Sasha: “Dá no meio que eu não vou estar ali!” | Foto: Ricardo Duarte
Só a vocês oito — Argélico e mais meus sete leitores — posso dizer que sou uma fraude. Não fui ao Beira-Rio ontem à noite. Assisti ao jogo no Pastel com Borda da Fernandes Vieira, o Magnífico Templo de Sandra Giehl, comandante gremista do local. No meio da peleja, olhei para fora e vi que chovia. Eu estava sem guarda-chuva e reclamei da vida no muro das lamentações do Facebook. As pessoas ficaram com peninha de mim, lá no Beira-Rio, fiel torcedor, no frio, sob a intempérie, sofrendo, longe de casa. Só que eu estava a três quadras de minha casa, a 800 m de minha cama, a dez minutos de Elena. E preocupado com uns míseros pingos gelados sobre minha crescente e inexorável careca. Calei-me sobre a verdade. Seria linchado. Não gostaria.
(Logo após o jogo, a citada Sandra Giehl mudou bruscamente de canal, passando para o interessantíssimo Off, que mostrava uns caras praticando surf. Eu compreendo a mágoa dela).
Jogamos muito bem, Argélico. Tivemos finalmente a tal saída rápida e um antes desconhecido repertório de jogadas de ataque. Senti-me torcedor de um time de futebol. Fiquei comovido com o gol de Vitinho. Uma linda jogada de Anderson, jogador JAMAIS CRITICADO NESTE ESPAÇO. Posso até ter exagerado sobre tua incompetência, Argélico, mas sempre achei que Anderson sairia da letargia. Ele tinha lampejos, apenas faltava energia elétrica para mantê-los acesos. A entrada do ex-gremista aqueceu a noite de Porto Alegre, ao menos dentro do Pastel com Borda. Entrou no lugar de Alex, também de boa atuação. Os dois trocaram beijinhos de comadre quando da substituição. Gostei.
Vitinho: artilheiro | Foto: Ricardo Duarte
E o gol do Sasha? Só eu e tu vimos. Somos bons observadores. Quando a bola caiu no pé do Vitinho, Sasha ergueu o braço direito apontando para o meio da área. Tipo quero o cruzamento ALI. Mas correu para o outro lado, recebendo-o livre, quase dentro do gol. Confiram o fato abaixo, naquilo que era antes chamado de vídeo-tape. O fato revela entrosamento. Gostei.
E Danilo Fernandes? Que baita goleiro!
O time seguiu marcando, mordendo e correndo muito. Só Ferrareis destoou, mas nem tanto assim. Esforçou-se muito. Parabéns, ao preparador físico João Goulart! Que grande profissional! Recomendações, abraços e beijos em D. Maria Teresa, meu amigo!
D. Maria Tereza, esposa de João Goulart
Depois de apresentarmos a bela esposa de João Goulart, voltemos à partida de ontem. Como disse meu grande amigo Luís Augusto Farinatti, ultra-titulado professor de História da UFSM, “O Argel faz discurso mandando ‘manter os pezinhos no chão’ e quem obedece é a zaga do Grêmio”. Hahahaha, pior.
Pés no Chão, Argélico, para manter-nos sonhando com aquilo que não acontece há 37 anos, como aprecia lembrar o Sr. Ladeira Livros, excelente nesta coisa de contar décadas sem vitórias. Não creio em título nem em Libertadores, mas jamais frequentaremos os fogos do inferno da Segunda Divisão.
Ok, Argélico, para manter o sonho, pés no chão. Então…
Temos 19 pontos, três pontos na frente do segundo colocado. E há um detalhe que baixa nosso orgulho (pezinho no chão, pezinho no chão!). Jogamos 8 partidas, 5 delas no Beira-Rio. Se estivermos na frente depois dos dois próximos jogos, ambos fora, aí sim seremos líderes. Com 10 jogos (1/4 do campeonato), metade das partidas fora e metade dentro, aí sim.
No mais, Argélico, sussurro apenas uma palavra em teu ouvido: Dale.
Meus caros sete leitores, a Wikipedia tem um verbete de artigos incomuns. Nele, há uma sessão chamada Weird Names (Nomes estranhos). Quem está lá? Ora, o atual treinador do meu time, o SC Internacional. Argélico Fucks. E, vejam bem, nem é pelo Argélico! A explicação para a inclusão do nome de Argel é a de que seu sobrenome seria socialmente problemático. Todo mundo sabe o que é “to fuck”, creio. Certa vez, um jornal estampou: “Fucks Off to Benfica”, gíria que significa “Cai fora pro Benfica”. Porém, fuck off pode ser também “tomar no cu” ou “ir à merda”. A Wikipedia diz:
Eu fiz uma previsão que só o Alexandre Constantino ouviu. Foi quinta-feira, aqui em casa. Eu disse que Inter venceria, o Grêmio empataria e o Corinthians perderia nesta rodada, deixando os líderes do Brasileiro numa escadinha: Inter, 16; Palmeiras, 15; Grêmio, 14 e Corinthians, 13. Pois ficaria bonitinho. E aconteceu!
Agora, o Inter é a tartaruga em cima da árvore. Ninguém sabe como chegou lá, mas sabe-se que vai cair. Como eu, tem muito colorado rindo à toa, sem saber por quê.
Porém, ah, porém… O Miguel Galbarino me responde com uma afirmativa perturbadora. Diz que não tenho visto os outros times jogarem — o que é verdade — e que nossa posição como líder não o surpreende. Porém, o Dario Bestetti conta os pontos para não cairmos no rebaixamento — faltariam 30. E, porém, o Corneta Colorada, a melhor coisa que aconteceu na imprensa colorada neste século, ridiculariza todos — é um corneteiro profissional –, ordenando: “A primeira regra do clube do líder do Brasileirão é não falar de quem é o líder do Brasileirão”. E ilustra a frase com uma imagem alusiva a nossa liderança.
No último sábado, fizemos dois belos gols no América-MG (ambos do centroavante Aylon), tomamos o maior sufoco, eles descontaram, quase empataram, melhoramos com a entrada de Anderson e finalmente consolidamos a vitória com Ernando. O 3 x 1 não foi injusto, mas não diz de nosso susto. O próprio Argel admitiu a oscilação, enquanto que a torcida roeu até os ossos dos dedos com a notável sucessão de gols perdidos pelo América. O goleiro Danilo Fernandes voltou a jogar muito e Alex está pedindo aposentadoria.
E assim nós vamos vivendo. Muito esforço e algum futebol. Se a concorrência ficar trocando pontos como está, o time que conseguir pontos em casa e empates fora estará bem na foto. Eu não estou feliz porque não vejo futebol no Inter, mas é indiscutível que sete rodadas já servem para demonstrar alguma tendência. O Santa Cruz e a Chape já começam a sumir e quem pode mandar no campeonato já está na frente. Na minha opinião, o favorito é o Palmeiras. Tem bom técnico e numeroso elenco. Anotem.
Eu estava mais a fim de escrever sobre a corrupção em nosso Brasil-sil-sil, mas vou escrever, com um dia de atraso, minha tradicional — para mim e meus sete leitores — crônica esportiva de segunda-feira. Vi boa parte da parte da partida contra o Vitória e vou te inocentar, Argélico. O plano era perfeito até o Ernando cometer aquele imperdoável erro individual. Sabemos, eu e tu, que somos um time apenas mais ou menos. Um time assim não é tolerante à falhas, ainda mais quando resultam em gol do adversário num início da partida. Como sempre, entramos fechadinhos, prontos para segurar o Vitória e especular em contra-ataques. Porém, quando o Vitória marcou, todo o plano foi por água abaixo e times ruins não têm Plano B.
