O PSDB e até Reinaldo Azevedo condenaram o pedido de prisão de Lula, mas gostaria de me deter na piada que é a argumentação do MP. O processo da prisão de Lula deflagrado pelo MP de São Paulo entrará para a história como uma ode à ignorância e à irresponsabilidade. O humor involuntário dos absurdos cometidos é hilariante. No documento, é citada a dupla Marx e Hegel em lugar de Marx e Engels, o que demonstra a total falta de intimidade dos promotores com a história da humanidade e a profundidade ideológica do documento. Além do mais, esqueceram de um “s” no nome de Nietzsche, coisa que um Control C-Control V resolveria mesmo que não se soubesse que a coisa mais típica da língua alemã seja a sequência das letras “sch”. E, como se não fosse suficiente, interpretaram seu conceito de super-homem de forma infantil. Creio que é fundamental também salientar que citaram edições da Martin Claret, a editora que faz as piores e mais vergonhosas traduções em nosso país. Um fiasco criado pela nossa educação de baixo nível e arrogância de altíssimo calibre. Os três patetas abaixo ficarão famosos em todo o mundo ao descortinarem nossa estupidez.
Os Três Patetas: Cassio Conserino, José Carlos Blat e Fernando Henrique Araújo
Ou seja, são citações que os patetas dos procuradores Cassio Conserino, José Carlos Blat e Fernando Henrique Araújo devem ter copiado de alguém tão culto como eles, mas que aceitaram o desafio de escreverem Nietzsche, errando as letras em um documento oficial que prenderia um ex-Presidente da República e que deveria entrar para a História do país pela porta da Frente.
Meu amigo Éder Silveira brinca dizendo que o MP teria citado também “O Pequeno Príncipe” de Maquiavel. Acho que a citação deve ter sido “Tu és responsável pelo cativeiro”. Na verdade, meus amigos, a situação do país é tão grave que Engels estaria se passando por Hegel. Mais sério, Outro amigo meu, Alexandre Constantino diz que é “impressionante e preocupante esta falta de qualidade técnica e a voracidade da justiça. Principalmente, se procedimentos assim extrapolam para o cidadão comum, no dia a dia dos processos”. E eu sei que extrapolam. Já senti isto na carne com duas decisões das quais, se não tivessem sido contra mim, daria risadas, como fazem meus amigos até hoje.
Guardrroger: metendo os pés pelas mãos no segundo tempo
Nós, colorados, adoraríamos estar na Libertadores. Ver o Grêmio jogá-la é uma tortura. Ou nem tanto. Eles fizeram apenas 4 pontos nos primeiros três jogos, jogando duas em casa. Para dormirem bem, precisariam ter feito 6 ou 7. 4 é pouco e a perspectiva de uma desclassificação precoce enche de ânimo nossos maus corações. A campanha ideal foi a que Fossatti fez em 2010 antes de ver sua cabeça ceifada por Piffero: 3 vitórias em casa e 3 empates fora. Total: 12 pontos. Perfeito. O Grêmio descumpriu a Lei de Fossatti em dois jogos: perdeu uma fora e empatou uma em casa. E as luzes de alerta se acenderam.
Hoje, jogam LDU e Toluca em Quito. Nenhum dos dois é grande coisa — fora de casa, a LDU é pior que o Veranópolis. O melhor é uma vitória da LDU, pois os equatorianos irão perder inevitavelmente em Toluca e ambos fariam 3 pontos nessas duas rodadas. Neste caso, se o Grêmio perdesse em Buenos Aires, dia 15, no Nuevo Gasómetro, acabaria a quarta rodada como último do grupo. E o dia 6 de abril, após Toluca e LDU jogarem no México, seria de plena felicidade!
Ontem, vi o jogo conversando com um grupo de colorados no WhatsApp. Alguns são conselheiros do clube e levam a secação como se fosse uma religião. Dois destes fundamentalistas previram que Guardrroger desmontaria o time no segundo tempo. Era só a coisa ficar empatada até os 15 min do segundo tempo que ele teria o tradicional chilique, dando toda a chance para o San Lorenzo virar. E quase aconteceu. O Grêmio teve chances, mas “El Ciclón” quase fez o crime. Imaginem que o cara tirou o Luan para colocar Bobô! O Grêmio também me pareceu cansado ontem. Olha só, mais uma mancada: jamais deveriam ter entrado com os titulares no Gre-Nal. Enfim…
Levo medo neste jogo do dia 15. O SL jogou muito mal em casa contra o Toluca e não me parece muito capaz de espremer adequadamente nosso co-irmão dentro do Gasómetro. Porém permanecemos estamos alertas e esperançosos. Tudo há de dar errado!
Admirador de Gustav Leonhardt e de Glenn Gould, Jacques Drillon abre mais uma vez o debate, não se afastando de nenhuma das interrogações estilísticas, práticas e mesmo morais.
Tradução de Evandro Martini, a partir do original na Diapason francesa.
Há cerca de 40 anos, uma questão espinhosa era debatida: Bach deve ser tocado no piano ou no cravo? A verdade estava escondida em algum lugar, e precisava ser descoberta. A questão se colocava à parte do debate sobre instrumentos antigos e orquestras historicamente informadas. Como se Bach tivesse um lugar especial na história, e merecesse um tratamento especial. É verdade que ninguém teria a ideia de escolher Kandinsky ou Mondrian para ilustrar a capa de um registro de Couperin ou Buxtehude, enquanto com a Arte da Fuga — música “abstrata”, “Feita para ser lida mais do que tocada” — isso acontecia regularmente…
Assim como a dimensão política do debate sobre os instrumentos antigos (conservadorismo / progressismo, direita / esquerda) era evitada, e como a dimensão econômica também nunca foi tocada (e eram enormes os interesses financeiros em jogo), o aspecto estilístico de “Bach-no-piano” foi cuidadosamente evitado. Como se Bach estivesse fora dos estilos, fora da história, fora da geografia: como se sua música, e Gould o afirmou, “transcendesse questões de evolução”. É por isso que tudo era “possível” com Bach: tocá-lo com vibrafone, orquestra, quarteto de saxofones. Sua música “resiste a tudo”, lê-se ainda às vezes
Aprendemos, nos últimos quarenta anos, que não era verdade. Nós sabemos hoje o quanto a Itália e a França entram na música de Bach, que é possível classificar por épocas, cidades de residência. E a Arte da Fuga pode ser vista como uma homenagem ao contraponto do passado, contra a música da moda no fim da vida de Bach.
