Trabalhei por oito ótimos anos num veículo progressista. Aprendi muito. Adorava trabalhar lá, as pessoas foram sempre muito éticas e eu me orgulho de minha vasta produção naqueles anos, apesar de achar que o jornal pecava pela falta de ousadia. Bem, tenho histórias que, penso, devem se repetir na maioria das hoje combalidas trincheiras da esquerda.
Sou um cara mais para o intuitivo do que para o analítico, então recebo e reajo a flashes. Ou, melhor dizendo, um dia tiro uma foto, outro dia outra, e assim vou formando meu mosaico de impressões.
Vamos a três fotos que me ocorreram hoje.
(1) Um colega diz que não devemos publicar uma reportagem sobre um novo método de produção de carne porque deixaríamos irritados os veganos e eles, parte de nosso público, poderiam nos linchar. Então fiquei sabendo que não podíamos falar de carne.
(2) Uma reportagem que coloquei para provocar foi encarada como se eu fosse um ET. Ela dizia que o gaúcho fazia menos exames de toque retal do que os homens de outras unidades da federação porque não a coisa não seria lá algo muito masculino. Era uma pesquisa de boa fonte, séria e médica. Como temos uma editoria de Geral, não vi problema, mas houve gente dizendo que aquilo não era pra nós. OK, não devemos rir ou explicitar nossos lados mais ridículos, mesmo que sejam verdadeiros.
(3) Fui advertidíssimo e me senti ameaçado por expor NO MEU BLOG uma opinião independente. Ela teria o condão de chamar as feministas contra o jornal. Sim, muitas delas disseram que iam abandonar o jornal por minha causa. Alguém acredita nisso? Em resposta, devo dizer que Porto Alegre é um ovo e que fui algumas vezes cumprimentado na rua por feministas em razão do mesmo texto. Ou seja, a rejeição não era consensual.
Fiquei puto ao notar novamente um respeito sem sentido pela militância, sem interessar quão tola seja.
Critico uma versão específica da política identitária que é performática em suas demonstrações de consciência social. Não gosto particularmente porque é um grupo muito inclinado a censurar, a atacar em bloco indivíduos. Odeio isso. Ao calar seus inimigos políticos, eles calam também o dissenso dentro da própria esquerda e é este dissenso que sempre fez a esquerda ser vibrante intelectualmente. São os questionadores que evitam que a ideologia se fossilize porque nos obrigam a repensar. Mas suas vozes foram caladas.
Angela Nagle
É impressionante como essa mentalidade censora se espalhou. O pior é que as pessoas nem se dão conta dela e de como a censura e o constrangimento causado pelos “erros” de gente bem intencionada — e, fundamentalmente, de mesma ideologia — resultaram na colocação da esquerda em um gueto no qual esta passou apenas a falar para si mesma e não com a sociedade. Pior, com uma linguagem toda própria, muitas vezes incompreensível não somente para a população, mas para quem estivesse desinformado. Ah, as vanguardas… Nós contribuímos demais para a ascensão da direita, que deve permanecer por décadas com boa parte do poder.
Enquanto isso, estávamos preocupados com a apropriação cultural, com o lugar de fala, com as bolhas e não com as coisas que estavam realmente no imaginário popular. Nós adubávamos a segmentação para satisfazer certos grupos, gastávamos energia com as polêmicas do dia e com as malditas audiências públicas sobre porra nenhuma e não com avanço dos evangélicos nas periferias, com o recuo da mentalidade científica, com o próprio papel das redes e com aquilo tudo que acabou viabilizando o inferno bolsonarista.
Fico triste com minha falta de força. Sinto-me em parte responsável por nossa tragédia, apesar de ter passado anos dizendo que o maior perigo desse país estava no fundamentalismo religioso e na desgraça que é nossa educação. Mas fui vencido de todas as formas.
Credo, que vergonha! Vou te contar, hein, PCdoB! Podem esquecer o meu voto. Afinal, ainda lembro do tempo em que a esquerda era de esquerda.
O PSol (e o Novo) foram unânimes na reprovação do perdão à dívida e quase todo o PT também. O resultado foi que o Congresso perdoou R$ 1 bilhão de dívidas… Ah, também quero! Vou parar de pagar impostos. O Estado é laico, não tem que perdoar dívida de quaisquer Igrejas.
Nestes dias em que se fala tanto em racismo e onde pessoas brancas deixam escancarados seus preconceitos, gostaria de lembrar como morreu o genial saxofonista e claronista Eric Dolphy, um negro do qual brotava sons alegres, vanguardistas, criativos e de desconformidade.
