Eu gosto da prosa dos poetas. Quando os poetas escrevem contos, romances e novelas, permanecem como poetas de uma forma diferente, talvez inadequada à narração e suas regras. Mas alguma coisa faz com que eu goste disso. As descrições têm trechos de tonalidade distinta e os ganchos de um tema a outro muitas vezes inexistem. É o caso de Sophia neste livro de contos. A brilhante poetisa conta — o verbo é este — cinco histórias simples. Destaque para A História da Gata Borralheira (ou Cinderela), onde Sophia faz uma interessante variação sobre o conto original; O Silêncio, dura parábola sobre a ditadura salazarista e Saga, uma belíssima e tocante história sobre os antepassados dinamarqueses da escritora portuguesa. É um livro de estilo clássico que conta suas histórias adultas como se fossem infantis. Eu curti.
No ano passado, eu e Elena estávamos em Londres e fomos duas vezes ao Templo da Música de Câmara da cidade — segundo alguns do mundo –, o Wigmore Hall. Na fila para retirar os ingressos previamente adquiridos na internet, notei que as pessoas estavam olhando muito discretamente para um ponto logo atrás de mim. E me virei para ver o que era. Era Ian McEwan. O curioso é que McEwan já citou o local em vários de seus livros e, em A Balada de Adam Henry, volta a fazê-lo com elegante ironia. É o local dos exigentes, dos caras que só criticam, dos chatos. É o meu lugar!
Vinho, Fiona esperava, poderia mitigar as faculdades críticas dos frequentadores assíduos do Wigmore Hall, escreve na página 178.
Uma significativa minoria (…) passava muitas noites por ano ouvindo música de câmara com grande concentração, as testas franzidas, no Wigmore Hall de Marylebone, na página 162.
Porém o caráter gonzo desta resenha está exagerado, não? Pois o livro não tem cenas no Wigmore Hall e a música é algo importante no livro, mas este sobreviveria sem ela. Com bastante menos brilhantismo, mas sobreviveria. Então vou permitir que o vírus da objetividade sem spoilers tome conta do texto.
Fiona Maye é uma respeitada juíza do Tribunal Superior inglês, especializada em direito de família. O sucesso profissional não esconde frustrações pessoais. Aliás, ele parece fundar-se nestas. Não é incomum que os casos de direito de família acabem famosos por motivos éticos ou por envolverem celebridades. Grandes fortunas, divórcios milionários, etc. E há os casos que envolvem religião. Então, um hospital decide fazer uma transfusão de sangue em um menino que é Testemunha de Jeová. Ele e a família não aceitam o procedimento por motivos religiosos. O hospital leva o caso à Justiça.
A Balada de Adam Henry (The Children Act, 196 páginas, Cia das Letras) é um McEwan mais ligeiro e descansado, mas não pobre. É uma novela polifônica na medida certa que discute importantes problemas pessoais, sociais e religiosos. Não é tão redondo e não está no nível de Reparação, Amsterdam ou Sábado, mas também não é o mau livro de que alguns falam, normalmente levados por faniquitos religiosos. Acontece que McEwan permitiu-se alguns alongamentos normalmente não prescritos à boa literatura. Ele força a barra em algumas cenas e emite mais opiniões do que o habitual. É um trabalho tão pessoal que é tímido ao analisar o mundo do judiciário, mas nada inofensivo ao tratar do que realmente deseja: a criação de cenas inusitadas, a exploração de uma crise conjugal e a exposição da lógica das igrejas. Isso ele faz com a acidez e brilhantismo. O resto foi tratado com livre espírito de divertissement e algum uso de clichês, o que foi mal recebido por certo sectarismo literário que só aceita coisas perfeitinhas, adita que é dos gritos de bravo.
O veterano Milan Kundera voltou à ficção no ano passado, aos 85 anos, com este bom A festa da insignificância (Companhia das Letras, 136 páginas). O tema lembra um pouco o filme de Paolo Sorrentino A Grande Beleza.
O romance gira em torno de quatro amigos parisienses que vivem em Paris, sem grandes objetivos ou ambições. Eles passeiam pelos jardins de Luxemburgo, mentem um para o outro, reinventam passados, se encontram numa festa, constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stalin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, em vez dos seios, bundas ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo — pois as calças caíram e as camisetas subiram, revelando o buraquinho que só Eva não teria…
Kundera brinca entre Paris e a União Soviética de Stálin, propondo um paralelo entre as duas épocas. Assim, o romance fala sobre o medo e o pior da civilização. Porém, fala de forma curiosamente divertida e sem ilusões ou expectativas. Livro curtinho e despretensioso, revelador de que o velho não perdeu a mão.
Formado pelas novelas As Aventuras de Tchítchikov, Diabolíada, Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro, e com excelente tradução de Homero Freitas de Andrade, este volume da Edusp é uma verdadeira joia que reflete a literatura satírica dos primeiros tempos da União Soviética — e que depois foi morta por Gorki e pelo medonho realismo socialista. Aliás, Bulgákov, em sua “Carta ao Governo”, reclamou do que hoje é sabido por todos: “toda a sátira autêntica é absolutamente inadmissível na União Soviética”. A URSS era um regime que apenas admitia uma verdade única e inabalável e nenhuma “verdade” deste gênero resiste ao riso, principalmente ao riso inteligente e cheio de curvas e dúvidas como o criado pelo gênio de Bulgákov.
As quatro novelas deste livro formam um crescendo de virtuosismo arrebatador.
