Os monstros septuagenários (ou octogenários)

Os monstros septuagenários (ou octogenários)

Penso que a reposição de supercraques da música brasileira simplesmente não ocorreu. Dos mais jovens, quem poderia entrar naturalmente nesta lista? Talvez André Mehmari, Lenine, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro e Chico César. Há outros?

Caetano Veloso (7 de agosto de 1942 — idade 79 anos)
Carlos Lyra (11 de maio de 1933 — idade 88 anos)
Chico Buarque (19 de junho de 1944 — idade 77 anos)
Edu Lobo (29 de agosto de 1943 – idade 78 anos)
Egberto Gismonti (5 de dezembro de 1947 — idade 74 anos)
Elomar (21 de dezembro de 1937 — idade 84 anos)
Francis Hime (31 de agosto de 1939 — idade 82 anos)
Gilberto Gil (26 de junho de 1942 — idade 79 anos)
Guinga (10 de junho de 1950 — idade 71 anos)
Hermeto Paschoal (22 de junho de 1936 — idade 85 anos)
Ivan Lins (16 de junho de 1945 — idade 76 anos)
João Bosco (13 de julho de 1946 — idade 75 anos)
João Donato (17 de agosto de 1934 — idade 87 anos)
Jorge Ben Jor (22 de março de 1939 — idade 82 anos)
Marcos Valle (14 de setembro de 1943 — idade 78 anos)
Martinho da Vila (12 de fevereiro de 1938 — idade 83 anos)
Milton Nascimento (26 de outubro de 1942 — idade 79 anos)
Paulinho da Viola (12 de novembro de 1942 — idade 79 anos)
Paulo César Pinheiro (28 de abril de 1949 — idade 72 anos)
Rita Lee (31 de dezembro de 1947 — idade 74 anos)
Tom Zé (11 de outubro de 1936 — idade 85 anos)
Toquinho (6 de julho de 1946 — idade 75 anos)

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Bach é sinônimo de “música”, substantivo sem dono

Na Folha, em 18 de dezembro de 1999

Chega a ser difícil pensar nele como compositor. A música de Bach (1685-1750) tem uma autoridade tamanha, e há tanto tempo, que é quase sinônimo de “música”, substantivo sem dono. Desde o início do século 19, estudar composição é estudar a música de Bach e aprender piano — ou violino ou violoncelo — é aprender a tocar Bach.

Até hoje ninguém disputa com ele a supremacia no domínio da música religiosa — com palavras ou sem. Bach é o ponto de apoio da música na nossa cultura e é mais natural pensar nele como música do que como um homem que escrevia música.

Há uma certa ironia nisso, antevista num artigo antológico de Theodor Adorno, “Bach Defendido de Seus Admiradores” (em “Prismas”). O que os compositores fazem dele, absorvendo seus ensinamentos e os torcendo para seus próprios fins é uma coisa; outra, bem diferente, é o que faz a indústria cultural.

O mais humano dos compositores será neutralizado em monumento: Bach vira ideologia (conforto religioso, tema de festivais e competições) e mercadoria (música para ninar bebês, jingles de espera telefônica, trilha de comerciais natalinos). É uma ironia porque Bach, para Adorno, representa justamente “a emancipação do sujeito”, capaz de gozar da liberdade no domínio objetivo de todas as técnicas de composição da sua época.

Nesse cenário, as celebrações de 250 anos da morte de Bach, no ano que vem, fariam prever um carnaval soturno de produtos e promoções. Mas a tese de Adorno tornou-se obsoleta, em parte, devido ao resgate de Bach pela “alta” cultura, fruto do embrutecimento cada vez maior da “baixa”.

Bach foi salvo, paradoxalmente, pela decadência da cultura de massa, na qual uma música dessas não tem mais lugar. O que as gravadoras estão apresentando, desde já, para comemorar o número redondo, são coleções que impressionam pela magnitude e seriedade, grandes monumentos cujo sofisticado apelo comercial não diminui sua importância para os ouvintes de boa-fé.

