O que foi aquele primeiro tempo contra o Princesa do Solimões, de Manacapuru (AM), ontem à noite? Com um time mal escalado por ti — escrevi no Facebook antes do jogo — , o que fizemos? Nada. O Inter não criou nenhuma chance clara de gol contra o Princesa do Solimões, sim, o Princesa do Solimões, EM TODO O PRIMEIRO TEMPO, só uns lances fortuitos causados por erros do adversário. Somos um time plano, cansativo de se ver, sem inspiração, imaginação e criatividade, somos deprimidos e infelizes.
O “atacante” Diego é um braço roubado à construção civil. Klaus estaria melhor entregando gás por nossas ruas. Conseguiu errar três saídas de bolas consecutivas. Eram passes fáceis, de futebol primário. Roberson e Andrigo nem jogaram, mas não os esqueço em razão dos traumas que me causaram. Ambos fariam uma boa equipe de entregadores de pizza.
Enquanto isso, Valdívia, Seijas e Brenner — que entrara bem contra o Brasil-Pel e que, como prêmio, foi esquecido — estavam no banco. E o zagueiro Neris nem estreou, o que me assusta terrivelmente. Será pior do que Klaus?
No segundo tempo, com Valdívia em campo no lugar de Diego, D`Alessandro ganhou alguma parceria para jogar. Coitado do Dale. Veterano, prestes a completar 36 anos, tendo que jogar por todo o ataque. Deveria ser preservado, mas desse jeito vai acabar com algum problema muscular.
E então, com um gol de Valdívia em passe de D`Alessandro, obtivemos a vitória, que foi confirmada por Brenner, outro que pede passagem para entrar no time, em novo passe do incansável Dale.
Será um longo 2017 para todos nós, colorados. A diretoria do clube parece querer contratar quase tudo o que lhe é proposto. Marcelo Cirino está chegando. Este é outro mau jogador, varrido pelo Flamengo. Pertencia ao chamado Bonde da Stella, grupo de jogadores do Mengo mais ligados à Stella Artois do que em treinar. O Globo chamou-o de “jogador nota 3”. Já o também pretendido William Pottker (um globetrotter atualmente na Ponte Preta) parece ser melhor, talvez parecido com o Brenner.
E domingo voltamos ao Gauchão contra o Passo Fundo fora de casa. Temos dois pontos em nove disputados, estamos quase na zona de rebaixamento. Que a luz do bom senso te ilumine, Zago!
Acordamos com problemas no dia 4 de janeiro, dia do aniversário do Bernardo. Uma baita dor de cabeça resolveu incomodar a Elena após a viagem e ela pensou que a recuperação seria mais rápida se ficasse no quarto descansando. Inclusive comeria ali. Foi uma boa decisão, porque ela já ficou bem para a festa da noite. Então saí para a rua atrás de comida. O bom e barato Hotel Prens fica nas imediações da estação de Schönleinstraße, na Kottbusser Damm (avenida). Meu filho mora perto a três quadras, na Bürknerstraße. É uma região de imigração turca onde tudo o que não há é culinária alemã. Só que os restaurantes e bares turcos vendem uma comida de primeiríssima linha e muito barata. Fiquei encantado com os mercados turcos da região. Em um deles, que ostentava um nome mais ou menos sincero — Best of the Rest — fiz algumas compras.
Depois de resolvida a questão alimentar, dei várias voltas a pé pela região, com a finalidade de me perder na cidade desconhecida. O invólucro de segurança e respeito que recebemos na Europa que conheço é algo muito tranquilizador. Logo que chegamos, vemo-nos envolvidos por ele e relaxamos. Dá para ir a qualquer canto sem problemas e fico surpreso com minha súbita desatenção, totalmente diversa do que faço no Brasil, onde estou sempre preparado evitar ou aceitar um roubo.
E dei voltas cada vez mais longínquas de nosso hotel.
À noite, fomos na festa de aniversário do Bernardo. Fiquei agradavelmente surpreso com seus amigos. Um bando de gente de alto nível proporcionou boas conversas e, sempre que eu pensava que ficaríamos sozinhos por sermos os “velhos da festa”, vinha alguém conversar. Tudo extremamente educado. Disse para um certo Filipe — alemão filho de portugueses — que chegara a Berlim no dia anterior e que ainda não conhecera nada. Recebi uma resposta surpreendente:
— Não, estar aqui neste bar enfumaçado é conhecer Berlim. Não é uma cidade bonita, não é Paris, Londres ou Praga, é uma cidade onde as pessoas se reúnem para festas e coisas culturais ou não. Tu estás conhecendo Berlim aqui no Mamma. Isto é que é Berlim”.
— Então o turista que só circula não conhece a cidade?
— Não conhece.
Entendi.
Voltamos para casa tranquilamente, a pé, de madrugada.
Um arroio a 100 m do hotel.Os arquitetos alemães não podem ver um ângulo agudo que já fazem um edifício. Têm desses por todo lado.Como suportar isso, Bolsonaro?
Gosto de resenhas curtas, mas acho que esta será pouca coisa maior do que o habitual.
Muitos de meus amigos elogiavam Ruína y leveza e faziam cara de espanto quando eu dizia que ainda não tinha lido. De certa forma, eles me enganaram. Não quanto à qualidade do livro, que é efetivamente excelente, mas quanto ao tema. Esperava uma espécie de “romance de viagem” pela América Latina, com descrições das minas de Potosí, de Nazca, do Salar de Uyuni, de Machu Picchu, misturadas com a vida sentimental da narradora, algo assim. Eles me falavam do livro e eu imaginava algo de inspiração goethiana ou hessiana, solitária e paisagística, sempre com a viagem como centro, abrindo espaço para uma viagem interior de auto-conhecimento. E pensava que talvez não fosse o livro mais adequado a este leitor… Só que Dantas me ganhou facilmente.
Porque é o inverso. A crise pessoal da personagem — fim de um caso amoroso, súbita demissão de seu trabalho como publicitária — é que a leva a viajar e as tais transformações e recomeço ocorrem como resultado dos contatos de Sara com figuras como a do argentino Lucho e a da peruana Carmem e não através de lições ou grandes frases forçadas. Ou seja, tudo parte da simples interação. Ponto para Dantas. Ou seja, não é um livro de um narrador solitário, apesar de Sara buscar ficar sozinha. Sim, escrevo uma resenha mais dizendo o que Ruína y leveza não é, mas a culpa é de quem me fez ler o livro…
E o que é o livro? É um livro sobre um processo de retomada da vida, de um recomeço. Da crise à retomada. Ele gravita em torno das experiências passadas e da viagem de Sara, uma narradora de voz muito sedutora e envolvente. Em segundo lugar, é um texto bem escrito, fluente, inteligente e realista. Os capítulos alternam entre as experiências da viagem e os motivos a levaram até ali. Então, boa parte do livro é urbana e porto-alegrense. Sara está deprimida, mas sempre permanece interessante e até divertida — o livro contém boas piadas e histórias. Não se trata de uma pessoa perdida e desesperada “que se encontrou”, pelamor.
