Sempre no intuito de informar a nossos sete leitores a respeito dos estranhos caminhos pelos quais a vida nos leva, hoje explicaremos como deve ser realizada a saída de Repente para Kagar. O mapa abaixo, da região do Rheinsberg, Alemanha, foi retirado do Google Earth com a finalidade de dar maior clareza a nossa explicação. Ele demonstra como se faz, tornando desnecessário o excesso de palavras.
Gostaríamos de alertar sobre o perigo da pressa. Não vá um de nossos leitores cair no Kagarsee, perigosíssimo lago que, se tem poder potencial de aliviar o viajante, não é apropriado para o banho.
O percurso a pé para Kagar, saindo de Repente, é extremamente aprazível e demora quase duas horas e meia, como informa o Google Earth.
Então, talvez seja mais adequado aos idosos e apressados fazê-lo de carro em 20 minutos.
Este é mais um serviço que este blog traz a seus sete resistentes e insistentes leitores. Obrigado pela atenta leitura.
Robert Altman fez dezenas de filmes, alguns muito bons, outros lastimáveis. Como a maioria das pessoas, tenho grande admiração por suas histórias polifônicas como Short Cuts, Nashville, O Jogador, O Casamento, etc., mas meus preferidos são aquelas obras que ficaram perdidas lá nos anos 70, Como McCabe & Mrs. Miller (Onde os homens são homens), Brewster McCloud (Voar é com os pássaros) e Três Mulheres.
McCabe & Mrs. Miller é um falso western. Dentro de uma narrativa melancólica, Warren Beatty é um fanfarrão covarde e sonhador, que chega a um remoto lugarejo do oeste americano com a finalidade de montar o primeiro puteiro da comunidade. Mrs. Miller, vivada por uma lindíssima Julie Christie, é a cafetina que vai recrutar moças e garantir pelo gabarito do salão… Como era de se esperar, o local torna-se um sucesso, chamando a atenção de forasteiros que desejam adquirir a casa. Beatty não se dá conta de que a violência é habitual de naquele povoado onde não se dá muita importância a seu charme e carisma. Quando vi No country for old man (Onde os fracos não têm vez), dos irmãos Coen, logo pensei numa longínqua inspiração neste “western” de Altman. Acredito ter razão.
É o mais úmido e barrento dos filmes. Há uma névoa sobre todas as tomadas externas. É como se aquele não fosse um bom lugar para alguém que tão narcisista, cheio de si e “civilizado” como o personagem de Beatty. A trilha sonora de Leonard Cohen sublinha notavelmente o ambiente.
Praga tem monumentos estranhos. Há o Edifício Dançante.
Foto: Milton Ribeiro
Na frente do Museu Kafka, tem também aquele cara mijão que gira o púbis, regando tudo em torno de si.
O púbis do cara gira, esguichando | Foto: Milton RibeiroO autor do blog observa. A escultura encontra-se na frente de um locais mais visitados da cidade, o Museu Kafka | Foto: Bárbara Ribeiro
E a belíssima cidade vai empilhando atrações clássicas com outras nem tanto.
Recentemente, a capital da República Checa, recebeu uma escultura de bronze de uma menina sem calcinha. Mas não é só isso: ela está agachada, com o rosto sobre a perna de um homem, sugerindo ter feito ou estar prestes a praticar felação (ou um “boquete”, para usar o termo mais comum). A escultura causou escândalo, como era de se esperar.
Oficialmente, a escultura recebeu o nome de “Morsa”, mas os habitantes da cidade a chamam de forma unânime de “Monumento às Prostitutas”. Originalmente, a escultura, que é de autor anônimo, ficaria no bairro Dvorak, conhecido por sua abundância de bordéis. Mas os habitantes locais não quiseram ver o bairro ainda mais estigmatizado e opuseram-se à obra.
Por incrível que pareça a escultura acabou em uma tranquila área residencial. E tornou-se imediatamente atração turística. É considerado um bom presságio ir até ela e esfregar o dedo no clitóris da moça. Criou-se a fama de que as mulheres que assim o fizerem atingirão mais e melhores orgasmos, assim como os homens… Não conferimos o veracidade do fato.
