos de um escritor capaz, a música é tão boa como assunto jornalístico como a pintura ou o drama, e que o interesse sobre ela é muito mais geral do que o da política partidária, a bolsa de valores ou mesmo a polícia. Deixe-me acrescentar que Edmund Yates não tinha mais interesse pela música do que tinha pela química. É claro que se a crítica musical ganhasse, em todos os jornais, o espaço e a consideração lhe foram dadas no The World, seria uma conquista incrível.
Para os jovens críticos, aviso que aquele jornalista que é apenas amante da música não serve para fazer frente à tarefa. Existem três qualificações principais para um crítico de música, além da qualificação geral de bom senso e de conhecimento do mundo. Ele deve ter um cultivado gosto musical, deve ter bom texto e deve ter experiência. Qualquer um destes três predicados pode ser encontrado sem os outros, mas a combinação de todos os três é indispensável para um bom trabalho. Pegue todas as nossas publicações de música e você encontrará muitos artigos escritos por homens com competência inquestionável em música, até mesmo encontrará verdadeiras eminências… como músicos. Vários desses cavalheiros escrevem sem encanto porque não aprenderam literatura. Eles podem se expressar e serem respeitados em seus respectivos ambientes mas jamais o serão para o público em geral. Ou seja, a eles, não adiantará nada conhecer seu ofício se não tiverem bom texto. Por que são tão impossíveis como críticos de música? Porque se expressam mal e não podem criticar. Para piorar, eles normalmente trabalham como se fossem professores de escolas que querem provar que isso ou aquilo é “certo” ou “errado”.
Eles debatem pontos importantes para autoridades como eles são, mas que têm tanta importância na república de arte quanto um mendigo tem na Câmara dos Comuns. Eles defendem com ciúmes suas teses e compositores de estimação contra os rivais mais ou menos como senhoras em um sarau musical doméstico. Eles não veem a diferença entre um professor ensinando a sua classe a resolver um acorde maior de sétima dominante e um crítico na presença do mundo inteiro. Ele pode ser uma sumidade, mas se tratar de forma petulante as coisas das quais discorda, ele obviamente será inaceitável como membro da equipe de qualquer jornal ou revista.
Não é tão fácil citar casos de críticos que falham porque não possuem habilidade literária ou cultura musical. Quando o bom escritor não é nem músico nem crítico, ele deve se dedicar à literatura pura, como o Srs. Stevenson ou Rudyard Kipling, e jamais à crítica. Mas uma vez que, para fins de jornalismo, a qualificação literária é o principal, não faltam casos de jornalistas que tomam a crítica de música apenas porque é a única abertura que lhes é apresentada. Estes ocultam suas deficiências por meio de relatórios descritivos e notícias sobre música e músicos. Porém, se tal crítico tiver um talento ou interesse musical latente, ele aprenderá seu ofício em alguns anos. Se não tiver, nunca aprenderá.
(*) George Bernard Shaw (1856-1950) foi um dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês. Cofundador da London School of Economics, foi principalmente autor de comédias satíricas de espírito irreverente e inconformista. Ele e o cantor Bob Dylan são os únicos premiados com um Prêmio Nobel de Literatura (1925) e um Oscar (1938), por suas contribuições para a literatura e para o seu trabalho no filme Pigmalião, respectivamente. Uma curiosidade: Shaw quis recusar o Prêmio Nobel, pois não gostava de honrarias públicas, mas aceitou-o a mando de sua esposa. Ela considerou uma homenagem à Irlanda. Então, ele rejeitou o prêmio em dinheiro, pedindo que fosse utilizado para financiar a tradução de livros suecos para o inglês.
Tudo começou mal ontem, com a torcida vaiando Guto Ferreira como poucas vezes se viu, mesmo nos últimos anos. É que a punição que Guto impôs a Nico López é incompreensível por várias razões: (1) Nico é o artilheiro do ano, (2) é mais importante do que Guto, e (3) a punição pune a equipe para dar maior respeitabilidade a Guto… Imagine que os reservas de Damião e Pottker são Carlos e Diego, caras que só com muito alongamento podem ser chamados de jogadores de futebol.
