O Inter foi o time mais camaleão do campeonato brasileiro. Além de liderar por dezesseis rodadas, merece ganhar porque se adaptou a uma competição sem torcida, no meio de uma pandemia, com limitações no elenco.
Não ficou reclamando da arbitragem ou das lesões. A cada queda, refez o seu elenco. Encarnou a salamandra mexicana, o axolotle, capaz de reconstituir por completo partes do corpo, como espinha e olhos.
Perdeu o goleador peruano Guerrero no início do campeonato, improvisou com Thiago Galhardo, que se consagrou o artilheiro da competição. Galhardo se machucou durante um mês, abriu vaga para o Yuri, que tomou conta do recado com dez gols.
Um dos destaques da lateral, o argentino Saravia, rompeu o ligamento. Surpreendentemente, Rodinei assumiu a posição com competência.
Quando experimentava alta performance, Boschilia enfrentou a mesma lesão, Praxedes subiu da base com brilho.
O xerife da zaga, Moledo, no seu momento de maior invencibilidade, sofreu comprometimento no joelho e perdeu o resto da temporada. O desacreditado Lucas Ribeiro cumpriu a função.
Nossas grandes contratações ficaram no departamento médico. Esperanças vieram imediatamente preenchendo o vácuo.
Das ausências, surgiu espaço também para os atacantes Caio Vidal e Peglow.
Dourado voltou aos gramados depois de dois anos de inatividade.
Moisés superou a desconfiança e assumiu a titularidade da lateral esquerda.
Patrick e Edenilson voaram sobre as mudanças, com o diferencial do drible e da assistência.
E ainda choramos com a despedida do ídolo D’Alessandro, depois de 11 anos no clube,
Inter tinha motivos de sobra para dar errado neste ano, mas se reconstruiu como nunca. Não é uma zebra, mas uma salamandra avançando em sua milagrosa regeneração, com a fome de um título que busca há 41 anos.
Acabou com a abstinência do Gre-Nal em partida heroica, aplicou a maior goleada da história do São Paulo no Morumbi, Abel Braga tornou-se o técnico com o maior número de partidas dirigindo o colorado (337), enganou as estatísticas e venceu nove partidas consecutivas, o novo recorde dos pontos corridos.
Tudo aconteceu neste Brasileirão, o mais sobrenatural do manto vermelho, o mais supersticioso, o mais inacreditável.
Pelas adversidades somadas, o grupo está fechado, compacto, motivado. Já havia sido descartado por todos os comentaristas como eventual vencedor.
Não há, então, nenhum medo para enfrentar o elenco multimilionário do Flamengo no Maracanã. Não temos nada a perder. O pior já nos aconteceu várias vezes na temporada. Já tombamos, já levantamos. Enfrentamos o desmonte como nenhum de nossos adversários. Qualquer substituto joga pela sua vida.
Não existe como cair, porque jamais saímos do chão, jamais tiramos os pés do chão, da humildade da nossa humanidade. O chão é o céu da salamandra.
Foi mais de um mês de leitura, houve um momento em que me irritei com a insistência do autor em abandonar seus personagens para partir em longas digressões, mas foi por pouco tempo. Depois, lá pela página 700, não aguentava mais ver a capa do livro nem carregar suas mais de mil páginas na mochila para cá e para lá, pois leio muito em cafés e parques, só que cada vez que o abria ficava feliz em lê-lo. Sim, Knausgård me dobrou e não apenas à coluna.
Quatro anos após a publicação de A Descoberta da Escrita, volume 5 de Minha Luta, a sexta e última parte da hexalogia chegou ao Brasil em dezembro. A Companhia estava nos devendo. Por que demorou tanto não está claro, apesar do fato de serem 1049 páginas. De qualquer maneira, valeu a espera. Eu, a cada romance de série, ficava preocupado se o livro me sugaria novamente. O que mais Knausgård poderia dizer sobre si mesmo? Quantos cigarros e cafés ele ainda consumiria? Bem, dizer que são muitos não é dar spoiler.
Vamos a O Fim. Knausgård havia escrito dois volumes de Minha Luta e estava prestes a começar a trabalhar no terceiro quando o primeiro — A Morte do Pai — foi publicado. Como tratava-se de uma autobiografia muito franca e na qual todos os personagens — parentes, amigos e colegas — , eram retratados com seus nomes verdadeiros, ele resolveu enviar o primeiro romance a cada um dos citados no livro. E aqui ele começa a registrar knausgårdianamente a rixa familiar e a crise autoral desencadeada. Seu tio o acusou de inventar coisas no romance. Isso normalmente não seria uma cobrança que incomodaria a um escritor de ficção. Porém, neste caso, o autor tinha se empenhado em escrever a “verdade”, não apenas a versão emocional dela, mas também o factual, a versão real. “O objetivo do romance”, escreve ele, “era retratar a realidade como ela era”. E a insistência do tio de que Knausgård havia inventado material para embelezar sua história (que mais tarde se revelou uma falsa acusação) o fez questionar sua própria memória e motivações, o que causou uma espécie de dúvida paralisante.
O tio Gunnar, irmão de seu pai, respondeu à cópia do livro que Knausgård lhe enviou com um e-mail intitulado “Estupro verbal”. Sua raiva e determinação em bloquear a publicação deixaram seu sobrinho perturbado, até porque sua fé em suas próprias lembranças dos eventos foi abalada. Enquanto Knausgård se preocupa e chama seu editor, ainda deve levar a vida fritando bolos de peixe para o chá de seus três filhos e certificar-se de que eles assistam ao episódio de Bolibompa do dia.
Cada fralda trocada, cada cigarro fumado na sacada, cada xícara de café derramado é a invasão da vida normal que distrai da bagunça interior. Ele sabe disso, nós sabemos disso; e ficamos presos a ele.
A descrição de Knausgård dessa crise — seu nervosismo, a forma implacável com que ele repassa os eventos repetidas vezes, seu esmagador senso de transgressão e vergonha — é fascinante. Ele está disposto a expor não apenas seu medo visceral, mas também sua falta de cálculo e de premeditação. Sua falta de jeito…
Isso e o intenso debate público a que o livro foi submetido na Noruega levaram Knausgård a ser mais contido — e, portanto, menos verdadeiro — nos volumes três, quatro e cinco. Mas em O Fim, ele garante estar determinado a contar as coisas como elas são, independentemente dos custos sociais.
Um aspecto dessa ousadia renovada é um ensaio de 400 páginas sobre a vida, os pensamentos e o apelo de Adolf Hitler. Você pode perguntar onde isso se encaixa nas angústias de um romancista pai de três filhos que mora em Malmoe. É complicado, embora Knausgård tenha tomado o título de sua série das notórias memórias do líder nazista. Mais importante, o norueguês é um romântico declarado, alguém que se sente desconfortável com algumas hipocrisias racionalizadas de uma sociedade moderna que exalta os valores da igualdade enquanto privilegia de forma flagrante as desigualdades de nascimento e da beleza física, por exemplo.
Em algum lugar dentro dele está também o desejo purificador sobre o qual Hitler construiu seu culto ultranacionalista, apoiado por muitos que deveriam saber melhor, incluindo Heidegger. Knausgård explora essa tradição intelectual e busca entender como o desejo por autenticidade resultou no genocídio industrializado e nos maiores horrores do século XX.
