Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen
A edição da Assírio & Alvim
A edição da Assírio & Alvim

Eu gosto da prosa dos poetas. Quando os poetas escrevem contos, romances e novelas, permanecem como poetas de uma forma diferente, talvez inadequada à narração e suas regras. Mas alguma coisa faz com que eu goste disso. As descrições têm trechos de tonalidade distinta e os ganchos de um tema a outro muitas vezes inexistem. É o caso de Sophia neste livro de contos. A brilhante poetisa conta — o verbo é este — cinco histórias simples. Destaque para A História da Gata Borralheira (ou Cinderela), onde Sophia faz uma interessante variação sobre o conto original; O Silêncio, dura parábola sobre a ditadura salazarista e Saga, uma belíssima e tocante história sobre os antepassados dinamarqueses da escritora portuguesa. É um livro de estilo clássico que conta suas histórias adultas como se fossem infantis. Eu curti.

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A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan

A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan

A-Balada-de-Adam-Henry-Ian-McEwanNo ano passado, eu e Elena estávamos em Londres e fomos duas vezes ao Templo da Música de Câmara da cidade — segundo alguns do mundo –, o Wigmore Hall. Na fila para retirar os ingressos previamente adquiridos na internet, notei que as pessoas estavam olhando muito discretamente para um ponto logo atrás de mim. E me virei para ver o que era. Era Ian McEwan. O curioso é que McEwan já citou o local em vários de seus livros e, em A Balada de Adam Henry, volta a fazê-lo com elegante ironia. É o local dos exigentes, dos caras que só criticam, dos chatos. É o meu lugar!

Vinho, Fiona esperava, poderia mitigar as faculdades críticas dos frequentadores assíduos do Wigmore Hall, escreve na página 178.

Uma significativa minoria (…) passava muitas noites por ano ouvindo música de câmara com grande concentração, as testas franzidas, no Wigmore Hall de Marylebone, na página 162.

Porém o caráter gonzo desta resenha está exagerado, não? Pois o livro não tem cenas no Wigmore Hall e a música é algo importante no livro, mas este sobreviveria sem ela. Com bastante menos brilhantismo, mas sobreviveria. Então vou permitir que o vírus da objetividade sem spoilers tome conta do texto.

Fiona Maye é uma respeitada juíza do Tribunal Superior inglês, especializada em direito de família. O sucesso profissional não esconde frustrações pessoais. Aliás, ele parece fundar-se nestas. Não é incomum que os casos de direito de família acabem famosos por motivos éticos ou por envolverem celebridades. Grandes fortunas, divórcios milionários, etc. E há os casos que envolvem religião. Então, um hospital decide fazer uma transfusão de sangue em um menino que é Testemunha de Jeová. Ele e a família não aceitam o procedimento por motivos religiosos. O hospital leva o caso à Justiça.

A Balada de Adam Henry (The Children Act, 196 páginas, Cia das Letras) é um McEwan mais ligeiro e descansado, mas não pobre. É uma novela polifônica na medida certa que discute importantes problemas pessoais, sociais e religiosos. Não é tão redondo e não está no nível de Reparação, Amsterdam ou Sábado, mas também não é o mau livro de que alguns falam, normalmente levados por faniquitos religiosos. Acontece que McEwan permitiu-se alguns alongamentos normalmente não prescritos à boa literatura. Ele força a barra em algumas cenas e emite mais opiniões do que o habitual. É um trabalho tão pessoal que é tímido ao analisar o mundo do judiciário, mas nada inofensivo ao tratar do que realmente deseja: a criação de cenas inusitadas, a exploração de uma crise conjugal e a exposição da lógica das igrejas. Isso ele faz com a acidez e brilhantismo. O resto foi tratado com livre espírito de divertissement e algum uso de clichês, o que foi mal recebido por certo sectarismo literário que só aceita coisas perfeitinhas, adita que é dos gritos de bravo.

Ah, excelente tradução de Jorio Dauster.

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Três minicontos para quem reclama que eu não publico mais ficção

Três minicontos para quem reclama que eu não publico mais ficção

1. O Primeiro Beijo – Um Miniconto do Século XIX

O demônio, no ombro esquerdo dela, sussurrava-lhe:

— Beije-o agora, agora, já!

Enquanto o anjo, no ombro direito, opinava:

— Deixe-o aproximar-se mais, demonstrar inequivocamente o que quer. Um pouco de prudência poderá salvar nossa honra.

Foi quando o moço perdeu a concentração no que estava fazendo, afastou-se bruscamente e disse, em tom protocolar:

Apesar de desconhecer o grau de suscetibilidade de ambos. anjos e demônio, gostaria de interromper sua altercação a fim de dar-lhes meu parecer. Os anjos, tive pouco contato com eles; creio ter mais afinidade com o diabo e noto que ele representa meus interesses neste caso. Mas vamos direto ao objeto desta peroração. Creio que suas atuações — a dos dois — são danosas e a controvérsia inútil. Falta-lhes informações para fazer um bom aconselhamento. Então proponho encerrar esta demanda que ocorre muito antes de seu tempo. Se ela me beijar e depois não me quiser, libero-a de qualquer compromisso para todo o sempre e não anuncio a ninguém o que quer que tenha havido entre nós. O que julgo inaceitável e injusto é o fato de que, cada vez que vocês começam a brigar, sua dona mude, adotando um tom de frieza que gela meu coração. Vocês causam unicamente perturbação. Saúdo-os como se saúdam embaixadores de nações inimigas.

Findo o discurso, ele dá uma piscadela para o diabo e beija Maria Antoninha apaixonadamente. Ela, que chegava à casa dos vinte e poucos e sonhava desde a adolescência com esta culminância, gosta. Muito. Tanto que se emociona e chora.

2. Domingo

Ele odiava os finais de tarde de domingo. Não havia pior hora. A semana era suportável em sua rotina de trabalho, cansaço e sono; sábado era o dia de fazer as compras da semana, jantar com a mãe e ir ao cinema; porém aquele horário dominical de completo ócio, em que sentia possuir forças além da necessidade de produzir, era terrível. Sentado na sala, pôs um CD e começou a organizar mentalmente a agenda da semana. Sua angústia crescia à medida que via os compromissos avolumando-se. Havia os imediatos e outros, piores, que eram deixados para depois. Procurava organizar-se. Ergueu-se e, deixando o volume da música mais alto, foi ao armário de remédios procurar um analgésico. Pegou o comprimido e abriu a geladeira para servir-se de água. Viu um garrafão de vinho pela metade. Largou o comprimido sobre o esmalte branco da geladeira, apanhou o garrafão, um funil e, cuidadosamente, passou a dividir o conteúdo em garrafas pequenas de água mineral que pegou no lixo seco. Deixou três frascos iguais exatamente no mesmo nível e fechou-os. Enfileirou o resultado na porta da geladeira, desligou o som e ligou a TV.

3. Quem diria, casou-se com o corretor de seguros

Vânia acorda e decide matar-se. O celular toca : “Filha, me deu outra crise, vem logo!”. Vai à sacada e olha a rua, mas não quer pular de pijama. Veste-se e pensa na mãe: merda, como ela enche o saco. O celular de novo. A morte. Desce até a garagem, sai e acelera loucamente o carro de olhos fechados. A despesa não supera a franquia.

