Pequena Maratona Cinematográfica

Publicado em 17 de janeiro de 2005

Ontem, fiz uma maratona cinematográfica parecida com as que faz Guiu Lamenha. Às 22h, vi Antes do Pôr-do-sol, de Richard Linklater, e, às 24h, Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. Curiosamente, estes filmes comunicam-se e dialogam. Se em Antes do Pôr-do-sol temos um casal lamentando sua juventude e talvez corrigindo-a, em Os Sonhadores temos três jovens convivendo e amando dentro do turbilhão de maio de 1968. Em comum há a juventude, o fato de ambos terem sido filmados em Paris, o bom humor e a descoberta de filmes instigantes e bons, muito bons. Os extraordinários diálogos do primeiro receberam bela resposta na liberdade e ousadia de Bertolucci. Gostei demais dos dois e a prova viva disto é que minha bunda não ficou quadrada após as 4 horas. Saí do Arteplex alegre, animado, querendo conversar.

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Meu início de dezembro foi muito ruim. Aconteceram coisas que nem lhes conto. Neste contexto, fiz um pequeno comentário no blog do Fabrício Carpinejar em que discordava jocosamente da utilização que ele dera à obra-prima de Vermeer “Moça com Brinco de Pérola” ou, como se dizia antigamente, “Moça com Turbante”. Como Fabrício não costuma responder à comentários em seu blog – não teria tempo para mais nada se o fizesse! -, fiquei surpreso ao encontrar esta resposta em meu e-mail. Como a tristeza iguala tudo, não a valorizei muito na época. Hoje, bem melhor, orgulho-me dela. Deveria pô-la num quadro.

oi meu amigo

cordial divergência sempre faz bem, até as que não são cordiais (risos)
eu sempre leio teu blog. é uma das casas que passo no início de meu dia.

Faraco, Monteiro e Backes são grandes amigos. afinidade é escolha.
abraços do teu
Fabrício

Esse negócio do grande poeta me visitar todo dia deve ser exagero ou loucura, mas só o fato de vir aqui de vez em quando me deixa inflado e feliz a mais não poder, ainda mais quando demonstra certo conhecimento das sandices que escrevo. Faraco é, evidentemente, Sergio Faraco, enquanto Monteiro é Fernando Monteiro e Backes é Marcelo Backes. Sou amigo dos dois últimos; Faraco é daquelas pessoas com as quais só converso durante a Feira do Livro, sempre ciceroneado pelo Backes. Nem imagina o meu nome. Mas eu e Fabrício somos admiradores dos três… e da Moça de Vermeer, que volta a meu blog. Não canso dela.

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Minha Caixa de Entrada

Publicado em 30 de setembro de 2004

Minha Inbox é uma pândega. Por lá, entram mais de 100 mensagens diárias de pura porcaria. Porém, também entram aquelas 3 ou 4 que precisam ser lidas. Tive algumas trocas de mensagens que gostaria de tornar posts, mas não faria isto hoje, tarde da noite, pois antes teria que pedir permissão, etc. Trata-se de demonstrações tão grandes de civilidade e gentileza, que, por puro deleite, fico lendo e relendo as mensagens. Elas vieram principalmente da Diana Zeit – minha correspondente mais frequente dos últimos dias -, mas também da Magaly, da Denise Amon, da Claudia, da Mônica, da Rosele, da Helen, etc. Só agora me dei conta de que todas são mulheres.

Hoje estou cansadíssimo da festa e mais ainda do pós-festa de aniversário de minha filha Bárbara. Desta forma, vou revisar um post antigo a que me referi em minha correspondência com a Diana. É um post que se refere a dois adjetivos derivados de nomes de escritores. No caso do balzaquiano tenho 100% de certeza do que falo, já no kafkiano, acho que dou larga margem para eventuais contestações. Quando reli o post, achei-o simplório, muitíssimo abaixo do nível que a Diana sempre propõe em nossos contatos, mas, para mim, é uma curiosidade.

Balzaquianas e Kafkianos.

A Mulher de 30 Anos é um dos piores livros de Honoré de Balzac. É, certamente, o pior que li. Logo ele, um minucioso criador de personagens e tramas, escreveu um história frouxa, desarticulada e meio sem pé nem cabeça – devia estar apressado e premido por dívidas, o que muitas vezes lhe acontecia. Não pensem que tenho restrições à Balzac, poderia citar-lhe uma dúzia de romances perfeitos, porém este é ilegível. Apesar disto, seu belo título inspirou-nos a criar o termo “balzaquiana” no Brasil. Esta palavra, que só existe por aqui, serve para caracterizar as mulheres na faixa dos 30 anos, como no título da obra. Na época de Balzac e mesmo depois, a idade de 30 anos era um turning point decisivo para as mulheres: ou estavam caindo fora do mercado casamenteiro para tornarem-se tias – tolerados fracassos sociais, bem entendido – ou, se estivessem vivendo casamentos infelizes, estavam perplexas ante o irremediável, como é o caso da personagem do romance. Isto excita nossa imaginação, mas…

Dos 17 volumes das obras de Balzac editadas e reeditadas pela Globo (com traduções impecáveis de gente como Mário Quintana, Paulo Rónai, etc.), li uns 12. Posso dizer que as balzaquianas são a exceção da obra de Balzac. As balzaquianas típicas são as jovenzinhas e as tias velhas, nunca as mulheres de 30 anos. Nossa confusão criou uma expressão culta e equivocada… pura fantasia sobre o nome de um livro. O autor não deu maior atenção aos problemas das trintonas.

Porém, além das mulheres balzaquianas, existem as “situações kafkianas”… e este penso ser um equívoco mundial. Cada vez que alguém está numa situação que julga incomprensível, passa a vivenciar uma “situação kafkiana”. Concordo que pequena parte da obra de Kafka seja dedicada a problemas de natureza incompreensível, mas e o resto? O fato literário mais típico e perturbador da obra de Kafka é a revolucionária e insistente utilização da parábola. Esta sim é kafkiana. Segundo o dicionário Aurélio, um dos significados da palavra parábola é o de ser uma Narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior. Não é a descrição perfeita de Franz Kafka?

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Sonho com Marcelo Backes e Blogueiros + Inverno Quente

Publicado em 9 de setembro de 2004

Nossos termômetros chegaram a 36,4 graus e era 7 de setembro. Não temos termômetros malucos, somos apenas gaúchos. Pela manhã, não acreditava no calor que sentia; abri a janela e vi algumas pessoas caminhando com blusas de mangas compridas (estes confiam cegamente no calendário) e outras de camiseta ou sem camisa (os realistas). Eu e as crianças fomos para a piscina, mas é inverno e poucas estavam prontas para uso. Não senti frio algum quando entrei na água. Pensei: é setembro, tenho um monte de coisas por fazer, a Claudia ficou revisando um livro que recém traduziu e eu aqui, brincando de afogar o Bernardo e a Bárbara. Quem sabe volto para casa e dou um jeito de ser produtivo? Não, continuei na piscina.

Como a temperatura subiu, quis mudar de leitura. Ora, se o contexto é outro – calor, piscina, braços e pernas à mostra -, mude-se o livro! Peguei um comprado em Buenos Aires em 1990, El Mago, de John Fowles. Seu início é arrebatador, mas já estão dizendo que vai esfriar no próximo fim de semana e aí voltarei à mistura de Graciliano e Paul Auster em que me encontrava. O jornal decidirá. Abro na previsão do tempo: ficaremos entre 9 e 14 graus no próximo sábado. Sei que o jornal está certo, vivo neste estado há muito tempo e sei o quanto o tempo pode ser louco. I´m going back to Graciliano and Auster.

Há anos não lembro de meus sonhos. Eles se evaporam. Invejo a Claudia quando ela vem me contar o que sonhou logo cedo. Nunca tenho nada para contrapor e fico ouvindo suas histórias delirantes e cheias de ratos. Talvez tenha sido o calor, o fato é que lembrei de um sonho.

O SONHO. O começo é comum ao sonho de todos os brasileiros: ganhei na Megasena. Porém, minha primeira providência foi algo que nunca pensei fazer. Viajei imediatamente à Alemanha, mais exatamente à Freiburg para falar com meu amigo Marcelo Backes. Propus a ele fundarmos uma editora – a Ribeiro & Backes. Eu tinha a grana, estava rico. Instalamos a firma na casa de minha mãe, que é bem grande e logo ficamos com a garagem e todos os cantos cheios de Luiz Ruffato, Sergio Faraco, Fernando Monteiro, Luís Vilela, etc. Reeditamos também clássicos brasileiros em pocket. As capas eram espantosamente belas, como só se vê em sonhos ou na Cosac & Naify. Com Marcelo indicando os livros, conversando e pagando os editores culturais de várias publicações brasileiras e portuguesas, começamos a ganhar notoriedade e dinheiro. Só trabalhávamos à tarde. Pela manhã, tínhamos outras atividades. Por volta das 18h, fazíamos um happy-hour reunindo amigos e champanhe. Lembro de só de uma cena que nos incluía, além da Alda, Claudia, Franklin, Branco, Helen e alguns funcionários desconhecidos.

Um dia, com a bunda posta numa pilha do enorme, notável e nunca traduzido romance Daniel Martin, de John Fowles, um best-seller exclusivo da R & B (já sabem que não me refiro a Rhythm & Blues e sim a Ribeiro & Backes) , propus ao Marcelo lançarmos pockets de blogs. Em meu sonho disse-lhe para ler o Literatus, a Mônica, o Guiu, a Tchela, o Tiagón, a Meg, o Inagaki, a Mafalda Crescida, a Praia no Nelson, o Zadig e a Nora, lembro destes. (Calma, gente, isto é só o começo da coleção e o melhor fica para o final…) Marcelo era contra, mas resolveu aceitar; afinal, eu era o cara do dinheiro e meu plano era de fazer livros baratinhos com 100 páginas no máximo. Algo para se ler em duas horas. A capa da coleção – chamada apenas “Blogs” – era linda. Vi um exemplar do livro do Tiagón: letras pretas sobre fundo laranja: Bereteando com Tiago Casagrande – 50 Posts do Ano da Graça de 2004 e, abaixo, fotos em preto e branco e coloridas com referências à cultura pop. Só que a parte colorida formava um desenho que era plastificado – o restante era fosco – e, quando prestávamos atenção, víamos um pterodáctilo. Quem conhece o Tiago entende o motivo da presença do lagartão. Quando vi esta capa, acordei. Apesar desta descrição, juro-lhes, meus amigos, no meu sonho a capa era linda! Deve ter vendido bem.

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O Leitor Sem Método

Publicado em 5 de maio de 2004

Os livros que compro ou ganho vão sendo devorados aos poucos, obedecendo a uma inexplicável lógica. Durante este ano, tive a sorte de ler em seqüência quatro excelentes livros brasileiros recém-lançados. São eles O Grau Graumann (2002), de Fernando Monteiro; Armada América (2003), idem; Budapeste (2003), de Chico Buarque e As Pernas de Úrsula e Outras Possibilidades (2001), de Claudia Tajes. São romances que não guardam nada em comum entre si, mesmo considerando que temos duas obras de um mesmo autor. Os autores também não, pois se Fernando Monteiro é vítima da injustiça de ser pouco conhecido, Chico Buarque vende milhares de livros e Claudia Tajes é uma jovem gaúcha que vem tendo seus méritos reconhecidos.

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O Grau Graumann, que talvez seja o melhor dos quatro livros, inicia-se com a notícia de que o escritor fictício brasileiro Lúcio Graumann ganhara o Prêmio Nobel de Literatura. Finalmente! Tudo faria crer que teríamos uma curiosa farsa pela frente, mas vamos sendo minuciosamente contrariados pelo pernambucano Monteiro. Graumann não é obra de um escritor que joga para a torcida, é obra de alguém muito sofisticado e inteligente, que possui grande talento e informação literária. Suas quebras e mudanças de foco fazem lembrar William Faulkner, conservando, porém, sua originalidade. Graumann nega-se a dar entrevistas e permanece recluso em uma praia do nordeste; contudo, manda um recado à Folha de São Paulo sugerindo que aceitaria falar com um amigo, o jornalista Mauro Portela. Mauro é um ressentido e aceita o trabalho de free lance mais pelo dinheiro que por interesse no amigo. Procura então inutilmente arrancar algo bombástico ou significativo de um homem dobrado pela doença. O contraste entre uma provável comemoração pelo recebimento do prêmio e a depressão de Graumann é aterrador. Reconheço minhas dificuldades com o que chamo de excesso de verossimilhança de algumas obras. Graumann não é tão terrível quanto Vernônia, de William Kennedy, que é complicado de ler, mesmo sem as imagens de Babenco, mas a soma de Graumann + sua amante + sua fuga + seu “perseguidor” Mauro + o cenário formam um todo desolador. Graumann terá uma “continuação” chamada As Confissões de Lúcio, romance propositalmente quase homônimo ao de Sá-Carneiro, que conterá material iconográfico, tais como fotos, manuscritos, etc. e há ainda a idéia de um terceiro romance, escrito pelo próprio Lúcio Graumann e com capa creditada a ele… Imaginem!

