O Capote e outras histórias, de Nikolai Gógol

O Capote e outras histórias, de Nikolai Gógol

Nikolai Gógol é um cara perturbador, é todo um mundo de cabeça pra baixo. Ele é o mestre do extraordinário e do absurdo que acaba parecendo muito parece muito familiar. Em suas histórias, funcionários públicos perdem e ganham dignidade por causa de um capote, narizes adquirem vida própria, negociantes compram e vendem até mesmo almas de mortos, homens mergulham na loucura e forças sobrenaturais irrompem no cotidiano. Tudo parece disparatado. Mas, quanto mais disparatado se torna o universo de Gógol, mais reconhecemos nele alguma coisa.

Este volume reúne O Capote, Diário de um Louco, O Nariz, Noite de Natal e Viy. À primeira vista, são histórias muito diferentes: a tragédia disfarçada de comédia de um funcionário insignificante, o mergulho numa consciência enlouquecida, a fantasia surreal, a celebração do folclore ucraniano e uma narrativa de terror. Mas todas parecem nascer da suspeita de que a realidade não é tão sólida e as convenções que organizam nossa vida podem ser tão absurdas quanto os acontecimentos mais fantásticos.

Em O Capote, Akáki Akákievitch é um funcionário público tão insignificante que parece existir apenas para copiar documentos. A necessidade de um capote novo, fundamental para se proteger do frio, torna-se o grande objetivo de sua vida de escriturário. Gógol parte de uma situação banal para revelar um mundo em que a dignidade humana depende de aparências, posses e reconhecimento social. O riso, aqui, traz consigo uma tristeza profunda. O que é mais ridículo? O personagem ou a sociedade que o reduz à insignificância?

Em Diário de um Louco, a mesma sociedade hierárquica e sufocante aparece sob outra perspectiva. Um homem que procura uma posição no mundo constrói para si uma realidade delirante, na qual sua identidade adquire proporções grandiosas. Escrito na forma de um diário, podemos acompanhar o processo de enlouquecimento. Em O Nariz, Gógol leva essa lógica ao delírio: um nariz separa-se de seu dono e passa a circular pela cidade em posição social superior à dele. A identidade humana, o prestígio e a autoridade tornam-se uma farsa. Se em O Capote um objeto parece conferir existência ao homem, em O Nariz uma parte do corpo conquista uma existência social independente. Nos dois casos, Gógol, com humor implacável, põe a ridículo as hierarquias.

A unidade dessas histórias não depende, portanto, de personagens ou enredos semelhantes, mas de uma maneira muito particular de olhar o mundo. Gógol percebe o absurdo no cotidiano: basta deslocar um pouco suas regras, exagerar suas convenções ou levar sua lógica às últimas consequências para que o mundo revele seu caráter grotesco. A burocracia pode ser mais fantástica que a magia; a hierarquia social, mais delirante que a loucura; a necessidade de reconhecimento, mais assustadora que qualquer criatura sobrenatural. (Viram, ainda sei usar o ;).

Depois de O Capote, Diário e do Nariz há uma quebra. Saímos de St. Petersburgo e vamos para a vida rural e folclórica do interior da Ucrânia. Em Noite de Natal e Viy, esse universo se abre explicitamente não somente ao folclore, mastambém ao sobrenatural. Diabos, feitiços, crenças populares e forças inexplicáveis convivem com a vida cotidiana. Mas a mudança de registro não significa que estejamos em ruptura. O fantástico já estava presente no nariz que passeia pela cidade, assim como o grotesco já habitava a existência de Akáki Akákievitch. O que muda é a forma. Em Noite de Natal, ele aparece revestido de humor, desejo, exuberância e encanto popular; em Viy, transforma-se numa experiência de terror, de confronto com o desconhecido. É essa continuidade entre o cotidiano e o sobrenatural que dá unidade ao livro. Todos tentam encontrar alguma ordem, alguma dignidade, algum sentido nas coisas, mas acabam enredados em situações que escapam ao controle.

Escritor da primeira metade do século XIX, Gógol permanece bem vivo. Afinal, seguimos correndo entre burocracias difíceis de explicar, hierarquias ridículas, obsessões com prestígio e identidades que dependem apenas do olhar alheio. Continuamos tentando encontrar lógica em situações que não a possuem e dignidade dentro de sistemas que frequentemente nos tratam como peças substituíveis. O cenário mudou, mas o mecanismo gogoliano continua funcionando: basta olhar de perto para que o respeitável se torne grotesco e o cotidiano revele sua face absurda.

Este volume vale não apenas por reunir algumas das narrativas mais fascinantes de Gógol, mas por permitir que percebamos a coerência de sua imaginação.

O Monty Python, grande parente espiritual e herdeiro de Gógol, também nos ensinou que o absurdo é uma maneira de enxergar a realidade. Rimos de seus disparates, mas o riso nunca é inteiramente tranquilo: depois dele, fica a impressão de que o mundo lá fora não é tão diferente assim, né?

Nikolai Gógol (1809-1852)

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