O centenário de Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto

Publicado em 25/02/2012 no Sul21

Não é à toa que Contos Gauchescos faz parte da lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS nos últimos anos. Ele ali está na justa companhia de José Saramago (História do Cerco de Lisboa), Guimarães Rosa (Manuelzão e Miguilim) e de outros. E de outros menores, deveria dizer. Claro, a lista da UFRGS não é garantia de qualidade — por exemplo, lá não estão Erico nem Dyonélio –, mas serve como comprovação de que o pequeno volume de 19 contos narrados por Blau Nunes está bem vivo.

Contos Gauchescos (1912) é o segundo livro de João Simões Lopes Neto (1865-1916), que também escreveu Cancioneiro Guasca (1910), Lendas do Sul (1913) e Casos do Romualdo (1914). O autor viveu 51 anos e publicou apenas quatro livros. Talvez sejam muitos, se considerarmos a colorida vida do autor.

Casa onde residiu Simões Lopes Neto em Pelotas. Hoje abriga o Instituto João Simões Lopes Neto (Rua Dom Pedro II, 810)

Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas, na estância da Graça, filho de uma tradicional família da região, proprietária de muitas terras. Aos treze anos, foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar no famoso Colégio Abílio. Retornando ao Rio Grande do Sul, fixou-se para sempre em Pelotas, então uma cidade rica para os padrões gaúchos. Cerca de cinquenta charqueadas formavam a base de sua economia. Porém, engana-se quem pensa que Simões andava de bombacha. Seus hábitos eram urbanos e as histórias contadas nos Contos Gauchescos eram baseadas em reminiscências, histórias de infância e, bem, a verdade ficcional as indica como de autoria de Blau Nunes, não? A epígrafe da obra deixa isto muito claro: À memória de pai. Saudade. Mas voltemos ao autor.

Sua vida em Pelotas não foi nada monótona. Abriu primeiro uma fábrica de vidro e uma destilaria. Não deram certo. Depois criou a Diabo, uma fábrica de cigarros cujo nome gerou protestos da igreja local. Seu empreendedorismo levou-o ainda a montar uma empresa para torrar e moer café e a desenvolver uma fórmula à base de tabaco para combater sarna e carrapatos. Fundou também uma mineradora. Nada deu muito certo para o sonhador e inventivo João, que foi também professor e tabelião, mas ao fim e ao cabo apenas sobreviveria como jornalista em Pelotas, conseguindo com dificuldades publicar seus livros e folhetins, assim como montar suas peças teatrais e operetas. Este faz-tudo faleceu em total pobreza.

A primeira edição de Contos Gauchescos foi publicada em 1912. Se o ano é este, a data exata da publicação parece ter sido perdida. Na primeira página do volume é feita a apresentação do vaqueano Blau Nunes, que o autor afirma ter sido seu guia numa longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul.

PATRÍCIO, apresento-te Blau, o vaqueano. Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana, molhei as mãos no soberbo Uruguai, tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei entre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em São Gabriel, a forja rebrilhante que tantas espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas possantes, corri pelas paragens magníficas de Tupanciretã, o nome doce, que no lábio ingênuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus…

(…)

Genuíno tipo – crioulo – rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.

(…)

Querido digno velho!
Saudoso Blau!

Patrício, escuta-o.

Capa da edição pocket da L&PM

Após esta apresentação — de pouco mais de duas páginas na edição pocket da L&PM — , está pronto o cenário para os 19 contos (ou “causos”) que o narrador Blau Nunes contará a seu patrício. Blau é o protagonista de algumas histórias, em outras é um assistente interessado que banha os fatos de intensa subjetividade. E aqui chegamos ao que o livro apresenta de mais original: o trabalho de linguagem de Simões Lopes Neto. Os contos são “falados”, são “causos” contados por Blau e a linguagem acaba por ser uma representação da fala popular misturada a uma inflexão erudita — certamente a de Simões — , transformando-se numa terceira forma de expressão. Numa belíssima terceira forma de expressão. Sabemos que o leitor do Sul21 já está pensando em Guimarães Rosa e tem toda a razão. Rosa confessou que seu texto tinha muito da influência de Simões. O gaúcho abriu as portas para as grandes criações do autor de Grande Sertão: Veredas e esta afirmativa não é a do ufanismo vazio que procura gaúchos em navios adernados, mas uma manifestação de consistente orgulho.