A frase que parece dar título ao livro é do duro Lucho, que afirma: “Turistas voltam para casa com malas mais pesadas. Viajantes voltam com mais leveza”. Gosto especialmente da palavra leveza e a uso com cuidado. Na acepção que prefiro, ela não é confundida com simplicidade ou falta de profundidade, mas com delicadeza e viço. Mozart, para mim, seria uma mistura de leveza e ousadia. Julia Dantas a utiliza bem.
D`Alessandro marca seu golaço na única boa jogada de ataque do Inter | Foto: Ricardo Duarte
Três rodadas do Costelão 2017 — dois jogos no Beira-Rio e um fora — e o Inter conquistou apenas dois pontos. Está em décimo lugar, podendo entrar a qualquer momento na zona do rebaixamento. Sim, na zona do rebaixamento do charmoso Gauchão. O próximo jogo é contra o Passo Fundo (8º), domingo (19), fora de casa. Mas, no meio da semana, dia 15, à noite, o Inter joga contra o Princesa do Solimões, time semi-profissional da cidade de Manacapuru (AM). O jogo será em Cascavel (PR) e deve ser fácil, apesar de ter o potencial de nos eliminar, já em fevereiro, de uma das mais importantes competições do país. Muito cuidado, portanto.
Tudo pode acontecer conosco, pois não estamos jogando nada. A partida de sábado contra o Caxias foi uma grande demonstração de incapacidade ofensiva, aliada a erros defensivos — um deles fatal. No primeiro tempo, demos dois chutes a gol, ambos de fora da área. D`Alessandro não pode fazer tudo sozinho, Valdívia está fora de ritmo e quando olha para o ataque, vê Roberson…
Porque tu, Zago, estás queimando de cara uma de tuas contratações. A insistência com Roberson é um absurdo. Brenner e Aylon já fizeram mais este ano e em suas carreiras. Insistir com Roberson, Paulão, Ernando, Bob e Andrigo parece ser de rigorosa inutilidade. O primeiro já é detestado pela torcida e os outros, pelo rebaixamento. Paulão e Ernando reclamam que ficaram marcados pela queda. É óbvio que ficaram! Como não?
Sei que reconstruir um time que passou um ano e meio sem treinador é complicado, mas tu estás deixando a coisa ainda mais difícil com tuas insistências bobas. E o torcedor está distante, sumido mesmo. Ninguém quer dar respaldo. Ninguém quer nem ver. Note bem, teu presidente Marcelo Medeiros venceu a eleição com 95% dos votos porque o outro candidato era o de Piffero-Carvalho. Vocês não se enganem. Vocês não têm grande apoio.
Sei que mudar o cenário de um clube com dívidas e de plantel caro e ruim não é fácil nem rápido, então Zago, pelo menos evite ao máximo os testes desnecessários. Somos apenas um timeco de merda atrás da formação menos pior.
Por que não testar já, contra o Princesa do Solimões, Dourado e Charles como volantes, Dale e Seijas na armação, com Nico López e Carlos na frente? Não seria mais razoável? Seijas jamais teve os cinco jogos seguidos de Roberson para jogar. Ninguém sabe muito bem quem ele é.
Este vídeo consiste em duas sequências sincronizadas, uma tomada durante o dia mais longo do inverno e outro durante o dia mais claro do verão na cidade de Kuopio, Finlândia. Kuopio fica mais próximo do Polo Norte do que Ushuaia do Polo Sul. A cidade argentina fica a 54º ao sul e a finlandesa a 62º. Só por curiosidade: a cidade de Moguilev — onde nasceu a Elena — e Minsk, ambas na Bielorússia (Belarus), ficam a 53º ao Norte, correspondendo à Terra do Fogo.
Abaixo, o inverno está à esquerda e verão à direita, claro.
É óbvio que, como disse o Fernando Guimarães, eu tive muita sorte. No dia 2 de fevereiro, há uma semana, estava voltando de férias em um avião da LATAM. E quis fotografar a ponte do Guaíba. Nem lembrava da procissão de Navegantes que ocorria em Porto Alegre, mas acabei registrando parte dela, além de pegar a ponte erguida, o navio que recém passara e a fila de carros. Após tirar a foto, fiquei encantado com minha sorte. Se tivesse planejado…
Clique para ampliar | Foto: Milton Ribeiro
Teve outra também interessante. A usina do Gasômetro na ponta, à direita, com o Absoluto tomando conta da paisagem atrás, ao pé do Morro Santa Teresa.
Volume de estreia de Iuri Müller na área da ficção, Luz em Nevoeiro traz doze contos, alguns já conhecidos meus da internet. Mas nada como lê-los em grupo. Neste caso, a desvantagem da leitura esparsa foi a de dificultar a distinção da boa voz de Iuri e de prejudicar a observação da unidade e da coerência do trabalho do autor. Em livro, tudo ficou mais claro. Os contos são escritos em ritmo decididamente adágio, tendo por base, quase via de regra, as ações dos personagens. Há também há uma peculiar integração entre eles e os diversos ambientes. Por ambiente, entenda-se as ruas e as cidades. A coisa acontece de tal maneira que é impossível imaginar o belíssimo e original Andava a te buscar fora de Montevidéu ou o ótimo Avenida Salgado Filho fora da conhecida e infernal rua de Porto Alegre. As histórias vêm grudadas às características específicas de cada habitat.
(Intervenção gonzo: li o livro durante uma viagem à Europa na qual mudei 4 vezes de cenário. Era curioso receber a enorme carga de informações da cada nova cidade onde me hospedava, enquanto lia um livro tão ligado a outras cidades também conhecidas de mim. Caminhava por Berlim, Praga, Amsterdam e Londres, vagando literariamente por Montevidéu, Buenos Aires, Porto Alegre, Santa Maria, Lisboa…)
A atmosfera ficcional de Luz em Nevoeiro é cuidadosamente rarefeita. Os contos não dizem tudo, deixando bom espaço para a imaginação do leitor e para a poesia. Iuri Müller nos joga detalhes sem ser exageradamente explícito (ou explicadinho), criando lentamente boas histórias de conflitos contra a situação política, a pobreza, a falta de perspectivas. Papéis Molhados, Edifício Paris e Acevedo, poeta são bons exemplos de sua arte. Os personagens são lenta e maravilhosamente bem construídos. E costumam tomar atitudes desconcertantes.
Além dos contos citados, gostei muito de O Estado das Coisas. Importante salientar: citei seis, mas a outra meia dúzia não é nada esquecível. Recomendo a leitura.