Portanto, a questão permanece: piano ou cravo? Os argumentos se empilham: a polifonia seria mais clara no piano, a dança seria mais natural ao cravo; os ornamentos vêm mais facilmente para o cravo, no piano parecem fora de lugar; a dinâmica está presente na própria escrita da música para cravo (três notas tocadas juntas soam mais alto do que uma), e o piano adiciona dinâmicas artificiais, ou então se limita a um mezzo forte constante e entediante; o temperamento desigual do cravo melhor reflete os tons que o temperamento equalizado do piano; o baixo continuo no piano é simplesmente ridículo, e cantores ou instrumentistas preferem o acompanhamento do cravo; a música de Bach é essencialmente articulada enquanto o piano prefere o fraseado. E por aí vai…
O piano é derrubado por essa série de argumentos. O único aparentemente em seu favor, a clareza da polifonia, não resiste por muito tempo: Leonhardt, ou Koopman, ou Hantaï fazem uma polifonia perfeitamente clara no cravo.
Várias respostas são fornecidas pelos defensores do piano:
1. Não importa, eu faço como eu quiser.
2. Um bom pianista é melhor do que um mau cravista.
3. Eu tenho um piano em casa, não tenho um cravo.
4. É possível tocar Bach no piano de forma “historicamente informada”.
5. Colocar um instrumento de salão no Carnegie Hall?
E nossos debatedores não se entendem. Só que Glenn Gould não se importa. Enquanto outros pianistas passaram a nos servir um Bach morno, preocupados com um estilo “correto”, Gould negou a sua existência. Para ele, o estilo não existe. E é porque ele o declara ilegítimo, como um tribunal é declarado incompetente, que Gould é interessante. Outros pianistas sabiam e ainda sabem que o olho do estilo os examina. Eles tocam Bach com medo e fazendo concessões (por exemplo se abstendo do pedal e seguindo o tratado de C.P.E. Bach). Gould considera os críticos com indulgência e diversão: há muito tempo ele se liberou desse superego esterilizante, triste, mal humorado. Gould está tão longe destas questões! Ele não faz parte do debate, ele o recusa, foge. Na realidade, é o único pianista a interpretar Bach no piano: os outros tocam no não-cravo.
Mas Gould não pode ocupar todo o horizonte: nós continuamos a ouvir outros artistas, a ir ao concerto. É preciso agir como se Gould não existisse: temos de voltar para a terra e considerar a questão sob o ângulo trivial do trabalho, da rentabilidade musical, do custo-benefício. No piano, tocar sem dinâmica exige um investimento técnico considerável, articular sem afetação é um desafio, tocar rapidamente sem legato é horrivelmente difícil. Em suma, entendemos que o investimento pianístico para se tocar Bach é de ordem diferente do investimento cravístico. No cravo, basta encostar nele para encontrar o que procuramos. Ao piano, é preciso cavar profundamente. A rentabilidade é baixa, quase insignificante, mas a exploração da matéria-prima Bach tem esse preço. É uma situação comparável ao mercado de petróleo: antes, a exploração de alguns campos não era rentável; o preço do petróleo subiu, a exploração se tornou viável e todo o mundo compra gasolina mais caro. Se alguém quiser Bach no piano, tem que pagar o preço.
Dia oito de março marca o Dia Internacional das Mulheres e, se é verdade que muitos avanços podem ser registrados em termo de direitos, ainda persiste uma série de proibições que somente afetam as mulheres.
Campanha das Nações Unidas para os Direitos da Mulher
1. Afeganistão: proibido usar maquiagem
Além da maquiagem, as mulheres não podem usar saltos, não podem mostrar os tornozelos ou rir em voz alta. As afegãs também não têm o direito de trabalhar fora de casa e de sair nas ruas sem a presença de um membro masculino da família. Já houve casos de punição com amputação dos dedos por uso de esmalte, que também é proibido.
2. Iêmen: proibido sair de casa sem permissão
De acordo com a lei, uma mulher casada é obrigada a viver com o marido e nunca deve sair de casa sem sua aprovação. Existem poucas exceções, como casos de emergência, por exemplo, ou visita aos pais, se estiverem doentes.
3. Arábia Saudita e Maldivas: vítimas de estupro podem ser punidas
Além de não conseguir proteger as vítimas de estupro, alguns países, como Arábia Saudita, punem essas mulheres por terem saído de casa sem a presença de um homem. Nas Maldivas, uma adolescente de 15 anos, que tinha sido estuprada, foi considerada culpada de “fornicação” e condenada inicialmente a oito meses de prisão domiciliar e a 100 chibatadas. O veredicto acabou sendo cancelado.
4. Brasil: o aborto é autorizado apenas em casos bem definidos
Com o aumento dos casos de microcefalia vinculado ao vírus Zika, o debate sobre a legalização do aborto foi reaberto. É legal abortar apenas quando a gravidez representa um risco à vida da gestante ou quando a concepção foi resultado de um estupro. O ministro da Saúde Marcelo Castro (PMDB-PI) chegou a falar para as mulheres não engravidarem: “Sexo é para amador, gravidez é para profissional”.
5. Somália: proibido usar sutiã
Desde 2009, as mulheres somalis que usam sutiã estão sendo chicoteadas em público pelo grupo radical islâmico Al Shabaab. Elas estão acusadas de violar as leis do islã ao enganar outras pessoas sobre o estado natural dos seios e também suscitando o desejo sexual.
6. Marrocos: vítima de estupro pode ser forçada a se casar com agressor
Em 2012, Amina, uma marroquina de 16 anos, cometeu suicídio depois que um juiz a sentenciou a se casar com seu suposto estuprador, de acordo com uma lei que invalida as acusações de estupro caso as partes decidam se casar.
7. Irã: 77 cursos universitários são proibidos às mulheres
Biologia ou Literatura Inglesa fazem parte dos cursos que as mulheres não podem escolher em 36 universidades do país. Por quê? Um diretor acadêmico avaliou que estas não são disciplinas adequadas à natureza feminina.
8. Arábia Saudita: mulheres não podem dirigir
Se as mulheres não podem dirigir é simplesmente porque “a condução afeta os ovários”, afirmou um líder religioso. “A maior parte das mulheres que dirige carros de maneira repetitiva produzem crianças que sofrem com distúrbios clínicos”, adicionou.
9. Suazilândia: proibido vestir calça
Nesse pequeno país africano, última monarquia do continente, usar calças é considerada uma forma de desrespeito. Recentemente uma mulher foi proibida de participar de uma eleição porque vestia calças. Uma lei parisiense parecida autorizava mulheres a usar calças apenas se tivesse uma autorização da polícia. A lei datava de 1800 e não tinha mais poder jurídico, mas foi cancelada oficialmente apenas em 2013.
10. Estados Unidos, Arkansas: homem pode bater na esposa uma vez por mês
A lei faz parte de um conjunto de velhos textos misóginos que não são mais aplicados na prática. Na Carolina do Norte, mulheres precisam estar cobertas com pelo menos 15 metros de tecido. No Michigan, os cabelos da mulher pertencem ao marido.
