De Alexandre Kovacs, do Mundo de K, sobre Abra e Leia

De Alexandre Kovacs, do Mundo de K, sobre Abra e Leia

Por Alexandre Kovacs, no Mundo de K.

Milton Ribeiro – Abra e Leia – Editora Zouk – 150 Páginas – Capa de Emanuelle Farezin – Lançamento: 2021.

Milton Ribeiro é uma das pessoas mais inteligentes e bem-humoradas que você vai encontrar no facebook, mesmo que este humor seja um tanto ácido ou carregado de ironia às vezes, mas não é culpa dele o crescente número de idiotas úteis que desafiam a nossa paciência, espalhando bobagens nas redes sociais. Há alguns anos acompanho os seus artigos como jornalista na mídia tradicional e também nos blogs que ele mantém desde 2003, uma inspiração para todo resenhista. Em 2018, Milton realizou um sonho de adolescência transformando-se em livreiro aos 60 anos, quando adquiriu a tradicional Bamboletras em Porto Alegre. E, no final do ano passado, mais um antigo projeto foi cumprido sob a pressão dos muitos amigos da área de literatura: a publicação de Abra e Leia, seu primeiro livro.

Os 22 contos desta antologia foram escritos ao longo dos anos e não apresentam uma unidade temática, longe disso. Contudo, percebemos em muitas das narrativas os traços biográficos do autor, o conhecimento enciclopédico sobre música erudita, assim como as referências literárias e cinematográficas, sem desmerecer dos assuntos mais populares como o futebol e a sua inusitada paixão colorada. Influenciado por autores clássicos e contemporâneos, Milton sabe como contar uma história, seja em primeira ou terceira pessoa, com uma edição precisa do texto, ele conquista a nossa atenção desde o início, construindo finais que valorizam a imaginação do leitor, sempre mantendo um texto afiado e bem-humorado, sua marca registrada.

Chama a atenção o cuidado na criação dos personagens: Marquinhos é um jogador de futebol da segunda divisão gaúcha que é subornado pelo seu ex-time – o Ipiranga de Erechim – para errar todos os escanteios, faltas e pênaltis na decisão do campeonato. Ele é um pai solteiro, coisa incomum no machismo que impera nesta área e, apesar das dúvidas sobre a paternidade, revela um amor incondicional pelo seu filho Enzo. Neste conto, Marquinhos e Enzo, o grande, a ironia fica um pouco de lado e o autor deixa a emoção correr solta pelo texto, sem clichês.

“[…] Eu sabia falar com a imprensa. Dava mais entrevistas e aparecia mais do que os outros, mesmo medindo 1,63 m. Eu era o baixinho que fazia a ligação entre o meio de campo e o ataque. Quer dizer, jogava em posição de craque, mas não era o caso. Tinha alguma habilidade e batia as faltas, pênaltis e escanteios do time, só que passava mais da metade do tempo machucado. Mas não naquele ano. Como o Enzo dizia na escolinha, aquele era o ano do seu pai. Eu ficava todo orgulhoso, pois tudo o que faço é para ele. / Ganhava cinco mil por mês no Guarany e os caras do Ipiranga me ofereceram vinte e cinco para errar todos os escanteios e faltas na decisão. Pênaltis também, se acontecessem. Eu estava em pânico com essa possibilidade – achava que era impossível errar o gol num pênalti. Se eu treinava diariamente, porra, como ia fazer para bater embaixo da bola a fim de mandá-la para fora? E eu sempre batia coladinho, com jeito. Que merda. Só sei que pedi o dinheiro adiantado, porque depois eles sumiriam, é óbvio. Como eu tinha fama de sério e confiável, me pagaram em dinheiro, um em cima do outro, ali na hora.” – Marquinhos e Enzo, o grande (pp. 15-16)

Já em Passando camisas, conhecemos Ana, uma morena bonita e sensual, daquelas que atraem os olhares masculinos e que recebe cantadas até dos amigos do marido mas, em matéria de traição, parece que é ele, o marido Daniel, que está na dianteira. Ana percebe que algo está errado quando descobre uma nota fiscal no bolso da camisa de Daniel, não de uma joia ou uma lingerie para a possível amante, mas sim de um ferro Ultragliss Diffusion 90 Arno. Nesta narrativa, o autor equilibra humor e ironia com sensibilidade em uma história simples do cotidiano mas que, quando bem contada, como é o caso, se torna um clássico.