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John Milton escreveu:

John Milton escreveu:

Porque os livros não são de todo coisas mortas (…) preservando, como um frasco, a mais pura extração do intelecto que os criou. Sei que são tão vivos e vigorosamente produtivos como os fabulosos dentes de um dragão e, sendo fomentados, podem unir em paz homens armados. Por outro lado, a não ser que se use de toda a prudência, destruir um bom homem é quase o mesmo que destruir um bom livro; quem destrói um homem destrói uma criatura razoável; mas aquele que destrói um bom livro destrói a própria razão, destrói a imagem de Deus. Muitos homens constituem um fardo para o mundo; mas um bom livro é a encarnação preciosa de um espírito superior, conservado e estimado com o objetivo de viver para além da morte.


Boa, xará.


Capa da edição bilíngüe da Topbooks.

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Dostoiévski-trip, de Vladímir Sorókin

Dostoiévski-trip, de Vladímir Sorókin

dostoiévski-tripEsta peça de teatro de Sorókin foi vendida, até na contracapa, como se pudesse ser lida como um romance ou novela. OK, romances e novelas são mais populares do que peças por escrito — e só isso justifica tal tentativa de tornar Dostoiévski-trip uma especie de transgênero, pois trata-se claramente de uma boa peça teatral.

Bem e se o resultado da obra é sério, a ideia inicial é cômica. Sete pessoas estão em local não identificado aguardando um traficante que lhes trará drogas que atendem pelos nomes de Céline, Tolstói, Genet, Sartre, Faulkner, Nabokov, etc. Todas estas drogas podem ser diluídas em autores menores, de forma a reduzir seus efeitos. Naquele dia, o traficante trará uma novidade: Dostoiévski.

O grupo ingere a droga e subitamente cai dentro de uma cena capital de O Idiota (quem leu o livro provavelmente lembra de todas as loucuras cometidas, principalmente por Rogójin e Nastácia Fillíppovna, na cena). Logo, o diálogo dos personagens dostoiévskianos muda para uma linguagem contemporânea e depois os personagens de Dostô são substituídos pelo grupo inicial.

Não sei, mas eu não gostei muito das simetrias que a peça apresenta nesta última fase. A leitura de uma obra teatral é muito diferente de estar na plateia de um teatro. No palco, certamente a engenharia da obra não se tornaria tão clara, coisa que acontece na leitura, quando temos mais tempo para refletir sobre o que virá a seguir.

Mas vale a leitura devido a todas as originalidades do enredo. E, com efeito, Dostoiévski não existiria nos nossos dias… Não teria a menor chance, o coitado. Alguém lhe daria antidepressivos e ele seria um chato feliz em vez de um deprimido brilhante e meio descontrolado.

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Andrei Konchalovsky escreve (maravilhosa e amorosamente) no aniversário de Tchékhov

Andrei Konchalovsky escreve (maravilhosa e amorosamente) no aniversário de Tchékhov

Tradução livre de Elena Romanov *
Especialmente para os sete leitores deste blog
Link do original

Hoje, 29 de janeiro, é a data dos 155 anos do nascimento do meu escritor e ser humano favorito, Anton Tchékhov (1860-1904). Quando eu estava filmando Tio Vânia, aos 33 anos de idade, eu tinha certas ideias sobre a vida, sobre os personagens, sobre as pessoas, sobre mim mesmo, etc. Desde então, se passaram mais de 40 anos. Minha atitude mudou para com Tchékhov. Em primeiro lugar, porque eu me dediquei muito a ler sua correspondência e a saber sobre sua vida, sua atitude para com as pessoas, para com as mulheres, para com os homens, para consigo mesmo. Com o passar do tempo, Anton Pávlovich, que antes era, para mim, um sujeito de óculos com olhos cansados ​​e tristes, tornou-se meu censor espiritual, o homem que se senta às minhas costas e para o qual viro-me e olho, para descobrir se ele está de acordo ou não…

anton tchekhov

Ele não era de esquerda nem de direita. Dizia: “Eu sou um homem livre” e escrevia sobre o que viu. Em sua profundidade, Tchékhov amava as pessoas pelo que elas eram, não pelo que elas deveriam ser. Tchékhov amava as pessoas porque elas todas iam morrer. Ele as amava porque elas não entendiam a vida. Ele as amava porque elas próprias não se entendiam. Ele as amava e ria delas porque elas se imaginavam muito melhores do que realmente eram. Porque elas falavam tolices como se fossem pérolas. Eu, quanto mais velho fico, mais entendo os personagens de Tchékhov .

Em cada uma de suas peças, há muitos motivos para tentar entender a vida, assim como muitos detalhes para tentar compreender o que ele queria expressar. Ele sabia que o sublime e o prosaico, o trágico e o cômico — tudo está misturado nesta vida. Via de regra, todas as suas peças terminam em uma grande interrogação. Isto faz parte da sabedoria de Tchékhov, ele não deixa respostas para muitas coisas.

Anton Pávlovich viu, como todos os grandes, a falta de sentido de tudo… Mas há a necessidade de viver! Aqueles que pensam que todos nós morremos vivem numa dimensão, e aqueles que não pensam, vivem em outra. E uns e outros estão corretos. Não precisamos de respostas. Mas há os sentimentos. O importante é se envolver. E, quando há envolvimento, há compaixão, nunca indiferença…

* Com Milton Ribeiro

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A festa da insignificância, de Milan Kundera

a festa da insignificanciaO veterano Milan Kundera voltou à ficção no ano passado, aos 85 anos, com este bom A festa da insignificância (Companhia das Letras, 136 páginas). O tema lembra um pouco o filme de Paolo Sorrentino A Grande Beleza.

O romance gira em torno de quatro amigos parisienses que vivem em Paris, sem grandes objetivos ou ambições. Eles passeiam pelos jardins de Luxemburgo, mentem um para o outro, reinventam passados, se encontram numa festa, constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stalin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, em vez dos seios, bundas ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo — pois as calças caíram e as camisetas subiram, revelando o buraquinho que só Eva não teria…

Kundera brinca entre Paris e a União Soviética de Stálin, propondo um paralelo entre as duas épocas. Assim, o romance fala sobre o medo e o pior da civilização. Porém, fala de forma curiosamente divertida e sem ilusões ou expectativas. Livro curtinho e despretensioso, revelador de que o velho não perdeu a mão.

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Um Coração de Cachorro e outras novelas, de Mikhail Bulgákov

Um Coração de Cachorro e outras novelas, de Mikhail Bulgákov

um-coracao-de-cachorro-e-outras-novelas-mikhail-a-bulgakovFormado pelas novelas As Aventuras de Tchítchikov, Diabolíada, Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro, e com excelente tradução de Homero Freitas de Andrade, este volume da Edusp é uma verdadeira joia que reflete a literatura satírica dos primeiros tempos da União Soviética — e que depois foi morta por Gorki e pelo medonho realismo socialista. Aliás, Bulgákov, em sua “Carta ao Governo”, reclamou do que hoje é sabido por todos: “toda a sátira autêntica é absolutamente inadmissível na União Soviética”. A URSS era um regime que apenas admitia uma verdade única e inabalável e nenhuma “verdade” deste gênero resiste ao riso, principalmente ao riso inteligente e cheio de curvas e dúvidas como o criado pelo gênio de Bulgákov.