É o caso das doze caixas integrando a série “Bach 2000”, da Teldec. São 153 CDs, com a obra completa de Bach: aproximadamente seis dias e meio de música. Nem tudo é novo na empreitada. Há gravações antigas do Concentus Musicus de Viena e do Leonhardt-Consort, interpretando cantatas, e curiosidades de arquivo, como as suítes para violoncelo, registradas na década de 60 por Nikolaus Harnoncourt (pioneiro da “autenticidade”, mas nesse caso decepcionante).

Há também surpresas, como as peças para alaúde-cravo, tocadas pelos músicos do Giardino Armonico; ou as fantasias para órgão, ornamentadas fantasticamente mesmo por Ton Koopman. (“Sem os ornamentos, essa música faz pensar no interior de uma igreja barroca devastada por um incêndio”, comenta Koopman no encarte.)

Sem pretensão de “obras completas”, a série Bach da Harmonia Mundi talvez seja uma pedida melhor para quem não tem muito conhecimento dos intérpretes -nem fundos ilimitados no banco.

Ao contrário da Teldec, que só vende caixas inteiras de doze ou mais CDs, os discos da Harmonia Mundi podem ser comprados um a um. Incluem gravações antológicas da música sacra (“Missa em Si Menor”, “Paixão Segundo São Mateus”, “Magnificat”), regidas por Philippe Herreweghe.

Nas cantatas para contralto, o solista é o contratenor Andreas Scholl, que está hoje para a música barroca como Ian Bostridge para a romântica: é o intérprete predestinado para nós (quem diria?), ouvintes predestinados.

Os CDs da Harmonia Mundi aderem impecavelmente aos princípios da interpretação autêntica; mas essa nova geração de músicos já chegou àquele ponto em que conhecimento e intuição viram uma coisa só. Escutam a música naturalmente, com o ouvido de dentro, sem o qual o de fora é só um pavilhão auditivo. Estrela entre estrelas, o violinista Andrew Manze reinventa a “Toccata e Fuga em Ré Menor” (mais conhecida na versão para órgão) com um fogo de imaginação que transcende todos os tratados, sem esquecer deles.

Para o mês de março, está previsto o lançamento também de um CD-ROM, “Johann Sebastian Bach – Uma Enciclopédia Musical”, com biografia, catálogo interativo, ensaios de musicologia e acervo de imagens. A invenção do CD-ROM não alterou rigorosamente nada nos hábitos da escuta; mas beneficia muito esse tipo de instrução, no qual o comentário vem junto com a música, e vice-versa.

Pode-se mencionar ainda outra coleção integral, do selo Hänssler Classic, com 171 CDs, sob a coordenação de Helmuth Rilling. Seria uma grande notícia, se não tivesse sido eclipsada, de antemão, pelas outras duas coleções, que são bem superiores.

Numa era de empobrecimento, inclusive intelectual, o advento dessas coleções ganha uma conotação quase religiosa: sustenta, ao menos, a religião de Bach e a paixão da música. Seremos nós as primeiras gerações a terem a possibilidade de escutar a obra completa de Bach, desde que foi escrita. O efeito de uma escuta sistemática dessas é difícil de prever. O que pode fazer conosco é assunto para a alma de cada um. O que há de fazer com a música é um assunto maior, que talvez não tenha interesse ainda, mas vai ter daqui a 50 ou 250 anos.

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Ainda sobre os 80 anos de Maurizio Pollini, comemorados anteontem

Ainda sobre os 80 anos de Maurizio Pollini, comemorados anteontem

Após anos ouvindo seus discos, vi Pollini em ação logo após a morte de Claudio Abbado, em 2014. Comprei o ingresso antecipadamente pela internet e, uns dois meses antes do concerto, com Abbado ainda vivo, recebi um e-mail informando que o longo programa tinha sido reduzido. Pollini pedia para retirar a Sonata de Chopin que contém a Marcha Fúnebre. Se eu quisesse poderia pedir de volta o $ do ingresso, etc. Fiquei quieto. Quando aconteceu o concerto, Abbado já tinha falecido. Na hora de Pollini entrar no palco, o locutor do Southbank Center de Londres disse que a Sonata de Chopin tinha sido recolocada no programa e que, de forma pessoal, Pollini dedicaria aquele recital à memória de seu amigo Abbado. O auditório pareceu tremer silenciosamente. Pollini entrou e tocou por 2h30. Sua Marcha Fúnebre foi linda, inspirada como jamais ouvi novamente. No final, deu vários bis e, no último deles, parece ter errado de forma proposital para que parássemos de aplaudir e o deixássemos ir para o hotel. Acho que aquele foi o recital mais emocionante, o momento máximo que tive dentro de uma sala de concertos.