Depois de algumas centenas de páginas de vida familiar e drama, o escritor se afasta de seus assuntos domésticos, levando-nos em outra direção. O ritmo febril diminui à medida que nos familiarizamos com trechos um pouco mais sofisticados, com grande nacos de reflexões filosóficas despejadas no meio do romance. No início desta seção, temos uma longa passagem sobre um curto poema de Paul Celan , cinquenta páginas de análise de parte de um homem que diz, ironicamente, que realmente não entende de poesia. Aqui Knausgård começa a explorar o contraste entre o individual e o coletivo, com foco em um poema ambientado em um deserto escuro, onde pessoas e nomes são escassos.
Mas o autor não está perdido. O elefante na sala é o Holocausto, e é nesse ponto que ele finalmente conecta seus temas. Grande parte desta seção intermediária é dedicada a resumir Mein Kampf, mostrando a ascensão de Hitler da obscuridade austríaca provinciana a líder de uma nação e de um povo, além de maestro de um dos maiores crimes da humanidade. É bastante perturbador ler sobre Hitler como pessoa, muitas vezes em suas próprias palavras. Knausgård tenta cobrir a vida de Hitler objetivamente, recusando-se a ver vestígios do mal onde nenhum é evidente, e critica os historiadores que sentem a necessidade de demonizar cada ação realizada em seus primeiros anos.
É um trecho intenso e exigente para o leitor. Apesar de toda a sua leitura atenta de Hitler e de seus vários historiadores — sua crítica ao trabalho de Ian Kershaw vai muito além de uma nota de rodapé –, ele nunca consegue realmente entender a origem ou o crescimento do antissemitismo demente do ditador, mas tateia bastante sobre isto e a cultura geral europeia, tão afeita a este conceito.
Talvez o tamanho do empreendimento seja grande demais para estar contido dentro de uma narrativa da luta de um escritor. A provocativa ironia do título torna-se, em vez disso, um estudo comparativo de duas pessoas meio alienadas — um que continua a escrever um livro aclamado pela crítica e o outro que é responsável pela morte de dezenas de milhões.
Claro que o desequilíbrio é evidente. A série de livros não matou ninguém nem mobilizou a humanidade. Ainda assim, Knausgård deve ser aplaudido por mostrar que o grande mistério da era moderna — a descida da Alemanha à loucura genocida — não é uma questão de “eles”, mas de “nós”. É claro que somos nós, todos nós, como sociedade, que elegemos ou damos chances aos monstros genocidas.
E nunca esse “eu” é anunciado de forma mais enfática do que na crítica de Knausgård a sua autoficção e, em particular, às consequências dela na vida real de outras pessoas. Isso cria um tipo estranho de feedback, no qual o autor se censura por suas intrusões anteriores na privacidade de outrem enquanto, simultaneamente, invade mais uma vez.
O exemplo mais perturbador é com Linda, sua segunda esposa, sobre quem ele escreveu em termos frequentemente negativos no volume dois, Um Outro Amor. Bipolar, com três filhos pequenos e lutando contra uma falta crônica de confiança como escritora, Linda sofre um colapso nervoso e acaba em um hospital psiquiátrico por vontade própria. No entanto, enquanto se tortura pela insensibilidade de suas descrições anteriores, Knausgård mais uma vez submete sua esposa a um olhar nada lisonjeiro, criando a imagem de uma mulher capaz e amada, mas indolente, tentando constantemente cortar a liberdade do autor para escrever.
A vida de Knausgård é monótona e exigente. É também bastante pobre em beleza. A cada dia, ele tenta preservar seu tempo de escrita enquanto zelosamente prepara o café da manhã para seus filhos, levando-os para o jardim de infância, fazendo compras e preparando-se para a publicação do primeiro volume de Minha Luta. Os arrebatadores primeiros dias de seu relacionamento com Linda deram lugar a uma leve irritação com a divisão dos deveres domésticos, e talvez seu confidente mais próximo seja seu amigo Geir (um dos vários Geirs no livro, isso pede que o leitor preste atenção).
Como Knausgård reconhece, a complexidade da vida permanecerá além do documentador mais escrupuloso. No entanto, a vida e a arte sempre se misturam, criando as gloriosas diferenças entre experiência e representação. Escrever sobre a vida, como observa Knausgård, foi seu meio de escapar à vida. Porém, quanto mais ele escreve sobre sua vida, mais ele é aprisionado pela autoconsciência que a empreitada exige.
No final do livro, podemos sentir seu desespero crescente para terminar a tarefa. Na página final, ele promete que nunca mais “fará algo assim” com Linda e as crianças. Seja qual for a verdade dessas palavras, sua vida agora está destinada a ficar à sombra dessa realização literária verdadeiramente monumental em seis volumes. E talvez não haja maior marca de sucesso artístico do que isso.
Com os seis livros finalmente terminados, vem a pergunta: é realmente bom?, valeu mesmo a pena? Sim, valeu a pena ler. Muito. Certamente foi um percurso muito interessante e não me arrependo dele. Knausgård encara o abismo como Bergman, encara o abismo como talvez só um nórdico tenha disposição de fazê-lo. Ele abre feridas e escreve sobre o que as causou, com honestidade comovente e dor palpável. O que mais vou lembrar são as seguintes cenas: a limpeza da casa no primeiro volume, seu total desamparo em face de seu pai dominador em A Ilha da Infância, seus amores por algumas mulheres e a vergonha da ejaculação precoce, as madrugadas e reuniões de Uma Temporada no Escuro, as perigosas bebedeiras e a tentativa de automutilação — sob álcool — de A Descoberta da Escrita, a relação com o irmão e o colapso assustador de Linda na última parte de O Fim. Ah, e a riqueza do cotidiano, pois há emoção, memórias e lembranças proustianas — até paixão — em cortar uma laranja ou calçar um sapato.
Se eu leria tudo de novo? Algumas partes, sim. Até porque já estou com saudades.
RECOMENDO MUITO.
P.S.: Clique aqui para todas as resenhas da série.
O Doutor Fausto, de Thomas Mann, além de possuir imenso valor literário, é uma espécie de bíblia reverenciada pelos amantes da música. É um daqueles livros sobre o qual alguns leitores referem-se citando o número de cada capítulo. O XXV, por exemplo, é a celebre conversa de Adrian Leverkühn com o demônio. Há o oitavo, onde o professor Kretzschmar explica brilhantemente a Sonata Op. 111, de Beethoven. Percebem? O que desejo dizer é que o Doutor Fausto é um livro citado capítulo por capítulo, tal a impressão que causa a quem se apaixona por ele. É o mesmo que fazemos com a Parábola de Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamázovi. Claro que ele pode e deve ser fruído também por quem sofre de amusia, assim como os Karamázovi pode ser lido por quem não deseja matar o pai, mas amar a música ajuda.
Narrada por um amigo, o professor Serenus Zeitblom, Doutor Fausto é a história do músico Adrian Leverkühn que, como o Fausto da lenda, vende a alma ao Demônio. Como contrapartida, ganha por alguns anos uma absoluta genialidade musical, suficiente para a composição de um conjunto de obras imortais. Publicado em 1947, este livro faz parte do período final de Thomas Mann, sendo tecnicamente seu romance mais ousado, no qual música e política, realidade e símbolo, o bem e o mal, estão entrelaçados de forma impressionista e irrepetível. Sempre é bom ressaltar que a tradução da Nova Fronteira é do saudoso e competentíssimo Herbert Caro, que proporcionou grandes manhãs de sábado a um grupo de jovens que se encontrava na King`s Discos da Galeria Chaves em Porto Alegre para falar sobre… música e literatura. O que aprendi com este sábio não tem tamanho, mas esta é outra conversa.