Após um primeiro tempo discreto, só erguendo bolas para Damião tentar de cabeça, o Inter botou a bola no chão e goleou o Goiás ontem à noite. Sem D`Alessandro — que já recebeu o sexto (!) cartão amarelo na série B — e a atividade incessante de Nico, criamos muito pouco. Uma cabeçada de Damião, uma cobrança de falta de Camilo, um gol perdido por Sasha, outro anulado e só. Não adiantaram os 35 mil colorados apoiando um Inter voluntariamente enfraquecido por ti, Guto.
O Goiás tinha Argel do outro lado, garantia de retranca. Sua grande figura era Carlos Eduardo, um baita jogador que eu desconhecia. (Aliás, a entrevista de Argel após o jogo foi antológica em seu ressentimento e total falta de lógica. Acho que deste sujeito estamos livres. Viram a vaia que ele levou ontem?).
Uendel: o melhor em campo
No início do segundo tempo, Uendel cruzou, Sasha desviou, Damião quase fez e Pottker marcou no rebote. O Inter realmente acelerava e pressionava o Goiás.
Jogando desta forma, com a bola no chão e marcando muito, a diferença de nível técnico aparecia claramente. E goleamos. Damião fez de pênalti e Carlos, após bela combinação entre Gutiérrez e Pottker, fez o terceiro.
Camilo e Damião fizeram boas estreias. Uendel e Pottker foram os melhores.
Antes deste jogo, o Chance de Gol dava 80% de chances do Inter subir para a Série A. Já o Infobola dava 31%. É o momento David Coimbra do Prof. Tristão Garcia. Eles está super científico, nossa! Agora, já temos 47% no Infobola do profe (menos da metade! Oh, vamos ficar na Série B!) e 89,5% (quase o dobro!) no Chance de Gol.
O próximo compromisso do Inter requer cuidados, o Guarani vem de três empates e duas derrotas, mas tem uma média de 2,22 pontos jogando em casa. Isto é, junto com o Paraná, faz a melhor campanha em casa de todo o campeonato, mas atuando como no segundo tempo de ontem, dá. O jogo será em Campinas, no próximo sábado, às 16h30.
Com 30 pontos em 18 partidas, ocupamos um segundo lugar meio embolado. O América-MG disparou na liderança com 36 pts.
As pessoas que apoiam ideologias políticas de direita tendem a ser menos inteligentes do que as pessoas que apoiam ideologias de esquerda…
Bem, digamos que o estudo, feito pela Universidade de Ontario, no Canadá, é muito provocativo.
A pesquisa chegou à conclusão de que pessoas menos inteligentes são mais conservadoras, preconceituosas e racistas. De mesma forma, também revela que crianças com baixo QIestarão mais dispostas a tomarem posições preconceituosas quando se tornarem adultas. A pesquisa foi publicada na revista Psychological Science.
A descoberta aponta que as pessoas com menos inteligência orbitariam em torno de ideologias socialmente conservadoras, resistentes à mudança, o que gera preconceitos e resistências. As ideologias conservadoras ofereceriam estrutura e ordem, o que dá um certo conforto para entender um mundo incompreensível.
“Infelizmente, parece que é assim”, disse Gordon Hodson, pesquisador chefe do estudo, ao siteLive Science.
Ele salientou ainda que, apesar da conclusão, o resultado não significa que todos os liberais esquerdistas sejam brilhantes e nem que todos os conservadores são estúpidos. A pesquisa é um estudo de médias de grandes grupos, sublinhou Hodson.
Este último parágrafo é fundamental, não? Vemos cada coisa no Brasil… Uma esquerda sem programa assiste uma direita toda pimpona. Bem, e burra. Porém, como temos muita gente de direita que se diz de esquerda, daremos respaldo ao estudo.
Na tarde do último domingo, eu e Elena estávamos deitados na grama do Parque da Redenção. Dormimos um pouco, fomos acordados por um cãozinho que veio nos saudar a fim de dizer que o parque estava lindo para ficarmos só dormindo, dormimos novamente. Então, precisamente às 17h25, a Elena ergueu a cabeça e perguntou:
— E o Guigla? A gente viaja para fazer turismo sinfônico e, quando vem um cara desses a Porto Alegre, a gente não vê?
Saímos correndo, passamos em casa — era caminho — e chegamos à Casa da Música, na Gonçalo de Carvalho, exatamente às 18h. O valor do ingresso era espontâneo e foi necessário juntar algum dinheiro em casa nestes tempos de cartões.
