Por um Judiciário menos desafinado!

clipboard01Ai ai que bom,
o Judiciário existe;
lutar, vencer,
é por você
que a gente persiste

É de chorar de rir a hiperkitsch auto-homenagem que servidores e magistrados do Tribunal de Justiça de Sergipe cometeu. Eu estava ouvindo o clipe e, ao mesmo tempo que ria, baixava o som para que as pessoas que moram comigo não ouvissem os disparates. Pois há a desafinação e há a letra… A canção que serve de base é We Are The World, sucesso de promoção de bons sentimentos gravado nos anos 1980 por um grupo norte-americano de estrelas pop. A autoria do original é de Lionel Richie. Esperamos que ele não tenha ouvido o desastre. A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Sergipe apressou-se a informar que a gravação do vídeo não teve nenhum custo aos cofres públicos e que, bem, ele foi exibido durante um Encontro de Planejamento Estratégico, em agosto.

Viram? Muitas metas a cumprir causam estresse e podem resultar nisso.

Charlles Campos completa: Devia se fazer um vídeo de resposta por parte da população carcerária, que tem suas penas vencidas mas que continua presa, e todos os querelantes que aguardam anos seus processos parados na mesa dos juízes da comarca. Sugiro uma adaptação de “I have a dream”, do Abba.

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Porque hoje é sábado e tive pouco tempo, três fotos

Porque hoje é sábado e tive pouco tempo, três fotos

Ezra Pound em visita ao túmulo de Joyce em Zurich.

E um novo encontro com Britney Nola, que já foi tema de um PHES.

Mais uma da Nola:

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Bom dia, colorados, vai ter que ser aos trancos e com a torcida

Bom dia, colorados, vai ter que ser aos trancos e com a torcida
Vitinho e Valdívia nos observam após a partida | Foto do celular de Paulo Dixon
Vitinho e Valdívia nos observam após a partida | Foto do celular de Paulo Dixon

Passei no teste cardíaco. Apesar de tudo, sou eu quem está escrevendo agora. Agradeço ao Danilo Fernandes que nos salvou duas vezes — naquela cabeçada e no pênalti defendido aos 33 min do segundo tempo –, ao William e ao Dourado, de grandes atuações, e ao Vitinho, que sempre tira da cartola um 1 x 0 salvador. Ele teve frieza para matar o jogo no final. Jogamos mal, muito mal, mas tivemos sorte. Foi um alívio temporário. Falta bastante ainda.

Vamos ter que nos livrar da degola aos trancos mesmo. Errando passes, marcando mal., lutando muito e CONTANDO UMA TORCIDA INCRÍVEL. Como escreveu o Douglas Cecconello, “o troço mais paradoxal disso é que está muito massa de ir ao Beira-Rio ultimamente. Uma atmosfera de solidariedade: vamos carregar este lixo de time de qualquer jeito. Porque é isso ou a morte coletiva”. Exato.

 Não interessa como, o que importa é não cair | Foto: Ricardo Duarte
Não interessa como, o que importa é não cair | Foto: Ricardo Duarte

Nesta altura do Campeonato não interessa mais quais foram os erros cometidos durante os últimos dois anos. O negócio é pontuar na marra. Precisávamos de 18 pontos em 11 jogos. Com as duas sofridíssimas vitórias por 1 x 0 contra Figueirense e Coritiba, agora precisamos de 12 em 9.  E não me digam que nossa situação não melhorou. Há duas rodadas, a estatística dava 70% de chances de queda, hoje já dá 46%.

As nove partidas restantes são as seguintes. Entre parênteses, coloquei a ordem em que elas ocorrerão:

Jogos em casa: Flamengo (2), Santa Cruz (4),  Ponte Preta (6), Cruzeiro (8).

Jogos fora: Botafogo (1), Grêmio (3), Palmeiras (5), Corinthians (7), Fluminense (9).

12 pontos são 4 vitórias. Ou 3 vitórias e 3 empates. Ou 2 vitórias e 6 empates, o que seria um filme de terror e nos desfavoreceria no caso de empate em pontos, pois o primeiro critério de desempate é justamente o número de vitórias.

Ainda nesta rodada podemos ser ultrapassados por Cruzeiro e Figueirense, que jogam no fim de semana em seus estádios contra Ponte Preta e Botafogo. Mas, tudo bem, o negócio é não dar bola e focar nos nossos 45 pontos. Abaixo, coloco os times que têm mais de 10% de chances de rebaixamento. A lista é grande. São 9 clubes para as 4 indesejáveis vagas.

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Ontem à noite, a torcida foi fundamental. Ninguém entendeu a entrada de Marquinhos, mas foda-se, ganhamos. Ninguém entendeu porque Juarez demorou tanto em mudar o time, mas foda-se, ganhamos. Nem entendemos porque o esquema não foi alterado em nenhum momento, mas… Vocês já sabem.

Para quem quiser ver o desespero de ontem, com pênalti contra nós aos 33min do segundo tempo e gol da vitória aos 40, aí está (a defesa de Danilo Fernandes no pênalti está no vídeo, mas fora de ordem, um pouco depois).

A luta continua!

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Tire suas dúvidas para saber em quem votar no segundo turno em Porto Alegre

Tire suas dúvidas para saber em quem votar no segundo turno em Porto Alegre

Indeciso em quem votar no segundo turno em Porto Alegre? Seus problemas acabaram! Uma tabela simples e de fácil compreensão para você escolher seu candidato em 30 de outubro. Leia abaixo.

joana

Com a colaboração da saudosa Joana Berwanger.

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Vejamos mais alguns argumentos para diferenciá-los:

melo

X

marchezan

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O quartel é lindo. Soldado defende-se declarando seu amor pela 2º Tenente

O quartel é lindo. Soldado defende-se declarando seu amor pela 2º Tenente

O Soldado do Efetivo Variável Adriano está perdidamente apaixonado pela 2º tenente Camila. Com as mãos, fez uma bexiguinha ficar com o formato de um coração e cantou para ela “Como é grande o meu amor por você”, de Roberto Carlos, nas dependências do quartel. Ela ficou constrangida, claro. Acho que o moço se deu mal. Não sei se vai adiantar dizer que sente o perfume da moça até quando faz faxina. Bem, torço para que o julgador dê-lhe pena leve — talvez uma medalha por bravura — e o mande estudar português. Porque sua defesa… Bem, ali ele ESTRAPOLA MESMO! Leiam abaixo.

fato

defesa

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Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória (por Rodrigo Balbueno)

Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória (por Rodrigo Balbueno)

Dia desses, recebi o e-mail abaixo. Impossível desconsiderá-lo. O texto que o segue é muito bonito e, se o autor escreveu que “adoraria publicá-lo no teu blog”, só me resta abrir o espaço.

Caro Milton,

É sempre curioso o esforço de dirigir-se a quem não se conhece pessoalmente mas com quem se priva de certa intimidade, como leitor habitual de teu espaço no Sul21. De certa forma é como dirigir-se a um velho amigo desconhecido, se é que isso é realmente possível.

Por isso hesitei muito em escrever-te, até que ao ler teu post de hoje me dei conta de algo mais em comum e que no máximo vou te incomodar por alguns minutos.

Além de uma convergência no trato da memória, ainda incluiria a relação com a OSPA, a quem acompanho desde o tempo do Eleazar de Carvalho, de quem fui vizinho no Bom Fim.

Há quase dez anos fora de Porto Alegre, tento programar minhas idas à cidade ajustadas à programação da orquestra querida. E sem querer ser muito enxerido, tendo acompanhado a saga dos músicos estrangeiros, como a Elena, que trouxeram à orquestra uma qualidade que a engrandece e os faz ainda mais admiráveis, sempre me pareceu extraordinária a coragem dessas pessoas que deixaram um mundo que se desfazia e vieram construir uma vida nova nestes trópicos e subtrópicos. O fato de minha mãe ter sido colega de hidroginástica da Elena na Hebraica é só um detalhe a mais nessa teia, assim como os queridos amigos Cátia e Norberto que de vez em quando aparecem em tuas fotos.

Enfim, é bem possível que mais cedo ou mais tarde nos venhamos a conhecer pessoalmente.