Vamos começar pela questão antropológica? Uma coisa de fundo comportamental me saltou aos olhos no litoral catarinense. Havia muita gente participando de jogos na beira da praia. Havia os clássicos futebol, frescobol e vôlei — masculinos, femininos e mistos –, mas havia outros jogos sendo jogados: tênis, uma espécie de bocha com discos de madeira, frisby. E famílias inteiras participavam ativamente, com alegria e gritos. (Notei que a modernidade tornou muitas mulheres e mães boas jogadoras de futebol!). Por outro lado, existiam grupos que sentavam em torno de guarda-sóis, barracas e caixas de cerveja ou até de som. Como eu e Elena estávamos inseridos num outro grupo, o dos caminhantes, pudemos observar com clareza. Quando nós nos aproximávamos dos animados jogadores, estes eram em 95% hispano-americanos, quando nos aproximávamos dos guarda-sóis, a esmagadora maioria falava português e quando lamentávamos estar próximos aos grupos bêbados e/ou com som, eles eram 100% brasileiros.
Fiz a observação para a Elena em nosso último dia. E resolvi fotografar…. Só que o último dia foi triste e chuvoso e só pude fotografar à noite com a praia semi-deserta. As fotos ficaram uma porcaria. Fazer o quê?
Não vou criar uma tese, mas me identifiquei muito mais com os grupos de argentinos, uruguaios e paraguaios. Sempre brinquei ativamente com meus filhos. Gostava muito de fazê-lo. Acho que a atitude de crianças lá e pais aqui fala muito mal de nossa sociedade. Isso sem falar na bovina e pouco saudável postura brasileira. Olhava meio irritado para meus indiferentes conterrâneos… Ah, repito que as mulheres não apenas estão jogando muito como é bonito observá-las em suas evoluções com a pelota!
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Para finalizar, digo que foram férias maravilhosas. Queríamos um lugar tranquilo, próximo da praia e que tivesse ar condicionado para poder estabelecer nossa rotina: caminhada (Elena) e corrida (eu) na praia antes das 10h, café na pousada, parte quente do dia escondidos no quarto com o ar ligado e uma grande saída para o banho de mar a partir das 17h. À noite, jantar. Ficamos 16 dias e a Pousada Narinarisuperou nossos requisitos, pois o café era tão bom que nunca sentimos falta de almoço. Ademais, o quarto era amplo, bonito e com varanda. E tudo funciona bem, incluindo o wifi e a hidromassagem. Parece propaganda, mas é gratidão mesmo. Precisávamos de uns dias assim, plenos de vida besta.
Pudemos ler, namorar e virar o jogo, fazendo com que cansaço e o estresse recuasse a ponto de ficar irreconhecível. Além disso, tivemos dois prazerosos encontros: Um com Luiz Blasi e outro com Henrique Bente. Shakespeare tem uma peça, da qual só conheço o nome, chamada Bem está o que bem termina ou Tudo está bem quando acaba bem (no original All’s Well That Ends Well). Mas, bem, pois é, o titulo da peça não se aplica. No nosso caso, começamos bem, passamos excelentes dias e estamos muito bem neste último dia de férias.
Para finalizar, digo que, se a Elena já tinha provado ser a melhor das companheiras de viagem quando fomos para a Europa no ano passado, tal evidência apenas foi reforçada neste verão. Mas tenho certeza de que isso só funciona COMIGO. 🙂
A primeira das fotos ruins e sem som. Esses aí são argentinos.Adivinhem! Todos os da foto falam espanhol.Mais um notívago grupo hispano hablante na praia de BombasEssa foto entrou pelo estranho formato da nuvem, que protestava contra nossa partida
Bolívar esteve presente nas duas Copas Libertadores da América vencidas pelo Inter, em 2006 e 2010. Até marcou o gol da vitória na virada contra o Chivas Guadalajara no primeiro jogo da final de 2010, após passe de cabeça de Índio. Esteve no Inter entre 2003 (era lateral direito) e 2006. Retornou em 2008, ficando até 2012. Creio que Abel tornou-o zagueiro lá por 2005. E Bolívar foi um grande zagueiro, um grande vencedor, mas fez duas temporadas lamentáveis em 2011 e 2012, tendo sido negociado com o Botafogo no início de 2013, onde não foi muito mais feliz, tanto que em 2014 participou do time que caiu para a segunda divisão. No Inter, conquistou tanta coisa que ninguém tinha peito de deixá-lo na reserva, apesar das más atuações.
