101 Dias em Bagdá, de Åsne Seierstad

Esta longa reportagem é um equívoco da autora do bom O Livreiro de Cabul. Se a idéia da reportagem é interessante — retratar a Bagdá pré-ataque americano — esta mostra-se inviável ao esbarrar no silêncio dos iraquianos e na duríssima censura vigente. A autora, sempre acompanhada de tradutores que não apenas tentavam determinar onde ela iria como também traduziam somente o que era permitido, permaneceu encalacrada numa Bagdá onde não circulava muita informação. Poucos ousavam falar e, para completar, nem a jornalista tinha grande idéia do que estava acontecendo fora do país, pois seus contatos eram vigiados de perto. Como se tudo isto não bastasse, a renovação do visto dos jornalistas era semanal e dependia de bom comportamento. Ou seja, era muito difícil, para uma estrangeira que não se comunicava em árabe, obter informações relevantes naquela Bagdá.

O livro torna-se mais interessante quando os americanos chegam… isso após quase trezentas páginas! Aguardadíssimos pelos xiítas, que sofreram horrores durante a ditadura de Saddam e que gostariam de saudar o invasor, os americanos chegaram atirando em tudo o que se mexia. Seu lema parecia ser “atire se quiser”. Não havia punição por matar civis e eles se divertiam atirando em janelas abertas, em vacas, galinhas e, desconfiados, em civis que vinham saudá-los — afinal, podiam ser homens-bomba. Também desenvolveram o curioso hábito de dar tiros de canhão em fotografias de Saddam e destruíram todos os prédios públicos, a maioria sem motivo aparente ou resistência; porém, curiosamente, tiveram cuidado com o do Ministério que tratava do petróleo. Ingênuo, boa parcela do povo iraquiano achou estranho que os americanos os tratassem aos safanões e tiros e que não tivessem vindo com intenções de conquistar seus corações…

O livro torna-se interessante quando um tanque resolve fazer mira no hotel dos jornalistas, antes sempre respeitado. Jornalistas e técnicos morrem. Tende a ficar interessantíssimo quando mostra a reversão de expectativa daqueles que antes odiavam Saddam e que passavam pouco a pouco a odiar os americanos, unindo-se aos partidários do ex-ditador. Em poucos dias, todos estavam decepcionados e humilhados. Só que, neste trecho, após quase cem dias no Iraque, a jornalista Åsne mostra-se de saco cheio de tantos dias de isolamento, do constante perigo e decide — seguindo o conselho de familiares e colegas — que é melhor sair do inferno. Com efeito, ninguém parece ter paciência com os iraquianos.

Salvam-se, na reportagem, as descrições das livrarias de Bagdá e os poucos diálogos intelectuais opositores ao regime de Saddam. Mas é muito pouco.

P.S.: Alberto Kopittke, em oportuno comentário escrito neste blog na última segunda-feira, observa o vezo que alguns intelectuais de esquerda têm de criticar best-sellers ou livros de entretenimento. É uma pauta à qual este escriba admirador de Georges Simenon e outros pretende retornar. “A lógica equivocada de que tudo o que faz sucesso é ruim” demonstra preconceito dos mais idiotas.

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‘2666’, romance póstumo de Bolaño, traz temas de livros anteriores

Rafael Gutierréz (*), Jornal do Brasil

RIO – Comecei a ler Roberto Bolaño em uma tarde de março de 2001 em Bogotá, quando minha amiga D. me pôs nas mãos um livro grosso de cor cinza. A imagem da capa era a de três homens jovens, usando chapéus e uma roupa elegante, que caminham por uma praia vermelha, enquanto no fundo se vê o mar de um azul intenso e uma montanha. Quando me entregou o livro, D. disse: “Lê isto. É a melhor coisa que leio há muito tempo”. Confiava no critério de minha amiga, que antes já havia recomendado outras leituras reveladoras.

Sua recomendação não me decepcionou e nos dias seguintes, ou melhor, nas noites e madrugadas seguintes (pois era o único tempo disponível para ler que na ocasião me deixava um trabalho burocrático tedioso e extenuante em um escuro ministério colombiano) li em êxtase Os detetives selvagens. A partir desse momento, continuei procurando e lendo com ansiedade os demais livros escritos por Bolaño. Nenhum deles me pareceu tão bom quanto Os detetives, até ler sua ambiciosa obra póstuma e inconclusa 2666, publicada em 2004.

Em uma entrevista para a edição mexicana da revista Playboy, realizada poucos meses antes de sua morte – em 15 de julho de 2003, aos 50 anos – Bolaño diz que, se não fosse escritor, seria detetive de homicídios para voltar sozinho, à noite, à cena do crime, e não se assustar com os fantasmas. Pois bem, acredito que, em 2666, ele volta ao lugar do crime e finalmente enfrenta os fantasmas. Dois tipos de fantasmas: aqueles que rodeiam a vida do escritor e a solidão do ato da escrita; e aqueles que estão do lado do mal e da violência (e que talvez possam ser os mesmos, como fica sugerido em várias de suas obras).

O primeiro tipo de fantasma aparece em 2666 na história do escritor alemão Benno von Archimboldi que ocupa, basicamente, a primeira – “A parte dos críticos” – e a última parte do romance. Na história de abertura, quatro críticos literários europeus tornam-se amigos ao estudar a obra do misterioso escritor que, apesar do reconhecimento da crítica e de ter sido indicado várias vezes ao Prêmio Nobel, nunca aparece em público; ninguém conhece detalhes de sua biografia. Bolaño descreve as tensões que constituem o campo literário, não a partir da perspectiva dos escritores e poetas marginais, como fez em Os detetives selvagens, e sim do ponto de vista dos estudiosos da literatura, com suas brigas e conspirações intelectuais, embora destacando a amizade e o amor que surge entre eles. De certo modo, esta primeira parte pode ser lida também como uma história de amor (não um triângulo, mas um quadrado amoroso com final inesperado).

“A parte de Archimboldi”, última do texto, está construída como um romance de formação e narra a história de vida do escritor alemão Hans Reiter (que usa o pseudônimo de Benno von Archimboldi), nascido em 1920. Como em outros de seus romances e contos, Bolaño constrói a figura do escritor como um ser marginal, errante e melancólico, afastado dos centros de poder do campo literário e político. Na visão de Bolaño, o verdadeiro escritor estaria próximo de algo que foge ao literário. Talvez por isso, na história de Reiter, a experiência (sobretudo a participação na Segunda Guerra) é definitiva para seu futuro como escritor. Esta parte do romance está atravessada por questões literárias: de onde vem o impulso da escrita? Vale mais a leitura ou a experiência para escrever uma obra-prima? Qual deve ser o lugar do escritor e suas relações com editores e leitores?

A história do escritor alemão e a história dos críticos têm seu ponto de encontro na cidade imaginária de Santa Teresa (nome fictício de Cidade Juarez, localizada na fronteira entre o México e os Estados Unidos, marcada tragicamente pelos milhares de assassinatos de mulheres que vêm acorrendo desde 1993). Os críticos viajam a Santa Teresa ao serem informados de que, possivelmente, ali se encontra Archimboldi. O escritor alemão deseja encontrar seu sobrinho, acusado de ser o autor ou pelo menos de participar daqueles crimes.

No ar estranho da cidade e do deserto que a rodeia, confluem os fantasmas da violência retratada por Bolaño com técnica hiper-detalhista que simula os informes forenses para descrever, em cadeia, os corpos das mulheres assassinadas. “A parte dos crimes” é a mais extensa e a mais arrepiante do romance pela acumulação de mortes e pela aparente ausência de explicação e de sentido para tanta violência. Machismo, narcotráfico, pornografia snuff são algumas das possíveis causas dos crimes, mas nenhuma delas consegue explicá-los por completo.