E, assim como nos livros de Rosa, a linguagem de Simões Lopes Neto talvez soe estranha à princípio, apesar de que o estranhamento é muito menor do que aquele com que se depara o leitor do mineiro. Se lá Rosa cria palavras utilizando seu enciclopédico conhecimento etimológico, se lá utiliza-se até de línguas eslavas; aqui Simões transforma o sotaque da região onde nasceu. Há os adágios populares, há os muitos gauchismos do campo e da cidade e há as expressões típicas da fronteira, recheadas de espanholismos. A memória de Blau Nunes é a memória geral do pampa narrando os acontecimentos principais de sua história que, em mosaico, formam uma visão subjetiva da região e de sua gente. Era 1912, não havia regionalismo, estávamos a 10 anos da Semana de Arte Moderna e 4 anos após o falecimento e Machado de Assis. Estamos, pois, falando da literatura de um pioneiro.

Ilustração de uma edição de Contos Gauchescos

Mas Simões Lopes Neto não trabalha apenas a linguagem, é um escritor que sabe criar constante subtexto. Ou seja, há as palavras, mas há um grande contador de histórias trabalhando-as, jogando informações subjacentes que reforçam ou contradizem o que está sendo contado. Isto pode ser sentido no pequeno conto O negro Bonifácio e no tristíssimo No Manantial — segundo e terceiro contos da coleção. A propósito, no CD Ramilonga, Vitor Ramil fez uma homenagem a No Manantial. A frase que é dita no início da canção é a primeira do conto e a que a encerra — Vancê está vendo bem, agora? — está próxima ao final do conto. É uma justa homenagem. Talvez No Manantial seja o melhor conto escrito por autor gaúcho até o surgimento de Sergio Faraco. Apenas em 1937, com a publicação de Sem rumo e Porteira fechada (1944), de Cyro Martins, e de O Continente (Erico Verissimo, 1949), a literatura do RS produziria outras grandes figuras ficcionais gaúchas. Dizia Tolstói: Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia. E Blau Nunes, na condição de narrador e protagonista dos Contos Gauchescos, é um gaúcho de qualquer latitude.

Marcelo Spalding, em excelente artigo análogo a este, finaliza citando a definição de Italo Calvino para o que seria um clássico. De seu artigo, roubamos duas frases de Calvino que, a nosso ver, cabem tão adequadamente a Contos Gauchescos que não há razão para não citá-las. Segundo Calvino, um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe. Mais: clássicos seriam livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos  se revelam novos, inesperados, inéditos. E, avançando no perigoso terreno do tradicionalismo gaúcho, arriscamos dizer que a ligação com o, em sua maioria, tosco movimento, acaba por prejudicar o autor de Contos Gauchescos. O fato de haver inclusive uma Medalha Simões Lopes Neto faz com que muitos leitores do RS o associem ao MTG e deixem de entrar em contato um autor muito sofisticado. Pois o homem que desejava livrar-nos da sarna e dos carrapatos produziu grande literatura.

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Ribamar, de José Castello

José Castello é um conhecido crítico literário, escritor e jornalista que me acostumei a acompanhar nas páginas da Rascunho. Ribamar é seu mais recente romance. Romance? Romance muitíssimo autobiográfico, romance que é uma mistura entre ficção, memória, autobiografia e biografia do pai. Ribamar é José Ribamar Martins Castello Branco, pai do escritor, e o livro é uma dolorosa aproximação do filho ao pai morto.

