Diego Aguirre: na Libertadores, só os melhores, tá?
Não vi o jogo do último sábado, Aguirre. Na boa, cansei dos reservas. Mas parece que Nilmar foi bem. Era o que interessava, além do pontinho conquistado fora de casa. Só não entendi a escalação de Alan Ruschel no meio-de-campo com Taiberson e Alisson Farias no banco. Mas sei que a mente dos treinadores de futebol passeiam por campos cheios de fantasia e alucinação. Como o previsto por todos os observadores externos, Ruschel não apenas foi o pior em campo como ainda arranjou uma expulsão.
Já dizia o chamado Mestre Cabral: o mau jogador deve ser afastado, retirado do grupo. Se fica por ali, mesmo que só completando o banco, acaba entrando em campo. Tu devias pedir para a direção trazer um dos melhores laterais da segunda divisão brasileira. Bastaria para ser reserva ou disputar posição com o Géferson.
O jogo de amanhã será terrível. Ainda não estou nervoso, mas amanhã estarei. Começarás com Nilmar ou Lisandro López? Nilmar aguentaria 90 ensandecidos minutos ou vai cansar? Melhor entrar de cara ou depois? Bem, confio em ti, cara. Faça as melhores escolhas, motive o time e vamos lá tentar.
A Elena ganhou este livro de presente de aniversário, em 19 de maio de 2014. Quem lhe deu foram os conhecidos psicanalistas porto-alegrenses Lucia Serrano e Robson Pereira. Ela o leu há pouco tempo e mandou eu ler também. Ela tinha gostado muito e me fez uma curiosa observação. A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan, que tinha lido logo antes, seria um livro onde as coisas que acontecem são completamente reais, mas as consequências e as impressões do leitor são surreais. Já em Mr. Gwyn acontecem coisas surreais, mas a sensação é de normalidade, de isso-deve-ser-assim. Não sei se fui feliz ao reproduzir as frases da Elena. O que digo é que o livro da Baricco é extraordinário. São 68 capítulos em 219 páginas da uma história surpreendente que inicia com Jasper Gwyn, um escritor de sucesso, publicando no The Guardian 52 motivos para abandonar a escrita.
Seu editor e melhor amigo desespera-se, mas afirma que Gwyn vai voltar a escrever. Na verdade (sem spoilers), o escritor está atrás de outra atividade que ainda não existe. Ou seja, sua Síndrome de Bartleby não é tão severa. Ele mais ou menos deixa de publicar. E começa a escrever retratos. A ser um copista de pessoas. O texto de Baricco é poético e intrigante. Mesmo que não haja um tremendo mistério a ser revelado, a história faz com que pulemos de um capítulo para outro para saber mais. Afinal, é necessário saber onde Gwyn quer chegar.
Hábil, Baricco dá reviravoltas na história, acelera e freia, entrega pistas erradas, sempre mantendo a poesia do relato. O livro pode ter várias interpretações, mas creio que a mais inconsistente é a que está na contracapa do volume (algo como “o escritor precisa desaparecer para se reencontrar”…) e uma das mais consistentes é que os escritos poéticos e metafóricos captam melhor a essência desta rarefeita nuvem de sonhos que é o ser humano. Infelizmente, não posso dar detalhes que estragariam a surpresas contidas na história.
Fico pensando na relação que o casal de psicanalistas presenteadores pode ter com a história, mas, para discorrer a respeito, também teria que entrar em detalhes indesejados por um futuro leitor. Afinal, o livro pode ser lido também como uma metáfora do entendimento dos personagens-pacientes. Porém, para mim, a obra é sobre o fazer literário.
Mr. Gwyn é entusiasmante. Tanto que desejo conhecer as outras obras traduzidas de Baricco.
P.S. final — Este romance teria vida difícil no Brasil. Se um escritor brasileiro escrevesse um romance passado em Londres, com personagens exclusivamente ingleses, sem referências ao torrão natal, seria considerado “colonizado”, antipatriota e outras besteiras. A crítica politicamente correta tentaria escorraçá-lo das letras nacionais.
P.S. 2 — Ignorem capa da edição brasileira. Fiquem com essas.
Pisando a linha do vulgar, sem jamais ultrapassá-la.
Foi no início dos anos 90. Repentinamente, eu passei a sentir fortes dores. Não conseguia sentar direito, era obrigado a sentar de lado, levantar da cama exigia um esforço de rolamento especial, qualquer caminhada de uma quadra era difícil e ir aos pés era algo indizivelmente desagradável e penoso. O alívio só vinha mesmo se eu ficasse deitado de bruços.
Meu pai logo fez o diagnóstico: era uma crise hemorroidária. Vocês sabiam que por culpa de suas hemorróidas Napoleão ficou impedido de montar em seu cavalo e que, para aliviar as dores, ele teria ficado por horas e horas em posição fetal, ou genupeitoral, perdendo com isso tempo precioso para aplicar sua estratégia militar em Waterloo? Vocês sabiam que essa posição acabou conhecida como “a posição em que Napoleão perdeu a guerra”? Vocês sabiam que tal posição apenas agrava o problema? Pois é. Resolvi marcar uma hora no proctologista. Perguntei a uma amiga médica o nome de um. Ela me disse:
— Vai no Ignácio Mallmann. É muito bom.
Confesso que queria evitar, mas a dor era violenta e persistente.
— Sabe qual é o apelido do Ignácio?
— Não — respondi.
— É tala larga… Ele tem mãos grandes!