Eu fui um dos que mais criticaram Bolívar ao final de sua segunda passagem no Inter. Mas hoje acho que a torcida colorada deve lembrar não de seus últimos tempos no Inter e sim como aquele zagueiro veloz e vigoroso que dava botes exatos e que sabia sair jogando. Por muito tempo foi capitão do nosso time.
Hoje, Bolívar reaparecerá no Beira-Rio jogando pelo Novo Hamburgo. Tem 34 anos, uma de enorme saldo positivo e a vida certamente feita. Não estarei no estádio às 17h. Espero que a torcida colorada o aplauda muito. Chega de queimar ídolos.
A vida não é mole e, sem amigos, amor e cultura, a coisa não vai mesmo.
Pulo o penúltimo dia — um dia chuvoso em Bombinhas e ao qual devo voltar logo depois num resumão das férias — para ir ao frutífero e mais prazeroso dia final. Tínhamos 12h em Florianópolis e desejávamos fazê-las as melhores. Para conseguirmos, pedimos sugestões a um facefriend da Elena que mora na cidade: o médico, pianista e ciclista gaúcho Henrique Bente. Pedi amizade a ele a fim de conversarmos os três juntos no bate-papo e qual não foi minha surpresa ao saber que ele era um dos sete leitores deste blog e usuário do PQP Bach. Anos atrás, tinha inclusive enviado colaborações musicais ao blog que poliniza a beleza musical pelo mundo. OK, exagerei, mas deixa.
A empatia foi instantânea. Sob os olhares compreensivos de Obama e de Zuckerberg, tivemos um diálogo muito animado e interessante. O Henrique, como conhecedor de nossos interesses, foi cirúrgico ao nos indicar dois locais quase contíguos e perfeitos para quem não iria às praias da ilha: o Café François e o Paradigma Cine Arte. Nossos banhos em Bombinhas foram sensacionais, inesquecíveis mesmo, mas é claro que estávamos saudosos de um bom filme e de um café. Como ele sabia? Então chegamos à cidade e fomos direto para lá. No Paradigma, vimos o bom argentino O Crítico e o esplêndido canadense Mommy, entremeando as sessões com visitas à sublime — sem exagero — boulangerie.
Depois do trabalho, lá pelas 19h, o Henrique veio até nós. Não o conhecíamos pessoalmente. Meio tímido, filho de um casal que mistura sangues japonês e alemão, o Henrique chegou primeiramente desfazendo a impressão inicial. Fez uma reverência oriental e beijou a mão da Elena. Mas logo a impressão retornou. Mais ouvinte do que falante, observador, gentil, inteligente e reflexivo, deixou-nos encantados. Falamos e contamos piadas como velhos amigos. Saímos do François e passeamos por Santo Antônio de Lisboa, acabando no Restaurante Chico.
Por esta razão escrevi “dia frutífero”. Fizemos mais um amigo. Na saída, ainda soubemos que ele tinha pendente uma diária de carro alugado e que decidira utilizá-la conosco. Não adianta, tenho (temos, Elena) muita sorte. É certo que vamos nos reencontrar.
Por isso que a categoria que fala dos amigos, neste blog, chama-se “Amigos, tudo”.