Minha primeira surpresa ao ler Ribamar foi o tom deprimido do, tá bom, romance. O Castello que conhecia dos jornais me parecia incapaz disto: era um crítico e pessoa calma e bem-humorado, cujas críticas inteligentes eram sempre permeadas de compreensão. Fazia quase a crônica daquilo que lia. Era um agradabilíssimo gentleman literário, mas vá saber que abismos se escondem sob a casca? Sim, muito profundos. O mote para o romance-texto-anotações que vai sendo montado por Castello é a Carta ao pai, de Franz Kafka. Assim como Hermann Kafka não leu o livro do filho, Ribamar parece não ter lido mesmo livro quando lhe foi dado de presente pelo filho José. Anos depois, já com o pai morto, José depara-se com o exemplar que dera ao pai. O livro aparentemente não tinha sido lido, mas há uma frase sublinhada: Comigo não existia praticamente luta; minha derrota era quase imediata; apenas subsistiam evasão, amargura, tristeza, conflito interior. É neste ponto, além da lembrança de uma canção de ninar que manda “o mimoso José calar a Boca”, e que era cantada por seu pai, que começa a tentativa de retomada deste por parte do escritor.

O romance que, repito, é dilacerante e por vezes difícil de avançar, na segunda metade leva Castello à quente Parnaíba a fim de tentar recolher mais alguns cacos da infância paterna. A forma bisonha com que tais lembranças são procuradas e todos os sentimentos envolvidos dão enorme potência à Ribamar. Ribamar é aquele gênero de pai que penso seja cada vez mais raro, aquele que acha que humilhar educa, que criticar de forma acerba endireita. E o livro é tão dolorido que é realmente difícil escrever a respeito numa agradável manhã porto-alegrense, após uma noite feliz com os filhos.

O livro foi o vencedor da categoria melhor romance do 53º Prêmio Jabuti. Deve ter merecido. A carta ao pai de Castello não é a prosa fechada, redonda e circunstanciada de Kafka. O que faz Castello mais parece um amontoado de folhas, mas como doem.

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Hoje é dia de comemorar COM CERVEJA os 327 anos de Bach

Claro, é uma comemoração simples e modesta, já que nem sei se há muitos parentes dele por aí além de PQP Bach, o filho bastardo. Mas a comemoração deve ser à base de cerveja.

Para quem conhece, é curioso ou lê a respeito da história da música, é sempre surpreendente o tamanho de Bach, seu grau de influência (influência que se revela perene) e sua colocação como pedra fundamental de toda a cultura musical. E todo o mundo que Bach criou foi desenvolvido numa época em que não havia muita noção de obra; ou seja, Bach não escrevia para a posteridade como passaram a fazer logo depois, mas para si, seus alunos e contemporâneos. E era um brigão; passava grande parte de seu tempo solicitando mais e melhores músicos, salários e procurando “emprego”, digamos. Costumava ganhar mais que seus pares, mas nada que fosse espantoso, de forma nenhuma.

A perfeição daquilo que criava e que era rápida e desatentamente fruída pelos habitantes das cidades onde viveu, era pura necessidade individual de fazer as coisas bem feitas. E, mais, ele parecia divertir-se criando dificuldades adicionais em seus trabalhos. Muitas vezes o número de compassos de uma cantata corresponde ao capítulo e versículo da Bíblia daquilo que está sendo cantado. Em seus temas aparecem palavras — pois a notação alemã (não apenas a alemã) é feita com letras — , e suas fugas envolvem verdadeiros espetáculos circences que só podiam ser apreendidas por especialistas. Então Bach era não apenas um fantástico melodista capaz amolecer as pernas de quaisquer ditadores — sei do que falo — , como um sólido teórico capaz de brincar com seu conhecimento. Em poucas palavras, pode-se dizer que o velho sobrava… Sua obra, mesmo com a perda de mais de 100 Cantatas e de outras obras por seu filho mais velho, o preferido de Bach e maldito pelos bachianos Wilhelm Friedemann, suas obras completas correspondem a 153 CDs da mais perfeita música. Grosso modo, 153 CDs são 153 horas ou mais de 6 dias ininterruptos de música.

