Sons, Blogs, Literatura e Poesia Descosturadas num Post Curto e Confuso

Publicado em 3 de agosto de 2007

Em 2003, publiquei um post de boa repercussão sobre a Rádio da UFRGS. Uma amiga minha, ao ler aquele post, repassou-o a sua mailing list da UFRGS e isto foi fatal. O Departamento de Artes inteiro leu, até os aposentados da Universidade leram. Sofri alguns ataques de estudantes, mas sabia que tinha razão e, mais importante, a rádio mudou, adequando-se magicamente ao que eu tinha pedido.

Achava que tudo tinha sido casual, talvez tivesse ocorrido uma mudança já planejada, sei lá. Isto até ontem, quando uma funcionária da rádio sentou-se na minha frente por razões profissionais e descobriu que era eu o autor da “bomba”. Soube que o post havia sido discutido longamente, que eu era detestado por alguns e amado por outros e que a rádio aceitara alguns de meus argumentos.

A rádio anda otimamente bem com seu jovem programador, sobre quem tenho uma história estranha. Um dia, lá no início de 2005, quis fazer uma entrevista ao vivo ou por escrito com ele; tal entrevista serviria como uma espécie de reconciliação com a rádio, porém, quando ele soube que eu era o autor daquelas críticas de 2003, tratou de fugiu de mim como o diabo da cruz ou a cruz do diabo, tanto faz. Alegou timidez e fiquei me sentindo um leproso. Entendi agora. Sem problemas, ele é excelente, conhece música e a rádio está arrasando no item qualidade.

Estas pequenas histórias servem para sublinhar o surpreendente poder dos blogs, que receberam excelente artigo na revista Época deste mês, com destaque para a incrível foto de um Inagaki em camisa-de-força.

Por falar em rádio, todos os interessados em literatura deveriam ouvir a belíssima entrevista de João Gilberto Noll para a rádio Antena 1 portuguesa. A entrevista, conduzida magistralmente pelo escritor português Francisco José Viegas, pode ser ouvida na íntegra aqui. E vejam que nem admiro tanto o Noll. Porém, encantou-me a forma hábil com que o Viegas retirou de Noll detalhes sobre seu universo, sobre a marginalidade de seus personagens e como o contextualizou no mundo e no Brasil. A civilidade e o conhecimento do entrevistador revelou a riqueza do entrevistado. Não é para qualquer um. Uma jóia imperdível para quem gosta de literatura e sinceridade.

Com a finalidade de unir de forma esfarrapada estes dois assuntos, há o declaradíssimo e derramado amor de Noll por Bach e por Porto Alegre – o sul, o sul -, amores que compartilho com ele e onde me descubro seu par. “A catedral viva” de Bach, o homem que é sempre sublime – expressões utilizadas por ele na entrevista -, torna-nos irmãos agnósticos crentes na religião da música. Ah, e Noll mostra conhecer bem o caráter dos blogs. Não adianta, de escritores a programadores de rádio, de ex-mulheres a advogados, todo mundo lê blogs.

Para ouvir a grande rádio da Universidade – ativa há 49 anos – em seu micro, clique aqui e vá seguindo o “AO VIVO”: vale a pena!

Diálogos Amorosos:

– Hum – digo.
– Eu sei que não foi muito engraçado, mas fico triste quando invento uma piada e tu não ris.
– (Risadas.)

Utilíssimo Manual (Revisitado hoje):

Eu era recém separado e a procurava com um manual na mão. Quando via uma, observava-a detidamente e fazia a comparação com o manual. Não descansava. Ele já estava manuseado, amarelado e engordurado; abria sozinho naquela página. Era só o que eu queria e tinha que ser. Não fosse daquele jeito, tudo voltaria. Até que encontrei.

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Poema da imensa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen.

(O manual pode ser encontrado no Brasil em Poemas Escolhidos, Companhia das Letras, 2004.)

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O Amor em Tempos de Copa (com exclusivo final feliz!)

Publicado em 19 de junho de 2006

Ana Cristtina fazia aniversário em 12 de junho, Dia dos Namorados. É claro que isto apenas a prejudicava. Ganhava menos presentes, ora! Seus namorados, pensava, aproveitavam-se do fato e davam-lhe somente um presente. Mais: tornava-se hiper-sensível neste dia e nos precedentes. Tanto que, no dia anterior, um domingo, mandara seu namorado passear ao ser trocada por Portugal x Angola. Se ainda fosse um jogo do Brasil ou da Argentina, tudo bem, mas Portugal x Angola era demais.

Ramiro respirou aliviado. Estava sem grana e agora mesmo é que não lhe daria presente algum, quem manda ser histérica. Depois, passado o dia 12, tentaria reatar. Afinal, Ana Cristtina valia a pena. Era bonita e boa de cama. Seu único problema era aquela eterna mania de querer discutir a relação aos prantos e tarde da noite, quando ele estava louco para dormir e já pensando na encheção de saco do dia seguinte. Era motoboy por influência de Ana, que fazia o mesmo serviço.

Ana passou o dia 12 recebendo ligações de seus clientes e, cada vez que desligava o celular, dizia em voz alta:

– Puta que o pariu. De novo, não era o filho da puta.

Durante a tarde, chegava e saía dos clientes com os olhos marejados. Alguns, que lhe conheciam há mais tempo, cumprimentavam Ana pelo Dia dos Namorados e faziam seus cumprimentos extensivos a Ramiro. Perguntavam se onde eles iriam à noite, um jantarzinho íntimo, um motel? Ela sorria e não respondia nada. Depois, na moto, mais lágrimas. Ao final da tarde, mais nervosa, passou a acelerar mais e a fazer suas freadas bem próxima aos automóveis. Pensou que um pequeno acidente seria uma boa. Neste momento, como por mágica, uma carro à sua frente deu engatou a ré acertando-lhe em cheio o joelho. Ana deu um grito, descarregando todo o seu ódio naquela má motorista que certamente comprara sua carteira. Mas a mulher que batera em Ana parecia preocupada, saiu do carro pedindo-lhe desculpas, dizendo que iria levá-la imediatamente a um hospital e que aquele estava sendo um dia terrível para ela. Não parecia grave, mas Ana não estava conseguindo apoiar o pé no chão sem dor.

Estacionaram a moto e foram ao hospital. No carro, ambas pegaram seus celulares:

– Ramiro, me acidentei com a moto. Não queria te ligar, mas a quem poderia pedir ajuda?
– Ronaldo, meu amor, aconteceu algo horrível.
– Um carro deu ré bem na minha frente e…
– Sei que não devia te ligar, mas és homem e talvez…
– … acertou o meu joelho. Estou sendo levada para o hospital…
– … saibas a burocracia que envolve um acidente. Tenho…
– … com muita dor… Não, a própria mulher que bateu em mim. Tu poderia vir aqui?
– … seguro e tudo, mas sei lá. Isto é coisa de homem.

Na sala de espera, dois homens esperavam vendo Itália x Gana. Um estava vestido como um executivo, o outro de calças jeans e capacete no colo. Trocavam observações sobre o jogo. O pênalti não marcado por Carlos Simon a favor dos ganeses foi recebido com compreensão. Afinal, todos os gaúchos sabem que Simon é um dos piores árbitros brasileiros, mas que deve ter amigos importantes. Deram risada. Quando ele não deu o segundo pênalti, riram mais ainda. Quando a Itália fez o segundo gol, ambos ficaram vacilantes entre ver o gol e receber Ana e Mônica que apareram no corredor. Ana vinha claudicante, apoiando-se a Mônica.

Os dois homens notaram a simetria da situação e, já sérios, encaminharam-se para suas mulheres.

– Ai, tá doendo, me fizeram uma atadura e me mandaram ficar em casa à noite.
– Eu estava nervosa com nossa discussão, Ronaldo. Imagina que engatei a ré em vez da primeira.
– Tu podes me levar para casa? Putz, logo no meu aniversário…
– Poderia ter matado a menina. Sou uma idiota.
– Obrigado. Mas, acho que não dá para deixar a moto onde ela está estacionada.
– Só quero ir para casa tomar um banho e que este dia passe.

Quando atravessaram a sala de espera, os dois viraram-se para a TV a fim de ver que o jogo tinha terminado 2 x 0. Ronaldo piscou o olho para o amigo.

Ramiro passou a noite com Ana Cristtina. Deu-lhe os parabéns repetidas vezes pela dupla data e, se não houve presentes, não faltaram beijos e suspiros no pequeno apartamento dela. No lugar de discutirem até altas horas, a única provocação que houve foi a de Ramiro dizer que os dois tês do nome de Cristtina significavam “tesão” e “TPM”. Riram. Do outro lado, Ronaldo, o cidadão um pouco gordo que namora Mônica, fez o mesmo, dormindo fora de casa.

Por serem pessoas normais, não viveram felizes para sempre, mas garanto-lhes que, naquela noite, tiveram a ilusão de que isto seria possível.

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O Salário Moral de um Dia Triste

Publicado em 1º de junho de 2006

Comecei o dia lendo no jornal a pior das notícias. Morrera o pai do melhor amigo de meu filho. Acordei-o e dei-lhe a notícia quando saía do banheiro. Fora uma uma longa doença, o fato era esperado, mas ficamos muito tristes, é claro. Daniel Herz era um jornalista e intelectual, mas antes disso era alguém doce, que gostava de conversar e que tinha recebido o Bernardo em sua casa por centenas de vezes, assim como recebemos o Guilherme. Gostava de conversar com ele. Era alguém inteiro.

Macambúzios, descemos antes das sete da manhã para que eu levasse os meninos à escola. Nosso carro, pela primeira vez em anos, não ligou. Bateria, motor de arranque, alternador? Não sei. Fomos de táxi até a casa de minha santa sogra – santa mesmo! – para pegar seu carro emprestado. Os guris chegaram atrasados na aula.

Depois de um compromisso que me tomou metade da manhã, voltei para devolver o carro e fui em casa ver o que tinha acontecido com o nosso. Com meus inexistentes olhos de mecânico, achei tudo normal. Chamei o seguro e fui ver meus e-mails. Havia este:

(Para tudo! Antes tenho que contextualizar meus sete leitores para que compreendam o e-mail:

Um dia, pelo MSN, Paulo José Miranda, escritor português e meu amigo, contou a história de uma pequena grande livraria da cidade de Aveiro, em Portugal. Esta livraria, chamada O Navio de Espelhos não é um estabelecimento comercial trivial. Ela tem como donos pessoas que conhecem livros e que, além de promover encontros entre leitores e escritores em ambiente agradável, patrocinam uma programação diária de serões de narração, noites de poesia, serões de contos, debates, comunidades de leitores, etc., tudo entre chás e bolos. Até aí tudo muito civilizado. O incivilizado começa agora. Ao lado da livraria, foi inaugurado um shopping e, no shopping, uma destas megalivrarias onde não há espaço para nada disso e muito menos para livreiros cultos. Então, Paulo propôs uma reação ainda mais civilizada. Sugeriu que fossem distribuídos aos leitores contos inéditos de escritores amigos da Navio de Espelhos. Aí entrei eu. Completo dizendo que Aveiro – cidade que não conheço – é a cidade onde nasceram meus avós paternos.)

Agora o e-mail que li:

—————————-
Caríssimo Milton,

Antes de mais, muito obrigada por nos ter enviado um inédito seu.

Nós imprimimos numa edição caseira, que temos a “petulância” de achar muito bonita. Imprimimos 50 exemplares à vez aqui na nossa “oficina”. Depois vestimos, cantamos, dizemos, pintamos o seu texto e os demais. Fizemos “quase” tudo. Na prática esta ideia do Paulo fez-se gente e está a crescer devagarinho mas de forma preciosa. É uma história dos afectos.

Esta ideia dos inéditos é uma história de amor. Do que se pode fazer quando se quer lutar por alguma coisa incondicionalmente.

Obrigada por participar.

Envie-nos, por favor, a sua morada e nós enviamos o seu inédito impresso por nós e também os outros inéditos, a fazer de conta que nos veio visitar.

Mais uma vez,

Obrigada.
—————————-

Fiquei absolutamente feliz, mas não pude responder porque tinha que tratar do carro – que foi rapidamente consertado – e de buscar meu filho a fim de levá-lo ao velório. Foi com um misto de pressa e cuidado que respondi quando cheguei ao escritório.

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Querida Sónia.

Talvez seja difícil imaginar o que esta proposta do Paulo teve de “afetos” também deste lado do mundo. Nunca fui à Portugal, mas meus avós vieram de Aveiro. Tua cidade é a única de Portugal com a qual tenho ligações afetivas. Sempre penso: “E Aveiro? Quando?”.

Quando o Paulo me falou sobre a idéia dos inéditos e tua livraria, aderi imediatamente ao plano e o farei sempre que desejares. Podes (e deves) usar e abusar daquilo de bom (ou ruim…) que eu venha a produzir. Nunca senti tão fortemente aquilo que Borges chamava de “a nostalgia do desconhecido”. Anteontem, o Paulo avisou-me que nossos livros estavam na vitrine (montra) de tua livraria. Logo pensei: puxa, estou em Aveiro. Adoraria – e como! – receber o exemplar de minha modesta farsa de tuas mãos, dentro da tua livraria, mas… Já que não é possível, vamos a meu endereço:

Outra coisa: muitas vezes escrevi – e até comentei certa vez com o Luís Graça – sobre as grandes livrarias sem personalidade, com caras de shopping e com atendentes que parecem nunca ter aberto um livro. São uma praga. Nego-me a fazer compras nestes lugares da pressa e da falta de contato humano.

E mais: se considerares que tens poucos exemplares dos outros inéditos, por favor, não os envie. De forma alguma gostaria de deixar um de teus clientes a ver, por assim dizer, navios. Mas faço questão de ter o meu! Afinal, quero a minha parte nesta história de amor….