As quatro novelas deste livro formam um crescendo de virtuosismo arrebatador.

Pessoalmente, a leitura de As Aventuras de Tchítchikov teve pouca validade. Afinal, faz 40 anos que li Almas Mortas, de Gógol, e Bulgákov utiliza os personagens do romance como se fossem velhos conhecidos nossos. É claro que, como confirma a Elena, todo russo tem o livro de Gógol tão na memória quanto nós temos os principais contos e os cinco últimos romances de Machado. Mas eu mal lembrava de Tchítchikov…

Mas tudo mudou com a aceleradíssima e louca Diabolíada. Filha literária dos filmes pastelão dos anos 20, a novela está repleta de perseguições e transformações fantásticas com a finalidade de caracterizar a enorme máquina burocrática soviética. Pessoas deixam de existir, pagamentos são feitos através de caixas de fósforos que não funcionam em vez de dinheiro, todos passam fome e os pequenos chefes são verdadeiros diabos transformistas que antecipam a obra-prima de Bulgákov O Mestre e Margarida.

Os Ovos Fatais (1924) e Um Coração de Cachorro (1925) são novelas irmãs e das melhores coisas que já passaram frente a minhas retinas tão fatigadas. (Obrigado, Drummond). São duas longas e esplêndidas sátiras de ficção científica. Os Ovos Fatais tem uma longa introdução séria, com alguns curtos episódios cômicos, mas depois tudo se descontrola, virando um enorme vaudeville. Um vaudeville de terror, uma coisa realmente original. Já Um Coração é uma sátira de cabo a rabo e suas variações de foco narrativo — que são passadas de um para outro personagem e para o autor, depois que um cachorro abre a narrativa na primeira pessoa do singular –, valeria um estudo.

As duas novelas brincam de tal forma com o modus operandi da Revolução Bolchevique, fazendo tantas observações que se revelariam exatas décadas depois, que não surpreendem suas proibições na época. O que surpreende é o fato de Bulgákov escrever cartas e mais cartas para Stálin pedindo para sair do país, recebendo em troca telefonemas gentis do georgiano em várias madrugadas. Pelo visto, o chefe gostava do humor de Bulgákov, mas o queria apenas para si. O escritor faleceu em sua casa.

Mikhail Bulgákov
Mikhail Bulgákov

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Os Ovos Fatais, de Mikhail Bulgákov

Os Ovos Fatais, de Mikhail Bulgákov

um-coracao-de-cachorro-e-outras-novelas-mikhail-a-bulgakovAnteontem, finalizei a leitura de uma novela de Mikhail Bulgákov (aqui, a resenha do romance O Mestre e Margarida, do mesmo autor) que está no livro Um Coração de Cachorro (Edusp). Seu título é Os Ovos Fatais. A indicação era da Elena que a tinha lido há anos, ainda na União Soviética, através do samizdat (*). Ela não lembrava bem da história, só que era muito apavorante e boa.

E é mesmo. Não que seja extremamente original, é que Bulgákov consegue colocar numa história simples de ficção científica todo um arsenal de elementos que contam também outras histórias, tornando a coisa realmente grandiosa. Vamos sem spoilers. Piérsikov é um cientista que descobre um raio que, incidindo sobre os ovos de rãs, tornarão os répteis enormes e hiperativos. Tudo aponta para uma daquelas histórias de cientista louco que enche o mundo de criaturas desconhecidas e perigosas. Mas por trás da máquina de escrever está um autor genial.

A desgraça acontece e é terrível, mas quem a causa não é Piérsikov, mas a burocracia soviética. O resultado final, porém, é um fenômeno de massas que saúda o estado soviético como grande herói. Ou seja, quem cria o problema acaba vencedor, recebendo a consagração popular. Como todo grande autor, Bulgákov conta sua história de forma polifônica. Mas… OK, é uma novela de terror, só que provavelmente o gênero em que Os Ovos Fatais melhor se enquadre seja o da literatura satírica, pois Bulgákov tripudia sobre tudo — e é muito engraçado. Do jornalismo à política, do mundo acadêmico aos correios, sobra para todos.

Gostei tanto do que li que resolvi fazer esta pré-resenha de um livro que não terminei. Ainda tenho que ler Um Coração de Cachorro, cujo narrador é um cão…

Ontem, assistimos ao filme russo baseado em Os Ovos Fatais. É daqueles casos que a Caminhante sempre cita: o livro é muito melhor.

Pergunta final: Por que o tradutor Homero Freitas de Andrade não enfrenta O Mestre e Margarida? As duas traduções existentes para o português deixam a desejar. Mesmo a da Alfaguara é estranha em muitos pontos. Bem, à leitura do resto do livro!

(*) Samizdat era uma prática nos tempos da União Soviética destinada a evitar a censura imposta pelos governos dos partidos comunistas nos países do Bloco oriental. Mediante esta prática, indivíduos e grupos de pessoas copiavam e distribuíam clandestinamente livros e outros bens culturais que haviam sido proibidos pelo governo.

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Tom Jones

Tom Jones

Tom JonesTom Jones (1749) foi um dos livros que me deixou mais feliz. Li-o há mais de 30 anos. Alguns dizem que foi o primeiro romance moderno. Fielding parece admitir a novidade: “Como sou, em realidade, o fundador de uma nova forma de escrever, posso ditar-lhe livremente as leis que me aprouverem”. O magistrado Fielding era um cômico de primeira linha. Os capítulos são divididos em grupos antecedidos de pequenos e hilariantes ensaios introdutórios de duas ou três páginas. Como Sterne, faria 10 anos depois em seu Tristram Shandy, Fielding bate longos papos com o leitor. Machado faria o mesmo, não? É um calhamaço de mais de 800 páginas, mas os capítulos são curtos e têm com títulos que antecipam o que vai acontecer. 100% sarcasmo e ironia, 100% de situações e conjecturas absurdas.

Anteontem, vi uma nova e bela edição de Tom Jones. Custava R$ 10,00 na Nova Roma, sebo da Gen. Câmara. Adivinham onde está o exemplar? Vou reler, claro. Espero reencontrar um pouco da alegria da primeira leitura.

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Que venha 2015!

Que venha 2015!

champanheTenho algumas resoluções a não cumprir, mas é melhor ficar calado, né? Coisas de todos os tipos, a manter e a fazer. Vamos lá. Vamos tentar aguentar 2015. Chega desta desgraça de 2014. Vade retro.

~o~

Desejo a todos um ano novo de muitas virtudes e alguns pecados suaves e bem aproveitados.