Certamente O Grau Graumann é melhor, todavia meu obtuso ser divertiu-se mais com Armada América. São 14 relatos “americanos”, nos quais Monteiro constrói um significativo mosaico daquele país. Não há aceitação passiva do american way of life, nem inflamados discursos antiamericanos. É um livro dedicado aos americanos comuns, incluídos ou outsiders, e o quadro formado nos mostra um amplo retrato de um país sem muito glamour. Monteiro dá inúmeras demonstrações de um despreocupado virtuosismo, move-se pelo livro utilizando a primeira pessoa do singular. Às vezes, não sabemos claramente quem está contando a história, se um personagem ou outro, ou o próprio autor; no relato Benny Siegel há um inesperado e impagável comentário dirigido ao leitor: trata-se de um elogio quase incrédulo a um parágrafo escrito por… Fernando Monteiro: “Bonito, não?”, diz o narrador, para depois retomar o tom habitual. Por puro vício, esperava que Armada contivesse uma história sobre jazz, mas ela não existe. Errei, mas queria ter acertado. Em e-mail trocado com o autor, submeti a ele algumas observações. Resumidamente, eis sua resposta:

Embora agora lamente que, de fato, falte um relato exclusivamente sobre “jazz” – apesar de que, no segundo, conforme eu ainda não havia notado, haja referências ao jazz etc. -, acho que deveria haver ali uma coisa diretamente relacionada, sim, você tem toda razão…

Do “Graumann”, essa opinião de que é um livro que vai ficando opressivo, eu já a ouvi de outros, e suponho que seja mesmo a direção para a qual o romance se encaminha, conscientemente (como metáfora, inclusive, do fracasso da literatura, entre outras coisas).

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Claudia Tajes é engraçadíssima. Seu livro As Pernas de Úrsula e Outras Possibilidades é pontuado por uma comicidade irresistível. Tajes é boa observadora e usa de ironia e mordacidade para contar a história de um divórcio. Lembram daqueles testes psicológicos das empresas para avaliar nossa capacidade para ocupar um cargo? Uma das perguntas mais freqüentes era: qual sua maior qualidade e seu maior defeito? Sobre Claudia Tajes eu responderia o mesmo para os dois questionamentos: o fato de ser engraçada. E, àqueles psicólogos, diria que nossas maiores qualidades podem tornar-se defeitos quando levadas à exacerbação. Não sei o motivo de tanta vontade de fazer rir (a Síndrome L.F. Verissimo?), mas ela faz questão de duas ou três piadas por parágrafo. Sempre. Então, ao mesmo tempo em que nos entusiasmamos com a criatividade e bom humor do texto, notamos que até em trechos dramáticos há galhofa. Há assuntos que não são tão engraçados e ficam distorcidos quando ridicularizados. Woody Allen escreveu que o fato de ser jocoso sempre pode atrapalhar a narrativa. Allen, para desespero de alguns, retirou de Manhattan algumas cenas que, em sua opinião, prejudicavam a atenção do espectador por sua extrema comicidade. Já Tajes erra quando quer manter um perpétuo “Allegro Molto” mesmo em cenas onde há abandono de amantes e crianças.

Não obstante a crítica, confesso ter dado boas risadas, pois antes ou depois de ser mácula, a veia cômica é virtude.

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O Milton de 2005 reúne-se aos de 2001 e 2003 (IV)

O Milton de 2005 junta-se a seu duplo e triplo mais jovens. Ficam conversando na calçada.

2003: (Hesitante) Vieste nos ver… Vamos saber tudo?
2005: Tudo? Não, não tudo. Tenho só dois anos a mais que tu… Se a vida de um brasileiro médio dura 70 anos, só vivi uns 3% a mais que tu e 6% mais do que o 2001. Vivi 69% do total. Restam 31% que não conheço. Mas sei o que te espera nos próximos dois anos. Não te preocupa, foram bons anos.
2001: Não trouxeste nenhum resultado da Megasena para nós?
2005: (Dá um tapa na cabeça.) Como sou burro! Mas, pensando melhor, se tu ganhasses a Megasena antes de chegar a quem sou hoje… que efeito teria isto sobre mim?
2003: Talvez estivesses com uma aparência menos cansada.
2001: É.
2005: (Rindo) É surpreendente a deselegância a que nossos duplos podem chegar. Estão me achando velho, acabado?
2003: Velho, não; sem dúvida cansado, usadinho.
2005: Podemos entrar ali no shopping depois? Quero ver minha cara num espelho. Estamos trabalhando muito, com planos de construir uma casa. E, quando chegamos em casa, há a Claudia, que é ótima, mas tem uma energia inesgotável. (Os duplos primeiro fazem cara de pasmo, depois sorriem.)
2001: Ela está acabando contigo? Que azar…
2003: Nos sugando a energia?
(Risadas)
2005: Não, não é por aí… É que chego em casa e quero ler, ouvir música como sempre fiz. Mas ela quer fazer planos, têm dúzias de idéias, enquanto que eu não tenho nenhuma… São horas de trabalho que continuam em casa!
2003: O bom da festa é quando chegamos em casa e tiramos os sapatos.
2001: Bêbados, de preferência.
2005: Como se bebêssemos muito… A casa será num terreno do pai da Claudia. O plano é construirmos um pequeno edifício com o irmão dela.
2001: Conte mais!
2005: O Grêmio caiu para a segunda divisão no ano passado.
(Todos riem, felizes)
2003: Que belo futuro nos espera! Mais, mais novidades!
2005: Vamos para a Libertadores no ano que vem. Quase ganhamos o Campeonato deste ano, mas o Corinthians o comprou antes. Ah, e publicamos 1/12 de livro: uma antologiazinha com outros.
2001: 1/12 de livro… Isto torna alguém publicado?
2003: Não.
2005: Claro que não. Mas também não temos a menor vontade de procurar editora. Contam cada história a respeito. Só o fato de ser estigmatizado como “estreante velho” já nos dará engulhos. Mas temos duas novelinhas e um livro de contos dentro do micro.
2001: Faça back-up, viu?
2003: É coisa boa?
2005: Não estou seguro. É bem escrito, mas talvez seja excessivamente cronístico.
2001: Como somos exigentes.
2003: Para que publicar qualquer merda? Já basta o que há.
2003: E nossa mãe?
2005: Alzheimer.
(Silêncio por algum tempo.)


René Magritte – O Duplo Secreto (1927)

2003: E os outros da família? E os amigos?
2005: Os outros estão inteiros.
2003: Mais alguma surpresa?
2005: A Bárbara quer morar conosco.
2003: Poxa, que legal! Que bom. Mas… há problemas entre ela e a mãe?
2005: Ela fala pouco a respeito; evita o leva-e-traz de informações.
2001: Boa menina.
2003: E como ficará isto?
2005: Não tenho a menor idéia, falei sobre as desvantagens que eu tenho a oferecer: casa pequena — atualmente — , expliquei que não vou ficar o tempo todo em casa, que ela ficará sem pátio, que passará as tardes sozinha, mas ela não quer saber, quer vir.
2003: É que há vantagens.
2005: O que tu sabes a respeito disso?
2003: Ora, eu conheço o funcionamento da família da Claudia, principalmente das figuras femininas. Há mulheres de personalidade, inteligentes. Vaidosas, também. São modelos muito sedutores para uma pré-adolescente. Há a Bianca, a Lia, a Claudia, claro, e até a “vódrasta”. Sabe como é.
2001: Discordo. Uma criança de 11 anos como ela em 2005 só quer carinho e atenção. É isso o que damos e daremos a ela e é isso o que ela quer e precisa. Não acredito nesta coisa de “modelos femininos”. Depois, quando ela for maior, talvez a grana que está do outro lado a atraia. Hoje, ela está se lixando.
2003: Que é isso? Por que este ataque a minha filha, digo, nossa filha. Que coisa absurda.
2005: Ele não está nada bem, 2001. Além disso, sabe que a grana em parte ficará lá porque ele botou nossa assinatura boba num monte de papéis que nos apresentaram.
2001: …
2005: Isso tem que mudar, né?
2003: Escute 2005, vamos negociar, da próxima vez que vieres, não dá para trazer uns números da Megasena?
2005: Porra, tu fazes as cagadas, mas só pensa em dinheiro. Até entendo tua loucura por dinheiro depois de sair de uma sessão com a Adriana Vergerus! (*)
(Risadas)
2003: Como vai ela? – pergunta ele rindo a 2001.
2005: (Ainda rindo) Com a diferença de que esta Vergerus não está num filme de Bergman, está na tua frente, te torturando.
2001: Psicológica e financeiramente.
2005: Tirando todo e qualquer advogado do caminho para fazer os acordos.
2003: Mas acaba logo, 2001, haverá muito sofrimento mas acaba. E bem, agora preciso trabalhar para sustentar o 2005 aí.
2001: Digam-me uma coisa: eu poderia ir para o futuro visitar algum de vocês ou só vocês podem vir para 2001?
2003: Só imagino o quanto ficarias confuso, mas acho que não há nada que te impeça. Adoraria te apresentar a Claudia. Vais gostar dela.
2001: Espero que sim.
(Sorrisos)
2005: Talvez fosse melhor não vires, ficarias ansioso por nossas mancadas, que são inevitáveis.
2001: (Alegre) Vou pensar a respeito. E tu, 2005, cuida bem de nós.
2005: Pode deixar.
2003: Quando vamos nos rever?
2005: Qualquer hora destas.

(*) Adriana Vergerus é um nome fictício. Os personagens perversos, assim como os que atraem ou prognosticam o mal nos filmes de Ingmar Bergman têm muitas vezes este sobrenome. Ao longo da obra do maior de todos os cineastas, há mais muitos Vergerus, todos monstruosos, quase todos médicos ou clérigos.

Maiores detalhes sobre os Vergerus e também sobre os Vogler neste post.

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O Milton de Março de 2001 Entrevista o Milton 2003 (III)

O Milton de 2001 saía de um elegante edifício de uma das zonas nobres de Porto Alegre, quando foi novamente abordado por seu mais novo amigo, o Milton de 2003. Eles caminham juntos.

2001: Ah! Demorou mas cumpriste a promessa de me encontrar aqui.
2003: Vim outras vezes na saída da terapia familiar, mas fui embora por medo de que nossa ex me visse.
2001: Tua ex, não minha!
2003: Pode ser, mas imagine o pasmo dela ao me ver.
2001: De que servirá esta terapia?
2003: Bom, sabes que não somos hostis a este tipo de tratamento, mas a presença da shrinker servirá apenas para que a lei seja ignorada (com nossa concordância), para que as crianças fiquem bem (não ficariam sem a terapia?) e para que montássemos nossa agendinha. De qualquer maneira, aprendemos muito lá dentro, sem dúvida. No fundo tudo vale a pena, não?
2001: Vamos mudar de assunto. Podemos falar sobre as tuas perspectivas ou vai me enrolar de novo?
2003: Após a separação ficarás sem dinheiro, sem mulher e sem “um teto todo seu”, entre aspas, como diria Virginia Woolf… A propósito, ficarás até sem A Room of One’s Own (risadas). Portanto, conhecendo tuas péssimas perspectivas a curto prazo, a situação de hoje é muito melhor.
2001: E as contas?
2003: Serão pagas com alguma dificuldade, mas dará tudo certo. Um dia, em 2002, terás um grande chilique, pois nos colocarão no SERASA, mas descobriremos em 5 minutos que foi um engano do Itaú, do qual nos desligaremos imediatamente, é claro. Isto é, nossos atrasos nos pagamentos serão pequenos. Não venderemos carro, sala, nada. Será só aperto.
2001: É, mas fico nervosíssimo com estas coisas.
2003: Ficamos ainda, meu amigo.
2001: E o futuro?
2003: Vejo o futuro com otimismo pela primeira vez em muitos anos. (2001 fica com lágrimas nos olhos, abaixa a cabeça e procura esconder o descontrole. É muito feio se emocionar em público.) Nossa baixa auto-estima será obrigada a recuar e, de certa forma, ficará sem argumentos. Acontecerão muitas coisas boas. Mas por que estás olhando para o outro lado?
(Longo silêncio)
2003: Posso continuar agora?
2001: Sim.
2003: Primeiro começarás a te reeerguer financeiramente; será uma coisa tímida, mas importante. Depois virá a Claudia, que nos apoiará incondicionalmente e auxiliará em tudo, inclusive em nossos projetos. Ela é muito inquieta, na verdade é um furacão. Nem bem planeja e já está agindo. Depois virá o blog…
2001: O que? Vou ser proprietário de uma lavanderia?
2003: (risadas) Blog é a contração de “web logger”, uma forma de publicar na Internet que se tornará muito popular. Mas às vezes vira conversa de lavadeira mesmo… Temos sorte e, em nosso caso, não acontece com freqüência. Em tempo saberás melhor o que é. O importante é que neste tipo de lavanderia poderás te expor da forma que sempre desejaste.
2001: Escrevendo?
2003: É claro.Vamos escrever pequenos textos que serão muito grandes para um blog convencional. Um pequeno grupo de leitores nos lerão, porém são de tão alto nível, que é como se fossem milhares. Quase sempre escreveremos a nosso respeito. Seremos nossos melhores personagens.
2001: Como será o nome do… conjunto da obra?
2003: Milton Ribeiro.
2001: Não poderia ser “Sob minha pele”?
2003: Under my skin? É um belo nome, mas a Doris Lessing escreverá um livro de memórias com este nome, traduzido no Brasil como “Debaixo de Minha Pele”. Acho que Milton Ribeiro está bom.
2001: Quem é aquele que vem lá na esquina?
2003: Não sei.
(Vem ao encontro deles, sorridente, um homem extremamente parecido com a dupla de amigos que conversam. Porém, é mais velho e, não obstante o semblante animado, tem a aparência cansada.)
2001: Eu não acredito!
2005: Bom dia, senhores, já devem adivinhar quem sou, não? Venho de 2005!
(2001 fica feliz. Já 2003, até então senhor da situação, fica visivelmente perturbado. Não esperava por esta.)