Lhe escrevo porque estive obcecado com uma série de coincidências que originaram o texto que vai em anexo. Como é um tanto personalista e tem um tamanho que é meio nada, muito grande pra imprensa, pequeno mesmo pra um livreto, pensei que talvez devesse dar-lhe um pouco mais de substância, e então lembrei de tua entrevista com o Airton Ortiz quando ele foi patrono da feira do livro e a quem gostaria de ouvir para enriquecê-lo um pouco e quem sabe me podes passar seu contato.

Te peço desde já desculpas pelo “aluguel” e lhe desincumbo de qualquer responsabilidade de responder a este.

Grande abraço,
Rodrigo Balbueno

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Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória

Por Rodrigo Agra Balbueno
Agosto, 2016

Inicio pelo meu próprio começo, pelo tornar-se gente, que tem no nascimento seu ponto de partida, mas que demora uns bons anos pra engrenar. E, depois que começa, se tudo der certo nunca mais termina.

O tempo zero, neste caso, não é o começo absoluto. Falo de algo que se deu por volta dos vinte anos, lá por 1986 ou 1987, época em que um grupo de amigos, ainda estudantes ou recém egressos da universidade e portanto com uma vida econômica das mais restritivas, passaram a cultivar o hábito de reunir-se com alguma frequência no restaurante Copacabana, nas noites de domingo, sempre que a dureza permitia.

O Copacabana é um dos restaurantes mais antigos de Porto Alegre ainda em atividade, tendo sido fundado em 1939. O endereço diz Praça Garibaldi nº 2, mas olhando pra ele se vê que está na esquina das Avenidas Venâncio Aires e Aureliano de Figueiredo Pinto. A praça mesmo está do outro lado da rua.

Em algumas noites éramos dois ou três, noutras seis ou oito. Preferencialmente no salão principal, eventualmente no salão da direita, que anos depois virou o salão de não fumantes, antes do banimento completo do fumo de lugares fechados.

Em muitas dessas noites de domingo no Copa, tínhamos como vizinho de mesa um tipo meio sisudo, mais velho do que nós, de feições muito gaúchas, cabelos longos e cavanhaque, que às vezes jantava sozinho, às vezes com um ou dois amigos.

Alguém do nosso grupo já o conhecia e em algum momento comentou: esse é o Jacaré, ele é jornalista e compositor do Tambo do Bando. Já era um tempo em que a música regional começava a separar-se em duas vertentes diametralmente opostas, uma presa ao passado e manietada por um esdrúxulo conjunto de regras gerados por uma entidade ainda mais esdrúxula, e outra aberta à música urbana, mas sem tirar o olho da vastidão do Pampa que esperava ali do outro lado do lago. O Tambo do Bando foi uma das melhores respostas a essa tensão.

A convivência dominical trouxe certa proximidade, com cumprimentos gentis e uma eventual conversa. Não éramos exatamente amigos, mas sempre que nos encontrávamos fora do Copa trocávamos aquela saudação típica de pessoas que se conhecem de outros cenários.

Só fui saber seu nome quando morreu, ainda muito jovem, em 1996. Luiz Sérgio Metz. Sérgio Jacaré. Pra nós só Jacaré até aquele junho gelado.

metz-1Logo depois disso, a teia das relações me uniu a um grupo de estudantes de letras, ainda antes do ano 2000, e muito depois disso minha amiga Júlia, hoje doutoranda em letras, um dia me disse, eu já vivendo em Brasília, “tu precisas ler ‘O primeiro e o segundo homem’ do Luiz Sérgio Metz”. O primeiro livro do Jacaré, lançado em 1981, ainda antes de nossa vizinhança de mesa no Copacabana.

Em seguida comprei o livro, uma edição da “Artes e Ofícios” de 2001, que celebrava os 20 anos de seu lançamento. Li, adorei e fiquei lamentando não ter tido maior proximidade com aquela figura que tantas vezes esteve ali tão perto, quase dividindo uma mesa em noites de domingo.

Indo rumo a um tempo ainda mais remoto, final dos anos 70, começo dos 80, no ensino médio, em Taquari, quando inventava um mundo pra chamar de meu, fazendo algumas escolhas que mais tarde desembocaram naquela mesa do Copa e em tudo que dali adveio.

Era o tempo das descobertas, mas o que interessa agora é a música. Em uma casa onde se ouvia basicamente MPB, o auge do movimento nativista me pegou em um momento em que a figura do gaúcho era parte integrante da paisagem humana que via cotidianamente. Muitas pessoas da minha idade tinham um cavalo antes de ter uma moto.

Isso foi um pouco antes de deixar a vida no interior, literal e metaforicamente, e de descobrir a música urbana gaúcha, que experimentava um florescimento exatamente nessa época. Acho que meu marco particular é “Pra viajar no cosmos não precisa gasolina” do Nei Lisboa, seguido de perto pelo Musical Saracura.

noel-1Mas até então ouvia muito os LPs da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, especialmente os da nona (1979) e da décima (1980), Pedro Ortaça e principalmente Noel Guarany. O gaúcho da Bossoroca me tocava especialmente e o disco “Noel Guarany canta Aureliano de Figueiredo Pinto” figuraria ainda hoje entre os dez que levaria para uma ilha deserta.

Anos depois, esse disco ainda me traria uma alegria em extinção, que é aquela que sente quem encontra em CD um LP há muito perdido e que muito prazer lhe proporcionou. Hoje ouço no Ipod sempre que me vienen del sur los recuerdos (gracias, Borges).

Noel Borges do Canto Fabrício da Silva, guarani no sangue e pela arte, decidiu deixar de lado o sobrenome que remete à definição dos limites do Rio Grande do Sul como ele é hoje, pra ser Guarany somente, em tudo o que isso significa para este pedaço da América Latina que foi indígena, espanhola e portuguesa, mas para quem as fronteiras nada significam, na busca pela terra sem males.

Noel Guarany talvez seja o máximo expoente da música missioneira, se não é seu próprio inventor, nos termos em que hoje se conhece. No Estado onde tudo é Gre-Nal, pode-se perceber uma clara oposição entre a música missioneira e a música da fronteira sudoeste.

Grosso modo, enquanto a música da Campanha olha para a vida no latifúndio e vê no castelhano o inimigo, a missioneira tem um viés muito mais campesino e pan-gauchesco, empregando expressões em espanhol de forma natural, para quem a fronteira é o grande rio Uruguai, em cuja outra margem vive um outro que nos é igual.

aur-1Não é à toa que muitas vezes Noel canta “a Pampa” no feminino, como os castelhanos e, no extremo, a “Pachamama” quíchua. A terra como fêmea, mãe e companheira.

Saltamos mais uns anos, dez ou vinte, talvez, e encontro, em alguma livraria da Riachuelo, o livro “Romance de estância e querência – marcas do tempo”, único livro lançado em vida por Aureliano de Figueiredo Pinto, que entre outros tantos versos, traz aqueles musicados por Noel Guarany no LP de 1978. Muito gaúcho, muito lindo, muito lírico, descrevendo entre os anos 30 e 50 um mundo que já então deixava de existir.

Em uma hipotética genealogia da cultura riograndense se a Noel pode ser atribuída a paternidade da música missioneira, Aureliano seria responsável, uma geração acima, pela poesia regional gauchesca, numa obra que inicia em momento anterior à criação da figura do gaúcho de CTG, cópia carnavalesca de um tipo humano que a rigor nunca existiu da forma como foi cristalizada no imaginário popular.

A produção literária e musical do Jacaré também pode ser incluída nesse “tronco” da cultura gaúcha que abriga Aureliano e Noel. As obras desses três artistas, ligadas de uma forma ou de outra ao espaço físico missioneiro, são eivadas de um lirismo meio amargo, com um olhar para os que tudo perderam, sejam os guaranis e sua vida quase republicana quando da invenção do Rio Grande, sejam os gaúchos a pé perdendo seu lugar no mundo, para Aureliano pelo esvaziamento de uma forma de vida rural calcada na pecuária herdada dos jesuítas, para Noel e Jacaré já sob o domínio da soja no latifúndio mecanizado.

Se olharmos o mapa do estado, há um triângulo retângulo cujos vértices são as cidades onde nasceram esses três gaúchos. Aureliano de Santiago, Noel de São Luiz Gonzaga e Jacaré de Santo Ângelo. A hipotenusa ligando Santiago do Boqueirão, no extremo sul, a Santo Ângelo.