Rubem Braga

~o~

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura

O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura
A edição da Boitempo
A edição da Boitempo

Leonardo Padura sabe que não é Tolstói, mas que seu tema podia ser tão imenso ou maior quanto o de Guerra e Paz. A história do exílio e assassinato de Trotski e a de seu algoz Ramón Mercader, se bem circunstanciada e contada, tinha o potencial de mostrar o que foi boa parte do século XX, com a história da perversão e morte (e das mortes de seres humanos) de sua maior utopia, indo desde a Revolução de 1917 até a Guerra Fria. Raras histórias são tão amplas temporal e fisicamente. Só para comprovar o caráter cosmopolita do livro, basta saber das andanças de Padura durante os cinco anos de pesquisas e de escritura do romance: Espanha, para saber da participação de Mercader na Guerra Civil Espanhola; Moscou, é claro, atrás da história de Trotski e de seus primeiro exílios no Cazaquistão e na Turquia; Paris e interior da França, em novo exílio. E também Dinamarca e Noruega, por onde o russo passou antes de chegar ao México, país onde o russo encontraria a morte através da picareta de Mercader.

Após levar a picareta na cabeça, Trotski ainda lutou com Mercader, impediu sua morte, gritando "Não o matem! Esse homem tem uma história para contar!!' e sobreviveu um dia.
Após levar a picareta na cabeça, Trotski ainda lutou com Mercader, impediu sua morte, gritando “Não o matem! Esse homem tem uma história para contar!’, e sobreviveu um dia.

Mas O homem que amava os cachorros (Boitempo, 592 páginas) não é um documento histórico e sim um romance, um romance que se atém com toda a fidelidade aos conhecidos episódios e à cronologia dos anos finais de Trotski. Nem tanta fidelidade foi possível com Mercader, o homem que trabalhou no Ocidente para os russos sob diversos nomes e disfarces e cuja história é tão fácil de reconstruir quanto adivinhar as feições daqueles homens que Stalin fazia sumir das fotografias históricas da Revolução Russa.

Cadê o Trotski que estava aqui?
Cadê o Trotski que estava aqui?

O livro de Padura é excelente. A escolha pelo ritmo de thriller foi acertada, assim como a alternância de capítulos dedicados a Trotski, Mercader e ao futuro autor do livro, perdido, sem temas, comida ou perspectivas em Cuba. É claro que os diálogos do romance são inventados, mas não são artificiais ou inverossímeis. Para melhorar ainda mais, o livro cresce de forma espetacular a cada página, dando dimensão humana a todos os personagens, fugindo inteiramente dos discursos e do jargão dogmático, até ridicularizado por Padura. Graham Greene ficaria feliz de ler O Homem que Amava os Cachorros.

A história é narrada no ano de 2004 pelo personagem Iván, um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e que, a partir de um encontro enigmático com um homem que passeava seus cães numa praia de Havana, retoma os últimos anos da vida do revolucionário russo Liev Trotski e de Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola e encarregado de executá-lo por Stalin. O dono dos cães, que Iván passa a denominar ‘o homem que amava os cachorros’, confia a ele histórias sobre Mercader, de quem conhece detalhes íntimos. Diante disso, o narrador reconstrói a trajetória de sua vítima Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotski, teórico russo e comandante do Exército Vermelho durante a Revolução de Outubro, exilado por Joseph Stalin após este assumir o controle do Partido Comunista e da URSS. Ramón Mercader é um homem quase sem voz na história. Ele recebeu, como militante comunista, uma única tarefa — eliminar Trotski. São descritas sua adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma história pouco conhecida e coberta, ao longo dos anos, por inúmeras mistificações.

Mercader na época do assassinato e após cumprir pena de 20 anos, já em Havana ou Moscou
Mercader na época do assassinato e após cumprir pena de 20 anos, já em Havana ou Moscou

Note-se que Mercader, Trotski e Ivan, todos eles, são “homens que amavam cachorros”. E um detalhe: o caso amoroso de Frida Kahlo e Liev Trotski, ocorrido sob o olhar digno de Natália Sedova é tratado com discrição, sem lances espetaculares. Apenas aconteceu por iniciativa do casal e desaconteceu a partir da elegante reação de Sedova.

Leon Trotsky (second right) and his wife Natalya Sedova (far left) are welcome to Tampico Harbour, Mexico by Frida Kahlo and the US Trotskyist leader Max Shachtman - See more at: http://www.historytoday.com/richard-cavendish/trotsky-offered-asylum-mexico#sthash.AAMNOTcG.dpuf
Leon Trotski (segunda, à direita) e sua esposa Natália Sedova (à esquerda) são recebidos no Aeroporto de Tampico, no México, por Frida Kahlo e o líder trotskista norte-americano Max Shachtman

Obra indicada a todos que não tenham saudades de Stalin, pois seu autor diz claramente: “Trotski podia ser duro, mas era um político; Stalin era um psicopata”.

trotski

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Notinha sobre a literatura de Georges Simenon

Notinha sobre a literatura de Georges Simenon

simenon2Georges Simenon vendeu aproximadamente 500 milhões de volumes de suas novelas e romances. Trata-se de um excepcional caso de sucesso popular e de crítica. Durante toda a sua vida, os leitores e editores pediram-lhe um grande romance através do qual o autor pudesse ser apresentado. A resposta era sempre a mesma:

– Minha grande obra é o mosaico formado por meus pequenos romances.

Grosso modo, podemos dividir sua obra em duas partes: os romances policiais com ou sem o célebre detetive Maigret e os duros romances psicológicos que lhe valeram o apelido “Balzac de Liége”, recebido de ninguém menos que André Gide. A popularidade destes livros não deixa de impressionar, pois são escritos em tom menor, são nada solares, sendo antes cheios de personagens deprimentes e deprimidos. Com suas ações quase sempre em cidades pequenas, Simenon envolve-nos numa triste realidade provinciana, onde o mal comanda.

O método de produção de Simenon é curioso. Ele escrevia seis ou sete romances ou novelas por ano, mas elas não lhe saiam continuamente e sim como espasmos. A história era inventada em 30 ou 40 dias em sua imaginação. Era o período de não escrever, de caça à história, quando ele passeava, ia a bares e convivia com as pessoas. Então, ele avisava aos familiares que trabalhar e todos sabiam o que aconteceria – ele sumiria em seu escritório por algo entre 10 e 20 dias. Nestes períodos, ninguém deveria falar com ele e a ordem era apenas alimentá-lo. Se um fato externo o interrompesse, abandonava o trabalho.

De certa forma, tal concentração está presente em seus trabalhos. As narrativas, a forma de envolver o leitor são via de regra impecáveis. A modernidade não está num trabalho de linguagem ou em tramas complexas ou contrapontísticas, está no fato de que o autor se exime dos princípios morais, apresentando tramas simples onde as atitudes são descritas de forma distante, muitas vezes cruel. Não há Deus nem julgamento, há sucessão de fatos que são jogados ao leitor no momento exato e que fazem excelente literatura.