Arrã. Engraçadinha. Fui perguntar para minha irmã, que também é médica e ela confirmou que Ignácio era excelente médico.
— Diziam que ele era apaixonado pela M., mas não deu certo.
Eu não estava nada preocupado com a vida sexual do Dr. Ignácio… Ou deveria?
— Ele é muito hábil. O apelido dele é Paganini.
Sempre foi assim, sempre estive cercado de piadistas que não me levam a sério nem quando caminho todo torto, de lado, tentando não movimentar as pernas.
— Ah, é?
— Sim, ele é bom com dedos, além de acromegálico.
— Que interessante!
— Ele tem as mãos, os pés, o nariz e todas as extremidades gigantescas!
Ri de minha adorável irmã e marquei hora com o já lendário Ignácio. Devo ter chegado lá com ar de súplica. Contei para ele a desgraça enquanto media seus dedos. Não eram nada excepcionais e só naquele momento dei-me conta de que deveria ter ido numa doutora tamanho mignon, de delicadas e diminutas mãos. Se fosse um pouquinho inteligente, nunca escolheria um homem. Ele era simpático e eu nem por sonho falaria na sua paixão adolescente por minha amiga M. Imagina se ele pensasse nela durante o exame? Seria empalado.
Depois daquela conversinha que para mim assemelhava-se àqueles acertos que alguns fazem com as putas na janela de seus carros. Entrei no car…, digo, fui para uma salinha auxiliar onde havia uma espécie de poleiro de formato ameaçador. Logo imaginei a posição que ficaria, já a tinha visto no Kama Sutra. Olhei em volta procurando correntes, roupas de látex, chicotes ou algemas, mas era mesmo só o poleiro.
Deveria ter pedido um mordedor, mas nem pensei nisso. Tirei a roupa e fui para o poleiro ouvindo vozes do filme A Vida de Brian.
— Crucifixion?
— Yes, please.
— Good!
Ignácio começou a rir. Eu recém tinha me empoleirado, de pernas abertas, mostrando com toda a clareza o problema para ele. Mas ele estava rindo de pena.
— Nossa, deve estar doendo muito. É aparente e está muito inchada. Dá para ver daqui.
Não sei a quantos metros ele estava de mim, mas achei que, já que era visível a olho nu, podíamos encerrar sem utilizar a luneta. Mas vocês conhecem os médicos. Como eu não estava ali pelo SUS, ele faria o serviço completo. Senti algo. Olha, a coisa doía tanto que não vou negar que a luva úmida e gelada do médico foi até agradável. O local parecia queimar. Ele disse que não era grave. Limpeza local e uns quinze meses de antiinflamatório resolveriam. Não, nada a ver com comida. Era constitucional, ou seja, a culpa era minha. Em três dias eu estaria bem.
Seu discurso era tranquilizador e eu ia pouco a pouco relaxando, entrando no clima. No clima de Waterloo. Olha, conversamos muito. Eu na posição napoleônica, ele na do Duque de Wellington. Mal sabia eu que aquelas eram as preliminares, pois, sem maior aviso, enquanto eu sustentava uma opinião qualquer, ele subitamente pontificou com tudo, ao mesmo tempo que dizia animadamente
— vamos aproveitar para dar uma olhada na tua próstata!
Não lembro se doeu muito ou não, só sei que pensei
— que merda, esse cara está me enrabando!
E acho que pus as mãos no rosto em gesto de absoluto pasmo. Minha honra, meu reto antes inexpugnável! Ele ainda falava, agora dizendo maravilhas de minha próstata, tão pequenininha em comparação a seu dedo. Eu devia ser muito bonito por dentro pois seu entusiasmo era realmente contagiante, se houvesse por ali alguém a fim de contágio. O exame finalizou como finalizamos qualquer ato sexual, com a retirada do dito cujo.
Após a curra, podia vestir-me, mas havia um problema. Eu ficara sem graça, meu rosto deixara de se mexer e a fala tornara-se monocórdica. Passei a responder a tudo sem sorrir, pensando porque diabos M. não curara aquele tarado em seus dias de juventude. Saí de lá direto para meu trabalho na Hewlett Packard. Sentei na minha mesa. Nem sentia mais dor. Ou não me importava mais. Foda-se… quero dizer… Ah, sei lá. Olhei para o lado e disse para meu amigo Dario:
— Porra, Dario, fui enrabado!
Quase vinte anos depois, no ano de 2007, durante a festa de aniversário do Dario, estávamos numa situação em que faríamos qualquer bafômetro acender a luz vermelha a cinquenta metros. E ainda havia aquele narguilé… Bom, o fato é que tínhamos nadado num mar de espumante da melhor qualidade. Repentinamente, o Dario olhou para mim e deu uma trovejante gargalhada. Não sei por quê, adivinhei na hora o motivo. E ele começou a contar para TODOS minha reação ao Dr. Ignácio Mallmann e, pior, confessou que rira alto quando fizera seu primeiro exame de toque retal. Por quê?
Ora, porque lembrara de minha cara ao chegar na HP.
Podemos, todos nós, fazer suposições sobre o que o médico dele pensa de uma pessoa que dá risadas durante o ato, digo, exame, mas não explicito as minhas em respeito a um grande amigo.
Dedicado ao Dario. Abaixo, uma foto muito bonita de seu casamento.
Obs.: Ignácio Mallmann é excelente médico e espero que, se ele vier um dia aqui, perdoe-me a brincadeira. Afinal, o primeiro a gente nunca esquece.