A nomeação de uma regente titular para a orquestra de Birmingham é sinal inequívoco de novos rumos.
No Dia Internacional da Mulher,
Para todas as mulheres que trabalham em orquestras medievais.
A regente lituana Mirga Grazinyte-Tyla
O último bastião sexista da música erudita está indo ao chão. A City of Birmingham Symphony Orchestra, mais conhecida como CBSO, uma das mais respeitadas do planeta, anunciou no início de fevereiro que seu maestro titular será uma maestrina: a lituana Mirga Grazinyte-Tyla (Vilnius, 1986). Seus dois antecessores no cargo foram gigantes: Simon Rattle e Andris Nelsons. Rattle de saiu de Birmingham em 2002 para o cobiçado posto na Filarmônica de Berlim e Nelsons recentemente foi para a Sinfônica de Boston e a Gewandhaus Leipzig.
Grazinyte-Tyla é, de certa forma, ligada a outro craque da regência, o venezuelano Gustavo Dudamel. Ela foi assistente dele Dudamel na Filarmônica de Los Angeles a partir de 2012. Dois anos depois, ela começou a dirigir seus próprios concertos matinais no Walt Disney Hall. E logo surgiu na cidade californiana o que um crítico do Los Angeles Times denominou de “Mirgamanía”. Adjetivos como “naturalidade”, “dinâmico” e “forte” costumam acompanhá-la. Trata-se de uma excelente maestrina, e esta é sua outra conexão com Dudamel.
Mirga mandando ver.
Tais fatos vão mexendo as peças do jogo. Grazinyte-Tyla não faz o estilo fora de moda do gerentão irritado. Carrega com leveza aquilo que Elias Canetti chamou de “a expressão mais óbvia de poder”. Dona de grande carisma, ela constrói um modelo diferente com base na cumplicidade e empatia com os músicos: “Reger é algo que fica entre a inspiração e a comunicação. Com os músicos, busco encontrar uma forma de soar e de interpretar. A sensação de compartilhamento deste milagre é fundamental”, disse em uma entrevista para o site da CBSO.
A escolha do Grazinyte-Tyla para o chefia da CBSO não é um fenômeno isolado. É parte de uma tendência que está se consolidando.
Naturalidade
O feminino no pódio é um movimento ascendente. Para a mexicana-norte-americana Alondra de la Parra (Nova York, 1980), a chave reside na naturalidade do gestual: “Sou pianista e violoncelista, é claro que isto foi fundamental na minha formação, mas há que considerar como as mulheres são. Nós crescemos cantando, dançando e expressando-nos corporalmente”. De la Parra tem impressionado na Orquestra de Paris e na Filarmônica de Londres, o que lhe rendeu uma recente nomeação como chefe de uma das principais orquestras australianas. Já Karina Canellakis (Nova York, 1982) é uma violinista que trocou o arco pela batuta e trabalha em Dallas Symphony como assistente. Ela estreou na Europa em junho passado, substituindo Nikolaus Harnoncourt, já adoentado, na direção da Orquestra de Câmara da Europa. Outro caso de instrumentista transformada em maestrina é o da coreana Han-Na Chang (Suwon, 1982).
“Se um chefe de orquestra sabe o que quer, se tem conhecimento técnico de cada instrumento, se tem uma visão clara, a orquestra o segue sem se importar se é homem ou mulher”. É o que diz a única mulher a ganhar o Prêmio Alemão de Maestros, a estoniana Kristiina Poska (Turi, 1978), atualmente trabalhando na Komische Oper Berlin: “As diferenças entre os diretores de orquestra vêm mais da personalidade e caráter do que sexo”.
As pioneiras
Houve muitos obstáculos para as mulheres que se tornarem regentes. A geração anterior sabe muito bem disso. A australiana Simone Young (1961) ou as norte-americana Marin Alsop (1956) e Anne Manson (1961), abriram brechas nas salas de concerto, auxiliadas por seus mestres Daniel Barenboim, Leonard Bernstein e Claudio Abbado. Mas usavam um figurino artificial, masculinizado. Foi ainda mais difícil para as pioneiras no passado, que enfrentaram condições ideológicas e culturais totalmente hostis, vindas de músicos, críticos, agentes ou público como Ethel Leginska e Antonia Brico, que atuaram no pódio das Filarmônicas de Nova Iorque e Berlim em 1925 e 1930. A célebre Nadia Boulanger — formadora de toda uma geração de músicos notáveis — evitou a batuta. Outras tiveram uma carreiras confinadas no poço de um teatro para não serem visíveis ou ficaram em seus instrumentos sem poderem orientar uma orquestra.
Antonia Brico
Mas a melhor notícia sobre uma mulher conduzindo orquestras será quando… Isto não for mais notícia.
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O movimento é ascendente mesmo, tanto que já tenho três maestrinas em minha timeline do Facebook: Alessandra Arrieche, Ligia Amadio e Valentina Peleggi.
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Tradução livre (e certamente traidora) deste blogueiro a partir do El Pais espanhol. Sugestão de Helen Osório.
Poucas vezes eu fico triste quando um sujeito muito produtivo morre aos 86 anos. Teve longa vida, fez muito, foi reconhecido, morreu. Foi assim com Eco. Mas lamentei muitíssimo a morte de Nikolaus Harnoncourt (1929 – 2016) no último sábado. Conheci-o de forma contrária à maioria. Primeiro, li seus livros O Discurso dos Sons e O Diálogo Musical, depois fui ouvir seus discos, como por exemplo, a integral de Cantatas de Bach que ele gravou em parceria com Gustav Leonhardt. O incrível é que o músico era ainda maior do que o autor que me ensinara tanta coisa. A leitura de seus livros abriu minha cabeça para muita música que desprezava por limitação ou preconceito. Ele mudou totalmente minha forma de ouvir música, deu sentido a muita coisa que me parecia arbitrária. Suas explicações sobre a grandeza da Bach são absolutamente convincentes e brilhantes.
Antes de se tornar maestro, foi excelente violoncelista. As gravações demonstram. Sua integral das Suítes para Violoncelo Solo de Bach são magníficas. Foi pioneiro na música historicamente informada, mas não era intolerante como alguns que não aceitam que cada época dê sua versão de um autor. Só que ele, Harnoncourt, preferia a recriação rigorosa daquilo que o compositor compôs e fora ouvido pelo próprio. Ele também trouxe à tona um repertório riquíssimo de compositores negligenciados, talvez pela preguiça dos intérpretes. Investiu sobre o classicismo e o romantismo, dirigindo orquestras como a Filarmônica de Berlim e a de Viena, a Ópera de Viena, a Orquestra de Câmara da Europa, o Concertgebouw de Amsterdã, entre muitos outros. Mas sua existência sempre ficará associada à orquestra que fundou em 1953 e com quem mais gravou: o Concentus Musicus Wien.
