Quem roubou nosso tempo de leitura?

Quem roubou nosso tempo de leitura?
Cena de Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino, 2009
Cena de Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino, 2009

O tempo para leitura parece cada vez mais comprimido e isto não é uma perda apenas para a literatura.

Um súbito interesse renovado por Tolstói, causado pelo filme sobre seus últimos dias, A Última Estação, fez-me lembrar que há um ano atrás eu tinha prometido a mim mesmo reler Guerra e Paz. Fazia algum tempo que eu não enfrentava um romance de grandes proporções ou, para ser mais exato, qualquer coisa publicada antes do século XX. A releitura de Guerra e Paz iria me tranquilizar: minha resistência física e disponibilidade estavam intactas. Fui até a estante e descobri a página em que deixei o marcador —  ele estava na página 55 e eu sequer podia utilizar a desculpa de ter crianças pequenas.

O fato em si não teria me assustado — afinal, é Guerra e Paz — se não fosse a existência de outros marcadores abandonados em outros livros. Eu não estava terminando nenhum deles? Como é que eu, que adorava ficção o suficiente para estudá-la, ensiná-la e escrever a repeito, me tornara tão distraído?

Cena de Persona, de Ingmar Bergman, 1966
Cena de Persona, de Ingmar Bergman, 1966

O mundo dos meus tempos de estudante era fundamentalmente diferente do atual. Foi apenas no final da minha graduação que um amigo me mostrou uma maravilha chamada internet (Ele: “Há sites sobre qualquer assunto, tudo pode ser encontrado!”. Eu: “O que é um site?”). Nos anos 90, havia somente quatro canais de televisão. Cada família tinha um telefone, cujo uso era consecutivo. Poucos tinham jogos eletrônicos. Então, era muito mais fácil retirar-se completamente do mundo para a grande arquitetura do romance. Agora, o leitor está sob o ataque de centenas de canais de televisão, cinema 3D, há um negócio de jogos de computador tão florescente que faz com que Hollywood os imite em seus filmes, há os iPhones, o Wifi, o YouTube, há notícias 24h, uma cultura tola da celebridade — verdadeiras ou falsas (vide BBB) — , acesso instantâneo a toda e qualquer música já registrada, temos o esporte onipresente, há caixas de DVDs com tudo o que gostamos. Os momentos de lazer que já eram preciosos foram engolidos pela lista anterior e também e-mails, torpedos, WhatsApp e Facebook. Quase todos as pessoas com quem eu falo dizem amar os livros, mas que simplesmente não encontram mais tempo para lê-los. Bem, eles CERTAMENTE têm tempo, só que não conseguem gastá-lo de forma diferente.

Isto tem consequências desastrosas para nossa inteligência coletiva. Estamos sitiados pela indústria de entretenimento, a qual nos estimula apenas em determinadas direções. O sedução é sonora, visual e tátil. A concentração na palavra impressa, na profundidade de um argumento ou de uma narrativa ficcional, exige uma postura que os dependentes dos meios visuais não têm condições de atender. Seus cérebros não se fixam na leitura ou, se leem, fazem-no rapidamente para voltar logo ao plin-plin. Ora, isso é um roubo de um espaço de pensamento que deveria ser recuperado.

Alphaville, de Godard, 1965
Alphaville, de Godard, 1965

Obviamente, os meios de comunicação como a Internet nos oferecem enormes benefícios (você não estaria lendo isto de outra forma), mas nos empurram facilmente para coisas bem superficiais que roubam nosso tempo. Você viu Avatar? Você viu o que eles podem fazer agora? Podem me chamar de melodramático, mas estou começando a me sentir como protagonista de alguma distopia (ou antiutopia) do gênero de 1984 ou Fahrenheit 451, tendo meus pensamentos apagados e, pior, gostando disso.

A Cultura mudou rapidamente nesta década. A leitura está sob ameaça como nunca antes. “Escrever e ler é uma forma de liberdade pessoal”, disse Don DeLillo em uma carta a Jonathan Franzen, que o questionara muito tempo antes da chegada da Internet. “A literatura nos liberta dos pensamentos comuns, de possuir a mesma identidade das pessoas que vemos em torno de nós. Nós, escritores, fundamentalmente, não escrevemos para sermos heróis de alguma subcultura, mas principalmente para nos salvar, para sobrevivermos como indivíduos.” Exatamente a mesma afirmação, penso eu, descreve a condição dos leitores sérios.

Deem-me o meu Tolstói. Agora é guerra.

Traduzido mui veloz e livremente por mim. O original de Alan Bissett está aqui.