Pessoalmente, a leitura de As Aventuras de Tchítchikov teve pouca validade. Afinal, faz 40 anos que li Almas Mortas, de Gógol, e Bulgákov utiliza os personagens do romance como se fossem velhos conhecidos nossos. É claro que, como confirma a Elena, todo russo tem o livro de Gógol tão na memória quanto nós temos os principais contos e os cinco últimos romances de Machado. Mas eu mal lembrava de Tchítchikov…
Mas tudo mudou com a aceleradíssima e louca Diabolíada. Filha literária dos filmes pastelão dos anos 20, a novela está repleta de perseguições e transformações fantásticas com a finalidade de caracterizar a enorme máquina burocrática soviética. Pessoas deixam de existir, pagamentos são feitos através de caixas de fósforos que não funcionam em vez de dinheiro, todos passam fome e os pequenos chefes são verdadeiros diabos transformistas que antecipam a obra-prima de Bulgákov O Mestre e Margarida.
Os Ovos Fatais (1924) e Um Coração de Cachorro (1925) são novelas irmãs e das melhores coisas que já passaram frente a minhas retinas tão fatigadas. (Obrigado, Drummond). São duas longas e esplêndidas sátiras de ficção científica. Os Ovos Fatais tem uma longa introdução séria, com alguns curtos episódios cômicos, mas depois tudo se descontrola, virando um enorme vaudeville. Um vaudeville de terror, uma coisa realmente original. Já Um Coração é uma sátira de cabo a rabo e suas variações de foco narrativo — que são passadas de um para outro personagem e para o autor, depois que um cachorro abre a narrativa na primeira pessoa do singular –, valeria um estudo.
As duas novelas brincam de tal forma com o modus operandi da Revolução Bolchevique, fazendo tantas observações que se revelariam exatas décadas depois, que não surpreendem suas proibições na época. O que surpreende é o fato de Bulgákov escrever cartas e mais cartas para Stálin pedindo para sair do país, recebendo em troca telefonemas gentis do georgiano em várias madrugadas. Pelo visto, o chefe gostava do humor de Bulgákov, mas o queria apenas para si. O escritor faleceu em sua casa.
É óbvio que, até pela situação passada no ano passado, eu leria este livro. E começo dizendo que a traumática separação do personagem Ricardo Lísias — sim, Lísias é o nome do personagem de Lísias — foi fichinha perto da separação de Milton Ribeiro.
Divórcio é a história de uma separação com todos ingredientes que fazem parte deste tipo de situação: choque, ressentimento, ódio, divisão de bens, vinganças, recuperação. Tudo isto é catalisado por um narrador original e seguro, na primeira pessoa, que cria um texto grudento, apesar de cheio de quebras e opções. A sinceridade e a exposição do personagem Lísias só surpreende se pensarmos que Divórcio é um romance autobiográfico, fato negado pelo autor, inclusive para mim, pessoalmente.
Grosso modo, o romance alterna quatro tempos. O momento presente, a história do casamento, a preparação de Lisias para correr a São Silvestre — única fonte de prazer e o meio escolhido para o retorno à realidade e à vida — e a infância do Lísias personagem. Os jornalistas, profissão da ex-mulher, recebem muitas e justificadas críticas. Há uma coleção de frases antológicas de ódio no livro, mas se eu coloco aqui vão pensar que a coisa tem endereço. Então, vou colocá-las num contexto mais tranquilo. Num PHESfora da curva, por exemplo.
Indico, claro. Trata-se de um belo texto visceral.
(Curiosidade: fiquei contrariado com algumas metáforas utilizadas e, ao comentá-las com a Elena, fui convencido de que eram perfeitas. O problema é que eu sofro de outra maneira).
No original francês, é Truismes; em Portugal, é Estranhos Perfumes; em inglês, Pig Tales; e no Brasil recebeu o bom título de Porcarias.
Porcarias, livro de Marie Darrieussecq que ganhei de presente de minha filha, é apresentado como uma parábola. Parábola é uma “narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior”.
Um pouco mais nojento do que seus modelos clássicos — A Metamorfose, de Kafka, e A Revolução dos Bichos, de Orwell –, Porcarias é uma narrativa fluida e grudenta como poucas.
Sem entrar em detalhes, o livro conta a história de uma vendedora de perfumes que se deixa levar um tanto passivamente pela vida e que acaba por deixar que seus instintos primitivos a dominem, fazendo com que vá se transformando lenta e literalmente numa porca. O final é fantástico e triunfante: o que era crise deixou de ser, pois agora ela é uma porca completa.
O que o livro tem de sensacional é a narrativa crua e eficiente da solidão, da não-aceitação, da angústia e da inadaptação de alguém que vai perdendo a auto-estima até resolver que o estilo de vida da selva é o mais mais adequado para si. Dizendo isso fica clara a parábola, mas há mais. Porcarias é um bonito e cômico ataque tanto ao politicamente correto como ao culto da vida sã e dos corpos sarados.
Lá em 1997, a Folha de São Paulo entrevistou Marie Darrieussecq. É muito interessante.
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A mulher que virou leitoa
Por Maria Ignez Mena Barreto
A história de uma vendedora de perfumes que se transforma em leitoa é o grande acontecimento literário do ano na França. “Truismes” (Truísmos) é o primeiro romance de Marie Darrieussecq, 27, nascida em Bayonne, País Basco, ex-aluna de uma das instituições acadêmicas mais prestigiosas da França, a École Normale Supérieure, e professora da Universidade de Lille.
Com 204 mil exemplares vendidos na França, “Truismes” seduz o meio editorial internacional: os direitos já foram vendidos para os Estados Unidos (New Press), Alemanha (Hanser), Itália (Guanda), entre outros. No Brasil, será lançado no próximo mês pela Companhia das Letras.
Para coroar o êxito, o diretor Jean-Luc Godard já adquiriu os direitos de adaptação para o cinema e deve escrever o roteiro a quatro mãos com a jovem autora.