Um beijo carinhoso e muito obrigado.
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A expressão “salário moral” do título me foi trazida por outro escritor amigo, o pernambucano Fernando Monteiro. Significa aquilo que ganhamos em centímetros quando um fato nos envaidece. Creio que ele poderia nos explicar melhor nos comentários.

Observações Finais:
1. Não dei o nome da livraria porque ainda não pedi autorização a seus donos para contar esta história.

Up-date das 9h: Recebo outro e-mail de Aveiro:

Milton, venho secretamente trabalhar nos papeis quando o resto da cidade ainda tem a cara encostada ao lençol. É nesse instante que abro o seu e-mail. Bela maneira de começar o dia.

Autorização concedida.

Muito obrigada.
Sónia.

2. O conto que está sendo publicado é uma versão corrigida e ampliada deste aqui. Minha mulher e a revisora não gostam dele. Eu o acho divertido. Aqui no blog está sua primeira versão.

3. Além do site cujo link coloquei acima, a livraria O Navio de Espelhos – nome mais português impossível! – ainda tem um blog aqui.

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Aforismos e Minicontos de Primeira Linha

Publicado em 23 de março de 2006

Marcelo Backes acaba de lançar, pela Editora Record, o surpreendente e inclassificável volume Estilhaços. No livro, pertinho do impagável Pequeno Dicionário Nostálgico de Meu Futebol Missioneiro, há, exatamente na página 89, o que segue:

A inteligência vem do berço?

Bernardo, filho do meu amigo Milton Ribeiro
– o melhor leitor não-profissional do Brasil -,
gosta de documentários.
Aos cinco anos de idade,
ao ver três funcionários
do departamento municipal de limpeza urbana
inspecionando as canalizações de esgoto em
Porto Alegre
perguntou:
“Pai,
São paleontólogos?”.

O resto livro também vale a pena. Juro que não há mais elogios a mim… A amizade cria exageros. Uma prova? Bem, na contracapa do livro há isto, simplesmente:

Princípio

Viver
é escrever
para não
matar…

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Novo Referendo

Publicado em 30 de outubro de 2005

Você é a favor da proibição da comercialização de campeonatos de futebol no Brasil?

1- NÃO
2- SIM

Será que desta vez o SIM vence? Vote nos comentários abaixo.

Obs.: Post inspirado em e-mail escrito por Elias Dill (Maurício).

Acrescentado às 9h40 do mesmo dia:

A colorada Elenara Iabel Cariboni nos envia uma importante e curiosa contribuição ao debate: uma crônica escrita por Graciliano Ramos em 1921, sob o pseudônimo de J. Calisto, na qual ele defende a tese de que o Brasil não tinha vocação para o esporte, e sim para a rasteira. A rasteira? Sim, a mesma que levamos do Dr. (?) Luiz Zveiter, 84 anos depois, ao acordarmos, num domingo, manhã de jogo importantíssimo, sem a liderança do campeonato. Se hoje os comentários sobre esportes e outras previsões de Graciliano só nos provocam riso, ele acerta em cheio ao escrever que “desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, (…) todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.”

TRAÇOS A ESMO
GRACILIANO RAMOS – Publicado pela primeira vez em “O Índio”, em Palmeira dos Índios (AL), em 1921, sob o pseudônimo de J. Calisto.

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a idéia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.

Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.

A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro também possui consideráveis apêndices auriculares, o que não impede que o considerem, injustamente, o mais estúpido dos bichos. (…) Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes – uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: “Me deixa…” Precisamos fortalecer a carne, que a inação tornou flácida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o mercúrio escangalhou.

Consolidar o cérebro é bom, embora isto seja um órgão a que, de ordinário, não temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque é ótimo. Convencer um adversário com argumentos de substância não é mau. Poder convencê-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaçador, é magnífico. (…)

Para chegar ao soberto resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol.

Mas por que o futebol?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.

No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve.

Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um país é necessário, não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena. É preciso, pois, que vá preencher uma lacuna, como diz o chavão.

O do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído. (…)

Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.

As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; não somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego.

Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam liamba. (…)

Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.

Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar.

Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!

Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro – e a rasteira nos salva.

Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.

Muito útil, sim senhor.

Dediquem-se à rasteira, rapazes.

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Mulheres, me ajudem!

Postado em 16 de agosto de 2005

Sou bastante antiquado e romântico para acreditar que muitas crianças, diante das circunstâncias certas, são leitoras naturais até o momento em que esse instinto é destruído pela mídia.

Harold Bloom, no prólogo de Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades.

Minha filha Bárbara, que está quase com 11 anos, precisa de indicações de livros para meninas pré-adolescentes. Minhas caras leitoras, ela é uma menina como vocês foram: é inteligente, sonhadora, altamente romântica, apaixonada pelas coisas e revela certa tendência para escrever. Nunca pertenci a seu maravilhoso sexo e, apesar de amá-lo incondicionalmente e de dedicar grande parte de meu tempo a entendê-lo, não pretendo mudar. Prova disto é que nem as visitas periódicas e obrigatórias ao proctologista tiraram-me de meu caminho. Assim, sempre li livros para meninos e, até hoje, prefiro o futebol ao balé. Não vou indicar-lhe Os Meninos da Rua Paulo, que foi meu livro mais querido na pré-adolescência, assim como de meu filho. Minha mulher lia uma inacreditável biblioteca para moças de sua avó. São livros da primeira metade do século XX e, se funcionaram para a Claudia, não funcionariam para a Bárbara. Minha ex-mulher, que se chama Suélen (ou Pâmela, não lembro), mal fala comigo.

Por favor, deixem-me comentários salvadores. Quais os livros que você indicaria antes que minha filha seja trucidada pela mídia? Tenho certeza que o fantástico grupo de leitoras que possuo — apenas como leitoras, infelizmente — não me deixará sozinho.

P.S.- Bárbara está gostando de Clarissa, de Erico Verissimo.

Comentários:

–> E tenho dicas de livros que são ótimas, pois tenho 11 anos e leio todos:Agenda de Carol Diário de Débora Agenda de Carol Fala sério mãe! Rita está crescendo Todos os cinco são muito legais. Vale a pena!
Luiza     Mulheres, me ajudem!     Jun 27 2007
–> Oi, td bom? Encontrei esse seu pedido desesperada por acaso, buscando por um dos livros citados pelas leitoras no google. Eu recomendaria os livros da série vagalume, são uma graça e podem agrdar a Gregos e Troianos. Se ela é romântica, então sem dúvida um livro de contos de Clarice Lispector ou de Lygia Fagundes Teles é um ótimo começo! Contos, pq os romances de Clarice já são bem densos… Mas se ela gostar de aventura ou suspense, aconselho Edgar Alan Poe. Ah, e se vc achar alguma versão pra adolescentes, um clássico tipo “Sonhos de uma noite de verão” seria maravilhoso. Bem, citei esses livros pq eu cresci com eles, mas tenho lido Harry POtter e apesar da mídia ser muito exagerada em cima dele, é um livro legal pra adolescentes da idade dela. Eu sinceramente recomendo! Um abraço e boa sorte!
Roberta     Mulheres, me ajudem!     Sep 1 2006
–> Gostaria de conhecer outras obras suas.
Ruama     Mulheres, me ajudem!     Dec 23 2005
–> Milton, Carolina adorava uma coleçao de contos chamada “Para gostar de ler” com seleçoes de autores muito bons como Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Rubens Campos, Mário Qintana, Cecília Meireles, etc. Também gostava de poesia que copiava em seus cadernos e sabia de memória!´ De minha época eu lia o que encontrava pela biblioteca do Lorde:e os que mais gostava eram os de Érico Veríssimo, Garcia Marques, Ariano Suassuna, Pablo Neruda. Gostava muito também de ler biografias… Bueno, mas vc já teve assessoria demais! Beijinhos na Bárbara.
nora borges     Mulheres, me ajudem!     Aug 25 2005
–> Postado por Milton após sugestão de Leila Couceiro e “roubo” (meu) das Garotas Que Dizem Ni: A leitura daqueles tempos As capas eram chamativas. O tamanho da letra, grandão. As páginas eram poucas e ilustrações apareciam sempre. Tudo isso acabava sendo chamariz para minha curiosidade quando eu era criança. Naquele tempo, bastava ver uma brochura esperando para ser degustada na prateleira “Infanto-Juvenil” que eu já sacava da frase favorita dos petizes: “Compra, mãe?”. Se bem que hoje eu continuo fuçando nas estantes mais coloridas da loja. A única diferença é que não caibo mais nas mesinhas e cadeirinhas disponibilizadas para a leitura dos pequenos – e sou chamada de “tia” por eles. Apesar do apelo natural que um livro voltado ao público infantil carrega, acender a vontade de ler é trabalho árduo quando se tem apenas um punhado de anos. Como competir com videogame, Internet, televisão e brincadeiras com os amigos? E olha que a escola também não colabora muito. Acho o fim aquelas leituras obrigatórias de apenas uma opção – ou seja, todo mundo vai ler exatamente o que a professora acha legal. Eu passei por tudo isso. Confesso que muitas vezes preferia tentar quebrar meu recorde no Enduro a passar a tarde lendo. Mas não há administradores de tempo melhores do que as crianças. O dia, para elas, possui umas 36 horas. Dá para fazer de um tudo – ler, inclusive. Eu conseguia. E, apesar de não haver Harry Potter naquela época, a magia era certa com… … O Gato do Mato e o Cachorro do Morro De Ana Maria Machado Existe um título infantil mais delicioso do que essa riminha aparentemente boba? O Gato do Mato vivia brigando com seu maior inimigo, o Cachorro do Morro, para decidirem quem era o mais valente e destemido da dupla. O problema é que do nada surge um leão para botar o rabinho dos dois entre as pernas. Nas minhas lembranças confusas, este livro figura como o primeiro. … O Gênio do Crime De João Carlos Marinho Quando chegamos naquela fase em que histórias de fadas e bichos viram “coisa de criança” (como se ainda não fôssemos isso), a melhor pedida é esse causo de mistério que fez parte da infância de muita gente – uma vez que foi publicado, pela primeira vez, em 1969. Foi a chance de brincar de detetive mirim e adivinhar quem estava por trás do esquema de falsificação de… figurinhas! … O Menino do Dedo Verde De Maurice Druon Era o meu “Pequeno Príncipe”. O personagem também é descrito como um menino loiro de olhos azuis e que vivia em um mundinho só dele. O dom de Tistu era, claro, o dedo verde – tudo o que ele tocava ganhava vida, principalmente as plantas. Tipo aquela cena de “E.T. – O Extraterrestre” em que o alienígena faz uma flor reviver. E a história, como no cinema, tem final triste e inesperado. … A Curiosidade Premiada De Fernanda Lopes de Almeida Toda criança já passou pela fase dos “Por quês”: para a gente era divertidíssimo saber por que a água é molhada e por que o fogo é quente; para os adultos, porém, deve ser dose. Essa brochura mostra bem o assunto levado até as últimas conseqüências. Glorinha é uma peste que quer saber tudo e incomoda muita gente com tanta curiosidade. Mas consegue, com isso, fazer até os pais aprenderem. … O Escaravelho do Diabo De Lúcia Machado de Almeida Se eu fosse falar de todos os livros que li da “Coleção Vaga-Lume”, precisaria de pelo menos um mês inteiro só versando sobre o tema. Como nem eu nem você agüentaríamos, vou me ater apenas ao principal. A história dava conta de uma série de assassinatos de pessoas ruivas que recebiam um pequenino escaravelho pouco antes de comerem capim pela raiz. Dava medo, mas era ótimo. … A Bolsa Amarela De Lygia Bojunga Outro dia vi esse volume em um sebo e amaldiçoei os céus por não ter um troco sequer na carteira para comprá-lo. Tudo bem: prometi a mim mesma voltar lá depois para reviver a saga da menina que mistura o dia-a-dia com histórias fantásticas de amigos imaginários que só uma criança sensível e imaginativa consegue criar. Faz muito tempo, mas lembro de ter devorado cada página. … Quem Manda Já Morreu De Marcos Rey Outro favorito da coleção “Vaga Lume”. Perceba que eu já adorava histórias tipo “C.S.I” desde pequena. Ali, o herói era o Edu, um rapaz que ajudava seu tio detetive – conhecido como Palha – a desvendar mistérios. O maior deles era a identidade de um tal de Boss. Depois de ler e reler e reler mais uma vez, ainda fiz com letra caprichada todo o suplemento de atividades. Sem a professora mandar. … História Meio Ao Contrário De Ana Maria Machado É tudo de trás pra frente, de ponta-cabeça. E como era divertido! Primeiro, o livro começa com “E eles foram felizes para sempre” e termina com “Era uma vez…”. Depois, a princesa se recusa terminantemente a casar-se com o príncipe encantado. A autora colocou um conto de fadas no espelho e recriou tudo assim, maluco, para a alegria dos pequenos que, como eu, tiveram a sorte de ler. … Marcelo, Marmelo, Martelo De Ruth Rocha Três histórias em um só volume: uma sobre Marcelo, um menino que resolveu criar seu próprio idioma, digamos, básico (cachorro era “latildo” e colher era “mexedor”); uma sobre Teresinha e Gabriela, duas garotinhas bem diferentes, mas que no fundo eram iguais; e uma sobre Carlos Alberto, um moleque mimado e egoísta que não gostava de perder. E tudo isso assim, de uma vez. Maravilha. … O Menino Maluquinho De Ziraldo Certamente o meu livro infantil favorito de todo o universo. Tanto que eu ainda o guardo, apesar da capa rasgada, das folhas soltas, do cheiro de mofo e dos rabiscos de canetinha que meus irmãos fizeram nele quando eram bebês. E o pego de vez em quando para falar oi ao menino que era maluquinho como todos nós éramos, mas que virou um adulto muito legal. Como eu espero ter virado.
Milton Ribeiro     Mulheres, me ajudem!     Aug 21 2005
–> Igual à maioria das mulheres aqui, também li muito e de tudo (inclusive bulas de remédio, livros “de menino” e “de adulto”, enciclopédias, dicionários, revistas da National Geographic), primeiro sem discriminação, e depois aprendendo a discriminar sozinha. Acho que o melhor é ter, em casa, uma biblioteca enorme e variada, e deixar que ela mesma entre lá e pegue o que quiser. Pode até ser que ela leia Lolita ou Grande Sertão : Veredas sem ter total capacidade para entendê-los, mas a gente não ama só o que entende completamente, talvez seja até um pouco o contrário, né ? ;o)
Cynthia     Mulheres, me ajudem!     Aug 20 2005
–> Milton, preste atenção nas bancas de revistas…sai ainda esse mês o lançamento dos Clássicos da literatura brasileira em quadrinhos para o público infanto-juvenil. Uma meia-forma de incentivo à leitura. Beijus
Luma     Mulheres, me ajudem!     Aug 19 2005
–> Amigo, eu pensei uma boa parte do dia no seu post, que preferi responder hoje. Estou dando um curso sobre rodas de leitura para professores, e seu post me fez reencontrar algumas questões importantes. Puxa, lembrei de tanta coisa boa dessa idade… A sua ansiedade e vontade de acertar como pai é simplesmente uma graça… E comove, de tão sincera. Cristo disse uma vez, “não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal.” Infelizmente, não fugimos da mídia… Pelo contrário, precisamos conhecê-la bem para saber combatê-la. E discordo de quem diz que somos tão frágeis ao ponto de ter nossas personalidades distorcidas profundamente. Temos uma porta interna que, se tivemos uma boa formação de caráter e personalidade, só abrimos para quem não vai nos desvirtuar. Ser curioso e sentir necessidade de conhecer de tudo a toda hora é muito comum nessa idade… E como é. Eu me lembro de ter sido assim. E foi aí que eu me lembrei que, na idade da sua filha até os meus 18 anos, eu li de tudo. Li o “Clarissa”, que a sua menina gosta… Li vários livros que falavam de adolescência ( feitos para adolescentes ), como “A Hora do Amor”, e “A marca de uma lágrima”. Li sobre sexo, li contos de mistério, li toda a obra da Agatha Cristhie e todas as bobageiras de banca daquelas Sabrinas e Biancas. E li também Machado de Assis, Maquiavel e Oscar Wilde. E todos eles, dos bons aos ruins, formaram quem eu sou hoje. Mas te digo – o melhor de ler tudo isso foi tê-los eu mesma escolhido. Então… Dê a sua filha a chance de escolher entre muitas opções. Respeite as escolhas dela… E se ela é ótima, como eu acredito que seja, encontrará por si só o seu caminho, o seu estilo, amadurecendo a seu tempo a leitora e a escritora que ela é. Agora, se você quer ser útil nessa hora, penso que o melhor é que mostre a ela o que você gosta e conte da sua paixão por este ou aquele livro. Meu avô fazia isso comigo, e eu me sentia conquistada sem que ele nunca tivesse entregado um livro em minhas mãos. E não há questões de gênero na literatura… Acho que tudo é para todos. Não é não? Perdoe o tom “professoral” da resposta… rs Ando tão chata que nem mesmo me animo a escrever pra não irritar a outros. rs Mas olha, meu coração diz que seu amor pela menina Bárbara é sempre o melhor conselheiro… O amor é sábio. Se é! Beijo enorme, pra você e pra menina. E olha, se não conhece ainda, tente o livro “Como um Romance”, do Daniel Pennac… Acho que ele pode te servir muito. 🙂
Karina     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Oi milton! agora estou vendo sua pergunta. Olha, meu livro Caixa Postal 1989 ganhou todos os prêmios , ele é da José Olympio editora. Ele é um livro adorado pelos jovens. Principalmente pelas meninas. O livro foi escrito em 89, ganhou o jabuti em 93, entre outros prêmios, e até hoje recebo mails de leitores. Há até comunidade de fãs no Orkut. Infelizmente eu não tenho nenhum exemplar em casa pra te enviar, senão, seria um prazer. Tenho outros livros em casa. Se você me passar o endereço terei prazer em presentear.
Angela     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Meu coloradinho favorito, aproveito para dizer que sou bem mais crítico do que tu em relação ao manoel de oliveira! Agora em relação aos conselhos de leitura para a tua filha, permite que te diga que sou homem e, como tu, amante das mulheres, mas não percebo porque é que só por ser homem sou excluído. Pois não me parece que as sugestões que aqui vou deixar sejam inferiores às sugestões das tuas respeitáveis leitoras: Aventuras de Alice no País das Maravilhas. As aventuras de Gulliver. Evidentemente, aconselho os mesmos livros ao pai da aconselhada (aproveito ainda para ir reler, pela enésima vez, o primeiro dos livros que sugeri). Abraço, Paulo
Paulo José Miranda     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Mílton, experimenta Minha vida de menina, da Helen Morley, ela deve gostar. Li o Monólogo até onde foi publicado, eu acho (V parte?). Queria ler o final, mas não achei. Bjins
adelaide     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Milton, compre urgente para ela: – Os livros de Karen Cushman: “Aprendiz de Parteira”, “Catarina, a Menina Passarinha”, “A Balada de Lucy Whipple” e “Matilda do Osso”; – “Ella Enfeitiçada”, de Gail Carson Levine; – A trilogia para jovens de Isabel Allende (A Cidade das Feras, O Reino do Dragão de Ouro e A Floresta dos Pigmeus); – A trilogia de Pippi Meialonga, de Astrid Lindgren, que alguém já sugeriu; – “Harriet, A Espiã” (um clássico!! mas esqueci o nome da autora…) – “O Caçador”, de Ana Lúcia Merege (hehehe); – Se ela for do tipo brincalhão, os livros da série “Witch”, tipo “Como se dar Bem com seus pais”, “Como se dar bem na escola”… – Se ela for do tipo romântico, livros de Marina Colassanti, mas só os de contos voltados para jovens. E nunca mais deixe de me consultar em assuntos importantes como esse, viu? Beijos, me visita! Ana
Ana Lúcia Merege     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Bom como hoje em dia uma menina de 11 anos ja sabe muito bem o q quer pq tenho uma q tem 12, acho q deve seguir um conselho ja dito antes leve ela em alguma livraria e deixe ela mesma escolher sua leitura. beijos
marcia     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Nossa, que coisa complicada. Mesmo pq eu não tenho gdes livros nessa época da vida. Mas aconselho o Mahabharata de Claude Carrière.
Charô aka Suricata     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> ..quanto aos livros ainda não sei,mas qto ao comentário sobre a Rádio imaginária (em teu coment. no Zadig) aqui tens uma locutora voluntária em prontidão! bjo na palma da mão!
Bugra     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> oLÁ Milton, Um dos livros modernos para meninas é o ” O mundo de Sofia” provavelmente você ja o conheça http://www.ime.usp.br/~cesar/projects/lowtech/mundodesofia/ Beijos Stella
Stella     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Engraçado que minha filha de 11 a Amália ama, lê e relê as aventuras de Pipi meiolonga, os contos nordicos, russos, árabes. E por conta do filme leu toda a coleção Desventuras em série. De quebra ainda dei as duas O Genio do crime. Eu vi outro na FNAC que as duas pequenas pediram. Amália tem 11 e Roberta 9. É auqle livro da menina que entra no armário e conta histórias.. agora esqueci.. Mas no geral os contos, ela amou. Beijos Odila
Maria Odila     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu concordo, a mídia anda destruindo a vontade de ler.
Pedro     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, pedirei que Flora opine, mas tenho uma posição quanto a ler: o importante é ler, qualquer coisa, mesmo o que possamos considerar subliteratura, pois após o desenvolvimento do hábito de ler o próprio leitor passará a selecionar bons livros; atualmente meninos e meninas lêem livros comuns, como os de J. R. R. Tolkien, Catherine Clément, Eoin Colfer, Alice Sebold e até mesmo, por estranho que pareça, Mark Twain, Charles Bukowski e Stephen King, preferencialmente os contos destes três últimos autores; por falar em contos, os mini contos de Marina Colassanti costumam fazer sucesso entre a garotada e as crônicas de Veríssimo também. Em tempo: ambos ficamos decepcionados com a Cobra Coral em Porto Alegre, não é?
Manoel Carlos     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Tem uma fase que a leitura cai um pouquinho, por mais que elas gostem de ler; é que o pensamento vagueia e vai longe… Olívia! Eu li toda a coleção Vagalume, da Ática. E todos os clássicos brasileiros. Se fosse eleger um livro mais atual e que as meninas gostam, sem dúvida seria “O mundo de Sofia”, mas diferente da maioria nada contra o “Harry Potter”. Beijus,
Luma     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, minha filha adora Clarice Lispector, Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, mas já tem 18 anos…. Acabei de falar com ela e lembramos que ela leu e adorou “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder quando tinha 11 anos. É uma excelente opção, também dei a ela, nessa época, vários livros de Vinícius e Drummond, acho que são ótimas pedidas, leves, agradáveis de ler…. Lembro que também comprei uns livros infanto-fuvenis de autores clássicos, tinha uma coleção dessas com James Joyce, Fitzgerald, Goethe, tudo com historinhas leves (por incrivel que pareça hehehe), ainda deve existir algo do tipo. Agora, nunca me rendi a esses para-didáticos horriveis que a escola obriga a ler. procurando a gente encontra coisas bacanas e compreensíveis pras meninas. ps.: quando digo para-didáticos, não estou me referindo, claro aos classicos brasileiros, mas umas coisas novas horrorosas que apareceram nos ultimos anos.
Denise Arcoverde     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu li todo José de Alencar, li o Tempo e o Vento (amei, li umas cinco vezes depois de novo) – eu era uma menina de fazenda, me identificava com essas coisas – e sexo não assusta não, é melhor a novela (inevitável) com o Veríssimo do que sem ele. Li tanta coisa que não consigo lembrar…acho que ainda repetia uns Lobatos de vez em quando, vício adquirido aos seis. Júlio Verne. E um monte, inesgotável, de coisas menos famosas, que eu ia catando e lendo. Acho que nessa idade, o importante é dar coisas com muito conteúdo de conhecimentos gerais, porque a memória é fantástica. Eu juro que passei no vestibular por ter lido uma porcariada de escoteiros em férias no Rio Paraguai, Verne, essas coisas. Literatura de verdade eu curtia, mas é claro que depois que reli mais velha eu percebi que não tinha entendido nada. Então vejamos, acho que tem duas coisas: uma são os fatos e informações concretas que nunca mais esquecemos, que podem ser adquiridos em todo tipo de livro, e com maior concentração em literatura “light”, tipo Verne; outra coisa é a noção das coisas humanas, do sentido da vida, essas coisas mais profundas. Para isso, para mim, foi bom ter lido literatura “adulta” quando criança, mesmo sem entender tudo. (por essa razão tenho certo “pé atrás” com Harry Potter e afins, não ensinam muita coisa prática nem muitas coisas humanas – acho que o Lobato tem uma medida mais equilibrada de fantasia e realidade, apesar de as relações humanas nele serem fraquinhas)
Julia     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu lia Júlio Verne, Dumas, a Condessa de Ségur e, depois, M. Deli. Além de todo o Monteiro Lobato. O que eu daria a ela? Capitães de Areia, de Jorge Amado. Os Harry Potter, sem a menor dúvida. Li os dois primeiros, são muito interessantes e tenho uma porção de pacientes-amigos que não perdem um. Acho que os ‘antigos’ clássicos tipo de Júlio Verne, Dumas, etc, ainda a atrairão. Há umas edições adaptadas por gente como Cony e Ferreira Gullar, se não me engano. No mais, leve ela pra Livraria Cultura ( ou outra assemelhada) e deixe que ela mesmo fuce e descubra os livros que quiser ler. Faço isso com minha sobrinha de 9 anos, e ela adora. Uma coisa é certa: ler é experiência de cada um. A gente ajuda, mas ela é quem irá escolher. Beijo grande, Márcia
Márcia     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, meu dileto amigo. Ah, as leitoras que possuímos!! Nossa salvação. Os proctologistas, ô agrura dos cinquent’anos… Como o pedido de socorro só se estende às leitoras, aguardemos, cavalheiros… Amitiés, BetoQ. P.S.: Dia 19 se aproxima, hem?! Festa à vista nos Verbeats. Queria muito estar aí. Milton responde: Calma, Zadig, para que tanta pressa? Serão 48, apenas.
Zadig     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Minha primeira sugestão seria Mme Deli, como a Cláudia. Gostei aos 10 anos, de Os desastres de Sofia da Condessa de Ségur ( rss). Bom, a escola nos obrigva a ler os citados pela Cláudia, mas aos 12 eu lia ( escondido) Jorge Amado! Beijão
Mônica     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005

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Rascunho

Publicado dia 28 de julho de 2005

(É muito chato falar sobre as tragédias de nosso país. Nem o Collor me deixou deprimido como estou agora com a roubalheira e as mentiras dos governantes que receberam meu voto… É, meu voto.   Melhor mudar de assunto. Bem, então vou falar de uma coisa boa.)

Vou falar sobre uma ilha de resistência que deveria orgulhar a todos os que amam os livros. O jornal Rascunho, que chega ao número 63 neste mês de julho, é uma publicação mensal de 32 páginas dedicada exclusivamente à literatura. Prestem atenção, 63 meses significam 5 anos e três meses de vida. Para um jornal independente, voltado exclusivamente à literatura e que sempre fez questão de qualidade, é muito.