Call me Ishmael. Assim inicia o espantoso livro do estadunidense Melville, originalmente publicado em três fascículos por uma editora londrina, no ano de 1851. Mody Dick, em meio a reflexões e narrativas sobre a vida no mar, conta a história do capitão Ahab, o qual deseja incondicionalmente matar o cachalote Moby Dick, o qual destruiu todos os barcos que tentaram caçá-lo e é responsável por arrancar-lhe uma perna.
O interesse da tripulação do Pequod é a obtenção de lucro a partir da pesca de baleias. Mas o capitão Ahab tem o objetivo particular de se confrontar com Moby Dick, o Cque, é claro, é temido pelos baleeiros. A grandiosidade polifônica que esta história de obstinação alcança supera em muito qualquer sinopse que possa se escrever. É um livro profundamente humano, profundamente irracional, a descrição de um embate homérico do homem contra o irracional, do homem contra a natureza, do homem contra suas fragilidades. É um livro que passa lenta e inexoravelmente do âmbito humano para o cósmico.
Ishmael é um jovem que decide trocar uma vida segura em terra pela aventura em alto mar. Após algumas experiências, embarca em um baleeiro de Nantucket, o Pequod. É Ishmael quem narra a viagem e a loucura do capitão tomado pela ideia de vingança. A grande baleia branca que escapa a todos os perseguidores levou-lhe a perna e a paz. Enquanto não matá-la, Ahab não desistirá, mesmo enfrentando uma tripulação que apenas quer fazer seu trabalho e voltar para casa.
A recepção ao livro foi fria. Desigual, arrastado, crossover, um romance ensaístico com problemas estruturais evidentes, dizia-se. Passadas algumas décadas, o livro foi visto como antecipatório — um dos primeiros a utilizar o hibridismo entre gêneros, a considerar a realidade como um caos caleidoscópico, a romper com as amarras do romance clássico do século XIX. A baleia branca de Melville pode ser o que quisermos que ela seja: a morte, deus, o mal, o destino. A bordo do Pequod estamos todos nós.
Oh, mas quem é Pedro Rosa Mendes para estar numa lista de melhores livros? Bem, em primeiro lugar, o autor é um esplêndido escritor e jornalista português; em segundo lugar, minha lista não guarda ordem de precedência. Agora que já tomei esta medida profilática de me defender de meus sete leitores amantes dos grandes clássicos, vou tratar de explicar porque este livro é IMPRESSIONANTE.
Este livro é sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte. (…) A razão para tal projeto era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. As duas frases grifadas fazem parte da nota introdutória do livro. A que projeto refere-se Rosa Mendes? Em junho de 1997 ele chegou a Luanda, em Angola, às margens do Atlântico, com a ideia de atravessar a África até chegar a Quelimane, em Moçambique. No caminho, as sangrentíssimas guerras tribais e entre os países da região, minas por todo lado, além da pobreza absoluta, tanto material quanto moral. E fome. Para temperar um pouco mais a coisa, o autor descobre duas coisas em Luanda, uma boa e uma ruim. A boa: sua mulher lhe avisa que está grávida em Portugal, mas que ele terá o tempo necessário para a reportagem, pois seu rebento nascerá apenas dali a seis ou sete meses; a ruim: o prognóstico que recebe de todos com quem fala de seu plano: você não sobreviverá.
A voz do autor é serena e elegante. Não é uma história contada em ritmo frenético, o andamento é o do humanista que deseja ouvir e compreender todos os envolvidos. Estive na palestra de Rosa Mendes na Flip de 2005. Ele estava com Jon Lee Anderson — o americano falava sobre a Guerra do Iraque e o português sobre a Guerra de Angola — e Anderson fez uma pergunta curiosa ao português: Baía dos Tigres recebeu muitos prêmios destinados a livros de ficção, por quê? A resposta foi típica da pessoa modesta que pareceu ser Rosa Mendes. Ele deu muitas voltas até dizer que era em função da linguagem do livro. E, diante da insistência de Anderson, ele acabou deixando escapar: ora, é que acharam que era bem escrito e não devia misturar-se a textos jornalísticos. Anderson respondeu com a gargalhada de quem já sabia antecipadamente a resposta.
Para dar ideia do que é este livro — que reencontrei na semana passada numa estante da Siciliano –, vou resumir algumas das histórias. Como a do encontro com um técnico francês que estava no país para testar o efeito das minas. Umas explodiam assim, outras assado. Umas eram cedidas a um grupo e, puxa, matavam mesmo; então recebi outras e repassei ao lado contrário. Essas eram melhores, as pessoas ficavam efetivamente mutiladas, deixavam os caras bem feridos, davam um trabalhão às equipes. Querem mais? Que tal a história das famílias de angolanos que operam suas vacas a fim de tirar-lhe alguns bifes, depois as costuram com alguns pontos e tratam de recuperá-la, pois não podem sobreviver sem elas? Por falar em mutilações, que tais as que são feitas na genitália feminina das africanas? Mas o melhor do livro é a narrativa dos interesses envolvidos. Portugal, Estados Unidos, Cuba, Brasil (Petrobrás e Odebrecht), mais os de grupos armados como UNITA, MPLA, FNLA, FRELIMO, RENAMO, etc. Sobre tudo isso, a total falta de observadores internacionais.
É. Onde não há dinheiro, as “forças de paz” não aparecem e os direitos humanos não interessam. Não ocorre nem a venda da “democracia salvadora” e de eleições livres. Um grande livro.
Este é um romance pouco falado atualmente, mas não há justificativa para ignorar esta obra-prima de Stendhal — que tinha o nome civil de Henri-Marie Beyle. É o livro que traz um dos maiores personagens da literatura de todos os tempos: o mal sucedido alpinista social Julien Sorel. André Gide escreveu que este livro de 1830 é o primeiro romance do século XX, por estar muito à frente de seu tempo. Tem razão Gide. A trama divide-se em duas partes: na primeira parte, no interior da França, Sorel abandona o trabalho da carpinteiro ao lado do pai e dos irmãos para tornar-se acólito do padre (ou cura) Chélan. Este lhe consegue um lugar de tutor dos filhos do prefeito de Verrières, Sr. de Rênal. Sorel parece um clérigo austero e seríssimo, mas na verdade prefere a Sra. de Rênal à Bíblia. O casal é descoberto e o cura o indica para um seminário. Novas maquinações e nosso herói vai para Paris, agora como secretário do Marquês de La Mole.
A segunda parte passa-se em Paris, onde conhece Mathilde de La Mole, filha do novo empregador de Sorel. Ela fica dividida entre o crescente interesse por Sorel — em função de suas admiráveis qualidades pessoais — e sua repugnância em se envolver com um homem de classe inferior. Não contarei desfecho do romance, nem o retorno da Sra. de Rênal à história, mas sou obrigado a falar mais um pouco sobre Sorel. Ele é o símbolo do homem inteligente e talentoso que sucumbe aos privilégios do nascimento e à falta de traços de nobreza. Havia um mal disfarçado sistema de castas na França. (Bem, e não há ainda hoje algo semelhante no Brasil?) Enquanto sonha estar sob o comando de Napoleão – seu modelo que mofava em Santa Helena – para fazer fortuna e viver grandes paixões, busca o seminário e tudo o que pensa que possa fazê-lo ascender socialmente. Lá, começa a alimentar secretamente seus desejos de grandeza, característica que mantém ao longo do romance sob várias formas. Todo O Vermelho e o Negro é um passo-a-passo do desperdício, do desaproveitamento e da aniquilação de Sorel. A arte suprema de Stendhal — uma autor objetivo e piadista que dizia gostar da prosa cartorial — está em fazer com que a época em que se passa o romance pareça atrasada em relação ao personagem. Pelo romance perpassam a frustração e a falsa alegria de quem pensa que vai vencer, o contraste entre o campo e a cidade, com suas hipocrisias distintas, a guerra, os conflitos religiosos e, é claro, o amor e suas traições. Obrigatório.