(A Elena estava junto. Depois, fomos gastar o que não tínhamos num restaurante caro. Culpa do Pollini).

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O entusiasmo fundamentado (para o 80º aniversário de Maurizio Pollini)

O entusiasmo fundamentado (para o 80º aniversário de Maurizio Pollini)

Stefano Russomanno

Quando Maurizio Pollini venceu o Concurso Chopin de Varsóvia em 1960, fê-lo com uma maturidade musical que surpreendeu o júri. “Esse garoto toca melhor do que qualquer um de nós”, comentou Arthur Rubinstein na época. O controle técnico e intelectual que esse jovem pianista de 18 anos exibia em cada canto da partitura revelava uma capacidade de análise muito superior não apenas à média de seus contemporâneos, mas à de muitos talentosos intérpretes. Pollini aprofundou-se na essência do texto musical para revelar a lógica de sua construção, a coerência de sua estrutura e a precisão de seu ditado. Ainda assim, a música não era para ele um terreno governado pelas leis do determinismo impassível. Suas versões transmitiam um vigor na expressão de frases e ritmos que despertavam o entusiasmo do ouvinte.

Há algo de didático no estilo pianístico de Pollini no mais alto sentido da palavra. Interpretar, para o pianista italiano, implica ao mesmo tempo em esclarecer, explicar, fornecer ao público um fio condutor que lhe permite compreender os motivos pelos quais a música flui de uma determinada forma. O componente emocional, sempre essencial, deve vir acompanhado do elemento analítico e racional para alcançar a plenitude da mensagem na consciência auditiva.

Uma das marcas de Pollini é sua maneira de estabelecer seus programas de recitais. Neles, o pianista italiano tem-se caracterizado por misturar frequentemente peças do repertório clássico e romântico com obras do século XX (ou seja, de todo o século XX, não apenas das primeiras décadas). Para Pollini, a criação musical é um continuum que não conhece fraturas, uma forma de pensar os sons e, portanto, é errado isolar certas linguagens como se fossem compartimentos estanques. Seus esforços foram na direção oposta: mostrar o que é clássico nas páginas contemporâneas e o que é contemporâneo no repertório clássico. Assim surgem os chamados “Projetos Pollini”, nos quais o diálogo entre o passado e o presente ocorre da forma mais natural. Pode acontecer, por exemplo, que o público tenha ouvido na mesma noite o Hammerklavier de Beethoven e a Sonata para piano nº 2 de Boulez (uma obra que Pollini tocava de cor em sua época de ouro).

Precisamente o Hammerklavier, gravado em 1976, é uma amostra ideal das abordagens de Pollini. Principalmente a fuga final, que talvez seja o momento culminante de sua versão. Para além do espantoso controle técnico, à disposição de poucos pianistas, Pollini conduz o ouvinte pelos meandros do contraponto e revela toda a modernidade do pensamento beethoveniano, a forma revolucionária como o compositor molda os materiais (sublinhando, por exemplo, o carácter quase estrutural dos trinados) e seu revolucionário conceito sonoro, onde o discurso musical parece às vezes transfigurado em termos de pura energia.

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Por mais e melhores canções de Natal

Ontem, eu estava falando com um pessoal da música erudita de Porto Alegre. Nesta época de Natal, é normal que se interpretem músicas natalinas que vão desde O Messias de Handel e o Oratório de Natal de Bach, até as várias canções populares de Natal brasileiras e estrangeiras que recentemente passaram a incluir a, desculpem, muito xaroposa Hallelujah, de Leonard Cohen. (Sim, gosto de Cohen, não gosto é desta canção).

