Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo

Sem sentimentalismos baratos, a narradora traz-nos capítulos breves que são como flashes, diapositivos do colonialismo e da vida colonial.

Por Almerinda Bento, no Esquerda

Um livro sem rodriguinhos (sentimentalismo barato, em português brasileiro), em que a narradora recorda a sua infância vivida em Moçambique até aos 13 anos e os seus primeiros tempos em Portugal, então já como retornada. Organizado em capítulos, alguns bastante breves e sincopados, são como flashes, diapositivos do colonialismo e da vida colonial.

As personagens centrais deste “Caderno de Memórias Coloniais” são o pai da narradora (uma menina branca) e a própria narradora. O pai é o homem que ela ama e que vai trair (verbo que usa várias vezes ao longo da narrativa) porque renega os comportamentos incompreensíveis, reprováveis e inaceitáveis que ele tinha para com os naturais daquele país de África. Um livro forte, directo, a descascar o complexo colonial de ocupação abusiva e de desrespeito pelo outro, porque o outro é de cor diferente, tem uma natureza inferior, era um animal. “Venham falar-me do colonialismo suavezinho dos portugueses… Venham contar-me a história da carochinha”, diz a narradora quase no final do livro.

Para além de ser um livro desassombrado e honesto, tem honras de prefácios de Paulina Chiziane e de José Gil, já eles dignos de serem lidos e aqui referidos. “Este livro trata das relações de género, do colonialismo e do nacionalismo. Poucas são as obras literárias que tratam destas questões com tanta profundidade.” escreve a escritora moçambicana. E continua: “ Estávamos eu e tu, cada uma no seu lado da barricada, quando o colonialismo aconteceu. Tu, branca, filha de um colono racista e eu, negra, filha de um colonizado, também racista.” Já José Gil assinala, a terminar: “Estas “memórias” são mais do que lembranças, são a própria vida, ontem-agora, a nossa vida de filhos de colonos (ou não) de Moçambique. Neste sentido, o “Caderno de Memórias Coloniais” de Isabela Figueiredo é mais do que um inventário romanceado de factos e acontecimentos: consegue exprimir-nos como se nós, leitores, tivéssemos todos atravessado o que autora experienciou. Nós todos somos “a pequena colona branca” com alma de preta, com a existência estilhaçada e o violento desejo de viver.”

Mas ainda antes dos prefácios, a autora dirige umas palavras prévias a quem a lê, explicando o porquê deste “Caderno”: “Não havia com quem falar sobre as coisas que me interpelavam, nomeadamente as que juntavam e separavam um ser humano de outro. Não existia essa linguagem nem discurso. Ninguém era capaz de me explicar.” (…) “O paradoxo reside no facto de só se ultrapassarem os choques de uma vivência, desenterrando-a, revolvendo os seus restos. O tempo silencioso apenas se abstém de produzir ruído.” (…) “A História enfrenta sempre esse grande óbice, que cabe aos investigadores ultrapassar: o silêncio sobre o que muito se calou ou escondeu. O que não honra. O lixo faz-se desaparecer, os cadáveres emparedam-se e tudo deixa de existir. Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.”

“O “Caderno de Memórias Coloniais” relata a história de uma menina a caminho da adolescência, que viveu essa fase da vida no período tumultuoso do final do Império colonial português. O cenário é a cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, espaço no qual se movem as duas personagens em luta: pai e filha. São símbolos de um velho e de um novo poder; de um velho mundo que chegou ao fim, confrontado por uma nova era que desponta e exige explicações. A guerra dos mundos em 1970.”

“Mas o “Caderno” transcende as questões de poder colonial, racial, social e de género, transformando-se, também, numa narrativa de amor filial conturbado e indestrutível.”

A linguagem é crua, capaz de escandalizar espíritos mais sensíveis. Aliás, o livro foi mal amado por muitos que se viram retratados, mas que não assumem as marcas odiosas do colonialismo e do racismo; mas também foi muito bem recebido “pela crítica, pela Academia e pelos leitores em geral”, tendo sido lido e estudado no mundo inteiro, com várias edições desde 2009, indo já na 9ª edição. Pretas e senhoras (mulheres decentes), pretos e brancos, havia uma clara separação e hierarquização, pelo que embora um branco pudesse casar com uma negra, uma branca assumir uma relação com um negro levaria à inevitável proscrição social. A estratificação estava claramente estabelecida: quem vendia na rua; quem tinha acesso só ao elevador de serviço para ir buscar o lixo do prédio; quem recebia as sobras; quem recebia roupa velha e rasgada; quem se sentava em determinados lugares no cinema e só naqueles.

A filha do electricista que observa tudo e que ouve as conversas do pai com os outros homens e que, quando é mandada para a Metrópole, com a incumbência de contar o que os pretos estavam a fazer aos brancos que só sonhavam transformar África numa Califórnia, sente que traiu o pai porque nunca foi capaz de o fazer. Ou de o fazer, como ele queria. A verdade é que “o tempo dos brancos tinha acabado.”

Há pois, nesta obra, um antes e um depois da independência. A menina branca, filha do colono racista, vai viver para a casa miserável da avó, vai ser a retornada gorda, vai sentir o desenraizamento e o desamor com que é olhada pelos portugueses da Metrópole.

Estes são breves traços do livro e da leitura que faço dele, mas acho que ele ainda fica mais rico com os prefácios com que Paulina Chiziane e José Gil brindaram este livro imprescindível para se fazer a história do colonialismo e racismo português.

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Estudiosos italianos descobriram a verdadeira identidade de Elena Ferrante?

Estudiosos italianos descobriram a verdadeira identidade de Elena Ferrante?

Elisa Sotgiu faz uma leitura de gênero e classe sobre um dos grandes mistérios literários de nosso tempo.

Traduzido por Milton Ribeiro. Daqui, ó

Quando Claudio Gatti publicou uma investigação sobre a identidade de Elena Ferrante, há alguns anos, ele levantou protestos na Itália e no exterior. Ele havia invadido a privacidade da autora e violado seu direito de permanecer anônima. Era injusto, era irrelevante, não queríamos saber.

Verdade? Sim e não. Havia uma conclusão importante no artigo de Gatti: quem escrevia os romances de Ferrante era a tradutora Anita Raja, uma mulher.

Isso foi um alívio. Se você não sabe como os acadêmicos e jornalistas italianos podem ser sexistas, fica difícil imaginar a importância do gênero de Ferrante para todos nós que estudamos seu trabalho ao longo dos anos. Antes mesmo de Minha Amiga Genial ser publicado, correram rumores de que a obra de Ferrante tinha sido de autoria de um homem, e eles se intensificaram após o sucesso dos romances napolitanos nos Estados Unidos. Lembro de meu orientador me contando sobre essas especulações quando comecei a trabalhar com Ferrante em 2015; nós dois zombamos da misoginia que esse tipo de fofoca implicava, sentindo-nos como se estivéssemos nas trincheiras de uma mini guerra cultural.

Portanto, quando me deparei com uma série de artigos acadêmicos que, por meio de uma análise estilométrica, identificaram Elena Ferrante como o romancista italiano Domenico Starnone (marido de Anita Raja), não estava pronta para depor minhas armas. Naquela época, eu não tinha lido nenhum dos romances de Starnone. Eu sabia que ele era um autor prolífico, que havia escrito bastante sobre o ensino médio e que seu longo romance semiautobiográfico sobre sua juventude em Nápoles, Via Gemito, ganhara o prestigioso Prêmio Strega. Mas eu realmente não me importava com ele. Quando confrontado com a ideia de que ele poderia ser o autor de meus amados romances napolitanos, meu primeiro impulso foi deixar essa informação de lado, não falar sobre ela, e nem pensar muito a respeito.

Eu não estava sozinha. Embora o primeiro desses artigos estilometricos, de Arjuna Tuzzi e Michele A Cortelazzo, tenha saído em 2018 — exatamente no momento em que as publicações internacionais sobre Ferrante se multiplicavam exponencialmente –, quase nunca era citado fora do campo das humanidades digitais. Nas raras ocasiões em que foi mencionado, foi rapidamente descartado: abordar o problema da identidade de Ferrante, ao que parece, seria bastante prejudicial para qualquer análise séria de seus escritos, na opinião de alguns estudiosos.

É uma boa prática entre os estudiosos de Ferrante declarar que, seja qual for o seu gênero, o que conta é que ela escolheu adotar a persona de uma mulher. Mas permanece o fato de que os críticos frequentemente (embora com reprovação) citam Gatti quando querem discutir as ideias de Anita Raja sobre tradução em relação a Ferrante, enquanto ignoram cuidadosamente Tuzzi, Cortellazzo, Jacques Savoy e os outros nove estudiosos que confirmaram que os estilos de Ferrante e Starnone costumam ser indistinguíveis. Rachel Donadio foi a única que tentou (com sucesso) comparar os romances de Ferrante e Starnone, mas o fez nas páginas do The Atlantic e do The New York Times, pois a comparação é um tabu na academia.