O gol foi do volante Charles | Foto: Ricardo Duarte
Ontem, fizemos melhor partida de 2017. Sim, tivemos poucos jogos, o ano está recém iniciando, mas o losango formado por Anselmo, Dourado, Charles e Dale foi a melhor solução encontrada até o momento. É claro que o adversário era o time reserva de Fluminense e jogamos com três volantes. Mas isso é mera tese, porque Dourado não joga mais como volante, está sempre no ataque e precisa de proteção atrás. Charles e ele alternaram-se eficientemente na função de ir ao ataque, preocupando o Flu.
Os laterais Alemão e Uendel atacaram bem — às vezes ao mesmo tempo, certamente em razão da presença dos tais 3 volantes — e tiveram problemas atrás. Acho que Uendel e Charles são as melhores notícias do ano. Klaus e Paulão atuaram bem demais. (Não tenho nada contra o Paulão jogar bem). Na frente, tivemos D´Alessandro pela direita e Valdívia pela esquerda, com o péssimo Roberson centralizado.
O interessante é que o gol de Charles teve uma troca de passes de 35 segundos. Foram mais de 20 passes certos. Mas fala sério, Zago, Roberson pode ser teu bruxo, mas deve vazar já, na minha opinião. E o Andrigo leva jeito de motoqueiro entregador de pizza, daqueles trazem o troco num saquinho.
Tu pegaste um time há 18 meses sem técnico. Vejo lógica nas tuas decisões e sei que vai demorar para que o time tome forma. Sou otimista. Por outro lado, a pressão será enorme. Uendel disse que até os treinos são nervosos. Por isso é que seriam importantes algumas vitórias no Gaúcho. O Inter está em 10º no regional, o 11º já está na zona do rebaixamento. Não dá, né? Isso incomoda.
Creio que estamos estruturando um novo time. Talvez não vá ser uma Brastemp, mas acho que será um time. Finalmente.
O ano de 1966 foi extraordinário para o cinema mundial. Não houve grande movimentação no Brasil, mas a cena internacional viu surgir uma série de clássicos. Enquanto os EUA mantinham 250 mil soldados lutando no Vietname, enquanto a China dava início à Revolução Cultural, enquanto o Brasil fazia fiasco na Copa e via ocorrer uma eleição indireta para presidente, Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni, Sergio Leone e Andrei Tarkovsky faziam uma revolução na linguagem cinematográfica.
Os seis filmes que escolhemos revelam nosso gosto. Poderíamos ter colocados outros de Godard — que produziu dois naquele ano febril –, Polanski, Rivette, Zinnemann, Nichols, etc. Foi um ano riquíssimo.
Os textos que escolhemos sobre cada filme foram encontrados na rede. Fizemos resumos e, ao lado dos títulos dos filmes, deixamos disponíveis os links para eles.
1. Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky — The Guardian
Espectadores e críticos sempre têm os seus filmes favoritos, mas alguns destes alcançam por unanimidade o status de obra-prima, como se houvesse um acordo. É o caso de Andrei Rublev. Vê-lo é uma tarefa que requer investimento de tempo. Ele tem 205 minutos de duração em sua versão mais completa, é falado em russo e é em preto e branco. Poucos personagens são claramente identificados, pouco acontece e o que acontece não está necessariamente em ordem cronológica. Seu tema é um pintor de ícones do século XV e herói nacional, mas você não vai vê-lo pintar e nem ele fará nada de heroico. Em muitos dos episódios do filme ele não está presente e, nos últimos, ele faz um voto de silêncio. Não é um filme que precisa ser longamente pensado ou até mesmo compreendido. É para ser experimentado e admirado. Um filme de poeta.
Desde a primeira cena, quando seguimos o voo de um balão rudimentar de ar quente, ficamos confusos e espantados como o próprio Rublev. Nas três horas seguintes, estaremos na lama e no caos da Rússia medieval, convivendo com ataques tártaros, rituais pagãos bizarros, fome, tortura e sofrimento físico. E experimentaremos tal vida de forma peculiarmente intensa.
Com Andrei Rublev, Tarkovsky estava conscientemente elaborando uma linguagem que não devia nada à literatura e é uma pena que tão poucos o tenham seguido. Em uma atmosfera de sonho, Andrei Rublev opera dentro de uma compreensão diferente de tempo e de história. Faz perguntas sobre a relação entre o artista, sua sociedade e suas crenças espirituais e não pretende responder a elas. “No cinema não é necessário explicar, mas estar de acordo com os sentimentos do espectador. Esta emoção é o que provocará o pensamento”, escreveu Tarkovsky.
O filme foi finalizado em 1966 e imediatamente proibido. Foi liberado para o Festival de Cannes de 1969, após Tarkovsky ter declarado que se mataria se não fosse apresentado.
2. A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo — Opera Mundi
O ex-assessor norte-americano para assuntos de Segurança Nacional e pensador influente da política externa dos EUA, Zbigniew Brzezinski, afirmou em 2005 que, se quiséssemos realmente entender o que estava acontecendo no Iraque, deveríamos assistir ao filme A Batalha de Argel. O recado se fez ouvir nos corredores do Pentágono, onde a exibição do filme contou com uma audiência de aproximadamente quarenta oficiais, que foram estimulados a avaliar e a debater os assuntos centrais do filme, como as vantagens e os custos de se recorrer à tortura e a outras formas de intimidação para desvendar os planos de um inimigo que se camufla na multidão.
Os convidados receberam o convite com o seguinte comunicado: “Como ganhar uma batalha contra o terrorismo e perder a guerra das ideias. As crianças alvejam os soldados, mulheres plantam bombas em bares e, gradualmente, a população inteira protesta fervorosamente. Soa familiar? Os franceses têm um plano. Prosperam taticamente, mas fracassam estrategicamente. Venha assistir a exibição desse filme e saiba o porquê” (Kaufman, 2003).
Produzido em 1965, no contexto das guerras de libertação na África, a temática da insurgência urbana e a violência perpetrada pelos insurgentes e torturadores é abordada de tal forma que faz com que o filme seja sempre atual, pois poderíamos ainda utilizá-lo para compreender a presente intervenção francesa no Mali, as revoltas árabes e os conflitos na Palestina, no Afeganistão, no Sudão e outros tantos do mesmo tipo. Filmado em preto-e-branco, com atores argelinos e franceses desconhecidos, recriando cenas e figuras históricas em locais de batalhas reais com técnica utilizada pelos cineastas neo-realistas, o diretor italiano Gillo Pontecorvo nos induz a pensar que se trata de um documentário.
A Batalha de Argel retrata os conflitos em Argel (1954-1957) entre a FLN (Frente de Libertação Nacional) e o exército francês. A primeira parte do filme mostra a campanha de terror desencadeada pela FLN contra o domínio colonial francês em torno do personagem Ali La Pointe, mostrando sua gradual conversão à guerrilha urbana. Já a segunda metade focaliza a reação do exército francês, que consiste principalmente em uma campanha de tortura e assassinatos comandados pelo coronel Mathieu. As ações terroristas vão se intensificando e ampliando seus alvos à medida que a repressão se torna mais eficiente, passando dos assassinatos de policiais às bombas em restaurantes, bares e clubes frequentados por jovens franceses. Mas igualmente ilustrativas são as imagens da repressão colonial, do racismo francês e do desprezo pelos árabes isolados na Casbah (bairro popular da capital argelina).
