Neste texto, escrevi sobre a necessidade de roubar livros em determinadas situações e idades. O grande escritor chileno Roberto Bolaño — 2666, Os Detetives Selvagens, Noturno do Chile, etc. — fala muito a respeito disso em seus livros. E fala sempre divertidamente, de uma forma muito viva e, bem, experiente. Sei que meus amigos livreiros detestam esse assunto, mas outros, não livreiros, insistem nele. Um deles me enviou o vídeo abaixo. Para mim, afora o tema, é um enorme prazer ver Bolaño (1953-2003) falando alegremente, ainda com boa saúde.
OK, o japa poderia ter dado uma afofada naquela almofada antes de sacar a foto.
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Um milagre na Câmara. Existem vários absurdos no sistema eleitoral brasileiro. Os piores, na minha opinião, são o modelo de financiamento e as coligações nas proporcionais, que só existiam aqui e que ontem começaram a acabar. Ou seja, se for novamente aprovada pela Câmara em segundo turno, a distribuição dos votos para deputados, em 2018, só levará em conta aquilo que seus partidos receberem, sem permitir alianças. Antes, com as coligações malucas que os políticos inventavam, misturando alhos com bugalhos, você votava em uma candidato, por exemplo, do PT, e ajudava a eleger um do PMDB (porque o PT estava coligado com o PMDB).
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Votação de Aécio em 2016: 51.041.155 votos
Valor encontrado no apê de Geddel: 51.038.866 reais
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objetos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.
Certa vez, eu e o Francisco Marshall estávamos assistindo um concerto qualquer quando eu falei no financiamento público de campanha, esta invenção tão incompreensível e injusta para o povo quanto antidemocrático é o financiamento próprio ou das empresas. E o Chico gritou:
— Financiamento público? Então eu vou ter pagar por aquilo? Eu quero financiamento zero, despesa nenhuma, jogo limpo e igual para todos, isso sim!
E reinventamos (ou ele reinventou, não lembro bem) rapidamente uma Lei Falcão para o século XXI. Foto do(a) candidato(a), currículo, plataforma, partido, talvez uma fala de alguns minutos e só. Nada de santinho, nada de outdoor, nada de jingle (jingle para me representar? Isso é um show?), nada de empresas ou cidadãos metendo dinheiro, nada. Uma campanha igual para todos. No máximo comícios, debates na TV e fim. Após eleitos, como brinde, o PUM oferece a cada deputado muitos agentes da PF para fiscalizá-los 24h. Recebeu propina, PUM!, fora.
Sempre ventilando a política, o PUM apoia a medida. A surpresa é que o Chico, neste fim de semana, em sua coluna de ZH, colocou em palavras este Nirvana eleitoral. A seguir, deixo-lhes o texto completo:
Despesa nula em campanhas eleitorais, a verdadeira e necessária reforma política
Os políticos acostumaram-se com esse esquemão e o adaptam, com duas falácias: financiamento público de campanha e o fundo partidário.
Os maiores inimigos da democracia são a demagogia e o marqueteiro. A demagogia é monstro antigo, que pode ser domesticado e servir para se interpretar a vontade popular; ela torna-se um mal quando são prometidos benefícios impossíveis, para iludir o povo, onerando o Estado ou criando desencanto com a política. Já o marqueteiro é sempre inimigo da democracia: cria imagens enganosas, vende o ruim como se bom fosse, gasta o escasso recurso (privado e público) para iludir, premia a eugenia e pavimenta o caminho para muitos delitos: desvios, sobras de campanha e compromissos com doadores e veículos de imprensa. Não à toa, o próprio termo marqueteiro é corruptela da palavra marketing, evidenciando que aqui temos um vendilhão com técnica publicitária.
O engano produzido por marqueteiros só tem utilidade para os farsantes que querem se eleger à custa da boa-fé dos ingênuos e da dignidade da política. Perde a publicidade, maculada por essa promiscuidade, e perde o espaço público, empestado com mensagens inadequadas. Agrava-se a assimetria e a prevalência do interesse econômico, nada isonômicas. Pior, os políticos profissionais já se acostumaram com esse esquemão e agora o adaptam, com duas falácias: o financiamento público de campanha e o bilionário fundo partidário. Contra este mal, a sociedade pode aplicar antídoto eficiente e de grande benefício para a melhora da política: despesa nula, zero gasto possível em campanhas eleitorais. Como funcionaria?
Os tribunais eleitorais elaboram uma base de dados padronizada, com identificação e CV do candidato, suas propostas e um canal de comunicação, com interface simples, acessível intuitivamente por qualquer pessoa do povo. Na campanha, os candidatos ficam proibidos de realizar despesa eleitoral, inclusive manter páginas na internet, mas especialmente a produção de materiais publicitários de qualquer espécie; isto é de fácil fiscalização. É preciso lei rigorosa contra robôs nas redes sociais, um veneno que já está impregnando a internet. Sem santinho, programa partidário com forma de novela ou outdoor: cidade limpa, base de dados digital. Nada impede a realização da agenda de comícios e de debates, seguindo regras públicas. Espécie de Lei Falcão da era digital.
E como se dará o acesso de quem não tem computador?
Os tribunais eleitorais, em parceria com os Executivos e Legislativos, podem usar os recursos hoje empregados no fomento direto a partidos para subsidiar a implantação e a manutenção de um novo serviço cívico: ilhas digitais com terminais assistidos disponíveis para o povo e ampliação da cobertura pública de wi-fi. Nos interstícios eleitorais, essas ilhas podem funcionar como bibliotecas digitais cidadãs, com ferramentas que permitam às pessoas acesso a benefícios sociais (se sobrar algum da devastação atual), chances de emprego e informação com efeito educacional. Se essas ilhas tiverem ao lado praças para atividades culturais e desportivas, o Brasil estará salvo em poucos anos. Despesa nula em campanhas eleitorais, a verdadeira e necessária reforma política.