Comecemos do início, então, e vejamos que quadro de Ferrante esses artigos nos permitem traçar. Em primeiro lugar, é útil saber que Tuzzi e Cortellazzo montaram um grande corpus para suas análises: 150 romances de 40 romancistas italianos contemporâneos, equilibrados por gênero e origem regional. Este corpo de textos foi então usado por um grupo de especialistas internacionais que participaram de um workshop de verão na Universidade de Padova em 2017. Eles trabalharam de forma independente e com abordagens metodológicas diferentes, mas chegaram a conclusões semelhantes (os anais do workshop foram publicados pela editora da Universidade de Padova). Georgios Mikros, da Universidade de Atenas, por exemplo, usou o corpus textual para treinar um algoritmo (aplicativo) de aprendizado de computador para criar perfis de autores (ou seja, identificar seu sexo, idade e procedência) com um alto grau de precisão. Este algoritmo concluiu que a pessoa por trás de Elena Ferrante era um homem com mais de 60 anos da região da Campânia, onde fica Nápoles).

E aquele velho napolitano se parece suspeitosamente com Domenico Starnone: na representação visual do corpus de Maciej Eder e Jan Rybicki, os romances de Ferrante e Starnone ocupam o mesmo lugar marginal, distante da maioria dos outros textos e conectados a eles apenas pelos três primeiros romances de Starnone, que foram escritos entre 1987 e 1991. Em outras palavras, Starnone e Ferrante são autores altamente originais, diferentes de todos os outros escritores italianos, mas muito próximos um do outro.

No estudo de Margherita Lalli, Francesca Tria e Vittorio Loreto (Universidade La Sapienza de Roma), um algoritmo de compressão de dados atribui erroneamente Um Amor Incômodo, de Ferrante, a Starnone, e Excesso de Zelo, Via Gemito e A Primeira Execução, de Starnone, a Ferrante. Em sua introdução ao volume, Tuzzi e Cortellazzo também fornecem uma lista muito longa de termos e expressões que podem ser encontrados apenas (e frequentemente) nos escritos de Starnone e Ferrante, mas em nenhum trabalho de outro escritor.

Em seu último estudo, Tuzzi e Cortellazzo também nos permitem delinear uma evolução paralela no tempo: depois de seus primeiros romances relativamente convencionais, Starnone desenvolve um estilo muito reconhecível no início dos anos 1990. Entre 1992 e o início dos anos 2000, diferentes romances são publicados com os nomes de Ferrante e Starnone, mas todos parecem pertencer à mesma família: o romance de Ferrante de 1992 (Um Amor Incômodo) é semelhante aos romances de Starnone de 1993 e 1994 (Excesso de Zelo e Dentes), a Ferrante de 2002 e 2006 (Dias de Abandono e A Filha Perdida) são mais semelhantes ao Starnone de 2005 (Responsabilidade). Então, por volta da década de 2010, vemos um desenvolvimento estilístico: tanto Ferrante quanto Starnone adquirem um certo distanciamento de seus eus mais velhos. Os romances napolitanos são mais semelhantes entre si — compreensivelmente, já que são um longo romance dividido em quatro volumes — e com o romance de Ferrante de 2019, A vida mentirosa dos adultos. Além disso, os romances mais recentes de Starnone podem ser agrupados, pois suas características são mais marcadamente únicas.

Esses dados podem ser interpretados de diferentes maneiras. No início, parece claro que Starnone está usando o nome de Ferrante quando quer adotar uma narradora feminina em primeira pessoa, sem se preocupar em mudar sua voz característica. Mais tarde, ele pode ter trabalhado para uma diferenciação mais acentuada dos dois estilos — ou outra coisa pode ter acontecido. Talvez uma colaboração com Raja. Um autor, Rybicki, que teve experiência anterior em analisar os esforços de escrita de um casal, não exclui essa possibilidade. Tuzzi e Cortellazzo também mostram que os escritos de não ficção de Ferrante — aqueles reunidos no volume Frantumaglia –– não são tão estilisticamente coerentes quanto sua ficção. Seu algoritmo atribui os diferentes ensaios, cartas e entrevistas a três autores diferentes: Starnone, Raja e um autor coletivo que representa os proprietários e materiais de publicidade da editora E/O (a editora de Ferrante desde o início). Em todo caso, parece quase fora de dúvida que Starnone, sozinho ou em dupla com sua esposa sentou-se e datilografou os romances que foram publicados sob o nome de Elena Ferrante.

Mas esta é uma história que vai além de Starnone. Para quem se interessa, como eu, pela história cultural do nosso presente, a criação de Elena Ferrante é um caso notável.

No início da década de 1990, Domenico Starnone tinha contrato com uma das principais editoras italianas, a Feltrinelli, para a qual havia publicado três romances entre 1989 e 1991. Nesse ponto, começou a colaborar com a jovem e pouco conhecida editora a casa Edizioni E/O, onde sua esposa Anita Raja trabalhou como tradutora freelancer de alemão durante os anos 1980. No catálogo da E/O, o nome de Starnone aparece apenas entre 1991 e 1992. Ele escreveu um posfácio para uma coleção de contos de Mark Twain, um ensaio em um volume sobre literatura infanto juvenil, e Sottobanco, uma adaptação teatral de seu primeiro livro, o único que Feltrinelli não publicou. 1992 foi também o ano em que O Amor Incômodo, o primeiro dos romances de Ferrante, saiu pela E/O.

Sandro Ferri e Sandra Ozzola, os fundadores da editora, devem ter feito questão de manter Starnone entre seus autores, mas Starnone — talvez por causa de obrigações contratuais, talvez por escolha — decidiu continuar a publicar em seu nome real para a Feltrinelli e sob o pseudônimo de Ferrante para a E/O. Afinal, uma escritora estava mais de acordo com o projeto editorial de Ferri e Ozzola, e a escolha de Starnone de escrever como homem para uma editora de prestígio e como mulher para uma editora marginal era consistente com a estrutura do espaço literário italiano dominado por homens.

O segundo capítulo dessa história começa em 2005, quando Ferri e Ozzola fundaram a Europa Editions em Londres e Nova York. Sua missão — de publicar autores periféricos e servir como ponte entre diferentes nações e culturas — não encontrou muita ressonância na Itália, mas estava perfeitamente alinhada com o novo entusiasmo pela “literatura mundial” que estudiosos, críticos culturais e editores independentes compartilhavam no mundo anglófono. Para conquistar seu nicho neste mundo, Ferri e Ozzola decidiram apostar em Elena Ferrante: Dias de Abandono foi um dos dois livros que a Europa Editions publicou em seu primeiro ano, e todos os seus outros romances foram traduzidos para o inglês imediatamente depois que eles saíram em italiano.

Foi uma aposta vencedora, mas eles não tiveram apenas sorte. Se ser uma autora era uma desvantagem na Itália, era muito menos nos Estados Unidos. Na década de 2010 a 2019, as mulheres constituíram 60% dos autores selecionados e 60% dos vencedores do National Book Award for Fiction, 52% dos indicados e 60% dos vencedores do Prêmio PEN / Faulkner e 80% dos vencedores do National Book Critics Circle Award, só para citar alguns dos reconhecimentos mais importantes. Enquanto Ferrante levou seus leitores globais a uma “febre”, Domenico Starnone recebeu atenção da crítica nos Estados Unidos apenas com seu romance de 2014, Laços, que pode ser lido como uma sequência de Dias de Abandono, de Ferrante.

Não estou sugerindo que a invenção de Elena Ferrante foi apenas um empreendimento editorial astuto. Um pseudônimo feminino pode ter sido uma forma de evitar críticas: se você pesquisar no Google “escritores masculinos que escrevem personagens femininos”, os primeiros resultados (com títulos como “30 vezes que autores masculinos mostraram que mal sabem alguma coisa sobre mulheres” e “escritores masculinos não têm nenhuma ideia de como escrever sobre personagens femininos”) deixam claro que essa prática sofre de enorme má reputação. Escrever sobre gênero da perspectiva de uma mulher também poderia ter sido uma forma de chamar a atenção para a questão da dinâmica de classe e mobilidade social que muitas vezes esteve no centro da escrita de Starnone. Perto do final do Quarteto Napolitano, a protagonista Elena Greco diz que sem sua brilhante amiga Lila, toda a sua vida “seria reduzida apenas a uma batalha mesquinha para mudar de classe social”.