O filme não idealiza terroristas, não demoniza os franceses, nem exalta a violência em nome de algum tipo de revolução ou justificativa de qualquer ordem; em vez disso, o diretor examina a fundo os motivos, justificativas e contradições de todos os beligerantes. Os combatentes não escolhem seus alvos, ambos os lados se atacam indiscriminadamente e fornecem argumentos racionais para provar que estão no lado justo. Não há heróis nem vítimas inocentes. As crianças são cúmplices dos atentados, as mulheres plantam bombas em bares, os franceses atiram nas multidões, soldados brutalizam seus prisioneiros e o exército arrasa edifícios, matando civis inocentes.
Ali La Pointe encarna a figura do oponente irascível, ladrão e cafetão. É recrutado pela FLN e torna-se um guerrilheiro profissional, um líder revolucionário. Seu olhar ameaçador revela o próprio sofrimento e cólera dos árabes oprimidos diariamente pelos pieds-noirs (que, em francês, significa, literalmente, “pés-negros” e é um termo usado para descrever a população francesa que vivia na Argélia e que se repatriou na França depois de 1962, ano em que a Argélia se tornou independente).
O personagem procura expulsar a ocupação a todo custo, disposto a matar ou mesmo morrer pela causa. É isso que faz com que o seu destino seja trágico, culminando com sua morte (suicídio?), diferentemente do militante marxista El-hadi Jaffar, que negocia a rendição preservando sua vida.
Já a figura do coronel Mathieu foi inspirada na vida do general Massu, considerado pelos soldados franceses a personificação da tradição militar francesa. Herói militar da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, que também esteve presente na derrota da França na Indochina, Massu, em 1971, publica o livro A Batalha de Argel, que ficou proibido durante muitos anos na França. Nele, justificava a tortura como “uma cruel necessidade”. Dizia Massu: “Penso que, na maioria dos casos, os militares franceses foram obrigados a usá-la para vencer o terrorismo”.
Único e surpreendente sucesso comercial de Antonioni, e o primeiro realizado fora de Itália, Blow-Up é um dos filmes que melhor retratam a Swinging London dos anos 60. Muito embora pudesse ter sido rodado em Paris ou Nova Iorque, a capital inglesa teve a preferência do realizador italiano devido à nova mentalidade instalada e que revolucionou todo um comportamento e estilo de vida. Antonioni deixou-se imergir voluntariamente na cena londrina, com as suas cores pop, música e liberdade sexual. No entanto, e apesar da modernidade que envolvia Blow-Up, toda a ambiguidade do universo de Antonioni se encontrava presente até ao mais ínfimo dos pormenores – a incomunicabilidade e impossibilidade de relações entre as pessoas ou a alienação no seio de uma sociedade de consumo prolongavam as ideias que o mestre italiano já nos dera a conhecer nos seus filmes precedentes.
Thomas (David Hemmings) é um jovem fotógrafo que trabalha no universo da moda. Ele capta casualmente algumas imagens num parque londrino. Mais tarde, durante o processo de revelação do rolo e espicaçado pela insistência da mulher retratada que quer a todo o custo reaver os originais da película, Thomas percebe que testemunhou, sem querer, um assassinato. Este fio de intriga, vagamente policial, poderia conduzir facilmente a um thriller como tantos outros. Mas não nas mãos de Antonioni.
De início não se vê na fotografia mais que uma mancha difusa e amorfa; aumentando-a, distingue-se uma figura que bem poderia ser humana; um aumento maior apresentará uma tonalidade diversa. Isto é tudo. Quanto mais nos aproximamos do mistério que tínhamos impressão de dominar, mais nos desviamos e começamos a recusar compreendê-lo. E assim por diante, até chegarmos a duvidar da própria realidade das coisas e dos seres.
4. Fahrenheit 451, de François Truffaut — De Mattar
O filme é baseado no mau romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953. Montag (Oskar Werner) é um bombeiro cuja função é queimar livros, proibidos na sociedade do futuro. Sua esposa, Linda, é fútil e superficial, e presta mais atenção na televisão “interativa” do que no marido. Influenciado por sua vizinha Clarisse (o oposto de Linda, mas representada pela mesma atriz, Julie Christie), ele começa a guardar e ler alguns livros.
Uma cena marcante do filme: uma mulher recusa-se a sair de sua casa e é queimada junto com seus livros, sendo que ela mesma acende um fósforo e inicia a fogueira. Ao se apaixonar pela leitura, Montag decide sair da corporação, mas seu último serviço é em sua própria casa, pois fora denunciado por sua esposa Linda. Durante o serviço, ele queima seu chefe, Capitão Beatty, e foge. Refugia-se no local onde outras pessoas que leem se refugiam, representando personagens e decorando os livros, antes de queimá-los. O livro que ele começa a memorizar: Contos de mistério e imaginação, de Edgar Alan Poe.
Terezinha Elisabeth da Silva escreve:
O clima lúgubre e opressivo daquela sociedade é pintado com cores frias e pálidas, contrastadas com a única cor quente do filme: o vermelho do fogo e das viaturas dos bombeiros. Ritmo lento, cenários áridos e sem charme e diálogos escassos completam o panorama melancólico da obra. Com esses elementos, Truffaut impõe uma atmosfera pesada ao tempo de Fahrenheit, um tempo sem alternativas e, por isso mesmo, deprimente.
O título: na escala Fahrenheit, 451 graus (233 Celsius) é a temperatura a partir da qual o fogo queima o papel.
5. Persona (Quando duas mulheres pecam), de Ingmar Bergman — Clube do Filme
“Tudo o que se disser sobre Persona pode ser contradito, o oposto também será verdade”, palavras do escritor inglês Peter Cowie. Para o crítico americano John Simon, Persona “é o filme mais difícil de todos os tempos”. A crítica de arte Susan Sontag, por sua vez, foi categórica ao afirmar que Persona era o melhor filme da história do cinema. Há quase cinco décadas, a cultuada obra-prima de Ingmar Bergman vem exercendo um verdadeiro fascínio em gerações e gerações de cinéfilos e especialistas. Presente em inúmeras listas de melhores filmes do cinema (Sight and Sound, Empire, British Film Institute, New York Times, para citar algumas), Persona é constantemente apontado como a mais primorosa realização de Bergman no cinema, algo considerável se levarmos em conta a brilhante filmografia do diretor.