O georgiano Guigla Katsarava já se apresentou duas vezes com a Ospa e costuma vir ao Brasil como professor de alguns dos Festivais de Inverno que ocorrem em julho, apesar de não termos mais invernos. É um pedagogo muito requisitado — professor titular na “Ecole Normale de Musique de Paris Alfred Cortot” — e grande concertista. Coisa rara. Ele apresentaria obras de Schumann, Liszt, Rachmaninov e Prokofiev.
A notável técnica de Katsarava tornou mais suportáveis os Intermezzi, Op. 4, de Schumann. Já Widmung, de Schumann-Liszt melhorou muito o panorama. A Elena chorou de emoção durante os Momentos Musicais, Op. 16 de Rachmaninov. Eu fiquei abobado pelo forma com que Guigla tocou a sensacional Sonata Nº 6 de Prokofiev.
As interpretações de Katsarava foram de alto nível, mas, como já notaram os meus sete leitores, minha preferência vai toda para Prokofiev. O resto nem bem existiu.
Importante dizer que a Casa da Música têm programados excelentes recitais a cada domingo às 18h. No próximo, dia 6 de agosto, às 18h, haverá o duo formado pelos violonistas Daniel Wolff e Fernanda Krüger que fará um recital com obras de Ernesto Nazareth, Thiago de Mello, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O valor do ingresso é, novamente, espontâneo.
Sou todos os autores que li, todas as pessoas que conheci, todas as aventuras que vivi.
Jorge Luís Borges
Certa vez, um crítico contou o número de plágios de Shakespeare. Ele vasculhou 6.043 versos. Destes, 1.771 foram copiados, 2.373 foram reescritos (na verdade foram muito melhorados) e os restantes 1.899 pertencem a Shakespeare. Entre os plagiados, há autores como Robert Greene, Marlowe e muitos outros. Mas, meus amigos, a obra é de Shakespeare. Afinal, só ele juntou e alinhavou tudo aquilo.
Shakespeare brincava que às vezes boas filhas nascem em más familias e que cumpria corrigir a natureza… Mas ocorre também o contrário de uma filha estabelecida em boa família migrar para uma pior ou para uma de mesmo porte.
Deste modo, se um autor rouba ideias de outro, é plágio; se rouba de muitos autores, é pesquisa. Esta frase é minha? Sei lá, entende? Ah, Chaucer, Sterne e De Quincey também foram grandes ladrões. A grande, a imensa literatura inglesa está cheia deles.
Dentre os músicos, Bach, mas principalmente Rossini e Händel, faziam algo mais lícito, mas que às vezes enche o saco. Eles faziam o autoplágio, complicado de ser descoberto numa época em que as músicas eram apenas escritas em partituras, mas facilmente descoberto hoje, mesmo por meros melômanos como eu.
Meu blog já foi plagiado. Ontem descobri mais um. Eram duas frases. Olha, quando é uma frase, um trecho, fico até honrado. Agora sei que é sabedoria…
Uma comédia deve ser… engraçada. Mas quase não ri por mais de uma hora. Inseparáveis, Avril (Camille Cottin) e sua mãe, Mado (Juliette Binoche), não podem ser mais diferentes uma da outra. Avril, 30 anos, é casada, tem um emprego fixo e é organizada. Sua mãe, de 47 anos, é uma eterna adolescente que vive às custas de sua filha desde o seu divórcio. Quando as duas mulheres se veem grávidas ao mesmo tempo e sob o mesmo teto, o choque é inevitável. Tal Mãe, Tal Filha é tão ruim que entra em ressonância, reverbera e acaba bom, numa cena tão absurda que rimos sem parar e saímos felizes do cinema. Juliette Binoche arrasa dançando com véus a terceira de Brahms. É uma imagem que se leva para a vida. Uma atriz que sabe rir de sua (alta) respeitabilidade e protagoniza algo 200% brega é muito digna. E salva o filme.