Mas, nos últimos anos, eu noto a ausência da mais laica Happy Xmas (War Is Over), de John Lennon, que é excelente para corais — por favor, esqueçam Simone, esqueçam Simone… Por que deixam esta música de fora?

E, sonho impossível, temos a desconhecida e divertida Merry Xmas Everybody, do Slade, que tem a letra mais engraçada de todas e que jamais será tocada, creio, pois é demasiadamente rock and roll.

Mas, dentre horrores religiosos, cantam Anoiteceu — na verdade o título da canção é Boas Festas — , que também é laica e que tem uma letra-verdade bem dura, apesar da muito alegre melodia. Seus autor, Assis Valente, suicidou-se após várias tentativas e a letra é de cortar os pulsos.

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel
Não vem
Com certeza já morreu
Ou, então felicidade
É brinquedo que não tem
(Laiá laiá, laiá lalaiá, laiá lalaiá, laiá lalaiá)

Merry Xmas Everybody
Slade

Are you hanging up a stocking on your wall?
It’s the time that every Santa has a ball
Does he ride a red nosed reindeer?
Does he turn up on his sleigh
Do the fairies keep him sober for a day?

So here it is merry Christmas
Everybody’s having fun
Look to the future now
It’s only just begun

Are you waiting for the family to arrive?
Are you sure you got the room to spare inside?
Does your granny always tell ya that the old songs are the best?
Then she’s up and rock ‘n’ rollin’ with the rest

So here it is merry Christmas
Everybody’s having fun
Look to the future now
It’s only just begun

What will your daddy do
When he sees your Mama kissin’ Santa Claus?
Ah ah

Are you hanging up a stocking on your wall?
Are you hoping that the snow will start to fall?
Do you ride on down the hillside in a buggy you have made?
When you land upon your head then you’ve been Slade

So here it is merry Christmas
Everybody’s having fun
Look to the future now
It’s only just begun

So here it is merry Christmas
Everybody’s having fun
Look to the future now
It’s only just begun

So here it is merry Christmas
Everybody’s having fun
Look to the future now
It’s only just begun

So here it is merry Christmas
Everybody’s having fun
Look to the future now
It’s only just begun

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Hoje é o Dia do Samba, sabiam?

A histórica imagem de Eurico Dantas, de 1976, no Palácio do Samba, onde Cartola — indignado com a proibição da ditadura da realização de um ensaio da Mangueira na Rua Visconde de Niterói — senta na frente de uma viatura da polícia. Viva o samba!

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Beatles no Theatro São Pedro com a OCTSP

Beatles no Theatro São Pedro com a OCTSP

Ontem, fui ver um concerto que tinha tudo para ser chato. Sim, sou desses que quer uma orquestra tocando sempre música destinada a orquestras, ora.

Mas ontem era Beatles e foi muito bom. Os cantores foram magníficos e a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro tem um dos melhores fermentos da cidade. Não sei se é empatia, confiança ou mero entrosamento, mas o fato é que a cada concerto ela cresce mais, está mais redonda, junta, com som bonito.

Todo mundo saiu feliz do velho Theatro. Tudo funcionou e quando funciona parece fácil. Mas não é. Já participei de pequenos grupos de trabalho que degringolaram. Tenho até medo deles. Mas o Evandro Matté leva o barco devagar e bem, como o marinheiro da música do Paulinho da Viola (Argumento).

Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar

E que nevoeiro!

Enormes parabéns aos músicos todos, em especial ao pianista Daniel Benitz e aos crooners de hoje, a brilhante Elisa Conceição Machado e o sensacional Daniel Germano.

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Pergolesi, meus queridos, Giovanni Battista Pergolesi!

Pergolesi, meus queridos, Giovanni Battista Pergolesi!

Pergolesi morreu em 1736, aos 26 anos, de tuberculose. Tinha imenso talento e, é claro, jamais se saberá o que poderia ter feito se tivesse vivido mais.

Deste modo, a imagem de Pergolesi cristalizou-se com base em poucas obras — e algumas são obras-primas absolutas.

Suas melodias demonstram uma personalidade criativa extremamente sofisticada. As obras sacras são caracterizadas pela devoção e intimismo comovedor, onde o sagrado é entendido como fonte de experiência emocional.