O escritor pernambucano e colaborador do Rascunho Fernando Monteiro costumava me enviar cirúrgica e gentilmente as edições do jornal que julgava pudesse haver algo de meu interesse; porém, este mês, pensei que talvez até a cortesia de meu amigo  conhecesse limites e resolvi finalmente assinar o jornal. Também pudera! Fernando Monteiro está iniciando a publicação de um romance inédito e completo em suas páginas. <i>O Inglês do Cemitério Inglês</i> chegará aos leitores do Rascunho da mesma forma que se fazia no século XIX, capítulo a capítulo, mensalmente. Não vou comparar Fernando a Machado ou Dostoiévski, mas ele deve estar satisfeitíssimo com o convite do editor Rogério Pereira para secretar, mensalmente e em pleno século XXI, os capítulos de seu novo livro. No mínimo, bem no mínimo, será acrescentado um enorme charme ao Rascunho, além de acenar com uma longevidade ainda maior para um jornal que, repito, dedica-se exclusivamente à literatura.

Como em qualquer publicação onde as pessoas expressam opiniões, o Rascunho gerou polêmicas, algumas tolas, outras pertinentes. O saldo positivo é muito alto. Por exemplo, fiquei muito feliz quando li que o jornal resolvera discutir a obra de João Gilberto Noll. Foram publicadas, lado a lado, uma crítica favorável e outra nem tanto. Como estou entre os “nem tanto”, gostei; afinal, não estou sozinho no mundo. Houve a polêmica sobre Sebastião Uchoa Leite e a revista – coisa inédita – desculpou-se. Já imaginaram a Veja fazendo isso?

Se algum de vocês se interessar, a edição 63 traz duas grandes entrevistas com Affonso Romano de Sant`Anna e Marina Colasanti, e um monte de artigos: um enorme sobre a obra de Mario Quintana, outro sobre Osman Lins (Avalovara), mais Carpinejar, Machado, etc., etc. e até uma crítica sobre o último livro do homem que aquela revista mais detesta no mundo, o homem que quer mamar nas tetas do Estado, o hediondo e repugnante Marcelino Freire.

Não recebo comissão, mas se algum de meus sete leitores quiser assinar o jornal é só mandar um e-mail para [email protected], aos cuidados de Rogério Pereira. Custa R$ 30,00 por semestre. Quando ele  chegar pelo correio – o jornal, não o Rogério -, vocês verão que é baratíssimo. Tenho alguns amigos em Curitiba que já estavam me deixando na dúvida, mas depois do Rascunho, ficou provado definitivamente: não há só bundões em Curitiba.

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Relatório Pessoal sobre a Flip 2005

Publicado em 13 de julho de 2005

Quando saímos de Porto Alegre, o termômetro que temos em frente de casa indicava 3 graus, mas quando chegamos a São Paulo estava quente e eu já suava. A Mônica, do Crônicas Mônica, e seu marido vieram nos buscar em Cumbica e fomos direto a Parati. Viagem boa, conversa fácil. Compramos os ingressos para as mesas que nos interessavam e finalizamos o primeiro dia indo ao show de Paulinho da Viola. Um espanto. Duas horas de clássicos e de algumas músicas novas. Nem deu para sentir o inimigo insidioso que preparava-se. Quando saímos do espetáculo, ele já estava armado: um inesperado frio de rachar. Mesmo querendo dar uma de gaúcho e desejando dizer que tantos agasalhos era frescura de cariocas, não havia como negar. Eu tremia e representava mal a coragem gaúcha para o frio.

Então, começamos a nos aquecer com a pinga de Parati. Para quem não está acostumado a beber álcool, aquilo tinha um efeito muito confortável. O frio passava e já não sabia se nossos amigos Mônica e Luiz eram realmente agradáveis e engraçados ou se era apenas mais um dos efeitos das Salinas, Nêgas Fulos, Coqueiros e Santa-Não-Sei-O-Quê que bebíamos. O resultado no outro dia? Nada. Nenhuma dor de cabeça, só uma vontade louca de dormir que nos fez perder as primeiras palestras da FLIP.

Conseguimos apenas assistir à mesa 3, às 15h do dia seguinte. Marina Colasanti, Vilma Arêas e Benedito Nunes falavam sobre Clarice. Apesar do enorme conhecimento de Vilma, foi médio. Ficou a impressão de que se ela estivesse sozinha, seria fantástico. Depois pulamos para a mesa de David Grossman e Michel Ondaatje, que foi monótona para quem não conhecia suas obras. Eles se referiam demasiadamente a questões judaicas bem conhecidas e Grossman parecia muito ressentido com o mundo, enquanto Ondaatje queria falar sobre poesia. Havia um chiado preocupante que parecia sair dos altos falantes. Uma falha técnica? Não! Era a chuva, que viera para acompanhar o frio. Fomos para o Restaurante do Fogo. Ali, eles flambam tudo com cachaça e é aquele fogaréu. Entramos molhados pela chuva fria e começamos a função tomando uma Gabriela, que é uma cachaça licorosa, com cravo e canela. Muito boa. A comida era excelente, apesar das porções resumidas. Resolvemos reforçar o estômago com uma sobremesa. Entramos num bar em que havia música esplêndida de jazz e bossa nova. Os caras eram ótimos mesmo. Não sei quem eram. Comemos e ficamos assistindo ao grupo acompanhados novamente daquele líquido, agora em versão incolor, apesar do apelido de “branquinha”. Ficamos com sono – eu e a Claudia – e fomos para o hotel. Perdi o grande momento em que a Mônica foi convidada a cantar desafinada, ops, Desafinado, Garota de Ipanema e todo o cerne do repertório jobiniano. Ela costuma cantar enquanto caminha, enquanto anda de carro, enquanto come, ela está sempre cantando. Tem uma voz grave, rouca e afinada. Cantava em sua mesa no bar e foi chamada ao palco. O problema é que seu marido começou a fazer gestos indicando que o couvert teria de ser dividido entre ele – agora travestido de empresário – e os músicos; desta forma, sua carreira foi abortada por uma dispensa entre risos. Perdi tudo isto! E, para completar, as fotos estão sob inflexível censura.

No dia seguinte, tornamo-nos intelectuais sérios. Assistimos à melhor palestra da FLIP: Beatriz Sarlo e Roberto Schwarz (Um Lugar para as Idéias). Deveria ter sido gravada. Foi uma inesquecível lição sobre Jorge Luis Borges, Machado de Assis, engajamento, compromisso intelectual e Juan José Saer.

Fomos almoçar no Bartolomeu, que tem boa comida e uma loira gostosa que olhava para mim e que provocou ciúmes não na Claudia, mas no Luiz, pois ele não fora aquinhoado com os mesmos olhares… Depois chegaram outras mulheres lindas – lindas mesmo – e ele dizia: tudo bem, me dá a pior e eu fico satisfeito! Eu e a Mônica ficamos boiando enquanto ele e a Claudia conversavam de forma minuciosa sobre comida. Antes de 2002, não conhecia pessoas assim. A Claudia estava encantada, porque o Luiz “pensava” a comida de forma semelhante a dela. Trocavam receitas e receitas, inventavam pratos, faziam variações mentais a respeito e elas pioravam ou melhoravam. Concordavam em tudo e reviravam os olhos de prazer, enquanto eu e a Mônica observávamos. E informo-lhes que estavam sempre sóbrios. (Descobri um fato que desconhecia. Esses chefs em potencial escolhem seus restaurantes pelo cheiro. É ele que determina se a comida oferecida é boa. Estou definitivamente fora desta especialidade. Sou um insensível.)

Deixamos minha loira e fomos para Orhan Pamuk (Mar de Histórias II: As Mil e uma Noites). A Flip tinha engrenado. O turco Pamuk é uma metralhadora informativa. Explicou-nos a imensa influência de Borges na divulgação das Mil e Uma Noites no mundo e a visão do oriente e do ocidente sobre o livro. Pamuk não esperava pelas perguntas, interrompia o entrevistador, sorria aparentemente sem motivo, mexia pernas e mãos para falar, era de tal forma agitado que era difícil manter a atenção em seu discurso. Depois de uma hora, a Claudia irritou-se e disse que não conseguia mais fixar sua atenção naquele maluco. Foi embora, enquanto eu jogava o corpo para a frente, tentando não perder nada do diferenciado conhecimento daquele homem que estava física e intelectualmente sobre aquela ponte de Istambul que é Àsia de um lado e Europa de outro e que tomava os dois mundos num só olhar. Outra grande palestra. À noite, assistimos a um recital es-pe-ta-cu-lar de Hamilton de Holanda. Garanto-lhes que o homem é um gênio e que nunca tinha visto alguém tocar bandolim daquela maneira.

O dia seguinte começou com a concorrida mesa de Arnaldo Jabor e do rapper MV Bill. Não a assisti, mas toda Parati estava lá. A mesa seguinte teve uma Parati desatenta e dispersa, mas foi do mesmo nível da de Schwarz e Sarlo. Chamava-se Zona de Conflito e foram entrevistados os correspondentes de guerra Jon Lee Anderson (Guerra do Iraque) e Pedro Rosa Mendes (Guerra de Angola). O educadíssmo americano Anderson cedeu grande parte de seu tempo para que o português falasse sobre uma guerra desconhecida e sobre o seu multi-premiado livro Baía dos Tigres, que descreve a guerra. Desculpem, não dá para resumir. Ouvimos um tremendo documento humano sobre uma população paupérima – e em grande parte mutilada pelas minas – subjugada por interesses de vários países, entre eles Portugal, Estados Unidos, Cuba e Brasil (Petrobrás e Odebrecht) e curvado por interesses tribais e de grupos armados como UNITA, MPLA, FNLA, FRELIMO, RENAMO, etc., etc. etc., além de por ditadores riquíssimos que dominam o cenário, o qual é literalmente tão minado e estropiado que criou uma cultura dantesca. Por exemplo, alguns angolanos cortam suas vacas a fim de tirar-lhe alguns bifes, depois, costuram alguns pontos e tratam de recuperá-la, pois não podem sobreviver sem ela. Assim, todos são mutilados. Lembrei do Holy Grail (do Monty Phyton), lembrei daquele guerreiro que quer lutar sem braços e pernas, mas aqui não tratava-se de comédia.

Saímos de lá e vimos a Sílvia Chueire. Estava acompanhada do escritor português Paulo José Miranda, que me presenteou com um livro de sua autoria onde a ficção entrelaça-se com metáforas sempre musicais. Li um pouco e parece tratar-se de algo muito bom. Recebeu alguns prêmios, mas esqueci-me deles. Desculpa, Paulo. Os dois foram encantadores e Paulo fez-nos dar risadas com suas histórias, além de revelar-se um exímio conhecedor de futebol.

** Atualização feita no mesmo dia, às 14h40. Nos comentários a este post, o Paulo explica: O prémio que esqueceste é o primeiro prémio José Saramago (que é extensivo a todos os países de língua portuguesa). Mas não tem problema, não! Problema mesmo é essa sua fixação pelo SLB (Benfica). Abraço, Paulo. **

À noite, chegou a vez de Salman Rushdie (O Equilibrista), que fez uma mesa muito alegre, inteligente e comovente. Fez a platéia emocionar-se – é um perfeito ator! – durante a leitura de um trecho de seu último livro em que refere-se a sua Caxemira natal, depois endureceu dizendo que só um idiota escreveria um simples livro pastoril de memórias sobre a Caxemira, que a literatura deve espelhar a realidade e que impôs-se a destruição daquela Caxemira, tal como o fizeram indianos e paquistaneses. Disse que chorava ao escrever a segunda parte do livro e perguntava-se a cada momento se valia a pena torturar-se daquela forma, mas concluíra que tinha de ir em frente. Naquela noite, não houve festa, pois a Claudia e a Mônica tombaram de cansaço.

No último dia, almoçamos num indiano ótimo (Ganges) que a Claudia descobrira pelo cheiro, é claro… Foi nossa melhor refeição, não foi, Luiz? Depois, assistimos à palestra O Sabor da Letras, de Anthony Bourdain, ex-chef do badalado restaurante “Les Halles”, de Nova York, e que escreve sobre gastronomia, além de trafegar na área da literatura policial. O cara, que é excelente escritor, já era conhecido do Luiz e, por sugestão deste, era a leitura da Claudia durante a FLIP. Ela engoliu as 400 páginas do livro Cozinha Confidencial em tempo recorde e chegou entusiasmada, como todos nós, para assistir à mesa. Mas a entrevistadora era uma débil mental. Acho que foi ela quem tornou o excelente Bourdain tão desbocado e desmotivado.

Tiagón perguntou-me ontem: o chef que a Claudia engoliu é o Bourdain? Essa era a mesa que eu mais queria assistir. Li Cozinha Confidencial umas dez vezes… Viram? O cara tem leitores realmente qualificados.

Foi uma boa Flip. De resto, houve as merecidas babações para Clarice, o contínuo frio estranho que impediu as escunas de saírem e que nos atirou para dentro dos restaurantes, bares e casas de espetáculos (todos os músicos bons estavam lá, incrível!) e… para a pinga salvadora. Ah, e houve o susto de Parati, pois a prefeitura de Ouro Preto quer desesperadamente sediar a próxima edição. Porém Liz Calder já disse: no way, ficamos em Parati. O evento é daqui. Alívio dos nativos.