E também sobrava cerveja em sua casa. Seus contratos previam dinheiro e algumas vitualhas fundamentais: cevada, trigo, lenha e não apenas cevada, mas uma quantidade enorme de cerveja, pois o homem não apenas queria a cevada com a autorização para produzir a bebida, mas a própria. Pode-se de dizer que, naquela época, por questões de saúde, era preferível beber cerveja à água, mas… Pô, Bach pedia muita cerveja. Um litro de cerveja custava o equivalente a US$ 1,50 e o de leite $1,25; isto é, a cerveja era tão (in)acessível quanto o leite, porém as notas examinadas por seus biográfos indicam que a família Bach consumia toneladas dela. Um relatório de gastos do compositor em 1725 (tinha 40 anos) dá conta de um consumo enorme por um período limitado, suficiente para várias pessoas por muitos dias. É óbvio que seus alunos e músicos bebiam junto, mas não vou entrar em maiores detalhes porque o que desejo arengar hoje é simplesmente o fato de que qualquer bachiano que se preze deve beber CERVEJA hoje. É a bebida correta.

Espero ter sido claro. Um brinde à grande e produtiva vida de Johann Sebastian Bach!

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Enquanto Hitler fala da Copa na Arena, o Les Luthiers esmerilha

Eu não tenho culpa de nada, só achei tudo muito engraçado.

http://youtu.be/0iphieU-P_g

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O time pode até ser mais ou menos, já o marketing…

Vídeo gravado através de telefone celular:

http://youtu.be/oe_V2Nk6V6w

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Olivio e a maquete

Abaixo, a bela foto que Caio de Santi publicou em seu Facebook. Talvez apenas compreensível para gaúchos, ela mostra o ex-governador e conselheiro do Internacional Olivio Dutra levando uma das maquetes do futuro Beira-Rio após o evento de assinatura do contrato com a Andrade Gutierrez. Quem conhece Olivio pessoalmente não fica indiferente a sua simpatia e simplicidade.

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Porque hoje é sábado, Cyd Charisse (ou as pernas)

Post publicado em 21 de junho de 2008. As fotos tinham sumido na passagem do blog.

Um amigo pediu um Sábado Trash com Deborah Secco, mas confesso que me assustei com o resultado…

Então, fiquei com a monumental Cyd Charisse (1922-2008), falecida esta semana.

Nunca vi um filme com ela. Nem Cantando na Chuva vi.

Sou hostil ao gênero “Musical”; acho que só gostei de West Side Story e… Dançando no Escuro é mesmo um musical?

Fico imaginando se, num momento de extrema alegria, reagisse saracoteando com um louco.

Imagino-me dançando no nascimento de um filho, dentro da maternidade, com a criança nas mãos sendo perseguido pela pediatra, que também dançaria.

Ou após a primeira relação sexual, saltando aliviado sobre o sofá da sala, dando voltas na TV, pegando quadros, trocando seus lugares na parede.

Dançaria na frente do Palácio Piratini, junto aos brigadianos, pedindo a queda da tia Yeda.

Bom, chega. Meu pai era um admirador — como todos –, das pernas perfeitas da deusa Cyd. Falava muito nelas.

Cyd chegou a fazer um seguro de cinco milhões de dólares para suas pernas (é um recorde, está no Guiness Book).

Seu verdadeiro nome é Tula Ellice Finklea e acho que foi uma boa fazer a troca.

Foi casada por 60 anos com o cantor Tony Martin. O que é que deu errado com eles?

Ela dizia que Gene Kelly era mais criativo, mas que Fred Astaire era melhor dançarino.

Ela devia saber; afinal, dançar era com ela.

Para mim, ficam suas pernas, verdadeiramente loooooooooooooongas e deslumbrantes.

No fechamento desta edição, descobrimos que ela recebeu de Bush o National Medal of Arts and Humanities Award.

Viram? Sempre desconfiei desses dançarinos…

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Fundamentalismo

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Que saco! O papa estará novamente entre nós em 2013

Pô, qual é? O que esse cara vem fazer aqui de novo?  O papa vai visitar o Rio de Janeiro durante a “fundamental” Jornada Mundial da Juventude, programada para o período de 23 a 28 de julho de 2013. O governo federal criou uma comissão especial para organizar os preparativos do boca-livre carola. A atuação da comissão especial será considerada prestação de serviço público relevante e não será remunerada. OK, me engana que eu gosto… Não vão gastar nadinha, né?

A caricata figura nem chegou e eu já estou de saco cheio do noticiário. A vantagem é que já sei quando devo marcar minhas férias. Ou… a propósito: vamos organizar um protesto contra o boçal aí?