Seus últimos meses de vida foram passados no mosteiro franciscano de Pozzuoli, para onde se retirou, aparentemente convencido de que a tuberculose não lhe permitiria regressar a Nápoles.

Foi no mosteiro e no ano de sua morte que escreveu o Stabat Mater. É uma peça sublime que a OSPA apresentará neste sábado, às 17h. (Aliás, a nova sede da orquestra está ficando linda, Evandro. E o novo logo ficou perfeito).

Para ficar ainda melhor, veremos Raquel Helen Fortes cantando, com a Elena no concertino e regência de César Bustamante.

Sábado, tá?

Dá para ir e dá para ver no YouTube, o que não dá é para não apoiar a Ospa.

P.S. — E ainda tem o Exsultate, Jubilate, de Mozart, no programa.

Raquel Fortes | Foto: Leandro Rodrigues
Elena Romanov

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Para entender a diferença entre Schoenberg e Stravinsky

Para entender a diferença entre Schoenberg e Stravinsky

O encontro de cada um deles com Charlie Chaplin.

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Os grandes violinistas estão buscando novos horizontes

Aprovo totalmente esse movimento de grandes violinistas no sentido de formarem grupos de câmara regulares. A Mutter iniciou com certa hesitação, já Ehnes, Ibragimova e Jansen se atiraram.

James Ehnes já gravou 3 CDs com o Ehnes Quartet, Alina Ibragimova tem o seu Chiaroscuro Quartet e Jansen tem seu Janine Jansen and Friends.

O repertório para os principais solistas tocarem com orquestras é limitado. A plateia gosta daqueles poucos e conhecidos concertos. Se eu já enchi deles, imagina os solistas!

São eles o Concerto de Beethoven, o de Brahms, o de Tchaikovski, o de Sibelius, os de Mendelssohn, Shostakovich, Prokofiev, Bruch, talvez Bartók. Há uns concertos duplos, há os barrocos nos quais nem todos se aventuram — ainda bem! — e dá para solar Paganini e Bach. E o resto raramente é explorado pelas gravadoras e plateias.

Mas o mundo se abre para eles na música de câmara.

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Ligeti, Ligeti, Ligeti, adoro ele

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Motivos pelos quais a vida vale a pena (II)

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Motivos pelos quais a vida vale a pena (I)

Um dos motivos pelos quais a vida vale a pena: o primeiro movimento da Sinfonia Nº 22, “O Filósofo”, de Haydn.

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O misterioso Quinteto para Piano de Bartók

O misterioso Quinteto para Piano de Bartók

Aos 22 anos, Bartók escreveu um imenso Quinteto para Piano e Cordas. São quase 45 minutos de uma música bem complicada. Ao envelhecer, o compositor passou a detestar esta sua manifestação da juventude. Por anos, segui a opinião dele. Só que, no ano passado, fui obrigado a ouvir atentamente a coisa e achei a peça maravilhosa. Li que Janine Jansen também é uma defensora do Quinteto. Quem ama Bartók reconhece ali, em embrião, características que serão desenvolvidas depois. O Quinteto tem todas as sementes, inclusive um movimento cigano e aquela dureza que por vezes nos arranha… Mas talvez admirá-lo seja coisa de fã, de gente que consegue reconhecer o adulto no feto.