O Sasha poderia ter colocado tudo novamente no lugar quando o goleiro do Vitória errou em bola deixando-o livre com o gol aberto, de costas para o mesmo. Só que Sasha não se deu conta de sua liberdade e apressou-se tentando uma puxeta que foi para fora. Se ele tivesse mas calma para analisar a situação…
Culpa tua, Argélico, são os erros de passes. Um time erra 30 passes por jogo, em média. No primeiro tempo contra o Vitória, erramos 26. Há que treinar e treinar. Treinar a direção do passe e facilitar o recebimento do mesmo. Com jogadores parados e marcados, mais passes saem errados. E a prova de que não nos movimentamos para receber as bolas é a lentidão na saída de trás. Êta, coisa arrastada!
Esperamos pelos reforços. Anselmo está com o terceiro amarelo e não joga sábado contra o América-MG. Tu podias pedir para a CBF deixá-lo assim para sempre, não? Talvez Dourado volte, o que seria maravilhoso. Sasha também não joga e é outra maravilha porque ele não tem feito muito na posição de centroavante. Acho até que o Aylon poderá ser um acréscimo. Quem fará falta mesmo é Paulão, pois Réver e Alan Costa são lamentáveis.
Agora, é tentar vencer o América e ver os resultados paralelos. O importante é ficar próximo dos líderes até a chegada dos reforços e de Valdívia. Nossos dois próximos jogos são no Beira-Rio contra times mineiros: sábado (11) contra o já citado América e quinta-feira (16) contra o Atlético. A propósito, tens notícias de Nico López? Ele virá?
Apesar da boa partida realizada pelo Atlético-PR, teu time voltou a aplicar uma goleada de de 1 x 0, Argélico. O início do jogo foi todo do adversário e provocou calafrios na arquibancada: um chute de Walter Cheeseburger beijou a trave e, logo depois, Giovany perdeu gol feito após driblar William.
A coisa não estava muito fácil pro nosso lado, mas a sorte foi fiel. E o time começou a se ajeitar. Vitinho fez grande jogada e chutou para fora, Paulão não alcançou uma bola quase dentro do gol e então aconteceu o de sempre — ou quase sempre: na sequencia do lance, Vitinho fez o gol numa confusão dentro da área que teve origem em um escanteio bem batido por Andrigo.
Vitinho: nosso melhor jogador está na lista dos sete com dois cartões | Foto: Ricardo Duarte
Também como quase sempre, melhoramos no segundo tempo. Alex entrou muito bem no lugar do confuso Andrigo e o Atlético-PR foi obrigado a admitir que seria mais um time a não fazer gol em nós.
É a regra de 2016: somos chatos, dificilmente levamos gol e, se deixarem, fazemos. Mas cada jogo requer um esforço notável de marcação, tanto que já temos sete jogadores pendurados com dois cartões amarelos. E, bem, estamos recém na quinta rodada. Não sei onde vamos parar desse jeito, porém, hoje, somos líderes do campeonato com 5 gols marcados em 5 jogos e 1 contra. O aproveitamento são inacreditáveis 87% (4 vitórias e 1 empate).
Gostei de tua entrevista de ontem. Afora as frases feitas que repetes infinitamente, houve a admissão de que o time correu sério perigo, chegando a jogar pessimamente naquele início de jogo. Sim, porque a história poderia ter sido inversa, com nossa primeira derrota no Beira-Rio. Digo isto porque dificilmente marcaríamos dois gols num time que estaria fechado lá atrás. (É tranquilo admitir que só fizemos um bom segundo tempo porque o Atl-PR perdia e ia à frente, não?).
Ainda vamos praticamente completos para o próximo jogo em Salvador, contra o Vitória, domingo, às 16h. Creio que apenas Fabinho, com torção no tornozelo, te obrigará a uma substituição. Devemos começar a partida com o fraco Anselmo em seu lugar e sabe-se lá quantos cartões receberemos lá. Será um compromisso duríssimo e provavelmente começarão a aparecer os desfalques.
Nossa vida no Brasileiro vai depender, é claro, de como se saírem essas peças de reposição, de como forem os retornos de Valdívia, Dourado e Anderson, e de como ingressarem os novos contratados Seijas, Ariel e o esperadíssimo Nico López. Se suas atuações forem deficientes, melhor acender uma vela desejando que a gordura acumulada neste início não acabe em uma semana de spa das lesões e cartões. Se derem boa resposta, seremos candidatos a alguma coisa boa. Mas sempre no estilo Leicester: sem brilho, mas cumpridores.
Como disse meu amigo Bruno Zortea: “G-4 com Grêmio, Santa Cruz e Corinthians me cheira à Série B”. Pois é, o Brasileiro está estranho pacas. Acho que jamais tivemos a dupla Gre-Nal na ponta, mesmo considerando que só se passaram quatro rodadas, o que é pouco, mas é mais de 10% das 38 rodadas. A forma correta de se disputar um campeonato de pontos corridos é a de não se afastar jamais dos líderes. Campeonato de recuperação é raríssimo de ser obtido, é mais conversa para times que estão lá atrás. Então estamos ambos, Inter e Grêmio, muito bem.
(Se não fosse tu teres pedido pro Paulão bater aquele pênalti, seríamos líderes isolados com aproveitamento de 100%, Argélico).
Fabinho, o melhor em campo ontem
Ontem, o Inter fez sua melhor atuação de 2016. A outra foi o Gre-Nal do queixo caído. Não chega a ser surpreendente o fato de terem sido dois jogos fora de casa: o Inter defende-se muito bem e, jogando fora do Beira-Rio tem fartos espaços para contra-ataques. O problema é jogar contra times fechados. Mas não pensem que desenvolvemos ontem um futebol maravilhoso. Como tem sido, atuamos dentro de nossa pobreza ofensiva e de nosso errático toque de bola. A partida teve momentos horrorosos, varzeanos mesmo. Porém, o Santos levava pouco perigo e começamos a ficar animados. Na verdade, teu grande mérito, Argélico, é o de jamais deixar o time perder a compostura emocional. Fora de casa, o Inter joga tão mal quanto joga no Beira-Rio, mas sem nunca perder-se.
Ontem, finalmente entraste com dois volantes. Finalmente! E viste como o mundo não caiu. Comemorei a ausência de Anselmo para a entrada de Ferrareis. Não que este seja alguma Brastemp, é que o time fica com mais opções ofensivas com ele em campo. Destaques mesmo foram as atuações de Fabinho e Danilo Fernandes. O volante foi o maior “ladrão de bolas” do jogo e ainda armou bons contra-ataques. Já Danilo não sente o peso da responsabilidade de substituir Alisson. É um cara frio e competente. Nos momentos mais oportunos, lá estava ele para salvar nossa meta e garantir a vitória.
Não creio que a dupla Gre-Nal mantenha algum favoritismo para o resto do Brasileiro. São times chatos, com bom sistemas defensivos e só. O Grêmio tem mais ataque. Só que o bom ambiente e a tranquilidade da liderança gera monstros. De repente, alguém acerta a peça ofensiva e teremos um osso duríssimo pela frente.
As próximas partidas do Inter são contra times fracos. Isto é, são contra times que jogam fechados e teremos que rebolar para marcar gols. Então são jogos terríveis, falsas barbadas (remember Chapecoense). Vejam o levantamento realizado por meu colega Luís Eduardo Gomes de nossos próximos 7 compromissos: Atlético-PR (c), Vitória (f), América-MG (c), Atlético -MG (c), Figueirense (f), Coritiba (f) e Botafogo (c).