Com um título que brinca com a consonância de “true” (verdade, em inglês) e “truie” (leitoa, em francês), “Truismes” conta a história de uma vendedora que, para enriquecer seu patrão, dá aos clientes um tratamento especial em discretas cabines clandestinas. Sob o efeito dos cosméticos que ela recebe em agradecimento a cada balanço, seu corpo começa a sofrer uma lenta modificação: ela percebe seu peso aumentar, sua carne se tornar firme e rosa, seus pêlos endurecerem. A carreira de vendedora-modelo degringola com o surgimento de sintomas menos compatíveis com o comércio sexual: comportamentos alimentares estranhos, atitudes corporais tão inconvenientes quanto um cio suíno incontrolável e caprichoso. Oscilando entre sua aparência suína e humana, a heroína passa por guerras, epidemias, vai parar em um asilo de loucos e dali escapa para se meter num imbroglio de políticos fascistas.
Para falar sobre o romance e o trabalho de adaptação para o cinema, no qual trabalha com Godard, Darrieussecq recebeu a Folha em seu apartamento em Paris.
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Folha – “Truismes” é seu primeiro romance publicado, mas não o primeiro que você escreve…
Marie Darrieussecq – Eu escrevo desde os seis anos, sempre escrevi histórias. Aos seis anos, evidentemente, eu escrevia contos, coisas assim. Com 15, comecei a querer fazer coisas mais elaboradas. “Truismes” é o sexto romance que termino, no qual eu pus um ponto final. Os outros são exercícios, não estão suficientemente maduros para a publicação. “Truismes” é o primeiro que atinge este nível.
Folha – Mas você já recebeu um prêmio literário…
Darrieussecq – Sim, um prêmio por uma novela, quando eu tinha 19 anos, o Prix du Jeune Écrivain (Prêmio do Jovem Escritor). Este prêmio me deu uma certa legitimidade, foi a partir daí que eu comecei a dizer que eu escrevia. Antes, eu não ousava, acho extremamente pretensioso escrever.
Folha – E um belo dia você enviou um manuscrito a um editor…
Darrieussecq – Foi formidável. Fui aceita por quatro editores. Com um primeiro livro, isso acontece uma vez em mil.
Folha – E por que você escolheu a P.O.L., a editora menor e menos conhecida do grande público?
Darrieussecq – Porque, para mim, ela encarna um espírito de independência que não encontro, necessariamente, nos outros editores. O trabalho dela é muito singular, ela edita as coisas de que gosta antes de se perguntar se o livro vai ser vendido ou não. E isto me agrada. Além disto, P.O.L. era a de menor estrutura, eu logo tive um bom contato humano com as pessoas que trabalham lá.
Folha – É verdade que você escreveu “Truismes” em três semanas?
Darrieussecq – Sim, é verdade. Sempre que escrevo, acontece a mesma coisa. Eu tenho uma ideia, que me vem de não sei onde, e começo a sonhar com ela. Eu comecei a sonhar com essa história de uma mulher que se transformava em leitoa. Eu não sabia absolutamente aonde essa história ia me levar, que significado ela tinha. Sonhei com esta ideia durante três meses. Depois, vieram as greves de dezembro de 1995 na França. A confusão em que Paris se transformou não me incomodava em nada, ao contrário. Eu fiquei completamente eufórica, passeando pelas ruas, indo de manifestação em manifestação, numa atmosfera excitante, inimaginável. Logo depois das greves, me veio a voz do personagem, e, quando tenho a voz, tenho tudo, a forma do livro, o estilo. A partir do momento em que encontrei o registro dessa voz, eu me lancei. A redação propriamente dita levou, de fato, seis semanas. Mas, antes, teve esse período de pelo menos três meses de maturação.
Folha – Você não tinha, então, um projeto, uma ideia clara sobre o que ia escrever?
Darrieussecq – Sabia que ia seguir uma transformação. Que haveria uma série de sintomas que eu deveria descrever. Eu não sabia exatamente quais, eles foram surgindo à medida em que fui escrevendo. E sabia que a história terminaria em uma floresta. Era tudo o que sabia. O resto foi aventura. Eu me colocava em uma situação e me perguntava: como ela vai sair dessa? o que eu faria em seu lugar? Esse, aliás, é, para mim, o prazer de escrever. Eu morro de tédio se souber com antecedência o que vai acontecer.
Folha – “Truismes” é a história de um personagem singular ou um perfil da mulher contemporânea?
Darrieussecq – Não, “Truismes” é a história de uma mulher específica. Não cabe a mim interpretá-la, transformá-la em símbolo do que quer que seja. Eu proponho uma história, cabe ao leitor atribuir a ela um sentido. Eu recebo uma quantidade estupenda de cartas. Os leitores vêem no livro coisas que me surpreendem.
Lamentei ter chegado à última página de Alucinações Musicais, do neurologista Oliver Sacks. O título que a Companhia das Letras deu para a edição brasileira não faz jus ao original Musicophilia – Tales of music and brain, até porque as tais alucinações musicais é apenas um dos temas de um livro rico em informações, ao menos para mim.
Os primeiros capítulos tratam de coisas muito próximas. Tenho um CD Player na cabeça. Ele nunca me incomodou ou foi hostil comigo, pelo contrário; mas está sempre tocando o que bem entende. Não sei o motivo da invocação da maior parte das músicas que ouço e meus principais companheiros são provavelmente Bach, Brahms, Beethoven, Mahler, Shostakovich e Bruckner. Só que o livro inicia descrevendo situações em que a música — ou pequenos trechos de músicas — está presente de maneira tão peremptória, descontrolada e repetitiva na cabeça de algumas pessoas que torna-se doença. Sempre orgulhei-me de minha jukebox e, dia desses, perdi o pudor. Um dia, acabei contando a meu amigo Augusto Maurer, primeiro clarinetista da OSPA e professor na UFRGS, os testes que fiz com ela. Ele ficou surpreso. Disse-lhe que podia tocar em minha cabeça movimentos completos de Bruckner com noções mais ou menos claras do que cada instrumento devia estar fazendo. Algumas vezes, poucas, cronometrei o tempo de execução e cheguei muito próximo aos tempos indicados nos CDs. Tudo começou quando descobri que podia tocar o terceiro movimento do Quarteto Op. 132 de Beethoven de cabo a rabo. Ele é muito complicado e resolvi cronometrar o tempo a fim de conferir se tinha passado por tudo. O CD demorava 15min35 para interpretá-lo, eu, 16min10. Repeti a experiência e voltou a dar mais ou menos o mesmo. Segundo Sacks, não sou louco; conseguir isto não é nada anormal, viram?