Ontem à noite, vimos O Fim da Turnê. O filme mostra a entrevista de cinco dias do jornalista David Lipsky, da Rolling Stone, com o escritor David Foster Wallace, ocorrida em 1996 durante a turnê de lançamento do livro de Wallace, Infinite Jest (Graça Infinita). A convite do autor — convite um pouco súbito e ditado pela simpatia inicial –, Lipsky hospedou-se na casa da fazenda onde Wallace vivia recluso com seus dois cachorros, foi às aulas que ele ministrava na universidade e também na última viagem de lançamento de Graça Infinita — uma palestra para leitores mais noite de autógrafos.
Lipsky e DFW em viagem
Como o filme sublinha, Wallace não pode ser uma figura mais norte-americana. É um daqueles rebeldes que contestam o próprio país ao mesmo tempo que amam McDonalds, TV, Coca-Cola, etc. Ao mesmo tempo, trabalha recluso numa fazenda, sem TV e com dificuldades em se relacionar com as pessoas — tem o receio de magoá-las. Demonstra especialmente dificuldades com mulheres. (O entrevistador Lipsky, também escritor, sente inveja do talento e do sucesso de DFW, enquanto este morre de ciúmes do trato social que Lipsky tem com elas).
Curiosamente, a reportagem jamais foi publicada. Lipsky só traria sua versão daqueles dias no livro que dá origem ao filme, Although of Course You End Up Becoming Yourself: A Road Trip With David Foster Wallace, lançado em 2010, dois anos após o suicídio de DFW.
Como cinema, O Fim da Turnê pode não ser espetacular, mas seus diálogos são 100% do tempo interessantes, assim como o jogo de tensões que estabelece entre entrevistador e entrevistado. Nunca li DFW. Seus temas, que descobri faz tempo lendo resenhas e reportagens, não me seduziram, mas o filme faz tudo para que eu mude de opinião.
DFW pensava que a forma com que o homem lida com a tecnologia faz com que ele se torne refém dela. A negação em ter uma TV em casa — logo depois sabemos que Wallace era capaz de passar horas e horas abobado na frente da telinha assistindo coisas 100% bobas — é parte deste “tornar-se refém”. Ele também se refere ao sexo que agora vem pelo computadores e que dominará todos os nossos prazeres, não somente os sexuais. Claro que isso é uma redução. Nem só de reflexões sobre tecnologia é feito DFW. Seu principal tema é extremamente literário, penso. A literatura, escrita ou lida, representaria uma forma de superar a solidão e os efeitos de um individualismo radical.
A atuação de Jason Segel como David Foster Wallace e a Jesse Eisenberg como o jornalista David Lipsky são grandiosas. Segel dá eco ao bom roteiro conseguindo deixar clara a fragilidade emocional do escritor e o verdadeiro tumulto de seu cérebro. Sua figura, a de um riponga sempre entre o doce e o perturbado, é magnética. O filme de James Ponsoldt nos dá um caminho para compreender o que há de genial em DFW.
Para finalizar, sabem que Wallace era devoto de Dostoiévski? Pois é. A grande coisa que torna Dostoiévski inestimável para os leitores e escritores norte-americanos é que ele parece possuir graus de paixão, convicção e engajamento com dilemas morais profundos que nós – aqui, hoje – não podemos ou não nos permitimos. (…) …exigimos de nossa arte uma distância irônica das convicções arraigadas ou das questões aflitivas, de modo que os escritores atuais devem ou fazer piadas com elas ou tentar camuflá-las sob algum truque formal.”
Nabokov se diz Nabôkav. Mas dizer o nome do autor de Anna Kariênina — sim, Karênina é apenas o nome de um dos cachorros de meus filhos — é mais complicado. É Talstói, porque o “o” que é não tônico vira “a” na pronúncia (vide Nabôkav). E sim, é Dastaiévski, tão pensando o quê? E o livro de Gontcharov (Gantcharóv), Oblómov, se diz Ablômav. Já o nome de Tchékhov (Tchéhav) envolve fonemas decididamente alienígenas. Então, se você encontrar um russo, pergunte “Como é mesmo o nome do autor de A Dama do Cachorrinho, As Três Irmãs, que era contista, dramaturgo e médico?” Quando o cara responder, preste bem atenção porque eu não consigo dizer aquilo. E o primeiro nome é Antôn…
Shastakovich, Prakófiev, Gógal, samavar… Vai por aí.
Ingmar Bergman, o cineasta que dedicou parte de sua obra a analisar o silêncio de Deus e a solidão do ser humano, morreu em Fårö no dia 30 de julho de 2007, na mesma data em que morria em Roma Michelangelo Antonioni, o cineasta da incomunicabilidade. Miguel de Cervantes faleceu em Madrid na data de 23 de abril de 1616, mesmo dia da morte de William Shakespeare em Stratford-upon-Avon. O fato de a morte dos dois maiores escritores da Idade Moderna ter ocorrido na mesma data apenas é deslustrado por uma verdade que destrói o mito temporal: Shakespeare faleceu sob a regência do calendário juliano, o que empurra sua morte para dez dias depois. Já Johann Sebastian Bach (1685-1750) não morreu no mesmo ano em que Antonio Vivaldi (1678-1741) faleceu, mas há muitas coincidências que ligam os dois maiores nomes da música barroca — para começar, ambos “escolheram” o 28 de julho como data de morte.