São três mil quilômetros quadrados ou 1% do Rio Grande, em cujos limites está contida a catedral de pedra de São Miguel das Missões, expressão máxima do passado colonial, de um tempo anterior à nossa brasilidade e à própria ideia de gaúcho.

Entre 1952, ano do nascimento do Jacaré e 1959, ano da morte de Aureliano os três dividiram os ares desse triângulo mágico missioneiro, embora seja virtualmente impossível que hajam se encontrado em algum momento. O Dr. Aureliano clinicando em Santiago, Noel alistando-se no 3º Regimento de Cavalaria de São Luiz Gonzaga, para logo desertar e “se bandear pro outro lado” e tornar-se Guarany de fato. E Jacaré, piá, aprendendo as primeiras letras.

Jacaré e Noel, no entanto, apostaria que se conheceram. Uma atuação política convergente deve tê-los unido durante a ditadura. Noel fez um célebre show na greve dos bancários de 1979, onde além do Jacaré seguramente também estaria seu conterrâneo da Bossoroca e futuro governador Olívio Dutra.

No conto “a noite da boiguaçu”, d’o primeiro e o segundo homem, o personagem Tatuim, descrito como “um bugre guarani que envelheceu por São Miguel” canta versos da canção “potro sem dono”, de Paulo Portela Nunes, gravada por Noel no LP “… sem fronteira” de 1975. E em 1980 Noel fez um célebre show no Teatro Glória de Santa Maria, em que desanca a repressão, ainda em plena ditadura. Esse show foi postumamente lançado no disco “Destino Missioneiro”, único registro ao vivo da obra de Noel. Santa Maria onde estudaram Aureliano e Jacaré e onde morreu Noel.

Damos mais um salto que nos traz para a segunda metade da segunda década do século XXI, com a internet já completamente integrada à vida de todos, e com ela o hábito de passar de um assunto a outro, quando uma curiosidade inicial conduz a descobertas insuspeitadas e nos permite vislumbrar mundos desconhecidos sem sair da frente de uma tela.

aur-metzNum desses passeios em que uma página leva a outra que leva a mais outra, numa sucessão que nem a imaginação mais desenfreada é capaz de conceber, em alguma dessas conexões vejo que há uma biografia do Aureliano de Figueiredo Pinto escrita… por Luiz Sérgio Metz.

Pela internet achei o livro num sebo aqui de Brasília mesmo e em poucos dias o recebi pelo correio. Ao abrir o pacote, foi como um reencontro com um velho conhecido. O livro é o volume 33 da “Coleção Esses Gaúchos”, lançada há trinta anos para celebrar o sesquicentenário da revolução farroupilha.

Uma ótima ideia, de fazer um retrato do Estado a partir do perfil de 40 gaúchos, de Gilda Marinho a Getúlio Vargas, do Barão de Itararé a Jacobina Maurer. No inventário das bibliotecas perdidas tive um punhado deles, alguns comprados no supermercado, outros na própria livraria tchê!, ali na Salgado Filho, quase embaixo do viaduto Loureiro da Silva.

São livros pequenos, embora não exatamente de bolso, em edições simples, mas ilustradas e com fotos, e com uma liberdade editorial que surpreende e intriga nesta era de padronização e uniformidade. A edição é da tchê! e da RBS, com patrocínio do “banco Europeu para a América Latina”, cuja existência me era desconhecida até este momento. Parece que ainda existe.

A biografia do Aureliano pelo Jacaré tem 82 páginas, na capa uma caricatura desenhada pelo Juska, fotos do arquivo da família e ilustrações do Pedro Alice, amigo querido, que muitas vezes dividia conosco a mesa do Copacabana nos domingos. É bem possível que tenha sido ele, lá no sexto parágrafo, quem tenha apresentado o Jacaré aos demais, pois agora vejo que andávamos por lá na época da gestação do livro. O exemplar que tenho nas mãos diz “impresso em junho de 1986” logo abaixo do copyright. Dez anos antes da morte do Jacaré, trinta anos antes deste inverno de 2016.

O exemplar traz na folha de rosto, escrito a caneta “Brasília jun 89” e uma assinatura ininteligível.

exemplar

Deduzo que o livro haja sido comprado por aqui mesmo, por algum gaúcho expatriado, três anos após o lançamento.

A letra manuscrita aparece novamente nas páginas do capítulo intitulado “Identificação e Roteiro”, que faz as vezes de nota biográfica. Na entrada relativa ao ano de 1926, são listados alguns nomes de companheiros de tertúlias de Aureliano quando morava na “rua da Olaria”, atual Lima e Silva, na Cidade Baixa, não muito longe do Copacabana. Depois de um “e tantos outros”, a mesma letra da folha de rosto registra um “entre os quais meu pai”.

A entrada relativa a 1938 trata do casamento de Aureliano com Zilah Lopes e lista seus três filhos: José Antônio, Laura Maria e Nuno Renan. O nome de Laura Maria está sublinhado em tinta laranja e se vê uma pequena estrela, quase um asterisco, que remete a uma nota ao pé da página, que se estende pela margem e diz: “fui seu par, no baile de debutantes, em 53 (!) De ‘recuerdo’ ganhei cuia/bomba de prata.”

crono

O antigo dono do livro foi par da filha de Aureliano em seu baile de debutantes, em 1953. Deveria ser um rapaz de 18 ou 20 anos, nascido no começo dos anos 30, quando Aureliano já estava de volta a Santiago e iniciava sua vida como médico. Já cinquentão, comprou a biografia do pai de seu par, muito longe de Santiago, na capital da república.

Há outros trechos destacados com a caneta laranja, até a página 20, onde o Jacaré destaca a relação de Aureliano com Getúlio Vargas, a quem nunca perdoou por haver traído os ideais daqueles que estiveram na linha de frente da Revolução de 30. Seria antigetulista, como Aureliano, o antigo dono do livro?

Depois disso quase não há mais textos destacados, apenas alguns versos mais ou menos no meio do volume, até que na página 56, na abertura do quinto capítulo do livro, está uma foto tomada no chalé da Praça XX, em que dois senhores estão diante de dois copos de chopp preto, olhando para o fotógrafo. E reaparece a caneta azul sob a foto, identificando os dois senhores: “Marçal de AB., meu pai. Aureliano”.

foto-sem-data

A foto não tem data, mas as roupas de Marçal e Aureliano remetem a uma elegância dos anos quarenta; talvez seja do curto período que Aureliano passou em Porto Alegre em 1941, como sub-chefe da Casa Civil do interventor Cordeiro de Farias. Marçal veste um traje claro, com uma gravata borboleta, enquanto Aureliano leva um conjunto escuro, camisa branca, gravata de nó pequeno e lenço no bolso do paletó. Ambos de chapéu, os dois Fedora de aba reta, o de Aureliano de copa mais alta.

Não há dúvida de que o expatriado santiaguense que me legou a biografia de Aureliano era de uma família muito próxima dos Figueiredo Pinto. Não só foi par no baile de Laura Maria em seu baile de debutante, como seu pai Marçal participava das tertúlias na rua da Olaria e privava da intimidade de um chopp no chalé da Praça XV.

É possível que o filho do Marçal já não esteja mais entre nós e que seus herdeiros hajam passado sua biblioteca para o sebo que me vendeu o singelo livrinho com a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto escrita por Luiz Sérgio Metz. Talvez a família não tenha mais nenhum vínculo com Santiago ou com os Figueiredo Pinto.

Por mais curioso que tudo isso me haja deixado, neste momento não disponho de tempo nem de meios para tentar deixar as coisas mais claras. Gostaria de perguntar ao Airton Ortiz detalhes da criação da coleção “esses gaúchos”, de como se escolheu o Jacaré para escrever sobre o Aureliano, de como os editores viram a forma que ele escolheu para o texto, com dois capítulos dedicados a uma entrevista imaginária que pareceu não interessar muito ao filho de Marçal AB, pois neles não há sequer um pedaço de texto destacado.

Seus netos devem morar aqui em Brasília e talvez tenham algo a contar sobre a relação do avô e do pai com os Figueiredo Pinto. Se fosse até Santiago talvez descobrisse que foi o par de Laura Maria no baile de debutantes de 1953 cuja biografia de Aureliano percorreu esse longo caminho até chegar a mim.