O que flutua como uma sombra em toda a narrativa é precisamente a pergunta sobre a origem e a causalidade ou casualidade do mal (tema caro a Bolaño e que aparece em seus primeiros textos). Esta parte pode ser lida como um romance policial, inclusive com a participação de um detetive americano com aparência de Sherlock Holmes. Mas, em 2666, os crimes são impossíveis de resolver, deixando no fim uma sensação de impotência e desolação.

Duas histórias, centradas em Santa Teresa, completam as cinco partes do romance: a do professor de filosofia chileno Amalfitano (que compartilha com Bolaño alguns rasgos biográficos); e a história do jornalista americano Oscar Fate.

O professor chileno é um personagem perdido, exilado e próximo à loucura. Em sua cabeça confluem, delirantemente, a filosofia e a história política do século 20. Escuta vozes permanentemente e, em suas noites de insônia, realiza estranhas performances no pátio de sua casa inspirado em instalações de Marcel Duchamp. Apesar do humor e da ironia presentes na história de Amalfitano, o que predomina é um clima de tristeza, melancolia e medo, pois ele teme, o tempo todo, pela vida de sua filha em Santa Teresa.

Cada parte do romance parece nos levar por questões centrais da história do século 20, formando um grande painel histórico-ficcional. No caso do jornalista Oscar Fate, entramos na história do partido dos Panteras Negras através da voz de Barry Seaman, um de seus fundadores. No meio da reportagem sobre Seaman, Fate é obrigado por sua revista a cobrir uma luta de boxe em Santa Teresa e, quase por azar, fica envolvido com a investigação dos crimes.

Embora existam pontos de contato entre todas as histórias, cada parte do romance pode ser lida de forma independente (e Bolaño queria que fosse assim, publicadas com intervalos de um ano para assegurar o futuro econômico de seus filhos). Porém, em conjunto, constituem uma das empresas mais impressionantes da narrativa contemporânea, uma imersão profunda pelos labirintos da criação literária e uma aproximação nada modesta ao mal absoluto.

Em 2666 convivem todas as obsessões bolanianas: a relação entre literatura e vida, a pergunta pela origem do mal e da violência, a proximidade entre literatura e perversão. Escrito com uma prosa direta e objetiva, através da acumulação de histórias e digressões, e apesar de sua longuíssima extensão, Bolaño consegue prender o leitor como só os grandes mestres da narrativa conseguem.

(*) Escritor e crítico literário. Doutor em literatura pela PUC-Rio.

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O Livreiro de Cabul, de Åsne Seierstad

A norueguesa Åsne Seierstad é uma grande estrela da reportagem mundial. Com apenas 40 anos, já escreveu livros sobre os conflitos da Sérvia, do Iraque e do Afeganistão, todos best-sellers. Este O Livreiro de Cabul não é um relato de guerra. É uma narrativa bem amarrada sobre os costumes e a vida no Afeganistão, observados pela autora durante os três meses que viveu com uma família afegã após a queda do talibã, na primavera de 2002. Vendo aquele estranho mundo sob uma burca, a loiríssima Seierstad nos mostra o dia a dia dos Kahn, uma rara e privilegiada família que tinha algo para comer em Cabul naquela época.

O livro tem um sério problema. Como a jovem Seierstad pode julgar uma cultura milenar tendo passado apenas alguns dias com uma família afegã? A fim de não me irritar, tratei o livro como se fosse uma visão estrangeira que tem muito em comum comigo, mas uma visão estrangeira. E crítica.

Estruturando seu relato em capítulos que mais parecem contos e utilizando esplendidamente a condição de comerciante de Sultan Kahn, Seierstad chega a outras instâncias de uma sociedade que nos deixa estarrecidos a cada página, tal o medievalismo das atitudes e opiniões. É claro que esta característica nos faz engolir o livro rapidamente, mas os méritos de O Livreiro de Cabul ultrapassam o da mera “narrativa de ocorrências e costumes para nós absurdos”. O livro é muito bem escrito e alguns capítulos, como Ondulante, esvoaçante, serpenteante, que conta as peripécias de três velozes burcas comprando o enxoval de casamento de uma delas, O carpinteiro, que conta minuciosamente a história de um roubo e sua punição, e Minha mãe, Osama, que conta a viagem de um tradutor por uma região onde o fundamentalismo islãmico é natural e milenar, chegam a entusiasmar. Seierstad reconstrói vividamente cada um de seus personagens, os justifica e nunca nos entedia. E olhem que não tenho muita paciência com obras que não sejam de ficção!

Outro acerto é o de não haver grande intervenção da política no relato. Não precisa, seria apenas ruído em um livro cuja sedução está no interesse da autora pelas pessoas – principalmente por mulheres como Leila ou jovens como Mansur – e pela vida sufocante que a absoluta maioria leva. Mas volto a dizer, há as críticas à cultura afegã e entramos no pantanoso terreno antropológico.

É uma excelente indicação para quem quer um livro grudento e competente.

A tradução é de Grete Skevik. Bom trabalho, mas faltou revisão. Há duas trocas de nomes que tornam seus trechos puzzles e outros errinhos aqui e ali. Nada grave para o leitor atento, só que é chato.

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Laerte

Todo bom autor gostaria de cumpri-la… (desde que houvesse internet na cela, visitação livre, privacidade, etc.) Não há como cumprir na Suíça?

Via Caminhante.

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Confins Meridionais, de Luís Augusto Farinatti

Lançamento HOJE, quinta-feira, 17h30, dentro da Feira do Livro de Santa Maria. Não há nada melhor para fazer antes de sofrer com Inter x Banfield, que é às 19h30!

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Chá das Cinco com o Vampiro, de Miguel Sanches Neto

Para empreender um romance há que ter boa dose de motivação e um ingrediente que pode ser muito motivador é o da vingança pessoal. Na história da literatura há vários exemplos de romances e contos que se iniciaram como reações a reais ou supostas agressões e que superaram o mero objetivo de ofender. É o que ocorre com Chá das Cinco com o Vampiro: se parte de uma rixa, se a descreve, deixa-nos envolvidos num delicioso e amargo retrato das vaidades literárias e da cidade de Curitiba, descrita como um verdadeiro inferno.

Comecemos pelo cerne. O livro narra desde os primórdios a relação entre um pretendente a escritor e seu modelo, mais velho e consagrado. É um Bildungsroman (romance de formação) que parte da adolescência de Beto Nunes na pequena Peabiru até seu período curitibano. Organizado em capítulos não cronológicos, com os títulos indicando o ano em que se sucedem os fatos, é conduzido com segurança, ultrapassando em muito o simples propósito de vingança.

Os trechos dedicados à sexualidade e à adolescência de Beto Nunes em Peabiru – quase todos no início do livro – são os mais desinteressantes da narrativa. Beto Nunes, o narrador, faz uma análise psicológica bastante simplória daquilo que o circunda. O livro ganha grandiosidade quando da saída de Beto para Curitiba, quando começa a vida na grande cidade provinciana. A partir deste ponto, a narrativa engrena até o final: a procura pelo Grande Mentor, a “amizade” com ele, os estudos abandonados, os novos amores, o meio literário, tudo misturado em contraponto e primorosamente escrito.