Poderia ser útil, então, redirecionar nossa atenção do assunto de gênero para o de classe. O último romance de Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos, tem pouco a acrescentar sobre a questão da identidade das mulheres. Especialmente no início, a história parece se repetir com pequenas variações a todos os tropos de Ferrante: a ideia de não ser nada além de “um nó emaranhado”, o apagamento de mulheres em fotos e na carne, a ideia de mães espiando através de suas filhas, a amizade feminina baseada na emulação e desejo de fusão, o ciúme e possessividade em relação à mãe, a sexualidade dos filhos. Frases de livros anteriores, e especialmente do Quarteto Napolitano, são repetidas quase inalteradas. A única diferença é que desta vez o ponto de vista parece ser o de uma reencarnação mais jovem de Lila em vez de outra Elena.

A principal novidade da história, ao contrário, é o que ela diz sobre classe social. Os romances napolitanos foram construídos na contraposição dos bairros proletários e subproletários de Nápoles ao centro da cidade burguesa. Uma ética de responsabilidade e realização educacional e um grande investimento em status eram as pedras angulares das crenças de Elena Greco. Em A Vida Mentirosa, porém, a protagonista Giovanna e seus amigos abraçam valores pós-materialistas e se atualizam: eles podem viajar livremente e ainda reconhecer a importância das periferias mais pobres de Nápoles, eles não se preocupam com boas notas, mas estão interessados ​​em ler e escrever como um meio de cultivar seu eu autêntico. Eles são a nova classe média cosmopolita e rejeitam as dicotomias de classe da geração mais velha.

Estudar os romances de Ferrante junto com os de Starnone pode nos tornar melhores leitores de ambos e abrir novos caminhos para os estudiosos. Mas reconhecer que Elena Ferrante é provavelmente um homem também pode mudar as coisas para pior. Ela nos serviu bem: as acadêmicas que se dedicam a estudos italianos de repente tiveram um ingresso confiável em conferências internacionais, revistas online, edições especiais, em editoras. Essas vantagens podem chegar ao fim. Mas isso não é motivo para ficar triste; Elena Ferrante ainda é um prazer de ler. E ela também é o maior mistério literário de nosso tempo.

.oOo.

Elisa Sotgiu é candidata ao doutorado em Literatura Comparada em Harvard. Ela estudou na Scuola Normale Superiore em Pisa e publicou sobre Edoardo Sanguineti, Henry James e Elena Ferrante.

Anita Starnone e Domenico Ferrante? Ou Elena Raja?

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Por que “Crônica da Casa Assassinada” é um clássico brasileiro (#27)

Por Carlos André Moreira

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Poesia, História e Suspense são as dicas da Bamboletras desta semana

Newsletter de 5 de abril de 2021

Olá!

As sugestões desta primeira terça-feira de abril são bem ecléticas. Confira abaixo.

Boa semana com boas leituras!

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Carta Aberta ao Demônio, de Ricardo Silvestrin (Libretos, 104 pág., R$ 32,00)

Carta aberta ao Demônio são 73 poemas de Ricardo Silvestrin divididos em quatro partes: Outro tempo, Outros cantos, Errata e Atribuído a mim. O livro ressoa os tempos distópicos em que vivemos, sem abrir mão do relato do horror. O Demônio, espécie de símbolo do tempo presente, é interpelado. Os versos vão da indignação à reflexão, do espaço íntimo à metalinguagem, da tristeza ao humor.

 

 

 

Porto Alegre, Cidade Baixa: um bairro que contém seu passado, de Renato Menegotto (Marcavisual, 136 pág., R$ 45,00)

A leitura de ”Porto Alegre, Cidade Baixa: um bairro que contém seu passado” é resultado de uma minuciosa e elaborada pesquisa do autor, apresenta-se como uma oportunidade ímpar de acesso à complexidade do bairro. Em um criterioso passeio pela história são desvendadas sua urbanidade e suas edificações, dando a conhecer verdadeiros documentos históricos.

 

 

O Enigma do Quarto 622, de Joël Dicker (Intrínseca, 528 pág., R$ 64,90)

Joël Dicker retorna com um mistério ambientado na Suíça. Em uma noite de dezembro, o sofisticado hotel Palace de Verbier, nos Alpes Suíços, é palco de um assassinato sem solução, já que a investigação do crime nunca é concluída pela polícia. Anos depois, o escritor Joël decide tirar alguns dias de férias e se hospeda nesse mesmo local. Lá, uma surpresa o aguarda: seu quarto é o 621 bis, a nova nomenclatura do agora estigmatizado 622, e a curiosidade o leva a mergulhar em uma investigação sobre o caso emblemático.

 

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Os livros mais vendidos em março na Livraria Bamboletras

Os livros mais vendidos em março na Livraria Bamboletras

Como de costume, segue a lista dos mais vendidos do mês de março na Livraria Bamboletras. Alguns títulos seguem na lista, mas o mês passado trouxe novidades!

1. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
2. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
3. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
4. As Inseparáveis, de Simone de Beauvoir (Record)
5. Marrom e Amarelo, de Paulo Scott (Alfaguara)
6. O ar que me falta, de Luiz Schwarcz (Companhia das Letras)
7. E fomos ser gauche na vida, de Lelei Teixeira (Pubblicato)
8. D’ale: Meus sonhos, meu futebol, minha vida, meu legado, de Diego Borinsky (Sulina)
9. A Estrangeira, de Claudia Durastanti (Todavia)
10. A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante (Intrínseca)

É claro que temos todos! É só entrar em contato ou vir até nossa porta!

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Ivana Jinkings, editora da Boitempo, sobre o tal tradutor de Marx:

Ivana Jinkings, editora da Boitempo, sobre o tal tradutor de Marx:

Caros, eu já expliquei algumas vezes o “Caso Rubens Enderle”, mas vamos lá uma vez mais. Rubens chegou à Boitempo há cerca de vinte anos, recomendado por uma professora marxista, de nossa inteira confiança. Ele era à época um jovem estudioso de Marx, com amplo conhecimento da língua alemã. traduziu boa parte da obra marxiana e também a de alguns marxistas, todos de forma competente e séria. Foi sempre elogiado pelos especialistas que melhor conhecem os dois idiomas. Ganhou o Prêmio Jabuti de melhor tradução com O Capital, livro I (prêmio raramente dado a livros de não-ficção) e diversas outras menções honrosas. Em determinado momento, creio que quando traduzia o livro II, passamos a ter noticias de manifestações dele nas redes sociais em favor de Olavo de Carvalho e outras causas indefensáveis. Num primeiro momento, não demos atenção a elas, afinal importava que ele era um bom tradutor. Mas a coisa cresceu, se agravou (tenho apenas noticias, nunca vi nenhuma de suas postagens, nem pretendo) a ponto de decidirmos não mais contratá-lo para novas traduções, por suas posições ferirem nossa linha e posicionamentos públicos. Isso, entretanto, não significa que qualquer de seus trabalhos devam ser colocados em dúvida. O que ele traduziu foi bem feito e seguirá em nosso catálogo. Agradeço se puderem transmitir esta explicação quando e se esse assunto voltar à baila. Obrigada e abraços.

A editora Ivana Jinkings

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As surpreendentes sugestões da Bamboletras desta semana

Newsletter de 29 de março de 2021

Olá!

Basta ler as sinopses abaixo para se notar estamos diante de três livros muito originais. Mas há muito mais. Consulte-nos! Fique à vontade para compartilhar esta newsletter com outras pessoas, e faça seu pedido com a gente!

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O Som do Rugido da Onça, de Micheliny Verunschk (Cia. das Letras, 166 pág., R$ 54,90)

Em 1817, Spix e Martius desembarcaram no Brasil com a missão de registrar suas impressões sobre o país. Três anos e 10 mil quilômetros depois, os exploradores voltaram a Munique trazendo consigo não apenas um extenso relato da viagem, mas também um menino e uma menina indígenas, que morreriam pouco tempo depois de chegar em solo europeu. Em seu quinto romance, Micheliny Verunschk constrói uma poderosa narrativa que deixa de lado a historiografia hegemônica. Com uma prosa embebida de lirismo, este é um livro sem paralelos na literatura brasileira ao tratar de temas como memória, colonialismo e pertencimento.

Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro (Cia. das Letras, 336 pág., R$ 59,90)

Do ganhador do Nobel Kazuo Ishiguro, autor dos livros ‘Não me abandone jamais’ e ‘O gigante enterrado’, um novo romance sobre o que significa ser humano. Klara tem habilidades de observação impressionantes e estuda com cuidado o comportamento de todos que passam pela vitrine. Do lugar onde foi designada para ficar na loja, ela espera que uma dessas pessoas a escolha como companheira. Contudo, quando surge a possibilidade de sua vida mudar para sempre, Klara é aconselhada a não apostar suas fichas na bondade humana.