P.S. — Stendhal nunca explicou o título de seu romance. Simplesmente, não se sabe a que se refere.
Não sei como é no resto do Brasil, mas os cafés de Porto Alegre não abrem de manhã cedo. Agora mesmo passei por um na Lima e Silva. Uma placa avisava que abriria às 12h.
Sábado, por volta das 8h30, ao caminhar pela Osvaldo Aranha, olhei para dentro da Lancheria do Parque. Estava lotada de pessoas tomando café. Até parei na calçada para olhar as torradas, o leite e o colorido dos sucos.
Permitam-me dizer que Michel de Montaigne (1533-1592) teria sido o maior blogueiro do mundo. Seus Ensaios tratam de absolutamente qualquer coisa — da medicina, da atitude dos criados, dos cavalos, da morte, das variações dos estados de espírito, da amizade, da agricultura, do clima e, pasmem, até da filosofia. Mas cada assunto abordado traz consigo tamanha qualidade de texto, fluidez de pensamento, ironia e inteligência que nos quedamos — e quedar é a palavra — totalmente apaixonados. Os ensaios são muitos e normalmente não são longos. Ele foi o inventor do gênero, criando-o como um amigo que nos sussurra, dentro de uma perspectiva subjetiva, ideias fundamentadas de tolerância e liberdade. Nada sei sobre filosofia, mas ele deve ter sido importantíssimo, pois, sem revoluções, usou a sua consciência individual e a contrapôs aos dogmas divinos da Idade Média. Sim, estamos no século XVI, meus amigos. Se não existisse Montaigne, o mundo seria certamente pior. A totalidade de seus ensaios cabe normalmente em três volumes. Modernamente, são feitas seleções como a que mostramos acima, lançada em 2010 pela Penguin-Companhia. É um livro para se ter em casa e abrir de vez em quando. Ele serve para colocar nossas ideias no lugar, para que aprendamos a pensar, para que nos acalmemos através de inevitáveis sorrisos de compreensão. Para ele, nada é definitivo; com ele, ao esmiuçar cada assunto, teremos lições gentis de como abordar questões e veremos como tudo é tão, mas tão profundo, que boa parte de nossa visão da vida torna-se mera superficialidade. (Ah, através de suas argumentações, ele nos ensina a não nos perder em bobagens, a ser mentalmente produtivos. O complicado é aprender a agir assim. Talvez nem ele conseguisse…).
Montaigne analisou as instituições, as opiniões e os costumes de sua época, tomando a humanidade como objeto de estudo. Porém, não deixa dúvidas: “sou eu mesmo a matéria de meus livros”. Além de comentar o mundo, Montaigne, em sua sinceridade e absoluta exposição, fala de suas crises renais, sobre o que acha de cada odor, sobre sua falta de memória e faz o maior mimimi lamentando-se por não ser dotado de um pênis que satisfaça todas as mulheres. Tudo isto permeado por uma concepção muito original do que é a ética. É o que eu disse: é um amigo que, falando de si, fala de todos.
Lembro da vez em que um escritor puxou um Pai Nosso no StudioClio. A minha cara e a do Francisco Marshall — estávamos assistindo juntos à palestra — deve ter sido de tanto pasmo e indignação que o cara passou a mijar os ateus enquanto falava de Grande Sertão. Nada a ver… O cara ficou descontrolado. Falava de Diadorim e mudava de assunto pra religião. Olhava pra nós e a gente nem bola. Eu estou em estado de choque até hoje. Não consigo parar de rir sempre que lembro do episódio.
Beethoven gostava de temas curtos e afirmativos. O crítico Otto Maria Carpeaux também, até demais. Beethoven repetia seus temas à exaustão, mas não enchia o saco. Carpeaux não os repete, mas larga aqui e ali juízos curtos, afirmativos e terríveis que às vezes me deixam louco. A literatura não prescinde de justificativas mais, digamos, alongadas. Eu gosto de Beethoven e de Carpeaux, só que o austríaco tem uma capacidade de me irritar que o alemão só utilizou n`A Batalha de Wellington e na Pastoral. Pobre do grande LAURENCE STERNE: na História da Literatura Ocidental, o maravilhoso amansa-burro de 2300 páginas de Carpeaux, ganhou a curta e grossa má vontade do mestre:
Não é romancista, e não compreendemos como seus contemporâneos puderam dar o nome de romance a esse aglomerado de conversas, digressões e anedotas, sem ação novelística, que é o Tristram Shandy.
Que equívoco! Fico curioso sobre o que diz Carpeaux sobre outro livro notável, também quase exclusivamente um aglomerado de conversas e digressões filosóficas: O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Consulto e ele demonstra coerência, fazendo questão de chamar a obra-prima inacabada de romance-ensaio. OK. Romance-ensaio é mais que um aglomerado de conversas e digressões, porém Carpeaux sempre ensina muito e conta com minha INDULGÊNCIA.
Mas creio que Carpeaux, se se alongasse um pouco mais, não ousaria falar mal da espetacular prosa de Sterne. Seu principal romance (ou não), A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, é uma de minhas melhores lembranças literárias. Este livro extravagante, publicado em capítulos entre os anos de 1759-67, tem importantes admiradores. James Joyce, Luigi Pirandello, Samuel Beckett e MACHADO DE ASSIS, que o cita com conhecimento, foram alguns dos escritores que se declararam influenciados pelo irlandês Sterne, um pároco muito bem sucedido e amante de intermináveis digressões pontuadas de anedotas escabrosas e alusões cínicas. Agrada-me intensamente a forma como Sterne decepciona seus leitores ao não dar seguimento às ações que esboça, coisa que Roberto Bolaño se esmera em realizar (ou não).
A cena inicial do romance nos conta sobre o nascimento de Tristram. Seu pai costumava fazer duas coisas no primeiro domingo do mês. A primeira era dar corda no relógio da sala; a segunda era cumprir seus deveres conjugais. Porém, num destes domingos, sua mãe, JÁ PENETRADA mas sem o menor interesse, pergunta repentinamente (a pontuação, sempre originalíssima, é puro Sterne):
– Por favor, meu caro, não te esqueceste de dar corda ao relógio? ————-Por D—–! gritou meu pai, lançando uma exclamação, mas cuidando ao mesmo tempo de moderar a voz. ——–Houve jamais mulher, desde a criação do mundo, que interrompesse um homem com pergunta assim tão tola?
Com a interrupção, o velho Shandy, desconcertado, descuidou-se de outra: a do coitus interruptus; e é desta forma que nasce o HOMÚNCULO ou, para nós, o feto daquele que seria o protagonista da “ação”. A piada fez enorme sucesso e por anos não apenas as prostitutas da Inglaterra perguntaram a seus candidatos QUERES DAR CORDA EM MEU RELÓGIO? como as senhoras de respeito deixaram de comprar relógios para suas casas com receio dos comentários que tal ato poderia provocar… Que os comprassem os maridos!