Vocês sabiam que Galileu, por não dispor de relógios confiáveis, marcava o tempo de seus experimentos cantando? Ele confiava mais em seu cantar do que em outros meios para comparar tempos…
São narrados casos semelhantes ao meu, como o do sujeito que não pôs o disco de Mozart para tocar, mas o ouviu… Augusto chama isso de memória de regente; eu, com mais simplicidade, digo que vim com um CD Player pré-instalado. Raramente uma música recusa-se a sair de minha cabeça, fato que ocorre com muitos casos analisados por Sacks. Para minha sorte, sempre consigo substituí-la por outra, por mais grudenta que seja a que se retira.
Alguns capítulos do livro de Sacks ficam desinteressantes pelo excesso de informação técnica e, infelizmente, não obtive resposta à outra pergunta que gostaria de ver respondida. É fato comprovado que a cegueira faz com que desenvolvamos áreas contíguas do cérebro que nos darão, por exemplo, uma audição melhor. Mas e a cegueira para cores, ou seja, meu daltonismo? Ele tem algo a ver com minha memória musical e a capacidade de me divertir com ela? Sei lá. (Para quem estranhou a expressão “cegueira para cores”, saiba que se trata exatamente disso: o termo “daltonismo” está caindo em desuso entre os médicos. A nova expressão é “Color Blindness”. Isto é, sou cego para algumas cores.)
Mas fui longe demais, voltemos ao livro. Se a primeira parte fala nos “Perseguidos pela Música”, a segunda dedica-se a problemas como a amusia e a anedonia (embotamento e indiferença aos prazeres), a terceira invade a “Memória, o Movimento e a Música” e a quarta e mais importante analisa a “Emoção, a Identidade e a Música”.
No último capítulo há muitas e importantes referências ao Mal de Alzheimer e a todas as doenças parkinsonianas em geral. Sacks explica que aquilo que chamamos de self raramente se esvai. Pude comprovar o fato em minha mãe quando ela se encontrava na fase final da doença de Alzheimer. Quando conseguimos motivá-la a manifestar-se, é a mesma pessoa que conhecemos, apesar de ela não articular mais frases. E junto a este self tão duradouro ficam, curiosamente, as impressões musicais e a respectiva capacidade de apreciação. A maioria dos que sofrem do Mal de Parkinson param ou reduzem seus movimentos repetidos se ouvem canções ritmadas e os Alzheimer, apesar de seu embotamento, têm suas emoções tocadas pela música e isto faz com que se sintam menos sós e tenham momentos de socialização. Muito interessante o fato de que as vítimas de Alzheimer possam cantar, emocionar-se e lembrar letras de músicas facilmente, sendo que um minuto depois não lembram de mais nada, só ficando-lhes a sensação de satisfação e consolo.
A prosa escrita por poetas é sempre um perigo. Eu acho. Mas a grandeza de Sophia passa por cima das limitações e de certa indireção presente na prosa dos poetas. Este livro é composto por sete contos finalizados em 1962. São histórias que misturam duas temáticas: a repressão política empreendida por Salazar e a profunda decepção da católica Sophia com o clero adesista de seu país. Mas não pensem em contos de ressentimento e denúncia, de modo algum. São contos sutis, de bom gosto e onde estão presentes aspectos místicos que não aparecem com tanta clareza na poetiza Sophia, a mulher do mar e da erudição clássica. O Jantar do Bispo e Homero são excelentes contos. Retrato de Mônica é um tantinho raivoso, mas excelente. Mas os melhores são os que citei primeiro.
O Jantar do Bispo é uma tragédia bem conhecida nossa. O Dono da Casa — assim chamado em todo o conto — é um grande proprietário rural está incomodado por um padre que ensina justiça social a sua congregação. O Bispo — chefe do tal padre e que poderia afastá-lo da cidade com um peteleco — precisa reformar o teto da igreja. Farão a troca de favores? Já Homero é pura poesia que se perde no vento.
Todos as histórias vêm recheadas são de metáforas que escondem nas personagens muitas vezes Deus e do Diabo, o Bem e o Mal. Indico para os admiradores de Sophia.
Comecei vários livros nos últimos meses. Terminei poucos. Diagnóstico: baixo nível de concentração e falta de um livro que me fizesse saltar no carrossel novamente. Estava atrás de algo apaixonante, de algo que, uma vez abandonado, deixasse rapidamente saudade. Por vários motivos, este pequeno volume de contos de Lídia Jorge, comprado na livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa — segundo o Guiness a livraria mais antiga do mundo, em atividade desde 1732 — fez retornar minha vontade de ler.
Praça de Londres tem como subtítulo “Cinco Contos Situados”, fazendo referência ao fato de cada um dos contos narrar fatos ocorridos em diferentes cidades. Porém, se há esta distinção, a atmosfera de imprecisão e de dúvida está por todo o lugar. Os focos narrativos de Lídia Jorge são os mais originais possíveis. O conto mais longo do livro, Perfume, por exemplo, tem narração longínqua e entrecortada, combinando inteiramente com a sonhadora rarefação proposta pelo texto da autora.
O primeiro conto, Praça de Londres mostra o crescente glissando emocional de uma uma mulher que vê uma cena de rua que não tem nada a ver com sua vida e que lhe provoca ciúme e curiosidade. O diálogo imaginário com a zeladora de um prédio é o ponto alto de uma história inusual.