Argélico, este jogos decidirão quem será o Inter deste Brasileiro de 2016. Ou permanecemos no topo ou nos despedimos de quaisquer pretensões. Há que ser implacável contra os fracotes.
Argélico, se alguém faz tudo errado e ganha, então faz tudo certo? Não, né? Pois tu entraste com três volantes para enfrentar o terrível Sport em casa. Sem ataque, viste o Sport levando o cachorrinho para passear em pleno Beira-Rio. Quando o cãozinho preparava-se para cagar em nossa grama, ainda no primeiro tempo, tiraste Anselmo — esta terrível invenção catarinense — e colocaste o menino Ferrareis, que não é grande coisa, mas que fez o time respirar e crescer, evitando o frevo em nossa terra de músicas simples de dois compassos.
Nosso ataque já não é uma Ferrari e, quando tu enfias um monte de volantes aí mesmo que nada funciona. Jamais pensei que sentiria tanta saudade do Anderson. Espero que Seijas dispute posição com o ex-garoto de ouro gremista para que tu possas esquecer teus delírios de jogar com três volantes em casa. Contra o São Paulo no Morumbi ou o Santos na Vila, esta postura é aceitável pelo fato de que eles nos atacam e temos a possibilidade do contra-ataque. Mas aqui em Porto Alegre, para enfrentar um time fraquinho como este do Sport? Vai te catar, Argélico.
O que eu gosto da torcida do Inter é seu ar filosófico e distante. Onde eu estava, muita gente ria da tua escalação, esperando a inevitável mudança. Enquanto isso, conversavam com os amigos no WhatsApp.
Então, fizemos o suado gol e qual foi a tua reação? Retiraste um atacante e repuseste o trio de volantes, desta vez com Nilton, muito superior ao incompreensível Anselmo. Isso demonstra tua convicção. És racidal em teu teu desejo de sofrimento! E o que aconteceu? O Sport veio pra cima de nós e quase empatou. Ganhamos, mas…
Argélico, se alguém faz tudo errado e ganha, então faz tudo certo? Não, né?
O futebol não impressionou ninguém, mas o resultado foi uma montanha de alegria | Foto: SC Internacional
A primeira boa notícia do domingo foi a vitória obtida fora de casa com dois gols de Sasha, que nem jogou muito bem, mas quem sou eu para reclamar de um jogador que marcou dois gols num time com tantas dificuldades para atacar? Sasha foi genial! O que interessa é que ele estava no lugar para receber os belos passes de Vitinho e William — aliás, que jogada do William no segundo gol, hein?
Curiosamente, este jogo pareceu muito com a primeira partida das finais da Libertadores de 2006. Então e agora, São Paulo 1 x 2 Inter. Atacantes loiros fizeram dois gols lá e cá — Sóbis e Sasha –, dois zagueiros descontaram — Edcarlos e Lugano –, dois atletas do Inter foram expulsos — Fabinho e Alex — e só faltou uma expulsão do SP hoje, pois em 2006 Josué foi expulso.
A outra boa notícia foi a excelente estreia do goleiro Danilo Fernandes. Tranquilo, atuou como se estivesse há anos na posição. Outra bela atuação foi a de Fernando Bob. Não erra passes. Já o outro estreante, Anselmo, foi bem retirado por ti, Argélico. OK, é o primeiro jogo do ex-jogador do Joinville, mas ele poderia ter sido menos péssimo, não? Nilton entrou muito melhor.
Estamos passando por uma fase Simeone. sabemos nos defender, mas, se for necessário atacar, será uma cesariana para fazer um gol, principalmente em times que venham ao Beira-Rio fechados. Ontem, no Morumbi, fizemos dois em contra-ataques. Dou o braço a torcer, Argélico, tu ajeitaste a defesa, mas será que não tem ninguém na tua comissão técnica para dar jeito no ataque? É tudo muito previsível e lento. Nosso time joga feio que dá nojo de ver, mas defende-se bem, já disse isso.
A falta de técnica e beleza começa lá atrás. Nosso goleiro bateu tiros de meta quase sempre com o tradicional chutão para a frente. Apenas uma vez saímos jogando calmamente, com argumentos futebolísticos e não com gritaria. Mas vamos lá. Espero dificuldades contra um Sport retrancado na quinta-feira, às 16h. O jogo será no Beira-Rio. Mas acredito na vitória.
(Ah, o acordo entre o Inter e o Esporte Interativo está gerando efeitos na RBS. Mais do que nunca, é tudo contra o Inter. Imaginem que ontem “a arbitragem nos auxiliou”. Já para o Première, a Fox e a ESPN — emissoras paulistas — tudo foi normal).
Como bem assinalou o Corneta Colorada, nenhuma previsão é demasiadamente pessimista quando o assunto é o Internacional. Sabemos que o Campeonato Gaúcho caiu em nossas mãos em razão da incapacidade do Grêmio de chegar a outro lugar que não seja a Arena e sabemos que tu, Argel, és é ainda nosso técnico em razão… Bem, aí eu já desconheço o motivo.
Ontem, tu bateste todos os recordes. Com Anderson fora, recuaste Sasha para colocar Aylon. Ora, isso é mudar a característica do time, é mudar o esquema. Por pior que esteja, o substituto de Anderson é Alex, sempre Alex. E ele não estava nem no banco… Mais: em vez de colocar 12 reservas, como o regulamento do Brasileiro permite, colocaste só 7… E ainda cometeste mais duas piadas dignas de um verdadeiro pateta.
(1) Escalaste Paulão para bater o pênalti. Ora, Paulão é um de nossos melhores jogadores de 2016, mas convidá-lo para bater pênaltis é uma absoluta demasia. Ele não é bom do ponto de vista técnico e ontem estava especialmente atrapalhado, com saudades dos atacantes mansinhos do Gauchão.
(2) Retirar o centro-avante Aylon para colocar William na lateral esquerda e Gustavo Ferrareis no ataque (com a saída de Artur) foi digno da imensa gargalhada que dei na hora.
O Inter fez 30 cruzamentos para a grande área. Este talvez seja outro recorde, mas é antes outro absurdo, considerado-se que visavam Aylon e um grupo de jogadores não muito altos. O goleiro da Chapecoense consagrou-se, é claro.
E houve aquele momento-vexame dos times sem comando: em uma falta a favor do Inter, ninguém foi fazer a cobrança. O árbitro mandou que o mais próximo desse continuidade ao jogo. Ou seja, assim como qualquer um bate pênalti — e erra –, qualquer um serve para bater faltas no meio-de-campo.
Nosso time é uma pândega e só estou aguardando que tu caias, Argel. Já são 10 meses que nosso clube — altamente profissional em algumas áreas — deixa o futebol nas tuas mãos, um amador que faz marketing de suas qualidades nas entrevistas coletivas pós-fiascos.
A Elena disse que eu vibrei mais com os gols do Rosario Central do que com os do Inter ontem. Deve ter razão. O gol de Sasha foi um alívio, foi a obrigação cumprida, a certeza de que não passaríamos por um fiasco. Já os do RC foram puro divertimento.
Ainda considero o Gauchão uma espécie de antepasto. Só que o jantar, meus amigos, não vem há décadas. Então gostaria de projetar o Brasileiro e a Copa do Brasil.
O Inter não joga bonito. É um time realista, pragmático. Marca bem, tem uma defesa que foi se consolidando durante o campeonato e que hoje é complicada de suplantar. Paulão e Ernando acertaram-se, apesar de não terem bons reservas. Fernando Bob e Fabinho são excelentes (e temos Dourado voltando). E, quando a coisa aperta, temos-tínhamos Alisson, um goleiraço. Os laterais William e Artur passaram a jogar e, se fossem todos acompanhados por atacantes de bom nível, teríamos um time bem perigoso.