É notável o momento em que Shandy desiste de narrar sua própria vida – o livro é escrito na primeira pessoa. Isto acontece lá pela página 80 de um livro de 600 páginas. Ele observa que gastou alguns meses escrevendo a respeito das primeiras horas de sua vida. Constata assim que demora muito mais para escrever do que para viver e que os acontecimentos narrados estão afastando-se mais rapidamente do que a narrativa avança… Impossível alcançar. Conclui que o melhor é parar de perseguir a si mesmo e conversar com os leitores. A vida de Tristram segue seu curso e Sterne, bem, Sterne sabe e declara-se consciente de que a literatura existe primeiro para SATISFAZER O AUTOR… Danem-se os leitores.
Tudo é desrespeito neste romance moderno com raízes no Quixote. Riso e melancolia brincam sob a batuta de Sterne. Como se não bastasse ser um excêntrico romance sobre quem escreve um romance, Tristram Shandy apresenta uma série de artifícios antes nunca vistos: uma página inteiramente pintada de preto, tentativas de desenhar graficamente a evolução do romance, alguns capítulos em branco (em que nada é escrito) e uma página também em branco, limpinha, para que o leitor desenhe sua amada.
Sergio Theodosio faz uma observação muito interessante sobre os 17 empates do Grêmio.
Imaginem se, em lugar de empatar 17, o humaitano (expressão minha) tivesse perdido 8 e ganho 9. Estaria com 10 pontos a mais. Ficaria com 63, a 3 pontos do líder.
Esse negócio ganhar 3 pontos por vitória obriga a tentar vencer, mas tem gente que não se deu conta. Por exemplo, no lugar de dois empates, é melhor perder uma e ganhar outra.
Mais: como escreveu o Marcelo Corsetti abaixo, no lugar de 3 empates é melhor perder duas e ganhar uma, pois vitória é critério de desempate.
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José Fernando Cardoso: É sintomático que entre os quatro principais centros futebolísticos do País, só o Rio Grande do Sul ainda não teve Campeão no BRASILEIRO de pontos corridos. Até o Fluminense (!) ganhou e duas vezes (!!), como bem lembrou um amigo COLORADO com quem conversava hoje. Se dependêssemos da mentalidade da turma do Fernando Carvalho (herdeiro da ideia de futebol retranqueiro do Ibsen) ou de treinadores como o Odair, seguiríamos sem ganhar por toda a eternidade. Felizmente parece que no BEIRA-RIO o pessoal ultimamente tem percebido esse velho equívoco que é o amor pelo futebol cagão. Ok, o cara passa uns sustos com o TIME do ABEL, mas quando tem a bola o INTER procura agredir e ter objetividade e eficiência.
Sobre o lançamento de Haddad como candidato à presidência, digo que todo partido tem direito de apresentar seu candidato, mas não é uma atitude inteligente neste momento.
Creio que a oposição deveria antes pensar em construir uma chapa viável de destronar Bolsonaro. Fazendo como fazem habitualmente, cada partido contribuirá para a fragmentação, a qual pode deixar o segundo turno para duas candidaturas de direita ou, pior, permitir uma tranquila reeleição.
Mas o pessoal não aprende com os erros. Os egos, sabem?
Eu penso numa frente para derrotar Bolsonaro e esta não precisa ser só da esquerda. Hoje, nós não derrotamos ninguém. Hoje, vamos pra segunda divisão. E se achando…
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Gosto de falar daquilo que vivencio ou entendo e sou um mero chutador em política. Deveria falar só de literatura, jornalismo e de música (como ouvinte), só que o mundo está cheio de diletantes.
Não entendo a necessidade de discutir o passado e de projetar os egos para o futuro!
A Frente Ampla fez 50 anos no Uruguai e a Geringonça segue em Portugal. Mas aqui há EGOS ENORMES que são imiscíveis. E seguidores que são imiscíveis. E pessoas que defendem sistemática e sem crítica partidos e pessoas.
É como discutir algo com alguém que responde “Siga-me, eu tenho a solução e sei como devemos agir”.
Quando leio os argumentos para não fazer uma frente, me dá vontade de fugir. Aliás, é o que vou fazer agora.
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Celso Santos Carvalho escreveu e eu assino embaixo e por todos os lados:
Construir uma frente popular começa por: (1) querer; (2) juntar os partidos que se opõem ao fascismo e à direita golpista tucana; (3) elaborar um programa mínimo, que deixe de lado as divergências e concentre-se nos consensos; (4) querer mais ainda; (5) discutir esse programa com a sociedade, movimentos sociais, coletivos periféricos e não só com os lideres partidários; (6) melhorar o programa mínimo; (7) combinar publicamente como os partidos governarão juntos; e (8) só depois de tudo isso escolher a candidata ou candidato, preferencialmente por meio de prévias abertas a todos os eleitores. Começar pelo item 8 é o melhor jeito de dar tudo errado.
Em tempos pré-internéticos, não era possível simplesmente jogar o nome de uma música estrangeira no google para ficar sabendo qual era a tradução. Então, só havia duas opções: ou traduzia por conta própria ou então torcia para sua música favorita aparecer traduzida em alguma publicação.
Em março de 1969, os beatlemaníacos brasileiros devem ter feito a festa quando viram a matéria especial sobre o livro-biografia da banda, escrito por Hunter Davies, da antiga revista “Realidade”. Isso porque, seis canções do maior grupo de todos os tempos vieram escritas em português ilustrando o texto jornalístico. Versões criadas por ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, um dos poetas brasileiros mais renomados no mundo.
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O poeta mais ilustre de Itabira traduziu cinco músicas dos Beatles, todas presentes no “White Album”: Ob-la-di, Ob-la-da, Piggies, Why we don’t do it in the road?, I will, Blackbird e Happiness is a warm gun. As versões foram feitas em tradução livre e alguns versos acabaram saindo bem engraçados.
OBLADI, OBLADA (Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)
Desmond tem um carrinho na Praça do Mercado. Molly vocaliza num conjunto. Desmond diz a Molly: Por teu rosto sou vidrado Molly diz-lhe: O quê? E pega-lhe na mão. Obladi, obladá, a vida continua: olá, olalá, como a vida continua! Obladi, obladá, a vida continua… Olá, olalá, como a vida continua! Desmond toma o ônibus, vai à joalheria compra anel de ouro de ofuscar e leva-o a Molly, que espera junto à porta. De anel no dedo, eis Molly a cantar.
Em um par de anos terão construído um lar bacana doce que nem cana. Um par de garotos corre pelo pátio desse casal unido.
Olha Desmond feliz na Praça do Mercado. Ao lado, os molequinhos ajudando. Molly ficou em casa se enfeitando e à noite ainda canta no conjunto.
Olha Molly feliz na Praça do Mercado. Ao lado, os molequinhos ajudando. Desmond ficou em casa se enfeitando e à noite ela ainda canta no conjunto. E se querem se divertir, obladi, obladá!
PORCOS (George Harrison. Tradução de Carlos Drummond de Andrade) Viste os porquinhos rebolando na imundície? Para todos os porquinhos a vida está cada vez mais difícil e brincam sempre na sujeira por aí. Viste os mais taludos porquinhos em suas engomadas, alvíssimas camisas? Olha os mais taludos porquinhos em algazarra na imundície com camisas alvíssimas a folgar por aí.
Em seus chiqueiros, plenamente protegidos, ao que vai por aí nem ligam. Nos olhos deles falta uma coisinha: precisam mesmo é de suma porcaria.