Rue de Rhône é uma narrativa muito íntima da culpa de uma mulher que compra uma bolsa politicamente incorreta, pois é feita da pele de jacarés da Louisiana. Não há diálogos e a vendedora não entende o triplo constrangimento da compradora.
Branca de Neve é o estupendo relato de um roubo inesperado ou concedido.
Em Viagem para Dois, Lídia Jorge leva ao máximo a originalidade do foco narrativo. É uma curiosa história contada por um homem à mulher que a escreverá mais tarde. Ele lhe conta tudo, dando instruções detalhadas sobre como ela há de fazê-lo. Em estado bruto, estão lá a ideia e algumas possíveis execuções.
Perfume baseia-se no filme Yol, de Yilmaz Guney, a quem é dedicado, tem foco narrativo hesitante — fica entre a criança que vê e a babá meio paranoica. Impossível não se apaixonar por este distante relato do fim de um casamento.
O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra. Excelente filme, com um conflito muito bem construído pelo diretor Fernando Coimbra. Dentro de um filme de grande violência psicológica, seu único equívoco foi na escolha de Leandra Leal para um dos papéis principais. Estava sentindo alguma coisa estranha e a Elena Romanov matou a charada. Ela é classuda demais para uma história passada num subúrbio do Rio de Janeiro. Não funciona como amante de um funcionário de empresa de ônibus. Mesmo com roupas de segunda mão, ela parece uma princesa disfarçada. Elena não é alguém que apenas vê objeções, também sugere soluções! Então, indica Cleo Pires ou Débora Secco para o papel. Concordo que Leandra Leal não serve para ser chamada de gata, deusa, diva, pitéu, essas coisas. Insisto nisso só para deixar PERFEITO um filme que já é BONÍSSIMO. Há três cenas antológicas: a do cafezinho xexelento, a da agressão cometida por Bernardo e a da incompreensão do delegado sobre o não envolvimento emocional entre os amantes. Claro que RECOMENDO MUITO.
The Lunchbox, de Ritesh Batra. um filme cheio de delicadeza que fala poeticamente sobre a solidão. Merece ser visto e que está lá na Eduardo Hirtz. É raro ver dois filmes tão bons em sequência. Acho que ambos — este e O Lobo Atrás da Porta — vão para lista de melhores de 2014. The Lunchbox recebeu, compreensivelmente, Prêmio do Público no Festival de Cannes de 2013. Uma tele-entrega equivocada coloca em contato uma jovem dona de casa com um desconhecido. Juntos, eles constroem uma relação baseada em bilhetes deixados nas marmitas nas quais as comidas são entregues. Utilizando temperos que misturam comédia e romance, a história tem como coadjuvante o velho, complexo e infalível sistema de entrega de marmitas de Mumbai. São os Dabbawallahs, que permitem que milhões de maridos possam saborear a comida de casa durante o expediente. Certo dia, uma dona de casa infeliz no casamento envia quitutes especiais para o marido. Quando este chega em casa, não comenta nada. No dia seguinte, ela envia um bilhete junto com a refeição e recebe outro, só que do estranho. Então, começam uma inusitada troca de conselhos. Filme encharcado em humanidade.
O Palácio Francês, de Bertrand Tavernier, é uma brilhante sátira a essas pessoas cheias de energia e irreflexão que são 80% (75%?) dos políticos. Infelizmente, são essas pessoas, normalmente dotadas de imensa capacidade de trabalho e ignorância, que mandam em todos nós. Sua cultura vem de manuais ou de citações, mudam de opinião a cada momento, apenas tratam da preservação de si mesmos e de seus auxiliares, os quais torturam em busca de mais e mais divulgação. Sim, 80% (75%?) são assim, basta ver a lista de nossos deputados estaduais. Apenas o personagem Maupas pensa — e ri — no filme de Tavernier, que tem um final brilhante (o qual retiro daqui a pedido de Elena). Um excelente filme desagradável, de ritmo alucinante. Recomendo. (E fica a pergunta: existe mesmo democracia?)
As rev(f)erências de outros grandes autores a Stevenson (1850-1894) são mais do que justas. Nabokov, Borges e James, fora alguns que se apaixonaram pela obra do escocês. O que impressiona é sua qualidade como narrador, coisa que Nabokov esmiúça ao final do volume ao analisar longamente todos os artifícios que tornam O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde a obra-prima que é. Stevenson tem uma arrebatadora capacidade narrativa que envolve não somente uma cuidadosa distribuição de spoilers — corretos ou dúbios — como dá ao leitor uma curiosa noção de espaço, o que o torna muito visual, como se escrevesse para o cinema.
O belo volume da Cosac Naify abre com O Clube do Suicídio, uma novela de quase 100 páginas que conta sobre um clube privado que apenas pode ser frequentado por quem quer morrer e ou não tem coragem de fazê-lo ou não deseja deixar sobre si ou sobre sua família a vergonha de um suicídio. E mais não digo sobre os esquemas ficcionalmente geniais do clube. O príncipe Florizel, da Boêmia, é um homem com gosto por aventuras. Ele fica sabendo da existência do clube e lá entrando convence a todos que deseja morrer. Então, tem sua morte providenciada, mas, contra toda a prudência e os conselhos de seu amigo e escudeiro, o Coronel Geraldine…
O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde é conhecidíssimo. Ao final do volume, há um texto de Vladimir Nabokov onde o russo examina os artifícios de Stevenson praticamente parágrafo a parágrafo. O médico e o monstro é um clássico de primeira linha da literatura fantástica.
Markheim é pura música de câmara, é uma pequena e rara joia. Um perdulário contumaz vai a um antiquário antes da noite de Natal, quer comprar um presente para uma mulher e ficamos por aqui. Por alguma razão, amo O demônio da garrafa, outro conto fantástico. O argumento do conto não é de Stevenson, mas de uma famosa peça teatral de sua época. Especie de Fausto matemático do qual todos desconfiam, no fundo é uma bela história de amor. A base é a história do gênio da lâmpada das 1001 Noites, só que a garrafa onde ele reside TEM DE SER vendida por um preço menor do que foi comprada da última vez. Seu dono pode pedir o que quiser ao gênio e será atendido, mas tem de vendê-la sempre por um preço menor, correto? Caso morra com ela, sua alma irá para o inferno. Bem, um dia, ela terá de ser vendida por um 1 centavo, concordam?