A maioria de meus sete leitores ignora a verdade: …
… esta sabatina coluna só existe por causa dela. (As três primeiras fotos, que na verdade são uma só, são de Robert Doisneau (1912-1994). Há mais duas dele depois. São reconhecíveis.)
Creio que se encontrasse Juliette Binoche aí pela rua, …
… ela nem veria de onde eu surgi.
Não sei se ela demonstrará o mesmo entusiasmo que demonstrou por Daniel Day-Lewis, mas não custa fazer a experiência.
Talvez tais palavras tenham sido suficientes para caracterizar o tamanho de minha admiração. Ou não.
Numa ocasião, um grande amigo pernambucano mandou-me a foto que segue, imensa e AUTOGRAFADA POR ELA.
Linda, não? Então, já tenho o autógrafo. O resto virá com o tempo.
A propósito, tempo é o que não me falta. Afinal, já acumulei 57 anos.
A novidade é que, justo no dia de meu aniversário, bem num 19 de agosto, Juliette dialogou comigo em uma revista, conforme vocês podem ver abaixo.
Prova de nossa incontestável, inda que longínqua, ligação.
(Sinceramente, não sei se alguém nota que às vezes tento ligar texto e fotos. Não notam, né? É que meu trabalho é ruim mesmo.)
Meu futuro affair posou para a Playboy há alguns anos.
Como já tem 51 anos, creio que não fará outro desses “ensaios” e me poupará constrangimentos…
Juliette Binoche nasceu em Paris em 9 de março de 1964.
Extraordinária atriz, tem invejável currículo de filmes.
Parece procurar bons projetos: já filmou com Haneke, Kiarostami, Carax, Kieslowski…
Enfim, tem uma superlista.
Acima, uma foto da atriz durante a leitura da revista Veja e abaixo…
… todas as caras de minha musa. Ao menos em formato bidimensional.
Depois, talvez, eu consiga mais fotos da festa de 5 anos do Sul21. Por enquanto, fiquem com esta reportagem fotográfica de Elena Romanov. Nela, o tietado chargista Carlos Latuff faz um retrato do garçom Maycon, do NB Steak, a pedido do último. A fotógrafa teve rara intuição jornalística ao documentar o quase silencioso encontro.
Foto: Elena RomanovFoto: Elena RomanovFoto: Elena RomanovFoto: Elena Romanov
O homem sem fé não cria. Fé em quê? No que faz.
Iberê Camargo
O prédio da Fundação Iberê Camargo (foto abaixo) está fechado, mas o motivo é nobre: é que está sendo montada a exposição Iberê Camargo: século XXI, que comemora os 100 anos do nascimento do artista. A mostra comemorativa ficará aberta à visitação entre os dias 18 de novembro de 2014 a 29 de março de 2015. (E, portanto, já fechada na data desta publicação. Mas creio que o texto não fica, de modo nenhum, invalidado). Ela foi concebida contemplando os principais temas de suas obras e suas repercussões na produção de artistas brasileiros contemporâneos. Diferenciando-se do formato convencional de exposições comemorativas, em geral um conjunto representativo ordenado cronologicamente, a mostra destaca a poética de Iberê em diálogo com trabalhos de dezenove artistas brasileiros de várias gerações.
Pela primeira vez, todos os espaços do edifício sede da Fundação serão tomados como expositivos. A totalidade do prédio projetado por Álvaro Siza, desde o lado de fora ao interior tortuoso das rampas, passando pelo grande átrio, acolherá obras e conjuntos de obras com afinidades com os grandes eixos tratados pelas várias séries de Iberê Camargo. Séries como “Carretéis”, “Núcleos”, “Fantasmagorias”, “Ciclistas” e “Idiotas” serão apresentadas na companhia de trabalhos de outros artistas. O cinema, que Iberê tanto apreciava, ocupará as rampas que levam de um andar ao outro, como também a literatura, que ele amava a ponto de praticá-la.
Iberê Camargo, nascido em 18 de novembro de 1914, foi um artista sofisticado, dono de uma arte impactante, impaciente, torturada e visceral. A fase mais importante deste gaúcho de Restinga Seca não pode ser menos decorativa e indulgente. Por isso, não deixa de surpreender que, em nossa época, sistematicamente acusada de superficial e de privilegiar o entretenimento — o que também é verdade — , a arte de Iberê tenha alcançado tamanha relevância que chegue ao ponto de sua importância poder ser vista no caminho da Zona Sul de Porto Alegre desta forma:
Fundação Iberê Camargo na Av. Padre Cacique, 2000 em Porto Alegre | Foto: Bernardo Ribeiro
O ensaio de Paulo Venancio Filho, Iberê Camargo, desassossego do mundo, não deixa dúvidas sobre o caráter de Iberê: “Dostoievsquiano, revoltado, angustiado, trágico, sinistro, violento, atormentado pela consciência” foram algumas das expressões utilizadas. Ao menos quando trabalhava ou falava sobre arte, pois o pintor, fora do ambiente artístico, foi sempre descrito como um homem educado e afável.