Alguns engoliam com dificuldade suas interpretações históricas, outros não suportavam suas decisões estilísticas. Mas a abordagem histórica de Harnoncourt às sinfonias de Beethoven abriu os ouvidos e corações do grande público. Sua influência foi sentida em toda a Europa. Na área da música de concerto, foi o mais importante músico dos últimos 50 anos.
Os depoimentos são inequívocos. Todos amavam Harnoncourt no invejoso e complicado mundo musical. Norman Lebrecht diz que poucas vezes conheceu uma pessoa mais benigna. Quando se conheceram, Harnoncourt apontou um pequeno erro no livro de Lebracht The Maestro Myth. Segundo Lebrecht, aquilo foi dito com tal simplicidade e interesse que não parecia vir de um músico. E o maestro respondia a seus próprios triunfos com humildade e indiferença. Apenas encolhia os ombros e sorria. Achava estranho que o chamassem de maestro. Nos ensaios, era muito sério, focado, recusando-se a deixar passar um trecho antes de ficar satisfeito com ele.
Foi um idealista e como concordo com ele! Queria e queria que as pessoas tivessem acesso à música. Não dar acesso à música era um erro completo de educação. E, como brasileiro consciente de nosso IDH rasante, falo simplesmente em dar acesso, em dar contato. Já faria uma enorme diferença na vida de muita gente. Ninguém vai descobrir na primeira audição todo o ódio de Shostakovich por Stalin contido em sua 10ª Sinfonia, mas, tocado de alguma forma, poderia adquirir vivência com uma das formas mais sofisticadas e inteligentes de arte. Dar acesso, simples assim. Como diz Harnoncourt no vídeo abaixo:
Muito obrigado pela de lições, Nikolaus Harnoncourt. Foste um enorme e compreensivo mestre!
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Es ist vollbracht significa Está consumado. A regência é de Nikolaus Harnoncourt, a orquestra é o Concentus Musicus Wien, o solista de gamba é Christophe Coin, o coro — que se ergue mais não canta… — é o Tölzer Knabenchor e o menino é o desconhecido, genial e efêmero (refiro-me à voz, claro) Panito Iconomou. Ah, quem me apresentou a gravação foi o Gilberto Agostinho. É inacreditável.
E os empates ultrapassaram o Grêmio. Agora são 154 vitórias do Inter, 128 empates e 127 vitórias do tricolor. O Gre-Pate está renhido, com vantagem para o segundo. Torço por eles!
Maicon prepara-se para pisar a tíbia de Dourado. Quase quebrou-lhe a perna | Foto: Ricardo Duarte
Assisti o jogo no querido Pastel com Borda da Fernandes Vieira e me diverti muito com a reação das torcidas. Os gremistas vibraram com as agressões de Maicon em Dourado por cima da bola, Geromel em Aylon sem bola e Marcelo Oliveira irritado com William. Vibraram muito mesmo. A torcida em campo também. Mas, agora, ouço o presidente do Grêmio reclamar que Miller Bolaños sofreu uma lesão grave num lance de falta clara de William.
William é meio louco mesmo, mas foi um lance violento de um jogo violentíssimo de parte a parte. Anderson Daronco não conseguiu controlar o jogo do ponto de vista disciplinar. Talvez, se tivesse expulsado logo na primeira agressão — a de Wesley em Artur –, tudo fosse diferente. Bolaños levou a pior, claro, mas Maicon também merecia o cartão preto após falta em Dourado. Até agora não sei como o colorado não fraturou a tíbia. Vejam o dantesco lance abaixo (o vídeo também inclui a falta de William em Bolaños).
Infelizmente, acho até que o Grêmio terá vantagem sem Bolaños. É um jogador escalado erradamente como centroavante — conheço-o bem do Emelec — e Henrique Almeida é superior a ele na posição. Para Bolaños jogar, haveria que retirar Giuliano, Douglas ou Luan. Difícil, pois o trio titular é quase cativo.
Mas vamos ao que interessa, Argel. E o que interessa, é nosso time.
O primeiro tempo teve superioridade gremista. Era compreensível. A Arena tinha 48 mil pessoas, batendo seu recorde de público, com esmagadora maioria azul. Nosso time é jovem, mas aguentou a pressão. Nós não somos grande coisa, eles também não. No segundo tempo, passamos a dominar as ações, mas o empate foi merecido. Giuliano, Luan, Dourado e Vitinho perderam gols incríveis e ainda teve aquela jogada do Sasha no final do jogo em que o chute não saiu.
Gostei do que vi. Aylon e Fabinho estão surpreendendo. Andrigo não jogou bem, mas não estava acadelado. A criação não funcionou, só que era impossível jogar, pois a partida teve um número altíssimo de faltas: 20 faltas do Grêmio contra 17 do Inter. Isto é, além do Daronco, ninguém teve liberdade. Com um pouco de sorte, poderíamos ter vencido, mas não lamentei o empate, pois adoro estatísticas e achava uma injustiça o Grêmio estar à frente deles.
Teu time está adquirindo uma cara, Argel. Ainda não sei bem qual. O importante é que a defesa melhorou e, com uma boa defesa, haverá tranquilidade para a montagem do resto do time. Voltamos a campo domingo contra o São Paulo de Rio Grande. Acho que está na hora de sairmos daquele eterno quinto lugar, não?
Um resumo do ano pra ti, Argel: Alisson, Dourado, Ernando e Sasha estão confirmando. Andrigo e Aylon — o último fez um belo Gre-Nal — aproveitam bem as chances. Bob e Fabinho são realmente excelentes. Anderson, Paulão e Artur vêm crescendo. Réver e Alex estão pedindo aposentadoria. Marquinhos e Alisson Farias são decepções. Jackson é esquisito. William é um doido varrido, mas fez bom Gre-Nal. Vitinho quase estreou em 2016. Bruno Baio, coitado, é um braço roubado à agricultura.
Num dia como hoje, em 1953, morria o psicopata Stalin. Nem morto deixou de incomodar, pois, também num dia como hoje, em 1953, na URSS, morria Serguei Prokofiev. Sim, exatamente no mesmo dia. O compositor foi enterrado sem flores porque os baba-ovos compraram todas elas para o Grande Líder.
Prokofiev viveu seus últimos anos e morreu próximo à Praça Vermelha, e por três dias, a multidão que se despedia de Stalin impossibilitou a retirada de seu corpo para o serviço funerário. No funeral, não havia flores nem músicos. Todos tinham sido reservados.