Há belas descrições de escritores anônimos – fracassados, orgulhosos e sem obra – , assim como da vida difícil como colunista e das horas de pura paixão pela literatura. Tudo isso é contado de forma sincera e com indiscutível virtuosismo. Há enorme humanidade nos capítulos sobre a relação quase inexistente com os pais em Peabiru, em contraposição à devoção mútua entre Beto e uma tia, também ausente.

Um personagem importante do livro é a opressiva cidade de Curitiba, que nos é mostrada exatamente como este articulista a sentiu em várias visitas. É uma cidade que não adota ninguém, comandada por uma elite culturalmente pobre que busca nos sobrenomes – como os personagens de Balzac – as provas de uma boa ascendência. Ao mesmo tempo, não suporta quem se sobressai ou é diferente. Conservadora até a medula, a Curitiba de Sanches é Curitiba.

O nome do “Grande Escritor Que Ensinará Todos os Segredos” é Geraldo Trentini e seu apelido, vampiro. Vingança, vingança. Afinal, Dalton Trevisan tem seu apelido diretamente do título de um de seus livros: O Vampiro de Curitiba. Sanches não se preocupou muito em escondê-lo: Trevisan e Trentini iniciam por “Tr” e têm sete letras — o número de consoantes e vogais também coincidem. E Dalton e Geraldo têm sílabas tônicas com “al”…, ou seja, o autor não fez a menor questão de ocultar sua inspiração, modelo e… ressentimento. Tanto que o verdadeiro vampiro sentiu o golpe, contra-homenageando Miguel Sanches Neto com o grosseiro poema “Hiena Papuda”. Melhor sorte teve o recém falecido crítico Wilson Martins, que aparece como o ético e generoso Valter Marcondes; e menos sorte tiveram quase todos os outros, mas principalmente o jornalista Fábio Campana, um patético Orlando Capote, e o Valério Chaves (Valêncio Xavier) que tomou uma atrás da outra, como punhalada de louco.

Dalton deve ter ficado irritado ao aparecer como um vampiro que não sai à noite e que só come coisinhas em confeitarias… Mas deve ter ficado furioso ao aparecer como um escritor que não quer aparecer enquanto sugere que amigos escrevam isso e aquilo, aqui e ali. Aposto que é verdade.

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Dr. Milton + Heine sobre o Quixote + Heine

Escrito e não publicado em 17 de feveireiro de 2010. O resto é de hoje.

Datas são datas e é inevitável que as repitamos a cada 365 dias. Basta viver um ano e lá estou eu até o pescoço com um novo 17 de fevereiro, aniversário de meu pai, que hoje faria 83 anos. O Dr. Milton Cardoso Ribeiro morreu em 1993 e, desde 1994, o dia 17 é um mau dia. Ir ao cemitério? Não faz diferença ir ou não, já é ruim o bastante saber que não vou vê-lo e que não haverá festa hoje. O fato é que me faz mal ir ao cemitério. O que há atrás do mármore — ossos escuros dentro de uma pequena caixa de madeira, pois, pelas regras da instituição, o caixão é retirado após determinado prazo para haver espaço para as novas mortes da família — tem muito pouco a ver com minhas lembranças. Trata-se apenas de um mármore com seu nome e foto colados. Se lembro de meu pai com voz, tato e música, então para que manter contato com uma representação fria e insuficiente dele, uma redução com flores na frente? Não vou lá, mesmo que digam que herdei seu humor, ironia e amor a muitas coisas. Devo ter herdado também alguma coisa de sua iconoclastia…

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Uma tradução alemã do Quixote, editada em 1837, vinha acompanhada de um prefácio escrito por Heine. Encontrei parte do mesmo dentro de um pequeno ensaio de Otto Maria Carpeaux. Anotei uma interessante observação do poeta alemão:

A obra de Cervantes é o primeiro verdadeiro romance da literatura universal, o mais antigo romance que continua lido até hoje. É uma obra em prosa, e esse fato é da maior importância. Antes da data fatídica de 1605, todos os grandes poetas escreveram suas obras em versos; ora, o mais prestigioso gênero literário em versos, sempre fora considerada a epopéia. Cervantes, porém, é o primeiro grande escritor da literatura universal que preferiu a epopéia em prosa: o romance. Desses fatos tirou Heine a conclusão de que o verdadeiro tema do Dom Quixote é a derrota da poesia pela prosa. Dom Quixote é o último ou um último representante da poesia de tempos idos. Mas é derrotado pela implacável prosa da realidade. A poesia, com todas as suas imaginações fantásticas, é derrubada assim como Dom Quixote, O cavaleiro da Triste Figura, caiu do seu cavalo Roncinante, caricatura do cavalo alado Pégaso. O caso nos faz rir, mas não sem deixar, atrás de si, uma melancolia nostálgica. E essa harmonia do ridículo e do melancólico é o humor cervantino.

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E agora, para finalizar, a prova de que, além de super-humorista, super-poeta, super-dramaturgo e super-novelista Heinrich Heine era um amor de pessoa:

Eu tenho uma mentalidade pacífica. Meus desejos são: uma cabana modesta, telhado de palha, uma boa cama, boa comida, leite e manteiga; em frente à janela, flores; em frente à porta, algumas belas árvores. E, se o bom Deus quiser me fazer completamente feliz, me permitirá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos nelas pendurados. De coração comovido eu haverei, antes de suas mortes, de perdoar todas as iniquidades que em vida me infligiram – sim, temos de perdoar nossos inimigos, jamais antes, porém, de eles serem enforcados.

(Tradução de Marcelo Backes.)

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Se você estiver em Santa Maria ou arredores, não perca!

Lançamento no dia 6, quinta-feira, 17h30, dentro da Feira do Livro de Santa Maria. Vá lá nem que seja apenas para dizer ao Farinatti que “confins” é a PQP!

P.S.: Katarina Peixoto, em seu Facebook:

Gritaria gremista é uma das mais fortes evidências de que a evolução das espécies não segue qualquer causalidade final. Vários estágios evolutivos podem conviver e a idéia mesma de salto evolutivo é suficientemente problemática para esvaziar quaisquer fantasias finalistas. Eu amo os chimpanzés e gorilas. Não é deles, exatamente, que tento me servir para comparar. Que coisa.

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Pré-leitura de Dom Quixote

2005 foi o ano em que se comemoraram os 400 anos da primeira edição do Dom Quixote. Na época, programei uma homenagem particular ao livro — relê-lo — , mas não o fiz. Faço agora.

Antes de reenfrentar o Quixote, quero fazer um comentário comparativo entre a impressão que tive ao lê-lo pela primeira e única vez, aos 16 anos, e certas interpretações atuais. Durante um Fórum Social Mundial falou-se muito no Quixote como uma utopia, mas não creio que isto tenha muito contato com a história contada por Cervantes. Utopia (palavra do latim moderno, com origem no grego oú, “não”, e no grego tópos, ‘lugar’), utopia, repito, segundo Thomas Morus, é um local e uma situação ideais; isto é, refere-se a um país e a um governo imaginário que proporciona excelentes condições de vida a um povo feliz. Ironicamente, utopia significa não-lugar ou lugar nenhum… Não sei o que esta definição tem a ver com a história do Engenhoso Fidalgo, um personagem que aplicava sua fantasia para transcender sua circunstância imediata e que é destituído de projetos para si e seu país ou, melhor dizendo, refaz seu projeto cada vez que pensa ou vê algo que o interesse.