Acabo de ler O Burgomestre de Furnes, um extraordinário estudo sobre o embrutecimento, o ódio e a avareza. Joris Terlink é o burgomestre que comanda a população, a economia e os conselheiros do povoado. Todos o temem e ele é consultado para tudo. Sua vida pessoal está associada a diversas tragédias, recentes e antigas: uma filha doente mental que é mantida presa em seu quarto sob o argumento de que não haveria um lugar melhor para ela, o câncer da mulher, os vários filhos fora do casamento – o quais são ignorados por Terlink – e a própria gestão de Furnes, cuja falta de solidariedade produz um suicídio no início da história. Há algo menos sedutor? Terlink é um monstro absoluto, circundado de idiotas que têm dificuldade de viver sem ele, mas a segurança com que Simenon leva sua narrativa não é menos monstruosa e sem compaixão.

Além do Burgomestre, os maiores romances desta face de Simenon provavelmente são Sangue na Neve, O homem que via o trem passar, O gato e Em caso de desgraça. Todos podem ser encontrados bem baratinho por aí. Saíram também em pockets.

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Albert Camus

Albert Camus

Alguma coisa em O homem que amava os cachorros me lembra Camus.

A morte de Camus, num medíocre acidente de automóvel, aos 46 anos, lembra Moscou. Só hoje descobri que não apenas eu faço a relação. O escritor e tradutor checo Jan Zabrana sugere a possibilidade de que Camus tenha sido assassinado por ordem do Ministro das Relações Exteriores da URSS, Dmitri Shepilov, em retaliação à oposição aberta que o escritor vinha fazendo ao país — particularmente no artigo publicado na revista Franc-Tireur de março de 1957, em que atacava pessoalmente o ministro, responsabilizando-o pelo que chamou de “massacre”, durante a repressão soviética à Revolução Húngara de 1956.

Em sua crítica, Camus citara o poeta americano Walt Whitman. Afirmara “sem liberdade, nada pode existir”. Ganhou assim, a inimizade de stalinistas e de simpatizantes da URSS. Olivier Todd, no livro Albert Camus — Uma Vida (Record, 877 páginas), relata o acidente:

A vinte e quatro quilômetros de Sens, na Rodovia 5, entre Champigny-sur-Yonne e Villeneuve-la-Guyard, o Facel-Véga, depois de uma guinada, sai da estrada em linha reta, se arrebenta contra um plátano, ricocheteia para cima de uma outra árvore, se desmantela. Michel Gallimard sai gravemente ferido — morreu cinco dias depois –, Janine ilesa, Anne também. O cachorro desaparece, Albert Camus morreu na hora. O relógio do painel é encontrado bloqueado às 13h55. A seus amigos, Camus dizia com frequência que nada era mais escandaloso do que a morte de uma criança e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel.

camus

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Seis drops ou citações para meus sete leitores

Seis drops ou citações para meus sete leitores

1. Virginia Woolf:

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.

Não é isso mesmo? É assim que me sinto quando Elena me observa, me dá atenção ou revela alguma admiração. Um gigante. Os homens são BOBOS.

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2. A estátua de Davi foi levada a diversos museus norte-americanos por um período de três meses, mas agora está de volta à Florença.

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3. Mia Couto:

O tempo é, como diz um provérbio de minha terra, um ovo: se não se segura bem, cai; se se aperta com força, quebra.

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4. Pablo Picasso:

Eu estou sempre trabalhando. Assim, quando a inspiração chegar, vou estar trabalhando.

Bach disse quase o mesmo. Comprovadamente, ambos trabalharam muito.

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5. Ontem, num restaurante onde sempre vou, o garçom me ofereceu a cerveja Coruja de sempre. Rejeitei-a, pois estava dirigindo. Ele respondeu que é o fim do mundo.

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6. Orhan Pamuk:

A pergunta que, com maior frequência, é dirigida a nós, escritores, a pergunta favorita, é: por que vocês escrevem? Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever. Escrevo porque não posso ter um trabalho normal como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros iguais aos que eu escrevo. Escrevo porque estou irritado com todo mundo. Escrevo porque adoro ficar sentado numa sala, escrevendo o dia todo. Escrevo porque só consigo tomar parte da vida real transformando-a. Escrevo porque quero que os outros, o mundo inteiro saiba que tipo de vida nós vivíamos e continuamos a viver, em Istambul, na Turquia. Escrevo porque amo o cheiro de papel, caneta e tinta. Escrevo porque acredito na literatura, na arte do romance, mais do que em qualquer outra coisa. Escrevo porque é um hábito, uma paixão. Escrevo porque tenho medo de ser esquecido. Escrevo porque gosto da glória e do interesse gerados pelo ato de escrever. Escrevo para ficar sozinho. Talvez eu escreva porque espero entender porque estou tão, tão irritado com todo mundo. Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque, tendo começado um romance, um ensaio, uma página, eu quero terminar. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva. Escrevo porque tenho uma crença pueril na imortalidade das bibliotecas e na maneira como meus livros ficam na estante. Escrevo porque é instigante transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo, não para contar uma estória, mas para compor uma estória. Escrevo porque desejo escapar do mau presságio de que há um lugar aonde eu devo ir, mas aonde – como num sonho – não posso chegar por completo. Escrevo porque nunca consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz.

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Desaparecimento de Luísa Porto

Desaparecimento de Luísa Porto

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Divórcio, de Ricardo Lísias

Divórcio, de Ricardo Lísias

capa  Ricardo Lisias Divorcio.inddÉ óbvio que, até pela situação passada no ano passado, eu leria este livro. E começo dizendo que a traumática separação do personagem Ricardo Lísias — sim, Lísias é o nome do personagem de Lísias — foi fichinha perto da separação de Milton Ribeiro.

Divórcio é a história de uma separação com todos ingredientes que fazem parte deste tipo de situação: choque, ressentimento, ódio, divisão de bens, vinganças, recuperação. Tudo isto é catalisado por um narrador original e seguro, na primeira pessoa, que cria um texto grudento, apesar de cheio de quebras e opções. A sinceridade e a exposição do personagem Lísias só surpreende se pensarmos que Divórcio é um romance autobiográfico, fato negado pelo autor, inclusive para mim, pessoalmente.

Grosso modo, o romance alterna quatro tempos. O momento presente, a história do casamento, a preparação de Lisias para correr a São Silvestre — única fonte de prazer e o meio escolhido para o retorno à realidade e à vida — e a infância do Lísias personagem. Os jornalistas, profissão da ex-mulher, recebem muitas e justificadas críticas. Há uma coleção de frases antológicas de ódio no livro, mas se eu coloco aqui vão pensar que a coisa tem endereço. Então, vou colocá-las num contexto mais tranquilo. Num PHES fora da curva, por exemplo.

Indico, claro. Trata-se de um belo texto visceral.

(Curiosidade: fiquei contrariado com algumas metáforas utilizadas e, ao comentá-las com a Elena, fui convencido de que eram perfeitas. O problema é que eu sofro de outra maneira).