Sarah (Doria Tillier) e Victor (Nicolas Bedos) estiveram juntos por 45 anos. Um longo casamento durante o qual ele construiu uma solida carreira de escritor. No funeral dele, Sarah é abordada por um jornalista (ou biógrafo) que deseja contar a história de seu marido a partir do olhar da mulher que sempre o acompanhou, alguém de que viveu à sua sombra. E ela passa a contar minúcias do relacionamento que tiveram, incluindo segredos bastante íntimos. Na verdade, coisas muito constrangedoras. Ou, na verdade verdadeira, coisas absolutamente fundamentais e inconfessáveis. O filme tem bom ritmo, é muito vivo e humano, jamais caindo em clichês. Surpreende. Escrito em parceria por Doria e Bedos e dirigido por ele, o drama cômico é repleto observações a respeito das regras e colaborações complicadas que os casais desenvolvem entre si. Vale a pena.
Como disse o professor e guru Moysés Pinto Neto, “a prioridade em 2018 tem que ser o Poder Legislativo. Coletivos têm que usar a Internet pra colocar gente no Congresso”.
Não esqueça: para não falar em quem teve sua campanha financiada por empresas que depois cobram decisões favoráveis a seus interesses, lembro que toda a bancada evangélica do Senado votou contra os trabalhadores. E a Câmara dos Deputados não é nem um pouco diferente. Então, temos que pensar se devemos reeleger essa gente de cristo e das empresas.
Como estamos vendo, a Câmara, o Senado e o Executivo estão pouco se importando com a opinião pública. Estão total e intencionalmente alheios de uma população votante que sempre elege o pessoal da TV, os bispos, e quem tem propaganda cara, normalmente paga pelos financiadores a quem servirão. O eleitor, coitado, pode ser esquecido por quatro anos e religado ao final dos mesmos.
A renovação do Congresso é algo que deve ocorrer e, creio, é mais importante do que o próximo presidente.
Mas só se fala na eleição presidencial. Não tenho ilusões, mas gostaria que a Internet pudesse auxiliar o país na perigosa eleição de 2018.
Michel Temer chegou à pior taxa de avaliação de um presidente da República, desde o fim da Ditadura Militar. Ele é avaliado como ótimo ou bom por apenas 5% dos brasileiros e 70% o consideram ruim ou péssimo. O recordista anterior era José Sarney, que chegou a 7% de aprovação em 1989. Em segundo estava Dilma, com 9% em 2015. Mas ele está cagando pra nós. Nada o atinge. Faz o trabalho que as empresas pediram e sorri.
Béatrice (Catherine Deneuve) tem aproximadamente 70 anos. É extravagante, expansiva, inconveniente, não possui moradia fixa nem reservas financeiras e amou demais, ao menos numericamente. Um de seus amores foi o pai de Claire (Catherine Frot) de quem foi madrasta quando ela tinha 13 anos de idade e, de repente, fugiu. Por trás da fachada alegre, Béatrice é uma mulher solitária. Agora, trinta e tantos anos depois, Claire tem 49, não bebe, não fuma, não se excede em nada. Rígida, leva uma vida irretocável com seu filho. Na verdade, é uma mulher igualmente solitária. Porém, quando descobre ser portadora de uma doença terminal, Béatrice procura seu antigo amor. Só que o pai de Claire morreu há décadas e ela só obtém contato com a ex-enteada. Claire é obstetra — aliás, que grandes cenas de partos há no filme! –, Béatrice não é nada. Como diz o título, o filme se baseia no reencontro entre ambas. Não é nenhuma maravilha, mas funciona direitinho dentro de uma estrutura nada original. Parece cinema médio americano, mas as duas Catherines são fantásticas.
Uma mulher foi presa em Tóquio por ter invadido a oficina de seu ex-marido — um luthier — e quebrado 54 violinos, no valor de mais de US$ 1 milhão. O processo de divórcio do casal já dura 3 anos. Ela é Midori Kawamiya, 34. A identidade do luthier foi preservada. Ele é descrito como um norueguês de 64 anos.
Não sei o que ele terá feito para ela reagir assim, mas sinto pelos violinos. Auxiliei a Elena na compra de um instrumento. Soube que tenho bom ouvido, ouvia de perto, de longe, avaliava a sonoridade de acordo com os 50 anos de consumo música erudita que tenho nas costas. Falava sobre o som mais moderno, mais barroco, etc.