Bach e Vivaldi foram compositores totalmente diferentes. Basta uma audição de alguns segundos para que fique identificado um e outro. Eles criaram suas obras numa época especialmente complicada — são compositores do barroco tardio, ou seja, produziam no momento histórico em que se iniciava o período clássico. Eram, portanto, compositores antiquados em seu tempo. Os filhos compositores de Bach já encaravam o pai como alguém do passado e Frederico II, quando o convidou para visitar sua corte, ouviu-o sem o menor respeito, como quem ouve um animal em extinção, apesar do que dizem algumas lendas desinformadas. Já Vivaldi, il prete rosso, sem público em Veneza, vendeu grande parte de seus manuscritos para pagar uma viagem a Viena, onde Carlos VI o admirava, mas o imperador faleceu dias depois de sua chegada, frustrando os planos do italiano. A consequência é que ambos, Bach e Vivaldi, morreram pobres e fora de moda.
Vivaldi: um talentoso padre que não escondia suas relações com mulheres
Se não havia relações de estilo, havia relações musicais entre ambos, ao menos no sentido de Bach ter sido um admirador do estilo italiano e de conhecer profundamente a obra de Vivaldi. Ele fez mais: transcreveu vários dos concertos de Vivaldi para o cravo e o órgão. Alguns concertos para violino do L’Estro Armonico (1712) e de outros ciclos foram transcritos por Bach e certamente interpretados por ele, seus filhos e alunos. Podemos citar também a quase inevitável religiosidade dos dois compositores numa época em que se ensinava religião por mais da metade do horário escolar. Por muito tempo, Bach foi considerado uma espécie de santo, ao menos até Emil Cioran colocar alguns empecilhos, separando Bach e Deus, com vantagem para aquele: Sem Bach, Deus seria apenas um mero coadjuvante. Sem Bach, a teologia seria desprovida de objetivo, a Criação fictícia, o nada peremptório. Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus. E Vivaldi? Vivaldi era padre. Il prete rosso, o padre ruivo, ou vermelho.
Apesar de sacerdote, Vivaldi teve muitos casos amorosos, um dos quais com uma de suas ex-alunas do conservatório de Ospedale della Pietà, a depois influente cantora Anna Giraud (ou Girò), com quem mantinha também relações profissionais na área da ópera veneziana. As biografias mais pudicas dizem que Anna foi a moça por quem o grande compositor se apaixonou, a inspiradora de suas óperas e a tormenta de todos os seus dias, até a morte. Ela teria muitas vezes beneficiado Vivaldi em troca de papéis adaptados a suas capacidades vocais. Tais trocas levaram outros compositores, como Benedetto Marcello, a escreverem panfletos contra Vivaldi e Giraud. Já Bach teve dois longos casamentos. O amor por suas esposas pode ser depreendido através de suas cartas e dos vinte filhos resultantes — sete com a prima Maria Bárbara e treze com Anna Magdalena, uma cantora profissional com metade de sua idade. O casamento com Maria Bárbara acabou em razão da inesperada morte da mulher e o com Anna Magdalena ocorreu em 1721. Bach tinha 36 anos; Anna, 18.
Bach: evolução permanente e cegueira
Bach escreveu mais de mil obras. Muitas são curtas, mas há mais de 200 Cantatas com duração aproximada de vinte minutos e Paixões com 3 horas de duração. Sua obra completa foi gravada numa coleção da Teldec: são 153 CDs, mais ou menos 153h ou 6 dias e 8 horas de música, sem repetições. Já Vivaldi escreveu 477 concertos — segundo o hostil Stravinsky, tratava-se de 477 concertos iguais — , mais 46 óperas e 73 sonatas. Em seu caso, ainda há muitas óperas não gravadas — porém, considerando o porte das óperas gravadas, é crível que o tamanho de sua obra seja semelhante ao de Bach.
Vivaldi parecia ter nascido pronto, seu estilo de composição variou pouco durante sua vida. Já a música de Bach, se não teve seu estilo alterado de forma radical, foi ganhando qualidade de forma inacreditável. Grosso modo, suas últimas composições foram as Variações Goldberg, A Oferenda Musical e A Arte da Fuga. Estas são monumentos, verdadeiras catedrais construídas em homenagem ao contraponto e à polifonia. No final de sua vida, Johann Sebastian Bach estava em seu auge, criando, se não suas obras mais perfeitas, aquelas que mais recebem tempo e dedicação dos especialistas.
Bach fora míope durante toda a vida e, durante a composição de A Arte da Fuga, sua visão se apagou. Porém, em fins de março de 1750, ano de sua morte, o famoso cirurgião oftalmológico John Taylor esteve de passagem em Leipzig. Ele foi levado até Bach e o operou. Taylor afirmou que em dois os três dias o paciente voltaria e enxergar. Depois de algumas semanas, como o paciente não apresentasse melhoras, houve uma nova operação, além de sangrias, ventosas e bebidas laxativas para limpá-lo. Apareceu um outro médico que brigou com Taylor. Então foi utilizado sangue de pombo nos olhos do compositor, além de açúcar moído e sal torrado. Dizem que em 18 de julho, dez dias antes de morrer, ele voltou a enxergar, mas no mesmo dia teve febre alta e caiu na inconsciência.
Não era alguém importante para a época. Nem sequer seu túmulo foi indicado. O corpo se perdeu. É um fato tristemente cômico que aquilo que está na catedral de São Tomás, em Leipzig, uma espécie de jazigo construído em sua honra em 1950 — por ocasião do bicentenário de sua morte — não sejam seus restos mortais, mas apenas o testemunho de seu esquecimento. Sua obra começou a ser recuperada por Felix Mendelssohn em meados do século XIX. Mas não é mera casualidade o fato de Mozart e Beethoven terem conhecimento de parte da obra do mestre. Eram estudiosos. Tanto que Beethoven escreveu que seu nome não deveria ser Bach (regato, ribeiro) e sim mar.