E a tendência é esta: a de termos um time difícil de ser vencido e que explora o contra-ataque e a bola aérea para chegar aos gols. (Detesto hexas equipes duras de matar, principalmente quando estão do outro lado…) Neste sentido, a contratação de Ariel não é uma esquisitice, mas uma declaração de princípios. Não vamos jogar bonito. Ponto.
Acho que a contratação de Danilo Fernandes para o lugar de Alisson foi perfeita. Era a melhor opção dentro do Brasil. Nilton deve retornar e espero que não tome mais remédios para emagrecer. Mike talvez se una a um grupo de atacantes que deve ter seus destaques em Vitinho, Valdívia e Andrigo. A contratação de Anselmo preocupa, pois talvez signifique a venda de Dourado. Seijas é um excelente armador para alternar com Anderson.
Há que ter grupo para levantar as taças do segundo semestre. Grupo bom e grande. O Brasileiro não é nosso há 37 anos, a Copa do Brasil há 24. Já entramos como favoritos diversas vezes e quase sempre ficamos em nossa posição natural e desconfortável de oitavo clube do país. Talvez seja bom entrar como coadjuvante esforçado este ano.
A gozação de Sasha ao dançar uma valsa pelos 15 anos sem títulos do Grêmio foi muito engraçada, mas lembremos que o Gaúcho não faz parte da contabilidade gremista sem títulos. Então não pode fazer da nossa e estamos há 5 anos sem nenhum título…
Hoje, o Inter anunciou a morte do grande centroavante Larry (Pinto de Faria). Ele fez 176 gols pelo Inter e participou do surpreendente Gre-Nal de inauguração do Estádio Olímpico. O Grêmio esperava ganhar e tomou 6 x 2, em um fiasco que os antigos não esquecem. Naquela partida, Larry marcou quatro vezes. Meu pai ria muito descrevendo o jogo. De estilo clássico e cerebral, Larry marcou época no clube. Lembrei desta excelente reportagem que o Impedimento fez com o ex-atacante em 2012, quando ele estava prestes a completar 80 anos e enquanto seu palco, o Estádios dos Eucaliptos, era derrubado.
O cerebral Larry no Estádio dos Eucaliptos – um documento
De repente, não mais que de repente, sem cerimônia nem anúncio no jornal, as máquinas adentraram o campo santo dos Eucaliptos e começaram seu trabalho. Deve ter sido numa sexta-feira, quando as preocupações de todos estão mais voltadas ao que fazer do fim de semana. De forma mecânica, rápida e compassada, as máquinas arrancaram gomos espessos de tijolo e concreto do mítico estádio do Internacional, processo que não durou mais que cinco dias. Desaparecia, fisicamente, a memória do Rolo Compressor, do Rolinho, do gol em plano inclinado de Carlitos, da Copa do Mundo de 1950, das arrancadas de Tesourinha, das pestanas tiradas por Charuto durante as partidas, da entrada triunfal da cabrita Chica no meio da torcida, da zaga intransponível de Alfeu e Nena, das tabelas fatais entre Bodinho e Larry, que ficou para contar a história.
Fazia muito calor e não havia nuvens naquele começo de tarde de terça-feira, 14 de fevereiro, quando Larry Pinto de Faria desceu do automóvel, que dirigia de próprio punho, reclamando em tom de brincadeira do horário da entrevista, que lhe obrigara a encurtar a sesta sagrada. Aos 79 anos, Larry merece que lhe respeitem o horário de descanso. Mas fora o contratempo, encontrou uma sombra no meio do canteiro de obras, sentou e conversou por quase uma hora com o Impedimento.
O gol que considera o mais bonito, a estreia nos Eucaliptos, a ovação da torcida, a convivência com os colegas no alojamento do estádio, a vida construída em Porto Alegre, o amor por apenas um clube e por que no futebol há coisas mais importantes que o dinheiro. Tudo isso foi dito por Larry neste documento de 30 minutos, gravado com o microfone “vazando” na imagem por conta do barulho das máquinas, que durante a entrevista destruíam o que restava da casa e do palco principal do cerebral Larry.
Natural de Nova Friburgo e oriundo do Fluminense, Larry chegou ao Inter em 1954 para pegar experiência. Acabou ficando no clube até 1961, marcando 176 gols e se tornando um dos maiores artilheiros da história colorada. É também o último remanescente do Rolinho, como ficou conhecido o time que foi a sequência do grande Rolo Compressor. Depois de encerrada a carreira de jogador, ainda foi vereador por quatro mandatos e secretário municipal de Porto Alegre. Nos dias atuais, desempenha com cortesia e generosidade o papel de memória viva do Internacional dos anos 50 e do Estádio dos Eucaliptos, o grande estádio do futebol gaúcho naquela época.
Na falta de alguém com força para erguer uma taça — mesmo uma pequenininha como a do Gaúcho –, parece que sobrou pra nós novamente. Estamos longe de sermos um portento e até acho que nossa situação é bem preocupante para o Brasileiro que começa dia 15 de maio, mas os adversários não parecem ter capacidade de enfrentarem nossa tradição de dar voltas olímpicas.
Ontem, fizemos um belo gol contra o Juventude e pouca coisa mais. Vitinho criou todas as nossas melhores jogadas no primeiro tempo, do qual saímos vencendo. Ele foi o personagem principal da partida. Deu passe espetacular para Andrigo marcar e antes já tinha feito grande jogada pelo lado, cruzando para Sacha, que chegou atrasado quando era só empurrar para o gol.
Depois, Vitinho recebeu dois cartões em um minuto, ambos aos 22 do segundo tempo. Se eu fosse gremista, diria que o atacante colorado foi caçado em campo. Foi. Mas a arbitragem não é uma coisa inteligente e todos os juízes do mundo dão cartões em faltinhas bobas dos atacantes. Vitinho devia saber disso.
Por falar em gremistas, a arbitragem envolveu-se em confusão quando a bola bateu no braço de Ernando. Alguns dão pênalti neste tipo de ocorrência, só que Vuaden mandou seguir. Alegou que o braço de Ernando estava junto ao corpo. Estava. Por fim, o Juventude pressionou, mas não chegou nem perto de furar nosso bloqueio.
Com o resultado, seremos campeões no Beira-Rio até com empate. O Juventude, para reverter a desvantagem e sair de Porto Alegre com a taça, precisa vencer pelo placar de um gol de diferença, a partir do 2 a 1. Caso devolva o 1 a 0, a decisão ocorrerá nas penalidades. A partida será no próximo domingo, às 16h.
Tão importante quanto, será secar o Grêmio que joga na quinta-feira, às 19h15, no Gigante Arroyito em Rosario. Imaginem que hoje o Rosario Central joga contra o Gimnasia La Plata no mesmo estádio, às 16h, enquanto que o imortal está de folga desde a última quarta. Como dão grande importância ao Argentino, chegarão cansados na quinta. Mas acho importante que o Grêmio não tenha seu desempenho no Brasileiro prejudicado pela Libertadores. Ainda mais que, se passarem pelo Rosario, pegarão a patrola do Atletico Nacional. Queremos o Grêmio fora ainda esta semana!
Enquanto isso, há dois campeonatos nacionais bem interessantes que vão chegando ao fim. Faltam duas rodadas. Na Inglaterra, o Leicester vai obtendo uma conquista inédita — resultado de um campeonato que divide com justiça a grana de TV, gerando uma disputa bem equilibrada — e o Benfica parece que levará o português, apesar da implacável perseguição do melhor time do campeonato, o Sporting de Jorge Jesus.