Este é o tiramisu da Boulangerie François de Florianópolis devorado antes de assistir Mommy. Não é apenas bonito.Antes do cinema, a Elena Romanov come um divino pão de centeio com geleia.Meu croissant de goiabada com minas.O baguete de pastrame montado para a Elena.Elena Romanov, indócil no partidor.Mas por que não come?Henrique Bente demonstrou sobejamente ser um hábil abridor — e um voraz comedor — de ostras.Quem pagou por isso?Henrique Bente e Elena Romanov apresentam seus troféus a meus sete leitores.Elena Romanov e Milton Ribeiro em momento visigodo.Henrique Bente, Elena Romanov e Milton Ribeiro, todos imitando a corujinha querida ao centro.
Peço desculpas ao site Cozinha Brasileira pelo uso da foto
Sigo recebendo comentários agressivos no blog. Faz mais de um ano. São anônimos e frequentes. Só por isso, meus 7 fiéis leitores são obrigados a conviverem com a moderação de comentários.
Hoje, perguntaram sobre quem teria pago as ostras que comi — você ou ela? E me chamaram de “blogueiro chupim”, seja lá o que isso signifique.
Que tipo de pessoa vasculharia meu blog atrás de indícios de riqueza ou de sacanagem? Comer (e pagar) por ostras é bem inofensivo e viável, não?
Anônimo ou anônima, vai comer massa quatro queijos ou dividir francesinhas! Por favor, me esquece!
Nossas explorações gastronômicas nos levaram a lugares bem interessantes aqui em Bombinhas. Como campeão, podemos deixar empatados os restaurantes Olímpio — simples e boníssimo — e o Berro d`Água — mais chique e também excelente — lá da praia de Zimbros. Num muito honroso segundo lugar, deixamos o César, onde fomos anteontem comer ostras e o café de nossa pousada, onde o raio gourmetizador atingiu apenas a qualidade do que é servido. Os outros a gente não cita. Bem, deixemos a Casa da Lagosta com o terceiro lugar. Lá é muito bom também. Ah, a moleza das férias!
(Por falar em Raio Gourmetizador… Não será ele um filho do Raio da Vida utilizado por Bulgákov em Os Ovos Fatais, que por sua vez é filho do Raio da Morte com que a parte da população de Kiev tentou afastar os bolcheviques há quase 100 anos?)
E manhã, quinta-feira, o “simpático casal do cinza (*)”, que é como soubemos que os funcionários da Pousada Narinari nos chamam, começa seu retorno para Porto Alegre, não sem antes dar uma passada pelo Café François e Paradigma Cine Arte de Florianópolis, onde talvez também conheçamos pessoalmente um amigo.
Abaixo umas fotos tiradas no Restaurante César.
As ostras do César, devoradas em 2 de fevereiro em homenagem aos aniversários de Jascha Heifetz e James Joyce.Agora prontas para comer, com o limão e o molhoO talharim com frutos do mar que perdeu para o do Berro d`ÁguaAs mãos de Elena e sua cerveja sem álcoolEm outro ânguloDentro do quarto cinza (a Elena gosta de fotos fora de foco…)
(*) Na Narinari, os quartos são chamados por cores, não por números.
Ontem foi um dia perfeito. Sono esticado pela manhã; mar calmo, limpo e lindo, permitindo o namoro dos casais entre ondas que se sucediam como carícias; depois, um belo jantar em nossa varanda, seguido de longo passeio. Um dia amoroso. Tudo isso para comemorar nosso um ano e cinco meses de namoro. Pois, sim, comemoramos mensalmente, ora.
Em meio a isso, numa navegada pela internet, uma tia da Elena postou numa espécie de facebook russo uma série de gravuras do escocês Jack Vettriano, que tem como pano de fundo o mar. Isso justo quando estamos no litoral tirando fotos profundamente amadoras como as de anteontem, com a Elena e eu à beira d`água.
Abaixo, duas imagens de Vettriano e nossas fotos fora de foco, já um pouco tristes porque vamos embora na quinta-feira e aqui estava — puxa, e ainda está — muito bom.
Abaixo, ontem à noite, eu bebia uma Baden Baden Golden, enquanto a Elena por companheirismo, bebia cerveja sem álcool só para me acompanhar. E sem vodka, amigos.