Por toda parte há muitos porquinhos vivendo suas porquinhas vidas. Podes vê-los para o jantar saindo com suas porquinhas mulherinhas de garfo e faquinha para comer presunto.
E POR QUE NÃO AQUI NA ESTRADA? (Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade) E por que não aqui na estrada? Não há ninguém para ver nada E por que não aqui na estrada?
FAREI TUDO (Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade) Desde sempre te amei e bem sabes que ainda te amo. Devo esperar toda a vida? Se quiseres – esperarei. Se alguma vez te vi nem sequer teu nome escutei. Mas isso não faz diferença: sempre a mesma coisa sentirei.
Eu te amarei por todo o sempre, sempre, desde a raiz do meu coração e te amarei quando estivermos juntos e te amarei na solidão.
Quando finalmente te encontrar tua canção envolverá o espaço. Canta bem alto, para eu escutar. Tudo farei para te dar o braço pois tudo em ti me prende a mim. Bem sabes que farei tudo Tudo farei.
MELRO (Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade) Melro que cantas no morrer da noite, com estas asas rotas aprende teu voo A vida toda esperaste a hora e a vez de teu voo. Melro que cantas no morrer da noite, com estes olhos fundos aprende a ver A vida toda esperaste a hora e a vez de ser livre.
Voa, melro, voa, melro, para o clarão da escura noite.
Voa, melro, voa, melro, para o clarão da escura noite.
Melro que cantas no morrer da noite, com estas asas rotas aprende teu voo A vida toda esperaste a hora e a vez de teu voo esperaste a hora e a vez de teu voo esperaste a hora e a vez de teu voo.
A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE (John Lennon – Paul McCartney. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)
Até que essa garota não erra muito oi oi oi oi oi oi oi oi Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo como lagartixa na vidraça.
O cara da multidão, com espelhos multicores sobre seus sapatões ferrados descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam no trabalho de horas extraordinárias com a saponácea impressão de sua mulher que ele papou e doou ao Depósito Público.
Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta, preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
Madre Superiora dispara o revólver Madre Superiora dispara o revólver Madre Superiora dispara o revólver
A felicidade é um revólver quente A felicidade é um revólver quente Quando te pego nos braços e meus dedos sinto em teu gatilho, ninguém mais pode com a gente, pois a felicidade é um revólver quente, lá isso é.
A chegada ao aeroporto de Nova York, em 7 de fevereiro de 1964
Nos momentos em que os Beatles estiveram pela primeira vez na TV americana, dentro do Ed Sullivan Show, não houve crimes nos Estados Unidos. O guitarrista George Harrison brincou dizendo que os criminosos eram seus maiores fãs. No início da noite de 9 de fevereiro de 1964, 73 milhões norte-americanos estavam na frente da telinha, de uma população de 192 milhões de habitantes. O Ed Sullivan Show era tão popular quanto o Fantástico era no Brasil no tempo em que não havia TV a cabo. Tudo o que fora pensado em termos de marketing dera certo. Os Beatles demoraram a ir aos EUA, demoraram mais de um ano depois da explosão da beatlemania europeia e só foram após ter emplacado o primeiro lugar nas paradas. Mas já eram conhecidíssimos e desejadíssimos no país. A CBS, a gravadora Capitol e o empresário Brian Epstein prepararam tudo com cuidado e, no momento em que Paul McCartney começou a cantar Close your eyes and I kiss you, início de All my loving, no teatro da Broadway onde acontecia o Ed Sullivan Show, a beatlemania tornava-se uma espécie de histeria coletiva.
73 milhões do outro lado
Para que os EUA sucumbissem, foram apenas cinco canções: All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e I Want To Hold Your Hand. Mas, antes, houve tensão. George só conseguiu subir ao palco depois de um tratamento intensivo para uma gripe que contraíra logo na chegada ao país. Ele não participou da passagem de som e nem do teste de palco com as câmeras, que aconteceram no dia anterior. Além disso, Sullivan desconfiava daqueles quatro caras vestidos estranhamente, de ternos apertados e cabelos fora do padrão da época. Para que as fãs ficassem ainda mais agitadas em casa, a câmera enquadrou John Lennon durante Till There Was You, com a seguinte legenda: Sorry girls – he’s married (“Desculpem, garotas – ele é casado”). O teatro estava lotado, claro. Eram 728 pessoas, invejadas por milhões.
O programa de Ed era transmitido ao vivo para o país todos os domingos, às 20h. O apresentador recebia todos os grandes nomes da música norte-americana e quem quisesse chegar lá. O cachê dos Beatles foi ínfimo e eles se apresentaram entre um comediante e um show de mágica, mas nada disso interessava. A estratégia de se apresentar nos EUA dias depois de o compacto que continha I Want To Hold Your Hand e I Saw Her Standing There alcançar o primeiro lugar, fazia muito mais parte dos ambiciosos planos de Brian Epstein, empresário dos Beatles, do que da CBS, que bateria recorde de audiência.
A estratégia. O empresário Brian Epstein tinha o plano de levar o grupo à América do Norte, mas o grupo decidira que não embarcaria sem o primeiro lugar na Billboard. Era uma decisão surpreendente. Afinal, eles eram celebridades na Inglaterra mas desconhecidos nos EUA. E queriam primeiro conquistar o prêmio do primeiro lugar para depois conceder o ar de suas graças nos EUA. Talvez a atitude fizesse parte da empáfia britânica, ou quem sabe era apenas atrevimento ou falta de vontade. Porém, após aquela curta apresentação, não havia mais dúvida, todos sentiram a força dos Beatles. Eles vieram da Inglaterra para reinar.
Ed Sullivan e os Beatles
O quinteto de canções do show não podia ser mais simples. As letras eram coloquiais e fofas: “Quero segurar tua mão”, “Ela te ama”, “Bem, meu coração fez bum! / quando eu atravessei a sala / e peguei sua mão na minha” (para dançar, claro). A simpatia dos rapazes ao cantar aquelas canções bobas e de melodias grudentas era contagiante.
A estratégia promocional foi cuidadosa. Primeiro, a gravadora Capitol e Brian Epstein esperaram pacientemente pelo primeiro lugar. O citado compacto que alcançou o feito foi lançado em 26 de dezembro. Uma semana depois, apareceu na 83º posição; na seguinte foi para o 42º e na terceira estava em 1º lugar. Houve festa em Paris, onde o grupo se encontrava. Nada disso foi casual. Houve um grande esquema de divulgação e publicidade. E, quando todos estivessem querendo saber quem eram aqueles caras que estavam nas rádios, seria a vez de ir ao Ed Sullivan.
Sullivan deve estar dizendo: “Nem eu esperava por isso”
Sullivan tinha um programa desde 1947 e não recebia qualquer um. Ex-radialista vindo do colunismo social, o apresentador não via muita graça no rock. Mas sabia reconhecer o inevitável. A conquista dos EUA começou dois dias antes, no dia 7, quando chegaram a Nova Iorque pelo voo 101 da Pan Am. Havia 10 mil pessoas para recebê-los… Era algo nunca visto no país de Elvis Presley. Houve uma coletiva no aeroporto em que os garotos mostraram seu estilo e nova irreverência.
— O que vocês acham de Beethoven?
Ringo Starr: — Muito bom. Especialmente seus poemas.
— Existem dúvidas se vocês são mesmo capazes de cantar.
John Lennon: — Somos sim, mas queremos primeiro o dinheiro de vocês.