Roger Machado: com um time insuficiente para a Libertadores
Pois a bagunça do time do Grêmio é digna de Argel. O goleiro do Rosario Central assistiu o jogo quase sem trabalhar. A pressão faz muito mal a Roger Machado. Quando seu time está perdendo, ele começa a empilhar atacantes e raramente tem sucesso. Ontem, sob pressão inédita após a eliminação para o Juventude, ele mandou seu time correr e correr. Na verdade, vi poucos times correndo mais do que o Grêmio ontem. Os bons Giuliano, Douglas e Luan corriam tanto que, quando recebiam a bola, já estavam no meio da zaga do Rosario Central (RC), sem espaço para nada. A correria não gera espaços, é a inteligência e sincronia da movimentação que faz isso.
Então, quando pisava forte no pedal para fazer a bicicleta andar, a correia se soltava e o time tinha que parar a fim de que se recolocasse o diabo na correia no lugar. Era correr e perder a bola, era correr e errar passes, era correr e cometer faltas.
E o Grêmio tem dois volantes enganadores. Wallace tem bom chute, bom toque de bola, mas é desatento na marcação. Deve ter sido um ótimo terceiro homem de meio-de-campo nas divisões inferiores, só pode. Já Maicon tem toque curto, de primeira e impressiona, porém é incapaz de uma virada de jogo, pois sofre de mal congênito (ao menos dentro de campo): não é lá muito esperto. Não se pede criatividade a um volante, mas ele precisa ter método. Maicon passou ontem à noite fazendo impensadamente as mesmas coisas tolas e ainda entrando por cima da bola, um hábito seu. Estava irritado, claro. Trabalhar sem resultado acaba irritando.
Deste modo, o Grêmio era um time de bons atacantes anulados, de volantes inúteis e de defesa apenas mais ou menos, pois lá estão os estilistas Bressan e Marcelo Oliveira..
E o RC é um bom time, apesar de ter Herrera no ataque… Sei que é difícil enfrentar um time de malucos, mas os argentinos davam passes longos e abriam espaços. Perderam muitos gols. Cabia mais, mas eles não forçaram, talvez com receio da fúria impotente do adversário. Afinal, fúria é sempre fúria, né?
Até a ZH ficou perturbada e sentenciou: “O Rosario Central continuou uma equipe ameaçadora no segundo tempo. Muito por conta da falta de inspiração do Grêmio, que acertava muito mais que errava”. Meu deus, que baita ato falho! Antes já tinham dito que o Grêmio jogara “sem força” quando o que houve foi excesso de força. Mas não interessa. O que interessa é o campo e a bola pune, como diz Muricy Ramalho.
Francesco Totti tem 39 anos, em setembro completa 40. O tratamento que recebe na Roma fala de inteligência, oportunidade e respeito. Totti está ativo e muito. O técnico Luciano Spalletti ainda não descartou um dos melhores jogadores da história da Roma. Ele não foi para o River Plate como D`Alessandro ou enxotado como Iarley, apenas reduziu seu salário e permanece útil ao clube. Sim, em campo.
Na complicada partida do Campeonato Italiano do último domingo, entre Napoli (2º lugar) e Roma (3º), Totti foi colocado no time aos 80 minutos, conforme pode ser visto no vídeo abaixo. Estava 0 x 0. Na beira do gramado, ele foi ovacionado como ídolo, aplaudido de pé pelo Olímpico de Roma. O time se animou. Totti entrou correndo muito e fazendo tudo o que sabe naqueles 10 ou mais minutos finais. Deu três passes espetaculares. Dois foram desperdiçados. O outro deu início a uma troca de passes que resultou no gol da Roma aos 89 minutos.
Totti passou por um período complicado em que esteve dizendo que “não contava mais”, mas hoje ninguém mais discute sua veterana utilidade.
Respeito, inteligência e oportunidade. E às vezes tudo ainda é resolvido por Totti. Eu não sei o que passava pela cabeça dos dirigentes do Inter quando emprestaram nosso super ídolo D`Alessandro para o River. É um desrespeito, é virar as costas para o passado recente do clube, além de ser uma triste demonstração de burrice e falta de gratidão.
É claro que o Grêmio é nossa diversão. Ainda mais que sabemos que eles tinham o melhor time do Picanhão 2016. Só que desaprenderam o caminho das taças. A única coisa de imortal no Grêmio são as piadas (*). Ontem, eu dava risadas assistindo o jogo. Quando o Roger tirou o Douglas, o Grêmio começou a minguar e logo vi que ia mesmo ficar faltando um gol. Lembrei-me de jogos de tênis nos quais tenistas menores batem e batem em Djokovic, Federer e Nadal, mas perdem o jogo. Mantém brilhantemente seus saques e estão sempre quase quebrando o do adversário. Mas, na hora da decisão, ficam nervosos e encolhem o braço, deixando a vitória para… quem está acostumado a vencer. O Grêmio também é assim. Na hora de dar o golpe fatal, encolhe o braço. É a psicologia da Arena e há que respeitá-la.
E o Campeonato Gaúcho será decidido por dois times bem vagabundinhos. Ver o Inter jogar é um suplício. Um pega a bola e ninguém se desmarca para receber. Dois bons jogadores, como Sacha e Andrigo, não conseguem jogar pela falta absoluta de esquema. Nosso técnico — além de de ignorar os plurais e a concordância na entrevistas — não consegue aplicar nenhuma tática. Ênio Andrade também falava muito mal, mas era um baita treinador de boleiros.
E vamos para uma decisão imprevisível. Hoje, o Inter é realmente o quarto melhor time do RS, porém tem camiseta e naturalidade na hora de levantar e guardar taças, mesmo uma pequenininha como essa. A gurizada do Ju é boa e até seria simpático vê-los dar a volta olímpica. Mas são o Juventude. O primeiro jogo, no Jaconi, será domingo que vem. O Inter decide em casa e, sabemos, é só ver um time retrancado que paramos. Não há dinâmica de jogo para abrir uma retranca. Temos só Paulão.
A semana terá Grêmio x Rosario Central quarta-feira. Não vi o RC jogar, mas espero que seja melhor do que a LDU e aquele ridículo time do Papa. O presidente Bolzan disse uma frase verdadeiramente notável após a desclassificação de ontem: Se for como hoje podemos fazer cinco no Rosario Central, como fizemos 4 a 0 na LDU. Ou seja, ele acha que perder gols é uma categoria à parte do jogar bem.
Vou poupar vocês dos melhores lances de Inter 1 x 0 São José, pois quase não houve isso. Fiquem com Grêmio 3 x 1 Juventude. Teve futebol na Arena.
(*) Frase roubada do twitter de Sandro Sotilli (@sandrosotigol).
Não vi os últimos 4 jogos do Inter. Por isso, não comentei as goleadas sobre Novo Hamburgo, Brasil (Pel), Glória e São Paulo (RG). Ao todo foram 15 x 3. Mas conversei com amigos confiáveis e eles me disseram que as goleadas ocorreram mais pela ruindade e falta de preparo físico dos adversários do que por atuações avassaladoras. Hoje, voltei a ver um jogo. Alguns dirão que é pé frio, pois o que vi foi uma considerável exposição de passes errados e incapacidade ofensiva. Mais: o Inter poderia muito bem ter perdido a partida nos contra-ataques do São José, um time de nível de terceira divisão brasileira. Acabou em 0 x 0.
Não sei como venceremos em casa no Brasileiro.