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A alegria de precipitar-se no abismo (post motivacional)

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O dia em que Porto Alegre será destruída

Foto tirada ontem por Ramiro Furquim / Sul21

2014. 18 de junho. Dia do quarto jogo a ser realizado no Beira-Rio, cujas obras foram entregues à Fifa e ao mundo faz um mês. Era um dia estranhamente quente para aquele finalzinho de outono. A partida reúne — reúne… — Argentina e Inglaterra. A cidade está tomada pelos hermanos, mas também, em menor número, pelos polidos e simpáticos invasores das Malvinas. Após duas greves, a Brigada Militar está de prontidão e as rádios “de sucesso” anunciam que o Rio Grande do Sul será palco do confronto do século e que um gaúcho-úcho-úcho, Leandro Vuaden, será o quarto árbitro. Todas as preocupações se voltam para a situação nas ruas, ignorando o que ocorre nos céus. Só a Defesa Civil do governador olham para lá. É que lá formam-se nuvens e mais nuvens e, no final da manhã do grande jogo, começa um toró de varrer Malvinas, Margarets e Cristinas do mapa.

Logo falta luz na Zona Sul, claro. Todos os ingleses que tomavam banho nas águas do Guaíba são direcionados para o BarraShoppingSul, onde há energia elétrica e argentinos que, à princípio, apenas os observam silenciosamente. Nas ruas, instala-se o caos com 35 pontos de alagamentos. Para piorar, ocorre um acidente entre dois ônibus dentro da Túnel da Conceição, formando um engarrafamento verdadeiramente inesquecível, pois os argentinos saem dos seus carros para beberem cerveja e quebrarem qualquer coisa coisa que encontram, no que são imediatamente imitados por ingleses e gaúchos. Uma árvore cai sobre um inglês e a Embaixada do país cobra explicações do governo brasileiro.

Tudo se torna muito mais divertido quando os torcedores notam que será impossível chegar ao estádio no horário, digamos, aprazado. Na Zona Sul, a muito custo, a Brigada consegue criar dois corredores que levam separadamente ingleses e argentinos a pé, sob forte chuva, para o estádio, aproveitando a proximidade. Os que estão no resto da cidade… Bem, estes não vão chegar a lugar algum. Então, brigam. Como um jogo de futebol que se torna mais violento conforme a chuva, a coisa fica cada vez mais descontrolada. Três ingleses são afogados hasta la muerte por grupos argentinos na Av. Osvaldo Aranha, enquanto comandos ingleses perseguem hemanitos com paus e pedras. Gremistas trajados com seus típicos pijamas são confundidos pelos ingleses — as camisetas são quase iguais, lembram? — e entram no bolo para apanhar. Os colorados aproveitam para tirar uma casquinha.

(Putz, 7h, dia cheio, tenho que cobrir a abertura da Semana de Porto Alegre. Desculpem, vou para o trabalho agora. Nem revisei, só achei a ideia divertida, tá? Talvez dê continuidade mais tarde a este verdadeiro drama gaúcho).

Filme de 2009 no Arroio Dilúvio:

Esse diz que é de ontem, mas é o mesmo surfista de 2009. Acho que é outra filmagem do mesmo fato, pois encontrei esta filme ainda ontem, durante o toró:

http://youtu.be/mU-MskcwjDY

E ontem…

Tartarugas queriam sair do Arroio Dilúvio ontem. Lá fora estava igual. | Foto: Léo Cardoso

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Essa coisa chata de comparar Pelé, Maradona e agora Messi

Ontem, eu e meu filho estávamos chegando ao Beira-Rio quando ele começou a reclamar — com toda a razão — de Juca Kfouri. Dizia ele que o Juca escreveu uma matéria em que defendia superioridade de Pelé com base em números, gols e títulos. Ambos gostamos bastante do jornalista e concordamos com grande parte de suas ideias e posições, mas são casos incomparáveis. O contexto de Pelé era outro. O Santos jogava quilos de amistosos, parava guerras e muitos jogos de Pelé eram pura exibição. Nem marcavam o cara. Se fosse para comparar, teríamos que limpar todos esses gols. Limparíamos também a Copa de 1962, a Copa de Garrincha, quase não jogada por Pelé e todos os Campeonatos Paulistas, pois não há estes anacrônicos estaduais em outros países.