“À noite, quando voltava para sua pequena casa na periferia, Ana seguia trabalhando. Ali, ela também preparava a comida, limpava a casa, lavava e passava suas roupas e as de Daniel. Ontem, porém, sua rotina foi quebrada. Ao pegar uma camisa de seu marido, Ana sentira um pequeno papel num dos bolsos. Retirou-o e viu tratar-se de uma nota fiscal. Ele tinha comprado um ferro Ultragliss Diffusion 90 Arno por cento e noventa e nove reais. Estranho. Daniel gostava de andar alinhado, mas era muito dinheiro por um ferro de passar. E, além do mais… Cadê o ferro? Observou melhor a data da nota: a compra fora feita há quinze dias e ela não recebera ferro novo nenhum. Faltava muito para seu aniversário e eles não tinham dado presente para nenhum amigo ou parente nos últimos dias – o que significaria aquilo? Será que ele comprara para um amigo que estava sem crédito? Voltou a olhar a nota: compra à vista.” – Passando camisas (pp. 39-40)

Mas é no conto O Violista, o maior em extensão – praticamente uma novela –, no qual encontramos personagens que só poderiam ter sido concebidos por Milton: começando por Romeu, um violista brasileiro que reside em Portugal, contratado pela Orquestra Nacional do Porto e que se prepara para interpretar a Sinfonia Concertante de Mozart para Violino e Viola, uma das poucas peças que valorizam a viola, um instrumento sempre relegado (os detalhes da comparação entre violino e viola são simplesmente deliciosos). A jovem violinista lituana, Saida Rekasiute (certamente inspirada na esposa de Milton, a violinista Elena Romanov): “alguém com 15 anos e 15 quilos a menos do que ele, e, fundamentalmente, com 15 centímetros a mais de altura”. Sebastián Rivero, um maestro prepotente que ameaça a carreira do violista e, finalmente, a moça brasileira, atendente da pizzaria, com a qual Romeu flerta ao telefone.

“Hindemith, Bartók e Mozart foram dos poucos compositores a voltarem suas luzes para a viola. O primeiro tocava vários instrumentos, dentre eles a viola, os outros dois talvez fossem bons corações que se deixaram levar por violistas pedintes, deprimidos com um repertório de terceira linha. / No dia do primeiro ensaio, Romeu foi apresentado à violinista com quem faria o duo. Ela o deixou instantaneamente irritado. Era jovem, muito jovem, alta e bonita, tinha os cabelos e olhos castanhos dos trópicos, mas a pele muito branca e o sotaque de seu inglês denunciavam a origem mais ao norte. Era báltica, lituana. Romeu não deu grande importância à beleza da moça, mas fixou-se em seus pés. Notou que ela estava de sapato baixo. Concluiu que todo seu esforço, dormindo dias e noites sobre a partitura de Mozart, seria solapado por alguém com 15 anos e 15 quilos a menos do que ele, e, fundamentalmente, com 15 centímetros a mais de altura. Ninguém veria um arredondado, pequeno e feio violista brasileiro. E, pior, ela certamente viria de salto alto no dia do concerto.” – O Violista (p. 108)

Um livro muito recomendado e que demonstra um conhecimento e habilidade para mesclar as referências musicais na trama que só encontro em Haruki Murakami na atualidade. A estreia de Milton Ribeiro na literatura nos deixa ansiosos para conhecer os seu próximos lançamentos.

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Sobre o autor: Milton Ribeiro nasceu e vive em Porto Alegre. É livreiro e jornalista da área cultural. É um melômano apaixonado por Bach, cinéfilo devoto de Bergman, proprietário da Livraria Bamboletras e leitor inveterado. Ministra cursos em Centros Culturais como o StudioClio e o Instituto Ling, além de ser colunista da Mundi | Cultura em Revista. Mantém os blogs Milton Ribeiro e PQP Bach. Também é daltônico como Van Gogh e Uderzo. Músicos amigos dizem que teria ouvido absoluto, uma característica 100% inútil, pois não toca nenhum instrumento.