Béla Bartók começou a escrever seu Quinteto para Piano em Berlim, não muito depois de se formar na Academia Liszt de Budapeste. Esta foi uma época em que sua música estava sob a influência de Richard Strauss e Debussy. Em 1902, Bartók tinha ouvido Also sprach Zarathustra e a impressão recebida por ele era aparente em seu recém-concluído poema sinfônico, Kossuth. Simultaneamente, Bartók também estava começando a explorar uma linguagem musical nacional como forma de expressar a identidade húngara, e essa tensão entre a tradição clássica europeia e o desejo de forjar algo novo caracteriza grande parte do quinteto. A obra foi concluída no verão de 1904 na Hungria, e apresentada pela primeira vez em Viena, no Ehrbar Saal, em 21 de novembro pelo Prill Quartet, com o próprio compositor assumindo o piano. Como ele comentou em uma carta alguns dias depois a seu professor de piano da Academia, István Thomán: ‘A dificuldade de meu quinteto prejudicou gravemente a primeira apresentação — mas, afinal de contas, de alguma forma ele foi aprovado. O público gostou ao ponto de voltarmos 3 vezes ao palco.’ As críticas foram amplamente positivas. O crítico do Welt Blatt , no entanto, foi menos gentil, observando que “um talento inconfundível luta com um vício questionável de efeitos distintos, que não raramente são totalmente repulsivos”… O quinteto foi posteriormente revisado e a nova versão foi interpretada pela primeira vez em 7 de janeiro de 1921. Com o passar dos anos, Bartók passou a detestar a peça. Zoltán Kodály pensou que Bartók tinha destruído totalmente a obra. Ela sumiu. Só que ela foi redescoberta pelo estudioso de Bartók Denijs Dille. Isso em janeiro de 1963. Ela nunca se tornou popular, mas Janine Jansen a ama e é a atual “dona” da peça. Digo que é “dona” porque ela a divulga onde e quando pode com seu enorme talento e 1,85m. É realmente uma obra que não parece ser de Bartók. Talvez o último movimento possua algo de sua voz, mas é só. Eu gosto muito do Quinteto pelo extravasamento de sinceridade juvenil, o que paradoxalmente a torna mais claro para os aficionados e mais obscuro para o público. Estou com Janine nessa.

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50 anos de Blue, de Joni Mitchell

50 anos de Blue, de Joni Mitchell

Ontem, muita gente estava comemorando os 50 anos do disco Blue, de Joni Mitchell. O Robson Pereira até me mandou um link do Guardian onde uma série de artistas que foram inspirados pelo trabalho de Joni escolhiam sua canção preferida do álbum. Mais de 6 delas foram citadas. Blue tem 10.

Eu fiz questão de reouvir o disco para escolher a minha. Fiquei entre a comovente River e as harmonias de A Case of You. Eu não posso escolher só uma delas.

Conheci Blue lá por 1975 e acho que o ouço a cada dois ou três anos — o que é muito pra mim — e ele só melhora. Sou meio desligado da música popular, mas há coisas que vêm e ficam. Joni é uma grande compositora, letrista e contadora de histórias.

Aliás, que ano foi 1971! Construção (Chico), London London (Caetano), Who`s Next (The Who), Led Zeppelin IV, Fa-Tal (Gal), Ela (Elis Regina), Tapestry (Carole King), Ram (Paul McCartney), Imagine (John Lennon), Aqualung (Jethro Tull), All things must pass (George Harrison), o que mais?

(Aqui, o álbum completo).

Blue, uma das obras-primas de Joni

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Hoje, nossa Rainha Martha Argerich completa 80 anos

Hoje, nossa Rainha Martha Argerich completa 80 anos

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Artistas que você deveria cancelar (V): Heitor Villa-Lobos

Artistas que você deveria cancelar (V): Heitor Villa-Lobos

[Ironic & Provocation Mode ON]

OK, músicos são artistas que precisam do poder. O poder detêm teatros e orquestras, mas digamos que alguns se apaixonam e fazem demais.

Foi o caso de Villa-Lobos. Ele se colocou a serviço do governo Getúlio Vargas, aquela coisinha fascista entre os anos de 1930 e 45, foi seu parceiro mais precisamente durante o Estado Novo, entre 37 e 45. Durante este período, o artista usou o seu talento para construir um programa de educação musical ligado aos interesses do regime. Mas a relação não era daquelas do tipo cerveja Caracu (tu entra com a cara e eu com o cu), era uma relação em que ambos ganhavam. Afinal, Villa-Lobos também tirou proveito da ligação para divulgar a sua música e deixar seu nome como o de maior compositor nacional.