(Continua)

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O Milton de 2001 encontra o de 2003 (II)

Na saída do cinema, Milton 2003 aguardava sua versão 2001. Caminham juntos.

2003: Que filme original e triste, né? Gostaria que dissesses algo para que eu pudesse recuperar meu sentimento pós-filme.
2001: O filme é muito bom e comovente, mas não tenho nada de especial para dizer. Acho fantástico o fato de alguém ter tido a coragem de fazer um musical inusitado, realista. É um grande filme. Quem imaginaria Björk – atuando como atriz – e Catherine Deneuve num filme dirigido pelo Lars von Trier? A cena do assassinato coloca a personagem de Björk frente a uma questão sem solução. As duas opções que o homem lhe dá são terríveis e ela escolhe seu filho, é claro.
2003: Não entendo, não ias ver o Henry Fool, que é excelente?
2001: Mudei meu ingresso na última hora, não quis ver o filme de um fracassado.
2003: E então escolheste o da cega?
2001: Sim! (risadas de ambos)
2003: É, nós também escolheremos nossos filhos na separação. Sairemos sem nada. Deixaremos tudo o que pudermos. A intenção será a da busca da tranquilidade mediante uma tremenda auto-agressão, uma coisa inócua a qualquer que um não fosse nós mesmos e que visava demonstrar uma certa nobreza de caráter, uma certa elegância ao estilo século XIX… Será uma tentativa de recomeço aos 44. Logo depois, teremos a certeza de ter cometido um erro. Nosso amigos não entenderão, acharão injusto e até seremos instigados por eles a fazer uma revisão das coisas. Porém, não faremos nada. Talvez o reconhecimento deles baste para nos deixar tranqüilos.
2001: Acho que prefiro assim mesmo. Mas pelo menos vou ficar com os meus livros e CDs, não?
2003: Claro que vais. Vais te livrar das posses, não de ti mesmo. (risadas)
2001: Até porque é meio complicado conseguir uma coisa dessas. Vai ficar alguma coisa minha lá?
2003: Não muito, não será necessária uma troca de prisioneiros em grande escala, até porque vais deixar quase tudo. Além disto, mesmo hoje, as coisas já estão separadas, prontas para a cisão.
2001: Eu quero que tu respondas as perguntas que fiz antes do entrar no cinema. Quero saber das tuas perspectivas, sobre minha situação com esta Claudia, onde vamos morar, etc.?
2003: Novamente estás confuso, peço-te calma. Falaste na mesma frase sobre “minha situação”, “tuas perspectivas” e “onde vamos morar”, são muitas conjugações diferentes.
2001: É que nunca estive conversando com meu duplo futuro…
2003: Me encare como um gêmeo um pouco mais grisalho. Observe como as pessoas não demonstram muita surpresa ao nos ver. Vamos às perguntas: sairás da tua casa para morar com a mãe. Terás muita vergonha de dizer isto.
2001: Como é que é? (Engolindo em seco) Eu vou voltar para casa? Vou dormir no quarto de onde saí para morar sozinho?
2003: Sim. E, apesar da vergonha que terás de teu domicílio e de tua depressão inicial, viverás muito bem lá. Nossa querida Maria Luiza não será invasiva, nem chata e não vai ficar perguntando coisas. Te dará a mais consoladora das hotelarias e a maior liberdade.
2001: Bela peça de propaganda imobiliária…
2003: Não seja injusto. Acabarás enchendo de música e de roupas para lavar e passar a vida de duas velhinhas… As crianças adorarão a casa enorme cheia de quinquilharias e o serviço cinco estrelas que terão. A Inah, a empregada, vai tornar lei cada pedido deles. Dará tudo certo.
2001: E esta Claudia?
2003: Não vou te tirar a surpresa descrevendo-a. Posso te dizer que ficaremos longo tempo em duas casas. Dormiremos fora 5 dias da semana e nos outros dois ficaremos com as crianças na casa da avó. Será uma fase muito cigana, até feliz, se compararmos com o pós-separação. Muitas vezes vamos errar as roupas. Levaremos roupas leves e o dia amanhecerá frio. Então, ficaremos tiritando sob roupas leves e amarrotadas, sempre amarrotadas.
2001: Como vou conhecê-la?
2003: Tu vais ficar muito tempo em casa e te dedicarás à música, à leitura e à Internet. A Claudia virá através da rede, será uma surpresa. Redescobrirás quão grudento podes ser quando apaixonado. Ficarás todo o tempo possível junto dela. Ela está muito presente no capítulo perspectivas.
2001: E as crianças?
2003: Quando souber da Claudia, o Bernardo dirá que tu és um cara legal e que merece ter uma namorada, mas não vai querer conhecê-la logo. Demorará uns 2 meses. A Bárbara ouvirá tudo com aparente frieza, mas, depois de uma semana, perguntará: “Vou ter 2 mães?”, responderás a ela que a Claudia será somente mais uma amiga. Contrariamente ao Dado, ela vai querer conhecê-la imediatamente. Serão amicíssimas. O primeiro encontro das duas será antológico. A Bárbara não falará nada, ficará escondida em seus próprios cabelos, espreitando a novidade.
2001: E as perspectivas? Quais serão meus desejos e planos?
2003: Façamos uma terceira sessão qualquer hora destas.
2001: Por que não agora?
2003: Tenho que voltar. Te encontrarei na saída de uma destas sessões de… terapia familiar. (risadinha infame)
2001: Não entendi a graça.
2003: Se eu te explico o motivo, talvez isto mude nosso futuro. Quero chegar aqui assim, estamos melhor agora.

(Continua)

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O Milton de 2001 encontra o de 2003 (I)

O Milton de 2001 estava sentado num bar, fazendo hora antes de entrar no cinema, quando viu entrar e dirigir-se a ele uma pessoa extremamente parecida consigo, talvez um pouco mais velha.

2003: Como vai, mal?
2001: Sim, muito mal. Quem és tu?
2003: Nós somos o mesmo Milton Ribeiro, só que eu vim de 31 de outubro de 2003 para te visitar e auxiliar. Sei que sofres muito. É muito natural que tenhamos grande apreço um pelo outro. (risada da parte de 2003) Vais te separar, tua vida vai mudar completamente nos próximos meses e eu voltei no tempo para te dizer que sobreviveste.
2001: Putz. Não basta eu estar começando aquela terapia familiar! Ainda me vem um louco…
2003: A terapia familiar só funcionará para as crianças e não somos loucos.
2001: E como poderias me provar que és… eu?
2003: Vou te provar quem sou. Ouça com atenção: nossa primeira relação sexual foi com uma colega de aula chamada Maria Cristina, que morava na Rua Santana e, depois de termos beijado apaixonada e insistentemente a moça – que era esplêndida! – na porta de sua casa, colocamos o dedo indicador em seu peito e a empurramos delicadamente para dentro. Entramos junto, é claro. O ato foi consumado na sala, atrás do sofá, enquanto os familiares dela dormiam com os anjinhos. Tu nunca contaste isto para ninguém.
2001: E tu, já contaste?
2003: Contei para ti agora, mas antes já tinha contado para a Claudia.
2001: Que Claudia?
2003: Uma pessoa que vamos conhecer em 3 de abril de 2002, através de um site.
2001: (risadas) Eu vou conhecer uma pessoa através de um site? Que baixaria!
2003: É surpreendente que digas isto. Principalmente se considerarmos a absoluta convicção com que fizeste… a baixaria.
2001: Tu estás mais gordo e grisalho.
2003: É o tempo, né? Quanto ao peso, discordo. Aumentamos pouca coisa, só dois quilos. Tenho 72 kg, tu tens 70 kg. Para nosso 1,71m está bom.
2001: Minha vida vai melhorar?
2003: Hoje não sofro tanto.
2001: Vou me separar?
2003: Sem dúvida, já disse isto.
2001: Vamos por partes. Quando e como vou me separar?
2003: Em julho de teu ano. Não haverá traição, histeria, grandes cenas, nada. Apenas será dado um ponto final a esta relação indigente. Será o caso clássico, vais pensar seriamente em suicídio e, também de forma clássica, não darás nenhum passo nesta direção. Terás vontade de chorar na frente dos outros ou dentro dos cinemas, farás enormes esforços para se conter; porém, sozinho, não derramarás nenhuma lágrima. Será desespero seco.
2001: E as crianças?
2003: Serão as tuas melhores lembranças do período. Vão te dar apoio e serão indulgentes com tua “nova pobreza”.
2001: Pobreza?
2003: É claro, os ganhos do casal não vão duplicar com a separação e vocês terão de manter duas casas. É uma questão de matemática simples. E saibas que a ausência a que pensas que relegarás teus filhos te deixará muito desprendido de bens materiais, muito despojado.
2001: Acho que eu não quero continuar conversando.
2003: A curiosidade pode matar…
2001: A mágoa mata mais.
2003: É verdade e é um livro do Saul Bellow. (risadas de ambos)
2001: Vou fazer uma pergunta.
2003: Vim aqui para isto.
2001: Hoje tenho a perspectiva que conheces, quero saber qual a perspectiva que terei em 2003. É outra? E quem é esta Claudia? Eu já casei de novo? Onde vou morar?
2003: Calma, estás muito ansioso e tuas perguntas não são inteligentes.
2001: …e… neste ínterim… vou comer muitas mulheres?
2003: Olha, Milton, não quero te atrasar para o cinema, vais adorar este filme. Ele vai para a tua lista de melhores de 2001. Apesar disto, vou te responder a última pergunta: só umas 3. Depois, a Claudia vai te açambarcar…
2003: (risadas) Que bom! Que me devore!

O Milton de 2001 entra na sala escura a fim de ver As Confissões de Henry Fool, de Hal Hartley, enquanto sua versão 2003 some na rua.

(Continua)

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Pela complexidade

Ontem, estourou uma bombinha no twitter: uma irritação feminista contra um texto publicado no blog do Luiz Nassif que citava a palavra feminazi para caracterizar certo gênero de feminismo. É claro que o mau gosto é evidente e que a analogia entre feminismo e nazismo é infelicíssima, até porque, até onde sei, só existe um tipo de nazismo e este é terrível.

A briga no twitter e nos posts levam todos a posições exageradas e falsas. As feministas passam a demonstrar ojeriza e incompreensão para com o jornalista. Ele, dias atrás tão legal, avançado e “de esquerda”, transformou-se num monstro. Em resposta, ele e seus defensores tiram sarro, adotando pontos de vista cada vez mais machistas. Os dois grupos correm para os extremos, empurrados pelas figurinhas carimbadas de sempre. Não penso que nenhum dos dois grupos seja tão enlouquecidamente equivocado. Mas tornaram-se nas últimas horas. É claro que “os machistas” não têm razão, digamos, primária na questão — pois nem eles acreditam que a expressão discutida seja justa — , mas foram levados a defender-se em função dos ataques.

Casualmente, estou deliciando-me com Um teto todo seu, de Virginia Woolf. OK, não é um livro feminista tal como entendemos a palavra hoje, apesar de ser um texto que deixa muito claras as injustas posições da mulher na sociedade das primeiras décadas do século XX — seu tema, na verdade, é “As Mulheres e a Literatura”. Mas a lição de equilíbrio e a noção de que há camadas e mais camadas de complexidades sob o tema fica desnudada no livrinho de VW (138 páginas, na edição que leio). Isso é tudo o que não acontece na briga de bugios (*) ora observada. É notável como os grandes autores que permanecem como referência maiores, são aqueles que não têm soluções ou palavras definitivas. Dostoiévski mostra todos os lados das questões sem escolher nenhum; Tchékhov dá uma sucinta aula cada vez que demonstra que há paixão e motivos profundos até num passar da faca na manteiga; Virginia é mais explícita e parte para o intimismo a cada linha, expondo uma confusão que chega ao ponto de ser gloriosa; Freud é humilde e costumava retificar-se e dar a cara ao tapa a cada duas páginas… E há mais exemplos, muitos mais. Mas os contendores de ontem têm certezas absolutas.

O importante é ofender, é amassar o adversário. Não deixa de ser curioso.

(*) Diz-se da briga ou discussão acalorada entre duas ou mais pessoas, onde o xingamento, o palavrão e as ofensas mais pesadas são usadas contra o outro. Os bugios, quando brigam, usam a própria bosta para atingir o adversário.