Onde encontrar o livroClique aqui para comprar Abra e Leia de Milton Ribeiro

Augusto Maurer, sobre Abra e Leia

Augusto Maurer, sobre Abra e Leia

Milton,

terminei ontem, com certo alívio, de ler teu livro. Explico. Da aquisição à conclusão da leitura, foram quase 4 meses. Não pensa, com isto, que foi uma leitura pesada, trabalhosa. Ao contrário: peguei o livro umas 4 vezes, no máximo, lendo vários contos de cada vez, cada desfecho levando a um desejo inadiável de ler o próximo. Qual meu temor ? Simples: que se tratasse apenas de mais um bom livro. É, com certeza, um grande livro! É que, sabendo de teu conhecimento literário enciclopédico, não esperava (apenas temia) que fosse diferente. Pura burrice: quem estreia nas letras depois dos 60, sabe muito bem a que veio.

Não vou, aqui, entrar em detalhes sobre cada conto. São tantas as observações que prefiro deixá-las para algum momento futuro, ao redor de uma boa mesa e levemente embriagado. Tb não vou te parabenizar – e sim agradecer pelo acréscimo de algo que valha a pena ser lido no já tão saturado universo do corpus literis. E tb, é claro, à Elena, pelo fundamental incentivo a saíres do armário ou melhor, neste caso, da gaveta.

Grande abraço,

Augusto

O Museu Darbot, de Victor Giudice

O Museu Darbot, de Victor Giudice

Este é um livro de 1994 que ganhou o Jabuti do ano seguinte e que recebi de presente do leitor e cliente da Bamboletras Helion Povoa Neto — ele encontrou ecos deste Darbot em meu livro Abra e Leia… Só que eu não conhecia o livro e nem Giudice.

O Museu Darbot está há anos fora de catálogo. Sua editora, a Leviatã… Nem sei se ainda existe. Porém, após a leitura do livro, só posso me sentir lisonjeado, pois o livro de contos de Giudice é excelente!

Victor Giudice foi escritor, crítico, músico e professor que viveu de 1934 até 1997. Talvez Helion tenha visto pontos em comum em duas coisas: (1) o amor e as citações de música erudita e (2) as viradas nas histórias dos contos. O multifacetado Giudice dava aulas sobre música erudita e foi diretor da Sala Cecília Meirelles no Rio de Janeiro, mas também foi um respeitado compositor de sambas que chegou a ser convidado para integrar a ala de compositores da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. E ganhava a vida como bancário.

No mais, trata-se de um escritor altamente sofisticado. O melhor de todos os contos é o que dá título ao livro.  Num livro marcado pela música, este conto fala do mundo das artes plásticas, com seus enganos e enganadores. Também fala de autorias. Os texto é fluido, muito grudento e a verdade vai sendo apresentada em várias camadas que alteram as impressões anteriores. Coisa de mestre mesmo. Cavalos, a original crítica social de Jurisprudência e o censurado pela ditadura O hotel também não são nada esquecíveis.

São nove excelentes contos. Um bem diferente do outro em tema e estilo. Há sátiras e idílios, delírios e lógica, música e pintura, densidade e fluidez, conforme cada conto exige.

Agora, sempre fico triste quando vejo um escritor desta qualidade ser esquecido. Há um site sobre Victor Giudice na internet e pouca coisa mais. Quem fala nele hoje?

 

Os livros mais vendidos na Livraria Bamboletras em 2021

Os livros mais vendidos na Livraria Bamboletras em 2021

Sorry, Chico Buarque.

Nelson Rego, sobre Abra e Leia

Nelson Rego, sobre Abra e Leia

Olá, Milton. Antes de abrir e começar a ler, eu estava achando que o título do livro era brincalhão. Bom, e é isso mesmo, mas também é, ao seu modo, apocalíptico, por que não? “Tudo é movimento irregular e contínuo, sem direção e sem meta”, a epígrafe de Montaigne ficou perfeita aplicada não apenas ao conto Breve relato da aniquilação, mas ao livro todo. Há comédia nas histórias e é exatamente por aí, no breve riso, que o irregular sem pausa, sem direção e sem meta, se infiltra por rachaduras abertas a todo instante. Li na ordem em que os contos se apresentam, do primeiro ao último. Perto do fim, estava com sensação de feira do burlesco, com atores mambembes fazendo alegorias da morte. E então encontrei a tua nota final sobre O Sétimo Selo. O bom é que os teus apocalipses insinuados se fazem sem grandiloquência, coerentes com as pequenas comédias do cotidiano cheias de fraturas. Não é um apocalipse de uma só vez, hollywoodiano. A abertura do derradeiro selo acontece em conta-gotas e, por vezes, é de uma graça que desvia o drama de resvalar em direção à desgraça. O teu apocalipse deixa a dúvida, irá mesmo acontecer? E aí está o melhor. Meus contos preferidos foram Adaptações, Para não falar de todas as mulheres (uma pausa no fim dos tempos, um doce com cafezinho), Breve relato da aniquilação, Luciana e o hedonismo, Daqueles que não se denunciam e Vicentina.