Como no ano passado, retiramos-nos já com saudades e planejando a Flip 2006. Porém, é indiscutível que o fato principal da edição 2005, do ponto de vista pessoal, foi a presença da Mônica. Ela é a pessoa com quem tenho a relação mais curiosa da blogosfera. Em dois anos de amizade, tivemos duas enormes brigas. A primeira, causada por um comentário horrível e desajeitado que fiz em seu blog, durou uma semana; a segunda durou muito mais, houve um afastamento de uns quatro meses e conseguimos conversar somente após a providencial intervenção de sua irmã . Não éramos obrigados a reatar, não somos parentes e nem nos conhecíamos pessoalmente, mas os vínculos que a blogosfera e as palavras criam não podem ser chamados de fracos ou descartáveis. Já amiguinhos de novo, acertamos a viagem dos dois casais através do MSN e foi a decisão mais correta. Estas viagens são de alto risco; podem ser chatas pelo contato intensivo, pelo comportamento inesperado de alguém, pelas manias que se revelam, por coisas que não sabemos avaliar previamente, etc. Fazíamos juntos as refeições e o festerê, mas hospedamo-nos em hotéis separados. Quando a coisa parecia demais, ou seja, quando já estávamos muito tempo juntos, o casal Mônica e Luiz sumia como que por encanto (como eles adivinharam a hora certa?), a ponto de eu pensar se não tinha cometido nenhuma grosseria (quem não é um pouquinho paranóico?). Depois, nos reencontrávamos e a mágica se restabelecia. A Claudia e o Luiz são pessoas encantadoras e tranqüilas, e demonstraram perfeita disponibilidade para conhecerem-se e conviverem, com cachaça ou sem. Sempre houve um sincero interesse de uns pelos outros, rimos muito (o Luiz é um piadista nato) e tudo foi simples como conversar com velhos amigos num bar conhecido. Passamos a noite de domingo na belíssima casa deles em São Paulo e, ao saírmos de madrugada (3h45) para ir ao aeroporto, pisamos – eu, a Claudia e o taxista – em volumosos cocôs de cachorros que decoravam a calçada. Dizem que é sorte.

(Mais, melhor e a origem das fotos: aqui.)

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A Baixinha, a FLIP

Publicado em 5 de julho de 2005

Ela tinha 1,55m. Agora deve ter no máximo 1,50m. Recebeu educação rigorosa em colégios internos de Santa Maria e Porto Alegre. Tão rigorosa que era proibida de tocar tangos no piano do colégio da capital. Uma vez, pegaram-na tocando aquela música do demônio. Seu professor – que hoje está devidamente morto e é até nome de conservatório em nossa cidade – veio por trás e fechou violentamente a tampa do piano sobre suas mãos. Uma bela educação, com efeito. Inesquecível. Ela diz ela que doeu por muito tempo, que talvez tenha quebrado algum osso. Depois, formou-se dentista numa época e num estado onde somente outras três mulheres o eram. Foi trabalhar em Cruz Alta, mas veio outro dentista e a levou casada para Porto Alegre. Trabalhou a vida toda e teve dois filhos, que criou com cuidados (muitos) e preocupações. À noite, ora arrumava as roupas do filho mais novo que jogava futebol a tarde inteira, ora tomava as lições dele e de sua irmã. Muitas vezes ela, de tão cansada, dormia durante as lições e nós ficávamos paradinhos, torcendo para que ela não acordasse. Não sei de mãe melhor e não lembro de nenhum tapa; fomos criados sem as exemplares atitudes do defunto maestro Leo Schneider. Éramos uns duros, pois meu pai gastava horrores no turfe, mas nunca faltou nada em nossa casa, nem amor ao perdulário, que, aliás, era adorado por todos. Eu detestava vê-la bem arrumada, era sinal de que iria ao cinema com meu pai e que ficaríamos sozinhos. Odiava aqueles perfumes e casacos de pele. Ela tinha algumas curiosidades: a liberação de verbas era ilimitada se fosse para comprar livros ou qualquer coisa para nossa educação; porém, se fosse para aquilo que considerava bobagens, poderia haver vetos. Uma vez, eu tinha uns 18 anos e meus pais foram para a praia deixando-me em casa. Chamei uma namorada e passamos a noite juntos. Pela manhã, ouvi meus pais brigando na frente da porta do meu quarto. O tempo estava chuvoso e eles tinham retornado. Minha mãe dizia para meu pai, enquanto protegia a porta do meu quarto e tentava conter a voz: “Ele é um adulto e não interessa se está dormindo com alguém ou não. Sai daqui! Já!”

Parabéns à Dra. Maria Luiza Cunha Ribeiro, minha mãe, que hoje faz 78 anos e que me ajudou em tudo, até em minhas ereções adolescentes.

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Há uma série de autores que me interessam nesta FLIP. E eles não se chamam Jabor, Jô, Suassuna e muito menos Ondaatje. Pretendo assistir a duas palestras por dia, encontrar alguns amigos e respirar a atmosfera da cidade, tão especial durante a FLIP. Se der, pego carona em qualquer escuna e tomo um banho dedicado a meu filho Bernardo, que ama aquelas águas; depois, culpado, ligo para minha filha. Das estrelas, só Rushdie me interessa. Mas há muito mais: o fantástico Roberto Schwarz, o turco Pamuk, o português Pedro Rosa Mendes, o chef Bourdain, o cubano Latour, Paulo Henriques Britto e outros, além de Paulinho da Viola e do bandolim de Hamilton de Holanda. Se a festa permitir, pretendo escrever pequenos posts diários a respeito. Mas os cybers de Parati são de matar. Quem quiser me achar deve procurar aqui:

Pousada do Príncipe
Av. Roberto Silveira, 289
Telefone: (24) 3371.2120

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Respondendo a uma pergunta

Me fizeram uma pergunta daquelas nos comentários. De onde tirei a citação engraçadíssima de Heine com que encerrei o post anterior? Tenho a mania de copiar, em um arquivo do Word, citações que poderei utilizar um dia. Só que eu tinha esquecido de copiar a fonte daquela de Heine. A citação era esta:

Eu tenho uma mentalidade pacífica. Meus desejos são: uma cabana modesta, telhado de palha, uma boa cama, boa comida, leite e manteiga; em frente à janela, flores; em frente à porta, algumas belas árvores. E, se o bom Deus quiser me fazer completamente feliz, me permitirá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos nelas pendurados. De coração comovido eu haverei, antes de suas mortes, de perdoar todas as iniquidades que em vida me infligiram – sim, temos de perdoar nossos inimigos, jamais antes, porém, de eles serem enforcados.

Depois de algum trabalho aqui está: a citação foi retirada de “Pensamentos e Idéias” (Gedanken und Einfälle) e encontrei-a no prefácio de “Noites Florentinas” (Florentinische Nächte), Mercado Aberto, 1999, tradução de Marcelo Backes.

“Noites Florentinas” é uma excelente novela e o restante de minhas anotações – um pouco bagunçadas – sobre o livro é este:

É muito prazerosa a troca de papéis que Heine faz em relação ao modelo das 1001 Noites. Se nas 1001 Noites, Sherazade – uma mulher – conta histórias e mais histórias a fim de não morrer, nas NF Maximilian – um homem -, faz o mesmo para que Maria sobreviva. Sei lá se o Rei das 1001 Noites dormiu durante alguma história; mas posso dizer que fiquei quase escandalizado ao descobrir que, ao final da primeira noite, Maria dormia. Eu estava acordadíssimo. Outra surpresa é o clima erótico sugerido por Heine. A história se passa ao pé do leito de Maria e o escritor eleva a temperatura diversas vezes. Relembremos a passagem na qual os amigos “…olharam-se em silêncio por longo tempo. Em ambas as almas surgiam pensamentos que cada qual tratava de dissimular ao outro. A mulher segurou de súbito a mão do homem e a cobriu de beijos ardentes”, depois há o toque dos lábios de Max nos pés de Maria e a frase “Sorrindo cheio de afeto ao olhar afirmativo de Maria…”. Se tais trechos não servem àquilo a que a Playboy se propõe, pelo menos nos fazem sonhar. Alguns capítulos depois, a história de Mademoiselle Laurence também vai fundo neste sentido, apesar do onírico da situação. O trabalho do tradutor-prefaciador Backes é impecável.

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Pequena Maratona Cinematográfica

Publicado em 17 de janeiro de 2005

Ontem, fiz uma maratona cinematográfica parecida com as que faz Guiu Lamenha. Às 22h, vi Antes do Pôr-do-sol, de Richard Linklater, e, às 24h, Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. Curiosamente, estes filmes comunicam-se e dialogam. Se em Antes do Pôr-do-sol temos um casal lamentando sua juventude e talvez corrigindo-a, em Os Sonhadores temos três jovens convivendo e amando dentro do turbilhão de maio de 1968. Em comum há a juventude, o fato de ambos terem sido filmados em Paris, o bom humor e a descoberta de filmes instigantes e bons, muito bons. Os extraordinários diálogos do primeiro receberam bela resposta na liberdade e ousadia de Bertolucci. Gostei demais dos dois e a prova viva disto é que minha bunda não ficou quadrada após as 4 horas. Saí do Arteplex alegre, animado, querendo conversar.

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Meu início de dezembro foi muito ruim. Aconteceram coisas que nem lhes conto. Neste contexto, fiz um pequeno comentário no blog do Fabrício Carpinejar em que discordava jocosamente da utilização que ele dera à obra-prima de Vermeer “Moça com Brinco de Pérola” ou, como se dizia antigamente, “Moça com Turbante”. Como Fabrício não costuma responder à comentários em seu blog – não teria tempo para mais nada se o fizesse! -, fiquei surpreso ao encontrar esta resposta em meu e-mail. Como a tristeza iguala tudo, não a valorizei muito na época. Hoje, bem melhor, orgulho-me dela. Deveria pô-la num quadro.

oi meu amigo

cordial divergência sempre faz bem, até as que não são cordiais (risos)
eu sempre leio teu blog. é uma das casas que passo no início de meu dia.

Faraco, Monteiro e Backes são grandes amigos. afinidade é escolha.
abraços do teu
Fabrício

Esse negócio do grande poeta me visitar todo dia deve ser exagero ou loucura, mas só o fato de vir aqui de vez em quando me deixa inflado e feliz a mais não poder, ainda mais quando demonstra certo conhecimento das sandices que escrevo. Faraco é, evidentemente, Sergio Faraco, enquanto Monteiro é Fernando Monteiro e Backes é Marcelo Backes. Sou amigo dos dois últimos; Faraco é daquelas pessoas com as quais só converso durante a Feira do Livro, sempre ciceroneado pelo Backes. Nem imagina o meu nome. Mas eu e Fabrício somos admiradores dos três… e da Moça de Vermeer, que volta a meu blog. Não canso dela.

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Minha Caixa de Entrada

Publicado em 30 de setembro de 2004

Minha Inbox é uma pândega. Por lá, entram mais de 100 mensagens diárias de pura porcaria. Porém, também entram aquelas 3 ou 4 que precisam ser lidas. Tive algumas trocas de mensagens que gostaria de tornar posts, mas não faria isto hoje, tarde da noite, pois antes teria que pedir permissão, etc. Trata-se de demonstrações tão grandes de civilidade e gentileza, que, por puro deleite, fico lendo e relendo as mensagens. Elas vieram principalmente da Diana Zeit – minha correspondente mais frequente dos últimos dias -, mas também da Magaly, da Denise Amon, da Claudia, da Mônica, da Rosele, da Helen, etc. Só agora me dei conta de que todas são mulheres.

Hoje estou cansadíssimo da festa e mais ainda do pós-festa de aniversário de minha filha Bárbara. Desta forma, vou revisar um post antigo a que me referi em minha correspondência com a Diana. É um post que se refere a dois adjetivos derivados de nomes de escritores. No caso do balzaquiano tenho 100% de certeza do que falo, já no kafkiano, acho que dou larga margem para eventuais contestações. Quando reli o post, achei-o simplório, muitíssimo abaixo do nível que a Diana sempre propõe em nossos contatos, mas, para mim, é uma curiosidade.

Balzaquianas e Kafkianos.

A Mulher de 30 Anos é um dos piores livros de Honoré de Balzac. É, certamente, o pior que li. Logo ele, um minucioso criador de personagens e tramas, escreveu um história frouxa, desarticulada e meio sem pé nem cabeça – devia estar apressado e premido por dívidas, o que muitas vezes lhe acontecia. Não pensem que tenho restrições à Balzac, poderia citar-lhe uma dúzia de romances perfeitos, porém este é ilegível. Apesar disto, seu belo título inspirou-nos a criar o termo “balzaquiana” no Brasil. Esta palavra, que só existe por aqui, serve para caracterizar as mulheres na faixa dos 30 anos, como no título da obra. Na época de Balzac e mesmo depois, a idade de 30 anos era um turning point decisivo para as mulheres: ou estavam caindo fora do mercado casamenteiro para tornarem-se tias – tolerados fracassos sociais, bem entendido – ou, se estivessem vivendo casamentos infelizes, estavam perplexas ante o irremediável, como é o caso da personagem do romance. Isto excita nossa imaginação, mas…

Dos 17 volumes das obras de Balzac editadas e reeditadas pela Globo (com traduções impecáveis de gente como Mário Quintana, Paulo Rónai, etc.), li uns 12. Posso dizer que as balzaquianas são a exceção da obra de Balzac. As balzaquianas típicas são as jovenzinhas e as tias velhas, nunca as mulheres de 30 anos. Nossa confusão criou uma expressão culta e equivocada… pura fantasia sobre o nome de um livro. O autor não deu maior atenção aos problemas das trintonas.

Porém, além das mulheres balzaquianas, existem as “situações kafkianas”… e este penso ser um equívoco mundial. Cada vez que alguém está numa situação que julga incomprensível, passa a vivenciar uma “situação kafkiana”. Concordo que pequena parte da obra de Kafka seja dedicada a problemas de natureza incompreensível, mas e o resto? O fato literário mais típico e perturbador da obra de Kafka é a revolucionária e insistente utilização da parábola. Esta sim é kafkiana. Segundo o dicionário Aurélio, um dos significados da palavra parábola é o de ser uma Narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior. Não é a descrição perfeita de Franz Kafka?