 

A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida (Todavia, 88 pág., R$ 49,90)

Com esta meditação sobre o bem e o mal, e como a natureza parece indiferente à nossa moralidade, Djaimilia Pereira de Almeida construiu um romance que encanta pela beleza de suas frases e fascina pela profundidade com que Celestino, este homem a um só tempo brutal e delicado, é desenhado. Um livro arrebatador.

 

 

 

 

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Um Nobel, um gaúcho e um ensaio fundamental nas sugestões desta semana da Bamboletras

Newsletter de 22 de março de 2021

Olá!

Estas são as nossas sugestões desta terça-feira, mas há muito mais. Consulte-nos! Fique à vontade para compartilhar esta newsletter com outras pessoas, e faça seu pedido com a gente!

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Morte na Água, de Kenzaburo Oe (Cia. das Letras, 456 pág., R$ 99,90)

Conhecido pela profunda humanidade de seus personagens, Kenzaburo Oe (Nobel de Literatura de 1994) é um dos principais romancistas contemporâneos. Em “Morte na Água”, acompanhamos o escritor Kogito Chōkō — alter ego do próprio Oe — em sua busca de inspiração para seu próximo livro, que o leva de volta à sua cidade natal em busca de informações que expliquem melhor a morte de seu pai. A intenção de Kogito é escrever um romance a partir do que coletar, mas ele acaba se vendo em meio a questões muito mais complexas que envolvem desde traumas pessoais até descobertas que remontam à Segunda Guerra Mundial.

A Nota Amarela, de Gustavo Czekster (Zouk, 238 pág., R$ 50,00)

A cellista Jacqueline du Pré sobe ao palco para o concerto mais emblemático de sua vida. Enquanto executa o Concerto para Violoncelo de Elgar – regido pelo maestro Daniel Barenboim, com quem recém havia se casado –, Jacqueline mergulha no labirinto da própria mente, atravessando claridades e escuridões à procura da perfeição. O cello, vivo junto ao corpo, por vezes é a tábua de salvação que a impede de se afogar; por outras, o traidor que aponta o caminho mais perigoso entre as pedras e as ondas. O livro cumpre uma das mais importantes funções da literatura: trazer a palavra para dentro do vazio das imagens. Depois daquela tarde em 1967, a violoncelista mais famosa do mundo, que tocava para reis e presidentes, entenderia as consequências de sua busca pela nota impossível.

A Era do Capitalismo de Vigilância, de Shoshana Zuboff (Intrínseca, 800 pág., R$ 99,90)

Obra-prima em termos de pensamento original e pesquisa, “A era do capitalismo de vigilância”, de Shoshana Zuboff, apresenta ideias alarmantes sobre o fenômeno que ela nomeia capitalismo de vigilância. Os riscos não poderiam ser maiores: uma arquitetura global de modificação comportamental ameaça impactar a humanidade no século XXI de forma tão radical quanto o capitalismo industrial desfigurou o mundo natural no século XX. Zuboff chama a atenção para as consequências das práticas de empresas de tecnologia sobre todos os setores da economia. Um grande volume de riqueza e poder vem sendo acumulado em sinistros “mercados futuros comportamentais”, nos quais os dados que deixamos nas redes são negociados sem o nosso consentimento e a produção de bens e serviços segue a lógica de novas “formas de modificação de comportamento”. A ameaça não é mais um estado totalitário simbolizado pelo Grande Irmão da literatura de George Orwell, mas uma arquitetura digital presente em todos os lugares, agindo em prol dos interesses do capital de vigilância.

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À maneira de Borges

À maneira de Borges

Uma sociedade fascinada pela urgência da novidade precisa reavaliar nuances e detalhes.

Por JOSE ANDRES ROJO, no El País

Não é um momento de sutilezas, nada é propício para reforçar nuances, a se deter nos detalhes, desfrutar da imensa variedade de coisas. O que se impõe hoje é colocar as mãos no esterco, construir um registro de ofensas, brincar de ser vítima permanente de uma conspiração remota, procurar aliados para se fortalecer em uma batalha que se trava entre as trevas e os claros. Por isso é estimulante conhecer o Professor Borges e meter o nariz em seu Curso de Literatura Inglesa na Universidade de Buenos Aires, que desembarcou nas livrarias no ano passado e que lembra algumas aulas que deu em 1966. Jorge Luis Borges, já cego, se oferece como guia para explorar alguns momentos que o emocionaram, e tenta explicar o que lhe aconteceu quando foi cativado por uma frase, um fragmento, os sons de uma língua, suas expressões. “É como se ouvíssemos o barulho das espadas, o golpe das lanças nos escudos, o tumulto dos gritos na batalha”, diz ele a seus alunos ao lidar com os poemas épicos que os anglo-saxões escreveram na Idade Média.

Borges tem se mantido como referência dos mais sofisticados e elitistas, como quem faz parte do denso e severo mundo das biblioteca e que perdeu qualquer contato com a vida. Descobriu-se então que era um cara que se misturava com o barulho de sua época, que divulgava boa parte de seus textos em publicações para o grande público, que gostava muito do que acontecia na rua, que gostava de andar. e bisbilhotar os assuntos do dia-a-dia. Ele dava a máxima atenção aos subúrbios, aos duelos de faca, às armadilhas das favelas, ao lado mais selvagem daquela Buenos Aires que crescia de forma caótica. E, bem, sempre havia o outro. Aquele que percorre toda a extensão de todas as culturas ao longo dos séculos, e que o faz como se fosse contemporâneo de um velho sábio chinês, de um escocês esclarecido, do próprio Cervantes.

“Tigres, labirintos, duelos, ruas, livros, séculos, vozes”: tudo está à disposição de Borges para construir sua literatura, afirma o escritor argentino Alan Pauls em livro que publicou anos atrás – O fator Borges – e que talvez constitua o melhor ferramenta para voltar a mergulhar em seus trabalhos. A certa altura, ele se pergunta se não é nada mais do que um artista de cópias e falsificações. “Ler, glosar, revisar e traduzir são apenas algumas formas óbvias desse parasitismo”, ressalta. “É como se escrever fosse isso, nada mais e nada menos que isso: mover coisas, cortar e colar, extrapolar e enxertar, desalojar e recolocar, expatriar e enraizar, separar e inserir”.

“Tento passar o mais despercebido e invisível que posso; Talvez a única maneira de passar despercebido seja se vestir com um pouco de cuidado, certo? ”, Disse ele em entrevista. No meio do barulho e quando tantos esticam o peito para rasgar a roupa, talvez seja útil operar à maneira de Borges. Torne-se invisível e possa ouvir “o golpe das lanças nos escudos”.

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Se você ler as sinopses, vai querer

Newsletter de 15 de março de 2021

Olá!

Um livro de cartas escritas por uma doméstica antilhana para a brasileira Carolina Maria de Jesus no início dos anos 60, uma biografia da Depressão e um caso de violência sexual ocorrido no Rio de Janeiro. Podem não ser temas fáceis, mas o que está fácil?

Estas são as nossas sugestões desta terça-feira, mas há muito mais. Consulte-nos! Fique à vontade para compartilhar esta newsletter com outras pessoas, e faça seu pedido com a gente!

Boas leituras!

Cartas a uma Negra, de Françoise Ega (Todavia, 252 pág., R$ 59,90)

Antilhana, Françoise Ega trabalhava em casas de família em Marselha, na França. Um de seus pequenos prazeres era ler a revista Paris Match, na qual deu de cara com um texto sobre Carolina Maria de Jesus e seu clássico “Quarto de Despejo”. Identificou-se imediatamente e passou a escrever “cartas” — jamais entregues — à autora brasileira. Cartas a uma Negra, publicado postumamente, é um dos documentos literários mais significativos e tocantes sobre a exploração feminina e o racismo no século 20.

 

Uma Biografia da Depressão, de Christian Dunker (Paidós, 240 pág., R$ 41,90)

A Depressão tem uma história, e a compreensão dessa história nos ajuda a descobrir a melhor forma de entendê-la, tratá-la e controlá-la hoje. Refazendo os passos genealógicos da Depressão a partir de seus parentes distantes nas famílias da tristeza e da melancolia, Dunker descreve como ela se tornou um personagem decisivo na Idade Moderna, notadamente com os grandes trágicos da virada do século XVI e XVII, como Shakespeare e Molière, e como ela emergiu como personagem secundário na psicopatologia do século XIX e na psicanálise do século XX, ganhando um inesperado reconhecimento a partir da segunda metade do século passado.

Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy (Todavia, 110 pág., R$ 54,90)

Estamos em 2014. Euforia no Brasil e especialmente na cidade do Rio de Janeiro. A Copa do Mundo estava prestes a acontecer e as Olimpíadas de 2016 estava no horizonte. Tempos de esperança e construção. Júlia é sócia de um escritório de arquitetura que está planejando alguns projetos na futura Vila Olímpica. No dia de uma dessas reuniões com a prefeitura, Júlia sai para correr no Alto da Boa Vista. A certa altura, alguém encosta um cano de revólver na sua cabeça e a leva para uma área baldia. É estuprada. O rosário de dor é descrito com crueza e qualidade literária.

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Um ateu (já que hoje é o Dia do Bibliotecário)

Um ateu (já que hoje é o Dia do Bibliotecário)

dia-de-santa-luziaJá se passaram muitos anos desde aquela vez em que fui expulso de uma instituição católica de ensino. O motivo me deixa tranquilo. A ferida interna que ficou, não.

A tal instituição é uma tradicional escola particular porto-alegrense. Um colégio que pode receber quaisquer alunos, mas que tem a característica de, há muitos anos, manter turmas para deficientes visuais. Está preparada para a missão e tem professores especializados. Eu ficava no meu canto, tranquilo, na biblioteca. Gostava de lá e era bastante amigo da bibliotecária que trabalhava à tarde. Ela conhecia seu ofício e era a responsável pela Hora do Conto. Conversávamos antes de ela contar as histórias e lendas para as crianças pequenas, despertando-lhes o interesse com seu talento. Ela também costumava pressionar a bibliotecária titular para que esta cumprisse seus horários de forma a que pudéssemos recolocar mais rapidamente para empréstimo os livros que retornavam e os que chegavam. Chegava muita coisa boa. Eu carimbava os livros, colocava-lhes etiquetas e ajudava na restauração dos muitos que voltavam quase destruídos da casa de crianças e pais descuidados. Quando vieram as férias dos alunos, fui deslocado para a digitação. O que se digitava lá? Ora, livros. Digitávamos os livros que depois seriam impressos em Braille para os deficientes visuais.

Então, em julho, me passaram o livro Porteira Fechada, de Cyro Martins. Ele já fora digitado até a página 50 e faltavam 103. Como tratava-se de leitura obrigatória para o Vestibular da UFRGS, havia a necessidade de passá-lo com urgência para Braille. Era uma atividade que me dava prazer. É um excelente livro, conta uma boa história e dei o meu melhor. E então começaram os problemas.

Conversei com a funcionária que receberia meu trabalho e ela ficou encantada com minha disposição de não apenas terminar a digitação de cada página, como com minha vontade de revisar as 50 páginas iniciais que eu constatara estarem cheias de erros. Haviam permanecido erros de pontuação e palavras não corrigidas, apesar da gritaria do corretor ortográfico do Word. Na curta biografia de Cyro que abre o volume, as únicas letras maiúsculas eram as que iniciavam as frases. O nome dos pais de Cyro, o de sua cidade, o das universidades onde estudou, o das cidades por onde andou, o nome de seus amigos, etc. estavam todos em minúsculas. Pior: como em Braille não há itálicos, os nomes das obras do autor teriam que figurar entre aspas. E não havia aspas no texto. Tinha até uma frase onde parecia que Estrada Nova era parte da frase e não nome de um romance de Cyro. Eu mostrei tudo aquilo para a responsável e ela então pediu que eu fizesse a revisão completa. OK, sem problemas, tinha tempo de sobra.

Quando relatei os acontecimentos para minha chefe, uma religiosa, ela disse que a responsável pelo Braille estava querendo que eu fizesse um trabalho que era de outro setor, não do meu. Completou dizendo que se tratava de uma inútil. Sinceramente, não me parecera. De forma débil, pois sei que tudo o que não tinha lá era “espaço”, “direitos” e “poder”, solicitei educadamente fazê-lo, pois o nome do digitador vai na capa da obra e será lido tanto por quem o vê quanto por quem o lê com as mãos. Ela recusou terminantemente. Disse-me que eu estaria fazendo o trabalho que um setor coalhado de preguiçosos (expressão dela) não fazia. Esta religiosa é uma patética personagem de romance: uma espécie de faz-tudo que anda entre os setores supervisionando o trabalho de cada funcionário, espalhando sorrisos e pequenas maldades. Seu problema era o de ser acatada apenas por quem precisava acatá-la: pelos que tinha medo dela. O restante, os funcionários, riam da figura ou simplesmente a ignoravam. Em quatro meses, nunca tivera nenhum problema. Aquele era o primeiro e não era grave.

Decidi fazer a revisão em casa e entreguei o arquivo ao setor de Bralle num final de manhã através de outra pessoa, para que a freira não tivesse a oportunidade de questionar nada. O meu nome estaria lá, pô. Por volta daquele dia, a freira faz-tudo anunciou que estava estressada — puxa, estressada é tudo o que ela NÃO parecia — e que iria para um retiro. Os tais retiros são motivos de piada entre os funcionários. Quando um religioso se incomoda, ser superior que é, vai para uma espécie de Spa de Cristo; quando o mesmo acontece com um funcionário, ele segue trabalhando. Acontece muito neste gênero de empresas livre de impostos, administradas por deus: quando ninguém suporta mais uma freirinha, ela vai para um retiro e depois é destinada a um novo paradeiro, de onde será novamente chutada entre padre nossos. Certamente ela estava de malas prontas, pronta a enobrecer com suas fofocas a obra de deus em outras plagas, mas antes tinha que me sacanear.

E, antes de viajar, ela, que sempre vinha conversar sorridente comigo, subitamente me acusou de trabalhar em outros “arquivos”. Quis responder, mas ela me mostrava sua mão espalmada, sinal inequívoco de “Não quero ouvir”. Então, eu calava. Sim, era verdade, ela tinha razão, eu mexia em outros arquivos. É que o pessoal do Braille me perguntara se eu poderia apressar a digitação de Os Sertões, de Euclides da Cunha, que já andava lá pela página 300 com outra pessoa. Eu vira a qualidade da digitação já realizada e sabia que era apenas razoável, principalmente em razão da dificuldade e da aridez do texto em muitas partes. O que fiz? Busquei o livro inteiro no Portal Domínio Público. Busquei a mesma edição digitada, pois o pessoal do Braille me alertara que a transcrição tinha de ser similar ipsis litteris igualzinha cara de um focinho de outro à edição que a escola possuía. Eu queria repassar aos cegos a melhor cópia possível. E que eu fazia com meu pecaminoso arquivo disponibilizado pelo Governo Federal em seu site? Ora, procurava passar o “.pdf” para “.doc” a fim de deixar Os Sertões no formato ideal antes de ir para a impressora Braille. Ficou logo pronto, com suas letras grandes, com underline no lugar dos travessões das falas, travessões onde havia travessões, etc.

Como punição por me preocupar com a qualidade da leitura dos cegos, fui devolvido à Biblioteca. OK, problema nenhum. Lá fui eu, bovinamente. No dia seguinte, recebi a folha de avaliação. Havia várias perguntas e um espaço para que pudéssemos dar nossas opiniões. E então, certamente por raiva, cometi um erro grave. Expliquei o que fizera para o setor de Braille. Falei de Euclides e seus adjetivos arrevesados. Escrevi sem nenhuma ironia, cheio de boas intenções. Uma hora depois, a freirinha voltou com a folha na mão. Sua primeira pergunta foi inacreditável. Ela perguntou sobre minha crença em deus. Mesmo sabendo que meu trabalho era bom e necessário, sabia que me atirava no precipício ao responder: sou ateu. Fui bruscamente solicitado a me retirar dali para sempre.

Nos dias seguintes, recebi diversas ligações do setor de Braille. Queriam que eu voltasse. Eu disse que tinha sido expulso. Fodam-se os cegos, né? Obedeça-se a quem acha a disciplina formal mais importante do que a disciplina cabal de fazer as coisas. Três meses depois, a funcionária do setor de Braille ainda queria que eu voltasse, principalmente porque a freirinha tinha sido finalmente transferida, mas já estava outra em seu lugar que… Já sabia que eu era ateu. Como a responsável pelo setor de Braille também era, mas não dizia.

(Meus sete leitores, digo-lhes: que romance não daria a vida naquele inferno com Cristo, quanto ciúme, quantas querelas, quantos olhares… E quanto conforto, meu deus! Deveria pensar mais nisso e dedicar o resultado às manas servas de deus!).

Obs.: Texto revisado hoje. Prova de que ainda é um problema.