Nunca vi um fanático com senso de humor ou então alguém com senso de humor se tornar um fanático. Humor é a habilidade de rirmos de nós mesmos, e, quando podemos fazer isso, desenvolvemos uma noção de relativismo. Este é um antídoto maravilhoso contra o fanatismo e, se eu pudesse, colocaria senso de humor e curiosidade numa cápsula, distribuiria em todos os lugares para criar imunidade ao fanatismo, e me candidataria ao Nobel da Paz.
Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:
CANTADA
Caso contigo, Carmela
Caso cumpras condição
Cobrarei casa, comida,
Cama, cavalo, canção
Carinho, cobres, cachaça,
Carnaval camaradão
Cassino (com conta certa)
Cerveja, coleira e cão,
Chevrolet cinco cilindros
Canja e consideração,
Calista, cabelereiro
Cinema, calefação,
Chá, café, confeitaria,
Chocolate, chimarrão
Casemira – cinco cortes
Cada compra, comissão,
Conforto, comodidades,
Cachimbo, calma,… caixão,
Convem-te, cara Carmela?
Cherubim!…Consolação!…
(caso contrário, cabaças!
Casarei com Conceição.)
Caso contigo, Carmela,
Correndo com coração!…
Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.
Com cordial, comovido: colega constante camarada,
a) J. Guimarães Rosa
Consul, capitão, clínico conceituado.
Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.
A Mina de Sal Wieliczka, localizada na cidade de Wieliczka no sul da Polônia, encontra-se dentro da área metropolitana de Cracóvia. Inaugurada no século 13, a mina produziu sal de mesa continuamente até 2007 e era uma das mais antigas minas de sal do mundo em operação. A mineração comercial foi suspensa devido aos baixos preços de sal e às inundações.
Hoje é um local turístico. As atrações da mina incluem dezenas de estátuas e quatro capelas esculpidas na rocha pelos mineiros. Às esculturas mais antigas foram acrescentadas novas esculturas feitas por artistas contemporâneos. Cerca de 1,2 milhões de pessoas visitam a Mina de Sal Wieliczka anualmente.
Em 1978, as minas de sal de Wieliczka passaram a figurar como patrimônio da humanidade na Unesco. Para esta eleição, contribuiu a capela de Santa Cunegunda, onde é possível encontrar diversas esculturas feitas em sal. Nas visitas guiadas, é possível contemplar diversas capelas menores, assim como estátuas nos corredores, sendo a que retrata Nicolau Copérnico uma das mais populares. As minas são visitadas anualmente por mais de um milhão de turistas.
Nas suas galerias subterrâneas, realizam-se também diversos eventos sociais, tais como banquetes, concertos e provas desportivas. Existe ainda um sanatório, onde pessoas com problemas alérgicos ou respiratórios podem desfrutar dos benefícios de uma temporada subterrânea.
Membros da Congregação Cristã do Brasil, uma das igrejas mais tradicionais do País, João Ribeiro e Lídia Ribeiro — NÃO SÃO MEUS PARENTES! — se juntaram e apostaram suas fichas na criação de uma linha voltada exclusivamente para o público religioso. Os dois criaram o sexshop Secret Toys.
O uso de artigos sensuais no meio gospel pode surpreender aos que olham para os religiosos como frígidos ou que encaram o sexo como pecado se praticado além da reprodução.“Deus não se importa com o que o casal faz entre quatro paredes”, disse João.
A procura de itens eróticos para apimentar a relação não é novidade no meio gospel. Segundo levantamento, óleos de massagens e vibradores líquidos estão entre os produtos mais procurados pelos evangélicos em sexsshops. Mas seu uso ainda é debatido dentro das igrejas.
Na intenção de superar o tradicionalismo, os empresários tratam a nova linha, batizada In Heaven, como “novo segredo de um casamento feliz”. “O nosso stand [da feira] será dividido entre céu e 50 Tons de Cinza”, brinca Ribeiro, já que a linha dividirá espaço com produtos inspirados na trilogia de Christian Grey e Anastasia, que explora o sadomasoquismo e promete ser um dos temas mais explorados no evento por conta do filme.
Os criadores apostaram em embalagens que remetem ao tom divino aos quatro primeiros produtos da da In Heaven (No céu, em inglês). São eles: Pure (adstringente, que promove a sensação “virgem de novo”), Vibe (vibrador líquido), Mais Prazer (excitante feminino) e Mais Tempo (prolongador de ereção). “A ideia principal é que o casal se sinta à vontade para comprar e tenha a certeza de que não está sozinho. Não há motivo para vergonha. Somos 52 milhões de evangélicos no Brasil e não tínhamos uma linha específica”, explicou Ribeiro.
Não tenho dúvidas que o projeto que passou no Senado sobre o pré-sal seja uma vergonha. É uma capitulação da direita — e aí incluo AMPLOS setores do governo — à indústria do petróleo, mas desastre ainda maior é a queima do petróleo em si. Tanto quanto ficar discutindo se a “riqueza” é nossa ou da Chevron, é hora de pensar nas consequências climáticas de cada ação. Não existe diferença nos efeitos de um CO2 de esquerda ou de direita. Hoje, brigar sobre petróleo sem falar de mudanças climáticas é uma comprovação de incapacidade de entendimento ou de interesse na realidade. Os combustíveis fósseis são necessários para muita coisa que não produz CO2. Para as que produzem, seria melhor começar a pensar em alternativas e deixar tudo o que pudermos no subsolo. A “riqueza nacional” é, bem… Toda a vez que se fala nisso é bom pensar naquilo.
Neste domingo, Leonardo DiCaprio, além de merecer há tempo um Oscar, usou bem os poucos segundos de seu agradecimento. Disse que 2015 foi o ano mais quente já registrado e que a produção de O Regresso teve que ir até longínquas latitudes para encontrar neve em grande quantidade. Disse o que todos sabem, que a mudança climática é real e que precisamos enfrentá-la sem procrastinações. e que está na hora de considerar o apoio a líderes que não falam em nome das grandes corporações poluentes.
Concordo com ele, claro. Se, do ponto de vista econômico, querem vender o Brasil, do ponto de vista ambiental tanto faz se quem vai queimar tudo é a Petrobras, a Chevron ou o Serra. Os céticos do aquecimento global estão calando a boca. Os que defendiam que a associação entre queima de combustível fóssil e efeito estufa era uma fraude, idem. Agora, falta ação. Orgulhar-se de nossa riqueza petrolífera talvez seja apenas burrice.
(Ao final deste ano, a Chevrolet americana lançará o Bolt, carro 100% elétrico com autonomia para 320 Km e desempenho semelhante aos que usam combustível fóssil. É um dos caminhos.)
P.S. — Meu amigo Dario Bestetti acaba de me apresentar os carros elétricos da Tesla.