Abraço. Espero que 2021 não se torne para o Inter o que 2003 foi para o Grêmio: a prévia da queda mais do que anunciada para o ano seguinte.

Os livros mais vendidos na Bamboletras em outubro

E começamos novembro a todo vapor! Mas, antes, segue a habitual e célebre lista dos mais vendidos da Bamboletras! Em outubro, os autores locais seguiram em destaque, representando o estado melhor do que ele merece… E há também outros ótimos livros nacionais e internacionais. Olha só:

1. Mas em que mundo tu vive?, de José Falero (Todavia)
2. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
3. Os Anos de Chumbo e Outros Contos, de Chico Buarque (Companhia das Letras)
4. Abra e leia, de Milton Ribeiro (Zouk)
5. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
6. O Lugar, de Annie Ernaux (Fosfóro)
7. Meia Siza, de Marieta dos Santos da Silveira (Pradense)
8. O Mapeador de Ausências, de Mia Couto (Companhia das Letras)
9. Escaler, de Paulo César Teixeira (Ballejo)
10. Duas Formações, Uma História: Das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio, de Luís Augusto Fischer (Arquipélago)

Sim, muitas novidades na lista, né? Vem conferir!

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📍 De segunda à sábado, das 10h às 19h. Domingos, das 14h às 19h.
🚴🏾 Pede tua tele: (51) 99255 6885 ou 3221 8764.
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Que pessoa de bom gosto é a Morgana Machado… Leiam o que ela escreveu sobre meu livrinho.

Que pessoa de bom gosto é a Morgana Machado… Leiam o que ela escreveu sobre meu livrinho.

Milton, finalizei teu livro hoje.

Não sou analista criteriosa de escrita, narração e de todo o blá blá blá literário. Minha área é outra. Eu só leio. Minha opinião se sujeita ao gostar ou não gostar. Como já feito por alguns amigos teus, gostaria de poder tecer maiores análises para te passar, porém não é minha praia e acho prudente respeitar meus limites.

Posso te dizer que gostei! Gostei muito. Que alegria te conhecer e ter tido a oportunidade de ler teu primeiro livro. Tenho dificuldade com contos, são poucos os livros de contos que li, acabo sendo mais adepta aos romances, questão de gosto. Mas roubando uma frase de um amigo teu “o livro vai num crescendo” e isso nos prende querendo logo ler a próxima narrativa. Eu li parecendo que estava lendo um romance, mesmo sabendo que as histórias não se relacionavam.

Parabéns Milton. Peço gentilmente que providencie o próximo para que eu possa me exibir para os meus amigos dizendo: “Eu conheço esse escritor, ele é da Bamboletras, conheço desde o início da sua obra”.

Minha sessão de autógrafos na Feira do Livro será no dia 30, às 19h

Minha sessão de autógrafos na Feira do Livro será no dia 30, às 19h

Ai… É com imenso receio e dor no coração que lhes aviso que estarei autografando meu livro “Abra e Leia” na Feira do Livro 2021. Será no dia 30 de outubro, sábado, às 19h, na Praça de Autógrafos.

Acho que vou contratar 4 pessoas para ficarem formando uma fila falsa, circular. Eu prometo fazer uma anotação no início de cada conto. Como são 22, darei 88 autógrafos.

(Quem leu o livro, deve lembrar do começo de “Os Velhinhos”. Por que fui escrever aquilo?).

Bem, gente, é isso. NÃO ME DEIXEM SÓ! Por favor, leve sua solidariedade! É bonito e digno. Eu juro que não vou escrever gratiluz na dedicatória, tá?