Imagens retiradas — à exceção da última — do maravilhoso blog O Silêncio dos Livros

de-o-silencio-dos-livros-peter-turnley-monsieur-bernard-laine-1999

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Pequena viagem virtual à cidade onde Elena nasceu

Pequena viagem virtual à cidade onde Elena nasceu

De vez em quando, eu viajo pela cidade onde Elena nasceu. Hoje, ela quase só tem amigos na cidade. Sua família emigrou depois do fim da URSS, quando a vida ficou ainda mais difícil. Esta é a praça central de Moguilióv, na Bielorrússia, cidade de 360 mil habitantes. Ao fundo, o rio Dnieper.

Mogilev_2007_7Este é o mosteiro de São Nicolau.

mosteiro de São NicolauE este, à esquerda, é um Clube de Cultura. Estes Clubes eram a casa da Elena e de muitos jovens. Cada instituição ou fábrica tinha um Clube de Cultura onde os funcionários e jovens — seus filhos ou não — se reuniam, dançavam, cantavam, liam, faziam teatro, etc., tudo gratuito. Ela tocou lá. À direita, a Ratusha, local mais alto da cidade velha. É do século XVI. Antes era de madeira e incendiou. No século XVII, fizeram-na de pedra e segue-se uma longa história.

mogilev RatushaOs fundos do Teatro Dramático de Moguilióv. Aqui, só peças de teatro, nada de música.

Mogilev Drama TheatreO mesmo teatro, agora de frente.

Mogilev Drama Theatre frenteA estação de trem.

estação de trem MogilevOutra da estação de trem.

Outra da estação de tremSua escola de primeiro grau.

escola MogilevSua escola de segundo grau já traz um violino.

escola segundo grauOutra parte do colégio do segundo grau.

escola segundo grau outra parteMuseu de nome impronunciável. Ela também deu concertos lá e disse que, mais de um século antes, Pushkin tomou a maior bebedeira no local.

Museu MogilevO estádio do Spartak.

estádio do SpartakO Monumento aos Mortos da 2ª Guerra.

Monumento aos mortos da 2ª GuerraIgreja de Boris e Gleb. Ela não entrava lá porque era soviética! Depois entrou. Intacta, a igreja sobreviveu à guerra.

Igreja de Boris e GlebEsta é a Elena (aos 13 anos, à direita) no dia da inauguração da praça que encabeça este post.

elena 13 anosA catedral. Na época soviética era um clube.

catedral Mogilev

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Ascoli Piceno, em 1529, já conhecia bem nosso mundo…

Ascoli Piceno, em 1529, já conhecia bem nosso mundo…

PicenoQuem pode, não quer
Quem quer, não pode
Quem sabe, não faz
Quem faz, não sabe
E assim o mundo
Vai mal

Ascoli Piceno 1529

(Ascoli Piceno é uma cidade medieval que fica na região Marche, próximo ao Adriático).

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O beijo na boca é universal?

O beijo na boca é universal?

Romeu – Em tua boca me limpo dos pecados. (Beija-a.)
Julieta – Que passaram, assim, para meus lábios.
Romeu – Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
Julieta – Beijais tal qual os sábios.

WILLIAM SHAKESPEARE — Romeu e Julieta, ato I, cena V.

beijo na boca

Estudo prova que o beijo na boca é usado em menos de metade das sociedades humanas.

A sugestão de que o beijo no lábios era uma fonte de prazer universal para os humanos era recorrente. Afinal de contas, os chimpanzés e os bonobos fazem-no, e até abrem a boca e usam a língua. Mas não é verdade. Um estudo de William Jankowiak e Justin R. Garcia, publicado em julho de 2015, mostra que esse gesto apenas se encontra em menos de metade (46%) das 168 culturas estudadas pelos autores. Pelo contrário, outros tipos de beijos são usados por 90% das populações.

Parece haver alguns padrões para esta diferença. Por exemplo, em sociedades com diferentes classes sociais o beijo na boca costuma ser usado, mas em sociedades, como de caçadores, com pouca ou nenhuma estratificação social, não é comum. Isso demonstra que o beijo nos lábios é uma forma de demonstração de carinho muito culturalmente variável.

Por outro lado, como as tribos de caçadores costumam ser usadas como espelho das sociedades passadas, parece ser razoável, defendem os autores, que o beijo “romântico” tenha surgido numa altura relativamente recente da história humana. Uma exceção a esta conclusão dos autores do estudo é que em nove das onze comunidades do Círculo Polar Ártico as pessoas beijam-se.

A origem, ou origens, evolutivas dos beijos são desconhecidas. Os autores falam tanto em teste de saúde de potenciais parceiros através do paladar ou, simplesmente, para testar o interesse romântico e compatibilidade sexual entre potenciais parceiros.