A Filarmônica de Berlim, a Konzerthausorchester Berlin e a Staatskapelle Berlin convidaram os refugiados, suas famílias e voluntários para um concerto na Philharmonie de Berlim, a casa da primeira. O concerto foi ontem à noite, 1º de março. Nele, as três orquestras com seus titulares Simon Rattle, Daniel Barenboim e Iván Fischer desejaram as boas-vindas às pessoas que foram obrigadas a fugir de suas casas e ao mesmo tempo agradeceram aos voluntários por seu trabalho.
Daniel Barenboim, Iván Fischer e Sir Simon Rattle assinam: “Como músicos, nos sentimos bem-vindos em todo o mundo. Esperamos que isso também se aplique a pessoas que são cruelmente atingidas pelo destino e que são forçadas pela guerra, fome ou perseguição, a deixarem suas casas. Com o nosso concerto conjunto, queremos desejar dar boas-vindas às famílias de refugiados e expressar nosso agradecimento e apreço aos voluntários”.
É complicado escrever uma simples resenha de todo um mundo. Pois o que Dostoiévski realiza em Os Irmãos Karamázov é exatamente o que Mahler pretendia fazer com suas sinfonias, colocar todo um mundo dentro delas. Acredito que ambos tenham conseguido.
Há vários planos de leitura do livro. Pode-se ler os Karamázov como um romance de suspense — quem matou o velho Fiódor? –, ou filosófico — o capítulo do Grande Inquisidor, Deus, os problemas morais –, ou psicológico — o parricídio, os vários conflitos, o duplo de Ivan e Smerdiakóv, as várias interpretações dos pensamentos dos personagens. E, céus, deve haver outro planos de leitura para este tremendo romance. Mas vou tentar um mínimo de organização.
A ideia de criar este drama ocorreu a Dostoiévski em 1874, mas o leitmotiv foi-lhe dado ao acaso, cerca de trinta anos antes. Quando preso na Sibéria, Dostoiévski tinha um colega chamado Ilinski, Dmitri Ilinski. Alegre, fanfarrão, sempre despreocupado, ele negava ter sido o autor do crime pelo qual estava na prisão: Ilinski teria assassinado o próprio pai, Nikolai. A história é a seguinte: numa pequena cidade russa, pai e filho se detestavam, brigavam publicamente, não sentavam na mesma mesa, etc. Para piorar, o filho bebia e estava sempre metido em discussões e lutas físicas, além de ser perdulário. Devia para meia cidade e era detestado. Para piorar, o amigo de Dostô tinha avisado a todos na cidade que mataria o pai na primeira chance que tivesse. O pai chamava-lhe de facínora, não lhe dava mais dinheiro e fazia de conta que ele não existia. Um dia apareceu morto, assassinado, mas Dmitri negava o crime, apesar de tudo o que dissera antes. Dostoiévski logo saiu da prisão em episódio bem conhecido. Acreditando na inocência de Dmitri, o escritor ficou com a história trabalhando em sua cabeça. Quinze anos depois, descobriu-se o verdadeiro assassino e Dmitri Ilinski foi libertado. Durante todo este tempo Dostoiévski mantivera-se informado. A inspiração é claríssima, tanto que nos primeiros manuscritos do romance, Karamázov é chamado várias vezes de Ilinski. O escritor pediu que o erro fosse corrigido.
O conflito pai x filho é explorado sob diversas formas no romance. Se o centro do romance é o amor e ódio entre o velho Fiódor e o filho mais velho, também há conflitos mais silenciosos entre o velho e Ivan (o segundo filho) e entre o velho e o suposto filho bastardo Smerdiakóv. Lendo-se os romances anteriores de Dostô, vê-se que as personalidades de todos vinham sendo formadas há tempo. É fácil ver paralelos na natureza dos personagens de diferentes obras do autor: o terceiro filho Aliocha Karamázov e Grúchenka com o príncipe Míchkin e Nastácia Filippovna (de O Idiota), Ivan Karamazov com Raskolnikov (de Crime e Castigo), o starietz Zossima com Tikhon (de Os Demônios).
Apesar da indiscutível qualidade de todos os grande romances de Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov tem uma grandiosidade inalcançável. É um enorme painel russo, psicológico e político, trabalho maior da vida de um escritor genial. Com vida própria — separadas do autor — ali estão suas memórias de infância ligadas às reflexões e experiências dos últimos anos. As imagens dos irmãos Dmitri, Ivan e Aliócha — assim como a do bastardo Smerdiákov, espécie de duplo de Ivan — talvez simbolizem diferentes estágios de desenvolvimento espiritual do autor. O romance tem uma estrutura complexa, multidimensional, de gênero difícil de definir. São eventos que ocorrem em apenas duas semanas, mas nesse curto espaço de tempo se encaixam tantas histórias, disputas, conflitos e confrontos ideológicos, que estas seriam suficientes para vários romances de suspense, obras filosóficas, crônicas familiares ou dramas domésticos.
Há duas longas e compreensíveis interrupções na narrativa. A primeira serve para que Dostoiévski (ou Ivan) escreva aquele que talvez seja o melhor capítulo da literatura de todos os tempos. Trata-se do momento em que Ivan, num bar, narra para Aliócha a Parábola do Grande Inquisidor. Jesus retorna à Terra, mas o Grande Inquisidor, na pessoa de um velho bispo de 90 anos, argumenta que sua vinda é inútil e que agora ele só atrapalharia a Igreja. E condena-o à fogueira. (Este resumo chega a ser uma gozação, tal a riqueza do texto). O segundo serve para que Aliócha conte a história de seu mentor Zossima.
A ação principal do romance está na relação entre o velho Fiódor e Dmitri. O whodunit é “Quem matou o velho Fiódor?”. E todos são desvairados, desesperados e negligentes com a verdade e a moral. Todos os personagens parecem meio loucos. A família Karamázov é apaixonada e violenta. O pai Fiódor e Dmitri amam a mesma mulher. Dmitri acha que o pai lhe deve a herança da mãe. Ambos são lascivos, rivais e imprevisíveis. Dmitri é um paradoxo. Incapaz de se controlar, tem grande dignidade pessoal e é cheio de justificativas. Ao contrário de seu pai, um cínico, Mítia visa os mais altos ideais. É dotado daquela tal alma russa que o leva a picos e a abismos como um ioiô. Dmitri Karamázov briga e cita Schiller. Quando preso sob a acusação de assassinato, pensa no sofrimento dos outros e chora.
Ivan não é nada disso. Inteligente e profundo, é um filósofo centrado nos problemas mais irreconciliáveis da existência humana: a natureza de Deus e a ideia de permissão. Intelectual ateu, parece ter dentro de si um conflito permanente entre liberdade e autoridade. O Grande Inquisidor não está relacionado com a trama principal da novela. No entanto, sai de Ivan esta que é a parte mais importante do ponto de vista das ideias contidas no livro.