Mas o que me deixa mais encasquetado é que mestres como Xavi, Beckenbauer ou Cruyff, não podem entrar nesta comparação. Beckenbauer era volante e depois passou a zagueiro. Sua função não era a de marcar gols. Xavi costuma dar de presente gols e mais gols para outros (por exemplo, Messi) fazerem ao borbotões, e o mesmo ocorria com Cruyff. A defesa nacionalista de Pelé — e agora não falo mais apenas de Kfouri — é das coisas mais bobas que conheço. Pelé foi o meio jogador de seu tempo, o mesmo valendo para Maradona, Messi e muito outros. Mas agora, se me encherem o saco, digo que vi os três jogarem — o que é verdade — e que Maradona era o melhor disparado…

P.S.: Nos 5 x 0 do Inter sobre o The Strongest, o melhor jogador em campo foi Oscar, que deu três passes de bandeja que resultaram em gols. Damião fez três, mas e daí? Viram só?

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Merval Pereira, nosso representante na ABL, defende Ricardo Teixeira

Pobre Ricardo Teixeira. Segundo Merval Pereira, um injustiçado. A peça que se lê abaixo demonstra toda a compaixão do colunista de O Globo para com a saída de um dos homens que mais acumula denúncias no mundo do futebol — talvez o campeão — e que sempre tirou sarro das mesmas, como pode ser comprovado nesta franca e bem humorada reportagem da Piauí.

Teixeira presidia a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) há 23 anos, cargo que ocupava por indicação do então sogro João Havelange, e via-se envolvido em uma série de denúncias de irregularidades, tanto no Brasil quanto no exterior. As acusações do jornalista Andrew Jennings, da BBC, autor do livro Jogo Sujo: o mundo secreto da Fifa pareciam cada vez mais inequívocas. Joseph Blatter, presidente da Fifa também acusado por Jennings, e o Palácio do Planalto não conversavam mais com ele. Sentindo-se isolado e sacaneado, o capo pediu para sair. Romário, um gênio dentro do campo e um mestre da objetividade fora dele, autor da célebre e exata súmula sobre Pelé, “Pelé calado é um poeta”, recumiu tudo num pouco brilhante mas não menos exato lugar-comum: “Hoje podemos comemorar. Exterminamos um câncer do futebol brasileiro”.

Quem fica em seu lugar não é muito diferente. José Maria Marin é velho aliado de Maluf e antigo cartola amigo de Teixeira. Teve seus momentos de fama este ano: em 25 de janeiro, foi flagrado colocando no bolso uma das medalhas destinadas aos jogadores do Corinthians na cerimônia de premiação dos campeões da Copa São Paulo de Juniores. Na ocasião, a Federação Paulista de Futebol disse que a medalha já estava reservada a Marin (?), mas no fim da solenidade um dos goleiros do Timão, Matheus, acabou sem receber seu prêmio. Estamos em boas mãos.

Mas, voltando a Teixeira, Merval e o Jornal Nacional da Globo ficaram tristes com sua saída. Não vi o JN, só li a prosa escorreita, bela e compassiva de Merval.

As angústias de Ricardo Teixeira

As acusações de corrupção no Brasil e no exterior certamente pesaram na decisão de Ricardo Teixeira de se demitir da presidência da CBF.

Pelo menos na Fifa a solução é imediata: a saída do dirigente brasileiro suspende investigações que porventura estejam tramitando. No Brasil, ele espera que seu desaparecimento da cena pública atue como sempre, fazendo com que o esqueçam.

Mas, recentemente, ele se revelou a amigos angustiado mesmo foi com o fim de seus sonhos. A realização da Copa do Mundo no Brasil era o sonho de Ricardo Teixeira para chegar à Presidência da Fifa, o reconhecimento público de seu trabalho era uma ambição que alimentava.

Achava que, finalmente, iriam dar valor ao que fizera nesses 23 anos à frente da CBF. Mas o sonho tranformou-se em pesadelo.