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Louis-Ferdinand Céline, os 120 anos do brilhante escritor antissemita

Louis-Ferdinand Céline, os 120 anos do brilhante escritor antissemita

Publicado pelo Sul21 em 1º de junho de 2014

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Céline: censura póstuma oficial

O fato de um escritor tão imenso quanto Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) ter sido um antissemita dos mais abjetos sempre foi, no mínimo, perturbador. Em 2011, quando completou 50 anos de morte, Céline recebeu uma curiosa “des-homenagem” oficial. O Ministro da Cultura da França, Frédéric Mitterrand, retirou o nome de Céline das Célébrations Nationales. O motivo era o de sempre: “o antissemitismo virulento” do escritor e seus desprezíveis panfletos. O Ministro afirmou que apesar de seu talento, “não se deve esquecer o homem que fez a apologia do assassinato de judeus durante a ocupação. Não é digno que a República o celebre”. Um intenso debate seguiu-se e o Ministro afirmou que a retirada consistia numa moção de repúdio.

O professor emérito da Sorbonne, Henri Godard, ficou indignado: “É uma forma de censura. É perfeitamente possível distinguir os dois Céline: o grande escritor e o antissemita. O ato não constitui numa reparação às vítimas do antissemitismo, só as transforma em culpadas involuntárias de um ato de censura a um excepcional escritor”. Frédéric Vitoux, da Academia Francesa e biógrafo de Celine, afirmou que remover o nome de Céline de um catálogo é tão bobo quanto o fato de Stalin ter apagado das fotos oficiais os líderes comunistas de quem não gostava. “Isso não contornará o fato de que Céline foi um escritor genial, traduzido inclusive em hebraico. O que fazer, devemos queimar a tradução hebraica de Viagem ao Fundo da Noite?”.

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O escritor viu seu asilo na Espanha de Franco impedido por de Gaulle.

Amado e odiado, Céline é uma glória das letras europeias. Em 1950, foi julgado e condenado pela Repú­blica Francesa a um ano de prisão e a pagar 50 mil francos de multa. O governo confiscou cerca da metade de seus bens. O escritor ficou proibido de votar e ser votado, de portar armas e pleitear cargos públicos e não podia trabalhar em jornais, escolas e bancos. Quando a Segunda Guerra acabou, Céline pediu asilo a Franco, mas de Gaulle impediu pessoalmente que o ditador espanhol o recebesse, dizendo a Franco que tal asilo atrapalharia as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países.

Nesta semana, ao completar 120 anos de nascimento, as homenagens a Céline partiram mais dos países de língua inglesa do que da França. Mas por que Céline é importante? Porque, na primeira metade do século passado, numa época em que os escritores e compositores experimentalistas tornavam suas obras mais e mais impenetráveis, Céline renovava a literatura utilizando-se da língua falada. É claro que a expressividade de Céline era muito estilizada, tratava-se de uma linguagem fabricada, mas o gosto pelas expressões orais e populares faziam parte de seu projeto, mesmo que seus temas fossem tão pouco seculares quanto a morte e a guerra. Suas posições políticas e opiniões não se fazem presentes em seus romances, apenas nos panfletos.

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Amor às reticências. Um pontilhista como Seurat e Signac…

Seu primeiro romance foi o citado Viagem ao Fundo da Noite.  A “viagem” é a aventura que se vive até a morte certa. Seu segundo romance, chama-se Morte à Crédito.

Quando se abre um livro de Céline, em qualquer página, toma-se um susto. O escritor simplesmente adorava as reticências. Suas páginas estão cheias delas, ao lado de uma linguagem fácil e fluida, raivosa e debochada. “As reticências arejam a frase”, dizia. A impressão que se tem é a de que o escritor raramente finaliza suas frases… Ele mesmo brincava que era pontilhista como os pintores Seurat e Signac. Já os estudiosos de sua obra garantem que a linguagem simples era resultado de uma elaboração rigorosa. Ou seja, ela parece simples, porque calcada na linguagem oral, mas é finamente elaborada. A tradutora Rosa Freire d’Aguiar anota: “Desde seu romance de estreia, Viagem ao Fim da Noite, de 1932, Céline forjou uma língua própria, incorporando gírias, corruptelas e palavrões, criando onomatopeias, elipses, rimas e neologismos”.

Seu estilo é raivoso e requer estômago forte. Por exemplo, a descrição que ele faz de uma viagem de barco em Morte à Crédito (1936) é algo inacreditável. O barco começa a jogar de um lado para outro e Céline não recua ao descrever a verdadeira epidemia de vômito que acomete os participantes. Não é um escritor que evite descrições por pudor.

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Herói e inválido na Primeira Guerra Mundial.

Nascido em 1894 em Courbevoie, periferia de Paris, em uma família de classe média baixa, Céline recebeu uma instrução escolar convencional antes de se incorporar ao exército francês em 1912, durante a primeira Guerra Mundial. Por ter levado a cabo uma missão de reconhecimento arriscada no setor de Ypres (Flandres Ocidental), foi condecorado como Herói de Guerra. No conflito, sofreu ferimentos na cabeça que lhe deixaram um zumbido recorrente no ouvido. Foi declarado inválido de guerra.

Depois, em 1916, esteve em Camarões trabalhando numa empresa francesa de madeiras. Retornou à França no ano seguinte. Trabalhou também numa fábrica de automóveis, enquanto começava o curso de Medicina. Em 1919 casou-se com Edith Follet, filha do diretor da Escola de Medicina de Rennes. Em 1920 nasce a sua filha Colette e dois anos depois Céline recebe a licenciatura em Medicina, tendo por tese um trabalho sobre o médico Ignaz Philipp Semmelweis.

Semmelweis em 1858, tese lida até nossos dias
Semmelweis em 1858. A tese de Céline é lida ainda em nossos dias

Esta tese é pura literatura e está publicada no Brasil, em livro da Companhia das Letras. É um relato espantoso e envolvente sobre a perseguição sofrida por Semmelweis pelo simples fato de ele ter sido o médico que tentava introduzir o ato de lavar as mãos e a esterilização de instrumentos e utensílios antes de quaisquer operações cirúrgicas. As estatísticas mostravam que seus pacientes morriam menos, mas a novidade era tão incompreensível para a época que o húngaro Semmeweis (1818–1865) só podia estar brincando ao fazer pouco da habilidade de quem fazia os procedimentos sem lavar as mãos.

O húngaro constatou que, quando se obrigava os médicos obstetras a lavarem as mãos antes de se aproximarem das parturientes, a proporção de infecções caía de 30% para menos de 1%. Vítima da hostilidade e da zombaria dos círculos médicos, Semmelweis foi expulso do hospital, teve de deixar Viena e acabou não somente alijado do mundo científico como internado num hospício… Tornou-se o primeiro grande personagem de Céline. A repercussão da tese de Céline, que não continha nenhuma novidade, ultrapassou muito o campo da medicina.

A morte, portanto, está presente na obra de Céline desde sua tese. Na verdade a morte já estava em sua vida desde a Primeira Guerra Mundial. Céline disse que tinha matado uma dezena de pessoas no conflito e que aquilo o afetava. Talvez tenha sido para aliviar a própria dor que Céline começou a escrever, o que acabou dando origem ao seu primeiro e melhor romance: Viagem ao Fundo da Noite.