Aliócha é supostamente o herói do romance. Vivia num mosteiro, mas foi mandado para o mundo. Profundamente religioso, tudo compreende e passa o livro correndo de um lado para outro, tentando conciliar todos. Sem ele, o livro não existiria. É um personagem meio picaresco — vai de um lugar a outro e é uma espécie de informante de todas as tramas paralelas do livro. Acaba conseguindo conciliar apenas um grupo de crianças no belo final do romance.
Uma questão central na abordagem do romance é notar que as ideias do autor estão muito bem escondidas. As célebres citações que o livro contém foram todas rejeitadas por Dostoiévski ainda em vida. Quando lhe atribuíram algumas citações, Dostô respondeu simplesmente que não as assumiria: “Não sou eu quem diz isso, é Ivan. A linguagem é dele, o estilo é dele, o pathos é dele e não meu. Além disso, ele é muito jovem”.
No mundo criado por Dostoiévski, a Rússia e o mundo aparecem como se fossem o reino dos Karamázov. A noção da complexidade e da desorganização das relações talvez nunca tenha ficado tão clara como neste romance. Ninguém é confiável. A maldade pode explodir a qualquer momento. Todos dizem meias verdades por meio de mentiras. Os atos de uns são conduzidos pelos pensamentos de outros. A espiritualidade cristã é invocada a cada momento, mas sucumbe às necessidades tirânicas de felicidade terrestre, à sensualidade e ao álcool.
Numa frase, não dá para não ler.
P.S. — A tradução de Paulo Bezerra é incontornável. Se hoje você ler outra edição em português, não estará tão próximo do original.
O Secretário da Fazenda do RS, Giovani Feltes, disse que a culpa pela dívida do estado e pelo parcelamento dos salários dos servidores é de todos nós. Sou uma esponja de culpas, mas não lembro o que fiz dessa vez.
Não lembro de nada que deva ao estado do RS. Muito pelo contrário: embutidos nos produtos que consumo, há carradas de ICMS. Examinando minhas notas fiscais, vejo que elas estão cheias de tributos. A conta da luz que paguei em dia hoje é um show. R$ 89,00 vão para o Estado.
Talvez o “todos nós” seja apenas “todos nós deste governo”, sei lá.
Quem pariu Sartori que o embale… Bem, é uma bobagem dizer isso, pois todos os que aqui moram têm que sofrê-lo. Vai ver que o Feltes se expressou mal e queria dizer exatamente isso: que todos nós temos que aguentar o gringo das piadinhas.
“Eu não sou culpado de nada, Giovani!” | Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Eu nunca pensei que um amor daqueles bons fosse algo espontâneo ou fácil de ocorrer, mas achei que entre nós dois haveria grandes chances. Lembro que quando anunciamos nosso “relacionamento sério” no Facebook, reclamei que a expressão correta deveria ser “relacionamento divertido”. Pois as risadas insistem conosco. Mesmo quando as circunstâncias não ajudam, arranjamos lugar para elas. E, nossa, como os problemas do mundo exterior vieram e incomodaram! Mas fomos despachando um por um. Lá no começo, a gente improvisava com poucos temas, mas hoje temos um vasto repertório que foi sendo aprendido.
O amor é complicado porque não é só saltar em cima. Quero dizer, também é saltar em cima ou ficar por baixo, mas é também uma série de cuidados e acordos tácitos que vão facilitando seu crescimento. É ver que a vida e as escolhas do outro são tão importantes como as nossas e respeitar. É o famoso amar se aprende amando do Drummond. Para quem acha que amor apenas acontece como criacionismo, invoco Paracelso, que era moderninho já no século XVI: Quem nada conhece, nada ama. Quem nada pode fazer e nada compreende, nada vale. Mas quem observa e compreende — ama. Quanto mais conhecimento, tanto maior o amor”.
Tudo isso parece muito científico, mas estou no trabalho e a ciência e as citações são um bom refúgio, porque a verdade é que estou começando a querer muito te beijar, Elena.
Eles estão casados há 65 anos. Ele é o compositor e pianista György Kurtág, uma das figuras mais importantes da música erudita nos últimos 100 anos. Entre várias outras atividades, ele passou boa parte de sua vida apresentando-se ao lado de sua esposa Márta Kinsker, outra excelente pianista. O vídeo abaixo — de som apenas aceitável — foi gravado antes de um concerto ao vivo do casal, realizado em Budapeste. Ele revela enorme uma compreensão musical e muito mais.
As transcrições de Bach foram escritas pelo próprio Kurtáge. Trata-se do plácido Prelúdio Coral Das alte Jahr vergangen ist BWV 614, do alegre Dueto BWV 804 e da belíssima Sonatina da Cantata Actus Tragicus BWV 106.
György nasceu na Romênia em 1926, mudou-se para a Hungria em 1946, casando-se com Márta Kinsker em 1947. E o vídeo abaixo mostra o que acontece quando você vive e toca Bach junto com alguém durante 70 anos :
Só perde para Shakespeare e para a Bíblia em número de livros vendidos
Agatha Mary Clarissa Miller ou Agatha Christie nasceu há 125 anos, em 15 de setembro de 1890, na cidade inglesa de Torquay, às margens do Canal da Mancha. Foi romancista, contista, dramaturga e poetisa mas destacou-se espetacularmente no gênero policial, tendo sido chamada, ainda em vida, de Rainha do Crime. Durante sua longa carreira — que durou dos anos 20 até sua morte, no ano de 1976 –, publicou mais de oitenta livros, alguns sobre o pseudônimo de Mary Westmacott.
Durante esta semana, fãs de Agatha Christie invadiram Torquay para celebrar os 125 anos de nascimento da “Rainha do Crime”. Apesar de, presumivelmente, faltarem os venenos e um cadáver, seus fãs tentaram recriar o ambiente de seus livros bebendo chás em jardins cheios de flores ou comendo em restaurantes com toalhas de mesa brancas. O único neto da escritora, Mathew Prichard, disse qua a simplicidade é a chave de sua popularidade. “Minha avó escreveu livros para entreter as pessoas. Gostava de pensar que as pessoas os liam quando estavam no hospital ou em uma longa viagem de trem”, completa.
Talvez Agatha sorrisse ao saber do novo nome de Ten Little Niggers no Brasil
Seus livros, alguns deles com quase cem anos, continuam vendendo milhões de exemplares. Segundo o Guiness, Christie é a romancista mais bem sucedida da história da literatura mundial em número total de livros vendidos. Somados, eles venderam cerca de quatro bilhões de exemplares. Tais números totais só perdem para as obras do dramaturgo e poeta William Shakespeare e para a Bíblia. A Unesco dá conta de que ela é a escritora mais traduzida do planeta. Ten Little Niggers — publicado no Brasil como O Caso dos Dez Negrinhos ou como E não sobrou nenhum em nova e reveladora tradução –, de 1939, é o romance policial mais vendido da história, além de figurar na lista dos livros mais vendidos de todos os tempos.