Ela diz que fui fundamental. Espero ter sido porque acabei desenvolvendo amor pelos instrumentos comprados e pela profissão de luthier. É preciso enorme paciência para aguentar as manias de gente que ouve zumbidinhos e desconfia de que o seu som não chega até a esquina. Além de emitirem opiniões incríveis sobre graves e agudos.
Então, considerando que o cara é um luthier, sei que ele deve ter colado com cuidado milhares de peças, arrumado a posição de 50 mil almas, trocado 100 mil cordas e crinas, e suportado as manias de muitos violinistas.
E aí vem a mulher e quebra tudo.
A notícia é incompleta. O que teria feito o luthier para ela reagir assim? Dependendo, até viro de lado.
Jamais iria a um concerto que é um soco no estômago, odeio filmes que são um tapa na cara do expectador, detesto prosa cortante e de estilo contundente. Evitaria uma exposição que é um cisco no olho. Fugiria das peças teatrais desconcertantes, assim como das análises psicológicas penetrantes. Idem para os romances com histórias pé no saco. Deixa eu ser hedonista… Mas vi o jogo do Inter ontem à noite.
Edenílson jogou bem como volante mais fixo.
Jogar com Sasha é para os fortes e tu, bem, não és um deles, Guto. Só que errei feio em minha impressão inicial, pois Sasha foi talvez o melhor em campo.
Iniciamos o jogo mal com sempre, mas fazendo uma pequena pressão. Chutamos três bolas em gol. Todas no goleiro. Atrás de mim, um sujeito falava calmamente para seu amigo: “O Zago era um mau caráter, racista. O Gordo é boa gente, pena que não entenda nada de futebol”. O Gordo é tu, Guto. Achei o cara bem bem razoável. Ele estava tranquilo externando a opinião de que és um idiota. Gostaria de ter tal serenidade.
Nossos ataques tendiam a acabar em cruzamentos, como sempre. Só que Nico e Sasha eram baixos — ainda são — em relação à zaga do Oeste, para não falar no goleiro.
Então, o milagre. Em grande jogada e cruzamento de Nico López — aquele que tu sempre tiras do time –, Sasha marcou de cabeça. Pensei logo que tu ias tirar o Nico. Cruzamento fora do normal.
No segundo tempo, o Oeste tentava atacar. Então Danilo Silva se machucou para dar entrada a Ortiz. Nada mudou para quem já estava com o cu na mão. Começamos a recuar e a cometer erros defensivos. Fabinho também se machucou num lance bem feio, dando entrada a Júnio.
Ficamos dando espaço para o time ruim do Oeste. Não que nosso padrão fosse muito superior. Então a defesa do Oeste errou, Nico López criou o maior rolo, dando até chapéu no goleiro, Uendel chutou no travessão, na volta Nico tentou e FINALMENTE Uendel marcou. 2 x 0.
Fizemos um bom jogo, Guto. Lutamos muito, coisa que os jogadores não pareciam muito dispostos a fazer por ti. Fizeram. A Série B é barbada. Viste?, é só jogar um pouquinho que vai.
Destaques para as boas atuações de D’Ale e Nico, Sasha e Charles. E Klaus é um zagueiro. Não pode sair do time. Edenílson também foi bem.
Nosso próximo jogo é só na próxima terça contra o Goiás, novamente no Beira-Rio, novamente às 21h30. Dale levou o terceiro cartão amarelo e vai passear com a família, provavelmente. Aliás, já levou 6 cartões na Série B, é sua segunda suspensão…
Estamos na quarta posição, mas isso pode mudar até o fim da rodada. O que não pode mudar é nossa disposição, né Guto? E deixa Nico e Klaus no time, tá? E arquive Danilo Silva, Felipe Gutiérrez e Diego. Não servem.
“A palavra propina foi inventada pelos empresários para tentar culpar os políticos — ou pelo Ministério Público”, disse Lula ontem.
Pois é, não está correto. Segundo Idelber Avelar, no Facebook, “propina vem do latim ‘propinare’, que quer dizer simplesmente ‘dar de beber’. Propinare vem do grego προπίνω (propíno), formado de προ- (pro, antes) + πίνω (píno, beber): beber antes de alguém, ou seja, fazer um brinde. Propino tibi salutem! Eu te saúdo, antes de beber. Não custa lembrar que em espanhol ‘propina’ significa ‘gorjeta’. A palavra francesa é ‘pourboire’, literalmente: para beber”.