Depois as fotos fora de foco, mas das quais gosto muito. É claro que a última foto é uma brincadeira, creiam, mas que revela uma tendência de 2015.
Esta peça de teatro de Sorókin foi vendida, até na contracapa, como se pudesse ser lida como um romance ou novela. OK, romances e novelas são mais populares do que peças por escrito — e só isso justifica tal tentativa de tornar Dostoiévski-trip uma especie de transgênero, pois trata-se claramente de uma boa peça teatral.
Bem e se o resultado da obra é sério, a ideia inicial é cômica. Sete pessoas estão em local não identificado aguardando um traficante que lhes trará drogas que atendem pelos nomes de Céline, Tolstói, Genet, Sartre, Faulkner, Nabokov, etc. Todas estas drogas podem ser diluídas em autores menores, de forma a reduzir seus efeitos. Naquele dia, o traficante trará uma novidade: Dostoiévski.
O grupo ingere a droga e subitamente cai dentro de uma cena capital de O Idiota (quem leu o livro provavelmente lembra de todas as loucuras cometidas, principalmente por Rogójin e Nastácia Fillíppovna, na cena). Logo, o diálogo dos personagens dostoiévskianos muda para uma linguagem contemporânea e depois os personagens de Dostô são substituídos pelo grupo inicial.
Não sei, mas eu não gostei muito das simetrias que a peça apresenta nesta última fase. A leitura de uma obra teatral é muito diferente de estar na plateia de um teatro. No palco, certamente a engenharia da obra não se tornaria tão clara, coisa que acontece na leitura, quando temos mais tempo para refletir sobre o que virá a seguir.
Mas vale a leitura devido a todas as originalidades do enredo. E, com efeito, Dostoiévski não existiria nos nossos dias… Não teria a menor chance, o coitado. Alguém lhe daria antidepressivos e ele seria um chato feliz em vez de um deprimido brilhante e meio descontrolado.
Tradução livre de Elena Romanov * Especialmente para os sete leitores deste blog Link do original
Hoje, 29 de janeiro, é a data dos 155 anos do nascimento do meu escritor e ser humano favorito, Anton Tchékhov (1860-1904). Quando eu estava filmando Tio Vânia, aos 33 anos de idade, eu tinha certas ideias sobre a vida, sobre os personagens, sobre as pessoas, sobre mim mesmo, etc. Desde então, se passaram mais de 40 anos. Minha atitude mudou para com Tchékhov. Em primeiro lugar, porque eu me dediquei muito a ler sua correspondência e a saber sobre sua vida, sua atitude para com as pessoas, para com as mulheres, para com os homens, para consigo mesmo. Com o passar do tempo, Anton Pávlovich, que antes era, para mim, um sujeito de óculos com olhos cansados e tristes, tornou-se meu censor espiritual, o homem que se senta às minhas costas e para o qual viro-me e olho, para descobrir se ele está de acordo ou não…
Ele não era de esquerda nem de direita. Dizia: “Eu sou um homem livre” e escrevia sobre o que viu. Em sua profundidade, Tchékhov amava as pessoas pelo que elas eram, não pelo que elas deveriam ser. Tchékhov amava as pessoas porque elas todas iam morrer. Ele as amava porque elas não entendiam a vida. Ele as amava porque elas próprias não se entendiam. Ele as amava e ria delas porque elas se imaginavam muito melhores do que realmente eram. Porque elas falavam tolices como se fossem pérolas. Eu, quanto mais velho fico, mais entendo os personagens de Tchékhov .
Em cada uma de suas peças, há muitos motivos para tentar entender a vida, assim como muitos detalhes para tentar compreender o que ele queria expressar. Ele sabia que o sublime e o prosaico, o trágico e o cômico — tudo está misturado nesta vida. Via de regra, todas as suas peças terminam em uma grande interrogação. Isto faz parte da sabedoria de Tchékhov, ele não deixa respostas para muitas coisas.