Túmulo de Bach na Catedral de St. Thomas, em Leipzig: Bach não está aí
Já Vivaldi foi esquecido por muito mais tempo. Sua ressurreição começou apenas em 1939, quando o compositor italiano Alfredo Casella organizou uma exótica Semana Vivaldi. Depois veio a guerra e só em 1947 foi fundado um tímido Istituto Italiano Antonio Vivaldi com o propósito de promover a música de Vivaldi e publicar novas edições de seus trabalhos. O longo inverno vivaldiano começou logo após sua morte. Quando morreu, era um mendigo em Viena. Teria morrido de “infecção interna”. Em 28 de julho, ele foi enterrado em um túmulo simples no cemitério do hospital de Viena. Seu corpo, assim como o de Bach, foi perdido. Hoje existe apenas uma placa de homenagem na parede da Universidade de Viena registrando um dos possíveis locais do seu túmulo.
Placa indicando a possível localização do túmulo de Vivaldi, em Viena (Áustria)
por Patsy McGarry para National Catholic Reporter
Retirado do Paulopes
Um site de autoajuda criado na Irlanda para dar assistência aos filhos dos padres católicos tem sido procurado por mulheres de todas as idades do mundo todo, desde a senhora de mais de 80 anos de Boston até a mãe de uma criança de três anos das Filipinas.
Filhos de sacerdotes
“Isso prova que o problema não se limita ao passado. Continua existindo”, afirmou Vincent Doyle (34), fundador do site www.copinginternational.com, que é financiado pelo arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin.
Ele disse ao jornal The Irish Times que desde meados de agosto 1.062 pessoas logaram no site, que teve 8 mil visitas e 38 mil acessos de 53 países.
Seu pai, padre John J Doyle, de Co Longford, morreu em 1995. Após confirmar a paternidade do padre em 2011, ele assumiu o sobrenome.
Um artigo publicado no site em 2015 afirma que os acordos de confidencialidade com as mães dos filhos dos sacerdotes eram “uma forma de chantagem contra a mãe e a criança”. Escrito pelo conceituado advogado canônico dos EUA, padre Tom Doyle, afirma que “não há razão válida para tais acordos ou contratos sob qualquer circunstância”.
Em 2015, em resposta às observações do padre Doyle, os bispos católicos da Irlanda disseram que um acordo de confidencialidade era possível “se as partes entrarem em acordo livremente, com o objetivo último de proteger os interesses da criança”.
Esse acordo seria “injusto” se “a mãe fosse indevidamente pressionada” ou se fosse usado “principalmente para proteger a reputação do sacerdote ou a Igreja institucional, criando um véu de sigilo”, disseram.
Em uma carta aberta em apoio ao trabalho da Coping International, o Arcebispo Martin disse que estava disposto a “ajudar, gratuitamente, qualquer filho de sacerdote que o procurasse”.
Peter Murphy, filho do falecido Bispo de Galway Eamonn Casey, recentemente disse ao Boston Globe que a divulgação da identidade de seu pai, em 1992, significou tornar-se uma celebridade instantânea. Ele tinha 17 anos e morava com sua mãe Annie Murphy em Connecticut, nos EUA.
Em um artigo do Spotlight sobre o Coping International, Murphy declarou: “Falei com um (repórter) irlandês de manhã, fui para a escola e pensei: “OK, é só isso”. Mas quando cheguei em casa, eu diria que mais de 100 jornalistas estavam ao redor do condomínio”, disse ele ao Globe.
Com tradução de Luísa Flores Somavilla para IHU Online.
Sem time, escolhi uma foto de torcedores | Ricardo Duarte
Guto, o Inter tem poucos jogos até o final do ano. Sua última partida foi sexta-feira passada (25) e a próxima será só no dia 9 de setembro. Mesmo assim, ontem, contra o Atlético-MG, pela Primeira Liga, tu resolveste poupar teus principais jogadores. A finalidade parecia a de ser eliminado. Conseguiste. Parabéns. A competição dá 3 milhões de reais ao vencedor. Vencê-la seria até natural para o time titular do Inter. Mas não precisamos de dinheiro e a derrota parece estar nas entranhas do clube nesta década. O Atlético-MG jogou com 30% de titulares e o Inter com 0%.
Títulos são bobagens. O negócio é poupar jogadores. Esperamos que eles possam jogar contra o Juventude pela Série B domingo.
Ou será que fizeram um acordo com a CBF para melar de vez a Primeira Liga?
Prenhe de razão, meu colega Marino Boeira resume o jogo:
Vi o jogo a partir dos 20 minutos contra o Atlético e me permito algumas conclusões. O lateral esquerdo Iago me pareceu pronto para o lugar do Uendel. Dos zagueiros, por incrível que pareça, o único que merece ser lembrado é o Ernando, ao menos como primeiro reserva. O Charles mostrou que é tão bom quanto o Dourado. O Camilo não é o que andaram dizendo dele, mas serve. O Joanderson não teve chances e o Carlos precisa, urgentemente ser mandado embora. Finalmente, o Nico, se continuar jogando o que jogou ontem, é titularíssimo no lugar do Pottker.
“Critico uma versão específica da política identitária que é performática em suas demonstrações de consciência social. Não gosto particularmente porque é um grupo muito inclinado a censurar, a atacar em bloco indivíduos. Odeio isso. Ao calar seus inimigos políticos, eles calam também o dissenso dentro da própria esquerda e é este dissenso que sempre fez a esquerda ser vibrante intelectualmente. São os questionadores que evitam que a ideologia se fossilize porque nos obrigam a repensar. Mas suas vozes foram caladas.”
Angela Nagle
E o vento levou… (Gone with the wind) foi banido de um cinema em Memphis (Tennessee) por veementes protestos relacionados a questões raciais. O filme seria racista. Bem, na verdade é mesmo racista. Por outro lado, o site de pesquisas de opinião pública YouGov, fez uma pesquisa em 2014 e chegou à conclusão de que o filme é considerado “muito bom” ou “um dos melhores” por 73% por cento dos negros dos EUA. Outros 14% acharam o filme “legal, bacana” (“fair”). Só 13% desgostaram do filme e 0% disseram que E o vento levou é “um dos piores”. Ou seja, o racismo não chega a chocar ou prejudicar a avaliação do filme. São números.