Na tarde de 18 de Junho de 1964, Dolphy caiu nas ruas de Berlim e foi levado a um hospital. Os enfermeiros, que não sabiam que ele era diabético, pensaram que ele havia tido uma overdose e deixaram-no num leito até que passasse o efeito das “drogas”. E ele morreu aos 36 anos…. Foi um enorme artista.
O Japão não fez lockdown, mas o resultados obtidos contra o covid-19 foram os mesmos de como se tivesse feito. A mortalidade lá é uma menores do mundo, comparável ao Uruguai e à Nova Zelândia. A esmagadora maioria das pessoas vive em grandes cidades e a população é velha. A grande Tóquio tem 37 milhões de habitantes, por exemplo. Então, como conseguiram?
O segredo é a educação do povo, que ouviu o governo quando este aconselhou a população para evitar três coisas:
— lugares fechados com pouca ventilação,
— lugares lotados com muita gente e
— contato próximo em conversas.
E a usar máscaras.
Simples, né? Ou nem tanto, pois educar não é simples.
Ah, mais uma coisa: o governo pede, tem credibilidade, o povo escuta.
Pra mim, quem votou no Bolsonaro não tem perdão. É um cego político. Ou é muito burro, credo.
Tudo o que ele está e não está fazendo foi anunciado e reanunciado. Todo mundo sabia e votou nele porque quis ou porque não se informa. Ou porque gosta de ditadura ou é um fascista e racista enrustido, etc.
Seu amor à morte, aos milicianos, aos machos — desde que brancos, claro –, aos pequenos roubos e à elite mais podre do país é evidente há anos.
Lembro que o balcão da Bamboletras virou um divã de psicanalista no dia da eleição do Bozo. Houve uma desconsolada uma reunião improvisada de umas quinze pessoas, o clima era de luto. Naquele domingo terrível, as pessoas foram se refugiar numa livraria. (E não foi na Amazon de nosso descontentamento…) Teve gente que chorou.
O bom leitor sabe, o bom leitor sempre sabe.
.oOo.
E o Wellington Mendes segue: “Exato. Cego político é pouco. O discurso do canalha sempre foi claro e o mesmo, de destruição, crime, opressão, fascismo… Não venham dizer que se enganaram. Quem apoiou sabia o que estava fazendo. São responsáveis por mortes e agressões, por arruinarem o país em diversos sentidos. Devem pagar com vergonha e ostracismo. Se arrependidos, suicidem-se. Paguem por fazer roleta russa com o destino dos outros. Desgraçados.”
Por Vadim Málev, em 10 de junho de 2020 Texto de Milton Ribeiro a partir de tradução oral de Elena Romanov
Valéri Kosolápov
Hoje é o dia dos 110 anos do nascimento de Valéri Kosolápov. Mas quem é esse Valéri Kosolápov? Por que deveria escrever sobre ele e você deveria ler? Valéri Kosolápov tornou-se um grande homem em uma noite e, se não fosse assim, talvez não conhecêssemos o poema de Yevgeny Yevtushenko (Ievguêni Ievtuchenko) Babi Yar. Kosolápov era então editor do Jornal de Literatura (Literatúrnii Jurnál), o qual publicou corajosamente o poema em 19 de setembro de 1961. Foi um feito civil real.
Afinal, o próprio Yevtushenko admitiu que esses versos eram mais fáceis de escrever do que de publicar naquela época. Tudo se deve ao fato de o jovem poeta ter conhecido o escritor Anatoly Kuznetsov, autor do romance Babi Yar, que contou verbalmente a Yevtushenko sobre a tragédia acontecida naquela assim chamada ravina (ou barranco). Por consequencia, Yevtushenko pediu a Kuznetsov que o levasse até o local e ele ficou chocado com o que viu.
“Eu sabia que não havia monumento lá, mas esperava ver algum tipo de placa in memorian ou ao menos algo que mostrasse que o local era de alguma forma respeitado. E de repente me vi num aterro sanitário comum, que era como imenso sanduíche podre. E era ali que dezenas de milhares de pessoas inocentes — principalmente crianças, idosos e mulheres — estavam enterradas. Diante de nossos olhos, no momento em que estava lá com Kuznetsov, caminhões chegaram e despejaram seu conteúdo fedorento bem no local onde essas vítimas estavam. Jogaram mais e mais pilhas de lixo sobre os corpos”, disse Yevtushenko.