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Dmitri Shostakovich (VIII – Final)

Na primeira parte do último texto, escreverei uma pequena introdução sobre meu diletantismo radical de escolher um compositor para passar centenas de horas a lê-lo e ouvi-lo. Há muita coisa boa e muita porcaria publicada. Já as gravações são quase todas boas. Ele não é compositor para músicos diletantes…

Os piores textos vêm daquelas alas que atribuem ou buscam descobrir alguma posição política no homem e na obra. Tais posturas, encontráveis tanto à direita quanto à esquerda, com predominância daquela, servem apenas para mostrar a ideologia de quem escreve, o que, convenhamos, pouco interessa neste caso. Depois de muito ler, fica clara a grande e falsa exposição que Shostakovich obteve durante da Guerra Fria, no Oriente e no Ocidente. Ambos os lados o utilizaram como exemplo de suas teses. Ele e outros intelectuais soviéticos foram espécies de caixas pretas nas quais se podia adesivar as mais diversas opiniões e posições. Não, Shostakovich nem representava o governo soviético, nem esteve ao lado dos dissidentes Soljenítsin e Sakharov. Se teve inúmeras oportunidades de permanecer no Ocidente e não o fez (argumento da esquerda), também sofreu horrores com Jdanov, Stálin e mesmo depois (argumento da direita); se escreveu ironias ao estado soviético (Cantata Rayok, argumento da direita), também cantou o heroísmo da revolução em obras não encomendadas. Shostakovich parece-me ter sido alguém cujo pensamento político possuía pouca relevância e que agia sempre como artista e ponto. Só isso? Não, em minha opinião, ele era um comunista muito crítico e reto, com uma complexa relação de amor e ódio ao poder da URSS. Apenas Stálin era cem por cento abominado. Era um artista, não um político; não seguia as linhas tortuosas, às vezes indefensáveis, que os partidos frequentemente defendem. Utilizou-se de temas de sua época, porém a perspectiva sob a qual via o mundo era, curiosamente, sempre foi a dos mortos. Dos mortos pelos nazistas, pelos anti-semitas, pelos soviéticos, por Stálin ou pelo passar do tempo, como em toda sua obra final. Como escreveu Fernando Monteiro, toda grande obra gira em torno de três temas: Amor, Deus e Morte. Acho que Shostakovich, teve muito a dizer sobre todos, principalmente sobre os dois últimos temas; o primeiro pela inexistência, o segundo pela onipresença.

Aliás, com o passar do tempo — o qual tem o bom costume de fazer aparecer a verdade e o pouco recomendável hábito de fazer desaparecer nossos pobres corpos –, a discussão sobre o pensamento político de Shostakovich tornar-se-á ociosa e ficará o que interessa: o homem e o compositor; e este era um sujeito brilhante e produtivo, deprimido e eufórico, que torcia interminavelmente os dedos, como mostram os filmes soviéticos, sentado num trem olhando a chuva bater na janela; que homenageava a pureza de alguns revolucionários e criticava ou expelia seu amargor e sarcasmo aos governantes; que permanecia parado por horas em silêncio com os amigos de que gostava — e só com eles.

Por falar em gostar, o que gosto em Shostakovich é sua música. Ela é produto de um artista apaixonado e inacreditavelmente produtivo. A forma com que ele se relacionou com seu tempo serviu à sua música e não o contrário. Escrevia para ser compreendido e para expressar-se, mas não tinha ilusões de mudar seu país e o mundo, que é como parece pensar quem só vê política na arte de Shostakovich. Sua música, antiquada para os modernos e moderna para os anacrônicos (sem ofensas, sem ofensas…), consegue ser visceral e cerebral, e concordo com este artigo quando seu autor fala no quanto a audição de Shostakovich demandou-lhe subjetivamente. Não é música para ser assimilada nas primeiras abordagens e nem esquecida facilmente. São experiências oferecidas por alguém disposto a buscar tudo o que estivesse à mão para expressar o que desejava e que produziu uma obra séria, sarcástica, deprimente, divertida, inteligente, lúdica e extraordinária: às vezes, tudo ao mesmo tempo.

A seguir, comento as três últimas grandes obras de Shostakovich.

Quarteto de Cordas Nº 14, Op. 142 (1972-73)

Este é quase um quarteto para violoncelo solo e trio de cordas, tal é a proeminência dada àquele instrumento. É um quarteto inspiradíssimo, escrito em três movimentos (Allegretto – Adagio – Allegretto), e que tem seu centro dramático em um dilacerante adagio de 9 minutos. Não consigo imaginar uma audição deste quarteto sem a audição em seqüência do Nº 15. Eles, que costumam aparecer juntos, seja em vinil ou em CD, formam, em minha imaginação, uma só música.

Quarteto de Cordas Nº 15, Op. 144 (1974)

Este trabalho, assim como a sonata a seguir, são tidas como obras-primas e seriam os dois principais “réquiens privados” de Shostakovich. Concordo.

O que dizer de um obra escrita em seis movimentos, em que quatro deles são adagio e os outros dois são adagio molto, sendo que, destes dois últimos, um é uma marcha funeral e outro um epílogo…? Ora, no mínimo que é lenta. Porém, como estamos falando do Shostakovich final, estamos falando de uma obra que tem como fundo a morte. Há três movimentos realmente notáveis nesta música: a Serenata: Adagio, a Marcha Fúnebre – Adagio Molto e o musicalmente espetacular Epílogo – Adagio Molto. O Epílogo recebeu vários arranjos sinfônicos e costuma aparecer — separadamente ou não do resto do quarteto — em gravações orquestrais.

Sonata para Viola e piano, Op. 147 (1975) – A Última Composição

Esta é a última composição de Shostakovich e uma de minhas preferidas. Ele começou a escrevê-la em 25 de junho de 1975 e, apesar de ter sido hospitalizado por problemas no coração e nos pulmões neste ínterim, terminou a primeira versão rapidamente, em 6 de julho. Para piorar, os problemas ortopédicos voltaram: “Eu tinha dificuldades para escrever com minha mão direita, foi muito complicado, mas consegui terminar a Sonata para Viola e Piano”. Depois, passou um mês revisando o trabalho em meio aos novos episódios de ordem médica que o levaram a falecer em 9 de agosto.

Sentindo a proximidade da morte, Shostakovich escreveu que procurava repetir a postura estóica de Mussorgsky, que teria enfrentado o inevitável sem auto-comiseração. E, ao ouvirmos esta Sonata, parece que temos mesmo de volta alguma luz dentro da tristeza das últimas obras. A intenção era a de que o primeiro movimento fosse uma espécie de conto, o segundo um scherzo e o terceiro um adágio em homenagem a Beethoven. O resultado é arrasadoramente belo com o som encorpado da viola dominando a sonata.

Os primeiros compassos da Sonata ao Luar, de Beethoven, uma obra que Shostakovich frequentemente executava quando jovem pianista, é citada repetidamente no terceiro movimento, sempre de forma levemente transformada e arrepiante, ao menos no meu caso… O scherzo possui uma marcha e vários motivos dançantes, retirados de uma outra ópera baseada em Gógol — seria sua segunda ópera composta sobre histórias do ucraniano, pois, na sua juventude ele já escrevera O Nariz (1929) — que tinha sido abandonada há mais de trinta anos. Outras alusões são feitas nesta sonata. Há pequenas citações da 9ª Sinfonia (de Shostakovich), da 4ª de Tchaikovski, da 5ª de Beethoven, da Sonata Op.110 de Beethoven, de Stravinsky, Mahler e Brahms. E a abertura da Sonata utiliza trecho do Concerto para Violino de Alban Berg, também conhecido pelo nome de “À memória de um anjo”, o qual é dedicado à filha de Alma Mahler, Manon, morta aos 18 anos, com poliomielite.

Creio não ser apenas invenção deste ouvinte- – há uma constante interferência do inexorável nesta música, talvez sugerida pela intromissão de temas de outros compositores na partitura, talvez sugerida pela atmosfera melancólica da sonata, talvez por meu conhecimento de que ouço um réquiem. O fato é que Shostakovich estava aguardando.

Shostakovich morreu sem ouvir a sonata, que foi estreada num concerto privado no dia 25 de setembro de 1975, data em que faria 69 anos.

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António Barbeiro Fala Francamente a João Cunha

À medida que nossa história avança, chegam-me notícias cada vez mais surpreendentes de Portugal. Em meu post anterior, dizia-lhes que António Barbeiro nunca existira. Não é verdade. Rogério Simões transcreveu nos comentários de meu post anterior um texto de seu pai, hoje com de 82 anos: trata-se de uma nota biográfica de um certo amigo seu chamado João Barbeiro. Este é, sem tirar nem pôr, António Barbeiro. Isto fez com que este humilde escriba pensasse nas vantagens e desvantagens de dividir esta história em capítulos. O lado positivo é a participação dos leitores corrigindo fatos e sugerindo episódios para a trama; o lado negativo é que, quando me apontam os erros, estes já foram publicados e lidos por meus 7 fiéis leitores. Antes de voltar à história, faço uma referência ao que escreveu Ery Roberto: concordo que o episódio com o vô João Cunha parece coisa saída de Dias Gomes – parece mesmo! -, só que este João Cunha é meu avô materno (meu nome completo é Milton Luiz Cunha Ribeiro) e o fato realmente aconteceu entre 1966 e 1969, ano de sua morte.

(continuação do post anterior)

O Dr. João Cunha não era dado a grandes expansões, era da espécie dos homens de poucas palavras, daqueles que preferem demonstrar sua amizade e solidariedade mais por atos concretos do que verbalmente. Não era tosco ou indiferente, era apenas silencioso. Tinha noção de que a presença de António em Cruz Alta era mais do que estranha, mas não comentaria com ninguém suas suspeitas, nem procuraria confirmá-las com o português. E suas suspeitas não eram graves: na sua opinião, António Barbeiro fugira de Portugal por motivos políticos e, naquela época, podia-se ser preso por pertencer ao proscrito Partido Comunista, por falar mal de algum potentado da cidade ou até por salpicar tchekoviana e involuntariamente um general com um espirro. Havia que obedecer e ponto final. E João Cunha intuía que António não era homem de simplesmente obedecer.

O episódio com o vô João Cunha havia aberto a porta da política nas relações entre os dois amigos. Passaram a conversar sobre os problemas de Brasil e Portugal e, pouco a pouco, António foi contando sobre sua ativa participação na vida de Pampilhosa da Serra. Era o responsável pelo Posto dos Correios da aldeia, era um dos poucos homens sabia ler na cidade, possuía livros de medicina onde estavam escritas as composições dos medicamentos que receitava (!) e tornara-se o principal “médico” de Pampilhosa e das povoações das redondezas. Depois contou que participara da Comissão de Melhoramentos, que conseguira implementar o Lavadouro Público, assim como a abertura da mina na fonte velha. Administrara a canalização para a fonte nova e aí já estávamos no âmbito da burocracia, dos escritórios, das solicitações e da política, no âmbito da necessária adulação e dos pagamentos aos homens responsáveis pelos recursos e para isto não servia António Barbeiro.

Então, uma noite, recebeu uma visita de um colega dos correios. Este lhe anunciou atropeladamente que alguns homens em Lisboa haviam feito perguntas sobre o tal Barbeiro que pontificava na aldeia e que, segundo eles, era um enviado de Moscou que desejava “libertar o povo” e implantar o voto feminino. António, que também não era tosco, sabia que havia chegado o momento de partir.

João ouviu muito pouco surpreso o relato; é certo que não conhecia as circunstâncias, mas já imaginava seu cerne. O que não esperava era o pedido de António:

— João, necessito de teu auxílio, preciso de uma nova identidade para voltar à Portugal.

Ora, o corretíssimo João Cunha jamais imaginara fazer algum ato ilícito em sua vida e era uma espécie de campeão do anticomunismo na cidade, então as obrigações da amizade com António faria-lhe passar várias noites em claro. Sua honestidade era indiscutível, era uma espécie de reserva moral de sua família e da cidade. Esta característica não costumava gerar-lhe vantagens, antes gerava convites para que participasse do Conselho de clubes de futebol ou sociais de Cruz Alta, tarefas que sempre recusava educadamente. Ao mesmo tempo, seu caráter estava sendo desafiado pela imperiosa necessidade de ajudar um amigo, o melhor deles, aquele com quem conversava até altas horas da noite, seu parceiro no rádio-amador e o amigo da família preferido de suas crianças, especialmente da mais nova, Lilinha.

Um dia, João Cunha foi a Porto Alegre com a filha Iara que prestaria exame vestibular na Universidade Federal. Como do seu feitio, não disse nada a António, mas em Porto Alegre tinha planos de conversar com um político cruzaltense situacionista sobre um passaporte e uma carteira de identidade autênticos — isto é, emitidos pela Secretaria de Segurança Pública — e perfeitamente falsos.

(continua)

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António Barbeiro Volta a Escrever Cartas (II)

Este interessante projecto, continuado no Brasil, poderia ter uma continuidade interessante…
Enquanto o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, se aventurava à procura por Antares, no Rio Grande do Sul, a sua família, que desconhecia o seu paradeiro, sofria na Serra.
Certo dia, o António, escreveu uma carta em segredo para um parente da sua confiança em Lisboa. A família quando soube que o António estava vivo… partiu a pé para Fátima…
Até breve…

(continuação de post anterior)

António continuou na barbearia ouvindo seus clientes. Gostava de suas histórias e, quando emudeciam, estimulava-os falando do tempo, das crianças que não cuidavam ao atravessar a rua, da inflação, do dólar, oferecia-lhes jornais, o que sempre fazia com que comentassem alguma notícia. E que dias eram aqueles! Com os meios de comunicação sob censura, parte das acontecimentos eram inevitavelmente coloridos pelas imaginações dos clientes.