O fato que me chama muitíssimo a atenção é que — como acontece provavelmente no caso de Memphis — há pouco em comum entre alguns movimentos identitários e as populações que eles buscam representar. Há minorias que gritam estridentemente e são lidas como maioria, só que não são. O som que fazem parece ser audível apenas para seu gueto.
Há muito fanatismo nas redes sociais e o fanático não presta atenção a nenhuma complexidade ou nuance. Ele sai reclamando, se vitimizando e linchando. Como escreveu Amós Oz, “Nunca vi um fanático com senso de humor ou então alguém com senso de humor se tornar um fanático. Humor é a habilidade de rirmos de nós mesmos, e, quando podemos fazer isso, desenvolvemos uma noção de relativismo”. Eu jamais conseguiria imaginar um desses linchadores pró-ativos das redes rindo de seus enganos.
E cada vez mais tenho certeza de que certos movimentos falam só para si mesmos. É como se as pessoas ficassem asseverando e parabenizando uma a outra pelo fato de estarem do lado certo. Como Thomas Bernhard, formam um acúmulo de argumentos imoderados que às vezes fazem rir quem está de fora, mas que são capazes de destruir psicologicamente a vítima. São gritalhões desagradáveis a apontar fatos que podem até ser justos, mas cuja forma de abordagem parece inaceitável ao receptor da mensagem.
Dia desses, ouvi um sujeito dizer que não poderia publicar um elogio a uma carne que comera porque seus amigos veganos poderiam postar vômitos em resposta no Facebook. Ele tinha medo da minoria gritona.
O recente e lamentável fato do estupro de Clara Averbuck nos dá um caminho que não é geral, mas que serve de exemplo de uso de inteligência. Lá no fundo do cenário do caso, ficou bem distinta a dignidade de Clara ao não provocar um linchamento. Conheço Clara desde os tempos de glória dos blogs, ela tinha um muito louco e bom. Ela poderia fazê-lo, mas não divulgou o nome do escroto abusador e nem a placa do carro. Ao contrário, promoveu uma hashtag chamada #MeuMotoristaAbusador fazendo com que muitas mulheres narrassem os abusos sexuais que sofreram em transportes. Infelizmente, é muito comum e violento.
Ou seja, ao não dar o nome, foto e placa de seu agressor, Clara evitou a catarse de um linchamento militante cheio de ofensas e sem nenhuma direção que não seja a aniquilação do inimigo da hora — e onde até ela ficaria mal-vista em razão da batalha — para dar lugar a narrativas onde… Olha, aprendi muita coisa lendo os relatos.
Sobre E o vento levou… Um monte de gente que desconhece o filme deve estar assistindo-o só para procurar racismo nele. Certamente vão encontrá-lo, mas passarão boas horas vendo um filme de narrativa envolvente. No futuro, lembrarão mais dela. Sim, a realidade é cruel, mas cumpre respeitá-la.
Hoje fazem dois anos que Oliver Sacks morreu. Antes de falecer, muito doente, ele tinha apenas dois prazeres: salmão defumado e Bach. Casualmente, hoje vim para o trabalho ouvindo a Missa em Si Menor, que tantos acham ser a maior das músicas já compostas. A versão de Rudolf Lutz tem tanto ritmo que cheguei aqui com um pouco de dor na mão. Estava discretamente regendo toda a coisa pelo caminho. Só falta o salmão defumado, Oliver.
Durante meu aniversário, dentre os mil assuntos comentados, houve uma estranha fixação sobre o künefe, a mais incrível das sobremesas que já comi. Ele me foi apresentada por meu filho Bernardo, que está estudando em Berlim. Eu tinha escrito em meus relatos de viagem:
A Criação. Deus olhou para nosso planeta e quis nos dar uma chance. E enfiou o dedo casualmente na Anatólia, Turquia, ali pertinho de onde nasceu a Asli Berktay. E criou o künefe.
Pois no dia seguinte, 20/08, meus amigos Maria de Abreu e Luiz Hall fizeram a maravilha… Seguem fotos da obra. A última foto é a do künefe que comi em Berlim.
No domingo passado (27), os mesmos abusadores produziram uma nova fornada de künefe, da qual só vimos fotos. Creio que estão evitando minha presença avaliadora…
Esta postagem está catalogada em “Amigos, Tudo”, mas penso em criar uma chamada “Amigos, pero no mucho”…
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Em tempo! Com a palavra, Luiz Hall:
Vejam bem…
Sempre quis fazer um suspense em algo que alguém estivesse querendo muito saber, então…
Vejam bem, Ricardo Branco, Fernanda Melo, Emílio Carlos Baino et alli…
O Milton foi discreto em seu post e não entrou nos pormenores da discussão kunefiana.
Ocorre que durante o aniversário, duas mesas distantes sem nenhum motivo aparente discutiam sobre a existência de uma sobremesa chamada kunefe.
Quando se deu conta, o aniversariante tratou de juntar os dois grupos e iniciou-se uma discussão de como seria possível experimentar a coisa toda sem precisar pegar um avião rumo a Berlim, Esmirna ou norte da Síria (que foi onde a Cláudia Beylouni Santos manteve contato com o extraordinário doce).
Foi neste instante que eu disse ao Milton que eu mesmo já teria executado a receita (que me foi passada em segredo durante um sonho em que acessei o google) por três vezes. A primeira teria queimado mas as outras duas tinham ficado saborosíssimas. Pelo menos era o que eu lembrava depois de acordar-me.
Eu ainda reluto em passar detalhes da mesma porque pretendo submeter a mesma ao crivo crítico do Milton e da Cláudia. Só então poderemos considerar que existe de fato uma receita.