Ele questionou Kuznetsov sobre porque parecia haver uma vil conspiração de silêncio sobre os fatos ocorridos em Babi Yar? Kuznetsov respondeu que 70% das pessoas que participaram dessas atrocidades foram policiais ucranianos que colaboraram com os nazistas. Os alemães lhes ofereceram o pior e mais sujo dos trabalhos, o de matar judeus inocentes.
Yevtushenko ficou estupefato. Ou, como disse, ficou tão “envergonhado” com o que viu que naquela noite compôs seu poema. De manhã, foi visitado por alguns poetas liderados por Korotich e leu alguns novos poemas para eles, incluindo Babi Yar… Claro que um dedo-duro ligou para as autoridades de Kiev e estas tentaram cancelar a leitura pública que Yevtushenko faria à noite. Mas ele não desistiu, ameaçou com escândalo e, no dia seguinte ao que fora escrito, Babi Yar foi ouvido publicamente pela primeira vez.
Yevtushenko lê seus poemas. Nos anos sessenta, os poetas podiam reunir milhares de pessoas…
Passemos a palavra a Yevtushenko: “Depois da leitura, houve um momento de silêncio que me pareceu interminável. Uma velhinha saiu da plateia mancando, apoiando-se em uma bengala, e encaminhou-se lentamente até o palco onde eu me encontrava. Ela disse que estivera em Babi Yar, que fora uma das poucas sobreviventes que conseguiu rastejar entre os cadáveres para se salvar. Ela fez uma reverência para mim e beijou minha mão. Nunca antes alguém beijara minha mão”.
Então Yevtushenko foi ao Jornal de Literatura. Seu editor era Valéri Kosolápov, que substituiu o célebre Aleksandr Tvardovsky no posto. Kosolápov era conhecido como uma pessoa muito decente e liberal, naturalmente dentro de certos limites. Tinha ficha no Partido, claro, caso contrário, nunca acabaria na cadeira de editor-chefe. Kosolápov leu Babi Yar e imediatamente disse que os versos eram muito fortes e necessários.
— O que vamos fazer com eles? — pensou Kosolápov em voz alta.
— Como assim? — Yevtushenko respondeu, fingindo que não tinha entendido — Vamos publicar!
Yevtushenko sabia muito bem que, quando alguém dizia “versos fortes”, logo depois vinha “mas, eu não posso publicar isso”. Mas Kosolápov olhou para Yevtushenko com tristeza e até com alguma ternura. Como se esta não fosse sua decisão.
— Sim.
Depois pensou mais um pouco e disse:
— Bem, você vai ter que esperar, sente-se no corredor. Eu tenho que chamar minha esposa.
Yevtushenko ficou surpreso e o editor continuou:
— Por que devo chamar minha esposa? Porque esta deve ser uma decisão de família.
— Por que de família?
— Bem, eles vão me demitir do meu cargo quando o poema for publicado e eu tenho que consultá-la. Aguarde, por favor. Enquanto isso, já vamos mandando o poema para a tipografia.
Kosolápov sabia com certeza que seria demitido. E isso não significava simplesmente a perda de um emprego. Isso significava perda de status, perda de privilégios, de tapinhas nas costas de poderosos, de jantares, de viagens a resorts de prestígio …
Yevtushenko ficou preocupado. Sentou no corredor e esperou. A espera foi longa e insuportável. O poema se espalhou instantaneamente pela redação e pela gráfica. Operários da gráfica se aproximaram dele, deram-lhe parabéns, apertaram suas mãos. Um velho tipógrafo veio. “Ele me trouxe um pouco de vodka, um pepino salgado e um pedaço de pão”, contou o poeta. E este velho disse: — “Espere, espere, eles imprimirão, você verá.”
E então chegou a esposa de Kosolápov e se trancou com o marido em seu escritório por quase uma hora. Ela era uma mulher grande. Na Guerra, ela fora uma enfermeira que carregara muitos corpos nos ombros. Essa rocha saiu da reunião, aproximando-se de Yevtushenko: “Eu não diria que ela estava chorando, mas seus olhos estavam úmidos. Ela olhou para mim com atenção e sorriu. E disse: ‘Não se preocupe, Jenia, decidimos ser demitidos’.”
Olha, é simplesmente lindo: “Decidimos ser demitidos”. Foi quase um ato heroico. Somente uma mulher que foi para a front sob balas podia não ter medo.
Na manhã seguinte, chegou um grupo do Comitê Central, aos berros: “Quem deixou passar, quem aprovou isto?”. Mas já era tarde demais — o jornal estava à venda em todos os quiosques. E vendia muito.