A referência mais antiga a um beijo na boca é numa escritura em sânscrito com 3.500 anos chamada Vedas. Jankowiak e Garcia descrevem, num artigo no portal Sapiens, que quando as tribos Thonga da África do Sul ou os Mehinku na Amazônia viram pela primeira vez dois europeus beijando-se, reagiram com repugnância perante comportamento tão nojento.

via

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Meu herói Dmitri Shostakovich

Meu herói Dmitri Shostakovich

Shostakovich Stalin

Por Julian Barnes, no The Guardian
Tradução e traições por Milton Ribeiro

Meu herói era um covarde. Ou melhor, muitas vezes considerava-se um covarde. Ou melhor, foi colocado numa posição em que não era possível não ser covarde. Você ou eu teríamos sido covardes em sua posição, pois ser o oposto de um covarde — um herói — seria tolo. Aqueles que se levantaram contra o poder naqueles dias foram mortos e os membros da sua família, amigos e associados foram desonrados, enviados para campos ou executados. Então, ser um covarde era uma escolha sensata.

Ele era Dmitri Dmitrievich Shostakovich, que, mais do que qualquer outro compositor em toda a história da música, sentiu a pressão diária do poder. Ele escreveu sua Primeira Sinfonia em 1926 com a idade de 19; foi um sucesso em todo o mundo; três anos depois, a pessoa a quem a obra era dedicada foi presa e fuzilada. Muita gente morreu. Qualquer um que parecesse remotamente suspeito aos olhos paranoicos de Stálin.

A música de Shostakovich tem estado comigo durante meio século. Hoje, aparecem finalmente suas opiniões, testemunhos e até obras musicais ridicularizando os líderes e a burocracia soviéticas. Ele sofreu muito e passou seus últimos anos de vida desejando a própria morte. Compôs músicas de encomenda, todas de baixa qualidade, deixando o poder divulgar, orgulhoso, verdadeiras porcarias. Tikhon Khrennikov, um puxa-saco do Partido que trabalhava na União dos Compositores, alegou — absurdamente — que o compositor era “um homem alegre, que não tinha nada a temer”. Mas, como diz um ditado russo, o lobo não pode falar do medo das ovelhas. Shostakovich foi muitas vezes ameaçado e tornou-se cauteloso e desconfiado. Foi censuradíssimo e seguiu trabalhando até onde sua saúde permitiu. Realizou alguns desafios calculados que demonstraram sua ojeriza a Stalin. Conversou algumas vezes com ele, enquanto o mesmo Khrennikov literalmente borrou-se nas calças na presença do ditador.

Shostakovich se manteve firme, pagou a César o que lhe era devido — e César era muito exigente naqueles dias –, protegeu a sua família, esperou por dias melhores e desesperou-se enquanto produzia uma obra verdadeiramente sofrida e brilhante. Há mais formas de heroísmo do que as óbvias.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Bom dia, Argel Fucks (com os gols da façanha de ontem)

Bom dia, Argel Fucks (com os gols da façanha de ontem)

Por isso que a gente está aqui, se a gente não estivesse aqui não teria porque estar aqui.
A verdade de hoje é mentira de amanhã e a mentira de hoje é a verdade de amanhã.
ARGEL FUCKS, após o empate contra o Aimoré, ontem à tarde

Estas palavras não são apenas do técnico do Internacional, estas palavras representam o time, a tática, a estratégia e o engano do Internacional. Estamos perdendo preciosas semanas de treinamento com um técnico sem condições de levar adiante um time de primeira ou de segunda linha. Não sei o que a diretoria faz ou pensa. Ontem, Argel mudou o time em seis posições. A finalidade eram “testes”: Então, ele trocou os dois laterais, colocando Paulo César e Gefferson, os dois volantes — entraram Jair e Fabinho –, mais o zagueiro Alan Costa e o centroavante Aylon. Destes, o único que não jogou vergonhosamente foi o último.

Aylon: uma fraca chama de esperança
Aylon: uma fraca chama de esperança | Foto: Ricardo Duarte

Eu quero dizer que estou apavorado com Argel. Aliás, já disse isso nas rodadas finais do Brasileiro do ano passado. Lembram que eu o “demiti”? Não adiantará reforçar o time se o arcabouço preparado para os novos jogadores estiver podre.

Bem, o jogo de ontem. O Aimoré faz parte do quarteto favorito para o rebaixamento juntamente com Passo Fundo, Cruzeiro e Veranópolis. Eles disputarão as três vagas. É um time fraco, mas jogou mais do que o Inter. Teve mais chances e, se não fosse Allison, teria virado o jogo. Paulo Cesar Magalhães, Alan Costa, Réver e Anderson são confirmações e deveriam receber imediatamente suas passagens para a Sibéria. Suas baixíssimas qualidades aparecem muito dentro de um time onde quem joga melhor apenas não compromete. Tal a bagunça organizada por Argel.