Na nota de renúncia, ele abordou o tema dizendo que suas vitórias foram subvalorizadas e os erros superdimensionados.

Não tinha mais interlocução com a Presidente Dilma Rousseff, e nem com o Presidente da Fifa Joseph Blatter. E via a cada dia os trabalhos para a realização da Copa mais e mais atrasados.

Temia que a culpa final recaísse sobre ele, tinha medo de se transformar no bode expiatório dos dois lados, governo e Fifa. Como Presidente do Comitê Organizador, é claro que tinha culpa, mas sentia-se a cada dia mais isolado, sem capacidade de reação.

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O blog dá todo o apoio à Massa Crítica e aos bicicleteiros

Monica Bellucci

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Prokofiev – Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra

O primeiro concerto para piano e orquestra de Prokofiev tem pouco mais de 16 minutos, é belíssimo e extraordinariamente difícil. A forma bem humorada com que Martha Argerich tira de letra as dificuldades nos fazem pensar em algo como um gol de Messi. É uma gravação ao vivo 100% honesta. Quem conhece o concerto de cor sabe que ela come algumas poucas notas, mas francamente, que besteira! O que interessa é a musicalidade, como disse meu amigo Alexandre Constantino. Aliás, é por esta razão que sempre prefiro as gravações ao vivo às de estúdio. Ao vivo, é o músico; em estúdio é a concepção ideal do músico ou, pior, a do produtor. Prefiro o primeiro, sempre. O regente é Alexander Rabinovitch, antigo parceiro de Martha.

(Post escrito logo após uma garrafa de espumante bebida sozinho. Ou seja, pode ter erros. A escolha da obra é perfeita, eu garanto. Vejam até o fim que vale a pena. Martha é uma deusa. Sabem que ela já falou comigo? Pois é…).

Ah, este filme me foi apresentado pelo Luiz Paulo Faccioli.

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Porque hoje é sábado, Helena Bonham Carter

O PHES de hoje é uma especial concessão

a minha filha Bárbara

que acha linda a Helena Bonham Carter.

Eu a acho…

Eu a acho…

Bonitinha, bem bonitinha até, mas caricatural.

Dá vontade de brincar com ela, o que não é mau,

nem contém maldade.

Ei, para de fumar!

Para, caralho!

Antes de pensar em sexo,

penso nas piadas que diria e ouviria dela.

Pois sua inteligência e bom humor

estão claros, jorrando de seus olhos.

Helena é de 1966 e tem 1,57m,

pensando bem, são bons números.

Combina melhor com o escândalo,

do que com o senso comum.

Pensando bem, fico com ela.

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O tamanho de minha mãe

Tenho ido ver frequentemente minha mãe na clínica onde ela se encontra. Como seu cérebro está inteiramente tomado pelo Alzheimer, ela fala em raríssimas ocasiões e acabo indo lá apenas para olhar para ela e dizer algumas palavras que lhe sirvam de alguma forma. A psicóloga da clínica disse que vozes familiares podem servir de consolo ou de lastro aos portadores da doença. Então, próximo a seu ouvido, digo coisas. Pergunto se está tudo bem, falo no passado e dou notícias de nosso time. Depois, passo alguns minutos perguntando para as enfermeiras como foi sua noite e mais nada. Estar em sua presença é estar 100% ali, tal é sua situação. Não há vida interior que me leve para fora. Sou filho, sou mamífero. Ela alimenta-se através de uma sonda e recebe oxigênio, ou seja, sua vida é destituída de sinapses e prazeres, está viva por estar, é doloroso mesmo.

Ela pouco reage a minhas iniciativas, apenas solta uns gemidos. Durante os minutos que fico na clínica, acabo falando muito, mas o contraponto de meu tagarelar são os pensamentos sobre o que foi minha vida com minha mãe. Há muita coisa positiva, uma montanha delas, mas é óbvio que um admirador de Kafka e Bergman vê também o lado negativo. Minha mãe era o esteio de nossa pequena família. Enquanto meu pai dilapidava o que ganhava em seu trabalho como dentista no turfe, minha mãe cuidava de tudo. O que um destruía, era reconstruído do outro lado. Ela também era dentista e ambos deviam ganhar bastante bem. Também tinham outra característica: brigavam pouco. A mãe dizia com ar conformado que o pai era um bom homem com um defeito sério. Como todo mundo, pareciam insatisfeitos; como poucos, pareciam viver bem.