Sei que essas coincidências não querem dizer nada. Essa busca por um sentido em todas as coisas é um dos traços que nos fazem mais humanos, mas são somente mistificações que nascem do espanto que nos causa a complexidade do mundo, apreendida pela máquina de pensar do nosso cérebro. Mas mesmo com sua extraordinária capacidade, há sempre algo que se nos escapa. E daí o espanto, e as religiões e a filosofia e a poesia.

E dele decorre a necessidade de querer explicar, de buscar alguma coisa oculta, de interpretar sinais onde nada há além do caos, de arranjos probabilísticos aleatórios que nada significam. Mas não cansamos de tentar ligar os pontos, de unir alguns fios soltos que pendem da colcha que nossa história tece, alheia às nossas agruras e preocupações.

Devolvo os livros à estante e configuro o ipod para o modo aleatório. Sempre que o misterioso algoritmo que o governa trouxer de volta Noel e Aureliano aos meus olvidos vou lembrar de tudo isso outra vez. E quando sentar no salão principal do Copa vou brindar à memória de Luiz Sérgio Jacaré Metz, que há vinte anos deixou aquelas mesas pra nunca mais voltar.

Luiz Sérgio Jacaré Metz
Luiz Sérgio Jacaré Metz

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Sobre as possibilidades do Inter no Brasileiro

Sobre as possibilidades do Inter no Brasileiro

Reclamam que eu não escrevi sobre Inter 1 x 0 Figueirense. Na verdade, três pessoas reclamaram. Ora, a partida foi na noite anterior ao dia das eleições. Nem pensei muito a respeito. E foi uma vitória deprimente, com o Inter se protegendo de um time que não o atacava. O final do jogo parecia uma luta do covarde contra o desarmado. Ou como a cena antológica do Monty Python, em que o Cavaleiro Negro, já sem braços e pernas, propõe um empate… (Aqui, a cena completa).

O Figueirense atacando o Inter.
Imagem do Figueirense atacando o Inter.

E mesmo assim jogamos mal. O pior técnico do Brasil, Celso Juarez Roth, segue comandando um time obtuso e sem sentido. Amanhã, vou ao estádio ver Inter x Coritiba. Só a sorte ou um entusiasmo extremo — como o do Cavaleiro Negro — poderá nos salvar, pois, pelo que vi de Coritiba x América-MG, o time de Carpeggiani é muito melhor e mais moderno que o nosso, que não tem nem saída de bola. Urge fazer uma limpeza no clube. Aguardamos por um milagre que nos mantenha na primeira divisão — 15 pontos em 10 jogos, ou seja, 50% de aproveitamento de um time que não tem nem 20% nos últimos 20 jogos. Conseguindo-os ou não, depois temos que ir atrás de clorofila, esfregão, rodo, Veja Multiuso, desinfetante, desengordurante, diabo verde, saponáceo, desentupidor, escova sanitária, tira-limo, palha de aço, sacos de lixo (muitos), detergentes, panos de chão, baldes e vassouras para limpar o clube. Mas o maior problema é a MÃO DE OBRA.

Era isso.

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Este blog é cultura: etimologia da palavra “lavabo”

Este blog é cultura: etimologia da palavra “lavabo”

lavaboDedicado a Fabrissa Valverde, que acordou com essa coisa na cabeça.

Nós todos o conhecemos. Todos nós já o utilizamos. Mas alguma vez paramos para pensar de onde vem o nome do local conhecido como lavabo?

A palavra lavabo é o futuro do verbo latino lavare. Literalmente significa “Lavarei”. Até aí tudo bem. Não é sem lógica de que um local usado para lavar as mãos e outras coisas tenha um nome relacionado com o verbo lavar. Mas por que no futuro? É uma promessa? É para lembrar-nos de uma obrigação?

A explicação deve ser procurada nada mais nada menos do que no rito da Missa Tridentina, que é a que vem do Concílio de Trento. Como é sabido, esta é oficiada em latim. Durante a cerimônia, antes de tocar o anfitrião, o padre lava as mãos e recita o Salmo 26, 6, que diz:

Lavabo inter-manus meas Innocentes
circumdabo et altare tuum, Domine.

Isto é:

Lavarei minhas mãos entre os inocentes
e darei uma voltinha pelo teu altar, Senhor.

Roubado daqui.

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Oswald — Ponta de Lança e outros ensaios, de Éder Silveira

Oswald — Ponta de Lança e outros ensaios, de Éder Silveira

oswaldCVEu sempre me aproximo com receio de obras escritas por acadêmicos. Nelas, às vezes tudo fica muito esquisito, com os rodapés crescendo quase tão altos quanto a parede. Por isso, foi uma surpresa abrir a obra do historiador Éder Silveira e ver-me logo envolvido por temas culturais fundamentais do Brasil, acompanhados de elegância, boa prosa e comentários consistentes. Antes de descerrar esta cortina de elogios, aviso que sim, há os malditos rodapés, mas o autor esforçou-se para integrá-los ao texto. Deste modo e erguendo o nariz para alguns deles, a leitura ioiô ficou reduzida.

Oswald ponta de lança e outros ensaios trata de temas culturais e políticos da primeira metade do século XX, com foco na Semana de Arte Moderna de 22 e suas margens. São textos cheios de informação — e algumas fofocas — sobre figuras como Monteiro Lobato, Anita Malfatti, Mário de Andrade, Di Cavalcanti e Oswald. Para mim, o verdadeiro interesse do livro está no fato de que o autor cuida mais da algaravia geral. Isto é, cuida menos de suas individualidades e mais de suas obras e dos diálogos entre eles e a política da época, vertidas principalmente em artigos publicados em jornais. No início do século passado, não havia tanto compadrio entre os autores brasileiros e muitas vezes uns criticavam aos outros. Também mudavam de opinião, o que é saudável. Ou seja, o ambiente intelectual não estava boiolizado como o que vemos hoje.

(Bem, antes que a patrulha da correção me alcance com seus dedos pegajosos, informo que boiola tem também o significado de indivíduo fraco ou medroso, tá? OK? Certo? Então tá, podem abraçar seus dicionários e dormir tranquilos).

E, além de não haver tanto compadrio, era uma época agitada, com o vanguardismo tentando abrir a golpes de facão as brumas parnasianas e naturalistas. O painel que os textos do livro toca é amplo — vai desde o higienização de Lobato até as lutas de Oswald contra o “desprezo pela inteligência” na direção do PCB, das tendências nacionalistas e conservadoras do modernismo brasileiro até o humor praticado pelo movimento, do encantamento e à frustração dos dois Andrades e, é claro, de muitos e muitos projetos irrealizados.

A pergunta de fundo não é nada fácil: o que é o Brasil, qual é sua identidade? É claro que a resposta não está no livro, mas a discussão é bonita.

Livro fundamental para quem se interessa por cultura no Brasil.

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O historiador Éder Silveira confirma com o indicador: é o único gremista que sabe escrever em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger / Sul21
O historiador Éder Silveira confirma com o indicador: é o único gremista que sabe escrever em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger / Sul21

Obs. final: o que me deixa encafifado é o fato de tão bom autor ser gremista, incidência que ele não declina em seu livro. Por anos, o mítico Impedimento andou procurando bons cronistas gremistas. Os resultados foram claros: eles não sabem escrever direito. Os raríssimos bons ou eram deprimidos ou não se mostravam suficientemente disciplinados para a tarefa. O único azul que escreve bem — além de dançar tango — em Porto Alegre é Sergio Faraco. Ele torce para o Cruzeiro, sim, o cruzeirinho de Erico Verissimo e Moacyr Scliar. O outro é Peninha.

faraco-cruzeiro

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A vitórias das abstenções, votos nulos e brancos

A vitórias das abstenções, votos nulos e brancos
Político, eu?
João Dória: Político, eu?

A posição anti-política é política. É tolo pensar que se vota contra a política, vota-se por outra política. E isso ficou claro em muitas e muitas cidades do Brasil neste domingo.