Que venha 2017!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Em breve Londres terá mais bicicletas que carros

Em breve Londres terá mais bicicletas que carros

londres transportes cliclistasA bicicleta é uma revolução silenciosa e inevitável. Essa é a conclusão de um relatório do Transport for London (TfL), que indica que, em breve, o número de ciclistas será maior do que o de motoristas de carros na cidade inglesa.

De acordo com o estudo, o número de veículos particulares no centro da cidade caiu para metade, de 137 mil para 64 mil por dia na última década. Ao mesmo tempo, a quantidade de ciclistas mais que duplicou no mesmo período, de 12 mil e para 36 mil na região central. Além disso, quando levamos em conta os números da cidade inteira, houve um crescimento de 40 mil ciclistas em 1990 para 180 mil em 2014.

Isso aconteceu devido à implementação de pedágios para quem entra nas regiões centrais da cidade de carro. Não esqueçamos de que o sistema de transporte da capital inglesa é eficiente, rápido e confortável, o que faz com que muitos londrinos nem pensem em comprara carro. Além do maior número de bicicletas, também foi verificado um aumento expressivo na quantidade de pessoas que andam a pé e utilizando os transportes públicos, uma mudança sem precedentes quando falamos de grandes cidades. Para fomentar esta tendência, Londres está a investir em diversas ações para facilitar a vida do ciclista, como a construção de ciclovias e a remodelação de ruas, favorecendo o uso da bicicleta. Com isso, esperam obter melhorias não só nos índices de engarrafamentos, mas também na qualidade do ar e no bem estar da população local.

Adaptado do esquerda.net

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Bom dia, Argel Fucks (com os gols de Inter 2 x 1 Passo Fundo)

Bom dia, Argel Fucks (com os gols de Inter 2 x 1 Passo Fundo)
Argel Fucks fazendo cara de "Eu não vendi ninguém!".
Argel Fucks fazendo cara de “Eu não vendi ninguém!”.

Os três patetas, versão 2016. Se abstrairmos a influência dos atos de cada um, tenho dúvidas sobre quem é mais inadequado para o cargo: se Sartori como governador, se Lasier como senador ou se Argel como técnico de futebol. Mas talvez os mais estúpidos mesmo sejam o povo gaúcho e os sócios colorados, que elegeram os dois primeiros e o presidente Piffero, o qual escolheu Argel como “técnico”.

O jogo de ontem foi constrangedor. Tivemos extremas dificuldades contra o mau time do Passo Fundo, que veio apenas bem organizado pelo técnico Paulo Porto. Os três articuladores, Alex, Marquinhos e Sasha, estiveram lentos e perdidos, Vitinho abandonado, William foi o doido varrido de sempre. E não há como aparecer individualidades no barco furado de Argel. Não há mecânica de jogo, a coisa é lenta e atrapalhada desde a saída de bola. Até Pelé, Cruyff e Maradona — separadamente, é claro — se deprimiriam.

A vertiginosa decadência do time do seu Argélico não se deve apenas à ausência de D`Alessandro, tem a inestimável contribuição do vendedor Vitorio Piffero. O homem que vendeu 3 vezes Nilmar, e mais Fernandão, Iarley e D`Alessandro uma vez cada, livrou-se de vários problemas em 2016. Saíram Dida, D`Alessandro, Juan, Nico Freitas, Lisandro López, Rafael Moura, Leo e Wellington Martins. Só que que tal alívio na folha de pagamento do clube não recebeu nenhum contrapeso. A única contratação do clube foi a de Paulo Cezar Magalhães, que Argel nem teve coragem de fazer estrear. Se é reserva do William louquinho, imaginem como joga.

Esperava que, se a folha foi aliviada em quase três milhões mensais, o Inter contrataria ao menos 1,5 milhão em novos jogadores, mas a inércia pifferiana é algo de fazer inveja ao governador Sartori. Ele quer uma bela contabilidade e nada em campo. O planejamento do futebol colorado é mais ou menos como o Plano de Contigência de Fortunati para os vendavais. Não existe. Dizem que vão lançar os jovens. Sim, mas com o arcabouço atual, será o mesmo que lançá-los ao fogo. Depois, eles se tornarão outros Lucas Lima e Ricardo Goulart fora daqui. Já conheço esta história.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

400 anos da morte de Cervantes: tentando conectar os programadores de orquestras

400 cervantes logo

No mesmo mês de abril de 2016, teremos os 400 anos da morte de Miguel de Cervantes (aqui, sobre Shakespeare). Os programadores dos repertórios das orquestras poderiam se ligar. Há menos repertório cervantino do que há para o bardo, mas mesmo assim tem bastante coisa. Não se justifica as orquestras ficarem de fora das comemorações universais dos 400 anos de morte destes dois autores fundamentais.