“Durante a semana, recebi dez mil cartas, telegramas e radiogramas. O poema se espalhou como um raio. Foi transmitido por telefone a fim de ser publicado em locais mais distantes. Eles ligavam, liam, gravavam. Me ligaram de Kamchatka. Perguntei como tinham lido lá, porque o jornal ainda não tinha chegado. “Não chegou, mas pessoas nos leram pelo telefone, nós anotamos”, contou Yevtushenko.
Claro que as autoridades não gostaram e trataram de se vingar. Artigos aos montes foram escritos contra Yevtushenko. Kosolápov foi demitido.
Aqui está o jovem Yevtushenko, na época em que escreveu “Babi Yar”
O que salvou Yevtushenko foi a reação mundial. Em uma semana, o poema foi traduzido para 72 idiomas e publicado nas primeiras páginas de todos os principais jornais, incluindo os norte-americanos. Em pouco tempo, Yevtushenko recebeu outras 10 mil cartas agora de diferentes partes do mundo. E, é claro, não apenas judeus escreveram cartas de agradecimento, o poema fisgou muita gente. Mas houve muitas ações hostis contra o poeta. A palavra “judeu” foi riscada em seu carro e, pior, ele foi ameaçado e criticado em várias oportunidades.
“Vieram até meu edifício uns universitários enormes, do tamanho de jogadores da basquete. Eles se comprometeram a me proteger voluntariamente, embora não houvesse casos de agressão física. Mas poderia acontecer. Eles passavam a noite nas escadarias do meu prédio. Minha mãe os viu. As pessoas realmente me apoiaram ”, lembrou Yevtushenko.
— E, o milagre mais importante, Dmitri Shostakovich me telefonou. Minha esposa e eu não acreditamos, pensamos que era mais um gênero de intimidação ou que estavam aplicando um trote em nós. Mas Shostakovich apenas me perguntou se eu daria permissão para escrever música sobre meu poema.
Shostakovich e Yevtushenko na primeira apresentação da 13ª Sinfonia de Shostakovich, em cuja primeira parte foi colocada o poema “Babi Yar”
Esta história tem um belo final. Kosolápov aceitou tão dignamente sua demissão que o pessoal do Partido ficou assustado. Eles decidiram que se ele estava tão calmo era porque tinha proteção de alguém muito importante e superior… Depois de algum tempo, ele foi chamado para ser editor-chefe da revista Novy Mir. “E apenas a consciência o protegia”, resumiu Yevtushenko. “Era um Verdadeiro Homem.”
Eu dei uma olhada no perfil de Sara Winter e de Allan dos Santos e, olha…
Olha nada. Elegeram um boçal e adubaram alguns seres repugnantes que aparecem nas redes sociais. Acho que eles sempre existiram, mas, como disse Umberto Eco:
“… hoje todas as pessoas querem se fazer ouvir e, fatalmente, em certos casos fazem ouvir apenas sua simples burrice. Então digamos que era uma burrice que antigamente não se expunha, não se dava a conhecer, ao passo que, em nossos dias, vitupera”.
Pior ainda é a burrice que fica famosa.
Vejam o que Sara gravou após a visita que recebeu hoje da Polícia Federal:
Eu acabo de ver Bolsonaro comendo um lanche em Brasília. A comida cai de sua boca e ele a joga de volta pra dentro num movimento que me levaria à loucura se fosse realizado por um de meus filhos depois dos 5 anos de idade.
E eu penso que, quase dois anos depois, ainda não acredito que um bando de idiotizados pela religião e pela falta de educação votaram neste cara e ele ganhou a eleição. Eu acabo de pensar: “Ele é mesmo o presidente? Sim, é. “.
Meu deus, parece uma comédia ruim.
E a reunião mostrada ontem demonstra que um idiota cerca-se de outros, concentricamente, em níveis cada vez mais densos de idiotia, formando um muro de estupidez aparentemente inexpugnável.
Mas deve haver uma bomba para explodir isso. Nem que fiquemos cobertos de merda por um tempo.
Este é mais um recado do PUM — Partido Utópico e Moderado.
Lembro de discutir dentro do jornal onde trabalhava que a ligação entre religião e política nos levaria para o abismo. Lembro de ter ficado boquiaberto com os políticos presentes na inauguração do templo de Salomão de Edir Macedo em 2014. Se eles precisavam daquela baixaria, queria dizer que o abismo estava logo ali.
Mas jamais imaginei que este fenômeno atenderia pelo nome de alguém cujo livro favorito tinha sido escrito por um torturador. Achei que teríamos um bispo ou um horror semelhante como presidente, não alguém que unisse igrejeiros e milicianos.