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Sonho com Marcelo Backes e Blogueiros + Inverno Quente

Publicado em 9 de setembro de 2004

Nossos termômetros chegaram a 36,4 graus e era 7 de setembro. Não temos termômetros malucos, somos apenas gaúchos. Pela manhã, não acreditava no calor que sentia; abri a janela e vi algumas pessoas caminhando com blusas de mangas compridas (estes confiam cegamente no calendário) e outras de camiseta ou sem camisa (os realistas). Eu e as crianças fomos para a piscina, mas é inverno e poucas estavam prontas para uso. Não senti frio algum quando entrei na água. Pensei: é setembro, tenho um monte de coisas por fazer, a Claudia ficou revisando um livro que recém traduziu e eu aqui, brincando de afogar o Bernardo e a Bárbara. Quem sabe volto para casa e dou um jeito de ser produtivo? Não, continuei na piscina.

Como a temperatura subiu, quis mudar de leitura. Ora, se o contexto é outro – calor, piscina, braços e pernas à mostra -, mude-se o livro! Peguei um comprado em Buenos Aires em 1990, El Mago, de John Fowles. Seu início é arrebatador, mas já estão dizendo que vai esfriar no próximo fim de semana e aí voltarei à mistura de Graciliano e Paul Auster em que me encontrava. O jornal decidirá. Abro na previsão do tempo: ficaremos entre 9 e 14 graus no próximo sábado. Sei que o jornal está certo, vivo neste estado há muito tempo e sei o quanto o tempo pode ser louco. I´m going back to Graciliano and Auster.

Há anos não lembro de meus sonhos. Eles se evaporam. Invejo a Claudia quando ela vem me contar o que sonhou logo cedo. Nunca tenho nada para contrapor e fico ouvindo suas histórias delirantes e cheias de ratos. Talvez tenha sido o calor, o fato é que lembrei de um sonho.

O SONHO. O começo é comum ao sonho de todos os brasileiros: ganhei na Megasena. Porém, minha primeira providência foi algo que nunca pensei fazer. Viajei imediatamente à Alemanha, mais exatamente à Freiburg para falar com meu amigo Marcelo Backes. Propus a ele fundarmos uma editora – a Ribeiro & Backes. Eu tinha a grana, estava rico. Instalamos a firma na casa de minha mãe, que é bem grande e logo ficamos com a garagem e todos os cantos cheios de Luiz Ruffato, Sergio Faraco, Fernando Monteiro, Luís Vilela, etc. Reeditamos também clássicos brasileiros em pocket. As capas eram espantosamente belas, como só se vê em sonhos ou na Cosac & Naify. Com Marcelo indicando os livros, conversando e pagando os editores culturais de várias publicações brasileiras e portuguesas, começamos a ganhar notoriedade e dinheiro. Só trabalhávamos à tarde. Pela manhã, tínhamos outras atividades. Por volta das 18h, fazíamos um happy-hour reunindo amigos e champanhe. Lembro de só de uma cena que nos incluía, além da Alda, Claudia, Franklin, Branco, Helen e alguns funcionários desconhecidos.

Um dia, com a bunda posta numa pilha do enorme, notável e nunca traduzido romance Daniel Martin, de John Fowles, um best-seller exclusivo da R & B (já sabem que não me refiro a Rhythm & Blues e sim a Ribeiro & Backes) , propus ao Marcelo lançarmos pockets de blogs. Em meu sonho disse-lhe para ler o Literatus, a Mônica, o Guiu, a Tchela, o Tiagón, a Meg, o Inagaki, a Mafalda Crescida, a Praia no Nelson, o Zadig e a Nora, lembro destes. (Calma, gente, isto é só o começo da coleção e o melhor fica para o final…) Marcelo era contra, mas resolveu aceitar; afinal, eu era o cara do dinheiro e meu plano era de fazer livros baratinhos com 100 páginas no máximo. Algo para se ler em duas horas. A capa da coleção – chamada apenas “Blogs” – era linda. Vi um exemplar do livro do Tiagón: letras pretas sobre fundo laranja: Bereteando com Tiago Casagrande – 50 Posts do Ano da Graça de 2004 e, abaixo, fotos em preto e branco e coloridas com referências à cultura pop. Só que a parte colorida formava um desenho que era plastificado – o restante era fosco – e, quando prestávamos atenção, víamos um pterodáctilo. Quem conhece o Tiago entende o motivo da presença do lagartão. Quando vi esta capa, acordei. Apesar desta descrição, juro-lhes, meus amigos, no meu sonho a capa era linda! Deve ter vendido bem.

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O Leitor Sem Método

Publicado em 5 de maio de 2004

Os livros que compro ou ganho vão sendo devorados aos poucos, obedecendo a uma inexplicável lógica. Durante este ano, tive a sorte de ler em seqüência quatro excelentes livros brasileiros recém-lançados. São eles O Grau Graumann (2002), de Fernando Monteiro; Armada América (2003), idem; Budapeste (2003), de Chico Buarque e As Pernas de Úrsula e Outras Possibilidades (2001), de Claudia Tajes. São romances que não guardam nada em comum entre si, mesmo considerando que temos duas obras de um mesmo autor. Os autores também não, pois se Fernando Monteiro é vítima da injustiça de ser pouco conhecido, Chico Buarque vende milhares de livros e Claudia Tajes é uma jovem gaúcha que vem tendo seus méritos reconhecidos.

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O Grau Graumann, que talvez seja o melhor dos quatro livros, inicia-se com a notícia de que o escritor fictício brasileiro Lúcio Graumann ganhara o Prêmio Nobel de Literatura. Finalmente! Tudo faria crer que teríamos uma curiosa farsa pela frente, mas vamos sendo minuciosamente contrariados pelo pernambucano Monteiro. Graumann não é obra de um escritor que joga para a torcida, é obra de alguém muito sofisticado e inteligente, que possui grande talento e informação literária. Suas quebras e mudanças de foco fazem lembrar William Faulkner, conservando, porém, sua originalidade. Graumann nega-se a dar entrevistas e permanece recluso em uma praia do nordeste; contudo, manda um recado à Folha de São Paulo sugerindo que aceitaria falar com um amigo, o jornalista Mauro Portela. Mauro é um ressentido e aceita o trabalho de free lance mais pelo dinheiro que por interesse no amigo. Procura então inutilmente arrancar algo bombástico ou significativo de um homem dobrado pela doença. O contraste entre uma provável comemoração pelo recebimento do prêmio e a depressão de Graumann é aterrador. Reconheço minhas dificuldades com o que chamo de excesso de verossimilhança de algumas obras. Graumann não é tão terrível quanto Vernônia, de William Kennedy, que é complicado de ler, mesmo sem as imagens de Babenco, mas a soma de Graumann + sua amante + sua fuga + seu “perseguidor” Mauro + o cenário formam um todo desolador. Graumann terá uma “continuação” chamada As Confissões de Lúcio, romance propositalmente quase homônimo ao de Sá-Carneiro, que conterá material iconográfico, tais como fotos, manuscritos, etc. e há ainda a idéia de um terceiro romance, escrito pelo próprio Lúcio Graumann e com capa creditada a ele… Imaginem!

Certamente O Grau Graumann é melhor, todavia meu obtuso ser divertiu-se mais com Armada América. São 14 relatos “americanos”, nos quais Monteiro constrói um significativo mosaico daquele país. Não há aceitação passiva do american way of life, nem inflamados discursos antiamericanos. É um livro dedicado aos americanos comuns, incluídos ou outsiders, e o quadro formado nos mostra um amplo retrato de um país sem muito glamour. Monteiro dá inúmeras demonstrações de um despreocupado virtuosismo, move-se pelo livro utilizando a primeira pessoa do singular. Às vezes, não sabemos claramente quem está contando a história, se um personagem ou outro, ou o próprio autor; no relato Benny Siegel há um inesperado e impagável comentário dirigido ao leitor: trata-se de um elogio quase incrédulo a um parágrafo escrito por… Fernando Monteiro: “Bonito, não?”, diz o narrador, para depois retomar o tom habitual. Por puro vício, esperava que Armada contivesse uma história sobre jazz, mas ela não existe. Errei, mas queria ter acertado. Em e-mail trocado com o autor, submeti a ele algumas observações. Resumidamente, eis sua resposta:

Embora agora lamente que, de fato, falte um relato exclusivamente sobre “jazz” – apesar de que, no segundo, conforme eu ainda não havia notado, haja referências ao jazz etc. -, acho que deveria haver ali uma coisa diretamente relacionada, sim, você tem toda razão…

Do “Graumann”, essa opinião de que é um livro que vai ficando opressivo, eu já a ouvi de outros, e suponho que seja mesmo a direção para a qual o romance se encaminha, conscientemente (como metáfora, inclusive, do fracasso da literatura, entre outras coisas).

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Claudia Tajes é engraçadíssima. Seu livro As Pernas de Úrsula e Outras Possibilidades é pontuado por uma comicidade irresistível. Tajes é boa observadora e usa de ironia e mordacidade para contar a história de um divórcio. Lembram daqueles testes psicológicos das empresas para avaliar nossa capacidade para ocupar um cargo? Uma das perguntas mais freqüentes era: qual sua maior qualidade e seu maior defeito? Sobre Claudia Tajes eu responderia o mesmo para os dois questionamentos: o fato de ser engraçada. E, àqueles psicólogos, diria que nossas maiores qualidades podem tornar-se defeitos quando levadas à exacerbação. Não sei o motivo de tanta vontade de fazer rir (a Síndrome L.F. Verissimo?), mas ela faz questão de duas ou três piadas por parágrafo. Sempre. Então, ao mesmo tempo em que nos entusiasmamos com a criatividade e bom humor do texto, notamos que até em trechos dramáticos há galhofa. Há assuntos que não são tão engraçados e ficam distorcidos quando ridicularizados. Woody Allen escreveu que o fato de ser jocoso sempre pode atrapalhar a narrativa. Allen, para desespero de alguns, retirou de Manhattan algumas cenas que, em sua opinião, prejudicavam a atenção do espectador por sua extrema comicidade. Já Tajes erra quando quer manter um perpétuo “Allegro Molto” mesmo em cenas onde há abandono de amantes e crianças.

Não obstante a crítica, confesso ter dado boas risadas, pois antes ou depois de ser mácula, a veia cômica é virtude.

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O Milton de 2005 reúne-se aos de 2001 e 2003 (IV)

O Milton de 2005 junta-se a seu duplo e triplo mais jovens. Ficam conversando na calçada.

2003: (Hesitante) Vieste nos ver… Vamos saber tudo?
2005: Tudo? Não, não tudo. Tenho só dois anos a mais que tu… Se a vida de um brasileiro médio dura 70 anos, só vivi uns 3% a mais que tu e 6% mais do que o 2001. Vivi 69% do total. Restam 31% que não conheço. Mas sei o que te espera nos próximos dois anos. Não te preocupa, foram bons anos.
2001: Não trouxeste nenhum resultado da Megasena para nós?
2005: (Dá um tapa na cabeça.) Como sou burro! Mas, pensando melhor, se tu ganhasses a Megasena antes de chegar a quem sou hoje… que efeito teria isto sobre mim?
2003: Talvez estivesses com uma aparência menos cansada.
2001: É.
2005: (Rindo) É surpreendente a deselegância a que nossos duplos podem chegar. Estão me achando velho, acabado?
2003: Velho, não; sem dúvida cansado, usadinho.
2005: Podemos entrar ali no shopping depois? Quero ver minha cara num espelho. Estamos trabalhando muito, com planos de construir uma casa. E, quando chegamos em casa, há a Claudia, que é ótima, mas tem uma energia inesgotável. (Os duplos primeiro fazem cara de pasmo, depois sorriem.)
2001: Ela está acabando contigo? Que azar…
2003: Nos sugando a energia?
(Risadas)
2005: Não, não é por aí… É que chego em casa e quero ler, ouvir música como sempre fiz. Mas ela quer fazer planos, têm dúzias de idéias, enquanto que eu não tenho nenhuma… São horas de trabalho que continuam em casa!
2003: O bom da festa é quando chegamos em casa e tiramos os sapatos.
2001: Bêbados, de preferência.
2005: Como se bebêssemos muito… A casa será num terreno do pai da Claudia. O plano é construirmos um pequeno edifício com o irmão dela.
2001: Conte mais!
2005: O Grêmio caiu para a segunda divisão no ano passado.
(Todos riem, felizes)
2003: Que belo futuro nos espera! Mais, mais novidades!
2005: Vamos para a Libertadores no ano que vem. Quase ganhamos o Campeonato deste ano, mas o Corinthians o comprou antes. Ah, e publicamos 1/12 de livro: uma antologiazinha com outros.
2001: 1/12 de livro… Isto torna alguém publicado?
2003: Não.
2005: Claro que não. Mas também não temos a menor vontade de procurar editora. Contam cada história a respeito. Só o fato de ser estigmatizado como “estreante velho” já nos dará engulhos. Mas temos duas novelinhas e um livro de contos dentro do micro.
2001: Faça back-up, viu?
2003: É coisa boa?
2005: Não estou seguro. É bem escrito, mas talvez seja excessivamente cronístico.
2001: Como somos exigentes.
2003: Para que publicar qualquer merda? Já basta o que há.
2003: E nossa mãe?
2005: Alzheimer.
(Silêncio por algum tempo.)