Persona conta a história de Elizabet (Liv Ullmann), uma atriz que para de falar repentinamente em meio a uma apresentação da tragédia Electra, entrando num estado de próximo ao catatônico. Nenhuma explicação física ou neurológica é encontrada para a crise de Elizabet. Internada em um hospital, ela é posta sob os cuidados da jovem enfermeira Alma (Bibi Andersson). Após algum tempo de internação, a médica de Elizabet sugere que esta passe uma temporada em sua casa de praia, ainda sob os cuidados de Alma. Isoladas do resto do mundo, as duas mulheres vão se tornando cada vez mais próximas. Alma encontra na emudecida Elizabet uma perfeita ouvinte e lhe conta os seus mais íntimos segredos, como uma orgia praticada com dois jovens adolescentes e uma amiga numa praia deserta e um subsequente aborto. Após ler uma carta comprometedora de Elizabet, Alma começa a perder o controle sobre si mesma, sentindo-se extremamente ligada à atriz e, ao mesmo tempo, oprimida pelo seu silêncio. Gradualmente, a persona de Elizabet toma conta da enfermeira e as identidades das mulheres parecem se fundir em uma só.
O filme se inicia por um intrigante prelúdio em que vemos uma série de imagens de duração variável (algumas que duram o tempo de um piscar de olhos, como aquela que mostra um pênis ereto). Essa sequência inicial consiste em uma justaposição de imagens heterogêneas, que lembra o experimentalismo das vanguardas modernistas e o surrealismo. Bergman faz diversas alusões ao próprio cinema, aos equipamentos, às suas primeiras formas, aos filmes mudos. A imagem da fita em movimento, dos aparelhos cinematográficos ou da fita que se deteriora intervém diversas vezes ao longo dessa primeira sequência e de maneira pontual no resto do filme. Existe algo de hipnótico na sequência de abertura que se deve muito ao atrevimento da montagem e a utilização poética de imagens impactantes. Ao final do filme, Bergman introduz novamente a imagem de uma câmera (manuseadas por Nykvist e o diretor), o que confere uma forma cíclica ao filme.
Persona é uma coleção de momentos antológicos. Uma das sequências inesquecíveis do filme é aquela em que Alma relata sua aventura sexual com um garoto, o momento de maior felicidade e gozo da vida da personagem. Certamente, o monólogo de Alma corresponde a um dos momentos mais eróticos da história do cinema. O diretor se dispensa de representar o ato sexual visualmente, o que poderia ser feito através de um flashback. O erotismo da cena é fruto do poder de evocação do ousado texto de Bergman e da maneira envolvente com que Bibi Anderson o declama. Para Pauline Kael, essa sequência corresponde a “um dos raros momentos verdadeiramente eróticos do cinema”. Outra cena brilhante do filme é aquela em que Elizabet entra no quarto de Alma no meio da noite. A lindíssima fotografia do genial Sven Nykvist confere uma atmosfera fantasmagórica à cena (sonho? realidade?). O instante em que as duas mulheres olham para si mesmas, como se estivessem diante de um espelho, enquanto trocam carícias, é uma das imagens mais marcantes da filmografia de Bergman.
Por fim, é inevitável não mencionar a escolha de Bergman de repetir o monólogo de Alma sobre o filho de Elizabet, uma vez com a câmera focalizando o rosto de uma, depois o da outra. O texto é exatamente o mesmo, assim como a montagem. Bergman parece querer mostrar a mesma história contada pelas duas mulheres, ainda que a voz seja só a de Alma (já que Elizabet não fala). Essa sequência mostra a união das duas mulheres e não por acaso ela termina pela colagem do rosto das duas atrizes, uma imagem impressionante que revela o quanto as identidades das duas se tornaram uma só.
6. Três Homens em Conflito (O Bom, o Mau e o Feio), de Sergio Leone — Cine Indiscreto
O filme focaliza três personagens: Blondie (Clint Eastwood) é o bom, Olhos de Anjo (Lee Van Cleef) é o mau e Tuco (Eli Wallach) é o feio (do nome original, The good, the bad and the ugly). A história dos três se junta porque estão atrás de duzentos mil dólares em ouro, uma fortuna na época.
Em Três Homens em Conflito, Leone constrói cuidadosamente cada imagem, como se estivesse pintando um grande quadro. Leone se mostra excepcionalmente criativo para construir longas tomadas sem cortes, criando tensão e atmosfera a partir da contraposição de tomadas panorâmicas de beleza tensa e dramática, na maioria das vezes paisagens com personagens minúsculos e close-ups de rostos rígidos e queimados pelo sol que revelam muito mais do que os olhos dos personagens. Esse talento transforma o filme em uma verdadeira experiência de imagens e sons inesquecíveis.
Ao contrário da maioria do gênero, os personagens de Leone são sujos, feios e parecem sangrar de verdade. Os protagonistas falam pouco, mas seus gestos e olhares dizem tudo.
Nos faroestes de Leone, os personagens não costumam atirar pra tudo quanto é lado. O diretor construía um duelo longo e sua grande preparação consiste em minutos de espera pelo primeiro disparo. Antes do revólver disparar, os personagens se analisam por inteiro e o silêncio só não toma conta do filme graças à fenomenal trilha sonora de Ennio Morricone, que ganha intensidade na medida em que começam cortes rápidos de um rosto para outro, capturando cada olhar tenso e cada mão buscando o revólver.
No começo do filme é revelado quem é o bom, o mau e o feio, mas com o desenrolar da trama percebemos que todos são bons, maus e feios… Descobrimos que, apesar de trambiqueiro e assassino, o homem sem nome guarda alguma bondade dentro de seu coração, como na cena em que o mesmo mostra uma certa compaixão por um combatente que está morrendo. A ganância pelo ouro revela o pior de cada um, mas comparados ao horror da Guerra Civil, os três são mocinhos.
Da abertura ao primeiro diálogo, temos cerca de 10 minutos de silêncio. Nenhuma palavra é ouvida. É a criatividade de Leone construindo uma narrativa baseada apenas em imagem, som e música. Outra cena que destaca o talento de Leone é quando o feio corre pelas lápides ao som de The Ecstasy of Gold, de Ennio Morricone. É simplesmente fantástico o efeito provocado. Uma viagem ofegante dos limites do oeste ao ápice da violência.
O filme é dispensa palavras, muitas vezes um pequeno desvio de câmera revela uma nova e surpreendente perspectiva. Outra técnica usada no filme é que os personagens não vêem (assim como nós) o que está fora do enquadramento. Assim a todo momento eles são surpreendidos por tiros ou balas de canhões que, normalmente, seriam vistas ao lado.
Uma obra prima revolucionária, que é, com grande estilo, homenageada por grandes cineastas da atualidade principalmente por Tarantino. Nesse filme testemunhamos o bom gosto, a inventividade e o controle de Leone sobre a narrativa.
No dia 7 de fevereiro de 1857, Gustave Flaubert foi absolvido da acusação contra seu livro Madame Bovary, considerado imoral pelas autoridades francesas. Dias antes, Flaubert proferira a célebre resposta à pergunta sobre quem seria Madame Bovary: “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu). Acusado de ofensa à moral e à religião, o processo foi movido contra o autor e o editor Laurent Pichat, diretor da revista Revue de Paris, onde a história foi publicada pela primeira vez, em episódios e com cortes. Como costuma acontecer, quanto maior o escândalo, maior o interesse provocado nos leitores, que adquirem a obra, que já era notável, movidos pelo sabor do escândalo.