Não que acreditasse que um fundamentalista fosse menos autoritário, mas a junção de religião, violência, bravata e ignorância de Bolsonaro é assombrosa e única.
Na semana passada, vimos pessoas dançando com caixões na Paulista… O culto ao presidente também é um culto à morte. Algo que se viu no período nazista, por exemplo. O caixão era carregado com festa por gente que parecia pronta para morrer por seu capitão.
Como nas religiões evangélicas, não há contradições. O bolsonarista sabe da cloroquina, da economia, do formato do planeta, de deus, de quem este defende, de tudo. O bolsonarista tem satisfação pela própria ignorância, algo que não concebo, sinceramente. E eles são uns 30% da população que apoia incondicionalmente as loucuras do chefe.
Sua lógica é simplista, funcionando por impulsos, como os de uma criança ou como os de seu chefe. Ou como a massa lobotomizada dos cultos evangélicos. E o culto à morte é o culto à destruição. Vamos derrubar tudo o que outros construíram e fazer do nosso jeito. Para que cientistas, artistas, cultura? Nosso negócio são milicos, religiosos e os norte-americanos, não casualmente os recordistas de mortes por covid-19.
Só que… Eles decidiram que não querem que o covid-19 exista e vão sapatear de ódio na nossa frente enquanto o país é devastado.
-=-=-=-=-
Escrevo este texto e dou da cara com isso:
Pesquisadores da Fiocruz estão sendo atacados nas redes (inclusive por um parlamentar filho de Bolsonaro) porque os primeiros resultados de suas pesquisas com cloroquina apontaram resultados que não convinham ao trambiqueiro do Planalto e às suas hordas de Whatsapp.
Bolsonaro decidiu por esse “jejum religioso” depois que Marco Feliciano foi bater na sua porta. Como eu previa — e não sou nenhum gênio — os neopentecostais escolheram o lado dos criminosos. É natural. A atuação deles tem muito a ver com as atividades ilícitas. Seu modus operandi é a pura exploração da ingenuidade com a finalidade de enriquecer.
No Fronteiras do Pensamento 2019, o psicanalista italiano Contardo Calligaris contou que seu pai protegeu vítimas do fascismo italiano e combateu na luta armada, correndo risco de vida e fazendo o mesmo com sua família. Também escondeu pessoas em sua casa e auxiliou um monte de gente, na maioria comunistas.
Quando o adolescente Contardo, orgulhoso de seu pai, perguntou-lhe porque ele fizera isso, esperava uma resposta altamente politizada. Mas ficou decepcionado (e irritado) com a resposta:
— Sabe, é porque os fascistas são muito vulgares.
Um juízo estético?
Acho que, hoje, no Brasil, muita, mas muita gente concorda com o Sr. Calligaris pai.
Continuando, Calligaris filho mostrou, então, duas imagens que, para ele, representam a vulgaridade fascista. Numa delas, crianças com arminhas, admiradoraszinhos de Mussolini, num protótipo perfeito da vulgaridade.
E, na outra, um grupo de fascistas queimando livros. No meio do grupo, um deles ri diretamente para a câmera. “Este cara com um chapéu e que está rindo. Eu acho que está rindo porque acha isso engraçado. Não só o que tem de profundamente vulgar é que ele está achando engraçado o que acontece, mas ele está supondo que nós olhando para este quadro estejamos achando isso engraçado também. Ele está imaginando que a gente vai rir com ele. Eu acho muito interessante isso. Eu gostaria de salientar que os fascismos teriam menos chances de existir – fascismo ou totalitarismos que sejam – se nós todos tomássemos uma atitude rigorosa de não rir das piadas idiotas. Nunca. Não tem nada que atrapalhe tanto um cretino quanto o fato de que, quando ele diz uma piada, ninguém acha engraçado.”
Vai ser difícil comemorar o aniversário de Bach enquanto Boçalnato estiver no poder. Vou tomar uma cervejinha discreta daqui a pouco. Afinal, JSB não apenas somente adorava cerveja como a produzia em grande quantidade. Parabéns, mestre, 335 anos não são nada pra ti.
O documentário A Facada no Mito, postado pelo canal True Or Not, do YouTube, está se espalhando por meio das redes sociais. O trabalho, que não identifica seus autores, praticamente não traz imagens inéditas do episódio que vem sendo tratado como “atentado” contra o então candidato Jair Bolsonaro, em 6 de setembro. Mas traz apontamentos minuciosamente elaborados em torno das cenas que antecederam à facada desferida por Adélio Bispo de Oliveira.