Gustavo Melo Czekster sobre Abra e Leia

Gustavo Melo Czekster sobre Abra e Leia

Não faz muito tempo li um comentário que alguém escreveu sobre o livro Abra e leia, do Milton Ribeiro, dizendo que, por conhecer e apreciar o autor, tinha receio de se decepcionar com o livro. De certa forma, era o mesmo que eu sentia e, agora que li a obra, posso garantir a vocês, potenciais leitores, que não, não há nenhum risco disso acontecer. Pelo contrário, aliás: a admiração de vocês pelo Milton só tende a crescer. Quer dizer que o cara, além de entender de música, ter uma livraria, fazer ótimas resenhas e ser colorado, ainda é escritor? Mas quantas vezes ele entrou na fila de distribuição de benesses e qualidades? Precisa de uma CPI isso aí, hein.

Abra e leia foi uma leitura que comecei um pouco receoso, mas que logo foi se tornando prazerosa e, com o passar do tempo, até esqueci que era o Milton quem tinha escrito o livro. Só lembrava disso às vezes, quando o Milton aparecia dentro das histórias quase como um fantasma assombrando suas criações. É um livro que faz algo inédito nos tempos atuais: ele conta histórias. Sejam insólitas, trágicas ou cômicas, os contos de Abra e leia resgatam aquele prazer quase indescritível que é ler uma história bem escrita e bem contada, do tipo que parece estar se desenrolando diante dos nossos olhos e que estamos testemunhando acontecer. Em suma, uma maravilha de leitura. E, se alguns contos parecem acabar de uma maneira abrupta ou sem nenhum tipo de epifania, é por que a vida também acontece assim: cheia de cortes, de questões não respondidas, de finais que a gente não sabe se existem mesmo ou se só inventamos para não pensar mais naquilo.

Um detalhe de ritmo que o Milton tirou da música e trouxe para o livro: ele vai em um crescendo. Começa com boas histórias que, aos poucos, vão cativando a atenção, e a consistência narrativa vai se aprofundando cada vez mais até chegar em uma sequência final de contos realmente extraordinários. Melhor ir lendo aos poucos para ter essa impressão de arrebatamento, que eu nem consegui ver quando começa de verdade (sinal de que foi bem feita a escolha da ordem dos contos), mas, em geral, uma seleção de contos vai alternando maus, bons e ótimos momentos, algo que não acontece em Abra e leia, em que aquilo que era bom no início fica excepcional no final.

Entre os contos, gostei muito da praticidade filosófica e engraçada presente em Luciana e o hedonismo, do insólito em Os velhinhos, da situação quase kafkiana em Enquanto os psicanalistas se divertem, da maravilhosa construção de personagem em O Violista (muito leria um romance inteiro com esse personagem, um Sancho Pança sem Quixote), da estranheza que chamamos de vida em As afinidades ininteligíveis – quem nunca se perguntou “como foi que já gostei dessa pessoa no passado?” -, da insuspeitada força de Abra e leia, que tem um final extremamente vigoroso, e da tragédia que vira comédia em Anita e Belle, que me fez dar uma gargalhada tão alta que possivelmente acordei meus vizinhos nessa última madrugada.

Eu sei que muitas pessoas hoje consideram a literatura como um exercício sociológico, outros tentam mudar o mundo através dos seus livros, tem aqueles que desejam expressar sua visão pessoal ou filosofias particulares usando uma moldura ficcional, e está tudo bem querer isso, cada um com a sua literatura. Eu, contudo, como sou um leitor antiquado, do tipo que gosta de ler boas histórias, daquelas que me enganem muito bem e me façam acreditar piamente no que foi narrado, posso garantir que gostei muito de Abra e leia, tanto que agora farei ao Milton a pergunta temida por qualquer escritor: tá, e daí, quando vem o próximo?

Eu falando de meu livro no Programa Folhetim, da Rádio da Ufrgs

Eu falando de meu livro no Programa Folhetim, da Rádio da Ufrgs

Eu não ouvi, mas espero não ter sido tão burro. Sou muito melhor escrevendo do que falando. Na verdade, falando sou quase um idiota. Mas alguma coisinha do que disse deve prestar, sei lá. Acho que as pessoas me convidam para dar palestras porque vou sempre informado até os dentes a fim de que eles não vejam quão inábil sou.