Viagem narra a história de Ferdinand Bardamu, que luta na Primeira Guerra Mundial, envolve-se em uma empreitada de colonização na África, trabalha na linha de montagem da Ford nos Estados Unidos e termina em um subúrbio pobre de Paris, trabalhando em um manicômio. O romance é um grande retrato da loucura, mas da loucura não de um homem só, mas de toda a sociedade. Os caminhos de Bardamu reproduzem a própria história da França no começo do século passado, ingressando numa guerra genocida onde ninguém poderia ganhar, num projeto colonial e numa industrialização desumana ao estilo norte-americano da época… Não é casual que pareça que estamos recontando a biografia de Céline. Assim como seu alter ego, o escritor não guardava boas lembranças de nenhuma de suas experiências.

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“O amor é o infinito ponto fora do alcance”

O romance é dividido em duas partes. A primeira refere-se à descoberta de um mundo onde a paz e o amor entre os povos parecem impossíveis — por todo lado há homens explorando-se uns aos outros.  A segunda parece um prolongamento íntimo do primeira, notavelmente bem escrito. Serve para confirmar que o amor é impossível. Aqui, Céline examina a vontade de dominação e dependência nas relações amorosas. O romance desloca-se do social para o particular a fim de demonstrar que, de forma geral, “o amor é o infinito ponto fora de alcance”.

Morte a Crédito é tão autobiográfico quanto Viagem, só que voltado à infância do escritor. Como Céline, o protagonista também é um médico que descreve suas experiências no subúrbio da capital francesa, atendendo pessoas pobres. Com acidez, o narrador demonstra sua descrença a respeito de tudo. (Talvez seja importante citar que Céline, como médico, era amado por seus pacientes, sendo considerado um modelo de bondade e dedicação). Porém, a descrição de seus pacientes e parentes — dos quais recebia quantias miseráveis — é tão ressentida e permeada pelo ódio que se torna hilária. Todavia, num certo ponto da narrativa há uma ruptura e recuamos no tempo, dirigindo-se para a infância do escritor. O leitor, então, é levado à casa de Céline e de sua família. A vida era complicada. O pai trabalhava numa empresa de seguros e é um homem sem perspectivas e energia. A mãe mantinha a lojinha da família, enquanto a avó vive da renda de alugueis que quase não recebe e os tios não possuem um emprego fixo. Ou seja, todos sofrem com a falta de dinheiro. A narrativa é primorosa na descrição dos sentimentos humanos envolvidos.

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Um médico e escritor obcecado pela catástrofe

Mas, ao lado destes romances e de Norte, há os panfletos. O primeiro é Mea Culpa, onde manifesta seu desencanto com o comunismo. Depois vieram os políticos… A pedido do autor, Bagatelas para um massacre, A Escola dos cadáveres e Bonitos os Panos nunca foram reeditados. Dos panfletos antissemitas, apenas o célebre Vão Navios Cheios de Fantasmas pode ser lido.

O ensaísta Dau Bastos frisa que Céline “fez da escrita uma briga só” e nota que “ele mostrou-se tão obcecado pela catástrofe que a ela submeteu seu próprio texto”. Já Simone de Beauvoir confessa que chegou a saber de cor algumas das páginas de Viagem ao Fundo da Noite. O universo de Céline, que nos fala de desastres e das ruínas humanas, foi desfeito após a Segunda Guerra. E ele terminou sua vida exercendo a profissão de médico e não a de escritor em Meudon, no ano de 1961, sentindo a medicina como sua verdadeira vocação e a escrita como um acidente.

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A polêmica em torno do “terrível” Airton Ortiz

A polêmica em torno do “terrível” Airton Ortiz

livro do sargentinhoNão sou amigo de Airton Ortiz. Conheci-o fazendo uma longa entrevista com ele e, mesmo que não ponha a mão no fogo por ninguém, digo-lhes o que penso: olha, ele deve ter apoiado a ditadura militar tanto quanto eu. Se meus 57 anos servem para alguma coisa, uma delas é conversar com uma pessoa por uma hora e saber mais ou menos quem ela é.

Mas, além da intuição, há fatos. Sua ex-editora, a Tchê, publicou todos os comunas escreventes no Rio Grande do Sul dos anos 80, em especial os ligados ao PRC e ao PCB. Por exemplo, ele publicou obras do futuro ex-governador Tarso Genro e do professor Otto Alcides Ohlweiler.

Só que, na mesma época, a Tchê de Ortiz publicou um livro do então sargento Marco Pollo Giordani, chamado Brasil Sempre. O homem era — ou é, pois ainda vive — um ex-integrante do DOI-CODI e o livro uma resposta ao Brasil Nunca Mais. A tese do livro é de um espetacular absurdo: o autor diz que não houve tortura no País durante o regime militar. A justificativa de Ortiz para publicar o livro é crível: ele me disse que a “obra” disponibilizava uma série de documentos secretos do exército que nós da esquerda queríamos colocar a mão e que só se ele fosse muito louco sonegaria aquelas informações.

Visto do ponto de vista de nossa contemporaneidade, a atitude de Ortiz realmente parece estranha. Mas não guarda nadíssimo em comum com, por exemplo, a Editora Revisão de Siegfried Ellwanger. Ontem, entrei no sebo Nova Roma aqui da Gen. Câmara e dei de cara com o livro do sargento. Olha são, mais de setecentas páginas lotadas de documentos e fotografias. Passei uma boa meia hora examinando o volume. Todo o pessoal da luta armada que era do conhecimento dos milicos está catalogada ali, além de uma série de fotos e documentos sobre aquilo que o autor denomina de Contra-Revolução de 1964. Dilma está lá, claro. Pensando retrospectivamente, acho que, na posição do Ortiz, também publicaria o livro em função de seu ineditismo. Isto na época, porque se é hoje aquilo é puro lixo direitista, nos anos 80 era informação desconhecida permeada por um texto repugnante.

Dizer que Ortiz publicou um livro que defende os torturadores é rigorosamente verdadeiro e descontextualizado. A fogueira das vaidades literárias pegou pesado contra ele. Juremir Machado da Silva levantou o assunto no Correio e Alfredo Aquino chutou na Zero Hora, dizendo que a Câmara Rio-Grandense do Livro “profere um insulto aos que foram agredidos com torturas, aos que foram assassinados e feridos pela ditadura militar”. OK, são opiniões. Ou inimizades.

Voltando ao Ortiz. Ele é um homem tranquilo que, quando falou sobre Porto Alegre, trouxe naturalmente à conversa exemplos positivos de Havana — ele escreveu um livro premiado sobre a cidade. É um sujeito que fala de como são enriquecedoras as viagens e o conhecimento da diversidade, de como a gente deve aprender sobre outras culturas, que chega a um país e aprende 300 palavras básicas a fim de ser bem aceito, que fala com admiração dos aspectos culturais da Índia, do Nepal e de regiões da África. Que diz que as viagens pulverizam o preconceito.

E esse cara é pró-repressão e milicos? Tá bom, vão nessa.

Obs.: Sobre as capas na imagem que abre o post. É a primeira edição da Tchê nos anos 80 e a segunda, custeada pelo próprio autor, recém lançada.