Mas há uma forma de abreviar este sofrimento. Basta o Augusto Maurer fazer aquela maionese de bacalhau e nos convidar a saborea-la. Aí a língua solta de vez.
Enquanto isto o que posso dizer é que estamos envoltos com experimentos para definir o melhor tipo de massa e queijo que ofereça um melhor resultado. No primeiro teste usamos cabelinho de anjo e cottage. Já no segundo teste optamos por massa filo e uma mistura de mussarela e feta.
Há ainda uma preocupação em salvaguardar e garantir que nossa querida amiga Elena Romanov possa aproveitar sem culpas o evento. Para isto pensamos em algumas alternativas que diminuam a oferta de lacteos. Não eliminará de todo mas ficara bem legal.
Foi por isso que não foste convidado, viste Milton Ribeiro!
Mas para abreviar, já que imagino que vocês não queiram ficar lendo bobagens, segue:
Receita de Kunefe da tia Maria psicografada pelo atentado
Ingredientes
1 Chávena de açúcar
1 Chávena de água
Massa (filo ou cabelinho de anjo*)
Queijo (mussarela ou algum que derreta confortavelmente)
Manteiga sem sal
Pistache triturado
Sorvete (De creme fica legal mas pode ser de coco que também fica joia)
Modo de preparo
0 Faça uma calda com o açucar e a água e deixe esfriar
1 Corte a massa filo em tiras finas e depois em pedaços pequenos.
2 Em uma frigideira antiaderente derreta duas colheres de manteiga em fogo baixo.
3 Acomode a massa na frigideira como se fosse um colchãozinho
4 Espalhe pedaços de queijo sobre a massa
5 Cubra tudo com outra camada de massa
6 Durante o cozimento vá esmagando o kunefe e aparando o queijo malandro que tentar fugir pelos lados.
7 Com uma espátula verifique quando a parte inferior já estiver assada (desgrudando da frigideira)
8 Com um prato, retire o kunefe tombando a frigideira.
9 Coloque mais manteiga na frigideira
10 Devolva o kunefe para a frigideira com o lado não assado para baixo.
11 Repita o ítem 6
12 Quando estiver cozido desligue o fogo e despeje a calda já fria sobre o bichinho
13 Coloque em um prato e salpique o pistache sobre ele.
14 Conclua com algumas bolas de sorvete por cima
Obs.1 Para a Elena pensamos em fazer um sorvete de leite de coco e manga e substituir a manteiga por banha
Obs.2 Se for usada a massa cabelinho de anjo a mesma tem que levar um susto antes. Em uma panela separada coloque água a ferver. Quando estiver fervendo coloque o cabelinho de anjo por 1 minuto, escorra e jogue a massa direto em uma bacia com água gelada para interromper o cozimento. Escorra a massa e corte em pedaços pequenos seguindo os passos do ítem 3 em diante”
Às vezes, eu e Elena traduzimos alguma coisa do russo para o português. Dá trabalho, porque ela me explica palavra por palavra, dá o sentido e discorda de minhas soluções… Menos mal que logo entramos em acordo. Ontem à noite (28), ela me pediu ajuda para traduzir um poema que ela ama, de autoria do padre-poeta ortodoxo Sergei Kruglov. Eu sou ateu, ela é ortodoxa. Sem problemas, ainda mais que nenhum dos lados jamais fez proselitismo e o poema é estrondosamente bom. Desta vez foi tudo muito rápido. Espero que Kruglov não saiba português.
Cinzas
— Não vi o seu Cristo!
— Eu vi meu Cristo.
Ele não foi longe,
Ele esteve, como todos nós,
Na linha de produção da morte.
Ele era apenas um trabalhador.
Ele está entre nós.
Apenas Ele consegue
Cometer sabotagem:
Colocar em cada pistola uma falha,
Em cada bomba, a possibilidade de não explodir,
Em cada cela (lembre-se do
Ano 23, o dentista Turner?
Sua angústia em termos de
Limpeza do estilo? – lembre-se:
“Ação Tiergartenstrasse 4”?) – monta uma porta,
Pequena, estridente, que vai
Para o céu.
É isso que Hannah Schwanke,
Membro do Esquadrão da Morte,
Testemunhou perante todo Nuremberg:
“Eu vim, apenas a manhã amanheceu,
Trazer a mirra. Mas os portões do forno
Estavam abertos. Não havia nem cinzas. Alguém
Removeu a pedra,
E os restos de quinhentos e cinquenta e cinco condenados
Não foram encontrados.”
Sergei Kruglov
28/08/2015
.oOo.
Para quem curte um russo, aqui está o original:
ПЕПЕЛ
-Я не видел твоего Христа!
-А я видел моего Христа.
Он недалеко ушёл,
Он трудится, как и все мы,
На конвейере смерти.
Он был просто рабочий.
Он среди нас.
Только Он умудряется
На этом конвейере
Совершить диверсию:
В каждый пистолет заложить осечку,
В каждую бомбу вложить возможность невзрыванья,
В каждую камеру (помнишь
23 год, стоматолога Тёрнера?
Его мучения в плане
Чистоты стиля? – помнишь:
«Акция Тиргартенштрассе 4» ?) – вмонтировать дверцу,
Маленькую, скрипучую, ведущую
В небо.
Вот потому Ханна Шванке,
Член айнзатцкоманды,
Свидетельствовала пред всем Нюрнбергом:
«Я пришла , только забрезжило утро,
Принести туда миро. Но врата печи
Были открыты. Не нашлось даже пепла. Кто-то
Откатил камень,
И останков пятисот пятидесяти пяти приговоренных
Найдено не было».