Idelber tem razão e ainda me chamou para que eu invocasse o auxílio de minha mulher Elena. Perguntou a tradução de “davat na tchai”. Fiz a pergunta assim, em não-cirílico, para a Elena, que explicou: “É dar para o chá. É o que você paga para o garçom, o acréscimo pelo serviço. Usa-se também para pagar alguma coisinha acima do combinado para alguém que faz o serviço a fim de que ele possa tomar um chá. Mas é claro que deverá tomar uma vodka”. Completou dizendo que o mais utilizado é чаевые (tchaievíe), mais fino e clássico. Tchékhov, Dostô e Tolstói usavam. O cara deixa a grana na mesa e diz “tchaievíe”.
O Temer poderia dizer que levou gorjeta pois o Joesley o confundiu com um garçom, escreveu um dos comentaristas. Outro lembrou que, em Portugal, propina é uma taxa anual que se paga para frequentar a universidade pública!
Na manhã de 14 de janeiro deste ano, após o super café do Hotel Charles, planejamos subir até o Castelo de Praga. Foi uma subida das mais lentas. Parávamos a cada momento para olhar vitrines. A Elena ganhou um belo colar da Maya e lá íamos nós, parando e olhando tudo. Durante boa parte do tempo, eu escalava as escadas de braços dados com minha sogra, que estava desistindo de falar russo comigo, mas que volta e meia ainda fazia digressões na bela língua de Tolstói. Quando eu abria os braços sem entender, ela ria e fazia caretas incríveis. Descobri que a sogra ideal é aquela que fala outra língua e não nos compreende, nem nós a ela. Apesar de fumante e de seus 70 anos, ela parecia em forma para subir. Puxávamos a fila.
É claro que me encantei com esta loja de lápis. Acho que meu amigo Augusto enlouqueceria aqui dentro.
Tinham canetas também, mas o forte mesmo eram os lápis. A arte gráfica Tcheca está por todo lado, mas principalmente nas paredes dos prédios da capital. O pessoa sabe desenhar.
Permanecemos um bom tempo na loja. Baba Klara queria comprar tudo para seus netos — ao menos para aqueles que ainda são crianças, apesar do tom absolutamente profissional do estabelecimento.
Então, como elas demoravam, fui até uma loja que vendia CDs usados ali perto, dentro de uma galeria. Não a fotografei, mas pude sentir a qualidade musical do que circula pela cidade. Eles amam o jazz — gênero musical preferido nas ruas — e os eruditos. Mesmo o rock era de primeira. Comprei apenas dois discos de compositores tchecos. Não sou pão duro, apenas financeiramente contido.
Outro destaque são os produtos feitos à base de Cannabis. Uma maravilha! têm por todo lado. É óbvio que não pude manter a contenção financeira. Compramos e consumimos tudo. Eu e Elena temos aquela atração perfeitamente normal pelo proibido.
Há chips, doces, refrescos, chicletes,
chás, balas, temperos, tudo de maconha!
Trouxemos vários desses produtos escondidos para nossos filhos. Eles permanecem vivos, sem demonstrar nenhum desvio aparente.
E chegamos às portas do Castelo. No mirante, foi quando deu frio na sogrinha.
Ventava um pouco lá em cima e ela, mal vestida, tremia. Read More
O dia 13 de janeiro de 2017 foi de viajar de trem de Berlim para Praga. Linda viagem. A ferrovia margeia o Rio Elba por boa parte do caminho, passando inclusive por Dresden. Poderíamos ter feito uma parada na cidade, não? Bem, mas não paramos. A paisagem é lindíssima, tanto que preferi observar a tirar fotos. De resto, elas não estavam saindo muito boas. Foi uma viagem muito confortável. Almoçamos no trem e seu bom restaurante, apesar do ter-nos como reféns, apresentou preços razoáveis, sem tentar obter abusivas vantagens financeiras.
Em Praga, eu finalmente conheceria minha sogra, só que, como ela só fala russo, previa algo próximo do cômico. Eu sei poucas palavras da língua-mãe de minha Elena. Ambas tinham marcado um encontro no meio de nossa viagem, em Praga. O encontro teria o acompanhamento de dois diplomatas. Eu acompanharia Elena e sua prima Maya, a sogrinha. Ficamos todos hospedados no hotel Charles, bem próximo da Ponte Carlos, de onde certamente tirou o nome. O hotel é antigo e confortável, como Praga. Nosso quarto era um latifúndio decorado de uma forma um tanto original e éramos vizinhos da mãe e da prima da Elena.