O que o pessoal da Rádio da Ufrgs não sabe é de minha devoção pela emissora que ouço desde os anos 70. Eu amo esta rádio do mesmo modo que meu pai a amava. Ela a chamava sempre de Rádio da Universidade. Para ele e toda a minha família, só a Ufrgs existe. Nós quatro nos formamos lá.

O apresentador Pedro Palaoro introduz assim minha entrevista:

“Nesta semana o Folhetim recebe o escritor e livreiro Milton Ribeiro. Ele está lançando seu primeiro livro de contos Abra e Leia, obra que sai pela Editora Zouk. No volume ele reúne uma série de histórias escritas ao longo dos anos e que refletem a trajetória de um amante da comédia humana.”

O prédio da Rádio da Ufrgs | Foto: Ufrgs

Os livros mais vendidos de setembro na Bamboletras

Os livros mais vendidos de setembro na Bamboletras

E outubro já começou… Como sempre fazemos, segue a lista dos livros mais vendidos do mês anterior. Sem querermos parecer esnobes (não somos) ou arrogantes (nem pensar), podemos dizer que, em setembro, o mais vendido foi o de um de nossos livreiros. Te mete! E é uma bem lista diferente. Notem como há apenas dois livros estrangeiros e, mesmo assim, um deles é escrito em português.

1. Abra e leia, de Milton Ribeiro (Zouk)
2. Escaler, de Paulo César Teixeira (Ballejo)
3. Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior (Todavia)
4. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
5. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
6. O Mapeador de Ausências, de Mia Couto (Companhia das Letras)
7. Os filmes pensam o mundo, de Enéas de Souza (EdiPUCRS)
8. Como o racismo criou o Brasil, de Jessé Souza (Estação Brasil)
9. Correntes, de Olga Tokarczuk (Todavia)
10. Duas Formações, Uma História: Das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio, de Luís Augusto Fischer (Arquipélago)

Vem conferir estas obras aqui na Bambô!

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#livraria #livros #apoielocal #bamboletras #bamboleitor #literatura

A Karina Pacheco leu Abra e Leia e escreveu o seguinte:

A Karina Pacheco leu Abra e Leia e escreveu o seguinte:

Milton,

Hoje acordei cedo, tomei o necessário café, coloquei comida no fogo (às vezes gosto de fazer pratos demorados nos domingos) e, no momento em que a casa toda estava cheirando a cominho, meu tempero preferido, sentei para ler o teu livro. E só levantei para o estritamente necessário, porque fiquei completamente absorta com a coleção.

Admito que não tinha começado a ler antes por receio: será que estou entrando com a expectativa muito alta? será que estou sendo (in)justa com o Milton? será que vou gostar mesmo? Bem, venho aqui solenemente declarar que fui besta e ridícula e que, como sói acontecer, meus receios se provaram todos absurdos e infundados.

O teu livro é ótimo! E não digo nem penso isso porque gosto de ti, sabes que sou uma leitora exigente e jamais faria elogios por obrigação. Os contos começam bem e, de alguma forma que ainda estou tentando entender, vão melhorando.

(Sim, é um fenômeno meio estranho até, porque não giram em torno de uma única temática nem são repetitivos, mais do mesmo. Se propõem a coisas diferentes e, ainda assim, a sensação é de que vão melhorando sempre. Que incrível!)

‘Marquinhos e Enzo, o grande’ tocou o fundo do fundo da minha sensibilidade da forma mais inesperada possível. ‘Atravessando a rua’ é uma aula de narrativa e, cabe dizer, tem um final hilariante. ‘Luciana e o hedonismo’ de uma inteligência e humor que raras vezes são executados assim, sem “forçar a barra”. Nem que falar de ‘O Violista’, que talvez seja o melhor da coleção e que poderia perfeitamente estar em qualquer coletânea que tivesse as palavras “melhores” e “contos” no título. O meu preferido, entretanto, acho que foi ‘Anita e Belle’, com essa combinação ideal de sensibilidade, realidade crua e humor.

Terminei o livro meio que já querendo reler, imaginando como os diferentes contos provavelmente vão produzir efeitos diferentes em mim nas próximas leituras.

Bem, resumo essa mensagem que já está abusivamente longa: obrigada por esse livro e, por favor, continua escrevendo.

Beijo da melhor-pior cliente da Bamboletras!