— O que vocês acham que a música de vocês causa nestas pessoas? (Referindo-se às fãs enlouquecidas no hall do aeroporto)
Ringo Starr: — Eu não sei. Acho que ela as deixa alegres. Bom, deve ser isso mesmo, afinal elas estão comprando nossos discos.
— Por que ficam tão excitadas?
Paul McCartney: — Não sabemos. De verdade.
A loucura nas ruas de Nova Iorque naquele 1964
Na verdade, a imprensa queria arrancar alguma tolice deles, mas eles respondiam com outro gênero de tolices. Estavam se divertindo em vez de responderem. Por exemplo, quando um repórter perguntou sobre um movimento em Detroit para acabar com os Beatles, Paul respondeu: “Nós também temos planos para acabar com Detroit”. Quando o ambiente estava ficando muito barulhento e cheio de risadas, John berrou para todos calarem a boca. A impressão era a de que eles tinham um toque irresistível de simpatia. E de Midas.
Porém, foram hostilizados na imprensa “adulta”. As letras eram um punhado de lugares-comuns amorosos. Os cabelos, ridículos. O som das guitarras, estridente. As harmonias, de simplicidade constrangedora. As previsões eram a de que eles desapareceriam depois de um mês e que logo todos voltariam a se preocupar com Krushev e o terrível Fidel Castro.
Mais uma no Ed Sullivan Show. Apresentação dos Beatles foi entre um comediante e um show de mágica
Depois do dia 9 de fevereiro de 1964, os Beatles tornaram-se os maiores. Se ficassem apenas naquelas canções bobas, talvez não sobrevivessem até hoje como referência mundial em música popular. Mas eles tiveram uma evolução espetacular, primeiro com o trio de LPs Revolver, Rubber Soul e Magical Mystery Tour, depois radicalizando com Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, The White Album e Abbey Road. Como conseguiram isso é um milagre, pois, após o show de Ed Sullivan, todos os holofotes passaram a apontá-los. A visita aos EUA tornou impiedoso o assédio a que foram submetidos. Há tantas fotos deles quanto de Marilyn Monroe, a diferença é que eles tiveram a inteligência de deixar os shows para priorizar a produção artística.
Sobreviveram muito bem, mas esta já é outra história. O mês de sucesso já completou 50 anos sem dar sinais de acabar.
Bloom acorda. Prepara o café da manhã para sua mulher, Molly. Assiste a um enterro. Visita um editor de um jornal. Almoça. Olha um anúncio de jornal na biblioteca. Responde a uma carta recebida. Janta. Encontra o amigo Dedalus. Vagueia pela praia. Masturba-se olhando uma moça. Reencontra Dedalus. Vão a um puteiro. Encaminham-se para a casa de Bloom. Entabulam uma conversa filosófica. Dedalus vai embora e Bloom retorna ao leito conjugal, onde dormirá enquanto sua mulher tem fantasias quentíssimas.
Tudo isso em apenas um dia, 16 de junho de 1904. São 18 capítulos que cobrem aproximadamente 18 horas. Cada capítulo escrito de forma totalmente diferente, cada cena fazendo mil referências, principalmente à Odisseia de Homero. Não é uma epopeia do cotidiano, mas sim uma obra anti-épica, cujo naturalismo não se percebe no nível mais superficial da narrativa. As frequentes transgressões linguísticas, a justaposição de frases ostensivamente poliglotas, a mistura de estilos — épico, lírico, drama, comédia — são os percursos seguidos por Joyce com a finalidade de quebrar os protocolos estabelecidos do gênero do romance para chegar à essência das coisas e à exploração do inconsciente, escondido pelas aparências. O que mais me fascina são os 18 estilos diferentes, os 18 escritores chamados por Joyce para escreverem o maior romance do século XX.
Desde que acorda até voltar à cama — onde sua Penélope-Molly tece enorme teia de fantasias eróticas que nunca serão do conhecimento do marido –, Leopold Bloom protagoniza um monumento de rara sutileza, difícil de penetrar, mas só quem tenta obtém chegar a suas grandes iluminações.
O livro foi proibidíssimo e apenas chegou a nós por milagre. Por exemplo, um episódio do livro, entregue a uma datilógrafa, chocou de tal forma seu marido que este o arremessou às chamas. havia outra cópia menos revisada, com Joyce. Durante a Primeira Guerra Mundial, um capítulo inteiro — Sereias — foi interceptado por autoridades militares que desconfiaram que aquilo era uma longa mensagem escrita em código… Algo vital para o inimigo, certamente…
Suas características satíricas, viscerais e brutalmente depreciadoras do real, chocaram profundamente a sensibilidade do leitor médio, decepcionado ainda pela fascinação do autor pela linguagem, pelas várias formas narrativas, louca musicalidade e certamente pela descontrolada e incerta potencialidade semântica.
O mais extravagante, divertido e sujo dos livros.
Ah, as edições da Penguin são baratíssimas e a tradução é excelente e recente. Para aproveitar!
Abel, apesar de todos os teus enormes méritos neste campeonato e do recorde de nove vitórias consecutivas, conseguiste tornar nosso time pior ontem à noite. Se sem Dourado — fora pelo 3º cartão amarelo — o time já perde muito, a colocação de Marcos Guilherme botou uma pá de cal em nosso ataque.
Dourado facilita a vida da defesa e de todos. Praxedes, Edenílson e Patrick jogam mais com ele em campo. Ainda pior, deixaste Yuri sozinho lá na frente, como se fôssemos uma equipe que tivesse ido ao Paraná apenas para segurar um empate. O Athlético-PR veio pra cima e poderia ter nos ganhado o jogo. Depois OK, equilibramos a partida, que foi péssima de ver.
Espero que Caio Vidal, que ao menos é esforçado e tem cacoetes de atacante, possa voltar contra o Sport na próxima quarta-feira. Ou Galhardo, quem sabe. Porque Marcos Guilherme não tem condições e Peglow ainda não desabrochou. Entra sempre apavorado.
Nossos atacantes confiáveis são Yuri, Caio, Galhardo e Abel. E Guerrero, mas este não conta ainda.
Infelizmente, falta qualidade ao nosso time. Mas estamos vivos no campeonato. Precisamos contar com tropeços do Flamengo para poder levar o Brasileiro. A briga é contra uma verdadeira seleção que, teoricamente, é favorita em todos os 38 jogos do campeonato.
É óbvio que aconteceu um pênalti não marcado a nosso favor nos descontos. Mas é da vida. Os juízes acertam e erram.
Eu gostaria que esta fosse a última vez de Marcos Guilherme | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional
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A situação é esta:
Inter — 66 pts (19v e 26 gols de saldo)
Fla — 64 pts (19v e 19 gols de saldo)
Diferença de saldo de gols: 7
Faltam 4 jogos — 12 pontos em disputa
Jogos do Inter: Sport (c); Vasco (f); Flamengo (f) e Corinthians (c)
Jogos do Flamengo: Bragantino (f); Corinthians (c); Inter (c); São Paulo (f)
O Inter é campeão:
a) ganhando as 4, inclusive do Fla no RJ;
b) ganhando 3 e perdendo pro Fla no RJ, com a condição que Fla empate 1 dos outros 3 jogos (1e e 3v);
c) ganhando 2 e empatando 2 (entre elas o Fla no RJ); considerando que o Fla empate ainda mais 1 nas outras 3 (2e e 2v);
d) conquistando 1 ponto a menos que o Fla nos restantes 12 pontos em disputa;
e) conquistando 2 pontos a menos que o Fla nos restantes 12 pontos, condicionados de que o Fla não ultrapasse o Inter em quantidade de vitórias ou que Fla consiga tirar a vantagem atual do saldo de gols que é de 7.