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Newsletter de 8 de março de 2021

As Inseparáveis, de Simone de Beauvoir (Record, R$ 39,90)

Quase 70 anos depois de ser escrito, chega ao Brasil o romance inédito de Simone de Beauvoir. Escrito em 1954, cinco anos após a publicação de O segundo sexo, As inseparáveis é o romance autobiográfico que conta a história da amizade passional que uniu Sylvie (Simone de Beauvoir) e Andrée (Élisabeth Lacoin, a Zaza). Sylvie e Andrée se conhecem aos 9 anos no colégio Desir, numa Paris em meio à Primeira Guerra Mundial. Andrée é divertida, impertinente, audaciosa; Sylvie, mais tradicional e tímida, logo se sente irremediavelmente atraída por ela. No entanto, por trás da postura rebelde, Andrée tem de lidar com uma família católica fervorosa que, com suas tradições muito rígidas e ambiente opressor. Juntas, elas trilham o caminho para se libertar das convenções de sua época e das expectativas asfixiantes, mas não fazem ideia do preço trágico que terão de pagar pela liberdade e pelas ambições intelectuais e existenciais.

Necropolítica, de Achille Mbembe (N-1, R$ 44,00)

«Neste ensaio, propus que as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e terror. Tentei demonstrar que a noção de biopoder é insuficiente para dar conta das formas contemporâneas de submissão da vida ao poder da morte. Além disso, propus a noção de necropolítica e de necropoder para dar conta das várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar “mundos de morte”, formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”. — Achille Mbembe

As 29 Poetas Hoje – Org.: Heloísa Buarque de Holanda (Cia das Letras, R$ 69,90)

Quarenta e cinco anos depois do lançamento de 26 poetas hoje — antologia que marcou época e se tornou um documento incontornável dos anos 1970 ―, Heloisa Buarque de Hollanda se perguntou: quem está fazendo a poesia de agora? Ao se dar conta da surpreendente presença das mulheres, cada uma com sua dicção e seu estilo, Heloisa reuniu vozes de uma geração pulsante e combativa, que impressiona pela força, pela coragem e pelo talento. “As 29 poetas hoje” é uma antologia que fala sobre identidade, sexo, amor, fúria, política e o Brasil de agora.

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Pois é, vou publicar um livro

Na minha fantasia, no dia em que eu quisesse publicar um livro, escolheria uma editora e seria aceito imediatamente. Na primeira reunião já discutiríamos a capa.

Só que eu nunca mandava nada para nenhuma editora. A Elena insistia para que eu fizesse logo.

Mandei.

Nossa, é tão bom quando as fantasias se cumprem. Deve sair lá por julho ou agosto.

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Não abrir os olhos, de Alfredo Aquino

Não abrir os olhos, de Alfredo Aquino

Este é um romance sobre a atual pandemia. Conta a história de A., que tratava de permanecer em segurança, fazendo suas poucas interações sociais com cuidado, vigiando e fazendo compras para sua mãe até… Até aceitar ir a uma festa e contrair o Covid. A descrição do medo, das sensações e da postura — o título refere-se ao fato de que A. é aconselhado a permanecer o maior tempo possível sentado, mas resolve ficar de olhos fechados para armazenar forças — indicam que se trata de um caso real.

Creio que o autor Alfredo Aquino seja A. e que tal fato valorize o livro. Afinal, tudo bate. Conheço-o pessoalmente. Pessoa agradável, tranquila, de muitos amigos, pintor, escritor e editor, para quem o conhece fica a forte impressão de que uma experiência pessoal está sendo contada. Repito que este fato apenas enriquece o livro, pois todo o processo, pré e pós, é narrado em detalhes, misturados à vida interior do personagem. Que também é interessante, pois ele tem planos e, fundamentalmente, quer seguir vivendo.

Não abrir os olhos (Ardotempo, 96 páginas, R$ 40) não vale apenas pela descrição da doença, mas também pelo contato com um autor interessante e equilibrado, mesmo em pleno jogo de xadrez com a morte, fazendo balanços do que foi sua vida e observando a evolução daquilo que lhe poderia ser fatal. Aquino também coloca-se na ponta-de-lança dos relatos de covid, pois acho que virá um oceano deles nos próximos meses.

Um livro exemplar. Recomendo.

Alfredo Aquino, por Alfredo Aquino

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Newsletter de 1º de março de 2021

Lupa da Alma, de Maria Homem (Todavia, R$ 30,00)

A pandemia tornou as crises mais agudas. As emoções parecem estar à flor da pele. Se estávamos buscando formas de mantê-las sob controle, ou sob anestesia, agora parecem ter obtido um passe livre para circular sem tanta repressão. Como não escutar esse caos que parece explodir em forma de revelação? Este livro explora o impacto do vírus em diversas esferas da vida: amor, ódio, família, amigos, trabalho, morte. Com a verve e a inteligência que fizeram dela uma das psicanalistas brasileiras de maior projeção nos últimos anos, Maria Homem oferece alento nesse momento de incerteza e examina formas de angústia que falam direto ao lado sombrio de cada um de nós.

 

Tupinilândia, de Samir Machado de Machado (Todavia, R$ 82,90)

No início dos anos 1980, com o Brasil rumando para a abertura política, um industrialista constrói em segredo um parque de diversões. Batizado de Tupinilândia, funcionaria como uma celebração do nacionalismo e da nova democracia que se aproximava. Porém, durante um fim de semana em que se testavam as operações do parque, um grupo de militares invade o lugar e faz funcionários e visitantes de reféns. Duas décadas depois, um arqueólogo obcecado pelo mito de Tupinilândia, chega com sua equipe e descobre um terrível segredo. A partir daí as duas pontas do romance se unem numa aventura literária pelo passado recente do Brasil e pela memória dos anos 1980.

Salientamos que seguimos trabalhando. Entregamos as encomendas por moto e bicicleta para as regiões mais próximas, além de enviar via Correios para o Brasil inteiro!

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O Fim (Minha Luta 6), de Karl Ove Knausgård

O Fim (Minha Luta 6), de Karl Ove Knausgård

Foi mais de um mês de leitura, houve um momento em que me irritei com a insistência do autor em abandonar seus personagens para partir em longas digressões, mas foi por pouco tempo. Depois, lá pela página 700, não aguentava mais ver a capa do livro nem carregar suas mais de mil páginas na mochila para cá e para lá, pois leio muito em cafés e parques, só que cada vez que o abria ficava feliz em lê-lo. Sim, Knausgård me dobrou e não apenas à coluna.

Quatro anos após a publicação de A Descoberta da Escrita, volume 5 de Minha Luta, a sexta e última parte da hexalogia chegou ao Brasil em dezembro. A Companhia estava nos devendo. Por que demorou tanto não está claro, apesar do fato de serem 1049 páginas. De qualquer maneira, valeu a espera. Eu, a cada romance de série, ficava preocupado se o livro me sugaria novamente. O que mais Knausgård poderia dizer sobre si mesmo? Quantos cigarros e cafés ele ainda consumiria? Bem, dizer que são muitos não é dar spoiler.

Vamos a O Fim. Knausgård havia escrito dois volumes de Minha Luta e estava prestes a começar a trabalhar no terceiro quando o primeiro — A Morte do Pai — foi publicado. Como tratava-se de uma autobiografia muito franca e na qual todos os personagens — parentes, amigos e colegas — , eram retratados com seus nomes verdadeiros, ele resolveu enviar o primeiro romance a cada um dos citados no livro. E aqui ele começa a registrar knausgårdianamente a rixa familiar e a crise autoral desencadeada. Seu tio o acusou de inventar coisas no romance. Isso normalmente não seria uma cobrança que incomodaria a um escritor de ficção. Porém, neste caso, o autor tinha se empenhado em escrever a “verdade”, não apenas a versão emocional dela, mas também o factual, a versão real. “O objetivo do romance”, escreve ele, “era retratar a realidade como ela era”. E a insistência do tio de que Knausgård havia inventado material para embelezar sua história (que mais tarde se revelou uma falsa acusação) o fez questionar sua própria memória e motivações, o que causou uma espécie de dúvida paralisante.

O tio Gunnar, irmão de seu pai, respondeu à cópia do livro que Knausgård lhe enviou com um e-mail intitulado “Estupro verbal”. Sua raiva e determinação em bloquear a publicação deixaram seu sobrinho perturbado, até porque sua fé em suas próprias lembranças dos eventos foi abalada. Enquanto Knausgård se preocupa e chama seu editor, ainda deve levar a vida fritando bolos de peixe para o chá de seus três filhos e certificar-se de que eles assistam ao episódio de Bolibompa do dia.

Cada fralda trocada, cada cigarro fumado na sacada, cada xícara de café derramado é a invasão da vida normal que distrai da bagunça interior. Ele sabe disso, nós sabemos disso; e ficamos presos a ele.