O ladrão de cadáveres é outro conto soberbo e terrível. Dois colegas trabalhavam na sala de dissecação de um grande médico, um certo Dr. K. Ele roubavam cadáveres para que ele os dissecassem em uma universidade. Mas descobrem que há mais do que o simples roubo. O que se passava? Uma bela história de horror, sem dúvida. O vestíbulo é a brevíssima, esplêndida muito original narrativa de um assassinato. Ela é muito, mas muito Jorge Luis Borges.
Ah, sim, Nabokov, James e Borges… Os três juntos jamais errariam. A tradução, excelente, é de Andréa Rocha.
Na escuridão, amanhã (Cosac & Naify, 125 páginas) é um livro ambicioso, que deve ficar ao lado da melhor literatura nacional dos últimos anos. É um romance que, sob uma linguagem poética, trata da vida e da morte de uma família que sai do campo para a cidade grande. A narrativa carrega uma quase insuportável verossimilhança para contar a tristemente exemplar história de uma degradação familiar. Não é daqueles romances que narram o que não são, é do gênero que diz o que é, um texto onde há um pai terrível e odiado, abusador e animal, que mantém sob seu tacão uma mulher de religiosidade simples e seus três filhos, dois meninos e uma menina. O desajuste é geral. Desajuste e pobreza no campo; desajuste, pobreza e repetição de padrões de comportamento na cidade. Seu texto é luxuoso e sufocante.
O livro de Pereira tem seu parentesco mais próximo com Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, mas o clima — atenção, eu escrevi “o clima” — parece mais o de Os Desgarrados, de John Huston. A narrativa está estabelecida em dois planos: o primeiro são cartas enviadas ao pai pelos filhos. A maioria delas é de um dos filhos homens que está numa guerra, presumivelmente expatriado, que reflete com enorme ressentimento o passado familiar. O outro plano é direto, apesar de caminhar no tempo. Mas há outros flashes. Quem cala é o pai, o qual mantém o silêncio de um deus impiedoso do velho testamento. A mãe, personagem tão fundamental quanto o pai, também aparece pouco, embotada que fica pela religião e incompreensão. Há também a pequena e mirrada filha, ainda mais vítima.
A história é irremediável como alguns filmes de Bergman e romances de Faulkner, mas vou me negar a avançar nos spoilers.
Rogério Pereira é o criador e editor do jornal literário mensal Rascunho o qual existe desde o ano 2000. Está no número 165, algo inédito para os efêmeros padrões nacionais. O romance Na escuridão, amanhã é seu primeiro livro de ficção. E vale muito a leitura.
O desassombrado e talentoso Rodolfo Walsh foi um jornalista, escritor e tradutor argentino que certamente concordava com a fraqueza da maioria dos autores dos dias de hoje, ao ignorarem a política e a realidade para cuidar apenas da construção de obras via de regra ignoradas pelo público. Exagerou ao pegar em armas? Ora, eram outros tempos.
Autor de contos clássicos da literatura argentina da segunda metade do século XX, época na qual não é nada simples entrar em antologias, também escreveu notáveis livros de reportagem como o célebre (na América Laitina, não entre nós) Operação Massacre, sobre o fuzilamento de civis em José León Suárez de junho de 1956 e sobre os assassinato de Rosendo García (“¿Quién mató a Rosendo?“).
O livro de Iuri Müller apresenta este autor fundamental num pequeno volume que não é chamado de Estilhaços por acaso. Trata-se de uma série de relatos e entrevistas com amigos de Walsh agrupadas em forma de mosaico, de modo a aproximar-se, cuidadosa e literariamente, de um personagem muito complexo e insatisfeito. As rajadas de cada capítulo mostram um homem insatisfeito. Insatisfeito com os cubanos que abraçara após a Revolução, com a imprensa, com seu grupo Montoneros, com sua vida, com os milicos que tomaram o poder em 1976 e o mataram após receberam uma carta aberta que era linda, franca, que tocava nos pontos certos, mas que também era uma espécie de suicídio, pois não era crível que o deixassem viver após aquele texto — o qual está completo no livro de Iuri. Como contista — e ele era ficcionista de primeira linha –, Walsh também necessitava das doses de verossimilhança e de verdade que o mataram.
O tom cronístico e melancólico do livro, tocado como se fosse uma música de funeral ou lamento de morte, é perfeito para caracterizar um autor que desejava falar de forma realista e poética ao povo, isto é, que desejava uma linguagem que não fosse entendida apenas pela burguesia letrada.
A editora cartonera Maria Papelão fez muito bem em pescar o excelente texto de Iuri do anonimato de um trabalho para a faculdade de jornalismo da UFSM. Mas ATENÇÃO: o texto não guarda ranço acadêmico. Não há grande preocupação com a objetividade, não é destituído de humor e nem traz a fragrância de suor dos rodapés. É leitura prazerosa e, como disse Shakespeare, onde não há prazer não há proveito.
Esta novela ficou muito famosa pelo fato de Shostakovich tê-la adaptado para a ópera. A versão musical — espetacular, chamada apenas de Lady Macbeth de Mtzensk — foi proibida por Stalin, juntando escândalo a escândalo. Sim, porque a novela é espalhafatosa, um verdadeiro paroxismo de maldade, bem no estilo do modelo shakespeareano tomado por Leskov. Não há nenhuma hesitação, nenhuma incerteza, nenhum retroceder na mulher. Ela é ainda menos reflexiva do que a Lady Macbeth de Shakespeare.