Obs.: “Ninguém” é a soma de abstenções, votos nulos e brancos. Vejam abaixo como como no Rio e em BH, o “Ninguém” foi tão forte que nem teria segundo turno…

Resultado Oficial São Paulo
1. Ninguém: 3.096.186
2. Dória (PSDB): 3.085.181 (Candidato “Eu não sou político”)
3. Haddad (PT): 967.190
_______________________
Resultado Oficial Rio
1. Ninguém: 1.866.621
2. Crivella (PRB): 842.201
3. Freixo (PSOL): 553.424
_______________________
Resultado Oficial Curitiba
1. Ninguém: 360.348
2. Greca (PMN): 356.539
3. Ney L. (PSD): 219.727
_______________________
Resultado Oficial Porto Alegre
1. Ninguém: 382.535
2. Marchezan (PSDB): 213.646 (diz que não é nada — não tem posição política).
3. Melo (PMDB): 185.655
____________________
Resultado Oficial Belém
1. Ninguém: 265.731
2. Zenaldo (PSDB): 241.166
3. Edmilson (PSOL): 229.343
_______________________
Resultado Oficial Belo Horizonte
1 – Ninguém: 741.915
2 – João Leite (PSDB): 395.952
3 – Alexandre Kalil (PHS) 314.845

 

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A visão do português Esquerda.net: direita reforça-se, PT desmorona, PSOL cresce

A visão do português Esquerda.net: direita reforça-se, PT desmorona, PSOL cresce
Multidão comemora a ida de Marcelo Freixo, do PSOL, ao segundo turno das eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro
Multidão comemora a ida de Marcelo Freixo, do PSOL, ao segundo turno das eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro

PSDB ganha prefeitura de S. Paulo, que era do PT, com candidato milionário que diz não ser político. PSOL disputa no 2º turno prefeituras do Rio de Janeiro e de Belém. Por Luis Leiria, do Rio de Janeiro.

Por Luís Leiria, do Esquerda.net

Um primeiro levantamento do resultado das eleições municipais de domingo no Brasil tem de arrancar de três factos: houve uma importante vitória dos partidos da direita que apoiaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff, principalmente PSDB e PMDB; ocorreu o esperado desmoronamento do PT, que perde para o PSDB, já na primeira volta, a mais importante prefeitura do país, a de S. Paulo, cidade com uma população semelhante à de Portugal; e confirmou-se o crescimento do PSOL, que vai disputar no segundo turno (30 de outubro) as prefeituras do Rio de Janeiro e de Belém e se postula assim a ocupar, a médio prazo, o espaço à esquerda que o PT abandonou de armas e bagagens.

Marcelo Freixo, do PSOL, disputará o 2º turno no Rio de Janeiro

Como prevíramos num artigo anterior, Marcelo Freixo, do PSOL, afastou do 2º turno o candidato do PMDB e do atual prefeito e obteve uns sonoros 18,26% dos votos, quando a última sondagem lhe dava apenas 11%. Marcelo Crivella, pastor da igreja Universal e senador do PRB, que ganhou a eleição com um resultado inferior ao que lhe era atribuído pelas sondagens 27,78%, disputará com ele o 2º turno.

Note-se que a eleição do 2º turno, que se realiza a 30 de outubro, é toda uma nova eleição, até porque desta vez os candidatos têm as mesmas condições, nos debates de TV e nos tempos de antena, que agora serão iguais. No primeiro turno, Crivella tinha 1’11” de TV diária, e Freixo apenas 11”. E o candidato do PSOL foi afastado do primeiro debate da TV, só participando nos seguintes com muita pressão nas ruas e nos tribunais.

“Não podemos mais sair das ruas e das praças depois desta vitória histórica”, proclamou Freixo diante da multidão que se reuniu junto aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro, para comemorar o resultado. “Agora estão em disputa dois projetos muito diferentes para a cidade, o nosso, da esquerda, e o do Crivella. Os outros partidos terão de escolher entre um e o outro, ou se ficam indiferentes”, desafiou o candidato do PSOL, que já recebeu o apoio da candidata do PC do B, Jandira Feghali.

Destaque-se que nenhum dos dois partidos que disputarão a prefeitura do Rio no dia 30 é dos principais do sistema político brasileiro: o PMDB, que perde a Prefeitura, ficou relegado para os 16,12% e o terceiro lugar; e o candidato do PSDB ficou em 6º lugar com 8,62%; a candidata do PC do B, que era apoiada pelo PT e contou com a participação de Lula num evento da sua campanha, ficou em 7º lugar com 3,34%. De registar os preocupantes 14% do candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro, em 4º lugar.

O PSOL disputa também o 2º turno das eleições em Belém: o atual prefeito Zenaldo Coutinho, do PSDB, concorrerá contra Edmilson Rodrigues, do PSOL, que já foi prefeito da cidade quando era do PT. Dois outros candidatos do partido que tinham possibilidades de permanecer na disputa viram-se arredados do 2º turno: em Porto Alegre, Luciana Genro, que chegou a liderar as sondagens, ficou em 4º lugar com 12,06%, e em Cuiabá o Procurador Mauro, do PSOL, que ficou à frente em quase todas as sondagens, acabou em 3º lugar com 24,85%.

PT esvazia-se

O Partido dos Trabalhadores, que já foi o terceiro maior partido do país em número de prefeituras, só garantiu, nas capitais, a vitória no primeiro turno de Rio Branco, capital do estado do Acre. Nas restantes capitais, o partido só disputa o 2º turno em Recife. O seu aliado PC do B disputa o 2º turno em Aracaju.

A maior derrota do PT ocorreu na capital de S. Paulo, onde Fernando Haddad ficou em segundo lugar, com 16,7% mas perdeu a eleição porque João Doria, do PSDB, suplantou os 50% dos votos válidos (teve 53,28%) e por isso foi eleito logo no primeiro turno. O PT perdeu ainda outras duas capitais, Goiânia e João Pessoa.

Na Grande S. Paulo, os candidatos petistas foram derrotados em cidades consideradas berço do partido, como S. Bernardo e Diadema, que eram governadas pelo PT mas onde os candidatos do partido ficaram em 3º lugar. Em Osasco, o prefeito Jorge Lapas fora eleito pelo PT mas transferiu-se para o PDT, e é nesse partido que irá disputar o segundo turno. Noutra cidade da Grande S. Paulo governada pelo PT, Guarulhos, o candidato do partido também ficou fora do segundo turno. Outro caso de prefeito do PT que decidiu mudar de partido foi o de Niterói, no Grande Rio de Janeiro, que abandonou o barco para não afundar com ele, e é como candidato do PV que irá disputar o 2º turno. Das 642 prefeituras conquistada em 2012, o PT já perdera 108, em casos, como o de Niterói, em que o prefeito se mudou para outro partido.

Governo Temer reforça-se com os resultados

O PMDB de Michel Temer deverá continuar a ser o partido com o maior número de prefeituras. E as vitórias do PSDB (que, depois de duas eleições sucessivas a perder espaço municipal, voltou a crescer e conquistou S. Paulo logo de primeira) e do DEM, que viu o seu prefeito reeleito em Salvador diretamente no primeiro turno, além de vitórias de outros partidos que apoiam o governo, também dão um confortável suporte ao governo de Temer.

A grande vitória do PSDB de S. Paulo foi arquitetada pelo governador Geraldo Alckmin, que decidiu lançar um homem de fora do aparelho político, o empresário e apresentador de talkshows João Doria Jr., para a prefeitura da capital paulista, numa candidatura que teve a ascensão de um cometa. Milionário que declarou ao TSE um património de 180 milhões de reais, Doria fez uma campanha em que se apresentava como “não político”, mas sim como administrador, que se propõe desestatizar S. Paulo, para aligeirar a sua máquina que, segundo ele, “é muito pesada e não anda”.

No total, 54 cidades vão a segundo turno no próximo dia 30 (só há 2º turno em cidades com mais de 200 mil eleitores), das quais 18 são capitais de estado.

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Porque hoje é sábado, Britney Nola

Porque hoje é sábado, Britney Nola

Quando não faço o PHES por preguiça, até aceito que reclamem.

Mas quando não o faço por excesso de trabalho,

tenho vontade de matar meus sete fiéis voyeurs.

Nesta semana, apesar de ter trabalhado com um doido,

reservei um tempo para agradar os exigentes fãs de nossa seção sabatina.

Bem, vocês podem não acreditar, mas o que me seduziu em Britney Nola,…

… além do que está escarrado, foi sua cara de sono.