Poucos dias antes de morrer, em 9 de agosto de 1994, Iberê Camargo, já bastante debilitado pelo câncer, acordou Maria, sua esposa, no meio da madrugada. Pediu a ela que o levasse até o ateliê, pois queria finalizar uma tela. Achava que era a última oportunidade de fazê-lo antes de ser internado. Solidão é o título da obra inacabada. Se o fato demonstra uma postura absolutamente dedicada à arte – “Minha arte e minha vida são a mesma coisa”, dizia – , o título da obra também é muito significativo para quem disse, a respeito da morte: “Sempre fui um caminhante solitário. (…) Não nasci em cacho. Nasci só e morrerei só. (…) Não participo de paradas de sucesso. Não pertenço a grupos. Vivo recolhido. Não me importo em saber de que lado sopra o vento. Sou quem sou, faço o que faço.”, declarou Iberê para Lisette Lagnado no livro Conversações com Iberê Camargo.
Não obstante a dureza destas palavras, os amigos de Iberê lembram que ele exigia a solidão apenas em seu trabalho. De resto, “era generoso, gentil, falante, conciliava a solidão da criação ao convívio tranquilo no dia a dia”. Porém seu humor era de exemplar acidez. Não, não era um otimista. E ficou ainda menos após envolver-se numa tragédia em 1980, quando o homem gentil provou ser apenas um homem controlado.
Iberê estava numa rua do Rio de Janeiro, acompanhado de sua secretária, quando testemunhou em plena rua uma briga violenta entre um casal. Nervoso, o homem ameaçou-o por estar observando interessadamente a cena, empurrou a secretária e depois Iberê. Agredido, o artista – que tinha posse de arma – disparou dois tiros, matando o agressor. Foi absolvido por legítima defesa, porém nunca se recuperou da tragédia. O caso teve grande repercussão e o pintor resolveu voltar a morar em Porto Alegre e, ao mesmo tempo, trazer a figura humana de volta a seus óleos e gravuras.
Com efeito, o caso deixou Iberê abaladíssimo e influenciou de forma cabal sua obra. Como resultado, surgiram quadros de figuras esquálidas, grotescas, torturadas, espectrais e zombeteiras, cheias de angústia. Era como um Goya moderno, dedicado a retratar não os horrores da guerra, mas de seus fantasmas interiores. Do Rio, Iberê retornou a Porto Alegre em 1982, abrindo seu atelier na rua Lopo Gonçalves. Em 1986, foi morar e trabalhar no bairro Nonoai.
A artista plástica Lou Borghetti – que depois foi aluna e assistente de Iberê – conta sobre o primeiro encontro entre ambos, ocorrido justamente em 1980.
Ele estava com uma mostra na Galeria do Centro Comercial Azenha. Naquela época eu não conhecia de perto sua pintura. Passei em frente a galeria e me deparei com uma tela grande, escura e muito dramática. Pensei: não gosto, vou embora. Andei uns metros, voltei. Parei novamente, olhando a tela através do vidro e novamente meus pensamentos eram de como alguém pode pensar algo assim, pintar assim, eu não teria esta tela em minha casa, ou teria? Olhei para dentro da galeria, com pouca gente, num pequeno espaço expositivo bem acolhedor. Entro, não entro, entro, só pra ver a tela sem o vidro e ter certeza de que não gosto. Entrei, pensei, mas quem é esse pintor que de tão forte e corajoso me provoca tanta sensação de desconforto, mas ao mesmo tempo não consigo parar de olhar. Não tive dúvida, perguntei: Quem é o pintor? E um senhor alto, atencioso e muito gentil se aproximou e disse: – Sou eu. – Ah, desculpe, eu posso ser franca? – Claro. – Não gosto da sua pintura, me aflige muito.
E ele, do alto de sua extrema gentileza disse: – Nem eu.
Este diálogo faz eco a um outro, ocorrido no Rio de Janeiro nos anos 40. Logo que chegou ao Rio, Iberê Camargo foi procurar um dos grandes nomes do modernismo, Cândido Portinari. Portinari mostrou-lhe o que tinha em seu ateliê e perguntou se Iberê gostava. A resposta foi outro “Não”. Portinari achou natural: aquele menino ainda precisava se acostumar aos modernistas. Com uma de suas pinturas, Iberê recebeu um prêmio: uma viagem à Europa. Foi lá, entre Roma e Paris, que fortaleceu sua formação. Na Itália, estudou com De Chirico e na França teve aulas com André Lhote.
Voltando ao Brasil em 1950, começou a trilhar um caminho muito pessoal: o dos carretéis que usava como brinquedos durante a infância. Na séries Núcleos, formas de carretéis invadem cada tela com pinceladas densas, camadas pastosas de tinta em tons negros ou azulados. Críticos estrangeiros, ao observarem as obras desse período, tendem a traçar analogias com o expressionismo abstrato de De Kooning e Pollock.
Mas Iberê gostava era dos mestres — dos renascentistas, de Goya, de Rembrandt — e, entre os contemporâneos, preferia associar seu espírito criativo ao de Picasso, pelo desejo de retornar aos clássicos e dar a eles uma roupagem moderna.
– Meu aprendizado não se fez apenas através de cópias de grandes mestres. Embora não tenha – graças a Deus! – cursado uma academia de arte, na juventude frequentei ateliês de mestres, na Europa. O conhecimento, uma sólida cultura plástica como a entendo, jamais poderá sufocar a originalidade de um artista, se ele realmente a tem. Conheci em Paris, um escultor brasileiro, bolsista, que não frequentava museus para não perder a personalidade, esquecendo, talvez, que só se perde o que se tem. Mo Museu do Prado, encontram-se, lado a lado, cópias e originais de mestres: Delacroix après Rubens; après Tiziano.”