Sua fantasia forma gloriosa e minuciosa antítese com o ultrarrealismo de Sancho Pança. É na oposição de Quixote ao senso comum de Sancho que está grande parte da riqueza do livro. A capacidade do Quixote de adaptar-se e de manter seu idealismo acima da vulgaridade, leva-nos a acreditar que haja outro bom senso, único e pessoal, a lutar contra o marasmo e o comum. Mas não pensem em Sancho como um personagem desagradável, politicamente correto (…)  ou como “o representante da vulgaridade”, nada disso. Ele é engraçado e inteligente, estando sempre disposto a piadas e a citar oportunos adágios populares (Populares ou era Cervantes quem os criava?).

Cervantes é o fundador do romance moderno; no Quixote há personagens representando idéias e as situações falam, representando ideias, sem a necessidade de maiores explicações do autor. Escrito como só um grande romancista e poeta poderia fazê-lo – pois, como vocês sabem, Cervantes era também poeta e dramaturgo –, Dom Quixote foi o único livro que me fez chorar durante sua leitura. Eu adoraria que ele repetisse o feito 34 anos depois. (Fiquei feliz quando li, nos Diários de Virginia Woolf, que ela sempre derramava algumas lágrimas, furtivas ou não, quando abria seu Quixote. Isto me une a ela de alguma forma, já que somos tão antípodas em termos de talento.)

P.S. – Vocês sabiam que Shakespeare e Cervantes morreram exatamente no mesmo dia, no dia 23 de abril de 1616?

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Milton Ribeiro entrevista PQP Bach

MR: Como começou o blog PQP Bach?

PQP: Olha, o PQP começou como um spam para os amigos. Eu sempre fui um distribuidor de música e livros… Na adolescência, uma admiradora me chamava de “o guri dos discos” porque eu estava sempre levando discos para alguém ou trazendo de volta para casa. Então, alguém me pedia um CD e eu convertia para mp3 e mandava. Depois, passei a mandar para um grupo de conhecidos interessados em música. Alguns poucos agradeciam, outros silenciavam. Mas dois dias depois, eu ia no rapidshare e via que mais de 20 tinham baixado o CD. Era uma popularidade incrível (risadas…). Aí, pensei que seria legal deixar disponível para a blogosfera, apesar da blogosfera ser pouco musical…

MR: A blogosfera não é musical?

PQP: O mundo é muito pouco musical. Ou raramente ouve música de qualidade, óbvio. A porcaria grassa.

MR: Espere! Vamos por partes. A gente já falou superficialmente sobre popularidade e já estamos na qualidade. Voltemos à popularidade. 20 downloads em 2 dias?

PQP: Isso naquela época. Hoje, há 20 downloads em duas horas. Sei lá como os caras descobrem as postagens. Talvez pelo RSS. O que sei é que os caras se atiram em cima. Chego a me sentir mal quando não postamos um CD por dia. Temos que alimentar essa gente! Hoje, postamos mais de um por dia, em média.

MR: Por que vocês fazem este, digamos, serviço?

PQP: Sinceramente, não sei. Desconheço o motivo de algumas pessoas fazerem blogs anônimos para distribuir a música que gostam. Nunca ganhei nada fazendo isso. Talvez seja uma manifestação de minha culpa por possuir uma obscena quantidade de discos de vinil, uns 1200, uma cedeteca enorme e gigas de mp3. É nojento e obsceno ser dono de tudo isso. Dou muitos de meus CDs com músicas repetidas e que acho que não vou mais ouvir. É necessário e, para ser politicamente correto, ecológico reaproveitar esse material precioso, muitos deles fora de catálogo. Mas, internamente, eu não vejo a coisa pelo lado da generosidade ou da solidariedade. Talvez a coisa toda se resuma na necessidade que tenho de conversar e dialogar com pessoas que tenham interesses parecidos. Então, ofereço o que tenho e os caras aparecem.

MR: Então os comentários são fundamentais ao blog.

PQP: Pô, sem dúvida. Eu quero e busco o papo. Temos que nos unir de alguma forma. Acho que a cultura relevante está se tornando coisa de especialista. E isto também na literatura. Os amantes da literatura de primeira linha tem que ir ao blog do Sérgio Rodrigues ou a alguns outros poucos para ler algo mais atualizado sobre o movimento editorial. É irritante. Não há uma crítica literária ou musical que seja pública. Os cadernos de cultura estão tomados por uns caras chatos pra caralho – exceção feita à Rascunho. Parecem uns acadêmicos precisando de mais titulação. Ninguém fala para o leitor comum nem para o conhecedor. Quem lê aquela merda mesmo?

MR: Sei lá. Meu maior ídolo literário é Tchékhov. Conheço profundamente o cara. Dia desses, li um sujeito que tornava Tchékhov um chato, ou que parecia… parecia que suas teses sobre Tchékhov poderiam se aplicar a qualquer outro escritor. Era um troço dificílimo de ler, todo verboso e intrincado. Mas, quando reli e tentei entender… era uma idiotice sem conteúdo, sem direção, merda pura. O cara não dava opinião, parecia um tucano em cima do muro. Era “correto”.

PQP: Sim, o vazio intelectual está presente também na música. Procuro escrever de forma sempre compreensível, ou copio caras que escrevem de forma clara e também meio irreverente e acessível. Porque Beethoven e Bach e Mozart e esses gênios não foram pessoas reverentes ou politicamente corretas. A partir do momento em que alguém tem algo a dizer — e eles tinham, como pensar que não? — , algo para expressar, eles vão provocar concordância ou não, consonância ou dissonância. Só a mediocridade provoca reação nenhuma. E hoje ser controverso é uma ofensa. O bom é ser incontroverso, ou seja, comum, medíocre, produtor de coisinhas inodoras.

MR: É, você tem razão. Mas como surgiram seus companheiros de blog?

PQP: Olha, não conheço nenhum deles pessoalmente… E um é de Porto Alegre, veja só. Primeiro veio o FDP Bach, um cara de Blumenau que conheci no Orkut. O que eu apreciei logo nele é que ele gostava da música que para mim é quase nada, a romântica. Ele vinha com os Chopins, Rachmaninovs, Liszts e assemelhados da vida e via transcendência naquilo… Quando vi que não daria conta das postagens quase diárias que hoje fazemos, pensei nele. Eu não queria um segundo eu que postasse as mesmas músicas. Queria outra personalidade, queria um diálogo com alguém diferente. E ele é um cara perfeitamente maduro, compreende que somos diferentes. O Blue Dog veio pela enorme capacidade que o cara tinha de descrever música. Uma vez, pedi que o Blue Dog desse uma noção de jazz para meu filho. Passou uma semana e o cara me mandou um e-mail com mais de 20 páginas e mais dois CDs pelo correio. Uma coisa brilhante que o cara fez improvisadamente, na hora. Um absurdo a inteligência e capacidade do cara. Não tive outra escolha. Adoro jazz, claro, e o Blue Dog gosta de meu ídolo Charlie Mingus. Era uma escolha lógica. Este foi o núcleo inicial. Depois, dentro do mesmo critério, vieram o CDF Bach – música moderna – , o Ciço Villa-Lobos – música brasileira –, o Marcelo Stravinsky e o Carlinus – tudo e mais um pouco – e o Avicenna, que faz um belo e inédito trabalho sobre a música colonial brasileira. Todos partem destes pontos, mas podem postar o que quiserem.

MR: Vai entrar mais gente aí?

PQP: Não sei. Provavelmente sim.

MR: Podemos voltar à questão da qualidade?

PQP: Sim, como?

MR: (risadas) Ora, como vocês escolhem as obras? Há uma coerência? Um plano?