Despretensão, sinceridade, texto curto e fluido. Era isso o que queria quando comecei a escrever resenhas de livros neste blog. A merda é que esta é a 243ª resenha que escrevo e hoje o Google me encontra fácil quando alguém quer saber de um livro que eu tenha lido nos últimos anos. Hoje, o desafio é fazer de conta que ninguém lê estas resenhas. Não é fácil fingir esquizofrenia. Pois se considerar que alguém pode balizar sua compra por mim, vou revisar e revisar o texto, inclusive retirando o que mais gosto, o estilo gonzo das resenhas.
Então começo dizendo que tive a impressão de que o livro de Cristiano Baldi, Correr com Rinocerontes, cresce muito à medida que avança, mas que isso talvez tenha mais a ver com a lentidão com que iniciei a leitura — estava bem atrapalhado pessoalmente — e com o tempo que finalmente pude dispor para ler a segunda metade.
O livro pode ser dividido em duas partes, antes e depois de um trágico acidente familiar que não vou contar. Na primeira parte, o narrador subitamente viaja de volta para Porto Alegre a fim de encontrar sua família. Algo tinha acontecido. De forma divertida, ele nos mostra que não é aquele bom-moço coisa querida tão presente nos discursos feicebuqueanos e tão ausente na atividade prática dos donos dos perfis. Ou seja, ele é franco ao expressar algumas vagas opiniões políticas e franco no prazer, desprazer e dor, assim como em narrar alguns descompromissos afetivos. Suas observações sobre Porto Alegre são lastimáveis e absolutamente cheias de razão.
Quando os motivos da viagem passam ao papel, o livro cresce muito ao mostrar a reação de cada familiar à tragédia. Cada um corre para um lado. Com personagens bem construídos, o tom é o do humor ácido, apesar dos acontecimentos narrados serem efetivamente estarrecedores. Na escolha da linguagem, creio que uma das maiores influências seja a do Salinger do Apanhador. Tal escolha impõe um narrador inteligente, suficientemente interessante, divertido e iconoclasta. É o caso. (Mas jamais pensem que a vinda para sul tenha algo da literatura de Noll, tá?).
Recomendo.
Cristiano Baldi: no livro ele é bem mais animado. (Foto roubada do Guia de Caxias do Sul)
É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará — do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá — é o bicho, é o buchicho é a charanga
Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré
Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné
(volta aqui)
Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar
Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará
A qualidade da educação dos russos é totalmente diferente da nossa e isso se reflete de formas nem sempre fáceis de explicar, porque as pessoas daqui se ofendem. É que em média é muito outro nível, garanto-lhes. Ontem, durante a cerimônia de formatura da Lizaveta, filha da Elena, sentei-me longe de minha mulher porque havia um local especial para pais no Salão de Atos da Ufrgs. Então, fui me sentar com a Iúlia, uma menina de São Petersburgo colega da Liza, lá no local destinado aos amigos, conhecidos, agregados, etc. Ela iria fotografar a festa após a formatura. A coisa ia longuíssima e eu comecei a ler um livro enquanto ela pegou o celular, super concentrada. Ah, pensei, uma russa que passa o tempo bobamente no celular. Na festa, horas depois, perguntei o que ela tanto lia:
Guto, com os 3 x 2 sobre o Paysandu, chegamos aos 42 pontos e finalmente, na 22ª rodada, lideramos o Campeonato Brasileiro da Série B. Leandro Damião fez 2 (com direito a golaço na abertura do placar), e Klaus fez o outro gol de nossa sexta vitória consecutiva. A repetição de uma escalação sem invenções, em 4-4-2 clássico, não apenas atende ao clamor popular como funciona. Winck foi o único jogador de decepcionou, sendo o responsável direto pelo segundo gol do Paysandu ao não acreditar na cabeçada de Wellington Jr. Ele lembrou aquela última versão de Bolívar, aquela que torcia para o adversário errar ao invés de participar do lance.
Parabéns, Guto, mesmo considerando a fraqueza dos adversários, teu desempenho é realmente muito bom, como podemos ver abaixo. Pegaste um time destruído, usaste de bom senso e a coisa funcionou. E viste?, chamar-te de Gordiola virou carinho.
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Parece que dificilmente teremos aflições ou DVDs ao final de nossa participação na Série B. Tudo que eu NÃO quero é a venda são DVDs relatando uma conquista heroica. É coisa bagaceira. Nos 16 jogos restantes, basta vencer oito que chegaremos aos 66 pontos, o que é mais que suficiente para que cheguemos à Série A. Em outras palavras, se ganharmos todos os jogos em casa, perdendo todos fora, estaremos classificados. O que viesse dos jogos fora seria crédito. Mas é claro que quero antecipar o suspiro de alívio e classificar o quanto antes.
Foto: Ricardo Duarte
O jogo foi tranquilo com dois pequenos sustos: o gol de empate do Paysandu aos 34 minutos do segundo tempo — fizemos 2 x 1 logo depois, aos 45 — e gol de desconto do Paysandu. O 3 x 2 aos 40 do segundo tempo deixou todo mundo nervoso. Afinal, estamos escaldadíssimos com viradas, 2016 ainda nos assombra, é como andar nas ruas em Porto Alegre à noite, desejando que nada aconteça mas sabendo que tudo pode acontecer. O Inter recuou e soube segurar o resultado, mas… Precisaríamos disso contra o fraco Paysandu? Destaque para a garra de D`Alessandro, para os dois passes que deu para gols de Damião e para o envolvimento de AMBOS, totalmente mobilizados para vencer.
A mecânica do time não foi grande coisa ontem, mas… Bem, Guto, em tua homenagem, ai está todo o teu ótimo desempenho este ano como técnico do Inter.
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O próximo jogo é contra o Atlético-MG, pelas quartas de final da Copa da Primeira Liga, na quarta-feira (30/8), às 19h30, no Beira-Rio. Pela Série B, voltamos a atuar somente no dia 9 de setembro, contra o Juventude, em Caxias. O Ju é bom casa. Tem média de 2,27 pontos por jogo em casa. É alto. Para termos uma ideia, nós temos média de 2,0 pontos.