Mostra o comportamento da equipe de segurança, levanta questões relacionadas à “logística” em torno do autor, relembra dúvidas em torno do atendimento e contradições em torno das reações de pessoas próximas a Bolsonaro. Adélio agiu sozinho mesmo para organizar e executar o atentado? Por que tinha tantos celulares e laptop se usava lan house? São coincidências as mortes de pessoas ligadas a sua hospedagem? E o fato de o escritório de advocacia que o defende atender também envolvidos em confronto entre policiais de Minas e de São Paulo? São listadas, enfim, muitas perguntas sem respostas, como qual teria sido o desempenho de Bolsonaro se não tivesse ocorrido o crime.
Os responsáveis observam que até o momento a Polícia Federal apresentou uma conclusão que “deixa de fora muitas questões”. “Questões que queremos dividir com o público para que possamos exigir as devidas respostas.”
Sexta-feira, a Folha publicou uma matéria que diz que a população de rua cresceu 60% em quatro anos.
Mas não é só isso. Minha observação diz que aumentaram:
— os ambulantes,
— os pedintes,
— os trabalhadores informais,
— as lojas vazias,
— os imóveis para alugar,
— os imóveis para vender.
Mas quando a gente liga a TV parece que está tudo bem.
(Ah, dia desses passeando no início da noite pelo Bom Fim, disse para a Elena que ia contar o número de pessoas dormindo ou deitadas na rua. A gente desviou de várias)
Do tjournalrusso Notícia encontrada por Elena Romanov Tradução (bem) livre de Milton Ribeiro com ajuda do Google Tradutor
Voluntários consideraram o sistema caro demais e simplesmente realizaram o serviço para o governo, apontando-o como despesa injustificada.
Tomas Vondrachek | tjournal.ru
Um grupo de programadores tchecos fez e entregou ao governo um sistema de informática de graça, que tinha sido encomendado a outra empresa. Os desenvolvedores fizeram isso em protesto contra o “desperdício” do Ministério dos Transportes. Na opinião deles, as autoridades firmaram um contrato excessivamente alto. A história chegou ao primeiro-ministro tcheco e ele demitiu o ministro dos Transportes.
Tudo começou com uma compra sem licitação para a criação de um serviço para a venda de autorizações eletrônicas de viagem para rodovias com pedágio. O pedido de 400 milhões de coroas tchecas (quase 16 milhões de euros) incluía o desenvolvimento de uma loja online e dois aplicativos para iOS e Android. O contrato de quatro anos para o desenvolvimento e suporte do site foi assinado com a Asseco Central Europe — sem edital público, repetimos.
O negócio provocou indignação na comunidade de TI tcheca devido ao “desperdício óbvio” por parte do governo. O proprietário da Actum Digital, Tomas Vondracek, chamou a proposta de “absurda” e acrescentou que o trabalho poderia ser feito “em alguns dias”.
Vondrachek convidou programadores locais a se unirem a fim de criarem um sistema análogo. Eles planejaram fazer tudo durante um fim de semana no escritório da Actum Digital em Praga e simplesmente transferir o código para o governo tcheco como presente e um exemplo de como os impostos dos cidadãos são gastos.
“Fomos motivados pelo desejo de resistir ao sistema de superestimar contratos estatais, onde há repetidos abusos. Neste caso, nosso dinheiro simplesmente entrava pelo cano”, disse.
Mais de 300 programadores da República Tcheca responderam às chamadas nas redes sociais. Na sexta-feira, 24 de janeiro, 60 técnicos se reuniram no escritório de Vondrachek para começar a trabalhar. No domingo (26) à noite, eles criaram a plataforma fairznamka.cz, que atendia aos requisitos do serviço de 16 milhões de euros.
O primeiro-ministro tcheco Andrei Babish veio ver o trabalho dos programadores. “Estou chocado com o que está acontecendo”, disse ele a repórteres. Os voluntários desenvolveram o serviço em 22 horas de trabalho.
Já na segunda-feira, 27 de janeiro, o site ganhou um módulo público de teste. O aplicativo ainda não está conectado ao sistema estatal, mas cumpre todas as funções necessárias. Durante o primeiro dia, o serviço foi visitado por mais de 175 mil pessoas que experimentaram a carga no site e fizeram as primeiras compras. Os pagamento pelo acesso à rodovia foram feitos simbolicamente. Mas quem quisesse, poderia pagar de verdade, o dinheiro arrecadado iria para organizações de sem-teto do país.