Largamos as malas do jeito que vocês viram e descemos para o bar do hotel, que fica no subsolo, a fim de eu ter meu primeiro contato com Klara. Abraçamo-nos e tal, tudo estava muito tranquilo e gentil até eu tirar a máquina fotográfica.
D. Klara é uma pessoa expansiva e alegre, algo excêntrica. É uma personalidade muito peculiar e original. A tradução do que ela me dizia sempre me desconcertava um pouco. Estava vestida como uma hippie sob a neve, falava com os braços como uma italiana e soltava uma voz forte, com um tom de décadas de cigarros. Logo nos entendemos, auxiliados pelo espetacular chope preto de Praga. Uma barbada.
Depois de algum álcool, risadas e pouca participação minha na conversa, fiz questão de ir ao restaurante U Mecenáše, que já conhecia de quatro anos atrás, por ter ido com minha filha Bárbara. A comida era maravilhosa.
Era. A coisa for reformada e gourmetizada. O cardápio mudou completamente. Disseram-me no hotel que o restaurante era fantástico na época do comunismo e que permaneceu excelente até poucos anos, mas que agora tudo tinha mudado para pior. Pudemos comprovar: ficou um horror. A porta por onde entrávamos, uma curiosa porta lateral após passar por um corredor escuro, estava fechada. A entrada agora estava aberta para a rua. Abaixo a antiga porta, agora encerada para os turistas.
Ficou feio, sem o ar de restaurante onde os habitantes da cidade comem, sem cor local. Aliás, as pessoas da cidade tinham sumido.
As mesas ganharam ar moderno e também a cozinha ficou sem graça, adaptando-se aos lugares de reles turismo. Enfim, uma traição completa.
Só ficamos ali porque a fome era grande e em razão do rapaz abaixo ter nos conquistado com sua simpatia. Mas era só simpatia.Read More
O título deste filme baseado num romance de Guy de Maupassant poderia ser “Uma vida jogada fora”. Jeanne retorna à casa dos pais após completar os estudos. Passa a ajudá-los nas tarefas do campo. É uma moça talentosa e cheia de vida. Então, um certo Visconde aparece nas redondezas para, de forma apática, quase esquemática, conquistar o coração disponível da jovem. Eles casam. Conforme o tempo avança, Julien mostra-se infiel e avarento. Fato a fato, ano a ano, tudo vai destruindo a alegria de viver de Jeanne. A Vida de Uma Mulher possui narrativa lenta e cheia de lacunas, que vamos preenchendo com nossa experiência de forma mais ou menos terrível, o que torna tudo muito interessante. Os sofrimentos da protagonista não são escarrados, mas observados pela câmera com melancolia. A derrota de Jeanne é completa e vale mais do que a esmagadora maioria e berros das publicações feministas que leio por aí. Um filme inteligente, feminista, desconfortável e triste, triste, triste.
O casal de artistas circenses Dominique Abel e Fiona Gordon — acima, com a grande Emmanuelle Riva ao centro — revelam-se maravilhosos neste Perdidos em Paris, filme que escreveram, dirigiram e protagonizaram. Trazem um humor leve, cinematográfico e descompromissado, derivado diretamente dos filmes de Jacques Tati. É a história surreal de uma sobrinha que vai do Canadá a Paris em busca da velha tia depois de receber uma carta preocupante. Mas também uma história de amor delicada. O nonsense e as pantomimas comandam a ação de desencontros entre a bibliotecária Fiona (Fiona Gordon), sua tia Martha (papel de Emmanuelle Riva) e o desconhecido pobretão Dom (Dominique Abel). Tudo transcorre em Paris, palco de personagens que são verdadeiras caricaturas. O filme é uma declarada homenagem à arte de Chaplin, Keaton, Tati e Jean-Louis Barrault. Enquanto Fiona parte em busca da tia, com paradeiro incerto, ela esbarra num amontoado de coincidências e de momentos hilários. Dom é um morador de rua que está para o amor e para criar ainda mais confusão nesta comédia irônica.