PQP: Não, de modo algum. A regra é agir sem estresse. Ninguém corre para atender pedidos e nem para postar. Faz quando quer. Meu critério é o de postar o que ando ouvindo. O PQP não é um curso de música ou uma sistematização para formar uma discoteca básica para nosso público (risadas), faço uma bagunça mesmo. Não me preocupo com os pedidos, a não ser que o cara acerte em cheio ou perto a música que estou ouvindo. Acho que os outros também agem assim.

MR: Então vcs só ouvem música de qualidade?

PQP: Olha, talvez sim. Posso falar por mim: não sou mais um jovenzinho, não posso perder tempo com porcaria.

MR: Pois é, isso é incrível. Dia desses, um amigo me pediu para ler o Marcelino Freire, uma bosta de escritor nascido nos blogs. Eu não quis ler. Disse que preferia seguir lendo a obra de Bolaño e Freud.

PQP: Ah, é óbvio. Sim, eu li aquela menina gaúcha. Blogueira, Clara….

MR: Averbuck?

PQP: Sim, li um livro dela e uma tradução que ela fez de Swift.

MR: Bem, você é masoquista. Isto é uma novidade. Os ouvintes do PQP jamais imaginariam…

PQP: (risadas) É, era tão ruim que fiquei fascinado… Nem chega a ser kitsch, é pré-kitsch, pré-escrita, pré-antigo, pré-rupestre.

MR: Mas, voltemos à questão da qualidade e de vcs ouvirem só boa música.

PQP: Não, eu não ouço só música de qualidade. Há muita porcaria e eu posto no mesmo jeito. Digo que não gostei, posto porque alguém pode gostar ou querer conhecer. Não sou politicamente correto, não fico só elogiando. O politicamente correto implica, NECESSARIAMENTE, em concessão.

MR: As gravações vêm do teu acervo de CDs comprados?

PQP: Sim, uns 70%. Apesar do preço absurdo, ainda compro CDs. A Amazon vende usados. É uma boa e sou um pouco fetichista. Gosto de girar o CD nas mãos enquanto ouço. Gosto de ler os libretinhos, as opiniões, a história, as circunstâncias, o escambau.

MR: Daí, o acervo, a tal cedeteca.

PQP: Claro.

MR: O PQP tem textos.

PQP: Sim, e é o que mais gosto nele. A música se consegue. Uma opinião, mesmo uma bem imbecil, vale muito, principalmente se o leitor conhece pouco, se não tem vivência. Acredito que se aprende a ouvir com os outros, com o contato. O contato motiva, certo?

MR: Certamente. Cria um ambiente propício. Deixa a pessoa mais ligada, talvez.

PQP: Sim.

MR: Onde você aprendeu tanto sobre música?

PQP: Veja bem, eu não sei nada. Não leio partituras nem toco nenhum instrumento. Sou um fenômeno do século XX e XXI: sou um ouvinte. Um cara que pode ficar 12 horas ouvindo continuamente música, um gênero de pessoa impossível nos séculos passados. Aprendi muito sobre história da música — consulto muito pouco quando escrevo minhas pequenas introduções, gasto um tempo mínimo — , aprendi lendo e ouvindo. Mas os músicos elogiam o blog deste ignorante. De tanto ler e ouvir, posso ter desenvolvido alguma sensibilidade. Já não sei onde aprendi isto ou aquilo, onde aprendi e reconhecer isto ou aquilo, devo estar sempre pecando contra o rigor e a precisão, cometendo absurdos, mas os leitores são bonzinhos e deixam passar… Mas meus erros provém de convicções desenvolvidas ao longo dos anos, de meus gostos e sentimentos, então são convincentes! Tá pensando o quê?

MR: É importante ser convicto, mesmo que equivocado! (risadas) E a questão das interpretações com instrumentos autênticos?

PQP: Olha, cada época tem seus instrumentos e sua forma de interpretar. O importante não é utilizar os instrumentos de acordo, mas não misturar. O Celibidache toca a Missa de Bach e é brilhante, tudo com instrumentos atuais. Ele tem o direito, ele tem o que dizer sobre a Missa. E ele, assim como qualquer outro, não está proibido de tocar, desde que possua senso de estilo e que saiba “criar beleza”, por assim dizer. Assim como as interpretações do Leonhardt, do Harnoncourt e do pessoal do Musica Antiqua, que só usam instrumentos originais. O que não pode é o cara que usa instrumentos atuais fazer uma coisa hesitante e sem estilo, como o Karajan fazia quando tocava Bach ou Vivaldi. E nem pode o cara da instrumentação original pensar que está livre de interpretar a música. Normalmente, a gente é indulgente com o sujeito que respeita a sonoridade de época. É ridículo! O executante tem que tentar tornar a coisa interessante sempre!

MR: Sim, e é muito empobrecedor para nossa época pensar que não podemos renovar e demonstrar novas riquezas na música do passado.

PQP: Claro, isto é o mesmo que dizer que Glenn Gould era um inútil. Ele passou a acentuar notas e coisas que eram antes ignoradas. Ele acabou com a Landowska… Ele, com um piano moderno, virou tudo de cabeça para baixo. Ele criou a interpretação monumental do Hantaï para as Goldberg. Ou seja, ele criou o cara que veio a superá-lo. É óbvio.

MR: Mais diálogos.

PQP: Sim, claro. Tudo é assim. A gente sobe nos ombros dos visionários, como dizia Newton. Não tu, falo do Newton com “N”. Do Isaac.

MR: Um epígono dos muitos que tenho…

PQP: (risadas) Por falar em epígonos, fomos copiados no PQP.

MR: Ah, eu vi. Um guri copia o post inteiro para seu blog e não diz quem é o autor.

PQP: Pois é. É a putaria da Internet. Não custa nada fazer um link dizendo: olha, copiei daqui.

MR: Para terminar, e os muitos links expirados?

PQP: Olha é impossível manter mais de 1500 posts com os links ativos. As gravadoras mandam tirar. Não podemos ser um repositório ou uma biblioteca de música. As pessoas têm de baixar logo. É uma caçada, a gente deixa disponível ali; então, vêm uns caras vindos do éter e detonam com parte da coisa. É horrível.

MR: Bom, vamos acabar o papo. Podemos fazer aquela frescura do Questionário do Proust?

PQP: Bernard Pivot? Tu gosta daquele questionariozinho… Putz, mas não garanto nenhum brilhantismo.

MR: Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

PQP: A incapacidade de colocar-se no lugar de outro. A falta de empatia.

MR: Como gostaria de morrer?

PQP: Sonhando.

MR: Qual é seu estado mental mais comum?

PQP: Um tumulto generalizado. Muitas coisas por fazer. Atraso. Preocupações. Estresse.

MR: Qual é o seu personagem de ficção preferido?

PQP: Adrian Leverkühn ou eu mesmo.

MR: Qual é ou foi sua maior extravagância?

PQP: Não sou nada extravagante. Mas acho que uma biblioteca ou uma cedeteca grande é uma extravagância, não?

MR: Qual é a pessoa viva que mais despreza?

PQP: Desprezo são algumas atitudes, omissões. Ninguém é 100% desprezível.

MR: Qual é a pessoa viva que mais admira?

PQP: A mesma coisa, admiro atitudes, posições. Não existe alguém 100% admirável!

MR: Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

PQP: Num CD Player ou numa daquelas luzinhas de ler à noite. Ou em qualquer cara rico, heterossexual e de bom gosto.

MR: Em quais ocasiões costuma mentir?

PQP: Eu exagero as histórias que conto. Elas se tornam outra coisa.

MR: Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

PQP: Um jantar com Mônica Bellucci; ao fundo, as suítes para violoncelo de Bach. Depois do jantar, em local mais confortável e horizontal, uma Cavalgada na Valquíria, mas sem a música, só com o espírito dela.