O governo tcheco inicialmente se ofereceu para pagar pelo sistema, mas depois aceitou o site fairznamka.cz de presente, como o pretendido pelos programadores. Babish enfatizou que o Ministério dos Transportes realizará uma licitação pública para encontrar uma empresa que implante o sistema ainda este ano. Espera-se que o valor do contrato seja muitas vezes menor que o original. Vondraček estimou que a licitação terá um valor de 25% do valor inicial e sublinhou que sua empresa não participará do novo edital.
O ministro dos Transportes tcheco, Vladimir Kremlik, foi demitido. Representantes da empreiteira Asseco Central Europe disseram que estavam prontos para rescindir o contrato sem reivindicar compensação. Após a renúncia, Kremlik observou que respeita a decisão do primeiro-ministro, mas acrescentou que suas prioridades eram criar um sistema “sem demora”…
Segundo Vondrachek, o desenvolvimento voluntário é um importante precedente, após o qual a República Tcheca, refletirá sobre o valor de cada serviço. “Acho que as licitações de TI excessivamente altas acabaram”, acrescentou.
Hoje aconteceu o que foi para mim uma reunião surpreendente. Fernanda Melchionna marcou comigo na Livraria Bamboletras para falar sobre política e, sei lá, sobre a vida. Ela é uma cliente nossa.
Fomos no bar em frente e conversamos por quase três horas sobre muitas coisas objetivas da política nacional e da cidade. As eleições municipais estiveram no nosso foco, óbvio. É claro que é impossível não se decepcionar com a ausência de prévias e a consequente impossibilidade de se montar uma frente de esquerda, daquelas com real mobilização. Pelo visto, vamos nos dispersar novamente.
Coloquei minhas opiniões, chutes de quem acompanha as coisas de longe, mas que acha que tem a noção clara da repetida burrice que está sendo cometida. Falamos também da loucura que acomete (permanentemente) elementos do Congresso.
A Fernanda é uma pessoa muito agradável, que fala e ouve. Sim, ouve. Mas eu sou daqueles que às vezes dá até mais importância ao discurso não falado. Sou o chato que nota as posturas e as mudanças no tom das vozes e desconfia, mesmo sem poder acusar, perguntando-se o motivo do súbito falsete… Então, o que quero comentar são coisas captadas por alguém que há 62 anos, sem querer, por defeito de fabricação, observa detalhes.
Ora, Fernanda é uma pessoa muito inteira. Para mim, “pessoa inteira” significa alguém centrado, mas não auto-centrado ou em faixa própria. Alguém que possui um conceito, uma essência que a apoia e que não se altera. Poderia seguir explicando, mas vou simplificar, o “inteiro” é o mesmo em qualquer circunstância, não diz uma coisa e faz outra. Eu vejo isso nela.
Mais? Ora, eu gosto de quem gosta de literatura. Ela é formada em biblioteconomia e lê muito. Mas não é a política que diz que lê apenas para agradar a um desimportante livreiro. Ela comenta o que anda lendo e até comprou 5 exemplares de um livro que gostara para dar a seus amigos. Conheço outra pessoa que também faz isso, compra de balde para dar de presente os livros que achou bons. Boa pessoa.
Por que escrevo isso? Um pouco por vaidade, para que vocês saibam que passei quase 3 horas com uma pessoa que é admirada por muita gente, um pouco pela mania de ficar anotando a vida e outro pouco para dizer que vou seguir votando na Fernanda, que não precisaria gastar 3 horas para que eu seguisse fazendo isso…
Obs.: É claro que eu deveria ter tirado uma foto, mas nunca lembro dessas modernagens. Então vão três fotos que encontrei no perfil do Face da Fernanda.
Uma das mais importantes jogadoras de vôlei do Brasil, Maria Isabel Barroso Salgado, a Isabel, publicou uma carta pública em protesto contra o desmonte na cultura sob o governo de Jair Bolsonaro. Ela lembrou como a cultura influenciou sua formação e o fato de ter se tornado atleta. Leia a seguir a íntegra:
Meu nome é Isabel, joguei vôlei na seleção brasileira, representei o Brasil por muitos anos. Resolvi escrever essa carta aberta, não para falar de esporte, mas para falar da cultura, porque acredito que só pude ser a jogadora que fui e a pessoa que sou graças aos filmes que vi, aos livros que li, às músicas que ouvi, às histórias que minha avó me contava. Minha mãe era professora e escritora, amava os livros, adorava música, e foi ela quem me apresentou a Chico Buarque, Caetano, Cartola, Luiz Melodia, entre tantos grandes compositores brasileiros. Lembro, quando chegava do treino muito cansada, que me deitava no sofá e ela me falava dos poetas que amava: Bandeira, João Cabral, Cecília Meirelles, Drummond…. Hoje tenho certeza que aquela atmosfera foi muito importante na minha formação.