Don Quichotte auf der Hochzeit des Camacho, de Telemann, baseado num episódio do romance
Burlesque de Don Quixote, Overture-suite in G for strings and basso continuo, de Telemann
Die Hochzeit des Camacho, de Mendelssohn, baseado no mesmo episódio que Telemann usou para sua ópera
The Comical History of Don Quixote, de Purcell
Don Quixote, balé de Ludwig Minkus
Dom Quixote, de Richard Strauss
Don Quichotte, de Jules Massenet
Don Quichotte à Dulcinée, de Maurice Ravel
El retablo de Maese Pedro, de Manuel de Falla
Quatre Chansons de Don Quichotte, de Jacques Ibert

Yo Yo Ma mandando bala no  Don Quixote de Strauss
Yo Yo Ma mandando bala no Don Quixote de Strauss

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

400 anos da morte de Shakespeare: tentando conectar os programadores de orquestras

400 anos da morte de Shakespeare: tentando conectar os programadores de orquestras

Shakespeare 400Vamos acordar? Há muita música orquestral e óperas baseadas em peças e sonetos de William Shakespeare, cujos 400 anos de morte são lembrados neste ano de 2016. A maioria das orquestras brasileiras, mesmo tendo toda a informação disponível, ignorou a data, preferindo fazer muito barulho por nada. Já está mais do que na hora de certos diretores artísticos conhecerem Lady Macbeth.

Aqui vão alguns exemplos de repertório que pode ser utilizado para homenagear o velho Shake. Afinal, os compositores cansaram de se inspirar nele.

Romeu e Julieta, de Tchaikovsky
Romeu e Julieta, de Prokofiev
Otelo, de Dvorák
Macbeth, de Richard Strauss
Let me tell you, para soprano e orquestra, inspirado na personagem Ofélia (Hamlet), de Hans Abrahamsen
Oitava Sinfonia, de Hans Werner Henze baseada em Sonho de uma noite de Verão
Sonetos, de George Tsontakis
Hamlet, de Shostakovich
Sonho de uma Noite de Verão, de Mendelssohn
The Fairy Queen, de Purcell, baseada em Sonho de uma Noite de Verão
Sonho de uma Noite de Verão, de Benjamin Britten
Beatrice and Benedict, baseada em Muito Barulho por Nada, de Benjamin Britten
Falstaff, de Elgar
Hamlet, de Tchaikovsky
A Tempestade, de Tchaikovsky

Sonho de uma Noite de Verão, de Benjamin Britten
Montagem de Sonho de uma Noite de Verão, de Benjamin Britten

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Um texto sobre tributação viraliza em pleno Carnaval

Um texto sobre tributação viraliza em pleno Carnaval

Por Rogério Godinho, texto retirado de seu perfil do Facebook

imposto

A carga tributária do Brasil é de 34,4%.

O que isso quer dizer?
Nada.
A do Chade é 4,2%, de Angola 5,7% e Bangladesh 8,5%.
A do Reino Unido é 39%, da Áustria 43,4% e da Suécia 47,9%.

Alguém pode vir com alguns poucos exemplos de países que pagam menos do que nós e estão melhor, mas isso também não quer dizer NADA.

O problema real tem muito mais a ver com a forma como é cobrado. Como já escrevi em vários textos, o Brasil cobra
– muito no consumo e
– pouco na renda.

Isso na média. Porque mesmo na renda se cobra
– pouco de quem está em cima
– muito de quem está embaixo.

Resultado:
– A galera de baixo é a que mais sente,
– A galera do meio é a que mais paga,
– A galera de cima não sente e (quase) não paga.

Como assim?
Se você ganha até R$ 1900, como 66% dos brasileiros, não paga imposto de renda. Mas todo o seu dinheiro vai para a subsistência, que é taxada. Absurdamente taxada.
Sobra nada.
E ainda usa um serviço público ruim.

Se você ganha entre R$ 2000 e R$ 6800, como 25% dos brasileiros, pode pagar até 27,5%. E também gasta muito para sobreviver, então paga alto.
Sobra pouco.
E não quer usar o serviço público ruim, então sobra menos ainda.