(Mulher com cara de sono é uma coisa legal, vai dizer que não?)

Não gosto muito do hálito defumado do cigarro, mas da cara sonolenta sim.

Certo, acima a cara dela está mais alerta,

britney_nola_10

… mas agora voltou a dormir. Interessante.

Não há muita coisa sobre ela na internet e nem sei direito

como chegou aqui. Sei que é norte-americana e que mede 1,75m.

Só isso. O que importa é que chegou inteira, não?

Porém, como dizia Alain-Fournier, autor do lindíssimo romance O Grande Meaulnes:

a aproximação é sempre mais bela que a chegada. Será mesmo?

Ah, uma foto que ficou de fora por erro meu…

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Minha amiga Asli e a m… de qualidade

Minha amiga Asli e a m… de qualidade

Mesmo que só a conheça pelo Facebook, é um privilégio ser amigo de Asli Berktay. A Elena certamente concorda. Nunca nos vimos pessoalmente, mas talvez possa escrever algumas linhas mais ou menos objetivas a respeito dela. Ela nasceu na Turquia e é doutora em Estudos Latino-americanos pela Tulane University (EUA). Penso que é historiadora — sim, não tenho certeza — mas é tão multi-facetada que pode ser o que quiser. Escreve sobre antropologia, política, música, literatura, gatos e o escambau, sempre com extremo conhecimento. Como eu, detesta as pessoas que chutam sobre qualquer assunto. (Lembro de uma postagem irritada onde reclamava das pessoas que “podiam se permitir pensar e falar qualquer coisa”). Tem trinta e poucos anos e fala sei lá quantas línguas, mas não de um jeito estropiado, como vocês poderão notar pelo texto abaixo, escrito por ela em português. Diz que é “possuidora desesperada de Wanderlust, existindo entre a África, o Brasil, as costas do Caribe e do Egeu”. É realmente complicado explicar Asli, tal é a amplitude da moça. Ainda mais que creio ter lido que ela aprendeu a ler em francês… E que gostava de jogar futebol… Tenho em meu micro vários de seus textos, pois não quero perdê-los no pântano volátil do Facebook. Mas querem saber porque acho estranho apresentar a Asli? Porque seu currículo não me interessa. Me interessa o que ela compartilha com um monte de gente, incluindo eu e a Elena. Me interessa a poesia do que escreve e a beleza de suas fotos, onde se vê claramente sua inteligência e seu interesse por tudo. Abaixo, ela escreve uma crônica familiar que toca em sua formação, principalmente a literária. Achei interessante porque minha mãe falava em “arte perecível” e mandava eu ler ou ouvir apenas coisas de mais de 30 anos. Isto é, aquelas tivessem sobrevivido a este período. Era uma variação sobre o padrão de qualidade defendido pela avó da Asli. Ah, e minha mãe também jamais diria “merda”. 

Ao centro, a Asli
Ao centro, Asli em uma de suas mais lindas fotos

.oOo.

Hoje acordei com uma recordação vívida de algo ocorrido há mais de 20 anos. Eu deveria ter 12 ou 13 acho, e estava com a minha avó paterna durante o verão na casa de férias dela em Bodrum. Sim, Bodrum, aquele balneário onde foi encontrado o corpo de Aylan Kurdî. Eu passava umas três semanas com ela cada verão, e o nosso ritmo era quase sempre o mesmo, alternando-se entre o mar, a comida, e longas horas de leitura. Minha avó e o marido dela, o meu avô nunca conheci, eram comunistas ardentes que espalharam uma forte disciplina comunista a todas as partes das suas vidas, e sobretudo na educação dos filhos. Meu pai pegou bastante disso também e eu passei pelas consequências. Já não sobrava muito ao nascimento da minha irmã quando eu já tinha quase 15 anos, e ela só conheceu a nossa avó no final da vida dela, quando ela já estava condenada à cama. Mas eu sim peguei a minha dose dessa disciplina.

Bom. Então, essas longas horas de leitura não eram livres, claro. Eu sempre tinha listas, livros que precisava ler para completar a minha educação. Naquele verão, a necessidade que via a minha avó era mais forte ainda, pois aquela Asli adolescente tinha começado de ler histórias de horror e tal, assim como outras coisas que a minha avó considerava de baixíssima qualidade. Então, ela decidiu que aquele verão ia ser de literatura russa. Com 12 anos, eu já tinha lido os “mais clássicos” para assim dizer: Tolstoy, Dostoyevski, Pushkin, Pasternak. Os textos integrais claro, o oposto teria sido inimaginável. Lembro muito bem que após ter terminado Doutor Jivago, as únicas imagens que ficaram na minha mente eram de frio e um monte de gente tomando vodka. Quando não tinha vodka, eles bebiam álcool isopropílico. Vá entender o sentido que faz de dar um livro desses a uma menina de 11 anos!!

Então naquele verão a minha educação de literatura russa era para ser completada. Começou por Chekhov que eu gostei bastante, e incluiu uma tortura demorada dos quatro volumes de And Quiet Flows The Don (para nós, O Don Silencioso) de Sholokhov. Não faço ideia de como foi traduzido ao português. E uma vez parado o devagar e difícil fluxo do Rio Don, chegou a hora de Lermontov. Naquela hora, a menina de 12 ou 13 anos já estava de saco cheio mesmo. E Lermontov chegou com umas imagens horrorosas de cossacos torturados, um com a orelha cortada por aqui, outro sem língua por ai. Violência por todas partes, sangue correndo em todas as direções. Já era a hora de uma conversa séria com a minha avó. Então me preparei, aperfeiçoei o argumento de “se você não quer que eu leia livros de crime por causa da violência e o horror, o quê será isso” e a enfrentei. Fiz um belo discurso de uns vinte minutos, fiquei satisfeita, achando-me muito convincente.

A minha avó ouviu tudo, me olhou por uns minutos, sorriu e foi procurar um dos meus livros de crime/horror de baixa qualidade. Disse que o tinha trazido com ela para quando esse momento chegar. Ao me passar o livro, ela afirmou que ia chegar o dia em que eu ia saber diferenciar entre horror de alta e de baixa qualidade. Ela queria, pelo menos, ter-me apresentado a essa primeira categoria. Também, ela sabia que eu sempre ia gostar da segunda categoria também, que isso fazia parte da minha natureza. E que eu sempre ia ser uma pessoa diversificada, e muito dividida. Mas a responsabilidade dela era me apresentar o padrão de qualidade, para eu logo poder saber quando lia merda, assistia merda, ou fazia merda, que aquilo era merda mesmo. Claro que para ela, o que era “merda” não estava aberto a discussão, ela sabia o que era merda e o que não. E mulher fina que ela era, ela não disse merda, mas já sabia que a expressão que eu ia usar um dia ia ser essa. Concordou que merecia um descanso, então me deixou ler merda à vontade por um tempo. Lembro que, depois desses dias, voltei para Lermontov e acabei de ler os três livros que tínhamos trazido à praia. As únicas imagens que realmente ficaram comigo são ainda de cossacos torturados e de paisagens de desolação. A saudade que sinto pela minha avó, por outro lado, é enorme, e cheia de imagens cada vez mais vivas…

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A total falta de cérebro: “O Sul é o meu país”

A total falta de cérebro: “O Sul é o meu país”

Sou contra e acho graça. Não quero um país onde mais de um terço da população seja formada por paranaenses. Nem por gaúchos. Populações que elegem Beto Richa e Sartori merecem tsunamis, não um país.

Além do mais, vão querer me tirar o orgulho de ter nascido no mesmo país de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Manuel Bandeira?

Ah, e este tipo de campanha é crime, segundo nossa Constituição.

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Bom dia para você, que viu seu time com quatro volantes

Bom dia para você, que viu seu time com quatro volantes
Obrigado, Seijas. Também em campo, dá para notar que tu encaras o problema.
Obrigado, Seijas. Também em campo, dá para notar que tu encaras o problema.

Não queria escrever hoje. Não por tristeza ou algo do gênero, mas porque é repetitivo. O Inter comete sempre os mesmo erros. Então, vamos tentar achar as diferenças do jogo de ontem em relação aos outros. Ontem, quando reagimos, Celso Juarez Roth foi empilhando volantes até chegar ao número de quatro: Dourado, Fabinho, Bob e Eduardo Henrique. Ele ainda não tinha feito isso e nenhum treinador o faz, ainda mais quando perde o jogo, mesmo por um placar aceitável. De onde Argel — pois foi um pedido de nossa Ameba I — tirou este Fabinho, meu deus? O homem está sempre apavorado! E quem explica a contratação de Marquinhos?