Quantas vezes, ouvindo e dançando as músicas de Gilberto Gil com Jacqueline , a grande campeã Olímpica, comemoramos vitórias e tentamos esquecer a dor de algumas derrotas. Lembro também do impacto que senti, aos 18 anos, quando assisti ao filme “Tudo Bem”, de Arnaldo Jabor, com a incrível Fernanda Montenegro e um elenco de craques. Aos 17, assisti “Trate-me Leão”, peça que inspirou toda uma geração. Quantas vezes, os livros me transportaram para outros universos e me permitiram aliviar as tensões das quadras.
Pois é, depois de um ano de governo Bolsonaro, preciso expressar meu horror com o que tem acontecido com a cultura. É muito duro ouvir os insultos que foram proferidos contra Fernanda Montenegro; ver Chico Buarque ganhar o prêmio Camões, maior prêmio da língua portuguesa, sem que o presidente cumprimente ou comemore o feito; testemunhar a morte de João Gilberto, um dos maiores compositores brasileiros sem que nenhuma homenagem tenha sido feita pelo governo. É estarrecedor saber que nosso cinema é premiado lá fora e atacado aqui dentro; ver o ataque brutal à casa de Rui Barbosa, com as exonerações dos pesquisadores que eram a alma e o coração daquela instituição. E como se não bastassem esses exemplos de barbaridade, assistimos ainda o constante flerte do governo com a censura.
Essa carta é só pra dizer que eu me sinto muito ofendida, senhor Bolsonaro. Não sou uma intelectual, sou uma cidadã brasileira que acredita que a cultura é essencial para qualquer pessoa. Ela só existe ser for plural, em todas as formas de expressão. Por meio dela, formamos a nossa identidade. Se esse governo não gosta do nosso cinema, da nossa música, dos nossos escritores, eu quero dizer que eu e uma enorme parte dos brasileiros gostamos. Não aguento mais assistir a tantos absurdos calada. Vocês estão ofendendo uma grande parcela do povo brasileiro.
Aprendi no esporte que é fundamental respeitar as diferenças e saber que elas são enriquecedoras em todos os aspectos. Aprendi que é fundamental respeitar os adversários , e não tratá-los como inimigos.
Compreendi, vivendo no esporte, o quanto é importante ser democrático. Inspire-se no esporte, senhor presidente! O senhor foi eleito democraticamente. Governe democraticamente, e não apenas para quem pensa como o senhor. Hoje eu pensei muito nos rumos da cultura, porque lembrei da minha querida avó, que me levava, quando menina, para passear nos jardins da casa de Rui Barbosa…
Os incêndios na Austrália atingiram um ponto de não retorno. Até ao momento são dezessete mortos confirmados, dezenas de milhares de pessoas encurraladas nos Estados de Nova Gales do Sul e de Victoria (a maioria sem água e comida), vinte cidades cercadas pelas chamas, milhares de casas reduzidas a cinzas, centenas de animais queimados, etc. A cidade de Bargo, a sudoeste de Sydney, praticamente desapareceu do mapa. Ao menos três milhões de hectares foram devastados em todo o país durante os últimos meses de incêndios, que destruíram mais de 800 casas.
A intensa onda de calor — semelhante a que tivemos na semana passada em Porto Alegre — favorece a propagação dos incêndios que afetam a Austrália e os focos fora de controle nas proximidades de Sydney foram agravados por estas condições “catastróficas”, afirmaram as autoridades. Hoje, Sidney está coberta pela fumaça dos incêndios.
Aquele “ney” apagado pelos avisos no mapa é Sydney (5 milhões de habitantes)
As evacuações em massa, muitas delas por mar, não devem evitar o número de vítimas mortais, pois o navio de desembarque militar HMAS Choules transporta apenas oitocentas pessoas de cada vez e os aviões não chegam aos pontos críticos.
Isto me leva a pensar sobre o futuro que nos espera. Estamos na mesma latitude da Austrália. Quando a tragédia for global, os governos democráticos serão substituídos por ficções Philip K. Dick ou Margaret Atwood e outros. O futuro será do fogo.
Esse vídeo da Austrália é só um trailer de como será a década que está começandopic.twitter.com/f82tSaYfFw
What a year… I won’t even try to summarise it – but nothing would have been possible without your support. So thank you!
This coming decade humanity will decide it’s future. Let’s make it the best one we can.
We have to do the impossible.
So let’s get started.
Happy new year! pic.twitter.com/SXTmdyBpkP