Ela e Georges Simenon são a rainha e rei de um gênero que jamais saiu de moda. No Brasil, em 2014, suas obras ganharam novo fôlego. No ano passado, Agatha recebeu oito novas edições pela Globo Livros e a Nova Fronteira. Simenon foi pelo mesmo caminho na Companhia das Letras. Os críticos sempre preferiram o belga, seu detetive Maigret e outros romances, mas o público tornou Agatha, Hercule Poirot e Miss Marple mais populares.
Agatha trafegava em mundo que não existe mais, quando assassinos usavam venenos hoje esquecidos e tinham como profissão atividades que não existem há décadas. O universo de Agatha Christie é a Inglaterra dos anos 20. Sua própria personalidade e história estão mescladas ali, na estrutura social rígida da era pós-vitoriana, na valorização da nobreza e do “bom” sobrenome, e até nos detalhes de decoração nos ambientes descritos. Com cenas suntuosas, jantares, óperas e viagens de trem, seus livros apresentam uma visão idílica do desaparecido mundo da alta sociedade inglesa, que continua seduzindo milhares de pessoas.
A criança Agatha Christie
Ao contrário de seus irmãos, Agatha nunca teve chance de frequentar a escola e foi educada pela mãe num ambiente recluso, onde interessou-se pela música clássica e o canto lírico. Agatha chegou até mesmo a estudar música em Paris. Também através da mãe, teve seus primeiros contatos com a literatura. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou como enfermeira e no setor de medicamentos. Ali, recebeu muita informação farmacêutica. Desta forma, conhecia muitos venenos e gostava de utilizá-los em suas histórias.
Na vida real, Agatha também gostava de brincar de suspense. Em 3 de dezembro de 1926, seu marido, o Coronel Archibald Christie, revelou que tinha se apaixonado por sua amante e pediu o divórcio. Ato contínuo, deixou Agatha para viajar com a nova mulher e alguns amigos. Agatha também foi embora com uma pequena mala. Na manhã do dia seguinte, seu carro foi encontrado em um barranco no lago de Silent Pool em Newlands Corner, com os faróis acesos. Nele, estavam um casaco de pele, sua mala e uma carteira de motorista vencida. O desaparecimento da autora se tornou notícia, pois ela já era sobejamente conhecida na Inglaterra. A polícia ofereceu £100 para quem desse qualquer informação sobre o paradeiro da escritora. Aviões, mergulhadores e escoteiros passaram a buscar Agatha. A busca contou com 15.000 voluntários e foi a primeira a utilizar aviões no país.
Aós 11 dias, Agatha Christie foi descoberta no Old Swan Hotel, em Harrogate. Ela chegou lá de táxi no dia 4 de dezembro. Estava hospedada sob o nome de Teresa Neele (o mesmo sobrenome da amante de seu marido), dizendo ser da Cidade do Cabo, e explicando que era uma mãe de luto pela morte do filho. No hotel, Agatha foi vista dançando, jogando bridge, fazendo palavras cruzadas e lendo jornais. A autora foi reconhecida pelo músico Bob Tappin, que reivindicou a recompensa de 100 libras. Tappin disse que se dirigiu à autora como “Mrs. Christie” e que essa respondeu-lhe que estava sofrendo de amnésia…
Amnésia?
Várias teorias foram criadas para explicar o desaparecimento. Alguns dizem que o escândalo foi um golpe publicitário para aumentar a venda de um dos seus livros — The Murder of Roger Ackroyd tinha sido lançado semanas antes do desaparecimento e estava na lista de mais vendidos –, outros que a intenção da autora era apenas vingar-se do marido, simulando uma morte da qual ele fosse acusado de assassinato. Já outros dizem que a autora realmente sofreu um acidente de carro e perdeu a memória.
Agatha só se separou de Archibald em 1928, dois anos após o incidente. No outono do mesmo ano, o arqueólogo britânico Leonard Woolley convidou Agatha para visitar o Oriente Médio, onde estava no comando de escavações em Ur. No ano seguinte, Agatha voltou ao local, onde conheceu o jovem assistente de Woolley, Max Mallowan (14 anos mais jovem que ela). Eles se casaram em 1930. A autora manteve seu nome como Agatha Christie porque era assim conhecida, mas em sua vida particular preferia ser chamada de Mrs. Mallowan.
Agatha Christie escreveu que é difícil para um jovem escritor iniciar sua carreira sem copiar, mesmo que minimamente, o estilo de seus ídolos. Ela considerava iniciar uma obra, como algo muito complicado e muitas vezes ficava horas encarando a máquina de escrever, esperando uma ideia. Para estar pronta no momento que a inspiração chegasse, possuía um caderno que levava sempre consigo para anotar suas ideias de enredos, venenos e crimes.
Foto de 1972: batalha entre leitor e escritor
Todo romance policial é uma batalha entre leitor e escritor. O sucesso está na arte de disponibilizar todos os elementos necessários para a solução do crime e, ainda assim, fazer com que o leitor chegue à página final sem a menor ideia do que realmente aconteceu. Ou com uma ideia errada, o que é ainda melhor. Agatha Christie criava suas tramas com esta maestria, mas seus crimes ficam mais fáceis de desvendar quando o leitor já leu uma quantidade suficiente deles.
Agatha tem um recorde difícil de ser batido. A Ratoeira (The Mousetrap), uma peça que reúne mistério e assassinato, é famosa por ser a peça há mais tempo encenada na história do teatro, com mais de 30 mil apresentações desde sua estréia, em Londres, em 1952. Ela também é notória por seu final inesperado, que os espectadores ao fim de cada sessão são convidados a não revelarem quando saem, pois um spoiler seria fatal para fruição da peça.
Suas principais obras, além da peça A Ratoeira, são O Assassinato de Roger Ackroyd, Assassinato no Expresso Oriente, O Caso dos Dez Negrinhos, Morte no Nilo, Convite para um Homocídio e Cai o Pano. Mas há vários outros de mesmo nível. Quando o assunto é Agatha Christie, deve-se esperar uma trama repleta de reviravoltas, diálogos tensos, diversos suspeitos e um final surpreendente. Ah, e esqueça o assassino-padrão. Apesar de conservadora, a escritora jogava a culpa sobre qualquer um — nobres, serviçais, mulheres, homens, ingleses, estrangeiros, qualquer um. os motivos também são vários. Podem ser passionais, movidos pela cobiça ou por “nobres” razões. Então, caro leitor, tente adivinhar o assassino e seus motivos, mas espere por qualquer coisa.