Uma Confraria de Tolos é uma obra-prima absoluta, uma obra-prima total e injustificadamente pouco lida em nosso país. Duvida? Procure no Google críticas a respeito de A Confederacy of Dunces para conferir que não estou nada sozinho em minha avaliação.
Tenho uma velha edição dos anos 80 da Record, que relançou o livro na coleção BestBolso. Certa vez, ao citar o livro em meu blog, recebi um comentário de uma leitora que morava no interior da Paraíba. Ela me contou que antes morava em São Paulo, onde lera a Confraria nos anos 80. O livro ficara por lá, mas agora tinha um filho que era um grande leitor e ela PRECISAVA apresentar o livro a ele.
Não sou uma pessoa que mereça a canonização, mas sei reconhecer alguém que precisa de auxílio. Fiquei comovido com o pedido, pois sei a falta que a leitura da Confraria faz a alguém que conheça o livro. Como a Estante Virtual ainda não existia, empreendi uma busca entre os sebos de Porto Alegre. Encontrei o livro e o mandei para a leitora aflita. Ela me agradeceu dizendo que me amava, adorava e que intercederia por mim nem que fosse no juízo final, coisa na qual ela não acreditava, mas que enfim, daria um jeito de interceder.
O tamanho do erro de negligenciar Uma Confraria de Tolos é difícil de caracterizar, mas vamos lá. Começarei pelo título. John Kennedy Toole devia estar consciente da qualidade de seu romance, senão não basearia o título de seu romance de estreia numa citação clássica de um dos maiores escritores de todos os tempos, Jonathan Swift: “Quando um verdadeiro gênio aparece no mundo, você vai reconhecê-lo por um sinal: todos os tolos se juntam contra ele”. Outro motivo de buscar inspiração em Swift é que Toole escreve um romance como eram as histórias do inglês: hilariante de cabo a rabo.
Mas também é muito triste, muito sério, louco, amargo e especialmente inteligente. Uma genial tragicomédia.
Seu protagonista, o hoje célebre — fora do Brasil — Ignatius J. Reilly, é um ser excêntrico, às vezes repugnante. Ele está por seus 30 anos, é um glutão obeso e mal-humorado que mora com a mãe e vive amaldiçoando o mundo moderno. Ignatius leva a frase de Swift a sério: ele é um anti-herói nascido na época errada, que se considera sempre perseguido por idiotas.
Uma Confraria de Tolos se passa em New Orleans nos anos 60. Como o romance Dom Quixote, é picaresco. E, se o personagem de Cervantes ia atrás de aventuras, Reilly é um preguiçoso, excêntrico e idealista atrás de emprego. Durante suas caminhadas, às quais foi atirado pela mãe, que não o suporta mais em casa — e que o acusa de encher a atmosfera de gases intestinais — , ele vocifera contra tudo e contra todo o tipo de modernidade. Walker Percy, em seu prefácio para o livro, descreve Ignatius como um “pateta genial”. Trata-se de um passadista jovem. Desdenha a cultura da modernidade, especialmente o pop. Tal desprezo torna-se sua obsessão: por exemplo, ele vai ao cinema a fim de zombar dos filmes e expressar sua indignação com a falta de “teologia e geometria” (?) do mundo contemporâneo.
Ele prefere a filosofia escolástica da Idade Média, em geral, e a filosofia de Boécio, em particular. No entanto, aprecia muitos dos confortos e conveniências modernas, enquanto observa o funcionamento de sua válvula pilórica, que reage fortemente a todos os incidentes.
Os outros personagens principais do livro, Myrna Minkoff e Irene Reilly, são esplendidamente construídos e, se é difícil dizer mais, explico o motivo: Uma Confraria de Tolos é o mais engraçado dos livros e não devo contar suas piadas neste espaço. Por exemplo, seus encontros com a polícia… Não, melhor não ir adiante.
Reilly tem muito de Toole. O autor também sofreu com uma mãe dominadora e tinha uma visão pessimista de um mundo que não entendia.
Sem encontrar uma editora para publicar o livro e sofrendo de graves crises de depressão, Toole cometeu suicídio em 1969, aos 31 anos. Sua mãe encontrou uma cópia do manuscrito entre os papéis do filho e lutou por muitos anos para conseguir uma editora. Uma Confraria de Tolos foi finalmente publicado nos Estados Unidos em 1980. No ano seguinte, Toole ganhou um Pulitzer póstumo. Nada mais merecido.
Durante o verão passado, minha filha de 17 anos pegou casualmente o livro em nossa biblioteca. Dias depois, ela voltou com uma pequena e significativa frase: “Pai, foi o melhor livro que li até hoje”.
1. Os Supridores, de José Falero.
2. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.
3. E fomos ser gauche na vida, de Lelei Teixeira.
4. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.
5. Máscaras da Tricolina — sim, máscaras para a pandemia.
6. Mulheres de Minha Alma, de Isabel Allende.
7. A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante.
8. Contra mim, de Valter Hugo Mãe.
9. Porto Alegre, Cidade Baixa: um bairro que contém seu passado, de Renato Menegotto.
10. República das Milícias, de Bruno Paes Manso.
11. Marrom e Amarelo, de Paulo Scott.
Berlim Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, tem como sub-título A história de Franz Biberkopf. Nada mais correto, é isto mesmo que o livro conta com surpreendente riqueza de detalhes e de vozes. A história se passa na Berlim do final dos anos 20 do século passado. Na época da ação, a Alemanha estava no período entre guerras. A Primeira Guerra Mundial acabara há 11 anos e a economia alemã recuperava-se lentamente dentro da República de Weimar. Menos de cinco anos depois viria o governo nazista. O livro inicia com a saída de Biberkopf da prisão de Tegel, onde ficara por quatro anos após matar a amante.
A vida pós-prisão de Biberkopf é narrada de forma estupenda através de vários narradores e com o auxílio de notícias retiradas de jornais da época. Em montagens impressionistas, também são utilizados dados estatísticos, placas de rua, propagandas, canções da época, informações sobre tarifas. O personagem principal nada tem de especial — é um sujeito grande e forte que vive de biscates numa Alemanha empobrecida a qual não compreende e que é indiferente a ele. Biberkopf cumpriu sua pena e, na volta, tenta manter-se na linha.
Escura, grave e escrita em tom menor, a obra-prima de Döblin tem a característica de ser muito visual. Tanto que Rainer Werner Fassbinder reconstruiu-a minuciosamente no cinema em filme de 15 horas e 41 minutos. O filme — que também é excelente — é uma transposição COMPLETA e arrebatadora do livro. Vale a pena ver — aliás, além da biblioteca, é o que estou fazendo nestes dias …
Para ler Berlim Alexanderplatz há que ter atenção: apesar de muito claro e linear, o autor mistura as falas dos personagens com a narrativa e os pensamentos dos personagens. Com a leitura, fica cada vez mais fácil. Apesar de ter um personagem principal, Berlim Alexanderplatz é um irrepetível mosaico polifônico onde várias vozes e informações se cruzam para contar uma história do submundo da Berlim do final dos anos 20. Nada dá muito certo para Biberkopf, herói, símbolo e vítima da cidade, mas o livro de Döblin é uma espetacular lição de arte narrativa.