Bom mesmo é quem ganha muito.
Mas muito, aquele 1% de cima, sabe?
Esse reclama porque a empresa dele é taxada, mas embute isso no preço dos produtos – aquele imposto que mata o resto dos brasileiros – enquanto tem sua renda isenta. Chamam de lucros e dividendos.
Sabe quantos países isentam lucros e dividendos?
Dois.
Brasil e Estônia.
Quando muito, essa galera de cima paga aquela média de 3% sobre o patrimônio, enquanto a média mundial está entre 8% e 12%.
E aí ficamos discutindo se a CPMF é boa ou ruim.
E por quê?
Porque a galera do meio compra facinho o discurso de que a carga tributária é alta.
Só que a Suécia tem 7 vezes mais dinheiro por habitante para gastar no serviço público.
Mas a galera de cima não usa serviço público.
Ela quer mesmo é pagar ainda menos imposto.

Então, vende esse discurso para a galera do meio, que passa a querer
– imposto baixo angolano e
– serviço público sueco.

É isso.
Reflita.

.oOo.

P.S. — Os negritos são do blog.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O movimento e a composição das cenas nos filmes de Kurosawa

O movimento e a composição das cenas nos filmes de Kurosawa

E eu me pergunto o que se perdeu pelo caminho para piorarmos tanto?

akira

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Como a praia nos ensinou a gostar de música sertaneja…

Como a praia nos ensinou a gostar de música sertaneja…

A Elena quer que eu conte como a praia nos ensinou a gostar de música sertaneja. Foi um fenômeno súbito. Nós frequentemente íamos a uma pastelaria na Rua Rio Tapajós, a principal de Zimbros.

Acontece que bem na frente da pastelaria havia uma igreja cfe. foto abaixo. A cantora da igreja pegava o microfone e cantava, puxando a pequena congregação. Olha, só estando muito necessitado para aguentar aquilo. A pobre moça berrava, alcançando muito raramente a nota procurada. Para que seus erros não ficassem plasmados, ela procurava demonstrar “pegada”. É um vício de maus músicos e cantores. Como não sabem tocar ou cantar, saracoteiam, fazem cara de inspirados ou de extremo esforço e tocam e cantam alto, errando tudo, mas com “garra”. Certo público e a torcida do Grêmio deixam-se enganar pelo esforço, vão esforço.

Até o dono da pastelaria dizia que as músicas da igreja doíam nos ouvidos. E, bem…

Em contraposição, dentro da pastelaria havia uma TV alimentada por um DVD que passava shows de duplas, trios e solos de música sertaneja. Que maravilha… Eles acertavam um pouco mais no tom, e sua música e temas ainda tinham algum sentido. Pouco, mas tinham. Soube que a ideologia deles é a de ser solteiro, beber muito, dançar e pegar e ser pegado por mulher. É um mundo de péssimo gosto, porém hedonista e mais eufônico do que o das igrejas evangélicas. Por isso, eu passei a amar um pouquinho os sertanojos.

Elena Romanov Zimbros

P.S. — Mais da metade das músicas da pastelaria eram assim mesmo. O cara chegava cansado em casa, mas tinha marcada uma festa com mulher, música e muita bebida. Ou o cara tirava sarro do amigo que tinha que ir ao cinema porque estava namorando e, assim, perdia o menu de mulheres das festas. Ou era a respeito de mulheres poderosas que pegavam um cara por noite e não tavam nem aí. As letras são deste tipo.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O edifício “The Circus”, em Bath, na Inglaterra

O edifício “The Circus”, em Bath, na Inglaterra

A pequena cidade de Bath, hoje com 80 mil habitantes, é conhecida pelos seus banhos termais que provém de três nascentes. A história diz que os romanos descobriram ali águas com propriedades curativas e construíram termas. OK, só os locais dizem que tudo isto já era conhecido antes. Mas o que me interessa é o The Circus.

The Circus of Bath é um edifício da cidade de Bath que consiste em três segmentos curvos, arranjados em uma forma circular. Originalmente conhecido como The King Circus, este marco do século XVIII foi projetado pelo arquiteto John Wood, o Velho. Ele não sobreviveu para ver seus planos se transformarem em realidade. A primeira pedra foi lançada em 1754 e o Velho morreu três meses depois, naquele mesmo ano. Seu filho, John Wood, o Jovem, completou o edifício em 1768.

Sua inspiração foi o Coliseu romano, mas o Coliseu foi projetado para ser visto do lado de fora e o Circus para ser visto internamente. Observando atentamente os detalhes sobre a construção de pedra, veremos verá muitos detalhes como serpentes, símbolos náuticos, instrumentos utilizados nas artes e nas ciências, além de símbolos maçônicos. Wood era fascinado por círculos de pedra pré-históricos.

circus-bath-11[6]

A área central do Circus continha originalmente um grande reservatório que fornecia água para as casas. O reservatório transformou-se em um jardim gramado em 1800. Um grupo de plátanos agora cresce no centro. Quando visto a partir de cima, o Circus, juntamente com o Queens Square e Gay Street formam um símbolo maçônico semelhantes aos que adornam os edifícios.