De volta a Porto Alegre, começa sua fase mais soturna da carreira. Figuras espectrais e disformes permeiam séries como As Idiotas, Fantasmagorias, Ciclistas e Tudo Te é Falso e Inútil (título inspirado em um verso de Fernando Pessoa). Grande parte dos trabalhos tardios de Iberê está exibida na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. “Além de lamentar os rumos do mundo e voltar-se para os desejos e angústias da humanidade, ele produzia para apalpar a eternidade e dominar o tempo, para continuar conosco por mais tempo”, afirma o escritor Paulo Ribeiro, que conviveu com Iberê nos últimos anos de vida.
Acamado, no hospital, antes de morrer Iberê recebeu a imprensa. Com a mesma fúria presente em telas criadas com verdadeiros nacos de tinta que formam impressionantes relevos, chamou os donos das galerias de arte de débeis mentais, disse que a arte brasileira da década de 90 era feita só de bugigangas. “Ah, e se sair do hospital e quiserem me deixar de mau humor é só me convidarem para um coquetel. Não vou!”.
Abaixo, algumas das principais obras de Iberê Camargo:
Da série As IdiotasDa série CiclistasFantasmagoria IVCarretel 1984FaceO GritoHora XMulher de Chapéu Preto, homenagem a Maria LeontinaCarretel AzulTudo te é falso e inutil IIISolidãoCarretéis – Mário de La ParraPaisagem, 1941 | Foto: Pedro Oswaldo CruzSem título, c. 1941/42 | Foto: Luiz Eduardo Robinson AchuttiMendigos do Parque da Redenção IV, 1987 | Fundação Iberê Camargo: DigitalizaçãoSem título, 1989 | Foto: Fábio Del ReDentro do mato, 1941/1942 | Foto: Fábio Del ReSem título, 1942 | Foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti
Fontes:
— Paulo Venacio Filho, Iberê Camargo, Desassossego do Mundo, Pactual, 2001
— Lisette Lagnado, Conversações com Iberê Camargo, Iluminuras, 1994
— Jonas Lopes, artigo A arte como expressão da vida de Iberê Camargo.
— Blog pessoal de Lou Borghetti – http://louborghetti.blogspot.com.br/
A Brasiliana Fotográfica identificou a presença de Machado de Assis na fotografia da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O autor da foto foi Antonio Luiz Ferreira.
A identificação de Machado de Assis foi confirmada por Eduardo Assis Duarte, doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (USP) e professor da Faculdade de Letras da UFMG. Segundo ele, Machado de Assis teve uma “atitude mais ou menos esquiva na hora da foto, em que praticamente só o rosto aparece, dando a impressão de que procurou se esconder, mas sem conseguir realizar sua intenção totalmente. Atitude esta plenamente coerente com o jeito tímido que sempre adotou em público, uma vez que dependia do emprego público para viver e eram muitas as perseguições políticas aos que defendiam abertamente o fim da escravidão.”
Ali, à direita, meio escondido atrás do senhor de barba branca
A atuação do Inter foi abaixo da linha de pobreza futebolística, foi inaceitável. Tivemos sorte, Aguirre. O 1 x 0 foi injusto. As bolas deles beijaram duas vezes nosso travessão, uma vez nosso poste e houve incríveis gols perdidos. Aquele lateral-esquerdo Mosquera poderia ter saído consagrado de campo. O cara engoliu Sasha e ainda Alan Costa, com que quem dividia — e ganhava — bolas em nossa área, fez o gol e perdeu mais dois. Sei, também desperdiçamos uma chance com Nilmar, mas só por milagre aquele segundo tempo não acabou uns 3 x 0 para o Santa Fe. Apesar da sorte, eles nos colocaram da frente para a porta de saída da Libertadores. Um pequeno empurrão no Beira-Rio e caímos fora do ônibus.
Agora, precisamos vencer por dois gols de diferença. Um 1 x 0 levará a decisão para os pênaltis.
Era previsível que acontecesse e aconteceu: depois de uma semana de estrela em que disse que pretende marcar 25 mil gols em sua carreira, Valdívia entrou em campo como o craque que ainda não é. O que dizer daquele lance no primeiro tempo em que ele não quis deixar o Sasha cara a cara com goleiro para tentar um chute por cobertura, de longe? Uma completa idiotice. O guri pensa que é o Romário? E, céus, o Sasha? Esteve em campo?
Os colombianos são muito bons. Fisicamente fortes, marcam e jogam muito. Omar Pérez é o centro do time e dele saem bons passes. Por falar em passes, nada explica os erros de Valdívia, Sasha e até de Lisandro López, que erravam passes laterais para jogadores livres. Como não tínhamos contra-ataques, é obvio que o Santa Fe, que não é trouxa, realizou um massacre no segundo tempo. Para piorar, Aguirre, tu erraste ao recuar demais o time, inclusive colocando Réver no lugar de Lisandro no final do jogo. Marcelo Bielsa ensinou e tu deves ter lido: o time que abdica de jogar com a bola, multiplica o número de bolas que o adversário terá. Assim, todo rebote, toda iniciativa era deles. E pior, eles tinham qualidade para entrar na nossa área a todo momento. Ficamos acuados, à mercê.
Agora, teremos um filme de terror na próxima quarta-feira. O Santa Fe vai tentar deixar o tempo passar e nós estaremos apressados, querendo fazer logo dois gols. Espero que o susto de Bogotá faça com que alguns jogadores acordem de seus sonhos de grandezae voltem a produzir. Qualquer coisa parecida com o futebol apresentado ontem no El Campí, significará o adeus à Libertadores 2015. Sorte aí, Aguirre.