Outra novidade? Vitinho entrou bem.

Mais: os dois gols do Santos nasceram de trocas de bolas pelos lados em que o jogador santista ficou livre para olhar, escolher com calma e cruzar. Nossos jogadores são cones que não conseguem marcar os deslocamentos dos adversários. O cara fica livre, olha e olha, cruza e gol sai. Duas vezes.

Por exemplo, na imagem abaixo, os jogadores 4 e 5 foram ultrapassados pelo cara de branco próximo a eles e que vai cruzar depois do passe óbvio do cara que está ao lado do jogador 7 do Inter. O que fazem 8 e 9? Batem um papo, observando os babacas 4 e 5.

Sistema de Marcação do Inter. As baratas tontas.
Sistema de marcação do Inter: baratas tontas.

OK, já entendi. Carvalho quer ir até o fim com Juarez. Meu grande amigo Roberto Mastrangelo Coelho está em surto pedindo Mário Sérgio. Ele tem razão. Seria uma ótima pedida. Ele sabe escalar, substituir e é um motivador. Juarez não é capaz de nenhum destes três itens. Mário seria o nome ideal para tentar nos salvar. Daqui alguns dias, jogaremos contra Palmeiras, Flamengo, Corinthians, etc. e aí não haverá mais remédio que cure.  O louco Lisca poderia ser também interessante.

O que me desespera não é o impossível. Não me desespero por Romy Schneider ter cometido suicídio antes de me conhecer. O que me desespera é o possível não alcançado. Ah, nossa direção… Cometeu erros sobre erros. Piffero e Carvalho obinaram e ainda estão obinando. De minha parte, estou em tranquilo desespero, rindo do Inter, ou seja, rindo de mim.

Uma coisa que me surpreende é nossa impotência. Quem não tem mais nada a perder costuma ser perigoso — mesmo quem cai para a segunda divisão vence aqui e ali, comete seus crimes — , mas o Inter não é capaz nem disso. Uma vitória em 21 jogos — 19 destes no Brasileiro. Estamos indo para o matadouro sem ousar, com Juarez e suas soluções anos 90.

Para completar, Seijas está mais indignado do que Carvalho e Roth, que riem da “incompreensão” dos repórteres durantes suas lamentáveis entrevistas. Melhor não escalar o venezuelano, né?

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Então a mãe da Elena, que só fala russo, liga e eu atendo:

Então a mãe da Elena, que só fala russo, liga e eu atendo:

how-to-answer-the-phone— Kjnskdnamcxnsajjn niad nhiudq dqud hbdiwdsx Liena?

Eu pergunto, rindo:

— Elena, Liena, Liênatchka?

Ela também ri e responde:

– Jjhbxhj wsbsxjha xswjudys.

E eu esclareço, pois sua filha não estava em casa:

— Elena NIET.

Isso parece tranquilizar dona Klara Zlátina, que diz:

— Hyys hsaidk ysgqa djdç oljkls çdlf oifdajdwql, OK?
— OK.
— OK.
— Pacá.
— Pacá.

Olha, acho que me saí super bem na minha primeira conversa com a sogra.

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Uma boa Ospa numa das últimas noites frias de 2016

Uma boa Ospa numa das últimas noites frias de 2016

Tão boa a noite de ontem. Aproveitamos bem uma das últimas noites frias de 2016. Lá vem o longo período de canícula. Fomos ao concerto da Ospa com Beatriz Gossweiler, ex-clarinetista da orquestra, hoje aposentada. Tiramos a moça de casa para que ela revisse seus colegas tocarem. O programa era o Concierto Levantino de Manuel Palau e o Concerto para Orquestra de Béla Bártok, obra que ela adora.

Sobre o concerto para violão de Palau. O Salão de Atos da Ufrgs não tem boa acústica e, no caso de concertos para instrumentos menos potentes, a coisa ainda piora. Se o violão de Fabio Zanon era audível, também estava claro que perdíamos muita coisa. Quando a orquestra entrava junto, era complicado de ouvir. E a peça era daquelas que só interessam aos violonistas. Durante a música, sentado na nossa tradicional fila P, olhei para o lado esquerdo, duas pessoas dormiam; olhei para o direito, uma. Muito melhor foi o bis, quando Zanon tocou a Dança Espanhola nº 5 – “Andaluza”, de Granados. Aí sim, em versão solo, apareceu o grande e sofisticado solista que já conhecia. Quem não sabe que precisamos de uma Sala Sinfônica em nossa cidade? Aliás, no jantar após o concerto, lembramos daquelas pessoas que rejeitaram o atual Shopping Total como local para a Ospa. Lembramos que o democratismo de resultados nulos do então prefeito José Fogaça deu enorme espaço àqueles imbecis dos “Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho” que gritavam que “resistir é preciso”. Resistir à Cultura é preciso.

Abaixo, coloco para vocês o que ouvimos no bis. Vale muito a pena clicar.

O Concerto para Orquestra foi composto num período difícil da vida de Bartók. Ele estava desde 1940 exilado nos EUA, após assumir corajosamente posições públicas de condenação à políticas nazistas. O húngaro experimentava sérias dificuldades econômicas, de adaptação e também de saúde — sofria com a leucemia que o levaria à morte em 1945. Doente e muito pobre, sobrevivia graças à ajuda de amigos, que lhe faziam encomendas. E ele só respondia com obras-primas. Uma destas encomendas foi do regente russo Serge Koussevitzky, que dirigiu a Sinfônica de Boston por 25 anos. Este encomendou uma obra para orquestra, “do jeito que você quiser”.

Bartók compôs a peça em um curto período de trabalho intensivo, de agosto a outubro de 1943. Fazia dois anos que não escrevia nada. Estreada no ano seguinte – em 1º de Dezembro de 1944, no Carnegie Hall de Nova Iorque, com Serge Koussevitzki regendo a Orquestra Sinfônica de Boston –, a obra foi um enorme sucesso de público. Calculando bem para evitar um confronto com Mahler e com a Sagração, Koussevitzki descreveu o Concerto para Orquestra como a melhor obra orquestral dos últimos 30 anos.

“O surpreendente título deste trabalho — Concerto para Orquestra — indica a intenção de tratar os instrumentos individualmente ou em grupos de forma concertante ou solista. O tratamento “virtuose” aparece em vários momentos”, escreveu Bartók, que esteve presente à estreia. Bartók utilizava a proporção áurea em suas composições, na forma da Sequência de Fibonacci. Como leigo, não sei localizá-la, mas é fato que ouço em suas obras extrema lógica e proporção. A estrutura do Concerto para orquestra é semelhante à da 7ª Sinfonia de Mahler. Ambas têm cinco movimentos simétricos. Em Bartók, o movimento central é lento (Elegia), em Mahler é um scherzo. Em Bartók, o segundo e o quarto movimentos são scherzi, em Mahler são “músicas da noite”. E ambos iniciam suas obras com movimentos lentos e as finalizam na maior festa.

Os dois scherzi de Bartók são dignos do nome. São brincadeiras de verdade. No primeiro, Giuoco delle coppie (Jogo das Duplas), os instrumentos entram em duplas, claro. Se ouvir é ótimo, ver ao vivo é muito melhor. A música passa de uma dupla à outra de modo muito cênico. E como estiveram bem a dupla de oboístas — Javier Balbinder e Rômulo Chimeli — e de flautistas — Artur Elias Carneiro e Ana Carolina Bueno!  No outro scherzo, há uma curiosidade. Bartók tinha ouvido a 7ª Sinfonia, “Leningrado”, de Shostakovich no rádio, quando estava no hospital. Esta é uma sinfonia sobre a guerra que tanto estava fazendo sofrer Bartók. Pois sabem que ele roubou o tema da Marcha de Shosta, transformando-o em algo quase irreconhecível é cômico? Pois é.