E é neste ponto que vejo seu único problema. São noventa páginas divididas em quinze capítulos que cobrem a violenta vida amorosa de Catierina Lvovna, nossa Lady Macbeth. Em cada um deles, há um clímax onde algo de hediondo é tramado ou realizado. Isto dá ao livro um ar mais de roteiro do que de novela. Tudo ocorre sem muita preparação e Shostakovich, ao lê-la, deve ter pensado: “Nossa, mas isso é um libreto de ópera pronto!”. É mesmo. Porém, não pensem que Leskov fez isso por inabilidade. Foi uma opção tomada por um autor sofisticado. Do tipo desta vez vou ser tosco, tá?
Não obstante os quinze clímax sem preliminares, a história é excelente e é impossível largá-la antes do final, tal o impressionismo solar de cada uma delas. As cenas que apavoraram Stalin — que chamou a ópera de “pornofonia” antes de censurá-la, colocando Shostakovich em temporária desgraça –, estão todas no livro, plenas de desejo e ódio. Deixo de lado meu incondicional ateísmo para pedir aos céus nunca cruzar com uma Catierina Lvovna, Deus me livre delas! O próprio Leskov considerava a história perturbadora e dizia ter medo dela. Esqueça. Vale a pena ler essa história tosca do nada tosco Leskov.
Na capa do livro está escrito policial, mas isto é muito enganador. As Duas Águas do Mar não pertence de claramente a nenhum gênero literário, não se trata de forma alguma de um exemplar típico de romance policial. Sim, OK, é um whodunit, porém, antes disso, é um romance prazeroso de ser lido, descansado e hedonista, com dois policiais meio confusos que procuram de forma pachorrenta ligar dois assassinatos ocorridos a longa distância. (Pretendemos ir até o final sem spoilers, certo?). Os homens da lei, Jaime Ramos e Filipe Castanheira, são gourmets sempre dispostos a discorrer de forma original e interessante não somente sobre os crimes, mas também sobre as delícias da mesa, da vida e sobre suas paixões. Os charutos, os vinhos, as receitas e o amor fazem parte da trama tanto quanto os assassinatos, diria até que há mais molho do que sangue no livro. A vida pessoal dos detetives ocupa mais páginas do que a dos envolvidos nos crimes que investigam. Por outro lado, As duas águas do mar é uma história muito bem contada de uma desilusão amorosa ligada à mortes. Aliás, também os detetives têm vida amorosa em descompasso: Jaime Ramos namora Rosa, que reside no andar de cima e que não parece compartilhar muito de seus prazeres. Para piorar, ela o manda dormir em casa, pois ele ronca. Filipe, tem — ou teve — Isabel.
Ou seja, temos um romance policial sem correrias, perseguições, onde quase não há tiros, somente o(s) necessário(s) cadáver(es), a gastronomia, as viagens e uma tremenda indefinição. Poética, a narrativa caminha lentamente pelas 382 páginas do volume da Record. Estranha, a trama usa elementos nada usuais para justificar as mortes de Rui Pedro Martim da Luz e de Rita Calado Gomes. Minucioso, o romance leva embutidas a cena inesquecível do jantar preparado por Filipe para Isabel e as descrições de Finisterra, localidade considerada erradamente por anos o ponto mais ocidental da Espanha e, antes de Colombo, o ponto extremo do mundo conhecido. E várias coisas encontram lá seu fim.
Vale a pena ler este romance de Francisco José Viegas.
Como se imaginaria, a ação de Sábado ocorre em um sábado, mas não num sábado rotineiro. Henry Perowne inicia seu dia insone, andando pela casa de madrugada quando vê pela janela um estranho corpo em chamas rasgar o céu de Londres. Perowne é um neurocirurgião, um homem de ciência que desconfia das pretensões literárias da filha, assim como do filho músico. Vive com a mulher Rosalind, advogada, em uma confortável casa.
Se o dia iniciara diferente — depois ele receberia notícias tranquilizadoras sobre o objeto voador em chamas –, havia um programa tranquilo a cumprir: uma grande manifestação em Londres contra a invasão do Iraque — a qual ele não iria por ser contra Saddam –, um jogo de squash contra um colega de hospital, compras para o jantar, um ensaio de seu filho músico e o próprio jantar, onde a família receberia o pai de Rosalind, um poeta que vive na França, e a filha Daisy, que estava lançando seu primeiro livro. Mas há fatos que atrapalham seus planos e que não contarei aqui.
A rotina e as motivações de Perowne são dissecadas minuciosamente na lenta e eficiente narrativa de McEwan. Porém, seu mundo baseado em pressupostos científicos mostra-se frágil em diversos pontos, principalmente na violenta discussão com a filha sobre a Guerra do Iraque e nas ruas, onde nosso homem cai inadvertidamente numa bela confusão.
Vou ser vago sobre a história narrada, pois certamente estragaria este excelente livro de pequena e exemplar trama contemporânea. Mas digo que gosto de narrativas lentas, detalhistas e simétricas, e também dos acasos e viradas surpreendentes. Por isso, Sábado me agradou me cheio.
Não entendi porque o volume da Rocco não traz o nome completo da excelente novela de Horacio Castellanos Moya, El Asco — Thomas Bernhard en San Salvador, nem ao mesmo O Asco, mas apenas Asco (Ed. Rocco, 111 páginas). Porém, deixando de lado as opções editoriais, a curiosa novela de Moya merece leitura atenta.
Curiosa por ser uma clara imitação de Thomas Bernhard — em estilo, estrutura e temática –, curiosa por Moya confessar isto no título, curiosa por ele ter repassado todo o ódio de Bernhard, aos austríacos em geral e aos habitantes de Salzburgo em especial, para um local do terceiro mundo, a cidade de San Salvador, capital de El Salvador.