A descrição de Knausgård dessa crise — seu nervosismo, a forma implacável com que ele repassa os eventos repetidas vezes, seu esmagador senso de transgressão e vergonha — é fascinante. Ele está disposto a expor não apenas seu medo visceral, mas também sua falta de cálculo e de premeditação. Sua falta de jeito…

Isso e o intenso debate público a que o livro foi submetido na Noruega levaram Knausgård a ser mais contido — e, portanto, menos verdadeiro — nos volumes três, quatro e cinco. Mas em O Fim, ele garante estar determinado a contar as coisas como elas são, independentemente dos custos sociais.

Um aspecto dessa ousadia renovada é um ensaio de 400 páginas sobre a vida, os pensamentos e o apelo de Adolf Hitler. Você pode perguntar onde isso se encaixa nas angústias de um romancista pai de três filhos que mora em Malmoe. É complicado, embora Knausgård tenha tomado o título de sua série das notórias memórias do líder nazista. Mais importante, o norueguês é um romântico declarado, alguém que se sente desconfortável com algumas hipocrisias racionalizadas de uma sociedade moderna que exalta os valores da igualdade enquanto privilegia de forma flagrante as desigualdades de nascimento e da beleza física, por exemplo.

Em algum lugar dentro dele está também o desejo purificador sobre o qual Hitler construiu seu culto ultranacionalista, apoiado por muitos que deveriam saber melhor, incluindo Heidegger. Knausgård explora essa tradição intelectual e busca entender como o desejo por autenticidade resultou no genocídio industrializado e nos maiores horrores do século XX.

Depois de algumas centenas de páginas de vida familiar e drama, o escritor se afasta de seus assuntos domésticos, levando-nos em outra direção. O ritmo febril diminui à medida que nos familiarizamos com trechos um pouco mais sofisticados, com grande nacos de reflexões filosóficas despejadas no meio do romance. No início desta seção, temos uma longa passagem sobre um curto poema de Paul Celan , cinquenta páginas de análise de parte de um homem que diz, ironicamente, que realmente não entende de poesia. Aqui Knausgård começa a explorar o contraste entre o individual e o coletivo, com foco em um poema ambientado em um deserto escuro, onde pessoas e nomes são escassos.

Mas o autor não está perdido. O elefante na sala é o Holocausto, e é nesse ponto que ele finalmente conecta seus temas. Grande parte desta seção intermediária é dedicada a resumir Mein Kampf, mostrando a ascensão de Hitler da obscuridade austríaca provinciana a líder de uma nação e de um povo, além de maestro de um dos maiores crimes da humanidade. É bastante perturbador ler sobre Hitler como pessoa, muitas vezes em suas próprias palavras. Knausgård tenta cobrir a vida de Hitler objetivamente, recusando-se a ver vestígios do mal onde nenhum é evidente, e critica os historiadores que sentem a necessidade de demonizar cada ação realizada em seus primeiros anos.

É um trecho intenso e exigente para o leitor. Apesar de toda a sua leitura atenta de Hitler e de seus vários historiadores — sua crítica ao trabalho de Ian Kershaw vai muito além de uma nota de rodapé –, ele nunca consegue realmente entender a origem ou o crescimento do antissemitismo demente do ditador, mas tateia bastante sobre isto e a cultura geral europeia, tão afeita a este conceito.

Talvez o tamanho do empreendimento seja grande demais para estar contido dentro de uma narrativa da luta de um escritor. A provocativa ironia do título torna-se, em vez disso, um estudo comparativo de duas pessoas meio alienadas — um que continua a escrever um livro aclamado pela crítica e o outro que é responsável pela morte de dezenas de milhões.

Claro que o desequilíbrio é evidente. A série de livros não matou ninguém nem mobilizou a humanidade. Ainda assim, Knausgård deve ser aplaudido por mostrar que o grande mistério da era moderna — a descida da Alemanha à loucura genocida — não é uma questão de “eles”, mas de “nós”. É claro que somos nós, todos nós, como sociedade, que elegemos ou damos chances aos monstros genocidas.

E nunca esse “eu” é anunciado de forma mais enfática do que na crítica de Knausgård a sua autoficção e, em particular, às consequências dela na vida real de outras pessoas. Isso cria um tipo estranho de feedback, no qual o autor se censura por suas intrusões anteriores na privacidade de outrem enquanto, simultaneamente, invade mais uma vez.

O exemplo mais perturbador é com Linda, sua segunda esposa, sobre quem ele escreveu em termos frequentemente negativos no volume dois, Um Outro Amor. Bipolar, com três filhos pequenos e lutando contra uma falta crônica de confiança como escritora, Linda sofre um colapso nervoso e acaba em um hospital psiquiátrico por vontade própria. No entanto, enquanto se tortura pela insensibilidade de suas descrições anteriores, Knausgård mais uma vez submete sua esposa a um olhar nada lisonjeiro, criando a imagem de uma mulher capaz e amada, mas indolente, tentando constantemente cortar a liberdade do autor para escrever.

A vida de Knausgård é monótona e exigente. É também bastante pobre em beleza. A cada dia, ele tenta preservar seu tempo de escrita enquanto zelosamente prepara o café da manhã para seus filhos, levando-os para o jardim de infância, fazendo compras e preparando-se para a publicação do primeiro volume de Minha Luta. Os arrebatadores primeiros dias de seu relacionamento com Linda deram lugar a uma leve irritação com a divisão dos deveres domésticos, e talvez seu confidente mais próximo seja seu amigo Geir (um dos vários Geirs no livro, isso pede que o leitor preste atenção).

Como Knausgård reconhece, a complexidade da vida permanecerá além do documentador mais escrupuloso. No entanto, a vida e a arte sempre se misturam, criando as gloriosas diferenças entre experiência e representação. Escrever sobre a vida, como observa Knausgård, foi seu meio de escapar à vida. Porém, quanto mais ele escreve sobre sua vida, mais ele é aprisionado pela autoconsciência que a empreitada exige.

No final do livro, podemos sentir seu desespero crescente para terminar a tarefa. Na página final, ele promete que nunca mais “fará algo assim” com Linda e as crianças. Seja qual for a verdade dessas palavras, sua vida agora está destinada a ficar à sombra dessa realização literária verdadeiramente monumental em seis volumes. E talvez não haja maior marca de sucesso artístico do que isso.

Com os seis livros finalmente terminados, vem a pergunta: é realmente bom?, valeu mesmo a pena? Sim, valeu a pena ler. Muito. Certamente foi um percurso muito interessante e não me arrependo dele. Knausgård encara o abismo como Bergman, encara o abismo como talvez só um nórdico tenha disposição de fazê-lo. Ele abre feridas e escreve sobre o que as causou, com honestidade comovente e dor palpável. O que mais vou lembrar são as seguintes cenas: a limpeza da casa no primeiro volume, seu total desamparo em face de seu pai dominador em A Ilha da Infância, seus amores por algumas mulheres e a vergonha da ejaculação precoce, as madrugadas e reuniões de Uma Temporada no Escuro, as perigosas bebedeiras e a tentativa de automutilação — sob álcool — de A Descoberta da Escrita, a relação com o irmão e o colapso assustador de Linda na última parte de O Fim. Ah, e a riqueza do cotidiano, pois há emoção, memórias e lembranças proustianas — até paixão — em cortar uma laranja ou calçar um sapato.

Se eu leria tudo de novo? Algumas partes, sim. Até porque já estou com saudades.

RECOMENDO MUITO.

P.S.: Clique aqui para todas as resenhas da série.

Karl Ove Knausgård

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Doutor Fausto, de Thomas Mann

Doutor Fausto, de Thomas Mann

O Doutor Fausto, de Thomas Mann, além de possuir imenso valor literário, é uma espécie de bíblia reverenciada pelos amantes da música. É um daqueles livros sobre o qual alguns leitores referem-se citando o número de cada capítulo. O XXV, por exemplo, é a celebre conversa de Adrian Leverkühn com o demônio. Há o oitavo, onde o professor Kretzschmar explica brilhantemente a Sonata Op. 111, de Beethoven. Percebem? O que desejo dizer é que o Doutor Fausto é um livro citado capítulo por capítulo, tal a impressão que causa a quem se apaixona por ele. É o mesmo que fazemos com a Parábola de Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamázovi. Claro que ele pode e deve ser fruído também por quem sofre de amusia, assim como os Karamázovi pode ser lido por quem não deseja matar o pai, mas amar a música ajuda.