Durante a Segunda Guerra, em 1942, parte do Circus foi seriamente danificada. Mas hoje temos o edifício no seu formato do começo do século XIX.

Abaixo, uma pequena série de fotos. Se você quiser vê-las expandidas, basta clicar sobre as mesmas:

circus-bath-1[2]

circus-bath-14[2]

circus-bath-10[2]

circus-bath-3[2]

circus-bath-2[2]

circus-bath-9[5]

circus-bath-8[5]

circus-bath-7[5]

circus-bath-6[5]

circus-bath-5[5]

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock — apresentamos a obra-prima em 8 gifs…

Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock — apresentamos a obra-prima em 8 gifs…

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo5_500

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo8_500

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo4_500

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo2_500

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo3_500

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo6_500

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo1_500

tumblr_o255gjg6v01qac6ozo7_500

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Contraponto Nº 9 da Arte da Fuga, de J. S. Bach

Contraponto Nº 9 da Arte da Fuga, de J. S. Bach

Greg Anderson e Elizabeth Joy Roe, pianos

Anderson & Roe Piano Duo

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Machado de Assis e a “cagada” da livraria-editora Garnier

Machado de Assis e a “cagada” da livraria-editora Garnier

Qualquer bibliófilo sabe que a primeira edição de uma obra é sempre mais valiosa que as outras, apesar de muitas vezes ter sido impressa em papel de pior qualidade ou da má qualidade de sua impressão. O seu valor acaba por ser alto justamente porque são raros e poucos a possuem.

Mas, há casos em que uma primeira edição se torna mais valorizada devido a um erro tipográfico que escapou à revisão do editor ou do autor e foi parar nas livrarias. Corrigido o erro nas edições subsequentes, estes exemplares conquistam então o status de raridade bibliográfica. Este é o caso da primeira edição das Poesias Completas de Machado de Assis, publicado em 1901 pela Livraria Garnier.

Machado de Assis – Poesias completas. 1ª edição. Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1901. VI, 376 p., 24 p. Frontispício de Machado de Assis. Possui notas, índice e catálogo da Garnier.
Machado de Assis – Poesias completas. 1ª edição. Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1901. VI, 376 p., 24 p. Frontispício de Machado de Assis. Possui notas, índice e catálogo da Garnier.

Ao organizar este volume das suas poesias, Machado de Assis reuniu os livros Crisálidas (1864), Falenas (1870) e Americanas (1875), expurgando-os de algumas poesias e acrescentando um novo conjunto, intitulado Ocidentais.

No começo do século XX quase todos os livros desta editora eram impressos na França, mas, apesar da revisão, às vezes escapavam alguns erros. E foi justamente nesta obra, do mais importante autor brasileiro, que escapou um erro gravíssimo: Machado escrevera à página 20, no prefácio, “… cegára o juízo …”, e o tipógrafo francês trocou o “e” por um “a”!

Machado de Assis – Poesias Completas (com erro tipográfico)
Machado de Assis – Poesias Completas
(com erro tipográfico)

O erro só foi percebido depois que a edição já estava na livraria e alguns exemplares tinham sido vendidos. Para corrigir o erro, um empregado da livraria (Everardo Lemos) sugeriu raspar com cuidado a letra a e escrever a letra e com tinta nanquim.

Machado de Assis – Poesias Completas (com erro corrigido à mão)
Machado de Assis – Poesias Completas
(com erro corrigido à mão)

Depois o editor Garnier providenciou a reimpressão da folha com o erro, para substituí-la em todos os exemplares que ainda não tinham sido vendidos…

Machado de Assis – Poesias Completas (com erro corrigido tipograficamente)
Machado de Assis – Poesias Completas
(com erro corrigido tipograficamente)

Por causa disso existem três tipos de exemplares da primeira edição das Poesias Completas de Machado de Assis: o primeiro sem a correção (raríssimo) com a palavra cagara, o segundo com a correção feita a mão e o terceiro com a folha impressa sem o erro.

O felizardo que possuir na sua biblioteca um exemplar sem a correção tem em mãos uma obra cobiçada por qualquer bibliófilo digno deste nome. O Mercado Livre já vendeu a obra com a correção feita à mão por R$ 850,00, uma barbada.

Adaptado do blog Tertúlia Bibliófila.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Um esforço tão grande para nada (por Leonardo Padura)

Um esforço tão grande para nada (por Leonardo Padura)
Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka
Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Publicado em 30 de janeiro na Folha

O consumo de cultura em Cuba sempre foi um fenômeno polêmico e complexo. As eternas dificuldades econômicas da estrutura socialista da ilha raramente possibilitaram que se gastassem os recursos necessários para levar ao cidadão as criações artísticas mais recentes e reconhecidas consumidas no resto do mundo (pelo menos no resto do mundo com possibilidades de fazê-lo).