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Porcarias, de Marie Darrieussecq

Porcarias, de Marie Darrieussecq
A capa de Porcarias
A capa de Porcarias

No original francês, é Truismes; em Portugal, é Estranhos Perfumes; em inglês, Pig Tales; e no Brasil recebeu o bom título de Porcarias.

Porcarias, livro de Marie Darrieussecq que ganhei de presente de minha filha, é apresentado como uma parábola. Parábola é uma “narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior”.

Um pouco mais nojento do que seus modelos clássicos — A Metamorfose, de Kafka, e A Revolução dos Bichos, de Orwell –, Porcarias é uma narrativa fluida e grudenta como poucas.

Sem entrar em detalhes, o livro conta a história de uma vendedora de perfumes que se deixa levar um tanto passivamente pela vida e que acaba por deixar que seus instintos primitivos a dominem, fazendo com que vá se transformando lenta e literalmente numa porca. O final é fantástico e triunfante: o que era crise deixou de ser, pois agora ela é uma porca completa.

O que o livro tem de sensacional é a narrativa crua e eficiente da solidão, da não-aceitação, da angústia e da inadaptação de alguém que vai perdendo a auto-estima até resolver que o estilo de vida da selva é o mais mais adequado para si. Dizendo isso fica clara a parábola, mas há mais. Porcarias é um bonito e cômico ataque tanto ao politicamente correto como ao culto da vida sã e dos corpos sarados.

Lá em 1997, a Folha de São Paulo entrevistou Marie Darrieussecq. É muito interessante.

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A mulher que virou leitoa

Por Maria Ignez Mena Barreto

A história de uma vendedora de perfumes que se transforma em leitoa é o grande acontecimento literário do ano na França. “Truismes” (Truísmos) é o primeiro romance de Marie Darrieussecq, 27, nascida em Bayonne, País Basco, ex-aluna de uma das instituições acadêmicas mais prestigiosas da França, a École Normale Supérieure, e professora da Universidade de Lille.

Com 204 mil exemplares vendidos na França, “Truismes” seduz o meio editorial internacional: os direitos já foram vendidos para os Estados Unidos (New Press), Alemanha (Hanser), Itália (Guanda), entre outros. No Brasil, será lançado no próximo mês pela Companhia das Letras.

Para coroar o êxito, o diretor Jean-Luc Godard já adquiriu os direitos de adaptação para o cinema e deve escrever o roteiro a quatro mãos com a jovem autora.

Com um título que brinca com a consonância de “true” (verdade, em inglês) e “truie” (leitoa, em francês), “Truismes” conta a história de uma vendedora que, para enriquecer seu patrão, dá aos clientes um tratamento especial em discretas cabines clandestinas. Sob o efeito dos cosméticos que ela recebe em agradecimento a cada balanço, seu corpo começa a sofrer uma lenta modificação: ela percebe seu peso aumentar, sua carne se tornar firme e rosa, seus pêlos endurecerem. A carreira de vendedora-modelo degringola com o surgimento de sintomas menos compatíveis com o comércio sexual: comportamentos alimentares estranhos, atitudes corporais tão inconvenientes quanto um cio suíno incontrolável e caprichoso. Oscilando entre sua aparência suína e humana, a heroína passa por guerras, epidemias, vai parar em um asilo de loucos e dali escapa para se meter num imbroglio de políticos fascistas.

Para falar sobre o romance e o trabalho de adaptação para o cinema, no qual trabalha com Godard, Darrieussecq recebeu a Folha em seu apartamento em Paris.

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Folha – “Truismes” é seu primeiro romance publicado, mas não o primeiro que você escreve…

Marie Darrieussecq – Eu escrevo desde os seis anos, sempre escrevi histórias. Aos seis anos, evidentemente, eu escrevia contos, coisas assim. Com 15, comecei a querer fazer coisas mais elaboradas. “Truismes” é o sexto romance que termino, no qual eu pus um ponto final. Os outros são exercícios, não estão suficientemente maduros para a publicação. “Truismes” é o primeiro que atinge este nível.

Folha – Mas você já recebeu um prêmio literário…

Darrieussecq – Sim, um prêmio por uma novela, quando eu tinha 19 anos, o Prix du Jeune Écrivain (Prêmio do Jovem Escritor). Este prêmio me deu uma certa legitimidade, foi a partir daí que eu comecei a dizer que eu escrevia. Antes, eu não ousava, acho extremamente pretensioso escrever.

Folha – E um belo dia você enviou um manuscrito a um editor…

Darrieussecq – Foi formidável. Fui aceita por quatro editores. Com um primeiro livro, isso acontece uma vez em mil.

Folha – E por que você escolheu a P.O.L., a editora menor e menos conhecida do grande público?

Darrieussecq – Porque, para mim, ela encarna um espírito de independência que não encontro, necessariamente, nos outros editores. O trabalho dela é muito singular, ela edita as coisas de que gosta antes de se perguntar se o livro vai ser vendido ou não. E isto me agrada. Além disto, P.O.L. era a de menor estrutura, eu logo tive um bom contato humano com as pessoas que trabalham lá.

Folha – É verdade que você escreveu “Truismes” em três semanas?

Darrieussecq – Sim, é verdade. Sempre que escrevo, acontece a mesma coisa. Eu tenho uma ideia, que me vem de não sei onde, e começo a sonhar com ela. Eu comecei a sonhar com essa história de uma mulher que se transformava em leitoa. Eu não sabia absolutamente aonde essa história ia me levar, que significado ela tinha. Sonhei com esta ideia durante três meses. Depois, vieram as greves de dezembro de 1995 na França. A confusão em que Paris se transformou não me incomodava em nada, ao contrário. Eu fiquei completamente eufórica, passeando pelas ruas, indo de manifestação em manifestação, numa atmosfera excitante, inimaginável. Logo depois das greves, me veio a voz do personagem, e, quando tenho a voz, tenho tudo, a forma do livro, o estilo. A partir do momento em que encontrei o registro dessa voz, eu me lancei. A redação propriamente dita levou, de fato, seis semanas. Mas, antes, teve esse período de pelo menos três meses de maturação.

Folha – Você não tinha, então, um projeto, uma ideia clara sobre o que ia escrever?

Darrieussecq – Sabia que ia seguir uma transformação. Que haveria uma série de sintomas que eu deveria descrever. Eu não sabia exatamente quais, eles foram surgindo à medida em que fui escrevendo. E sabia que a história terminaria em uma floresta. Era tudo o que sabia. O resto foi aventura. Eu me colocava em uma situação e me perguntava: como ela vai sair dessa? o que eu faria em seu lugar? Esse, aliás, é, para mim, o prazer de escrever. Eu morro de tédio se souber com antecedência o que vai acontecer.

Folha – “Truismes” é a história de um personagem singular ou um perfil da mulher contemporânea?

Darrieussecq – Não, “Truismes” é a história de uma mulher específica. Não cabe a mim interpretá-la, transformá-la em símbolo do que quer que seja. Eu proponho uma história, cabe ao leitor atribuir a ela um sentido. Eu recebo uma quantidade estupenda de cartas. Os leitores vêem no livro coisas que me surpreendem.

Folha – Por exemplo…

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