Anton Pávlovich viu, como todos os grandes, a falta de sentido de tudo… Mas há a necessidade de viver! Aqueles que pensam que todos nós morremos vivem numa dimensão, e aqueles que não pensam, vivem em outra. E uns e outros estão corretos. Não precisamos de respostas. Mas há os sentimentos. O importante é se envolver. E, quando há envolvimento, há compaixão, nunca indiferença…
Acima e abaixo, duas tchecas e a Maguary e o Del Valle da Elena.
E ontem, uma belga e uma tentativa de cerveja alemã sem álcool para a Elena. Não deu muito certo. A Elena achou amarga demais. Mas ela queria sentir-se adulta bebendo comigo… O bom é que depois fomos passear à beira-mar no melhor dos humores. Ah, a vida tranquila, carinhosa e besta das férias!
Se os treinamentos são cheios de ideias e imaginativos, Diego Aguirre chegou ao Internacional com um contrapeso: veio com esquema de jogo pronto na cabeça. É o esquema do qual ele gosta e que deseja aplicar à fórceps a um bom grupo de jogadores totalmente inadequado a ele. E digo mais, é um esquema inadequado à maioria dos clubes brasileiros. Começo por aí:
O 4-4-2 (ou o 4-4-1-1, com D`Alessandro de enganche): com duas linhas de quatro jogadores, faz com que os membros da linha mais à frente comportem-se ora como volantes, ora como armadores. Algum torcedor colorado consegue vislumbrar Alex, Sasha, Valdívia, Vitinho ou D`Alessandro atuando como frequentemente como volantes? Ora, Aguirre, isso não acontecerá. Simples assim. Mas há mais:
Os laterais fixos: já vi todos os esquemas de jogo darem certo no Brasil, mas ainda não vi um que mantivesse fixos os laterais. Pois talvez a maior distinção que o futebol brasileiro apresente em relação aos outros, é o fato de nossos laterais aparecerem no ataque sempre que este seja realizado pelo lado em que jogarem. Mantendo fixos os laterais, o Inter perde as melhores características do jovem Cláudio Winck, cheio de futuro, e de Fabrício.
D`Alessandro centralizado: Dale está há oito anos no Inter. É um grande jogador, é um sucesso, porém, por algum motivo, apenas mata a pau quando organiza suas jogadas a partir dos flancos, com menor marcação. Aguirre quer vê-lo centralizado. Tudo indica que não funcionará.
Paulão: alguém deveria ter avisado Aguirre que Paulão tem um posicionamento em campo que lhe é habitual e que simplesmente… Vocês viram o segundo gol do Shakhtar, o de Taison? Pois é. Ele tem o vício de ignorar o cara que poderá receber a bola. Como está beirando os trinta anos, creio que jamais aprenderá. Abel já sabia que Alan Costa era uma opção muito mais segura.
O veterano Milan Kundera voltou à ficção no ano passado, aos 85 anos, com este bom A festa da insignificância (Companhia das Letras, 136 páginas). O tema lembra um pouco o filme de Paolo Sorrentino A Grande Beleza.
O romance gira em torno de quatro amigos parisienses que vivem em Paris, sem grandes objetivos ou ambições. Eles passeiam pelos jardins de Luxemburgo, mentem um para o outro, reinventam passados, se encontram numa festa, constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stalin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, em vez dos seios, bundas ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo — pois as calças caíram e as camisetas subiram, revelando o buraquinho que só Eva não teria…
Kundera brinca entre Paris e a União Soviética de Stálin, propondo um paralelo entre as duas épocas. Assim, o romance fala sobre o medo e o pior da civilização. Porém, fala de forma curiosamente divertida e sem ilusões ou expectativas. Livro curtinho e despretensioso, revelador de que o velho não perdeu a mão.
Em meu vocabulário de ateu, uma única palavra é sagrada: a amizade.