Certa manhã, ocorreu um fato cômico e triste. O pai do Dr. João Cunha era um octogenário aposentado que sofria do Mal de Alzheimer. Durante sua vida ativa, fora um daqueles “construtores da casas sem diploma” e marceneiro. Eram de sua autoria muitas das residências de estilo açoriano que havia na cidade. Porém, na época de António, este homem às vezes não reconhecia mais nem seus netos e passava seus dias dizendo inumeráveis (e memoráveis) sandices. Em seus curtos momentos de lucidez, tinha o hábito de comentar política e de recitar de memória poesias de Casimiro de Abreu – o único poeta que lera com paixão durante sua vida. Pois, numa manhã nublada, vô João Cunha plantou-se bem em frente ao quartel do 17º Regimento de Infantaria com a finalidade de atacar os militares e mudar os rumos do país. A primeira fase de sua estratégia incluía um notável discurso contra a ditadura naquele local. Como era muito cedo da manhã, o orador não tivera tempo de vestir-se e apresentava-se ainda de pijamas. António — que aquela hora matinal estava barbeando um militar — tomara um susto ao ouvir inesperadamente a poderosa voz do velho iniciando seu ataque:

— Parasitas da Nação! Saiam de suas tocas e venham expor seus motivos! O fechamento do Congresso Nacional…

Quando o barbeiro viu de quem se tratava, correu a alertar João Cunha pelo telefone:

— Meu amigo! Seu pai está aqui a apostrofar os milicos! Quer briga! Ainda está de pijama; penso que acordou e veio enfrentá-los. Os milicos estão rindo dele, mas tens que tirá-lo daqui. Pode haver tumulto.

João deixou um cliente de boca aberta na cadeira de dentista para ir buscar o pai em seu Aero-Willys. Ao chegar, viu o velho, o barbeiro, alguns populares e militares frente ao portão aberto. Todos estavam sorridentes, exceto o indignado velho e António, que procurava convencê-lo calmamente a voltar para casa. Quando João Cunha saiu às pressas do carro, um dos militares gritou:

– Ô, Dr. João! Teu pai está organizando a reação comunista aqui na frente do quartel! Acho que já já vai chamar seus guerrilheiros!

Todos riram — os militares autenticamente, os populares para agradar ao piadista. Vô João Cunha continuava:

— Desrespeito, desrespeito, corrupção e violência! Esta é a verdadeira ideologia…
— Chega, pai! Vamos para casa!

O velho calou-se imediatamente, estava acostumado a obedecê-lo. Mas, ainda trêmulo, só aceitou voltar para a casa com uma condição.

— Tira este português maricas de perto de mim. Já me basta os milicos.

Depois deste episódio, as militares sempre referiam-se à terrível ameaça representada pelo velho João Cunha. António apenas ouvia, evitando falar sobre a política brasileira ou portuguesa. Também evitava pensar em Portugal e nos amigos que deixara, porém a saudade insinuava-se lenta no peito. Começou pela comida: passou a sonhar com pratos como cabrito recheado na telha ou como trutas à moda de manteigas, antecedidos de uma sopa beirã e seguidos de tigeladas ou filhozes. Passou a buscar em vão locais na cidade em que a gastronomia fugisse do cardápio habitual da região. Neste período, também caminhava pela cidade escrevendo mentalmente cartas a seus amigos em que descrevia longa e amorosamente a região onde se encontrava e apresentava seu amigo João Cunha e outros a qualquer destinatário português do qual sentisse saudade. E estes — os destinatários — eram muitos. Pedia em troca notícias dos amigos, principalmente de Manoel Martins Ribeiro, de Maria Branco, de Rogério Simões e de alguns de seus pacientes.

O nome Maria Branco ficou-lhe impresso e o próximo passo foi o de refletir em como poderia entrar em contato com ela de forma incógnita. Maria era sua melhor amiga. Ora, se escrevesse para Manoel Ribeiro, que morava em Lisboa, e lhe pedisse para que mandasse uma carta em seu nome para Maria, contando suas aventuras… Ou melhor, se colocasse em um mesmo envelope duas cartas, uma explicativa para Manoel e outra para Maria e pedisse para que Manoel repassasse sua carta para Maria utilizando seu nome como remetente…

Decidiu-se. Escreveu cuidadosamente as duas cartas. Nelas, contava sobre sua amizade com João Cunha, sobre a gastronomia local, informava detalhadamente todos os seus passos que seguira até Cruz Alta e pedia à Maria o favor do qual dependia sua tranquilidade:

Maria, querida. Avise os meus que estou bem. Fiz amigos no Brasil e pretendo aqui ficar pelo tempo necessário aos esbirros me esquecerem. Diga que morro a cada dia de saudades, que estou em uma pequena cidade, que se visse o mar ficaria melhor, que detesto a comida, que tenho bons amigos e que um dia volto.

(continua)

(1) O texto em itálico lá do início é de autoria de Rogério Simões. O restante é meu.
(2) Todos os personagens citados nesta história são reais, à exceção do personagem principal António Barbeiro. Maria Branco e Rogério Simões são blogueiros e os restantes são parentes meus de Cruz Alta.

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A Chegada de António Barbeiro ao Brasil (I)

António Barbeiro é um personagem criado pelo poeta português Rogério Simões. Ele permitiu que eu desse continuidade à história de seu personagem António, notável escritor de cartas e, é claro, barbeiro. Transcrevo a seguir um pequeno texto de Simões no qual ele nos apresenta António. Ele jamais imaginaria onde António foi reaparecer…

O António da minha imaginação era um homem notável — barbeiro de profissão e médico-enfermeiro nas horas vagas. António buscou o saber nos velhos livros de medicina e, porque era letrado — poucos na sua Aldeia aprenderam a escrever — , escrevia e lia as cartas do povo. Mas António “Barbeiro” gostava de ouvir! (Os barbeiros escutam sempre e nem sussurram as confidências!).

E, mal tardasse a noite, pé ante pé como se fosse um salteador, acendia o velho aparelho que sintonizava a Rádio Moscovo. António era um homem prevenido. À noite colocava por cima do rádio um copo de água e no silêncio das quatro paredes se a telefonia emitia uns silvos esquisitos, baixava o som até quase não ouvir:

— Não viesse por ali algum “bufo”para o denunciar ou agente da polícia politica para o levar.

Mas o “Barbeiro” que sabia tanto… procurava descobrir na onda curta, da telefonia, o que as emissoras oficiais não lhes contavam. Foi por isso que ouviu dizer que os comunistas iriam libertar o povo e que as mulheres iriam votar…

Talvez por isso que o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, escrevia “abusivamente” nas entrelinhas, algumas linhas, com recados pessoais para quem eram dirigidas as cartas. Certa noite, de intensa tempestade, o António Barbeiro desapareceu e ninguém mais o viu vivo! Dizem na Aldeia que conhecia os caminhos como ninguém!

António chegou de navio ao Rio de Janeiro num dia ensolarado de verão. Gostava do calor e, após hospedar-se num hotel barato, saiu pela cidade. Em frente à Biblioteca Nacional, comprou um mapa do Brasil e começou a procurar por Santa Fé, no Rio Grande do Sul. Tinha lido O Continente e O Retrato, de Erico Verissimo, e decidira que moraria novamente em uma pequena cidade, exatamente naquela. Só que não encontrou Santa Fé no mapa. Estava encantado com a beleza do Rio, mas achava muito óbvio ficar naquele cidade cheia de portugueses. Mesmo que seu sotaque ficasse mais evidente numa cidade pequena, ele pensava que seria melhor ficar afastado. Entrou na Biblioteca Nacional e puxou conversa com um dos atendentes. Achou estranho seu nome, Hudson, mas como ele falava bom português, perguntou sobre a localização de Santa Fé. Foram aos livros e nada. Deve ser uma verdade ficcional, disse Hudson. António achou a expressão cômica. Voltou ao hotel para — dentre as poucas coisas que trouxera às pressas de Portugal — procurar seu exemplar de O Continente. Amava os livros de Erico, mas não sabia onde ele tinha nascido. Descobriu que o autor nascera em Cruz Alta e vivia em Porto Alegre, ambas cidades no estado do Rio Grande do Sul. A última era uma cidade pequena. Iria para lá.

Esperava que Cruz Alta não fosse mais aquele faroeste descrito por

Comprou passagens para o sul e, dois dias depois, estava chacoalhando dentro de um ônibus. Dormiu uma noite em Porto Alegre e embarcou em novo ônibus com destino à cidade natal daquele escritor que fazia os mortos saírem de suas tumbas a fim de enfrentar os poderosos do dia, pois só eles teriam coragem para tanto.

Cruz Alta era como ele imaginara. Caminhou pelas ruas tranquilas e sentou-se na praça principal. As pessoas que passavam o cumprimentavam. Não havia ali espaço para o anonimato e logo sentiu-se alvo de olhares. Pensou que deveria entabular conversação com alguém que não lhe criasse problemas, mas que havia tempo para fazê-lo com calma. Em frente à praça, havia um consultório dentário onde se lia: João Nepomuceno Cunha Filho — Cirurgião Dentista. Gostou daquele nome e algo difuso — talvez a cor da casa, sua localização, as letras da placa de metal — , dizia-lhe tratar-se de alguém confiável, de boa instrução, amigo; alguém semelhante a Erico. Falaria com aquele homem.

Esperou até o final da tarde e, quando concluiu que o último cliente entrara, sentou-se na ampla sala de espera. Ao despedir-se de sua vítima, o Dr. João Cunha surpreendeu-se com aquela figura desconhecida e sorridente encarapitado no sofá.

— Como vai? — disse o dentista.

A resposta de António fez com que João Cunha risse, pois o que menos esperava era ouvir aquele sotaque puramente português.

— O senhor fala como meus amigos de Portugal!
— Ah, sim? O doutor tem muitos amigos portugueses?
— Sim, tenho amigo por todo o lado sem nunca ter ido muito longe daqui. Sou rádio-amador.
— Que interessante!

O português tinha boa conversa e João convidou-o para ir fumar na praça. Lá ficaram até às oito da noite, quando Débora, a esposa do dentista, veio chamar-lhe para o jantar. A curiosidade era mútua; António interessou-se por aquele dentista interiorano que desejava ser cosmopolita, enquanto João ficara encantado com aquele português tão informado que fora parar ali apenas por amor ao famoso filho da cidade.

— Onde o senhor está hospedado? — perguntou-lhe João Cunha.
— Estou no Hotel Santa Helena – respondeu António. – Convido o senhor a visitar-me. Devo encontrar um Adriano na cidade para oferecer-lhe.

João Cunha riu.

Ao entardecer do dia seguinte, o dentista abriu as cortinas de sua casa e viu António na praça com um jornal enrolado nas mãos. E assim ocorreu dia após dia. António passou a frequentar a casa do doutor — às vezes ficava operando sozinho o rádio-amador — , brincava com seus filhos e até passou a fazer-lhe a barba e a cortar o cabelo de seu filho João Reinaldo, sempre na cadeira de dentista. Em Cruz Alta, o rádio-amador servia de sucedâneo para as cartas que tinha deixado de escrever, mas tinha receio de procurar a Rádio Moscou. Com jeito, sem informar seu nome, perguntava aos rádio-amadores portugueses sobre as novidades do país. O que informavam — com todo o cuidado e muitas vezes através de intrincadas analogias — era deprimente. Certo dia, João perguntou-lhe se ele não desejava voltar a trabalhar.

Era o que António queria ou, mais exatamente, precisava. Não tinha vindo de Portugal com tanto dinheiro e necessitava voltar logo à ativa.

– Adoraria, João.
– Há uma barbearia perto do 17º Regimento de Infantaria. A casa é de minha familia e o barbeiro me paga aluguel. Quer dizer, paga quando quer e pode. Há dois quartos atrás que estão desocupados. O homem que trabalha lá — de nome Orlando — é um bêbado e os milicos não o suportam. Dou um jeito de te colocar lá. Vocês podem trabalhar lado a lado. Haverá freguesia para isto.

– Este homem tem família?
– É sustentado por uma santa, a Dora. Vou resolver o caso para ti.

Alguns dias depois, António voltou a trabalhar. A princípio trabalhava pouco, pois os militares o preteriam em favor do conhecido Orlando. Com António a seu lado, Orlando teve seu último período de abstinência, voltando a trabalhar sóbrio; depois, quando percebeu que António “roubaria” pouco a pouco a maior parte de sua clientela, voltou a beber. A qualidade principal de um barbeiro, segundo António, era, além de proporcionar um bom corte, a audição. António, que não apreciava muito os militares, logo notou que os dirigentes do país adoravam fazer bravatas e confidências que, somente em suas bocas, tinham o poder de alterar o rumo da vida de toda a gente. O que António não sabia é que sua amizade com o Dr. João Cunha e o pouco que falava sobre livros e Europa estavam tornando o barbeiro português uma respeitável figura da cidade. Todos queriam seus serviços, o que significava, para António, que todos desejavam ser ouvidos por ele.

E António ouvia.