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Obs. do Milton: como vocês leram, a Karina autodenomina-se a melhor-pior cliente da Livraria Bamboletras… A expressão nasceu quando sua mãe, durante uma das muitas viagens da filha — viagens aqui não é metáfora — disse-me que eu poderia escolher os livros que ela lhe daria de aniversário. Neguei-me a fazê-lo porque a Karina lê o que quer e tem opiniões fortes. Uma vez ou outra eu imponho um livro, mas é raro. Então, sua mãe rebateu: “Bem, já que tu preferes ficar 8h com a minha filha enquanto ela escolhe os livros, vou deixar um crédito pra ela…”. Gente, ela não demora 8h, mas também não é rápida e há um ganho: ela lê muito e bem, e em vários idiomas, e sempre se aprende com ela. Às vezes ela aparece com uns pedidos bem complicados, mas é da vida, né?

De Fernanda Melo, sobre meu livro Abra e Leia

De Fernanda Melo, sobre meu livro Abra e Leia

Ontem, recebi isto aqui da Fernanda Melo.

Tive que parar pra respirar depois dessa declaração de amor à tua filha. Quem te conhece pelo menos um pouco consegue identificar claramente as histórias autobiográficas.

Não desgrudei do livro desde que comecei. Pega a gente imediatamente e é variado, vai pra qualquer direção, escapa do que pode ser cansativo às vezes nos livros de contos, que é ficar tudo meio igual

Dá pra entender porque a editora o quis imediatamente. Meus parabéns, você realmente chegou lá ❤️ .

De Luís Augusto Farinatti, sobre Abra e Leia

De Luís Augusto Farinatti, sobre Abra e Leia

Quando o Milton me convidou para escrever a orelha, respondi: finalmente esse livro vai sair. Caramba, Milton! Já merecia há anos!

Começa assim o texto que escrevi para a orelha do livro de contos do Milton Ribeiro. Chegou aqui em casa hoje. Todo mundo conhece o Milton. Livreiro dono da Bamboletras, jornalista, blogueiro e desde sempre escritor. Só agora publicado. Tá mais que na hora da gente poder aproveitar esses contos.

Um livro desses. Finalmente vindo a público. E o convite pra escrever a orelha. Tô feliz demais.

Foto: Luís Augusto Farinatti

De Cândida Roriz, sobre Abra e Leia

De Cândida Roriz, sobre Abra e Leia

Milton Ribeiro, seu livro esta sendo um oásis pra mim. Minha gatinha de estimação sumiu e ler seu livro está me desligando um pouco do problema.

As histórias desse livro são boas demais. Você não tentou arrumar um final feliz. Apenas a vida como ela é. No seu caminhar, sem ter a obrigação de terminar arrumadinha. Nas histórias do livro, os personagens não tem controle sobre nada que irá acontecer em suas vidas, assim como na vida real. E traz esse choque de realidade bem diante dos olhos. Só quero agradecer, obrigada!

Foto: Cândida Cunha Roriz

Milton Ribeiro apresenta livro com histórias do fundo da gaveta (Jornal do Comércio de hoje)

Milton Ribeiro apresenta livro com histórias do fundo da gaveta (Jornal do Comércio de hoje)

Leitor inveterado e proprietário da Bamboletras, Milton Ribeiro lança Abra e leia, seu primeiro livro de contos

Por Igor Natusch,
no Jornal do Comércio de hoje

Leitor inveterado e proprietário da Bamboletras, Milton Ribeiro lança Abra e leia, seu primeiro livro de contos | Foto: ANDRESSA PUFAL / JC

Uma gaveta é, muitas vezes, um lugar mágico. Nela, o escritor deposita seu inventário de ideias: textos longos e curtos, promissores ou sem futuro, incontáveis fragmentos de uma imaginação que busca a próxima história. Talvez se possa dizer que a gaveta é a mais fiel leitora de uma pessoa que escreve – e muitas vezes acaba sendo quase que a única, como os incontáveis autores não publicados pelo mundo poderão, com maior ou menor entusiasmo, confirmar.

Depois de décadas alimentando a gaveta, Milton Ribeiro sentiu que era hora de procurar o livro de estreia em meio aos papéis. O resultado está nos contos de Abra e leia (Zouk, 150 págs., R$ 43,90). Adquirir a obra, para moradores da Capital, não será difícil: além do site da editora, há a opção de ir até a Bamboletras (Lima e Silva, 776), livraria da qual o próprio autor é proprietário. “As pessoas parecem ter ficado muito felizes quando souberam que ia sair um livro do livreiro”, comenta Milton.