Milan Kundera — A Festa da Insignificância
Já estamos indo para a primeira década do PQP Bach e ainda não conheço todas as pessoas que fazem este grande blog. Um morava no Casaquistão e agora está em Moscou. Não o conheço, apesar de já ter-lhe enviado partituras de autores brasileiros que foram interpretados em recitais moscovitas. (Sim, a coisa é chique). Já jantei com outro de São Paulo e com nosso homem em Vitória (ES). Mas não conhecia nosso agente secreto de Blumenau, assim como não conheço o restante da turma. O Luiz Blasi é a pessoa com a qual mais converso sobre música e as postagens bagunçadas do blog.
Ontem, domingo (25/01), ele e sua esposa Rose desceram até Bombinhas para fazer o reconhecimento mútuo. Para os iniciados na terminologia pequepiana, foi o encontro de PQP Bach com FDP Bach, dois filhos bastardos de Johann Sebastian. Simples assim. O casal visitante chegou secretamente à pequena cidade em carro próprio, por volta das 7h da manhã de domingo, trazendo um pen drive com a integral das Sonatas de Beethoven, tocadas por Maurizio Pollini, e o filme dos 125 anos do Concertgebow de Amsterdam, concerto completo. Sem se anunciarem, é claro, ficaram ocultos na recepção até que eu e Elena descemos às 8h, cuidando para não sermos vistos.
A Andréia, dona de nossa Pousada, recebeu a todos com um belo café. Eu e a Elena comemos pouco devido aos acontecimentos traumatizantes da noite anterior, mas espero que o Luiz e a Rose tenham aproveitado, porque os cafés da Andréia são esplêndidos.
Após o café fomos a Zimbros, uma bela e calma praia ideal para crianças.
A praia de Zimbros | Foto: Luiz Antonio Blasi
Mas lá havia aquilo que nos persegue onde quer que compareçamos: a boa gastronomia. O maestro Tobias Volkmann, através de bate-papo no Facebook, dirigiu-nos de forma firme e afinada ao restaurante Berro D´Água. Meu deus, o que foi aquilo?
Olha, até agora, 36 horas depois, ainda estamos comentando aquela massa. A boa comida conhece caminhos inescrutáveis para nos alcançar. Eu nem queria comer muito depois da vandalização do dia anterior, mas o que podemos fazer além de aceitar a felicidade que nos chega a um custo adequado?
Depois de várias fotos documentais …
… e de uma uma amizade virtual passada ao mundo real, despedimo-nos de nossos amigos, não sem antes termos um curioso encontro no estacionamento. Ali estava uma família de corujas buraqueiras, hoje raras. A Elena sempre diz que é uma coruja. Refere-se, é claro, ao modo como fica alerta à noite. O encontro dela com os pássaros foi tímido.
Abaixo, uma foto de Luiz Antonio Blasi mostrando o making off das fotos acima.
Foto: Luiz Antonio Blasi
Rose e Luiz, foi um belo encontro. Nada surpreendente que vocês fossem exatamente como nós imaginávamos: de fala mansa, boa e inteligente conversa e muito agradáveis. Não querem se mudar para Porto Alegre a fim de que a gente se veja mais vezes?
Gostei tanto de vocês dois que deixei minha mochila no porta-malas deles… A coisa já está voltando por Sedex…
Nós tínhamos passado um grande dia. A tarde foi finalizada com longas confissões dentro do mar. Apesar de nosso tenebroso passado, nenhum de nós tentou o afogamento final. Pelo contrário, foi um daqueles longos e carinhosos banhos que adoramos tomar ao final da tarde. Mas acabamos vitimados por um jantar absolutamente saboroso e… copioso. Todo o nosso atletismo marítimo foi jogado fora e saímos do restaurante alimentados para uma semana e ainda com uma “quentinha” na sacola.
Simplesmente não conseguíamos parar de comer a maravilhosa muqueca que nos foi servida na Casa da Lagosta, novamente à beira-mar. Depois de comportarmo-nos como falsos hunos famintos, acabamos nos consolando em nossa varanda da Pousada Narinari. Eu com uma cerveja, a Elena com suquinho.
O fotógrafo e a fotografada pensam: para que comer tanto?