MR: Qual é seu maior medo?

PQP: O de tornar-me um peso para os outros.

MR: Qual é seu maior ressentimento?

PQP: Tenho ressentimento contra a injustiça do tempo, de não ter tempo para tudo, de envelhecer, de cansar.

MR: Que talento desejaria ter?

PQP: O de adivinhar os pensamentos das mulheres. (risadas)

MR: Qual é seu passatempo favorito?

PQP: Ouvir música, ora.

MR: Se pudesse, o que mudaria em sua família?

PQP: Daria um velho riquíssimo e moribundo à minha mãe. Bem moribundo e apaixonado. E, fundamentalmente, generoso.

MR: Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Dizer que os miseráveis não sofrem tanto, que se acostumam a sua situação. E deixar assim.

MR: Onde desejaria viver?

PQP: Numa Porto Alegre mais culta e menos quente. Numa cidade com mais teatros, música e literatura. Numa cidade que mereça esta denominação.

MR: Qual a virtude mais exagerada socialmente?

PQP: A inteligência. Pois a pessoa precisa ser mais completa, né?: deve ser um pouco inteligente, um pouco solidária, um pouco atenta aos outros, não deve mudar demais face às circunstâncias nem ser egoísta, deve ter reações adequadas e calmas, etc. Mas o cara que é só inteligente é o mais admirado.

MR: Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

PQP: A serenidade, como tu escreveu dia desses. Ela é alegria, tranqüilidade, clareza e… E?

MR: Sabedoria.

PQP: Tudo numa só palavra.

MR: Foi Marcelo Backes quem escreveu isso. Não fui eu. Concordo com ele. Qual é a maior das músicas?

PQP: Hoje, a Oferenda Musical de Bach. Amanhã, pode ser outra.

MR: E os cinco maiores compositores?

PQP: Meu pai, Brahms, Beethoven, Bartók e Mahler.

MR: Quando e onde você foi mais feliz?

PQP: Acontece muito quando ouço música.

MR: Acabou.

PQP: A entrevista? Nem doeu muito.

MR: Ótimo.

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Tudo em doses homeopáticas, até a cerveja

Há noites em que nada acontece e há outras em que tudo acontece no mesmo horário. Ontem, eu receberia uma pessoa aqui em casa às 19h, neste horário começaria um debate sobre a ficção de gênero na Palavraria. Meu compromisso caseiro acabou logo e corri para o debate. Nossa, estava ótimo — em outra faixa, pude comprovar meio constrangido a popularidade deste espaço…, algumas pessoas quase fizeram tietagem, fiquei feliz demais, imagina se não? — , o Xerxenesky, o Samir e o Carlos André Moreira conhecem literatura, são bem-humorados e sabem se expressar, o que nem sempre ocorre com escritores. Só que eu tinha prometido ir ao concerto da OSPA com minha mulher, o qual começaria às 20h30. Saímos (sumimos) à francesa e chegamos am cima da hora na OSPA. Credo, a primeira noite dedicada aos 200 anos de nascimento de Schumann absurdamente chata, realizada por músicos sem o menor tesão. Salvou-se a Sinfonia Nº 4 na segunda parte do Concerto, mas eu estava com uma fome de anteontem e só pensava no jantar com o Branco e a Jussara, muito mais legais do que aquilo que acontecia no palco.

Resultado: chegamos em casa muito tarde para uma terça-feira e a cerveja Bluehead foi a culpada de eu começar o dia de hoje com uma hora de atraso. Ah, por falar em musica, deixo-vos com duas resenhas alucinadas de P.Q.P. Bach, do blog erudito de mesmo nome, ambas publicadas nesta semana.

J. S. Bach (1685-1750): Bach Attributions

Por uma dessas coisas inexplicáveis, a obra para órgão de Bach está fora de moda. Algumas pessoas acham que o som do órgão é tão irritante quanto os padres pedófilos de Ratzinger — o qual parece preferir sexo com crianças do que entre adultos — , mas é bem no órgão que Bach realiza suas maiores experimentações. (Ah, acharam que eu ia fazer uma piada com o órgão sequiçual, né?) Mas retornemos ao que interessa: o que há de peças amalucadas na Orgelwerke é uma grandeza! E eu gosto. Muito! Este CD é sensacional por diversas razões.

(1) O organista é do caralho (ou do órgão, como queiram);
(2) O repertório, apesar de evitar os experimentalismos, está longe dos lugares-comuns;
(3) A produção da Hyperion é fodal;
(4) O CD está fora de catálogo até em Marte e
(5) Fique tranquilo, você não terá de ouvir a Toccata e Fuga em Ré Menor de novo.

E ah, vocês sabem como era a nossa família. Vinte filhos e aquele entra e sai de alunos, todos interpretando peças de sua preferência e criando outras. Então, alguns historiadores de ejaculação precoce pegaram tudo isso e disseram que era de Johann Sebastian, mas nem sempre era… Neste disco há peças de vários Bachs, de outros agregados que tentavam comer minhas irmãs e de todo o tipo de gente que queria a cerveja de meu pai. Havia por lá um certo Ratz que só se interessava pelos meninos e meninas de menos de dez anos… Bem, era uma zona e até isso se reflete neste baita CD.

CD IM-PER-DÍ-VEL !!!! (como diria o véio Ratz observando um pré-púbere)

Béla Bartók (1881-1945): Sonata for Solo Violin / Leoš Janáček (1854-1928): Violin Sonata / Claude Debussy (1862-1918): Violin Sonata / Serguei Prokofiev (1891-1953): Violin Sonata Nros 1 e 2 / Igor Fyodorovich Stravinsky (1882-1971): Divertimento

Viktoria Mullova é um das preferências absolutas deste filho de Bach, que também a acha bonita, apesar da notícia que FDP Bach me passou: ela agora estaria jogando em nosso time, disputando as moças. Como provavelmente não iria comê-la mesmo, tanto faz. Mas a sonoridade desta moscovita é coisa de louco.

A peça de Bartók é uma peça de Bartók, isto, é, é esplêndida e o mantém entre os 3 maiores Bs da música erudita, os quais permanecem como os maiores mesmo quando se usa todas as outras letras do alfabeto. Quem são os três? Ora, Bach, Brahms, Beethoven e Bartók.

A peça de Janáček é igualmente sensacional. Música bem eslava, sanguínea e cheia de surpresas e belas melodias, combinando perfeitamente com Bartók.

Depois a gente brocha. Debussy… Debussy… Debbie…, o que dizer? Claude, apesar do tremendo esforço que fez para movimentar-se no primeiro movimento, é um gordo. Portanto, é meio estático. Para piorar, é também extático. Bem, hoje faz um lindo dia e dizem que é o Dia do Beijo, o que significa que eu deveria ir para a rua ver o que consigo. (Mas, olha, foi das melhores coisas que já ouvi do gordo Debbie).

Prokofiev! Ah, Serguei é outro papo. Já de cara ele mostra quão fodão é naquele tranquilo Andante assai e no furioso Allegro brusco que o segue. Sem dúvida, é um cara que valoriza o contraste… Nós também detestamos o total flat, a gente gosta tanto dos mares piscininha quanto das descidas vertiginosas; afinal, os acidentes geográficos é o que faz a beleza da paisagem, né? As duas Sonatas de Prokofiev são notáveis.

Stravinsky… Sei que meus pares aqui no blog são admiradores do anão russo e adoro provocar, só que não dá, o cara é bão demais, raramente erra. Será que o gordo Debbie escreveu alguma coisa chamada “Divertimento”? Ele se divertia com o quê?