As histórias presentes em Abra e leia foram escritas durante um período extenso de tempo, que vem das cercanias de 2006 até os dias atuais. “Eu escrevia para a gaveta, sempre tinha sido assim. Na adolescência, era literalmente para a gaveta, porque era tudo papel. Depois comecei a escrever em programas de computador, e a minha gaveta virou o HD. Jamais tentei publicar, não tinha o menor interesse”, relembra, de bom humor.

Foi a pressão da esposa, a violinista Elena Romanov, e de amigos ligados à literatura que impulsionou o leitor inveterado e escritor irresoluto. “Um desses amigos começou a me dar livros: ‘lê isso aqui, quero saber tua opinião’. Me fez ler alguns livros, e depois dizia: ‘pois então, o que tu escreves é melhor do que isso, por que não publica?’ Aí mandei para a Zouk e, em poucos dias, responderam dizendo que queriam publicar. Foi um negócio meio mágico, não passei por aquela coisa de bater na porta, ser rejeitado: mandei para uma só editora, de um pessoal que acho simpático, e deu certo.”

Apesar de titubeante para publicar, não se pense que Milton é um escritor bissexto. Seu blog auto-intitulado é, talvez, um dos mais antigos em atividade no Brasil, com publicações frequentes desde 2003. Parte das histórias do livro, como Passando camisas e Marquinhos e Enzo, o grande, foram parte dos arquivos do blog durante muitos anos. “Costumo dizer que me colecionava no blog. Mas, nos últimos tempos, mudou um pouco a perspectiva. Hoje, eu uso bastante para resenhas dos livros que leio, como parte do trabalho da livraria, além de algumas ironias e provocações. A literatura saiu do blog e voltou para o HD, agora com uma perspectiva mais concreta de virar publicação no futuro”, explica.

Na obra, surgem histórias do cotidiano, com elementos de ironia e observação, não raro inclinadas a uma certa dose de subversão. O discurso que estraga o solene Natal em família, o trabalhador dedicado que deixa clara sua falta de fé, o jogador de futebol que enfrenta uma chance de gol que mudará sua vida: figuras humanas que usam seu temporário e precário controle sobre as situações para gerar rompimentos que rearranjam todo o cenário. “Minha vida nunca foi uma história lisa, tipo um conto de Tchekov em que as coisas avançam com calma, vão caindo na mesmice e acabam com um suspiro. Eu tive tantas viradas espetaculares na minha vida… Basta dizer que tive uma loja de informática, depois fui jornalista e agora sou livreiro. Talvez para alguns isso seja uma vida rica, mas eu não sinto assim. Acho que, de certo modo, é algo até natural, que acontece na vida das pessoas.”

Haverá quem diga que o escritor junta palavras como uma forma de honrar os seus heróis – ou que, por outro lado, esconde as palavras que escreve por não sentir que será aprovado por eles. Para Milton Ribeiro, os heróis podem ser centenários, como Tchekov e Machado de Assis, ou mais próximos no tempo, como Sérgio Sant’Anna, Lucia Berlin e Raymond Carver – o que não quer dizer que não se possa avançar para outros reinos. “Há heróis também fora da literatura. Às vezes, eu quero escrever com o equilíbrio de Bach, com a maturidade do velho Vermeer ou com a raiva de Goya. É claro que todos são heróis distantes, apenas imodestos ideais artísticos que cultivo”, acentua.

Seja como for, agora que Milton abriu a gaveta, não há previsão de fechá-la tão cedo. Além de novas histórias curtas, há um romance já pela metade, em torno dos áudios que uma mãe de terceira idade grava para uma filha com a qual mal chega a conviver. “A comprovação de que eu não pretendia publicar é que é um livro muito difícil de escrever”, admite, dando uma risada. “Mas a minha mulher diz que o ano que vem vai ser o ano do romance. É óbvio que eu não tenho perspectiva de ganhar muito dinheiro escrevendo livros, mas é gostoso dizer que, no momento pelo qual o Brasil passa, com um ministro da Educação com o mesmo nome que eu e fazendo os absurdos que tem feito, consigo viver da cultura. Isso sim é um ato subversivo, uma vida subversiva.”