Gustave Flaubert (1821-1880)
A Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena absolveu Flaubert, mas certo puritanismo da época condenou o autor. Muitos críticos não perdoaram Flaubert pelo cru realismo dado ao tema do adultério, pela crítica ao clero e à burguesia. Muitos clássicos da literatura foram condenados pelos contemporâneos. Talvez os casos mais famosos sejam os de Ulysses de Joyce e de Lolita de Nabokov, por exemplo, que foram censurados por ofenderem a moral vigente. Seriam pornográficos.
O livro
O julgamento era um exagero, mas as acusações a Flaubert eram compreensíveis. Afinal, Madame Bovary escancarava certa realidade social do século XIX, demonstrando a insatisfação de uma mulher, sob diversos aspectos, com seu casamento. De quebra, ridicularizava os romances sentimentais. Emma odiava seu marido, o médico Charles, para o qual mal podia olhar. Via-se encarcerada. Sentia sua vida como vazia e sem graça. Como se não bastasse, tinha aspirações a um refinamento incompatível com o interior da França. Então, passa a manter casos amorosos com homens de “gostos mais refinados”, que tivessem o condão de alcançar suas expectativas.
Não contaremos o final da história, a qual é bastante simples. Mas o que interessa não é o final e sim todos os detalhes da trama. Flaubert era um perfeccionista que sugeria aos candidatos a escritores que observassem uma árvore até que ela não pudesse ser confundida com nenhuma outra para depois descrevê-la. Era o escritor da “palavra certa, precisa” (“le mot juste“) e levou cinco anos para terminar o livro, que não é muito extenso. Pensava que “Uma boa frase em prosa deve ser como um bom verso na poesia, imutável”. Madame Bovary é um livro extraordinário. “O romance perfeito”, segundo Henry James.
Madame Bovary foi praticamente a única obra do autor a alcançar o sucesso. Seu romance Salambô (1862) é entediante como a vida de Emma. A educação sentimental (1869) já é bem melhor. Somente quando já estava doente e com dificuldades financeiras é que outro livro, Três contos ou Três histórias (1877), voltou a mostrar a genialidade de Bovary. Sua reputação cresceu postumamente, reforçada pela publicação do romance inacabado Bouvard e Pécuchet (1881) e pelos notáveis volumes de sua correspondência, onde dá grandes lições de arte literária.
O romance, publicado em outubro de 1856, conta a história de Emma, uma mulher sonhadora pequeno-burguesa, criada no campo, que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles, um médico viúvo do interior tão apaixonado pela esposa quanto chato. Ele não é como os heróis das suas leituras. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao indissolúvel casamento ao qual a protagonista se sente presa. Ela espera alguma ação do marido que consiga despertar nela o amor tão sonhado e esperado.
Isabelle Hupper como Madame Bovary (1991), filme de Claude Chabrol
Emma, cada vez mais angustiada e frustrada, busca no adultério uma forma de encontrar a liberdade e a felicidade. Evita um caso com o charmoso Léon por medo e vergonha. Vangloria-se de seu altruísmo e honestidade. Mas com Rodolphe é diferente e a fantasia romântica floresce. Ela se torna amável, mas a situação revela-se efêmera. Envolve-se em mais um caso de final melancólico. Não há arrependimento ou reviravolta no livro, nada de redenção, de final feliz. O romance foi considerado cruel por não apresentar saída.
Além disso, Emma não atrai simpatia, só que a arte de Flaubert faz com que os leitores acompanhem sua trajetória com imensa atenção. Na verdade, ela é ambiciosa e medíocre, incapaz de amar ou de sentir empatia por alguém. Entedia-se facilmente e é impulsiva. O que a faz fascinante talvez seja o choque entre suas aspirações e absoluta incapacidade de ser feliz. É fácil compará-la com outra personagem fascinante e trágica, Anna Kariênina, de Tolstói, porém Emma é muito mais voltada para si, despreocupada com o sofrimento dos outros, vendo o mundo através dos estereótipos românticos nos quais vê a única felicidade possível.
Era um tempo em que as mulheres deveriam ser dependentes do desejo masculino. Porém, em Madame Bovary, Flaubert mostra que o desejo e o prazer sexual têm dois sentidos. Deste modo, o romance era agressivo à moral burguesa do século XIX. Mal o livro começou a ser publicado, o secretário da Revue de Paris fez objeções sobre algumas cenas, que acabaram omitidas. Apesar disso, a censura francesa decidiu suspender a publicação da obra e processar o autor.
Fernando Bob preparando alguma bobagem | Foto: Ricardo Duarte
Não gostei nem um pouco do Inter ter te contratado. Sei do bom trabalho realizado no Juventude e do bom nível de atualização que tens — coisa rara em nosso futebol. Mas há atitudes difíceis de relevar, ainda mais em um clube cujo símbolo é um Saci. Acho sintomático que as pessoas te chamem agora de Zago. Querem deixar aquele zagueiro Antônio Carlos para trás. É o que farei também.
É claro que os 18 meses em técnico estão te cobrando um duro preço. Argel e Celso Roth não deixaram pedra sobre pedra. O time chegou a ti sem nada treinado ou bem preparado, estás partindo do zero absoluto. Mas escalações como a Fernando Bob no último sábado demonstram certo desespero ou desconsideração por 2016. Não adianta retestar velha fórmulas fracassadas, ainda mais que todo o RS futebolístico sabe que Bob será logo engolido pelo ascendente Charles. Também é inútil fazer um lado direito com jogadores como Ceará e D`Alessandro que, no meio do ano, somarão 73 anos. Também me surpreende a sobrevivência de Paulão, Ernando e Andrigo. Esses caras não jogam nada, Zago. Por que contratamos Klaus, Néris e trouxemos Eduardo de volta? Não foi para enterrar Pauão e Ernando de vez?
Outra coisa: não estaria na hora de fixar Dourado na frente da zaga? Este moço teve um 2016 desastroso jogando solto pelo campo, como se estivesse numa eterna pelada no Parque Saint-Hilaire. O que eram aqueles contra-ataques do Novo Hamburgo? A gente erra um passe — fato comum — e é pego sempre com a bunda de fora?
Vai ser uma reconstrução penosa, muito dolorida, meu rapaz. Valdívia volta em boa hora. Penso que o Gaúcho é o momento perfeito para dar força jovens como Junio, Charles e outros que tu deves nos apresentar, assim como para ver quem são de verdade Nico López, Seijas e os outros recentes contratados.
Sei da pindaíba e dos salários — direitos de imagem — atrasados, mas tu sabes que serás cobrado do mesmo jeito por uma torcida impaciente.