(continua)

O António Barbeiro
(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)

Maria.
Espero que ao receberes esta carta estejas bem que nós por cá vamos na graça de Deus.
Recebi a tua última carta onde me dizias palavras lindas, como só tu sabes dizer, e com ela vinha a senha para levantar o cabaz das mercearias que nos mandaste pela camioneta.
Já recebemos a encomenda, estava tudo bem, mas escusavas de te incomodar.
Aqui na terra tudo vai como no costume.
A cabra da Ti Rosário entrou na horta e foi dar cabo da vinha do “tê” pai.
Ouvimos dizer que o Ti Chico fugiu para França. Que raio é que deu ao homem que tinha aqui tanto mato para roçar.
O Zé do fundo do lugar, coitado, é que não teve a mesma sorte. A família dele está de luto! Morreu de uma bala ao atravessar a fronteira. Mas esse, coitado, não tinha aqui de comer. Agora que vai ser dos filhos dele. É assim! Temos de nos conformar…
Maria! Vieram-me contar, (aqui na terra há cá umas mexeriqueiras), que estás apaixonada e que até lhe escreveste, numa carta, umas sem vergonhas.
Vê lá que eu nem queria acreditar. A TI Aninhas, que é cá uma coscuvilheira, pediu ao primo que trabalha aí em Lisboa para descobrir se era verdade.
Sabes lá: o Ti Manel da estiva, que é um magano, roubou a carta ao teu namorado.
Maria – nem sabes a vergonha por que estamos a passar. Ainda se fosses um rapaz… mas logo uma menina tão bem educada que fez a comunhão e tudo
Aproveito para te mandar uma cópia da carta que o barbeiro copiou.
Vê lá se a escreveste, pois quero desmentir o povo.
Desculpa a letra mas o Ti António barbeiro cortou-se na navalha.
Por hoje não tenho mais para te dizer. Espero a tua resposta na volta do correio.
Beijos da tua mãe

Maria Desculpa a letra e não ligues tudo vai passar.
Ouvi dizer na Rádio Moscovo que a PIDE vai ser corrida pelos comunistas e que as mulheres irão votar.
Por favor queima a carta e manda-me um frasco de “Pitralon” que depois pago.
Este que se assina
António Barbeiro.

(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)
Rogério Martins Simões.

P.S:
Estes desenhos da alma foram construídos a partir de um comentário que escrevi directamente a um texto, lindo de amor, que a amiga Maria, do antigo blog “Cumplicidades” escreveu.
Mas a Maria já respondeu! E escreveu à sua mãe uma linda carta.
Afinal porque estava na Cidade e não se preocupou com as “linguareiras”

Resposta da Maria na volta do correio
Mãe, Sim estou apaixonada. A carta que te chegou às mãos, minha querida mãe, fala de um amor imenso, puro e que me faz tão feliz. Por isso minha mãe te peço, fica feliz por a tua filha conhecer o amor, por a tua filha se viver em felicidade.
Sabes mãe, não conheço outra forma de viver que não através dele, e isso minha mãe, aprendi contigo. Por isso te peço, ignora o povo, e não sintas nunca vergonha. O amor não se vive dela. Nada do que consta nessa carta são sem vergonhas, minha mãe.
Lê, repara em cada palavra, em cada sentir que elas revelam, não é isso que é a vida minha mãe?
Não é assim que deveríamos todos viver, no amor? Acredito que se todos se vivessem nele, saberiam compreender, e com toda a certeza o mundo seria muito mais humano, estariam todos muito mais disponíveis para os outros. Não concordas? Não desmintas, mãe. Confirma que foi a tua filha que a escreveu. E não ligues à voz do povo, o importante não é que saibas que a tua filha, está bem? Da filha que te ama…
(Resposta escrita por Maria Branco, Blog Cumplicidades, a quem agradeço)

Mas a Maria esqueceu o “Petralon”, para a barba, que o Ti António Barbeiro pediu.
Mas o bom António quando a carta chegou já não a leu.
O narrador volta a chamar pelo poeta

Aos Homens grandes
O António que escreveu as cartas à Maria era um homem notável: barbeiro de profissão, médico-enfermeiro nas horas vagas.
António foi buscar o saber nos velhos livros de medicina, e, porque era letrado – poucos na sua Aldeia aprenderam a escrever – lia e escrevia as cartas do povo que não sabia ler nem escrever.
Mas o António “Barbeiro” gostava de ouvir!
(Os barbeiros escutam sempre e nem sussurram as confidências!),
Mal tarde tardasse a noite, pé ante pé, como se fosse um salteador, acendia o velho aparelho e de novo sintonizava a Rádio Moscovo.
António era um homem prevenido. À noite colocava por cima do rádio um copo de água e se no silêncio das quatro paredes a telefonia emitisse uns silvos esquisitos, baixava o som até quase não se ouvir:
– Não viesse por ali algum “bufo” para o denunciar e agente da polícia política para o levar.
Mas o “Barbeiro” que sabia tanto procurava descobrir na onda curta, da telefonia, o que as emissoras oficiais não lhes contavam.
Foi assim que ouviu dizer, aos comunistas, que iriam libertar o povo e que as mulheres iriam votar
Talvez por isso, o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, escrevia abusivamente nas entrelinhas, algumas linhas, com recados pessoais para quem eram dirigidas as cartas.
Certa noite de intensa tempestade o António Barbeiro desapareceu e ninguém mais o viu vivo!
Dizem na Aldeia que conhecia os caminhos como ninguém!
(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)
À Maria Branco o meu agradecimento por completar este diálogo.

Rogério Martins Simões.
(Homenagem póstuma ao Ti João Barbeiro da Póvoa, amigo de meu pai e que ainda conheci)
(Esta história foi continuada no Brasil por Milton Ribeiro)

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A Indústria do Elogio e A Arte do Combate

Publicado em 9 de outubro de 2003

Ia escrever sobre o blog português O Meu Pipi, mas, por pura sorte, entrei antes no blog do Inagaki e vi que ele já o fizera. Fica prá próxima, pois assunto é o que não falta.

Sempre me preocupa o fato de que há um sistema de “compra de comentários elogiosos” na blogosfera. A coisa funciona assim: eu visito um blog e escrevo um elogio, então o recebedor do afago fica em dívida comigo e se obriga a retribuir minha visita; nesta ocasião, ele convenientemente se desmancha de amores por meu último post. É isto. Gosto muito de visitar blogs e de deixar comentários neles. Fico feliz quando abro qualquer de meus blogs preferidos e vejo que há post novo. Estou no esquema, mas tenho muitas restrições.

Vou fazer uma confissão: confesso que – algumas vezes – me comportei como Machado de Assis quando escrevia sobre as obras de seus amigos: busco algo de positivo nos posts que leio e deixo de lado o que me desgosta. E, quando não encontro nada de positivo, simplesmente vou embora. Não creio ter sido hipócrita a ponto de elogiar o que detestei ou o que não li. Mas já fiquei muitas vezes intrigado ao receber comentários laudatórios que ignoravam e até contrariavam a tese defendida por meu texto. Ou seja, os autores das pequenas notas não haviam lido o post… Isto é uma temeridade, pois o maior interessado em ler o comentário é a pessoa que mais conhece o post.

Voltando a meu assunto. A esmagadora maioria dos blogueiros só comenta para louvar. Entramos nos blogs alheios como se entrássemos numa sala de estar desconhecida e formal, onde devemos nos comportar com fineza. Temos apenas sorrisos para nossos anfitriões e, se eles cometem uma gafe, voltamos pudicamente o rosto para o lado. Só que não estamos entrando na sala de estar de outrem, o blog é um espaço público onde há exposição e pode haver, eventualmente, críticas. Qualquer um que se exponha está sujeito a críticas, seja ele artista, jogador de futebol ou blogueiro. Se não temos intimidade com o anfitrião, é natural que sejamos educados, agradáveis e indulgentes, mas não é muito natural mantermos esta postura para quem não está “fazendo sala” para nós, mas sim opinando, poetizando, fantasiando, inventando, criando. Isto é, ficamos sorrindo para um anfitrião que se comporta como um louco. Em quatro meses de blog, posso dizer que recebi apenas um comentário discordante, obra do citado Inagaki. Ele foi veemente ao defender uma opinião contrária à minha. Não houve ofensa, nem repercussão, apenas discordamos cordialmente e permanecemos amigos e leitores mútuos. Outro blogueiro, o Zadig, me confidenciou que evita deixar comentários quando não gosta do post, é uma opção que o protege da hipocrisia.

Já eu devo ter lido centenas de posts que achei detestáveis, mas somente combati quando percebia que o dono do blog era muito inteligente e aberto ao contraponto. Ousei discordar do genial Pro Tensão – e não aconteceu nada -, do Ladeira da Memória (que espero seja reativado logo) – e não aconteceu nada -, do Literatus – a Andréa até agradeceu a interferência e, dias depois, convidou-me para escrever um artigo para o site literário de uma de suas clientes -, etc. Ou seja, não precisamos viver da indústria do elogio. Nossos grupos de comentários se ampliarão ou diminuirão com ou sem eles.

Mas por que estou pensando nisto? Por analogia à obra que meu amigo Marcelo Backes – um imenso intelectual gaúcho que está morando na Alemanha – lançará nos próximos dias pela editora paulista Boitempo. Ele abandonou temporária ou definitivamente suas excelentes traduções de Kafka, Goethe, Heine, etc., e escreveu o livro “A Arte do Combate”. No ano passado, durante sua visita anual ao Brasil, ele me comentou que julgava asquerosa a forma como os escritores gaúchos falavam da genialidade de seus colegas, por literariamente díspares e intimamente hostis que fossem. Não interessa a obra, o escritor X publica elogios rasgados a Y e fica esperando que venha a contrapartida. Um dia ela virá. Backes recusa-se a participar deste esquema, pois a eliminação da crítica e da pluralidade de opiniões não servem à literatura e só se justificam para enganar o público, fazendo-o comprar obras de segunda categoria. Na Alemanha, segundo Backes, a coisa é muito diferente. Os escritores combatem por suas opiniões e o resultado é uma das melhores literaturas da Europa, certamente muito acima da francesa e italiana, por exemplo. Não sou ingênuo a ponto de achar que apenas isto crie uma grande literatura, mas acredito que eventuais “combates” entre seus protagonistas não a prejudiquem.

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Mônica acorda, Paulo pragueja, Adriana seduz, Marcos viaja (fragmento)

Mônica acordou lentamente com a luz da manhã entrando por sua janela. Deitada ainda, seu rosto estava voltado para o céu nublado, o que fazia seus olhos parecerem muito úmidos e claros. Tinha 40 anos e gostava deste despertar lento e preguiçoso. Sempre evitara trabalhar cedo; alguns pensavam que ela ou tinha dificuldades para dormir ou tinha uma vida noturna movimentada demais para sair de casa cedo. Raramente alguém estranho a tinha visto em pé antes das 10h da manhã.

Sem virar o corpo, tateou atrás de si para assegurar-se da ausência do marido. Estava sozinha e a comissura de seus lábios denunciaram um leve sorriso. Durante o dia, aquele era o único momento todo dela, em que podia ficar apenas lendo, ouvindo música muito baixo ou pensando… Movo-me no vago plano estético da literatura. O que o autor desejará de mim hoje? Sorrindo a tais pensamentos, conjeturava sobre a agenda do dia, até que os barulhos da casa começam a chegar até ela. Reconhece o som de sua mãe caminhando pelo corredor, depois o da porta do banheiro, descarga, pia, escovar de dentes, porta do banheiro novamente e o som da cadeira de balanço. Por que sentou-se antes de tomar café?

Decide não preocupar-se com isto e estende o corpo para pegar a biografia do pianista Glenn Gould que está sobre o criado-mudo. Abre o livro na página 105 e lê. Desde o início de sua carreira de concertos, Gould falava bastante em abandoná-la. Fecha o livro e vira-se, deitada agora de costas, olhando o teto. O silêncio do quarto era um obstáculo às palavras.

~o~

Sou um homem pequeno, culto e pacífico. Raramente altero meu tom de voz gentil e cortês. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mantenho uma postura tranquila. Na verdade, minha gentileza é tão completa que tenho o costume de atrair todas as desgraças e culpas para minha pequena pessoa. Isto me torna alguém muito adequado para certos amigos e mulheres. Esta disposição é belamente ornamentada por meu aspecto físico. Parece ser mais simples culpar alguém que — além de gentil — é pequeno. Minha extrema gentileza retarda ou extingue qualquer reação de minha parte e, mesmo que reagisse descontroladamente — com uma agressão física, por exemplo — penso que causaria mais surpresa do que lesões a um homem comum. Há momentos em que me torno irritadiço e exacerbado. Mas só consigo chegar a este estado quando solitário.

É bom que lhes diga que tenho absoluta necessidade de não criar uma imagem própria que seja muito diferente da realidade. Da que represento. Às vezes, me atrapalho ao oscilar entre a gentileza de não querer magoar e a franqueza de não distorcer, coisas que estão entre minhas mais imperiosas necessidades internas. Tão imperiosas que muitas vezes hesito e deixo minhas frases pela metade.

Estou vivendo temporariamente com uma mulher bem maior do que eu, em todos os sentidos. Sim, meus amigos, ligar minha vida a alguém fisicamente tão abundante, com uma personalidade tão magnífica, com uma inteligência tão abrangente e com um poder econômico tão avassalador foi, no mínimo, uma imodéstia, pois sou diminuto em todos estes quesitos. Deixei-me levar pela euforia de ter-lhe conquistado a confiança. Ela queria um filho imediatamente, estava na idade de tê-lo. Temos um filho.