Formado pelas novelas As Aventuras de Tchítchikov, Diabolíada, Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro, e com excelente tradução de Homero Freitas de Andrade, este volume da Edusp é uma verdadeira joia que reflete a literatura satírica dos primeiros tempos da União Soviética — e que depois foi morta por Gorki e pelo medonho realismo socialista. Aliás, Bulgákov, em sua “Carta ao Governo”, reclamou do que hoje é sabido por todos: “toda a sátira autêntica é absolutamente inadmissível na União Soviética”. A URSS era um regime que apenas admitia uma verdade única e inabalável e nenhuma “verdade” deste gênero resiste ao riso, principalmente ao riso inteligente e cheio de curvas e dúvidas como o criado pelo gênio de Bulgákov.
As quatro novelas deste livro formam um crescendo de virtuosismo arrebatador.
Pessoalmente, a leitura de As Aventuras de Tchítchikov teve pouca validade. Afinal, faz 40 anos que li Almas Mortas, de Gógol, e Bulgákov utiliza os personagens do romance como se fossem velhos conhecidos nossos. É claro que, como confirma a Elena, todo russo tem o livro de Gógol tão na memória quanto nós temos os principais contos e os cinco últimos romances de Machado. Mas eu mal lembrava de Tchítchikov…
Mas tudo mudou com a aceleradíssima e louca Diabolíada. Filha literária dos filmes pastelão dos anos 20, a novela está repleta de perseguições e transformações fantásticas com a finalidade de caracterizar a enorme máquina burocrática soviética. Pessoas deixam de existir, pagamentos são feitos através de caixas de fósforos que não funcionam em vez de dinheiro, todos passam fome e os pequenos chefes são verdadeiros diabos transformistas que antecipam a obra-prima de Bulgákov O Mestre e Margarida.
Os Ovos Fatais (1924) e Um Coração de Cachorro (1925) são novelas irmãs e das melhores coisas que já passaram frente a minhas retinas tão fatigadas. (Obrigado, Drummond). São duas longas e esplêndidas sátiras de ficção científica. Os Ovos Fatais tem uma longa introdução séria, com alguns curtos episódios cômicos, mas depois tudo se descontrola, virando um enorme vaudeville. Um vaudeville de terror, uma coisa realmente original. Já Um Coração é uma sátira de cabo a rabo e suas variações de foco narrativo — que são passadas de um para outro personagem e para o autor, depois que um cachorro abre a narrativa na primeira pessoa do singular –, valeria um estudo.
As duas novelas brincam de tal forma com o modus operandi da Revolução Bolchevique, fazendo tantas observações que se revelariam exatas décadas depois, que não surpreendem suas proibições na época. O que surpreende é o fato de Bulgákov escrever cartas e mais cartas para Stálin pedindo para sair do país, recebendo em troca telefonemas gentis do georgiano em várias madrugadas. Pelo visto, o chefe gostava do humor de Bulgákov, mas o queria apenas para si. O escritor faleceu em sua casa.
Dia de sol e água espetaculares, dia de brincar de pas de deux na arrebentação, dia de um bolo de abacaxi e coco arrebentar o regime, dia da confirmação da visita de um amigo, dia de um banho inesquecível de duas horas sem sair da água, dia de auxiliar a Elena após uma onda e quase retirar-lhe a parte de cima do biquini, dia de terminar um excelente e estimulante livro, noite de comer um linguado sensacional no restaurante Olímpio, noite de comprar cerveja tcheca, noite de passeio.
A chegada na praia, lá pelas 8h, te mete!Este que vos escreve, finalmente em frente às câmerasBrincando com um cachorro que apareceu por ali. O cara se animou e começou a me morder carinhosamente. Adoro cães, fazer o quê?Paisagem com banhistasElena foi pro mar e eu fiquei a ver naviosO linguado do Restaurante Olímpio, na beira do mar. Pedi para a Elena colocar as mãos ao lado do prato a fim de ficar bem caracterizado o tamanho do filé, que era maravilhosoUm torcedor do San Lorenzo passou por aqui