Ontem pela manhã, eu estava sozinho na National Gallery. Era uma visita lenta e anotada para quando a Elena se liberasse a fim de realizar o mesmo périplo. Sentei para descansar numa das confortáveis poltronas lá disponíveis — esses museus enormes cansam meus delicados pés — e vi uma cena incrível. O pai de uma família chinesa estava encostando o dedo numa pintura de van Dyck, Caridade (Charity), para mostrar um detalhe do quadro.
Foto: Milton Ribeiro
Eu vi o fato e um dos guardas também. Ele correu aos gritos de “Você não pode fazer isso!”. Mais dois guardas correram para auxiliar o primeiro e eu só assistindo a coisa, disposto a também ir lá dar uns cascudos no nobre cidadão da República Popular da China. (Que Deus, Nosso Senhor, o respeite, ame, e esconda sua estupidez).
Foi quando o primeiro guarda reiniciou seu discurso. Ele disse:
— Este quadro está aqui para o senhor, para seus filhos, seus amigos, para o mundo inteiro e para as gerações futuras. O senhor simplesmente não pode repetir sua atitude aqui e nem em nenhum outro museu que o senhor visitar em sua vida. Jamais faça isso novamente, por favor.
Todo mundo logo ficou calmo e sério. E a visita seguiu normalmente. Só o cidadão tinha um sorriso amarelo, enquanto levava uma mijada da mulher em chinês.
Poderia começar contando como Yuri Temirkanov parou quando estava entrando no palco com Martha Argerich. A argentina foi sozinha receber o aplauso do público antes de iniciar o 3º Concerto de Prokofiev. Fingiu irritação com a homenagem e chamou o lendário maestro com caretas e gestos peremptórios. Mas Temirkanov tem razão, é o concerto DELA. Ou poderia começar contando que a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo colocou no programa a 5ª Sinfonia de Shostakovich por esta estar completando 80 anos e ter sido estreada por ela mesma em seus tempos de Orquestra de Leningrado sob a direção de Mravinsky. Ou poderia logo dizer que foi um dos melhores concertos que assisti na vida, que tive de segurar as lágrimas quando Martha atacou Prokofiev. Ou poderia começar falando que compramos ingressos para um local onde as pessoas ficam em pé porque a Elena tinha clareza de sua “imperdibilidade” e não tinha outros disponíveis.
Poderia terminar contando que saí atarantado do concerto, tanto que fiquei esperando a Elena na porta do toalete feminino e deixei-a sair sem a ver. Ou que compositores russos interpretados por russos é texto puro, sem Google Tradutor — expressão da Elena. Ou devo tentar descrever a incrível sonoridade e unidade da orquestra? (Sem esquecer os magníficos solistas de sopros). Ou talvez o fato dos londrinos urrarem cada vez que Martha voltava ao palco?.Ou devo apenas terminar opinando que marcar um concerto desses para às 15h de domingo comprova que londrino não faz churrasco?
(Em tempo: Temirkanov rege sem batuta, com discretos movimentos horizontais e verticais. Jamais faz um gesto brusco nas notas longas. Parece que está cuidadosamente carregando a música. O que mais se movem são seus dedos e mãos, que devem passar significados que só os músicos entendem. Impossível fazer aquilo com uma batuta. Sua clareza nas entradas torna impossível alguém não entrar quando deve. Um sábio.)
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A que me refiro?
Ao concerto de hoje à tarde no Royal Festival Hall do Southbank Center em Londres.
Programa:
Aram Khachaturian: Adagio of Spartacus and Phrygia from Spartacus, Suite No.2
Aram Khachaturian: Dance of the Gaditanian Maidens and Victory of Spartacus from Spartacus, Suite No.1
Sergei Prokofiev: Piano Concerto No.3
Dmitri Shostakovich: Symphony No.5 in D minor
St Petersburg Philharmonic Orchestra
Yuri Temirkanov, conductor
Martha Argerich, piano
Martita recebendo os aplausos pós-ProkofievTemirkanov fazendo o mesmo pós-ShostaE minha musa antes do concerto
A Latam fez tudo para atrapalhar, mas no final tudo deu certo. Um atraso de 1h10 na saída de São Paulo quase impediu que pegássemos a conexão para Berlim. Chegamos a Frankfurt 40 minutos após o previsto e fizemos a maior correria num dos maiores aeroportos do mundo antes de vermos a bendita fila de embarque para Berlim. Apreciamos algumas cenas de desespero protagonizadas por norte-americanos que vieram no mesmo voo conosco. “Fuck this airport”, diziam em voz alta dois rapazes de ar nova-iorquino que perderam sua conexão por uma razão muito simples: os alemães não os deixaram passar na frente da fila de imigração. Para os alemães fila é fila e se eles chegaram atrasados, paciência. Aqui ninguém passa na frente. Tá bom. Entendi.
A viagem foi difícil. Eu estava sentado na janela, Elena no meio e um enorme alemão mal-humorado no corredor. O homem grunhia quando queríamos ir ao banheiro. A coisa era ainda mais tensa porque li em sua tela que ele ouvia a integral das sinfonias de Dvořák sem parar. Foram mais de quatro horas. Ele não podia ser boa pessoa. Passada a tensão, a Elena até sentiu-se mal no dia seguinte.
Em Berlim, no aeroporto de Tegel, Bernardo nos esperava. Se não fosse ele, gastaríamos horrores na locomoção até o centro. Como ele, gastamos 4,50 euros. Chegamos rapidamente ao Hotel Prens Berlin — simples e ótimo — e jantamos maravilhosamente em sua companhia ao custo de 25 euros. Preço para os três.
No voo da Lufthansa entre Frankfurt e Berlim, fui ao banheiro — já tinha outras vezes é claro, mas esta ida foi especial. A porta sinalizava o recinto como livre. Abri a porta com a maior sem-cerimônia quando vi que, dentro, estava uma aeromoça de olhando-se no espelho. Detalhe: ela retocava a maquiagem ou ajeitava o cabelo com as saias no chão, só de calcinhas e o resto da roupa. Pode ser que aqui ninguém passe na frente da fila, mas as moças entram em banheiro público sem maiores cuidados. Fechei imediatamente a porta. A moça nem me olhava depois.
Pela janela do avião, fiquei impressionado com os número de captadores de energia solar e os cataventos de energia eólica. Eles estão por todo lado.
A conversa com o Bernardo foi calma e amorosa, apesar de nosso imenso cansaço. Amanhã é o aniversário de meu filho.
Elena e Bernardo conversando sobre a poética dos livros de fotografias.
