Generoso. Este é o adjetivo que melhor serve a Marcos Abreu, pessoa que trazia em si muitíssimas outras qualidades além da generosidade. O mesmo cara que, a pedido de gravadoras estaduninenses, recuperava o som do piano tocado por Rachmaninov na segunda década do século XX e do clarinete de Benny Goodman de alguns anos depois, assim como gravações de Noel Rosa e Aracy de Almeida, o mesmo cara que projetava a acústica de tantos teatros — fez um milagre na casa da Ospa — e descobria soluções para tantas salas por todo o país, preocupava-se em que a Elena comprasse as melhores caixas de som e chegava à Livraria Bamboletras para dizer que um cabo devia ser trocado — isso logo ao entrar aqui.
Masterizou milhares de CDs, ia a todos os Concertos possíveis, era um baita papo, estava sempre alegre, era gregário, gostava muito de festas e de pessoas, detestava restaurantes com som ambiente — era capaz de ir embora se estava muito alto –, apresentou-nos a aprazível Salvador do Sul, conhecia música como poucos, gostava de comer queijo Brie com geleia de pêssego dos DOCES Crochemore e era amigo, amigo, amigo de todo mundo. Ignoro sua idade, mas devia ter uns anos a menos do que eu. Bah, Marcos Abreu, que merda tu teres nos deixado assim de repente. Foi um choque difícil de suportar, cara.