(continua?)

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Uma Incrível Coincidência (Fernando Monteiro, Herbert Caro, eu…)

Post publicado em algum dia de 2003 em meu antigo blog

Tenho certeza de que você que lê já leu Herbert Caro. Certeza absoluta! Mas você terá que chegar ao terceiro parágrafo para comprovar.

Estava dialogando por e-mail com o escritor pernambucano Fernando Monteiro – importante: minha imensa admiração por Fernando precede nosso contato, vim a conhecê-lo após elogiá-lo aqui neste blog e não o contrário, OK? -, quando fiz uma carinhosa referência a meu falecido amigo Herbert Caro. Conheci o Dr. Caro numa loja de discos eruditos de Porto Alegre, a King`s Discos. Lá, eu, ele, o Júlio – que trabalhava na loja – e outros, tínhamos um encontro não marcado mas sempre repetido aos sábados pela manhã. Nós, o grupo dos tarados por música, ficávamos ouvindo as novidades e aprendendo com a inacreditável sabedoria do velho. Quando o conheci, ele já devia ter mais de 70 anos. Não lembro em que ano morreu, deve ter sido entre 1986 e 1990. Creio que Caro não viu a falência do jornal Correio do Povo, onde por décadas publicou suas compreensivas (expressão dele) e lindamente escritas críticas musicais. Como convivi com ele entre meus 20 e 30 anos, era tratado pelo mestre como a criança curiosa que era. Ele tinha atenção especial para comigo e o Júlio, os jovens do grupo, e gostava de me orientar na obra de meus amados Bach e filhos, Mozart, Brahms e Beethoven. Deu-me alguns discos, sempre sob o pretexto de servirem como comprovação de suas opiniões, nunca pelos motivos reais, que eram a consideração, a amizade e o carinho. Era alemão.

Chamávamos o Dr. Caro de “Doktor Carro”, apelido de duplo sentido, pois ao mesmo tempo em que nos referíamos a seu forte sotaque, homenageávamos o grande tradutor de Doutor Fausto (Doktor Faustus) e A Montanha Mágica de Thomas Mann, Auto-de-fé de Elias Canetti, A Morte de Virgílio de Hermann Broch, O Lobo da Estepe e Sidarta de Hermann Hesse, etc. Ele era conhecido por ser de difícil trato, mas gostava de nós e creio que nos levava livres – a mim e ao Júlio – por receio de nossa ironia. Uma vez, pareceu-nos que ele auto-elogiava a tradução (a qual é impecável, insuperável) de A Montanha Mágica (uma obra-prima!) e nós começamos a falar sobre a inutilidade de se traduzir uma bosta de livro em que nada acontecia, em que as pessoas ficavam falando sobre o tempo, doenças, guerra e que inaugurava o riquíssimo e “arborescente” gênero do erotismo tuberculoso… (Se você não entendeu isto, leia o livro!) Depois começamos a falar sobre a “metáfora da Europa” contida na obra e a bobajada alcançou níveis planetários. Viram? Para nós, era facílimo conversar com ele. Ele primeiro ficava com aquela cara escandalizada de alemão rígido: estão-brincando-com-algo-que-é-sagrado-para-mim. Depois dava gargalhadas conosco. Voltava todos os sábados para nos ensinar e, eventualmente, para apanhar mais um pouquinho.

Pois bem, no meu e-mail para o Fernando, falei qualquer coisa sobre o velho e ele me respondeu assim:

(…)
Caro: que coincidência você ter sido amigo do Caro, personagem num capítulo (que estou anexando) de “As Confissões de Lúcio”. Se o quiser, pode divulgar o capítulo – ou a parte do Caro, nele – no blog.
(…)

Quer dizer que Fernando Monteiro, lá de Recife, põe como personagem em seu romance inédito As Confissões de Lúcio meu amigo Herbert “Carro”? Abaixo está a comprovação. A seguir, pois, tenho a honra de apresentar-lhes um trecho do capítulo Falenas na Sombra, de As Confissões de Lúcio. Notem (1) como o personagem Lúcio Graumann apelida Caro de “Herr Graal” – é claro que Fernando e Lúcio ignoravam o “Doktor Carro”! -, (2) como o Fernando refere-se em seu texto à “metáfora da Europa” e (3) aproveitem para medir o calibre do escritor Fernando Monteiro:

Essa anotação eu lera ainda na praia da Paraíba. Havia sentado sobre o papel, na rede de Acaú (Lúcio o deixara amassado sob o calor de febre do seu corpo magro naquele descanso menos estreito do que parecia, e mais cheio de areia e detritos do que se esperava). Quando descobri o papel, pensei – não sei porque – nas três ou quatro vezes (um recorde!) em que havíamos saído para beber no bar de um alemão, próximo da redação do Correio porto-alegrense… o que não era garantia nenhuma de conversa fluente, de piadas, do humor leve de sextas-feiras nas quais você ouve e é ouvido sem grande atenção, alguém entra, você acena, retoma o fio da conversa que não se crispa e o mais. Não, com Lúcio talvez nunca fosse assim, ao contrário, embora não fosse um “chato” (eu, pelo menos, não achava), mas ao se usar a palavra “chato” talvez alguém quisesse referir aquela intensidade dos prisioneiros, isto é, uma conversa meio fixa e fiel a coisas que seguiam no centro do seu interesse, indiferente à indiferença da bebida, da diversão “organizada” como uma suspensão sem maior responsabilidade: um balão desinflado com fritas, uma coisa que pudesse ser esquecida como um jornal dobrado no banco de trás de um táxi. Claro, ele tinha humor – mas seu humor respondia só às convocações rápidas, breves. Herbert Caro compreendia bem esse humor – quando brigavam dentro e fora da redação do Correio cheia de falsos “humorados”. Caro muitas vezes alongou o jogo dos jogos de palavras que fazia com Lúcio, ao tempo das traduções que “Herr Graal” (como ele o chamava) admirava e, eventualmente, corrigia aqui e ali, em algum tijolaço do idioma de Mann fundindo dois vocábulos com a sombra do terceiro como a águia sobre os picos nevados da montanha mágica disputando a visão da alma ingênua de Hans Castorp que não tinha humor, acusava Graumann, e Herbert respondia que era burrice de Lúcio não ver o humor de Mann naquele grau de exarcebação do “espírito monótono” que, no fundo, era de Heinrich e não de Thomas, como se poderia pensar do nariz degaulleano do prêmio Nobel refugiado na América para escapar da “parentada” de Graumann (uma estocada de Caro, suponho que dirigida aos ascendentes maternos, aos Braun cheios de loura burrice responsável por queimar livros em praças públicas)…

Seria um verdadeiro sanatório – e não uma metáfora da Europa – se a vertente “Heinrich” houvesse escrito o livro fascinante justamente por ser de um homem destinado a compreender tudo tarde, depois que as coisas se tornavam irremediáveis (respondia Caro, seriamente, às provocações de Graumann), e Lúcio poderia sorrir, mudar de assunto, contar uma piada – isso não seria o esperado e, contudo, quando a contasse, seria com inesperada graça, sem grande empenho, é verdade, mas com certa graça engraçada até por ter um quê de deslocada… sem no entanto riscar o vidro daquela intensidade do humor que se oculta na “seriedade” – o mesmo caso de Mann? – e que corresponde bem a uma pitada de humor secreto (não sei se isso poderá ser perfeitamente entendido por quem tenha sempre procurado ou preferido os amáveis palhaços de um escritório, Graumann não teria sido jamais um deles) manifestando-se no meio de uma roda como aquela do Correio dos velhos tempos, posso até rever a cabeça inclinada de Caro e a de Lúcio, por sua vez, no seu “ponto de parada”, naquilo que não correspondia a uma dessas pausas que se faz buscando a “aprovação” de algum raro conviva ainda mais ensimesmado, ou surpreendendo – então – por qualquer participação súbita e perfeitamente ajustada…

Observação aos incautos: Heinrich Mann é, por assim dizer, o irmão escrachado de Thomas Mann. É autor do livro Professor Unrat que, rebatizado para O Anjo Azul (Der Blaue Engel), tornou-se o filme-base da carreira de Marlene Dietrich.

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Weblogger e E-mail Surpreendente

Publicado em 30 de setembro de 2003. Vejam como são as coisas…

Sexta-feira, num momento de loucura, resolvi tornar-me assinante do Weblogger. Por R$ 9,90 mensais, eu seria feliz, receberia suporte e serviços diferenciados. Como prêmio pela assinatura, imediatamente os comentários de meu blog deixaram de funcionar. O problema verificou-se na própria sexta e estendeu-se por todo o fim de semana. Quem deu o sinal foi minha irmã, que iria viajar, mas antes desejava deixar um carinho para a Bárbara nos comentários. Não conseguiu. No dia seguinte, telefonei para o Terra atrás do “suporte diferenciado” e eles lavaram as mãos: o Weblogger é uma parceria deles e eu teria que deixar uma mensagem no “Fale Conosco” do site. Até domingo à noite, eu tinha sido olimpicamente ignorado. Somente hoje, segunda-feira, recebi um atencioso e-mail dizendo que tudo estava regularizado. Vou testar.

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Porém, na madrugada de sábado para domingo, fui ver se havia novidades no blog e na caixa de correspondência. O blog continuava na mesma, mas alguns de meus 6 leitores haviam mandado e-mails na impossibilidade de comentários. Havia um novo entre eles… Era simplesmente de Fernando Monteiro, escritor brasileiro, autor do grande Aspades, ETs, etc. (1997). Ele agradecia uma pequena referência (de meia linha) que lhe havia feito no blog e dizia que tinha lido alguns de meus textos. Elogiou-os com imerecida sabedoria, demonstrando claramente que os lera e ainda desejou um feliz aniversário para Bárbara… Inflei, subi aos ares e, feliz como o diabo, dirigi-me ao berço como Linda Blair em “O Exorcista”. Acordei a Claudia para contar-lhe a novidade – ela fez ahã para tudo (no outro dia não lembrava de nada) – e fui dormir muito bem.

Aspades tem trajetória e argumento curiosos. Depois de escrevê-lo, o pernambucano Fernando Monteiro submeteu-o a diversas editoras brasileiras. A maioria delas nem se dignou a responder. Ele ficou a ver navios e, talvez inspirado por eles – os navios, bem entendido -, enviou seu livro a uma editora portuguesa. De lá, não somente recebeu atenção, recebeu também aceitação, e depois publicação e elogios. Só então a brasileira Record resolveu lançar o “inédito” em nosso país… Não fosse triste, daria para rir. Aspades ficou famoso em Portugal, enquanto nós nem imaginávamos sua existência.

A parte principal do livro é a biografia íntima de um cineasta fictício, Vasco Aspades do Carmo. A história pessoal de Aspades se embaralha com sua obra. Acabo de usar o verbo “embaralha” e este talvez nos faça pensar num livro obscuro e complicado, mas não é nada disto. Sua vida e intenções como criador nos são apresentadas em texto de primeira linha, elegante, poético e livre de lugares comuns. Depois, há uma narrativa que seria parte do espólio intelectual do cineasta, já morto. Ao final, há uma série de narrativas curtas, aparentemente desconectadas de Aspades, e que devem ter deixado os editores brasileiros transtornados, apesar de sua perfeita lógica interna. Para esta parte do livro, talvez seja melhor acolher o conselho de Isak Dinesen e aceitar que, em contato com literatura genuína, não é mau renunciar à total compreensão de um texto. O fato de ter sido multirejeitado diz muito sobre a inteligência de nossas editoras. Se fosse você, eu leria Aspades, ETs, etc. não só para estabelecer contato com a obra de Fernando Monteiro, mas para ter o ganho secundário de constatar até onde a burrice e a falta de convivência com a cultura nos pode levar.

Outros livros de Fernando Monteiro:
– A Cabeça no Fundo do Entulho (1999) – Prêmio Bravo! de Literatura
– T. E. Lawrence: Morte num Ano de Sombra (2000)
– A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro (2001)
– O Grau Graumann (2002)

(Um amigo bastante confiável recomendou-me os dois últimos, principalmente Graumann. Acabo de comprá-los.)

Abaixo, coloco trecho de uma entrevista com Fernando Monteiro, onde ele nos explica o surgimento de Aspades. Ciao, até a próxima.

Em outubro de 1995, num sábado, sentei diante do micro e comecei a escrever sobre uma pessoa fictícia, um português, cineasta, intelectual – assim como se iniciasse um ensaio sobre Antonioni, Resnais, Manuel de Oliveira… Vi o homem, claramente: podia dizer onde tinha nascido, como penteava o cabelo com a mão espalmada… e logo estavam vindo os títulos de alguns dos seus filmes. Escrevi 22 laudas nesse primeiro sábado – e, como estava estreando no manejo do computador, acionei algum comando errado… e apagaram-se todas as 22 páginas. Fiquei desesperado. Achava que tinha começado uma “obra-prima”, que tinha perdido o começo do livro definitivo… Entrei em pânico. E resolvi desistir da história, perdida, do cineasta fictício.