De todas as categorias deste blog, a que mais gosto de adubar é a que chamei de “Amigos, tudo”. E, se vou deixar aqui um texto curto e muitas fotos dos amigos durante meu aniversário, é mais um post para ela. Foi uma festa com muita gente. Só tinha visto o Centro Peruano mais lotado em datas comemorativas do Peru com grupo de música, dança, etc. Já eu tinha só um pen drive. O querido amigo Dr. Carlos Nevado preparou um buffet de ceviches, chaufas e saladas, regado a pisco e cerveja. Por algum motivo, acho que tudo o que ele faz expressa afeto. E sei que tenho razão. Você deveria conhecer o local, se ainda não foi lá.
Pelo som das conversas e das risadas, o pessoal estava bem animado. Fiquei especialmente feliz pela vinda da Nikelen Witter e do Luís Augusto Farinatti. Vir de Santa Maria para ver os amigos e esquecer o presente do aniversariante no hotel não é para quaisquer uns. (OK, no dia seguinte, eles fizeram questão de me entregar em mãos). Rimos disso, claro, e que prazer revê-los assim como a outros bem menos distantes fisicamente e que não via há tempo!
E fiquem sabendo: as ausências de Rovena e Chico Marshall, Mauro Scheuer e esposa, Carmem Crochemore e Antônio Escosteguy Castro, mais Paulo Moreira, jamais serão perdoadas!
Fotos de Augusto Maurer.
Meu genro preferido, Vicente Cortese, minha filha Bárbara Jardim Ribeiro e minha irmã Iracema Gonçalves.Eu, Milton Ribeiro, minha irmã e a Lucia Serrano Pereira fofocando. Eu aponto que aqueles dois ali atrás (Branco e Farinatti) têm um caso.Faço cara de idiota enquanto Claudia Guglieri acarinha a barriga de Dario Bestetti.Aqui, o trio reaparece bem feliz, apesar da perturbadora mão.Dario faz cara de quem espera algo mais daquele toque, mas sei lá, este é o blog da Família Gaúcha, todos sabem.Minha irmã assusta severamente Nikelen Witter, enquanto Astrid Müller apenas observa.Mas ela logo explica que o problema era com a Astrid. E eram dois.Nikelen consola Astrid.E segue consolando enquanto eu resolvo meu lado lá atrás.Após me dar de presente o primeiro vinil dos Novos Baianos, Robson Pereira é todo paz e amor ao lado da esposa Lúcia e da Astrid, já totalmente refeita, pode crer.Jussara Musse, Alexandre Constantino e eu abrilhantando nossa coluna social.Sigo dizendo bobagens para a Elena Romanov. Notem bem o rosto dela, agora procurem sua mão esquerda que puxa minha orelha com força.
O governo da Venezuela cancelou a excursão de setembro de Gustavo Dudamel com a Orquestra Nacional da Juventude da Venezuela, mais conhecida como National Youth Orchestra of Venezuela (NYOV). Parece que Dudamel está sendo tratado como dissidente, o que é uma novidade. A excursão passaria também por quatro cidades norte-americanas. Talvez seja este o problema.
Dudamel, uma figura antes admirada pelo governo e amigo de Hugo Chávez, tuítou: “Estou com o coração partido. Foi cancelada nossa turnê. Meu sonho de voltar a tocar com esses maravilhosos jovens músicos não se tornará realidade desta vez”.
Sob a direção de Dudamel, a Los Angeles Philharmonic vai substituir a NYOV nos compromissos cancelados interpretando os mesmos autores latino-americanos que a NYOV tocaria. Os eventos serão de celebração das comunidades latinas nos EUA.
Pois é, já conversei com o Padura | Foto: Roberta Fofonka
Sou fascinado pela boa prosa, escrita ou falada. Digo a vocês que o tema da palestra de Padura pouco me importou. OK, era um bom tema o da Insularidade, a maldita circunstância da água por todos os lados. Acompanhei com atenção adequada tudo o que ele disse sobre o malecón, o interminável muro de 60 cm de largura que separa Havana do mar e do resto do mundo, ouvi com prazer as histórias que envolviam meu amado Alejo Carpentier, gostei mesmo quando ele falou da pobreza e da fome dos anos 90, com tudo o que fica e vai, mas achei muito melhores as frases, a colocação cuidadosa e hábil dos pensamentos, como quando, por exemplo, ele explicou a sedução que o romance noir e o mal exercem sobre os escritores, quando falou nos absurdos que ele comete, em termos literários, quando ele e sua mulher criam um roteiro a partir do próprio livro, cortando quase todas as melhores frases e palavras para deixar tudo nas mãos das imagens. Nas mãos das imagens! Eu realmente estava adorando todas aquelas frases que finalmente me acalmaram e, em momento de puro prazer, me fizeram cabecear. Juro, fizeram e foi tão bom dormir aqueles 5 culpados minutos para voltar com tudo para as ondas de frases do espanhol de Padura!
Aí, só porque eu sou bobão mesmo, tirei uma foto inútil no escuro, com o celular. Estava bom, foi uma grande palestra sobre o fazer literário. Parecida com a que Mia Couto proferiu anos atrás na mesma Ufrgs. Gostei do público. Não estava lotado e quase ninguém perguntou sobre a política de Cuba. Já estão chatas as perguntas da direita sobre se há liberdade por lá, etc. Foi só uma pergunta:
— Falando com tanta franqueza, criticando e amando Havana, como é sua relação com os governantes do país?
— Eu não sei o que eles pensam de mim.
E todos riram.
Para terminar: Padura leu sua palestra. Correto. Sei que a esmagadora maioria dos brasileiros gosta da oratória. Eu não. Na minha opinião, vir com um texto na mão é respeitar o público. Prefiro a coisa à europeia.