Em 1934, Gustavo Capanema assumiu o Ministério da Saúde Educação e Cultura. Homem afeito às artes e à cultura, Capanema convidou artistas e intelectuais para compor seu ministério. Villa estava no grupo. Então, o canto orfeônico foi tornado obrigatório nas escolas. Tudo ajudava. Villa era um nacionalista e Vargas também. Em defesa de Villa, pode-se dizer que a vinculação da ideologia nacionalista do governo não se restringia ao âmbito artístico e musical. Toda política educacional do governo Vargas voltava-se para o aspecto nacionalizante da educação, valorizando a brasilidade e procurando afirmar a identidade nacional. Contra Villa, há apenas a ditadura de Vargas, o que não é pouca coisa.

O Canto Orfeônico tornou-se o modelo nacional de educação musical e, por meio de seu repertório cívico, sacralizou um conceito de brasilidade proposto pela reforma de ensino do governo Getúlio Vargas. A Superintendência Educacional e Artística (SEMA) oportunizou a implantação desse projeto de educação musical, baseado na prática de canto orfeônico, que associava música, disciplina e civismo.

Um exemplo da exaltação a Getúlio e seu governo está na peça “O Canto do Pajé”. A canção foi executada algumas vezes por coros orfeônicos comandados pelo próprio Villa para homenagear o presidente, enquanto este se dirigia ao palanque para proferir discursos em datas nacionais.

Sorrisos de Vargas e Villa.

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Royal Academy of Music nega política de cancelamento

Royal Academy of Music nega política de cancelamento

A instituição londrina contestou a matéria do Telegraph de ontem, de que planejava descolonizar instrumentos de marfim e cancelar compositores do tráfico de escravos. Aqui está o texto:

Não há planos de descartar instrumentos do acervo da Academia. As análises que faremos estão preocupadas apenas com o armazenamento das coleções no local e como interpretamos os itens em nossas coleções.

Não iremos descartar instrumentos musicais com base em sua proveniência ou associações. Além disso, o artigo do Telegraph afirma que temos uma ‘vasta coleção de manuscritos do compositor Handel’ — não possuímos, de fato, nenhum manuscrito original de Handel.

A Academia sempre treinou seus alunos para os ambientes profissionais musicais. É vital que eles entendam as forças culturais, políticas e socioeconômicas que moldaram as tradições musicais, bem como as questões que as estão moldando no presente, como a pandemia e as questões em torno da igualdade, diversidade e inclusão. Esta formação inclui dar voz a figuras anteriormente silenciadas ou marginalizadas, bem como compreender os contextos em que trabalharam figuras icônicas como Handel e Mozart. Não removemos Handel, ou qualquer outro compositor, do plano de estudos.

Para nós, inclusão significa alargar a rede, não anular figuras e artefatos históricos.

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Para descolonizar Handel

Para descolonizar Handel

Norman Lebrecht
Traduzido mal e porcamente por mim

O Sunday Telegraph relata hoje que a Royal Academy of Music de Londres está revisando sua coleção com a intenção de remover itens que possam estar ligados ao passado colonial da Grã-Bretanha.

Pianos feitos com marfim colonial e artefatos ligados ao compositor do Messias Georg Friederich Händel, que investiu no comércio de escravos, podem ser potencialmente problemáticos.

Para quem, exatamente, nos perguntamos.

Pense bem antes de enviar objetos históricos a essas instituições intelectualmente comprometidas.

Francamente. Handel, ainda criando problemas? Isso é muito perigoso!

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Thick as a Brick e o velho filho da puta

Thick as a Brick e o velho filho da puta

No dia 7 de agosto de 1975, fui até a King’s Discos e comprei um LP. Quando estava chegando no caixa, um velho FDP que nunca tinha visto antes, arrancou o disco da minha mão e gritou para a loja lotada:

— Sabem o qual é a tradução do título deste disco? Grosso como um tijolo! É este tipo de idiotice que os jovens de hoje ouvem!

Todo mundo riu e eu, idiota adolescente, fiquei quieto, humilhado. Mas comprei o disco. Hoje, de graça, depois de mais de 40 anos do fato e após décadas sem ouvir o LP — que é bom –, voltei a ter vontade de estrangular aquele velho FDP.

Espero que ele tenha sido trucidado por hordas de fãs do Jethro Tull ainda nos anos 70.

(Eu sei o dia exato da compra porque anotava meu nome e a data da aquisição nas capas dos discos).

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