René Magritte – O Duplo Secreto (1927)

2003: E os outros da família? E os amigos?
2005: Os outros estão inteiros.
2003: Mais alguma surpresa?
2005: A Bárbara quer morar conosco.
2003: Poxa, que legal! Que bom. Mas… há problemas entre ela e a mãe?
2005: Ela fala pouco a respeito; evita o leva-e-traz de informações.
2001: Boa menina.
2003: E como ficará isto?
2005: Não tenho a menor idéia, falei sobre as desvantagens que eu tenho a oferecer: casa pequena — atualmente — , expliquei que não vou ficar o tempo todo em casa, que ela ficará sem pátio, que passará as tardes sozinha, mas ela não quer saber, quer vir.
2003: É que há vantagens.
2005: O que tu sabes a respeito disso?
2003: Ora, eu conheço o funcionamento da família da Claudia, principalmente das figuras femininas. Há mulheres de personalidade, inteligentes. Vaidosas, também. São modelos muito sedutores para uma pré-adolescente. Há a Bianca, a Lia, a Claudia, claro, e até a “vódrasta”. Sabe como é.
2001: Discordo. Uma criança de 11 anos como ela em 2005 só quer carinho e atenção. É isso o que damos e daremos a ela e é isso o que ela quer e precisa. Não acredito nesta coisa de “modelos femininos”. Depois, quando ela for maior, talvez a grana que está do outro lado a atraia. Hoje, ela está se lixando.
2003: Que é isso? Por que este ataque a minha filha, digo, nossa filha. Que coisa absurda.
2005: Ele não está nada bem, 2001. Além disso, sabe que a grana em parte ficará lá porque ele botou nossa assinatura boba num monte de papéis que nos apresentaram.
2001: …
2005: Isso tem que mudar, né?
2003: Escute 2005, vamos negociar, da próxima vez que vieres, não dá para trazer uns números da Megasena?
2005: Porra, tu fazes as cagadas, mas só pensa em dinheiro. Até entendo tua loucura por dinheiro depois de sair de uma sessão com a Adriana Vergerus! (*)
(Risadas)
2003: Como vai ela? – pergunta ele rindo a 2001.
2005: (Ainda rindo) Com a diferença de que esta Vergerus não está num filme de Bergman, está na tua frente, te torturando.
2001: Psicológica e financeiramente.
2005: Tirando todo e qualquer advogado do caminho para fazer os acordos.
2003: Mas acaba logo, 2001, haverá muito sofrimento mas acaba. E bem, agora preciso trabalhar para sustentar o 2005 aí.
2001: Digam-me uma coisa: eu poderia ir para o futuro visitar algum de vocês ou só vocês podem vir para 2001?
2003: Só imagino o quanto ficarias confuso, mas acho que não há nada que te impeça. Adoraria te apresentar a Claudia. Vais gostar dela.
2001: Espero que sim.
(Sorrisos)
2005: Talvez fosse melhor não vires, ficarias ansioso por nossas mancadas, que são inevitáveis.
2001: (Alegre) Vou pensar a respeito. E tu, 2005, cuida bem de nós.
2005: Pode deixar.
2003: Quando vamos nos rever?
2005: Qualquer hora destas.

(*) Adriana Vergerus é um nome fictício. Os personagens perversos, assim como os que atraem ou prognosticam o mal nos filmes de Ingmar Bergman têm muitas vezes este sobrenome. Ao longo da obra do maior de todos os cineastas, há mais muitos Vergerus, todos monstruosos, quase todos médicos ou clérigos.

Maiores detalhes sobre os Vergerus e também sobre os Vogler neste post.

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O Milton de Março de 2001 Entrevista o Milton 2003 (III)

O Milton de 2001 saía de um elegante edifício de uma das zonas nobres de Porto Alegre, quando foi novamente abordado por seu mais novo amigo, o Milton de 2003. Eles caminham juntos.

2001: Ah! Demorou mas cumpriste a promessa de me encontrar aqui.
2003: Vim outras vezes na saída da terapia familiar, mas fui embora por medo de que nossa ex me visse.
2001: Tua ex, não minha!
2003: Pode ser, mas imagine o pasmo dela ao me ver.
2001: De que servirá esta terapia?
2003: Bom, sabes que não somos hostis a este tipo de tratamento, mas a presença da shrinker servirá apenas para que a lei seja ignorada (com nossa concordância), para que as crianças fiquem bem (não ficariam sem a terapia?) e para que montássemos nossa agendinha. De qualquer maneira, aprendemos muito lá dentro, sem dúvida. No fundo tudo vale a pena, não?
2001: Vamos mudar de assunto. Podemos falar sobre as tuas perspectivas ou vai me enrolar de novo?
2003: Após a separação ficarás sem dinheiro, sem mulher e sem “um teto todo seu”, entre aspas, como diria Virginia Woolf… A propósito, ficarás até sem A Room of One’s Own (risadas). Portanto, conhecendo tuas péssimas perspectivas a curto prazo, a situação de hoje é muito melhor.
2001: E as contas?
2003: Serão pagas com alguma dificuldade, mas dará tudo certo. Um dia, em 2002, terás um grande chilique, pois nos colocarão no SERASA, mas descobriremos em 5 minutos que foi um engano do Itaú, do qual nos desligaremos imediatamente, é claro. Isto é, nossos atrasos nos pagamentos serão pequenos. Não venderemos carro, sala, nada. Será só aperto.
2001: É, mas fico nervosíssimo com estas coisas.
2003: Ficamos ainda, meu amigo.
2001: E o futuro?
2003: Vejo o futuro com otimismo pela primeira vez em muitos anos. (2001 fica com lágrimas nos olhos, abaixa a cabeça e procura esconder o descontrole. É muito feio se emocionar em público.) Nossa baixa auto-estima será obrigada a recuar e, de certa forma, ficará sem argumentos. Acontecerão muitas coisas boas. Mas por que estás olhando para o outro lado?
(Longo silêncio)
2003: Posso continuar agora?
2001: Sim.
2003: Primeiro começarás a te reeerguer financeiramente; será uma coisa tímida, mas importante. Depois virá a Claudia, que nos apoiará incondicionalmente e auxiliará em tudo, inclusive em nossos projetos. Ela é muito inquieta, na verdade é um furacão. Nem bem planeja e já está agindo. Depois virá o blog…
2001: O que? Vou ser proprietário de uma lavanderia?
2003: (risadas) Blog é a contração de “web logger”, uma forma de publicar na Internet que se tornará muito popular. Mas às vezes vira conversa de lavadeira mesmo… Temos sorte e, em nosso caso, não acontece com freqüência. Em tempo saberás melhor o que é. O importante é que neste tipo de lavanderia poderás te expor da forma que sempre desejaste.
2001: Escrevendo?
2003: É claro.Vamos escrever pequenos textos que serão muito grandes para um blog convencional. Um pequeno grupo de leitores nos lerão, porém são de tão alto nível, que é como se fossem milhares. Quase sempre escreveremos a nosso respeito. Seremos nossos melhores personagens.
2001: Como será o nome do… conjunto da obra?
2003: Milton Ribeiro.
2001: Não poderia ser “Sob minha pele”?
2003: Under my skin? É um belo nome, mas a Doris Lessing escreverá um livro de memórias com este nome, traduzido no Brasil como “Debaixo de Minha Pele”. Acho que Milton Ribeiro está bom.
2001: Quem é aquele que vem lá na esquina?
2003: Não sei.
(Vem ao encontro deles, sorridente, um homem extremamente parecido com a dupla de amigos que conversam. Porém, é mais velho e, não obstante o semblante animado, tem a aparência cansada.)
2001: Eu não acredito!
2005: Bom dia, senhores, já devem adivinhar quem sou, não? Venho de 2005!
(2001 fica feliz. Já 2003, até então senhor da situação, fica visivelmente perturbado. Não esperava por esta.)

(Continua)

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O Milton de 2001 encontra o de 2003 (II)

Na saída do cinema, Milton 2003 aguardava sua versão 2001. Caminham juntos.

2003: Que filme original e triste, né? Gostaria que dissesses algo para que eu pudesse recuperar meu sentimento pós-filme.
2001: O filme é muito bom e comovente, mas não tenho nada de especial para dizer. Acho fantástico o fato de alguém ter tido a coragem de fazer um musical inusitado, realista. É um grande filme. Quem imaginaria Björk – atuando como atriz – e Catherine Deneuve num filme dirigido pelo Lars von Trier? A cena do assassinato coloca a personagem de Björk frente a uma questão sem solução. As duas opções que o homem lhe dá são terríveis e ela escolhe seu filho, é claro.
2003: Não entendo, não ias ver o Henry Fool, que é excelente?
2001: Mudei meu ingresso na última hora, não quis ver o filme de um fracassado.
2003: E então escolheste o da cega?
2001: Sim! (risadas de ambos)
2003: É, nós também escolheremos nossos filhos na separação. Sairemos sem nada. Deixaremos tudo o que pudermos. A intenção será a da busca da tranquilidade mediante uma tremenda auto-agressão, uma coisa inócua a qualquer que um não fosse nós mesmos e que visava demonstrar uma certa nobreza de caráter, uma certa elegância ao estilo século XIX… Será uma tentativa de recomeço aos 44. Logo depois, teremos a certeza de ter cometido um erro. Nosso amigos não entenderão, acharão injusto e até seremos instigados por eles a fazer uma revisão das coisas. Porém, não faremos nada. Talvez o reconhecimento deles baste para nos deixar tranqüilos.
2001: Acho que prefiro assim mesmo. Mas pelo menos vou ficar com os meus livros e CDs, não?
2003: Claro que vais. Vais te livrar das posses, não de ti mesmo. (risadas)
2001: Até porque é meio complicado conseguir uma coisa dessas. Vai ficar alguma coisa minha lá?
2003: Não muito, não será necessária uma troca de prisioneiros em grande escala, até porque vais deixar quase tudo. Além disto, mesmo hoje, as coisas já estão separadas, prontas para a cisão.
2001: Eu quero que tu respondas as perguntas que fiz antes do entrar no cinema. Quero saber das tuas perspectivas, sobre minha situação com esta Claudia, onde vamos morar, etc.?
2003: Novamente estás confuso, peço-te calma. Falaste na mesma frase sobre “minha situação”, “tuas perspectivas” e “onde vamos morar”, são muitas conjugações diferentes.
2001: É que nunca estive conversando com meu duplo futuro…
2003: Me encare como um gêmeo um pouco mais grisalho. Observe como as pessoas não demonstram muita surpresa ao nos ver. Vamos às perguntas: sairás da tua casa para morar com a mãe. Terás muita vergonha de dizer isto.
2001: Como é que é? (Engolindo em seco) Eu vou voltar para casa? Vou dormir no quarto de onde saí para morar sozinho?
2003: Sim. E, apesar da vergonha que terás de teu domicílio e de tua depressão inicial, viverás muito bem lá. Nossa querida Maria Luiza não será invasiva, nem chata e não vai ficar perguntando coisas. Te dará a mais consoladora das hotelarias e a maior liberdade.
2001: Bela peça de propaganda imobiliária…
2003: Não seja injusto. Acabarás enchendo de música e de roupas para lavar e passar a vida de duas velhinhas… As crianças adorarão a casa enorme cheia de quinquilharias e o serviço cinco estrelas que terão. A Inah, a empregada, vai tornar lei cada pedido deles. Dará tudo certo.
2001: E esta Claudia?
2003: Não vou te tirar a surpresa descrevendo-a. Posso te dizer que ficaremos longo tempo em duas casas. Dormiremos fora 5 dias da semana e nos outros dois ficaremos com as crianças na casa da avó. Será uma fase muito cigana, até feliz, se compararmos com o pós-separação. Muitas vezes vamos errar as roupas. Levaremos roupas leves e o dia amanhecerá frio. Então, ficaremos tiritando sob roupas leves e amarrotadas, sempre amarrotadas.
2001: Como vou conhecê-la?
2003: Tu vais ficar muito tempo em casa e te dedicarás à música, à leitura e à Internet. A Claudia virá através da rede, será uma surpresa. Redescobrirás quão grudento podes ser quando apaixonado. Ficarás todo o tempo possível junto dela. Ela está muito presente no capítulo perspectivas.
2001: E as crianças?
2003: Quando souber da Claudia, o Bernardo dirá que tu és um cara legal e que merece ter uma namorada, mas não vai querer conhecê-la logo. Demorará uns 2 meses. A Bárbara ouvirá tudo com aparente frieza, mas, depois de uma semana, perguntará: “Vou ter 2 mães?”, responderás a ela que a Claudia será somente mais uma amiga. Contrariamente ao Dado, ela vai querer conhecê-la imediatamente. Serão amicíssimas. O primeiro encontro das duas será antológico. A Bárbara não falará nada, ficará escondida em seus próprios cabelos, espreitando a novidade.
2001: E as perspectivas? Quais serão meus desejos e planos?
2003: Façamos uma terceira sessão qualquer hora destas.
2001: Por que não agora?
2003: Tenho que voltar. Te encontrarei na saída de uma destas sessões de… terapia familiar. (risadinha infame)
2001: Não entendi a graça.
2003: Se eu te explico o motivo, talvez isto mude nosso futuro. Quero chegar aqui assim, estamos melhor agora.

(Continua)

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O Milton de 2001 encontra o de 2003 (I)

O Milton de 2001 estava sentado num bar, fazendo hora antes de entrar no cinema, quando viu entrar e dirigir-se a ele uma pessoa extremamente parecida consigo, talvez um pouco mais velha.