Então, minha mãe não apenas me dava carinho, mas também era o banco da casa. Sempre que precisava de dinheiro, o ideal era falar com ela. Minhas demandas eram muito simples — sempre fui um sujeito financeiramente contido — e não lembro de algo que me fosse negado. Livros, cinema, um pouco de dinheiro para sair, tênis, alguma roupa, quase nenhuma viagem, sua carteira sempre estava aberta para coisas pouco dispendiosas. E minha educação foi toda na escola e universidade públicas. Também foi quem insistiu comigo para que eu lesse muito. Porém, não lembro de ver minha mãe com um livro aberto — e eu a conheço há 54 anos. Ela simplesmente não lia, mas sabia vender bem o que quisesse ver realizado. Como esta, havia uma série de incoerências que eu apenas passei a ver depois de anos.

A mãe imensa e inatingível de Persona (Clique para ampliar)

Domingo passado, quando vi Persona, observando aquele menino sob o imenso fundo da imagem da mãe, pensei no tamanho que ela tinha para mim durante minha infância e adolescência e no que era necessário fazer a fim de agradá-la. Pois havia uma conta a pagar. Por exemplo, quando estava no segundo ano do segundo grau, apaixonei-me pela literatura e decidi que ia fazer Letras. A repercussão de minha descoberta foi a pior possível. Em duas conversas curtas, ela me disse que era um absurdo, que eu tinha que fazer a faculdade em algo da área científica e que era impossível viver de “Humanas”. Estávamos em plena ditadura militar e os cursos universitários não científicos eram coisas a serem quase combatidas. Sua preocupação era financeira. Como eu detestava Biologia, acabei fazendo vestibular para Engenharia Elétrica — o mesmo curso que fez um primo irmão meu e que eu sabia que estava dentre as profissões aceitáveis. Na verdade, eu mal sabia do que se tratava. Passei facilmente — poderia ter entrado em qualquer curso — , e fiquei perdendo tempo na Engenharia. Lia os clássicos, na verdade. Nunca terminei o curso. Dois anos depois, fiz Comunicação Social, mas aquilo foi rapidamente contestado e eu larguei o curso na metade. Então, entrei na área de Informática, voltei a ser aprovado por ela, me formei, coisa e tal. A culpa é dela e minha. Ela por ser autoritária e eu por ser o babaca que desejava vê-la feliz.

Minha mãe podia ter As Melhores Intenções (outro roteiro de Bergman), mas era uma equivocada. E eu permitia que ela o fosse. Nem tudo eram rosas com a Dra. Maria Luiza e às vezes tenho ganas de começar a reclamar do uso que ela fez da avassaladora influência que tinha sobre mim. Estranhamente, não lembro de reclamações de meu pai. Ele era divertido, talvez indiferente às preocupações da mãe e eu sempre o preferi. Ou será que eu simplesmente limpei tudo de ruim pelo fato de ele ter morrido em 1993?

Será que eu reclamasse dela agora mudaria o tom de seus gemidos? Não creio. Afinal, quando eu lhe disse que o Grêmio ganhara o último Gre-Nal ela não fez cara nem de ódio nem de decepção.

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Morro de Santa Teresa, Porto Alegre, início da década de 60

Não havia Beira-Rio, nem Centro Administrativo e quase nada na margem do Guaíba próximo à Borges de Medeiros – Praia de Belas – Menino Deus. Só Simcas, Fuscas, Rurais, crianças. As famílias iam ali à tarde para passear e ver a paisagem e, à noite, iam os concupiscentes. Um espaço multi-uso. No mesmo dia, servia de motel da cidade e local da família porto-alegrense.

Foto: Gentileza de Sergio Gonçalves.

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If you open your mind too much, your brain will fall out (Take my wife)

Canção: If you open your mind too much, your brain will fall out (Take my wife) de e com Tim Minchin.

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Ah, os torcedores…

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