No sábado seguinte, no entanto, sentei de novo diante do teclado do micro, e, aí, mudando completamente o tom que havia usado na primeira tentativa, refiz um caminho de pedras, sem nada da sensação estranha daquelas 22 páginas escritas sem quase levantar da cadeira. Reencontrei o cineasta Vasco Aspades pelo caminho pedregoso do esforço cerebral e consciente, e ele foi voltando a tomar corpo diante de mim, eu sinceramente acreditando na “sua” vida, nos “seus” motivos, nas “suas” idéias sobre os filmes e a vida.

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José e Pilar e os outros

Foi um belo fim-de-semana. Começou lá na sexta-feira com o jantar com a dupla Nikelen Witter e Luís Augusto Farinatti e terminou com o esplêndido documentário José e Pilar. Os dois casais foram entremeados por um filme notável: Código Desconhecido, de Michael Haneke, que, se não é o maior diretor de cinema vivo, merece figurar em qualquer lista que utilize a contundência como critério. Este Código e A Fita Branca são filmes de qualidade indiscutível, penso.

Mas voltemos à sexta-feira. Eu estava exausto de um dia de ar condicionado estragado no Sul21, porém a conversa inteligente, o vinho e a gentileza novamente viraram o jogo a favor de todos. Foi tudo muito agradável e civilizado. Minha filha Bárbara fez o resumo da noite dizendo que achava muito bom ouvir pessoas cultas conversarem. OK, só que acho que a sedução que exercemos sobre ela (já me incluí no “exercemos”, né?) é a de que falamos sobre política e temos posições que já são as dela. De certa forma, nós — apesar de não sermos nada grandiosos — mais ou menos justificamos aquilo uma forma de pensar o mundo. Fico me sentindo culpado por não ter feito referência nenhuma à visita do Ramiro Conceição lá no início do ano, mas aquela era uma fase triste de minha história recente…

José e Pilar não é um filme que fale muito da obra de Saramago, fala mais da repercussão dela, da rotina de um Nobel famoso e de seu relacionamento com a mulher amada, Pilar del Río. Olha, é um documentário estupendo como cinema. Resultado de quatro anos de filmagens — entre 2006 e 2009 — tem como pano de fundo a criação da romance A Viagem do Elefante e a doença do escritor. Saramago, absolutamente inteligente e erudito em suas palestras e livros, mostra uma face mais relaxada e íntima no excelente filme de Miguel Gonçalves Mendes. O filme me foi 100% satisfatório, mas tenho a impressão de que o diretor considerou que o público tivesse conhecimento prévio da vida do autor. Fica inexplicada a forma peculiar que tomaram com Saramago as eternas restrições portuguesas e brasileiras àqueles que se distinguem, fica inexplicado o justificado ódio com que Pilar del Río trata um jornalista português — merecia muito mais — , assim como a natureza de certo silêncio que o “Portugal oficial” tratou de cercar Saramago.

A mim isto não fez falta nenhuma, mas talvez um observador inexperiente ou marciano não entenda bem o gênero da estupidez envolvida. O fato é que “minhas mulheres” resumem muito bem tudo. Na saída do cinema, a Claudia, encantada com o filme, disse: “Como é bom a gente ouvir alguém brilhante que pensa parecido com a gente!”.

Finalizando: por falar em estupidez, o cinema nacional agora trata de investir na religião. Os trailers pré-José e Pilar foram todos dedicados a espécimes do novo cinema religioso nacional. Comparados aos argentinos, estamos cada vez mais fodidos — saímos da chanchada para a religião. Nada mais próximo. O contraste dos trailers com os 125 minutos seguintes de Saramago foi absolutamente desconcertante. Para sofrer este choque estético, vá ao Arteplex 2 de Porto Alegre antes que mudem.

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Dmitri Shostakovich (VII) – Os Anos Finais e a Fixação na Morte

As obras do período final da vida de Shostakovich foram compostas sobre um e apenas um assunto: a morte. Ele parecia inteiramente fixado no tema e não é exagero nenhum dizer-se que todas as obras, a partir do opus que comento abaixo, são fundamentalmente sobre a morte. E notem que algumas sinfonias e outras obras anteriores também o eram. O compositor sofreu um ataque cardíaco em 1966, mas desde antes já sofria de uma doença degenerativa que ainda hoje é tema de discussões médicas. A propósito, no dia 27 de setembro de 2006, dois dias após o centenário de seu nascimento, haveria em Londres um seminário sobre sua obra dentro do qual, entre eventos mais agradáveis, médicos se reuniriam com o público a fim de revelar new medical evidences. Ou seja, ninguém sabe exatamente do que sofria Shostakovich. O que se sabe é que, no final dos anos 50, o compositor deixara o piano por dores e descontrole dos movimentos de sua mão direita. Sabe-se mais: o grande Robert Craft, ao conhecer Shostakovich em 1962, disse que “ele era o mais tímido e nervoso ser humano que jamais conhecera”, que “passava todo o tempo mexendo com as mãos e ajeitando os óculos” e que “às vezes, parecia feliz para, no minuto seguinte, estar pronto para chorar”. Rostropovich declarou que, em seus anos finais, Shostakovich apenas desejava “a presença de uma pessoa de quem gostasse, sentada com ele em silêncio, em seu quarto”. Enquanto a doença e a angústia progrediam, Shostakovich era adulado e aclamado em todo o mundo. Não apenas Craft foi conhecê-lo, mas também Benjamim Britten ia visitá-lo e acabaram tão amigos que a Sinfonia Nº 14 é muito influenciada por Britten.

Estes paradoxos entre doença acrescida de angústia e homenagens de onde surgiam novas amizades permaneceram até final da vida de um compositor que seguia produzindo música da melhor qualidade, porém, repito, inteiramente voltada para a morte. A partir da Sinfonia Nº 11, o que temos é a maior e melhor produção de música lúgubre, com explosões de alegria e sarcasmo aqui e ali. Dentro deste espírito, seguem as obras-primas.

Sinfonia Nº 14, Op. 135 (1969)

A Sinfonia Nº 14 — espécie de ciclo de canções — foi dedicada a Britten, que a estreou em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte. O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em A la Santé, An Delvig e A Morte do Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em Les Attentives, ao grotesco em Réponse des Cosaques Zaporogues e à evocação dramática de Loreley. É uma música que trabalha para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para torná-la mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema, mas sempre a ouvi em russo. Então, já que não entendo esta língua, tenho que ouvi-la ao mesmo tempo em que leio uma tradução dos poemas. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis. Não está entre minhas obras preferidas, porém são indiscutíveis seus méritos musicais e sua extrema sinceridade. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca e a estranha Conclusão (Schluss-Stück) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e — puxa vida — muito, mas muito final.

Quarteto Nº 13, Op. 138 (1970)

Um pouco menos funéreo que a Sinfonia Nº 14, este quarteto foi escrito nos intervalos do tratamento ortopédico que conseguiu devolver-lhe do parte do movimento das mãos e antes do segundo ataque cardíaco. O décimo-terceiro quarteto é um longo e triste adágio de cerca de vinte minutos. O quarteto foi dedicado ao violista Vadim Borisovsky, do Quarteto Beethoven, e a viola não somente abre o quarteto como é seu instrumento principal. Trata-se de um belo quarteto cuja tranquilidade só é quebrada por um pequeno scherzando estranhamente aparentado do bebop (sim, isso mesmo).

Sinfonia Nº 15, Op. 141 (1971)

Sem dúvida, a Sinfonia Nº 15 é uma de minhas preferidas no gênero. É difícil estabelecer um conteúdo programático para ela. Trata-se de uma música muito viva, com colorido orquestral atraente, temas facilmente assimiláveis e nada triviais, clímax e pausas meditativas que empolgam e mantém o ouvinte permanentemente atento. E com os contrastes inesperados característicos de Shostakovich. Parece um roteiro de Shakespeare passado à música, trazendo o trágico ao festivo, empurrando a reflexão para junto da zombaria. Bom, já viram que sou um apaixonado desta sinfonia. O primeiro movimento (Allegretto) é uma curiosidade por manter sempre ativo o motivo da cavalgada da abertura Guilherme Tell, de Rossini, e pela participação incessante da percussão. O segundo movimento (Adagio) é circunspecto. Os metais trazem uma melodia sombria, para depois o violoncelo completá-la com um solo dilacerante, a cujas cores será acrescida, mais adiante, a ressonância do contrabaixo. Um novo Alegretto surge repentinamente do Adagio, retomando o clima do primeiro movimento, mas desta vez somos levados pelos solos do fagote, violino, clarinete e flautim. O movimento final, outro adagio, é enigmático. A simbologia está presente com a apresentação de imediato do Prenúncio da Morte, composto por Wagner para a Tetralogia do Anel. O ouvinte wagneriano fica desconcertado ao escutar de imediato esta música conhecida, parece tratar-se de um equívoco, de um erro de partitura. Ao pesado motivo de Wagner são contrapostos temas executados por setores “mais leves” da orquestra, porém, a todo instante, o sinistro aviso retorna e, mais adiante, os metais refletirão angustiada exasperação… A sinfonia esvai-se em delicados sons de percussão, deixando um ponto de interrogação no ar. É desconcertante. O significado do Prenúncio da Morte é óbvio, porém, o que significam a percussão, a orquestração e as melodias jocosas que o cercam? Uma simples experiência sinfônica? Impossível. O desejo de felicidade de alguém cuja vida se encerra? Ou, voltando a Shakespeare, que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa (*)? Porém, a significação, a intenção exata de uma obra instrumental é tão importante? Ou seria mais inteligente fazer como fez Shostakovich, levando-nos bem próximo ao irrespondível para nos abandonar por lá?

(*) Macbeth, William Shakespeare.

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Telma Scherer, o ciclista e as confusões da Feira do Livro

Na última sexta-feira, entre 18 e 20 horas, enquanto fazia a performance “Não alimente o escritor“, presa a uma casinha de cachorro, a escritora e performer Telma Scherer foi enxotada da Feira com alguma truculência. Com problemas financeiros reais, muito triste — como afirma com escarrada clareza no vídeo abaixo — e não sendo absolutamente doida varrida, Telma acabou vítima da Brigada Militar. Foi levada num camburão para um posto da instituição, sob a vaga acusação de perturbar a ordem e desobedecer a ordem pública, legal, etc.

Eu já sabia do fato, mas só dei-lhe a devida importância quando, segunda-feira, vi um ciclista ser expulso da Feira do Livro com agressividade bem maior do que a utilizada contra Telma Scherer. O menino estava atrapalhando mesmo, caminhando entre as barracas empurrando sua bicicleta e até justificava algumas reclamações de quem se chocava contra a bicicleta. Merecia, no máximo, uma advertência da autoridade, pois, imaginemos, ele estava com aquele capacete meio ridículo dos ciclistas e óculos escuros, talvez viesse de longe e com pouco dinheiro para comprar alguns pockets. Era caso para um tratamento indulgente e educado. Porém o que ocorreu é que ele foi literalmente abalroado por um brigadiano que veio de longe aos gritos de “Para o lado, para o lado”. Como o menino não reagiu imediatamente — custou a ser dar conta que a gritaria era com ele — , o homem seguiu gritando e empurrou o ciclista, que antes apenas olhava com interesse os livros com sua bicicleta. Foi uma cena feia.

Ora, nós estamos numa Feira do Livro. Há estátua de Drummond e Quintana, havia escritores dando palestras sobre ficção russa e um americano falava sobre Clarice Lispector. É um espaço cultural e, goste-se ou não, aprove-se ou não, o anônimo ciclista e a escritora deprimida (com razão, com razão) que resolveu expressar-se em praça pública, devem ser tratados com a gentileza e civilidade que o evento pressupõe. É incrível que após 56 anos anos de Feira não haja um protocolo entre a Câmara Riograndense do Livro e a Brigada Militar para que seus soldados não tratem o povo da Feira como se fossem gente  armada vendendo drogas, apesar de alguns títulos que vi. É incrível que após 56 anos ainda não foi criado um espaço de arte e diálogo a poucos metros de distância da programação oficial. É uma total falta de sensilidade.

Eu tenho críticas à Feira do livro — a oferta de livros muito rotineiros a tornam uma enorme, comum e nauseante livraria média; há nela cada vez mais um perfume de quermesse; há alunos de escolas fazendo passeios bobos sem aproveitar o MARGS, o Memorial, o Erico Verissimo, a Casa de Cultura e o Santander Cultural que estão ao lado — , mas sou grande apreciador das muitas palestras e dos balaios. Como experiente frequentador de um evento que este ano teve 1,7 milhão de pessoas e recorde de vendas (411 mil exemplares vendidos numa capital média como a nossa), afirmo com segurança que tanto Telma quando meu ciclista não atrapalham em absoluto e sim dão um colorido peculiar de protesto e casualidade que deveria ser uma das qualidades da Feira do Livro.

Acho que a Brigada Militar está mais acostumada ao MST que, sem cobertura maior da imprensa, deve receber ordens e detenções sem a menor explicação… Também sou de opinião que a Câmara faz um belo trabalho que deve ser melhorado e que não tem relação com os abusos da polícia da desgovernadora. E, bem, acho que nem preciso declarar minha solidariedade à bonita Telma nem ao anônimo ciclista, né? Só não sei se eles voltarão à Feira, se acham mesmo que ela serve para a promoção da leitura e que é um “espaço cultural”.

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