Pois o que o Zequinha fez foi fechar-se. E bastou. Assisti a partida com um grupo de amigos colombianos e fiquei sabendo que o jogador o qual o Inter desistiu. Juan Quintero, é excepcional, e que Seijas, contratado, é um bom organizador. Completaram dizendo que Quintero entraria como uma luva no nosso time. Olha, e como precisamos de reforços. De técnico e de reforços. A gurizada é boa, mas falta ao grupo uma liderança técnica. Não faço coro às críticas contumazes feitas à Anderson, mas não chego ao ponto de dizer que ele possa ocupar o posto.
A boa notícia da semana foi para os sócios. Não gosto de pagar um clube do qual desconfio e tenho feito isto por anos. Na segunda-feira (11), as contas da Gestão 2015 do Inter foram apresentadas e aprovadas sem ressalvas. Trata-se de um caso raro, se considerarmos os últimos anos. Lá estavam 233 conselheiros, que puderam comprovar os números detalhados da gestão. E o superávit final foi de R$ 27,5 milhões, com um faturamento bruto de R$ 366.849 milhões, o maior da história do Clube, tal como foi apresentado por Sandro Farias, responsável pela Controladoria e Transparência.
Pelo visto, ninguém sairá da direção do clube MUITO MAIS RICO do que entrou.
É a única boa notícia da semana. De resto, contratem bem e #foraargel.
O Paraguai controlava o jogo com facilidade, ganhava por 2 x 0 desde o início do segundo tempo. Desenhava-se uma goleada no Defensores del Chaco, de ótimo gramado, como não era antigamente. Ao final da partida, quando parecia que teríamos uma derrota nossa — e eu a desejava –, ocorreu um fato que foi muito mal administrado pelos paraguaios: faltou preparo físico ao time de Ramón Díaz. Tal fato foi acompanhado da postura mais errada e comum para este tipo de situação. O Paraguai recuou e começou a dar chutões pra frente.
Ora, sabe-se que (1) o time que não tem a bola é obrigado a correr muito mais a fim de marcar o adversário — tarefa muito mais penosa — e (2) o time que só chuta pra frente multiplica o número de oportunidades do adversário. Tal postura fez com que o Brasil passasse a amassar o Paraguai. Ficamos inteiramente no campo deles e quase que viramos o placar.
Agora, a Seleção Brasileira passará cinco meses em sexto lugar entre 10 times, fora até da repescagem, transcorrido 1/3 das eliminatórias. A próxima rodada é só no início de setembro, quando teremos dois jogos bem legais para seguirmos mal. Equador em Quito e Colômbia no Brasil, sabe-se lá com quem na Presidência da República.
Ok, eu sou meio sádico. Gosto de ler sobre qualquer gênero de decadência — exceto a física — e adoro quando grandes planos que não me incluem e que são de visibilidade municipal, regional, federal ou mundial dão errado. Nunca disse que sou boa pessoa. Um de meus projetos atuais é o de acompanhar o Brasil caindo fora da Copa da Rússia. Estamos no início das Eliminatórias, mas tenho enorme fé.
Torcedor coloca flores na estátua de Cruyff em Amsterdam
Quando Pep Guardiola chamou Xavi Hernández para uma conversa em particular, com o intuito de lhe contar o novo esquema que o FC Barcelona utilizaria a partir daquela temporada, o meia pensou que o treinador estava ficando louco.
A ideia era muito simples: “recuperar a bola em seis segundos”.
Xavi saiu atônito da conversa pensando que isso era impossível.
Era um ano de mudanças no Barça, Temporada 2008-2009.
Xavi havia liderado há pouco tempo a seleção espanhola de Luis Aragonês no título da Eurocopa, depois de 44 anos de jejum.
Guardiola não estava brincando e começou uma revolução que fora iniciada em 1974, quando Johan Cruyff comandou o Carrossel holandês na Copa de 1974.
O técnico Rinus Michels criou o sistema conhecido como ‘Laranja mecânica’.
Segundo a lenda, Pedro Rocha, ídolo uruguaio e ícone do São Paulo FC nos 1970, disse querer chamar sua mãe duas vezes quando esteve em campo: a primeira com 17 anos, na sua estreia no clássico Peñarol e Nacional, com o estádio Centenário repleto.
A segunda, aos 32 anos, quando enfrentou a Holanda na Copa de 1974.
“Quando peguei a bola pela primeira vez, quatro jogadores vieram para cima de mim e me tiraram a bola. Não entendi nada, mas na segunda vez, a cena se repetiu, e foi assim o jogo todo. Ali, eu quis a minha mãe”, disse o craque da Celeste Olímpica.
A “laranja mecânica” ficou conhecida assim pela maneira que fulminava seus adversários/vítimas, tal qual no filme de mesmo nome de Stanley Kubrick.
Eram duas faces de um mesmo time.
Com a bola era um Carrossel em um sistema de jogo equilibrado, conciso, paciente, em que todos jogam, giram, defendem, atacam, em posicionamentos giratórios.
Atacante na defesa, defensor na área.
Foi assim no primeiro gol da Holanda contra a Alemanha, na final de 1974. Vinte dois jogadores no campo de atacante. A Holanda sai jogando e depois de vários toques Cruyff recebe no meio-campo, sozinho.
Às suas costas apenas o goleiro Jongbloed.
Cruyff avança, dribla seu marcador, leva mais dois, até ser derrubado na área alemã.
Silêncio em Berlim.
Neeskens cobra e faz Holanda 1 a 0.
Finalmente a Alemanha pega na bola.
No sistema do Carrossel há altos e baixos. O jogador que sobe também desce. Como num parque de diversões – alguns dos cavalos ficam estáticos em sua posição como jogadores de pebolim.
O carrossel laranja é mais moderno. Ele se mexe. O sistema podia vencer o talento individual, um grande time. Sem a bola era fulminante, todos atrás do esférico, parecendo moleques no tempo da escola.
O Brasil encantou o mundo com a melhor seleção de todos os tempos em 1970.
A Holanda quebrou a roda giratória do talento individual misturado em uma mesma equipe.
Um ditado holandês diz: “Deus fez o mundo. E o holandês fez a Holanda”.
Seguindo o mesmo exemplo: o brasileiro criou o futebol arte.
O holandês o revolucionou com seu futebol total.
Quando camisas laranjas reluziam em campo com três listras horizontais nos ombros dos atletas, a de Cruyff estampava duas.
Johan se negou a usar a camisa da patrocinadora da seleção, a Adidas, com suas tradicionais três listras. A Federação holandesa acabou cedendo por pressão popular e midiática, e por não poder perder sua maior estrela.
Naquela Copa a Holanda triturou o Uruguai, fulminou a Argentina e amassou o Brasil, em Dortmund, apesar das chances que o time de Zagalo teve para abrir o placar.
Perdeu a final de virada, mas é mais lembrada e festejada que a campeã Alemanha.
Na semifinal, Jairzinho pega na bola na altura do meio-campo. Gira para direita, esquerda, recua, tenta se safar do marcador holandês. Chega mais um, dois, três. O furacão da Copa de 1970 tenta um passe no meio, procura respirar, mas chegam dois holandeses e antes do Brasil tocar novamente na bola a Holanda a recupera.
Algo em torno de seis segundos, como pediu Guardiola a Xavi 34 anos depois.
Cruyff foi o grande nome daquele sistema.
Tricampeão continental com o Ajax, depois da Copa do Mundo chegou à Barcelona. Tempos difíceis aqueles. Quatorze anos sem vencer a Liga, final do regime franquista. O FC Barcelona já era “Més que un club’, por sua resistência ao regime e todas as suas arbitrariedades dentro e fora do mundo do futebol.