IM-PER-DÍ-VEL !!!!

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Um novo produto – superior ao Kindle e ao IPad: Book

Via Hupper, só para variar.

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Tolstói é engraçado?

Dickens, George Eliot, Jane Austen, Smollet, Fielding, they’re all funny. All the good ones are funny. Richardson isn’t, and he’s no good. Dostoyevsky is funny: The Double is a scream. Tolstoy is funny by being just so wonderfully true and pure. Gogol, funny. Flaubert, funny. Dickens. All the good ones are funny.

MARTIN AMIS

Será que Martin Amis estava brincando ou apenas forçando a barra para sua tese? Ele não parece ser nada primário… Esta entrevista é muito interessante e contém boas doses de razão, mas daí a considerar Tolstói um escritor cômico em função de sua verdade e pureza é um pouco demais… E a curta lista de Amis não possui Sterne (ver resenha de Tristram Shandy aqui) e Swift, mas ao menos ele lembrou de Fielding. Ignorando o restante da entrevista e fixando-me na citação dos engraçados e bons — ou da noção de que apenas os engraçados (ou divertidos ou estranhos) podem ser bons — , lembro sou das poucas pessoas que ri com Kafka e Bernhard. E Borges? Entra na acepção de “divertido” da palavra funny (= lots of fun) de Amis ou está fadado a ser ruim? Sei lá.

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O que torna ruins os livros ruins?

Ora, um monte de coisas, mas acho que o pior de tudo é a construção de um conflito desinteressante, piegas ou cheio de clichês. Ou má construção de um conflito, ignorando a seu potencial. Os clichês incomodam muito, mas quando peguei um livro de Ian Fleming (007), o himalaia de clichês era tão impressionante que era divertido… Parecia Tarantino… Aliás, quando assistimos a um filme do 007, esperamos exatamente o clichê e ai do diretor que não nos satisfizer. Não li Dan Brown, mas o filme feito sobre O Código da Vinci é outro interminável e desagradável desfiar de clichês. A falta de charme e de originalidade é uma merda, mesmo.

Eu adoro os inícios dos romances de Balzac. Quase sempre, eles começam com uma calma e elegante apresentação dos personagens. O texto avança e nos açambarca, pois já traz os conflitos grudados a cada um dos personagens como parasitas. Mas ele escreveu o desagradável A Mulher de 30 Anos, um dos maiores exeplos de ruindade que conheço. Ele estava com pressa ao escrever, tinha dívidas e fez uma desgraça de livro.

Nunca uma capa disse tanto sobre um romance

Tenho certeza de que a identificação de uma má redação é intuitiva. A correção gramatical pode ser chata, o tom pode ser chato, o brilhantismo pode ser chatíssimo, Eu não sei porque alguém tem má redação ou é chata, mas há gente muito capaz que é desinteressante. É uma pena quando um desses escritores descobre um bom tema. Dia desses, li um livro que era um porre. Era de um blogueiro. O cara sabe escrever, mas a construção da novela era (muito) periclitante, até paradoxal, e ainda o acompanhava uma nota final – havia outra, a inicial… – em que o sujeito justificava as mancadas ou, em outras palavras, sua ruindade. Insuperável chatice arrogante, pois há pessoas que apenas usam o romance para chamar a atenção das pessoas para suas existências, independentemente do texto produzido. Sei que escrever é vaidade; sei melhor que escrever bem é a vaidade recebendo a admiração alheia. Um bom mutualismo!

Também há os que têm seus modelos literários e tentam desesperadamente alcançá-los (no caso de autores) ou procurá-los (no caso de críticos). “Infelizmente, alguns dos meus colegas da Universidade julgam tudo pela proximidade a Ulisses, de Joyce, o qual releem anualmente”, li num artigo. Se o Charlles Campos, leitor e comentarista habitual do blog, julgasse tudo sob um filtro – o qual seria certamente imaginado por ele – de Faulkner, eu o chamaria de imbecil para baixo. Seria o mesmo que eu, kafkiano de quatro costados, admirar o austríaco que escreve em um só parágrafo por seus incertos e tênues parentescos com o tcheco. Durante anos a literatura brasileira sofreu do Efeito Clarice. Um monte de gente queria ser Clarice Lispector. Houve grandes epígonos que livraram-se em bom momento da sombra ucraniana – Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll e poucos mais – , mas imitar Clarice… Por quê? E para quê imitar a mais pessoal das escritoras? Ah, e céus, como escreveram porcarias!

(um dia qualquer, continuo)

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2666, de Roberto Bolaño (3ª Parte – La parte de Fate)

Na terceira parte de 2666, abandonamos o professor Oscar Amalfitano em sua descida aos infernos da psicose para seguirmos o repórter novaiorquino Oscar Fate. Fate trabalha numa revista voltada para a população negra do Harlem. Sua mãe acaba de falecer e Oscar deve providenciar seu enterro em Detroit, depois ele vai entrevistar um ex-Pantera Negra e, quando pensa em retornar, recebe a missão de ir à Santa Teresa, uma cidade mexicana fictícia na fronteira com os Estados Unidos, a fim de fazer a cobertura de uma luta de boxe, esporte sobre o qual pouco sabe. Lá, fica curioso a respeito de outro assunto: as centenas de mulheres que ão assassinadas e que no mais das vezes aparecem mortas no deserto.

As cenas de Detroit são efetivamente esplêndidas, tanto com o ex-Pantera Negra como com um comunista americano que ainda mantém sua célula ativa. A parte mexicana do capítulo funciona mais como um portal para apresentação da cidade de Santa Teresa, seus crimes e misoginia. Enviado para cobrir uma luta de boxe, Bolaño nos enreda com a cultura local. Há drogas, submundo, alguma bizarria e há o machismo, o machismo, o machismo. Enfim, é o mundo do boxe. Nesta parte, a prosa começa a pender para o noir, com uma galeria de personagens que parecem ser culpadas de algo – mas como saberemos? – , à exceção de Rosa Amalfitano, filha do Oscar da segunda parte, e de Guadalupe Roncal, a amedrontada repórter que foi escalada para investigar e escrever sobre as mortes das mulheres.

É muito estranho como uma certa irrealidade tomou conta de mim durante a leitura. O que fará Fate? Qual é o motivo de seu sobrenome? O que ele faz lá? Por que ele não se decide a nada e deixa ser levado até que as circunstâncias o engulam ou não? Então, acontece que nós é que nos tornamos os detetives de verdade, tentando captar no mar de detalhes que nos é oferecido o atordoamento de Fate e seu, bem, destino. Bobagem sublinhar que nunca há uma resposta clara, pois no jogo de Bolaño, só não nos decepcionamos com o texto. O resto mais parece um quebra-cabeças de milhões de peças no qual uma peça não tem nada a ver com a outra.

Sigo a leitura ainda mais entusiasmado.

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Preciosos linques matinais

Arte: o que dizer desta maravilha do Hupper? Achei aqui. É a papinha de Edvard Munch. Devia gritar muito.

Literatura: um blog só de entrevistas de Bolaño? Pois é. Espero que sejam postadas as entrevistas que há no YouTube e as realizadas com seus amigos a respeito do homem que foi Bolaño. Há coisas muito legais cercando o chileno. O blog é do Lucas de Sena Lima e do Daniel Fernandes Vilela.

Futebol: o Luís Felipe dos Santos chega à conclusão de que é um perfeito idiota. Nós também.