Certa vez, entrevistei o Zé Victor Castiel e ele me disse que uma das piores coisas que pode acontecer a um espetáculo teatral, em Porto Alegre, é competir com jogos da Libertadores. As pessoas simplesmente somem. A mulher não vai porque o marido quer ver o jogo ou o contrário. A namorada vai acompanhar seu rapaz no bar a fim de assistir a partida. Os gremistas roem as unhas, pedindo aos deuses do futebol que o Inter seja derrotado ou vice-versa. E não saem de casa. Os cinemas e teatros, assim como os restaurantes em que não são mostrados os jogos, ficam desertos. Naquele horário, quem caminha pelas ruas trabalha ou estuda. O dia é ideal para marcar um blind date e não ser visto. Como ficam os motéis? Sei lá, mas acho que é um bom dia, mesmo estejam vendo o jogo na portaria. Os casados que mentiram ver o jogo e foram a um motel também devem ficar de olho para poderem comentá-lo em casa quando chegarem. Só saber o resultado, hoje, não basta.
Sabe o que atrapalha muito o teatro? O calendário do futebol. Temos que pegar a tabela da Libertadores da América e do Brasileiro e fugir daquelas datas e horários. Houve uma vez em que o Grêmio estava nas semifinais da Libertadores e jogaria numa quarta-feira. Nós tínhamos uma apresentação no Bourbon Country na terça e na quarta. Terça tivemos a casa lotada e na quarta, nada. Tabela de futebol é uma coisa que influencia muito. Temos que ficar de olho nela.
Zé Victor Castiel
Perdendo o foco no trabalho | Imagem: Corneta Colorada
A coisa é tão absorvente que a gente, lá pelo meio da tarde, já vai perdendo o foco no trabalho. Começa a pensar em como será o jogo e, tão importante quanto, no que precisa fazer para ver tudo com conforto. Fui ao supermercado antes da partida contra o Atlético-MG em Belo Horizonte. Um monte de gente comprava cervejas e um idoso, de certamente mais de 80 anos, estava extasiado na fila do caixa, bem na minha frente, contando que seus netos iam ver o jogo na sua casa e que estava comprando aquelas Stellas para eles, todos colorados.
Quem fica de fora não entende. Assim como eu não entendo os religiosos, quem não acompanha futebol deve ficar achando o mundo muito idiota. E somos mesmo um bando de imbecis. Mas nos divertimos.
Ontem à noite, no viaduto para pedestres do Parcão, surgiu uma faixa desesperada, feita por gremistas ou por um colorado muito debochado. Pedia que parassem de falar em imortalidade e contratassem alguém como D`Alessandro, o argentino que tornou-se símbolo do Inter. Eles querem voltar ao protagonismo. Conheço isso de ficar torcendo para um time diferente a cada semana. É mesmo chato. Melhor torcer para o nosso.
Hoje a Elena está de aniversário. Cioran disse que a arte de amar — é meu caso em relação a ela — é saber unir o temperamento de um vampiro à discrição de uma anêmona. Hum… É verdade. Neste belo tempo em que estamos juntos a gente fez e cumpriu planos, ficou doente e se recuperou, rimos tanto de nós e dos outros que deveria ser proibido agir tão bobamente assim, fizemos tantos passeios juntos que talvez já tenhamos ido a pé a Bielorrússia, entendemos na prática que só se é feliz dentro da liberdade e fizemos tantas declarações de amor um para o outro que fomos muito, mas muito ridículos. E Cioran, é claro, tem toda a razão, porque faz parte.
Só que me perdi. É ela que está de aniversário, não nós! Milton burro.
Feliz aniversário, Elena. Te desejo muitas alegrias e disposição para me aguentar neste novo ano que se abre. Acho que estaremos juntos por muitos deles, sempre como amadores.
Teu Inter, Aguirre, acredita no rumo traçado pela comissão técnica e o resto — Wianey e que tais — deve permanecer como ruído de fundo. Ontem, fizemos um paupérrimo jogo contra o Avaí, mas vencemos e isso é fundamental para que o ruído não alcance o time titular, empenhado na Libertadores. Jogamos muito mal, corremos riscos de perder, só que a boa e velha lei da boa pontaria falou mais alto e, pimba!, gol de Vitinho. E mais nada.
O Grêmio também protege a estratégia colorada das críticas. Afinal, se em duas rodadas está atrás de nós na classificação, o que dizer dos queridinhos da RBS? Alerto que, com o time 100% reserva, o Inter está em 12º lugar no Brasileiro, enquanto que o Grêmio, com o time 100% titular, está em 18º.
Mas, cá entre nós, Aguirre, livre-se de Alan Ruschel anteontem, de Léo ontem, e de Luque (com Rafael Moura) hoje à tarde, por favor. Vitinho e Paulão ficam em observação, mas os 3 citados acima podem ir para o moedor de carne imediatamente.