2003: Como vai, mal?
2001: Sim, muito mal. Quem és tu?
2003: Nós somos o mesmo Milton Ribeiro, só que eu vim de 31 de outubro de 2003 para te visitar e auxiliar. Sei que sofres muito. É muito natural que tenhamos grande apreço um pelo outro. (risada da parte de 2003) Vais te separar, tua vida vai mudar completamente nos próximos meses e eu voltei no tempo para te dizer que sobreviveste.
2001: Putz. Não basta eu estar começando aquela terapia familiar! Ainda me vem um louco…
2003: A terapia familiar só funcionará para as crianças e não somos loucos.
2001: E como poderias me provar que és… eu?
2003: Vou te provar quem sou. Ouça com atenção: nossa primeira relação sexual foi com uma colega de aula chamada Maria Cristina, que morava na Rua Santana e, depois de termos beijado apaixonada e insistentemente a moça – que era esplêndida! – na porta de sua casa, colocamos o dedo indicador em seu peito e a empurramos delicadamente para dentro. Entramos junto, é claro. O ato foi consumado na sala, atrás do sofá, enquanto os familiares dela dormiam com os anjinhos. Tu nunca contaste isto para ninguém.
2001: E tu, já contaste?
2003: Contei para ti agora, mas antes já tinha contado para a Claudia.
2001: Que Claudia?
2003: Uma pessoa que vamos conhecer em 3 de abril de 2002, através de um site.
2001: (risadas) Eu vou conhecer uma pessoa através de um site? Que baixaria!
2003: É surpreendente que digas isto. Principalmente se considerarmos a absoluta convicção com que fizeste… a baixaria.
2001: Tu estás mais gordo e grisalho.
2003: É o tempo, né? Quanto ao peso, discordo. Aumentamos pouca coisa, só dois quilos. Tenho 72 kg, tu tens 70 kg. Para nosso 1,71m está bom.
2001: Minha vida vai melhorar?
2003: Hoje não sofro tanto.
2001: Vou me separar?
2003: Sem dúvida, já disse isto.
2001: Vamos por partes. Quando e como vou me separar?
2003: Em julho de teu ano. Não haverá traição, histeria, grandes cenas, nada. Apenas será dado um ponto final a esta relação indigente. Será o caso clássico, vais pensar seriamente em suicídio e, também de forma clássica, não darás nenhum passo nesta direção. Terás vontade de chorar na frente dos outros ou dentro dos cinemas, farás enormes esforços para se conter; porém, sozinho, não derramarás nenhuma lágrima. Será desespero seco.
2001: E as crianças?
2003: Serão as tuas melhores lembranças do período. Vão te dar apoio e serão indulgentes com tua “nova pobreza”.
2001: Pobreza?
2003: É claro, os ganhos do casal não vão duplicar com a separação e vocês terão de manter duas casas. É uma questão de matemática simples. E saibas que a ausência a que pensas que relegarás teus filhos te deixará muito desprendido de bens materiais, muito despojado.
2001: Acho que eu não quero continuar conversando.
2003: A curiosidade pode matar…
2001: A mágoa mata mais.
2003: É verdade e é um livro do Saul Bellow. (risadas de ambos)
2001: Vou fazer uma pergunta.
2003: Vim aqui para isto.
2001: Hoje tenho a perspectiva que conheces, quero saber qual a perspectiva que terei em 2003. É outra? E quem é esta Claudia? Eu já casei de novo? Onde vou morar?
2003: Calma, estás muito ansioso e tuas perguntas não são inteligentes.
2001: …e… neste ínterim… vou comer muitas mulheres?
2003: Olha, Milton, não quero te atrasar para o cinema, vais adorar este filme. Ele vai para a tua lista de melhores de 2001. Apesar disto, vou te responder a última pergunta: só umas 3. Depois, a Claudia vai te açambarcar…
2003: (risadas) Que bom! Que me devore!

O Milton de 2001 entra na sala escura a fim de ver As Confissões de Henry Fool, de Hal Hartley, enquanto sua versão 2003 some na rua.

(Continua)

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Pela complexidade

Ontem, estourou uma bombinha no twitter: uma irritação feminista contra um texto publicado no blog do Luiz Nassif que citava a palavra feminazi para caracterizar certo gênero de feminismo. É claro que o mau gosto é evidente e que a analogia entre feminismo e nazismo é infelicíssima, até porque, até onde sei, só existe um tipo de nazismo e este é terrível.

A briga no twitter e nos posts levam todos a posições exageradas e falsas. As feministas passam a demonstrar ojeriza e incompreensão para com o jornalista. Ele, dias atrás tão legal, avançado e “de esquerda”, transformou-se num monstro. Em resposta, ele e seus defensores tiram sarro, adotando pontos de vista cada vez mais machistas. Os dois grupos correm para os extremos, empurrados pelas figurinhas carimbadas de sempre. Não penso que nenhum dos dois grupos seja tão enlouquecidamente equivocado. Mas tornaram-se nas últimas horas. É claro que “os machistas” não têm razão, digamos, primária na questão — pois nem eles acreditam que a expressão discutida seja justa — , mas foram levados a defender-se em função dos ataques.

Casualmente, estou deliciando-me com Um teto todo seu, de Virginia Woolf. OK, não é um livro feminista tal como entendemos a palavra hoje, apesar de ser um texto que deixa muito claras as injustas posições da mulher na sociedade das primeiras décadas do século XX — seu tema, na verdade, é “As Mulheres e a Literatura”. Mas a lição de equilíbrio e a noção de que há camadas e mais camadas de complexidades sob o tema fica desnudada no livrinho de VW (138 páginas, na edição que leio). Isso é tudo o que não acontece na briga de bugios (*) ora observada. É notável como os grandes autores que permanecem como referência maiores, são aqueles que não têm soluções ou palavras definitivas. Dostoiévski mostra todos os lados das questões sem escolher nenhum; Tchékhov dá uma sucinta aula cada vez que demonstra que há paixão e motivos profundos até num passar da faca na manteiga; Virginia é mais explícita e parte para o intimismo a cada linha, expondo uma confusão que chega ao ponto de ser gloriosa; Freud é humilde e costumava retificar-se e dar a cara ao tapa a cada duas páginas… E há mais exemplos, muitos mais. Mas os contendores de ontem têm certezas absolutas.

O importante é ofender, é amassar o adversário. Não deixa de ser curioso.

(*) Diz-se da briga ou discussão acalorada entre duas ou mais pessoas, onde o xingamento, o palavrão e as ofensas mais pesadas são usadas contra o outro. Os bugios, quando brigam, usam a própria bosta para atingir o adversário.

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Dmitri Shostakovich (VIII – Final)

Na primeira parte do último texto, escreverei uma pequena introdução sobre meu diletantismo radical de escolher um compositor para passar centenas de horas a lê-lo e ouvi-lo. Há muita coisa boa e muita porcaria publicada. Já as gravações são quase todas boas. Ele não é compositor para músicos diletantes…

Os piores textos vêm daquelas alas que atribuem ou buscam descobrir alguma posição política no homem e na obra. Tais posturas, encontráveis tanto à direita quanto à esquerda, com predominância daquela, servem apenas para mostrar a ideologia de quem escreve, o que, convenhamos, pouco interessa neste caso. Depois de muito ler, fica clara a grande e falsa exposição que Shostakovich obteve durante da Guerra Fria, no Oriente e no Ocidente. Ambos os lados o utilizaram como exemplo de suas teses. Ele e outros intelectuais soviéticos foram espécies de caixas pretas nas quais se podia adesivar as mais diversas opiniões e posições. Não, Shostakovich nem representava o governo soviético, nem esteve ao lado dos dissidentes Soljenítsin e Sakharov. Se teve inúmeras oportunidades de permanecer no Ocidente e não o fez (argumento da esquerda), também sofreu horrores com Jdanov, Stálin e mesmo depois (argumento da direita); se escreveu ironias ao estado soviético (Cantata Rayok, argumento da direita), também cantou o heroísmo da revolução em obras não encomendadas. Shostakovich parece-me ter sido alguém cujo pensamento político possuía pouca relevância e que agia sempre como artista e ponto. Só isso? Não, em minha opinião, ele era um comunista muito crítico e reto, com uma complexa relação de amor e ódio ao poder da URSS. Apenas Stálin era cem por cento abominado. Era um artista, não um político; não seguia as linhas tortuosas, às vezes indefensáveis, que os partidos frequentemente defendem. Utilizou-se de temas de sua época, porém a perspectiva sob a qual via o mundo era, curiosamente, sempre foi a dos mortos. Dos mortos pelos nazistas, pelos anti-semitas, pelos soviéticos, por Stálin ou pelo passar do tempo, como em toda sua obra final. Como escreveu Fernando Monteiro, toda grande obra gira em torno de três temas: Amor, Deus e Morte. Acho que Shostakovich, teve muito a dizer sobre todos, principalmente sobre os dois últimos temas; o primeiro pela inexistência, o segundo pela onipresença.

Aliás, com o passar do tempo — o qual tem o bom costume de fazer aparecer a verdade e o pouco recomendável hábito de fazer desaparecer nossos pobres corpos –, a discussão sobre o pensamento político de Shostakovich tornar-se-á ociosa e ficará o que interessa: o homem e o compositor; e este era um sujeito brilhante e produtivo, deprimido e eufórico, que torcia interminavelmente os dedos, como mostram os filmes soviéticos, sentado num trem olhando a chuva bater na janela; que homenageava a pureza de alguns revolucionários e criticava ou expelia seu amargor e sarcasmo aos governantes; que permanecia parado por horas em silêncio com os amigos de que gostava — e só com eles.

Por falar em gostar, o que gosto em Shostakovich é sua música. Ela é produto de um artista apaixonado e inacreditavelmente produtivo. A forma com que ele se relacionou com seu tempo serviu à sua música e não o contrário. Escrevia para ser compreendido e para expressar-se, mas não tinha ilusões de mudar seu país e o mundo, que é como parece pensar quem só vê política na arte de Shostakovich. Sua música, antiquada para os modernos e moderna para os anacrônicos (sem ofensas, sem ofensas…), consegue ser visceral e cerebral, e concordo com este artigo quando seu autor fala no quanto a audição de Shostakovich demandou-lhe subjetivamente. Não é música para ser assimilada nas primeiras abordagens e nem esquecida facilmente. São experiências oferecidas por alguém disposto a buscar tudo o que estivesse à mão para expressar o que desejava e que produziu uma obra séria, sarcástica, deprimente, divertida, inteligente, lúdica e extraordinária: às vezes, tudo ao mesmo tempo.

A seguir, comento as três últimas grandes obras de Shostakovich.

Quarteto de Cordas Nº 14, Op. 142 (1972-73)

Este é quase um quarteto para violoncelo solo e trio de cordas, tal é a proeminência dada àquele instrumento. É um quarteto inspiradíssimo, escrito em três movimentos (Allegretto – Adagio – Allegretto), e que tem seu centro dramático em um dilacerante adagio de 9 minutos. Não consigo imaginar uma audição deste quarteto sem a audição em seqüência do Nº 15. Eles, que costumam aparecer juntos, seja em vinil ou em CD, formam, em minha imaginação, uma só música.

Quarteto de Cordas Nº 15, Op. 144 (1974)

Este trabalho, assim como a sonata a seguir, são tidas como obras-primas e seriam os dois principais “réquiens privados” de Shostakovich. Concordo.

O que dizer de um obra escrita em seis movimentos, em que quatro deles são adagio e os outros dois são adagio molto, sendo que, destes dois últimos, um é uma marcha funeral e outro um epílogo…? Ora, no mínimo que é lenta. Porém, como estamos falando do Shostakovich final, estamos falando de uma obra que tem como fundo a morte. Há três movimentos realmente notáveis nesta música: a Serenata: Adagio, a Marcha Fúnebre – Adagio Molto e o musicalmente espetacular Epílogo – Adagio Molto. O Epílogo recebeu vários arranjos sinfônicos e costuma aparecer — separadamente ou não do resto do quarteto — em gravações orquestrais.

Sonata para Viola e piano, Op. 147 (1975) – A Última Composição

Esta é a última composição de Shostakovich e uma de minhas preferidas. Ele começou a escrevê-la em 25 de junho de 1975 e, apesar de ter sido hospitalizado por problemas no coração e nos pulmões neste ínterim, terminou a primeira versão rapidamente, em 6 de julho. Para piorar, os problemas ortopédicos voltaram: “Eu tinha dificuldades para escrever com minha mão direita, foi muito complicado, mas consegui terminar a Sonata para Viola e Piano”. Depois, passou um mês revisando o trabalho em meio aos novos episódios de ordem médica que o levaram a falecer em 9 de agosto.

Sentindo a proximidade da morte, Shostakovich escreveu que procurava repetir a postura estóica de Mussorgsky, que teria enfrentado o inevitável sem auto-comiseração. E, ao ouvirmos esta Sonata, parece que temos mesmo de volta alguma luz dentro da tristeza das últimas obras. A intenção era a de que o primeiro movimento fosse uma espécie de conto, o segundo um scherzo e o terceiro um adágio em homenagem a Beethoven. O resultado é arrasadoramente belo com o som encorpado da viola dominando a sonata.

Os primeiros compassos da Sonata ao Luar, de Beethoven, uma obra que Shostakovich frequentemente executava quando jovem pianista, é citada repetidamente no terceiro movimento, sempre de forma levemente transformada e arrepiante, ao menos no meu caso… O scherzo possui uma marcha e vários motivos dançantes, retirados de uma outra ópera baseada em Gógol — seria sua segunda ópera composta sobre histórias do ucraniano, pois, na sua juventude ele já escrevera O Nariz (1929) — que tinha sido abandonada há mais de trinta anos. Outras alusões são feitas nesta sonata. Há pequenas citações da 9ª Sinfonia (de Shostakovich), da 4ª de Tchaikovski, da 5ª de Beethoven, da Sonata Op.110 de Beethoven, de Stravinsky, Mahler e Brahms. E a abertura da Sonata utiliza trecho do Concerto para Violino de Alban Berg, também conhecido pelo nome de “À memória de um anjo”, o qual é dedicado à filha de Alma Mahler, Manon, morta aos 18 anos, com poliomielite.

Creio não ser apenas invenção deste ouvinte- – há uma constante interferência do inexorável nesta música, talvez sugerida pela intromissão de temas de outros compositores na partitura, talvez sugerida pela atmosfera melancólica da sonata, talvez por meu conhecimento de que ouço um réquiem. O fato é que Shostakovich estava aguardando.

Shostakovich morreu sem ouvir a sonata, que foi estreada num concerto privado no dia 25 de setembro de 1975, data em que faria 69 anos.

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