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Domingo banal

Ele odiava os finais de tarde de domingo. Não havia pior hora. A semana era suportável em sua rotina de trabalho, cansaço e sono; o sábado era o dia de fazer as compras da semana, de jantar com a mãe e de ir ao cinema; porém aquele horário dominical de completo ócio, em que sentia possuir forças além da necessidade, era terrível. Sentado na sala, pôs um CD e começou a organizar mentalmente a agenda da semana. Sua angústia crescia ao notar os compromissos avolumando-se. Havia os imediatos e os outros, piores, que costumeiramente eram deixados para depois. Procurava organizar-se. Ergueu-se e, deixando o volume da música mais alto, foi ao armário de remédios procurar um calmante. Pegou o comprimido e abriu a geladeira para servir-se de água. Viu um garrafão de vinho pela metade. Largou o comprimido sobre o esmalte branco da geladeira, apanhou o garrafão, um funil e, cuidadosa e amorosamente, passou a dividir o conteúdo do garrafão em garrafas menores. Deixou os três frascos iguais exatamente no mesmo nível e procurou rolhas. Enfileirou o resultado na porta da geladeira, desligou a música e ligou a TV.

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Machado de Assis e Cees Nooteboom

O grande escritor holandês Cees Nooteboom — eterno candidato ao Nobel que estará na próxima Flip — é um viajante. Não, não no sentido de ser um cara desligado da realidade, é um viajante mesmo, desses que vão de um país a outro sem parar. Então, ele resolveu escrever o livro Tumbas, onde revela sua busca por 82 túmulos de escritores e filósofos em todos os continentes. Dentre os 82 estava, é claro, o de Machado de Assis.

Então Nooteboom (seu nome diz-se “seis notebom”) chegou ao cemitério de São João Batista em Botafogo. Estava acompanhado de sua esposa e do diretor do Instituto Goethe do Rio. Queria encontrar o túmulo de Machado de Assis. Dirigiu-se à administração. O atendente disse-lhe que daquele jeito não ia dar, precisava do primeiro nome.

— Sem o primeiro nome do presunto não dá — invento eu.

Cees e sua mulher não lembravam do primeiro nome e voltaram à carga.

— Mas o senhor não conhece o grande escritor Machado de Assis, o maior do Brasil? Ele está enterrado aqui!

— Sei não… — fantasio novamente o homem do cemitério.

Demorou, mas acabaram encontrando. Assim começa o mais novo livro de Nooteboom. Depois, a mulher do autor, fotógrafa, registrou o túmulo. Céus, é mínimo, é um quase nada! Sou quase indiferente aos cemitérios, mas, cá para nós, Machado merecia um túmulo à altura. Ironia, recebeu o túmulo que receberia o Conselheiro Aires. Algo para ser esquecido.

Um dia, meu amigo Dario Bestetti disse uma frase inesquecível:

— Milton, o lugar correto de se guardar os vinhos é na memória.

Dario, acho que tua frase servirá também para o maior escritor brasileiro. O local onde estão guardadas as sobras (evito a palavra “restos”, por demais respeitosa num contexto de descaso) de Machado de Assis — que mereceria estar no centro de uma praça cheia de loucos, adúlteros, jovens inseguros, empregados do governo e senhoras concupiscentes, todos passeando sob seu irônico busto, talvez de cabeça baixa, com um leve sorriso nos lábios — é uma bosta.

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Os ípsilons de Bolaño

Anteontem, estava lendo 2666 (terceira parte: La parte de Fate), de Roberto Bolaño. Na página 332 o personagem Fate chega a seu quarto de hotel para dormir. Liga a TV. A princípio, Fate fica deitado e vê um desses programas de humilhação de gente gorda, tão comuns na TV inglesa. Marido e mulher batem boca, um deles arranjou uma amante. A(o) amante intervém. Fate dorme.

O notável é que Bolaño segue impavidamente descrevendo o que passa na TV. É inusitado e é maravilhoso para a narrativa. Não tenho grandes pretensões de entender o que Bolaño quis exatamente exprimir, se é que quis. Fico com a opinião de Isak Dinensen (Karen Blixen), que defendia não ser fundamental entender tudo aquilo que os escritos poéticos — pois é poesia o que faz Bolaño com sua TV — podem ou devem significar. Depois, cansado da TV, Bolaño passa a acompanhar um sonho de Fate que, de forma enviesada, tem a ver com a narrativa. É como se a narrativa estivesse subindo, evoluindo, e repentinamente se abrisse num Y. E o Y logo é abandonado, pois Bolãno já está envolvido com outra história. Nós também.

Este insistente uso da fratura, a capacidade que Bolaño tem de sempre nos interessar por outra e mais outra narrativa é a maior característica de 2666 e Os Detetives Selvagens. É uma voz que parece saída de um sonho, sedutora e ao mesmo tempo desinteressada.

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Últimos livros lidos

O tradutor americano deu o nome de In Concert Performance para este Em Ritmo de Concerto de Nikolai Dejnióv. Lendo o livro, vê-se que o americano saiu-se muito melhor. O inventivo e amalucado livro deste escritor e físico russo é mesmo aparentado a uma enorme improvisação. Vagamente inspirado no realismo mágico, o romance conta a história de Lucário, um anjo que volta à terra ao apaixonar-se por Ana, o que o impedirá de seguir seu caminho em direção à purificação total. Claro, nada de terrivelmente original, mas o livro é delicioso, anticlerical e anti-stalinista. Ah, por falar em Stálin, ele quase foi assassinado por Lúkin – o Lucário em terra. Quase.

Eu queria gostar deste livro emprestado por uma querida amiga, mas não foi possível. O Duelo de Batman contra a MTV, além de um título apelativo, é uma série de poemas de Sérgio Capparelli baseados na relação entre um pai e um filho. A estrutura é interessante, são cinco seções: na primeira o pai fala ao filho, depois temos o filho sozinho, seguido pelo que diz o filho ao pai e pelo solo do pai, terminando com uma espécie de homenagem aos que os antecederam. Sem dúvida, uma boa idéia, não fosse o fato dos poemas mostrarem-se muitas vezes fora do foco do livro, como se tivessem sido primeiro escritos para depois entrarem à fórceps na estrutura inventada. O leitor tem que ter muito boa vontade para entender que aquela voz é a do pai ou a do filho, pois elas são muito parecidas. Há raros momentos em que são mostradas as diferenças e pontos em comum entre pai e filho assim como as dificuldades ou não de comunicação entre eles. Não há profundidade nem drama sincero. Um pasmo: a mãe, que se bem me lembro morreu durante o parto do filho, não parece ser uma falta muito importante para nenhum dos dois. O filho não é um mamífero.

Os Novos, romance de Luiz Vilela, foi comprado num balaio da Feira do Livro do ano passado. O exemplar que levei já tinha até tomado banho, suas folhas têm aquelas ondas que denunciam muita água. Deve ter custado uns R$ 2,00, mas pela diversão vale muito mais. Pode-se dizer que a história dos amigos candidatos a escritores é datada, pode-se garantir que é obra de um Vilela iniciante, pode-se reclamar que os caras não param de beber cerveja, mas, por favor, os diálogos são maravilhosos, vivos, humanos. E aqui há, de forma muito intensa, o conflito entre gerações que faltou no livrinho aí de cima. Outro pasmo: por que o livro não foi censurado se os caras cagam sobre os milicos? Ora, certamente porque nenhum censor deu importância a um livro editado pela obscuríssima e carioca “Edições Gernasa” em 1971… Agora, é um mistério como ele, depois de tanta água, foi chegar a mim num balaio da Feira do Livro de 2006.

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