Para quem não conhece Bernhard é bom explicar: seus livros são escritos em longos parágrafos — normalmente apenas um –, suas longas frases são fáceis de ler em razão das repetições e variações cuidadosamente realizadas e nelas o escritor destila ódio por páginas e páginas, chegando a tal paroxismo e descontrole que às vezes torna-se engraçado. Também não recua frente ao politicamente incorreto.
Moya foca seu relato no salvadorenho naturalizado canadense Vega, um acadêmico que retorna ao país para o enterro da mãe. Enquanto aguarda os papéis do inventário, Vega descreve suas impressões sobre o país e seus parentes, odiando tudo minuciosamente, mas minuciosamente MESMO. A invenção de Bernhard, aqui tropicalizada, funciona perfeitamente, tanto que o autor sofreu ameaças e preferiu passar bom tempo fora do país. Livrinho fascinante com ótima tradução de Antônio Xerxenesky.
Excelente e boêmio livro do grande Hobsbawm, falecido em 2012. Trata-se de 22 ensaios curtos sobre a cultura, a política e a sociedade do século XX. Muitos deles originaram-se de conferências ministradas pelo veterano Hobs – nascido em 1917 – para os mais diversos eventos. Cada um deles poderia ser expandido para formar um volume separado. Há desde análise sobre o papel do caubói na cultura americana e considerações sobre a moda até considerações fundamentais sobre a boliolice (palavra minha) do intelectual público moderno, sobre os guetos onde a grande música e grande literatura foram se esconder e sobre a situação das religiões no mundo. No último caso, as religiões são tratadas como devem ser: como forças políticas.
É difícil escrever uma resenha sobre um livro que trata de 22 temas, mesmo que estes estejam agrupados em 5 seções. Melhor citar o brilhantismo da prosa e das argumentações do mestre. Então, coloco abaixo os títulos de cada um dos ensaios a fim de que cada membro de meu septeto ledor possa avaliar o potencial de interesse que teria Tempos Fraturados (Cia. das Letras, 358 pág, tradução de Berilo Vargas). Depois, como test drive, coloco um trecho de A perspectiva da religião pública. Pura isca para o debate.
Eu simplesmente adorei Tabu (Portugal, 2012). O filme se passa no sope do fictício Monte Tabu. Minha companhia acrescentou que é um monte e é um tabu, e eu acrescento que Tabu também é uma homenagem à obra de Murnau de 1931 e o 28 de dezembro, primeira data que aparece no filme, é o dia da fundação do próprio cinema pelos irmãos Lumière. Mas essas referências — propositais ou não — ficam opacas frente à qualidade da narrativa e do tema.
Aurora e Santa no Paraíso Perdido
Tabu é, aparentemente, uma história de amor. Um ou dois pensamentos depois já é um filme sobre as coisas que, sob a passagem do tempo, passam a existir como memória, como quase ficção. Dividido em três partes (uma curta introdução, Paraíso Perdido e Paraíso, em ordem cronológica inversa), Tabu joga informações nas duas primeiras partes e as explica na terceira, uma curiosa e longa seção onde nenhum personagem é ouvido. Há apenas o som ambiente e a narração, em off, do próprio diretor Gomes. As pessoas falam umas com as outras, mas não as ouvimos. Com este efeito simples, ele obtém uma mistura de fantasmagoria e realidade, criadas sobre ruídos e excelente música. Não, não pensem que é uma obra experimental. É um filme de sabor clássico, mas que utiliza brilhantes artifícios. Miguel Gomes explica que, na terceira parte, o Paraíso a que me refiro, atirou fora o roteiro e os atores não sabiam o que iam fazer. “Como tudo na vida, corremos o risco de nos vermos frustrados. Improvisamos muito. Como a vida, o cinema é um jogo”.
Não vou dar spoilers, tá? Pilar é vizinha de Aurora, uma anciã demenciada que vive sob os cuidados da uma empregada cabo-verdiana chamada de Santa. A filha de Aurora não quer saber da mãe e paga para ficar longe dela, enquanto a velha reclama de Santa e busca auxílio em Pilar. Então Aurora morre para que o filme receba um de seus amigos, aquele que vai narrar para Pilar a aventura de sua amiga na África de pouco antes do início da Guerra Colonial Portuguesa. E então tudo ganha sentido através de imagens.
A fotografia em preto e branco, no formato do cinema mudo, registrada em película da extinta Kodak, mostra os últimos dias de um período da história portuguesa e moçambicana. É extinção por todo lado. Como o Tabu de Murnau todos parecem assombrados por uma cultura que é incompreensível para o Ocidente, apesar de manterem-se cantando seus rocks, procurando ignorar a realidade.
Mas o mais importante de Tabu não é a nesga de painel africano que ele mostra, é a lenta reconstrução de um sonho (ou de um paraíso) para o qual não há ponte de acesso, a não ser algumas imagens na memória. Como último destaque desta resenha nada planejada, sublinho a alta qualidade poética do texto narrado em off em Paraíso.
Comprei o romance A Vida Financeira dos Poetas (Benvirá, 352 páginas) em razão do bom título. Bem, foi uma tentativa… A história sem spoilers: Matt larga seu emprego no minguante jornalismo impresso norte-americano para investir num negócio próprio na internet: um portal de notícias econômicas escritas em forma de poesia. Não dá nada certo, claro. Agora, desempregado, sem grana, corre o risco de perder a casa e a mulher, cada vez mais irritada com as dificuldades financeiras em casa e interessada em flertar com um ex-namorado.
O livro tem inegáveis bons momentos, como nos trechos em que Matt procura entrar no negócio das drogas, mas sua trama acaba esbarrando em atitudes que adocicam a situação final. É como se o autor Jess Walter estivesse dando uma volta para tornar seu livro palatável para o cinema dos EUA.
A escolha da linguagem é perfeita e podemos dar boas risadas com o livro, mas Walter acaba por destruir os bem armados conflitos do livro através do uso de soluções convencionais. Uma pena.