Ontem (17), fui ver o concerto da Orquestra de Câmara da Ulbra no Leopoldina Juvenil, com regência de Tiago Flores. O programa foi o que segue:
Haendel (1685 – 1759): Concerto Grosso op. 6 n° 2 Sammartini (1695 – 1750): Concerto in F major (Solista: Rodrigo Calveyra) Vivaldi (1678 – 1741): Concerto per flautino in Sol M – RV 443 (Solista: Rodrigo Calveyra) Haendel (1685 – 1759): Concerto Grosso op.6 N° 10
O concerto iniciou bem complicado. O Concerto Grosso, Op. 6, Nº 2, de Handel, foi levado com mão pesada pelas cordas da orquestra e só a cabeleira do maestro Tiago Flores me causava algum prazer. Ela medrou vicejante no último verão e está efetivamente magnífica! Porém, os bonitos jogos entre os dois primeiros violinistas cresceram um tanto opacos, nada barrocos. Não creio que a culpa seja de nosso Tiago Flores, mas da cintura dura de alguns músicos.
Quando veio o Concerto em Fá Maior para Flauta de Sammartini, notou-se claramente que quem tinha espírito efetivamente barroco eram o extraordinário solista Rodrigo Calveyra e o violoncelista Alexandre Diel. Eles tinham a leveza e a sutileza; os outros, a força. É uma questão de adaptação. Muitos não conseguem. O violinista Emmanuele Baldini, por exemplo, faz Mendelssohn ou Tartini com senso de estilo e sotaque, adequando-os aos autores. (Sei de um cara que fala mais de cinco sotaques do interior gaúcho. Eu só sei fazer o meu e dos “magro do Bonfa” dos anos 70 e 80). Enquanto isso, Calveyra é um sujeito que respira música antiga, não sendo necessária a adaptação à qual a orquestra deveria dobrar-se. Já Diel, que eu pouco conhecia, surpreendeu com leveza e baixo contínuo consistentes.
O negócio era ficar com o solista e seu escudeiro Diel. O Concerto para Flautino em Dó Maior — não está errado no programa? — estava espetacular pelo largo espaço que Vivaldi deu ao solista acompanhado pelo baixo contínuo.
Rodrigo Calveyra é um caso à parte. Ele foi o motivo de eu ter ido ao Leopoldina. É um flautista que dá notável dimensão artística e expressiva a seu instrumento. Apaixonado pelo que faz, gosta espalhar conhecimento contando histórias e dando explicações sobre músicas e instrumentos. Tal generosidade também ocorre quando toca. Ele se coloca inteiramente a serviço de ideias e estilos musicais. Seu Vivaldi de ontem teve o exato virtuosismo e estilo exigidos pela obra. O seu bis, do barroco holandês, já foi inteiramente diferente. Nada da alegria vivaldiana, mas sim a vetustez de um barroco mais longínquo. Trata-se de um músico de extrema sensibilidade e sofisticação.
Não assisti o solo de batuta final no Concerto Grosso, Op. 6, Nº 10 de Handel. Preferi ouvir o jogo do Inter, que estava em seus 15 minutos finais.
O dia de ontem foi excelente. Eu e a Elena fomos ao Margs — a exposição das ‘últimas aquisições’ é muito legal –, tivemos um breve encontro com os queridos Bruno Alencastro e Ramiro Furquim, depois uma ida ao café do Santander, outra às exposições da CCMQ — todas elas lastimáveis –, jantamos num bom restaurante da Andradas (Buteko sei-lá-o-que), entramos no cinema para ver o ótimo O Sal da Terra e finalizamos com um suco misto na Lancheria do Parque. Para terminar, quando cheguei em casa, fiquei sabendo de Coritiba 2 x 0 Grêmio. Perfeito, apesar de que o Bruno e o Ramiro não devem ter gostado…
O ponto alto da exposição do Margs foi a Porca Noiva, de Evenir Comerlato. A primeira foto é ruim, mas depois dá para ver a qualidade e o dantesco da obra. Como em Esopo, em cujos escritos os animais falam e têm características humanas, aqui a porca vai se casar. E está toda esperançosa com seu véu. Mas há um detalhe, a aliança não cabe em sua pata de porca, o que dá espaço para pensarmos que a artista acha que tais animais não sejam adequados a um casório. Também veste preto, como aquela noiva de Truffaut que depois matava seus maridos. Outra interpretação possível é a de ver muito ódio ou desistência, pois, se observarmos bem a pata direita da porca, veremos mal disfarçados dedos humanos, o que talvez mostre que a porca é um ser humano. A aliança também vai nessa direção, não? E as unhas, das quais as noivas tanto cuidam?
Além dos filmes que citei, ficaram em minha memória suas maravilhosas participações em Uma História Simples, de Claude Sautet e em Um Homem, uma Mulher, uma Noite (Claire de Femme), de Costa-Gavras.
Meu pai não tinha razão em tudo, mas tinha sobre Romy Schneider. Muita mulher e muita atriz para pouca sorte.
Que jogo, Aguirre! Cada vez que o Atlético-MG vinha, calafrios contrafeitos percorriam minhas costas do cóccix aos primeiros pelos do pescoço. E tu reagiste valentemente aos rasantes que os mineiros nos davam repetidamente e que abalavam as estruturas do bergamotão. Imagino que, em condições normais, ninguém é sufocado sem se debater desesperadamente. E tu te retorceste, jogando pernas e braços para todos os lados a fim de fazer o Atlético parar. Primeiro, colocaste Jorge Henrique para marcar Patric, que penetrava como uma faca quente na manteiga do lado esquerdo de nossa defesa. Não deu certo. Então tiraste o baixinho, colocando o volante Nico Freitas. Melhorou pouca coisa. Depois, inverteste os laterais. Passamos a respirar. E acabamos com a sangria trocando, imaginem, D`Alessandro por Réver.