Quando o revolucionário Cruyff pisou em Barcelona já era um ídolo da Catalunha, pois se negara a jogar no Real Madrid e forçou a direção do Ajax a aceitar a proposta do Barça: 60 milhões de pesetas, na maior transação do futebol mundial até meados dos anos 1990.
O Barcelona voltou a ser campeão espanhol depois de 14 anos, com direito a histórica vitória por 5 a 0 contra o Real Madrid dentro do Santiago Bernabéu.
Se um Barça-Madrid fosse somente um jogo de futebol, aquele resultado já seria épico. Como não é, aquela goleada dentro do coração de Madri foi o grito preso na garganta contra a opressão e proibição que catalães e barcelonistas (culés) sofreram durante o regime franquista – como não poder celebrar títulos em público.
A semente da revolução foi plantada na Catalunha na sua passagem como jogador do FC Barcelona.
Em 1988, 20 anos antes de Pep Guardiola assumir o comando do Barça e quebrar recordes de títulos conquistados em quatro anos de Santos e Ajax, Cruyff transformou o Barcelona naquilo que seria hoje em dia o ‘dream team’ campeão europeu de 1992, com Koeman, Guardiola, Laudrup, Stoichkov e outros.
A história do FC Barcelona tem um antes e depois de Cruyff, como a do futebol passa por antes e depois de Pelé.
Futebol é religião. E se todas as religiões têm messias, profetas e apóstolos, Cruyff se posiciona em uma Santíssima Trindade subjetiva, na qual cada um de nós têm ao menos um na mesa de 12 apóstolos, junto com o Criador.
O futebol total que o ‘Pep team’ jogou e encantou o mundo com posse de bola inimagináveis de 70% contra equipes tops do mundo é a evolução do ‘Carrossel Laranja-Laranja Mecânica’, do ‘Dream team’ do Barcelona de Cruyff.
Johan Cruyff nos deu adeus hoje pela manhã, o mais revolucionário dos jogadores de futebol que existiu.
Conhecedor das regras do jogo, em dezembro de 1982 rolou a bola para frente em um pênalti na vitória do Ajax por 5 a 0 contra o Helmond Sport, na qual adversários ficaram sem entender o que acontecia.
Foi o primeiro e, talvez um dos poucos, que se rebelou contra um patrocinador por não achar justo reluzir a marcar de uma empresa capitalista e não receber nada por isso.
Foi expulso contra o La Coruña em 1974, em Riazor, e por considerar injusta a expulsão se negou a sair de campo. Só saiu quando a polícia entrou em campo para retirá-lo – momento registrado em fotografia no Museu do Barcelona.
Telê Santana
Em 1992, quando perdeu a final do mundial de clubes para o São Paulo de Telê Santana, de virada, proferiu uma das mais lindas frases sobre futebol, que envaidece muito a todos os são-paulinos como eu, ao demonstrar um exemplar espírito esportivo ao dizer:
“Se é para ser atropelado, que seja por uma Ferrari”.
Hoje o mundo do futebol amanheceu de luto e de luto ficará por oficiais três dias.
Perdemos não somente um grande e brilhante jogador, mas um filósofo, idealista e revolucionário jogador e técnico que preparou 20 anos antes como um time de futebol iria jogar e conquistar o mundo com o melhor futebol de todos os tempos.
A France Footbal resumiu a história do FC Barcelona com uma foto. Nela se vê a camisa 14 de Cruyff, a 4 de Guardiola e a 10 de Messi. Na legenda se lê, respectivamente: o Pai, o Filho, e o Espírito Santo.
O futebol ficou de luto, mas em especial todos nós, culés, ficamos órfãos.
Antes de Pelé? Ah, antes de Pelé houvera Friedenreich, Leônidas, Zizinho, Ademir de Menezes. Antes de Maradona? Ah, antes de Maradona houvera Loustau, Pedernera, Di Stéfano. Antes de Beckenbauer? Ah, antes de Beckenbauer houvera Fritz Walter, Helmut Rahn. Antes de Zidane? Ah, antes de Zidane houvera Michel Platini, Raymond Kopa, Just Fontaine. Antes de Roberto Baggio? Ah, antes de Baggio houvera Silvio Piola, Giuseppe Meazza, Giampiero Boniperti, Gigi Riva…
Cruyff para sempre apontou os caminhos do futebol holandês | Sportfotodienst gmbH / VI Images
Claro, houve gente da Holanda que tratou bem a bola antes dele. Mas nenhum (ressalte-se: NENHUM) com a capacidade de pensar sobre o jogo, colocar em prática um estilo de jogar futebol que marcasse tanto um país, que criasse raízes tão fundas, até hoje seguidas de um modo ou de outro pelos times e pelas seleções holandesas depois dele. Por isso, é justo dizer: não havia futebol holandês, não havia seleção holandesa antes de Hendrik Johannes Cruyff, falecido nesta quinta aos 68 anos, vestir a camiseta laranja.
Nascido em Amsterdã (cresceu na Akkerstraat, no bairro de Betondorp), Cruyff foi maturando sua habilidade nas peladas pelas ruas de Amsterdã – isso, quando não tinha de trabalhar na quitanda mantida pela mãe, Petronella “Nel” Bernarda Draaijen, e pelo pai, Hermanus “Manus” Cornelis Cruyff. Porém, em 1959, seu pai “Manus” morreu, vitimado por um ataque cardíaco, no que foi um dos maiores traumas de sua vida. A perda também levou-o para um caminho decisivo em sua carreira: já trabalhando voluntariamente no Ajax, não só “Nel” passou a ser remunerada pelo clube, mas também foi trabalhar como empregada doméstica na casa do inglês Vic Buckingham, técnico do Ajax. Enquanto isso, “Jopie” (apelido de infância de Cruyff) já estava na escolinha do Ajax desde 1957. E não demorou a ascender para marcar época. Veloz e técnico ao mesmo tempo. Parecia correr o que não pudera na infância, por um problema de saúde. Ao mesmo tempo, parecia ter o campo todo em sua cabeça.
Tanto é que marcou gol logo em sua estreia pelos profissionais do Ajax, ainda com Vic Buckingham como o treinador – o único do time na derrota por 3 a 1 para o GVAV, em 15 de novembro de 1964, pela 11ª rodada do Campeonato Holandês 1964/65. E justamente em 1965, chegou aquele que seria seu mestre, o sujeito que exigiria demais dele – mas também o trataria como seu pupilo, numa relação de amor e ódio: Rinus Michels. Que faria de Cruyff o ponto principal, o “primus inter pares”, o craque entre craques, o personagem a ajudá-lo em campo no caminho que levou o Ajax a se transformar num clube lendário no futebol europeu e mundial. O pupilo reconheceu isso quando Michels faleceu, em março de 2005: “Ele me deu muitas broncas, mas me fez ser o que sou”.
Também ficou marcada desde cedo a irascibilidade do gênio. Basta mencionar sua primeira partida pela seleção holandesa, em 7 de setembro de 1966, contra a Hungria, num amistoso. Ele já marcou o primeiro de seus 33 gols pela Oranje. Mas também foi o primeiro jogador da história da equipe nacional holandesa a ser expulso de campo. Afetou tanto sua imagem que recebeu uma suspensão de um ano. Seu temperamento pode ser resumido numa frase dita orgulhosamente: “Nunca aceitei uma ordem”.