Não creio que, nestes meus quase 60 anos, tenha algum dia tirado 30 dias consecutivos de férias. Desta vez ficarei um mês fora. Então, se por um lado perco meus dez dias de folga em julho, por outro faço melhor uso de uma passagem absurdamente cara. Vou visitar meu filho em Berlim e dar as voltas que a grana permitir. Será ótimo ver a Ilha dos Museus, o Portão de Brandemburgo, o Memorial do Holocausto, a Alexanderplatz, o Muro, o Reichstag, etc. Temos também programada uma extraordinária lista de concertos. Mas creio que a atração principal da cidade será mesmo o Bernardo. É engraçado, quanto mais a hora da viagem se aproxima, mais sinto falta de vê-lo e abraçá-lo. É também praticamente certo que vou conhecer minha sogra em Praga. Ela só fala russo e certamente ficará decepcionada com o cara feio que sua linda filha foi arranjar. Pelo Skype, ela achou que eu fosse judeu. O que sei eu do que aconteceu com meus antepassados ibéricos? Quase nada e é possível que a Klara tenha até acertado. Então vou diminuir minha presença na rede para ver o que há por aí.
O Castelo de Praga em fevereiro de 2013 | Foto: Milton Ribeiro
O gol é de Luis Suárez para o Barcelona em cima do Espanyol, mas o que Messi com a bola faz apenas comprova, mais uma vez, que ele não é humano. Aquele último e inesperado drible com o pé direito… Vejam clicando aqui.
via Fernando Guimarães tradução e adaptação libérrimas de Milton Ribeiro
Durante os 100 dias antes do início da relação, observamos um aumento lento, mas constante, no número de postagens compartilhadas entre o futuro casal. A outra notícia é que os cientistas do Facebook sabem mesmo demais a nosso respeito.
Viram? O Facebook pode entender muito bem suas intenções e perspectivas românticas.
Em um post publicado pelo Facebook Data Science, um grupo de cientistas da empresa anunciou que há evidências estatísticas que sugerem claramente o surgimento de relacionamentos antes que eles ocorram.
“Como os casais tornam-se casais”, escreve o cientista de dados Facebook Carlos Diuk, “as duas pessoas entram em um período de aproximação, durante o qual o tempo de Facebook aumenta. Depois que o casal torna-se oficial (em relacionamento sério), seus posts diminuem drasticamente, presumivelmente porque os dois estão felizes e passam mais tempo juntos”.
No post, Diuk dá números claros:
Durante os 100 dias que antecedem o início da relação, observa-se um aumento lento, mas constante, no número de postagens compartilhadas entre o futuro casal. Eles se curtem, chamam a atenção um do outro. Quando a relação começa (“dia 0”), os posts começam a diminuir. Observamos um pico médio de 1,67 postos por dia 12 dias antes do início da relação e depois os números começam a cair. Entendemos que os casais decidem passar mais tempo juntos e as interações on-line dão lugar a interações no mundo físico.
Você pode ver esses dados no gráfico acima. O número de posts no perfil sobe e sobe, até cair quando as coisas se tornam oficiais.
A equipe do Facebook Data Science costuma divulgar informações amorosas dentro do enorme volume de dados da empresa possui sobre relações sociais. Eles também sabem o quanto os relacionamentos duram normalmente e como o amor se correlaciona com religião e idade. Já os dados comerciais eles não gostam tanto de divulgar…
Voltando a nosso tema, Diuk também revela que, ao mesmo que o número de postos diminui, estes se tornam mais felizes. “Observamos uma espetacular melhora no humor após o ‘dia 0’. Aqui está um gráfico descrevendo essa mudança:
Para a análise de sentimentos como os descritos acima, a ciência está longe de ser perfeita. Os robôs não são muito bons em interpretação e sarcasmo. Mas muitas vezes é interessante saber.
A equipe tomou vários cuidados para não errar muito. A fim de eliminar os falsos relacionamentos do Facebook, ele só analisou os casais que entraram em “relacionamento sério” entre os meses de abril e outubro, evitando os períodos de festas.
Para que seguir postando se há coisas mais legais para fazer agora?
Eu adoro cachaça e pelo visto fiz escola em casa. Meu filho que mora em Berlim pediu que eu levasse alguma coisinha para ele. Sabia da origem do nome pinga — a primeira cachaça teria sido bebida por escravos negros de gota em gota, pois a cachaça caía do teto de onde o melaço fora preparado. Há a teoria de que o líquido também servira para curar ferimentos das costas de escravos, daí o nome aguardente. Nos primórdios a cachaça era consumida apenas por escravos e gente da ralé. Que tolinhos… O texto que segue é do professor e mestre em História Rainer Sousa.
No começo da colonização do Brasil, a partir de 1530, a produção açucareira apareceu como primeiro grande empreendimento de exploração. Afinal, os portugueses já dominavam o processo de plantio e processamento da cana – já realizado nas ilhas atlânticas – e ainda contavam com as condições climáticas que favoreciam a instalação de grandes unidades produtoras pelas regiões litorâneas no território.
Para que todo esse trabalho fosse realizado, os portugueses acabaram optando pelo uso da mão de obra escrava dos africanos. Entre outras razões, os colonizadores notavam que os escravos africanos eram mais adaptados do que os índios ao trabalho compulsório, apresentavam maiores dificuldades para empreender fugas e geravam lucro à Coroa por conta dos impostos cobrados sobre o tráfico negreiro.
No processo de fabricação do açúcar, os escravos realizavam a colheita da cana e, após ser feito o esmagamento dos caules, cozinhavam o caldo em enormes tachos até se transformarem em melado. Nesse processo de cozimento, era fabricado um caldo mais grosso, chamado de cagaça, que era comumente servido junto com as sobras da cana para os animais.
Tal hábito fazia com que a cagaça fermentasse com a ação do tempo e do clima, produzindo um liquido fermentado de alto teor alcoólico. Desse modo, podemos muito bem acreditar que foram os animais de carga e pasto a experimentarem primeiro da nossa cachaça. Certo dia, muito provavelmente, um escravo fez a descoberta experimentando daquele líquido que se acumulava no coxo dos animais.
Outra hipótese conta que, certa vez, os escravos misturaram um melaço velho e fermentado com um melaço fabricado no dia seguinte. Nessa mistura, acabaram fazendo com que o álcool presente no melaço velho evaporasse e formasse gotículas no teto do engenho. Na medida em que o liquido pingava em suas cabeças e iam até a direção da boca, os escravos experimentavam a bebida que teria o nome de “pinga”.
Nessa mesma situação, a cachaça que pingava do teto atingia em cheio os ferimentos que os escravos tinham nas costas, por conta das punições físicas que sofriam. O ardor causado pelo contato dos ferimentos com a cachaça teria dado o nome de “aguardente” para esse mesmo derivado da cana de açúcar. Essa seria a explicação para o descobrimento dessa bebida tipicamente brasileira.
Inicialmente, a pinga aparecia descrita em alguns relatos do século XVI como uma espécie de “vinho de cana” somente consumida pelos escravos e nativos. Entretanto, na medida em que a popularização da bebida se dava, os colonizadores começaram a substituir as caras bebidas importadas da Europa pelo consumo da popular e acessível cachaça. Atualmente, essa bebida destilada é exportada para vários lugares do mundo.