Mais tinha os outros todos. Então, gostaria de elogiar um cara do qual ninguém fala. Ele é velho, discreto e faz tudo com tamanha naturalidade que até os pênaltis que comete não são marcados. Os juízes observam, duvidam do que veem e deixam pra lá. Ontem, ele fez um desses. Aos 36 anos, Juan deixa Alan Costa e Ernando não apenas mais bonitos, mas cheios de garbo e compostura. Ele engana também os atacantes. Lento, faz-se de rápido ao usar atalhos desconhecidos para chegar nas bolas. Contra o Atlético-MG cumpriu uma partida sem falhas, sendo uma ilha de segurança em meio à balbúrdia.
Valdívia faz Victor voltar correndo para o gol | SC Internacional / Alexandre Lops
Fui no jogo com o Diego Dutra, zelador do prédio onde moro. Somos uma dupla invicta. Quando saímos do T5, perguntei-lhe quanto seria o jogo. No Sul21, tinham dito que seria 2 x 1, 1 x 1 ou 2 x 0, sempre com o Inter classificado, mas o Diego disse que seria 3 x 1. Acertou. Só que, certamente, não previu do tamanho do sofrimento para um placar tão dilatado. É que nosso aproveitamento foi — tem sido sempre– muito alto. E não adianta dizer que o Atlético teve mais posse de bola e muitas chances. Tu, Aguirre, gostas de dar campo ao adversário. O que Levir e os jornalistas mineiros tiveram que entender é que faz parte do “jogar bem” converter as chances em gols. E isso nós fizemos de forma e beleza alucinantes. Até no gol de Lisandro López, o mais acanhado de todos, tivemos uma conclusão sensacional, com o argentino mandando Victor para um lado, chutando no outro. Ou seja, somos um time complicado como era aquele teu Peñarol, Aguirre, que nos matou no Beira-Rio em dois contra-ataques. Até hoje fico puto quando penso naquele jogo.
E D`Alessandro, que fez o seu sétimo gol em Victor? E não foi qualquer gol. Ele girou sobre Thiago Ribeiro e Douglas Costa mandando um chute em curva, no ângulo, uma coisa de grandiosidade e exatidão como só os grandes algozes conseguem. Foi um golpe só, definitivo, indolor, sem piedade. Ocorreu ao final do primeiro tempo, antes que o Galo voltasse a dar as cartas no início do segundo, período de maior terror para a arquibancada colorada, quando levamos um banho de bola sem acertar contra-ataque nenhum.
No T5 da volta, a sensação geral era a de que podemos ser campeões novamente. Talvez o cruzamento com o Santa Fe não nos obrigue a parir outro bebê de 25 Kg. O Marco Weissheimer, atento e caseiro torcedor colorado, me escreveu dizendo que o ataque do Santa Fe é bom, mas a defesa é fraquinha. E terminou citando o inesperado complemento de nossa felicidade de noite de ontem. “A cereja no pudim ontem foi mesmo a eliminação do Corinthians pelo Grêmio Bagé”. Verdade.
No início do ano 2000, minha Elena foi visitar seus familiares em Israel. Entre um passeio e outro, foi aos grandes mosteiros russos erguidos no Monte das Oliveiras. Os prédios são belíssimos. Um deles, o da foto acima, foi construído em 1886 pelos Romanov, a mandado do czar do antigo Império Russo Alexandre II, em homenagem a sua mãe, a imperatriz Maria Alexandrovna. Sim, os prédios foram pagos pelos russos de então.
Não se enganem, esta torre é enorme.
O outro mosteiro ortodoxo, o da foto ao lado, é de 1870, é imenso e tem até uma fábrica de azeite de oliva em seus 5,4 hectares. O Monte das Oliveiras tem três picos dispostos no sentido de norte-sul. É um local sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos.
Após visitar detalhadamente os mosteiros, por interesse histórico e por ser cristã ortodoxa, a querida Elena, namorada deste ateu que vos escreve, caminhou para a região católica do Monte, entre suas árvores milenares. Foi quando deu-se conta de que estava no Jardim de Getsêmani, ao lado das famosas oliveiras sob as quais Judas deu o beijo fatal em Jesus. Para quem não sabe, um beijo foi a forma escolhida por Judas Iscariotes para identificar Jesus aos soldados que vieram prendê-lo. A combinação era de que Judas beijaria o homem que deveria ser preso. Tal traição a Jesus ocorreu exatamente no Getsêmani, debaixo das oliveiras, após a Última Ceia. E o ósculo levou Jesus à prisão pela força policial do Sinédrio (assembleia de 70 juízes que a lei judaica ordenava existir em cada cidade). Tal fato criou a expressão “Beijo de Judas”.
A azeitona de Judas após 15 anos, sobre um livro de Dostoiévski | Foto: Elena Romanov
Elena viu uma azeitona seca no chão e levou-a como um troféu de peregrinação (ao lado, a coitada da azeitona). Neste mês, num espaço de sete dias — mais bíblico ainda –, aconteceram dois casamentos diferentes de pessoas conhecidas. Por mera coincidência, havia pessoas de igual sobrenome. Minha Elena é cheia de superstições e me veio com esta história de azeitonas, achando que era um bom sinal e “que devemos abençoar, de coração puro, estas uniões”. Estamos livres para o que der e vier.
Ela gosta de azeitonas, eu detesto.
(Há um pacto. Quando formos a Israel, ela vai sozinha a estes lugares santos — apesar de que aquela coisa toda é chamada de Terra Santa… Tô ralado).