Tão logo voltou, viu-se que não se poderia prescindir daquele jogador único. E único não só dentro de campo. Sua parceria com o sogro Cor Coster (sogro a partir de 1968, após o casamento com Danny) o transformou no primeiro jogador holandês a capitalizar em cima da própria imagem naquele futebol de riqueza crescente. Cada patrocínio, cada camisa que vestia, cada produto que propagandeava: tudo rendia a Johan milhares de florins, a moeda holandesa antes do euro. Vale dizer: Cruyff não era só um símbolo do futebol holandês, era um símbolo da mudança da sociedade holandesa nos anos 1960-70. Basta lembrar da camisa de duas listras que a Adidas fez para ele na Copa de 1974, já que ele se negava a usar a camisa com as três listras que marcam a multinacional de material esportivo – rival da… Puma, que patrocinava… Cruyff.
E tudo isso – seu brilhantismo dentro de campo, seu temperamento fortíssimo, sua capacidade para promover sua imagem – foi visto no início dos anos 1970. No Ajax, como já dito, ele foi o personagem principal daquela equipe que colocou os Ajacieden no mapa, com o tricampeonato da Copa dos Campeões, mais Mundial Interclubes de 1972 (nos outros anos, o Ajax declinou da participação), três títulos holandeses (1969/70, 1971/72 e 1972/73) e três Copas da Holanda (1969/70, 1970/71 e 1971/72). Pessoalmente, foi o goleador da Eredivisie em 1966/67 e em 1971/72. Sem contar seus três prêmios como melhor jogador da Europa, em 1971, 1973 e 1974.
Nesse tempo de Ajax, duas histórias merecem menção. Em 30 de agosto de 1970, Cruyff voltava de uma lesão na virilha, num clássico contra o PSV, pela rodada do Campeonato Holandês. Na reserva, vestia a camisa 14, enquanto a 9 (seu número habitual até então) ficou com Gerrie Mühren. O Ajax venceu por 1 a 0. Na semana seguinte, por “ter achado legal”, Cruyff usou novamente a 14. E estva definido o número que usou por toda a carreira, e que até lhe rendeu um de seus apelidos. A outra história: em 1973, o técnico Stefan Kovacs decidiu fazer uma votação para ver quem seria o capitão do Ajax. Cruyff era o titular da braçadeira, mas o atacante Piet Keizer a exigia. Por 13 votos a 3, o elenco decidiu que Keizer seria o novo capitão. Bastou: julgando que o elenco cometera uma quebra de confiança, o “Nummer 14″ saiu da sala de votação direto para seu quarto no hotel, ligando para o sogro e empresário Cor Coster. Suas palavras: “Ligue imediatamente para o Barcelona. Estou saindo”. E assim Cruyff tomou o caminho de Les Corts, onde também fez história definitiva.
Na Oranje, participou das eliminatórias para as Copas de 1970 e 1974. Mas, acima de tudo, teve fundamental papel na decisão de trazer Rinus Michels para o comando da seleção, no início de 1974. E, óbvio, foi o principal interlocutor e principal peça da equipe que assombrou o mundo na Copa daquele ano. De fato, Cruyff merecia cada um dos apelidos que ganhou a partir dali: “Nummer 14” (Número 14), “Pitágoras de chuteiras”, “O salvador” (dado pela torcida do Barcelona, após o título espanhol de 1973/74, encerrando 14 anos de jejum). Enfim, o personagem principal do Totaalvoetbal.
Depois da Copa de 1974, é justo dizer que Cruyff estaria para sempre na história do futebol mundial. Tanto é que seu nome só ganhou o “y” então, para facilitar a leitura do resto do mundo, distanciando-o da grafia holandesa “Cruijff”. Porém, a partir dali seu nome perdeu um pouco de força. Na seleção, uma participação turbulenta na Euro 1976, e a recusa em participar da Copa de 1978. Até hoje, vários motivos são ventilados: a ameaça de sequestro da família, recusa em viajar à Argentina então sob ditadura militar, eventual ordem da mulher após suposta noite passada com prostitutas às vésperas da final de 1974… enfim, o fato é que Cruyff parou com a Laranja após 48 jogos e 33 gols.
Pior: também sua produtividade pelos clubes caiu. A ponto dele declarar o fim da carreira já em 1978, um dos seus mais melancólicos anos. Na partida de “despedida”, o Ajax encarou o Bayern Munique… e perdeu por 8 a 0, a mais dura derrota da carreira de Cruyff. Mais: carreira encerrada, ele tentou viver dos negócios em Barcelona com o amigo Michel Basilevitch, na criação de porcos e na exportação de vinho, cimento e imóveis. Fracasso, prejuízo e fuga de Basilevitch, deixando Cruyff com seis milhões de florins em débitos variados.
Restou tirar as chuteiras do armário e aceitar ofertas variadas para pagar as dívidas. Na lucrativa NASL, a liga norte-americana da época, passagens pelo Los Angeles Aztecs e pelo Washington Diplomats; um jogo único pelo Milan; um semestre rapidíssimo no Levante-ESP… mas sua carreira só voltou aos eixos após o retorno ao Ajax, em 1981. Inicialmente, nem era para jogar, mas para auxiliar o treinador Leo Beenhakker. Qual nada: Cruyff voltou aos gramados e foi personagem fundamental nos títulos holandeses de 1981/82 e 1982/83. Daí, o Ajax acreditou que ele estava “velho”, e não renovou seu contrato. Bastou para a vingança maligna: Cruyff aceitou a proposta do arquirrival Feyenoord, onde conquistou a Eredivisie e a Copa da Holanda na temporada 1983/84.
Carreira encerrada no campo, Cruyff começou no banco de reservas. Treinando o Ajax entre 1985 e 1988, não só levou os Amsterdammers ao título da Recopa europeia, em 1987/88, mas também revelou vários jogadores: os De Boer, Dennis Bergkamp, Sonny Silooy… sem contar gente com quem havia jogado e que ganhou espaço com ele no banco, como Marco van Basten e Frank Rijkaard. Como não poderia deixar de ser, um desentendimento com a diretoria do Ajax o tirou do clube, em 1988, levando-o ao Barcelona – sua outra casa, o outro clube em que fez história.
Também por sua personalidade irascível é que a federação holandesa nunca o chamou seriamente para treinar a Oranje, coisa que muito se esperou até hoje. E por ela, também, sua relação com o Ajax sempre foi turbulenta – basta citar o projeto natimorto de trabalho com Van Basten quando este assumiu o clube, em 2008, ou a “Revolução de veludo” rachada nesta temporada.
Ainda assim, se a importância de Cruyff no Barcelona é gigante, no futebol holandês ela é ainda maior, definitiva. Basta saber que até livros foram editados com suas frases. “Toda desvantagem tem sua vantagem”; “Os italianos não podem lhe vencer, mas você pode perder para eles”; “Antes de cometer um erro, eu não cometo um erro”… viraram marcas das “Cruijfiaans”, suas tiradas misteriosas e até curiosas.
Mas hoje, neste dia em que a Holanda para, pela perda de um de seus símbolos mundiais (Cruyff foi eleito o sexto holandês mais importante da história do país, numa pesquisa de 2004 – à frente de Anne Frank, Rembrandt e Vincent van Gogh), basta lembrar duas frases para dimensionar sua importância. A primeira: “Jogar futebol é muito simples, mas jogar o futebol de modo simples é a coisa mais difícil que há”. E a segunda: “Em qualquer sentido, eu provavelmente sou imortal”. De fato: em cada Cruyff Court (quadras destinadas a crianças carentes para a prática do futebol), em cada aluno da Cruyff University (faculdade destinada à formação de dirigentes esportivos), em cada mudança tática vista atualmente, em cada elogio de gente como Josep Guardiola, não há como não reconhecer: Verdade, Johan, verdade. De fato, você é imortal.
*Felipe dos Santos Souza é historiador formado na PUC e especialista em futebol holandês.