Animado com o resultado de seu Concerto, Bartók reviveu, voltando a compor. Apressou-se para completar sua Sonata para Violino Solo — outra obra-prima — encomendada por Yehudi Menuhin e o último dos seus notáveis três Concertos para Piano, além de aceitar uma nova encomenda para escrever um Concerto para Viola para William Primrose, o qual ficou incompleto em poucos compassos. A leucemia venceu-o em 1945.

A imensa repercussão do Concerto para Orquestra levou o público a ser menos, digamos, hostil para com os trabalhos anteriores de Bartók. E eles passaram a integrar o repertório das salas de concerto. Lembro que quando li Solo de Clarineta — revejo de memória a fonte do livro e penso que talvez tivesse sido em O Senhor Embaixador — , de Erico Verissimo, ele citava os Quartetos de Bartók como as maiores obras musicais do século XX. Não sei, mas podem ser sim.

Falarei pouco sobre a execução de ontem. O resultado seria melhor se o excelente maestro Nicolas Rauss tivesse recebido mais tempo para trabalhar. É impossível preparar de quinta para terça uma peça difícil como o Concerto. Só que Rauss obteve um resultado excepcional, juntamente com a Ospa. Ainda que um pouco estropiada, a música e o espírito de Bartók estavam lá. Rauss é um mestre. Putz, deve ter se esforçado muito,

Depois do concerto, rimos muito durante o jantar — não, não rimos do concerto –, mas esta é outra história.

Bartók: grande música e uma saudação para Shostakovich
Bartók: grande música e um alô para Shostakovich

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Schnittke: Concerto Grosso Nº 1 (1977), V. Rondo: Agitato e Postludio (y otras cositas)

Schnittke: Concerto Grosso Nº 1 (1977), V. Rondo: Agitato e Postludio (y otras cositas)

alfred-schnittke-4Penso que, dentre os compositores mortos recentemente e os que já têm carreira bem divulgada, Alfred Schnittke (1934-1998) seja o melhor deles. Eclético e provocador, fazia tanto música moderna como buscava referências no passado, além de usar e abusar como poucos da paródia e do humor. O assustador Rondó final de seu Concerto Grosso Nº 1 traz a uma instrumentação barroca uma música que… Bem, aos 2min41 começa um tango! A Far Cry, grupo que interpreta o movimento, é um interessante conjunto de cordas de Boston que atua sem regente.

O vídeo acima me foi apresentado pelo Gilberto Agostinho.

Abaixo, outro exemplo da qualidade de sua música: o sétimo movimento da Cantata Fausto, Es geschah.

E ainda este divertimento “in Old Style”:

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O feminismo do grande, imenso Um teto todo seu, de Virginia Woolf

downloadUm teto todo seu (A Room of One`s Own, 1929) é um dos mais surpreendentes livros da célebre ficcionista inglesa Virginia Woolf. A primeira surpresa é o fato de não ser ficção; a segunda é a absoluta ousadia no trato do assunto abordado: o feminismo. Mas há mais.

O livro nasceu a partir de duas palestras chamadas “As mulheres e a ficção”, proferidas por Virginia para a plateia essencialmente feminina da Sociedade das Artes, na Londres de outubro de 1928. O texto de Virginia tem a qualidade estupenda de seus livros da época. Mrs. Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928) foram seus predecessores; As Ondas (1931) deu continuidade à série de obras-primas. Encrustado na sequência principal de romances de Virginia, o ensaio Um teto todo seu não decepciona de modo algum. O livro tem cerca de 140 páginas. Não pensem que ela o leu por inteiro em duas noites – algo como 70 páginas por dia – , na verdade o texto foi bastante ampliado para publicação logo após as palestras.

Intermezzo: é notável a sorte de Virginia Woolf no Brasil. Seus tradutores foram extraordinários: Orlando foi traduzido por Cecília Meireles; Mrs. Dalloway, por Mario Quintana; As Ondas e Entre os Atos, por Lya Luft em fase pré-Veja e pré-Yeda; Passeio ao Farol, por Luiza Lobo e Um teto todo seu, recebeu tratamento impecável de Vera Ribeiro. Muita, muita sorte. Fim do intermezzo.

Dotado da mesma prosa alegre e saltitante de Mrs. Dalloway e Orlando, Um teto todo seu trata do feminismo de forma levíssima, mesmo que afirme as coisas mais terríveis sobre a vida da mulher. Alegre, feliz e livre de todo rancor, como na foto abaixo, à esquerda, Virginia Woolf cria algumas imagens fortíssimas que ficaram célebres. A primeira é a da irmã de Shakespeare, Judith. Tão talentosa quanto o irmão, ela teria vivido subjugada por tarefas domésticas e todos os seus esforços para demonstrar seu talento teriam sido esmagados pela família. Então, desesperada, ela foge, apresenta-se num teatro de onde é sem mais nem menos enxotada, para depois prostituir-se e suicidar-se. A outra é da escritora fictícia Mary Carmichael. Ela não é muito boa, sua frase é dura e seu romance, que Virginia finge ler, é mais ou menos chato. Só que lá pelo meio há uma frase: “Chloe gosta de Olivia”. E então, finalmente, naquele livro bem ruinzinho, apareceu a Grande Mudança, pois às vezes mulheres gostam de mulheres, não?

Seu raciocínio, até desembocar na tese do Teto e das 500 libras anuais, é brilhante. Virginia Woolf parte das precursoras da literatura inglesa até chegar na grande explosão do século XIX, com o aparecimento de Jane Austen, das irmãs Brontë, Emily e Charlotte, além da grande George Eliot que, em verdade, chamava-se Mary Ann Evans. Suas obras-primas não nascem de gênios isolados, mas após anos e anos de labuta conjunta. A experiência apresentada por estas escritoras dá forma perfeita ao que veio antes, à tradição. Então, escreve Woolf, Jane Austen deveria ter depositado uma coroa de flores no túmulo de Fanny Burney e George Eliot deveria ter rendido homenagem à resoluta Eliza Carter, a bravíssima escritora que amarrava uma sineta na armação da cama de forma a não dormir muito e poder estudar grego. E todas elas deveriam derramar flores sobre o túmulo de Aphra Behn, que está enterrada – surpresa! – na Abadia de Westminster, pois foi ela quem começou a assegurar a todas o direito de dizerem o que pensam. Trata-se de parafrasear o velho e bom Newton, físico presente em quase todas as opiniões literárias da tradição inglesa que costuma sempre dizer que “Se vemos mais longe, é por estarmos em pé sobre ombros de gigantes”.

Woolf faz questão de deixar claro que, casualmente ou não, as escritoras que foram melhor sucedidas são aquelas que guardaram para si seu justo rancor. Se Austen ressentia-se contra sua sociedade e família – e ressentia-se, basta lê-la com profundidade – , tratou de passar ao largo das longas tardes em que escrevia seus livros na sala sob as constantes interrupções das “coisas que são tarefas de mulher”. (Pois as mulheres do século XIX nasciam e morriam trabalhando para os homens). De George Eliot nunca se ouviu nada, pois ela se fingia de homem… Porém, em Jane Eyre, Charlotte Brontë teve seu pior momento ao escrever claramente um trecho rancoroso, o que não fez Emily, de coração de poeta e maior talento. Ah, as questões seculares! García Márquez e Saramago e todos os que podem aspirar à imortalidade preteriram-nas em suas grandes obras em favor das parábolas.

O livro, escrito nove anos após as mulheres obterem direito de voto na Inglaterra, é uma ampla análise da situação da mulher e de sua relação com o dinheiro. Virginia Woolf insiste em que as mulheres precisam de duas coisas para criarem uma nova literatura: um teto todo seu, ou seja, um quarto que pudesse ser trancado à chave para escrever, e uma renda de aproximadamente 500 libras anuais. Para tanto, a mulher deveria trabalhar (Virginia fazia parte da Liga do Trabalho Feminino) a fim de obter alguma independência.

Sim, as teses estão bem amarradas – por exemplo, Virginia demonstra que todos os bons poetas de sua época são abastados… – , mas o milagre do livro é o que subjaz às teses. É o tremendo talento da autora para fazer nascer seus argumentos e frases num texto vertiginoso, agradável e sem lugar para gritos ou deselegância. É um feminismo dócil? De modo nenhum. É um feminismo culto, fino, esclarecido, isso sim. E duríssimo e de resultados.

Mais aqui, por Cássia Fernandes.

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