Narrada por um amigo, o professor Serenus Zeitblom, Doutor Fausto é a história do músico Adrian Leverkühn que, como o Fausto da lenda, vende a alma ao Demônio. Como contrapartida, ganha por alguns anos uma absoluta genialidade musical, suficiente para a composição de um conjunto de obras imortais. Publicado em 1947, este livro faz parte do período final de Thomas Mann, sendo tecnicamente seu romance mais ousado, no qual música e política, realidade e símbolo, o bem e o mal, estão entrelaçados de forma  impressionista e irrepetível. Sempre é bom ressaltar que a tradução da Nova Fronteira é do saudoso e competentíssimo Herbert Caro, que proporcionou grandes manhãs de sábado a um grupo de jovens que se encontrava na King`s Discos da Galeria Chaves em Porto Alegre para falar sobre… música e literatura. O que aprendi com este sábio não tem tamanho, mas esta é outra conversa.

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Moby Dick, de Herman Melville

Moby Dick, de Herman Melville

Call me Ishmael. Assim inicia o espantoso livro do estadunidense Melville, originalmente publicado em três fascículos por uma editora londrina, no ano de 1851. Mody Dick, em meio a reflexões e narrativas sobre a vida no mar, conta a história do capitão Ahab, o qual deseja incondicionalmente matar o cachalote Moby Dick, o qual destruiu todos os barcos que tentaram caçá-lo e é responsável por arrancar-lhe uma perna.

O interesse da tripulação do Pequod é a obtenção de lucro a partir da pesca de baleias. Mas o capitão Ahab tem o objetivo particular de se confrontar com Moby Dick, o Cque, é claro, é temido pelos baleeiros. A grandiosidade polifônica que esta história de obstinação alcança supera em muito qualquer sinopse que possa se escrever. É um livro profundamente humano, profundamente irracional, a descrição de um embate homérico do homem contra o irracional, do homem contra a natureza, do homem contra suas fragilidades. É um livro que passa lenta e inexoravelmente do âmbito humano para o cósmico.

Ishmael é um jovem que decide trocar uma vida segura em terra pela aventura em alto mar. Após algumas experiências, embarca em um baleeiro de Nantucket, o Pequod. É Ishmael quem narra a viagem e a loucura do capitão tomado pela ideia de vingança. A grande baleia branca que escapa a todos os perseguidores levou-lhe a perna e a paz. Enquanto não matá-la, Ahab não desistirá, mesmo enfrentando uma tripulação que apenas quer fazer seu trabalho e voltar para casa.

A recepção ao livro foi fria. Desigual, arrastado, crossover, um romance ensaístico com problemas estruturais evidentes, dizia-se. Passadas algumas décadas, o livro foi visto como antecipatório — um dos primeiros a utilizar o hibridismo entre gêneros, a considerar a realidade como um caos caleidoscópico, a romper com as amarras do romance clássico do século XIX. A baleia branca de Melville pode ser o que quisermos que ela seja:  a morte, deus, o mal, o destino. A bordo do Pequod estamos todos nós.

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Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes

Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes

Oh, mas quem é Pedro Rosa Mendes para estar numa lista de melhores livros? Bem, em primeiro lugar, o autor é um esplêndido escritor e jornalista português; em segundo lugar, minha lista não guarda ordem de precedência. Agora que já tomei esta medida profilática de me defender de meus sete leitores amantes dos grandes clássicos, vou tratar de explicar porque este livro é IMPRESSIONANTE.

Este livro é sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte. (…) A razão para tal projeto era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. As duas frases grifadas fazem parte da nota introdutória do livro. A que projeto refere-se Rosa Mendes? Em junho de 1997 ele chegou a Luanda, em Angola, às margens do Atlântico, com a ideia de atravessar a África até chegar a Quelimane, em Moçambique. No caminho, as sangrentíssimas guerras tribais e entre os países da região, minas por todo lado, além da pobreza absoluta, tanto material quanto moral. E fome. Para temperar um pouco mais a coisa, o autor descobre duas coisas em Luanda, uma boa e uma ruim. A boa: sua mulher lhe avisa que está grávida em Portugal, mas que ele terá o tempo necessário para a reportagem, pois seu rebento nascerá apenas dali a seis ou sete meses; a ruim: o prognóstico que recebe de todos com quem fala de seu plano: você não sobreviverá.

A voz do autor é serena e elegante. Não é uma história contada em ritmo frenético, o andamento é o do humanista que deseja ouvir e compreender todos os envolvidos. Estive na palestra de Rosa Mendes na Flip de 2005. Ele estava com Jon Lee Anderson — o americano falava sobre a Guerra do Iraque e o português sobre a Guerra de Angola — e Anderson fez uma pergunta curiosa ao português: Baía dos Tigres recebeu muitos prêmios destinados a livros de ficção, por quê? A resposta foi típica da pessoa modesta que pareceu ser Rosa Mendes. Ele deu muitas voltas até dizer que era em função da linguagem do livro. E, diante da insistência de Anderson, ele acabou deixando escapar: ora, é que acharam que era bem escrito e não devia misturar-se a textos jornalísticos. Anderson respondeu com a gargalhada de quem já sabia antecipadamente a resposta.

Para dar ideia do que é este livro — que reencontrei na semana passada numa estante da Siciliano –, vou resumir algumas das histórias. Como a do encontro com um técnico francês que estava no país para testar o efeito das minas. Umas explodiam assim, outras assado. Umas eram cedidas a um grupo e, puxa, matavam mesmo; então recebi outras e repassei ao lado contrário. Essas eram melhores, as pessoas ficavam efetivamente mutiladas, deixavam os caras bem feridos, davam um trabalhão às equipes. Querem mais? Que tal a história das famílias de angolanos que operam suas vacas a fim de tirar-lhe alguns bifes, depois as costuram com alguns pontos e tratam de recuperá-la, pois não podem sobreviver sem elas? Por falar em mutilações, que tais as que são feitas na genitália feminina das africanas? Mas o melhor do livro é a narrativa dos interesses envolvidos. Portugal, Estados Unidos, Cuba, Brasil (Petrobrás e Odebrecht), mais os de grupos armados como UNITA, MPLA, FNLA, FRELIMO, RENAMO, etc. Sobre tudo isso, a total falta de observadores internacionais.

É. Onde não há dinheiro, as “forças de paz” não aparecem e os direitos humanos não interessam. Não ocorre nem a venda da  “democracia salvadora” e de eleições livres. Um grande livro.

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O Vermelho e o Negro, de Stendhal

O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Este é um romance pouco falado atualmente, mas  não há justificativa para ignorar esta obra-prima de Stendhal — que tinha o nome civil de Henri-Marie Beyle. É o livro que traz um dos maiores personagens da literatura de todos os tempos: o mal sucedido alpinista social Julien Sorel. André Gide escreveu que este livro de 1830 é o primeiro romance do século XX, por estar muito à frente de seu tempo. Tem razão Gide. A trama divide-se em duas partes: na primeira parte, no interior da França, Sorel abandona o trabalho da carpinteiro ao lado do pai e dos irmãos para tornar-se acólito do padre (ou cura) Chélan. Este lhe consegue um lugar de tutor dos filhos do prefeito de Verrières, Sr. de Rênal. Sorel parece um clérigo austero e seríssimo, mas na verdade prefere a Sra. de Rênal à Bíblia. O casal é descoberto e o cura o indica para um seminário. Novas maquinações e nosso herói vai para Paris, agora como secretário do Marquês de La Mole.

A segunda parte passa-se em Paris, onde conhece Mathilde de La Mole, filha do novo empregador de Sorel. Ela fica dividida entre o crescente interesse por Sorel — em função de suas admiráveis qualidades pessoais — e sua repugnância em se envolver com um homem de classe inferior. Não contarei desfecho do romance, nem o retorno da Sra. de Rênal à história, mas sou obrigado a falar mais um pouco sobre Sorel. Ele é o símbolo do homem inteligente e talentoso que sucumbe aos privilégios do nascimento e à falta de  traços de nobreza. Havia um mal disfarçado sistema de castas na França. (Bem, e não há ainda hoje algo semelhante no Brasil?) Enquanto sonha estar sob o comando de Napoleão – seu modelo que mofava em Santa Helena – para fazer fortuna e viver grandes paixões, busca o seminário e tudo o que pensa que possa fazê-lo ascender socialmente. Lá, começa a alimentar secretamente seus desejos de grandeza, característica que mantém ao longo do romance sob várias formas. Todo O Vermelho e o Negro é um passo-a-passo do desperdício, do desaproveitamento e da aniquilação de Sorel. A arte suprema de Stendhal — uma autor objetivo e piadista que dizia gostar da prosa cartorial — está em fazer com que a época em que se passa o romance pareça atrasada em relação ao personagem. Pelo romance perpassam a frustração e a falsa alegria de quem pensa que vai vencer, o contraste entre o campo e a cidade, com suas hipocrisias distintas, a guerra, os conflitos religiosos e, é claro, o amor e suas traições. Obrigatório.

P.S. — Stendhal nunca explicou o título de seu romance. Simplesmente, não se sabe a que se refere.

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