Mesmo assim, graças a programas culturais e educativos, o espectador cubano teve oportunidade de consumir cultura de alta qualidade oferecida pelas instituições oficiais. Nos últimos tempos, por vias alternativas, também circularam as mais recentes séries da Netflix ou HBO, os últimos filmes de Alejandro González Iñárritu e Woody Allen, e o PDF pirata de algum livro recém-chegado ao mercado.

É algo diferente –ao longo de quase seis décadas, as instituições políticas cubanas decidiram o que o cidadão deve consumir culturalmente.

Assim, desde as proibições ou barreiras ao rock e beat nos anos 1960 até a decisão de não publicar autores cubanos que vivem no exílio, sempre existiu um mecanismo institucional que pensa na melhor educação ideológica, cultural e artística do cidadão, desestimulando ou censurando o que alguém com poder decide ser prejudicial ou impróprio.

Dessa última lista constam desde livros a filmes, de partidas de beisebol profissional a shows de TV de produção local. É o que parece ter acontecido com alguns episódios do programa “Vivir del Cuento”, comédia de costumes que tem a maior audiência da televisão nacional cubana (estatal, evidentemente).

Seria possível supor que um sistema tão esmerado de controle educativo e ideológico, praticado por instituições políticas e culturais oficiais, garantiria a criação entre os cubanos de uma alta capacidade de discernimento no consumo cultural, levando-os a dar preferência a produtos de alto nível estético, conceitual, ético e humanista.

Mas os meios de comunicação nem sempre alcançam essas metas previstas, nem sequer nas condições acima descritas. Hoje, em Cuba, por exemplo, a música mais ouvida pelo povo é o chamado reggaeton ou alguma de suas variantes, uma música elementar e cansativa, com letras geralmente de enorme pobreza lírica e, às vezes, obscenas.

E não apenas o reggaeton é consumido, como se adotou o hábito de as pessoas o tocarem em suas casas em volumes altíssimos, para o incômodo de quem preferiria outra música ou o silêncio. E isso é feito com total impunidade, como se fosse sinal de identidade e até de poder.

Algo semelhante ocorre com os programas de televisão. Muitas das pessoas que conseguem acessar programas estrangeiros privilegiam os piores programas da televisão “trash” gerados por alguns dos canais hispânicos do sul da Flórida, como o célebre “Caso Cerrado”, em que algumas pessoas levam a público suas misérias éticas, pessoais e familiares diante de uma espécie de juíza.

Mas uma das maiores aberrações foi a recente promoção do “livro do ano” em Cuba. Entre os títulos preferidos pelos cubanos em 2015, o mais destacado e divulgado foi um livro de receitas culinárias! Para escancarar ainda mais a pobreza cultural desse fato, um programa jornalístico da TV oficial cubana difundiu o acontecimento e, segundo pude ler, dedicou vários minutos a uma entrevista com o “escritor” vitorioso.

O que acontece nas entranhas e na inteligência de uma sociedade quando seus cidadãos escolhem como um de seus livros do ano um livro de receitas? E quando sua televisão oficial dá mais destaque a esse fato que a grande parte da produção literária do país? Simplesmente ocorreu um processo de degradação da capacidade intelectual dessa sociedade. Ou então se está manipulando a trama cultural para que um texto sem conflitos alcance essa distinção e seja, além disso, exaltado pela altamente politizada imprensa oficial do país.

Para quem se dedica ao trabalho literário em Cuba, não é apenas ofensivo que tais manifestações se produzam à nossa volta. Os leitores cubanos não puderam encontrar em seu país um único livro ao qual dar sua preferência?

Para onde se encaminha uma sociedade na qual, com certeza, a comida nunca foi suficiente para satisfazer as necessidades da população, e, ao mesmo tempo, um livro de receitas culinárias é o paradigma da leitura que mais e melhor se difunde, consome e promove? Quais são as escolhas possíveis para os leitores cubanos quando sua principal instituição editorial, o Instituto Cubano do Livro, se propõe a editar 624 títulos no ano e só consegue imprimir 231?

Depois de tanto controlar e decidir o que devíamos consumir culturalmente, será que vamos acabar assistindo a televisão “trash”, ouvindo baixarias de reggaeton em alto volume e lendo livros de receitas de cozinha em lugar de literatura? Depois de tanto esforço e controle, estaríamos vivendo uma alarmante regressão à banalidade e ao mau gosto?

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Bom dia, Piffero (com os melhores lances daquela coisa de ontem à noite)

Bom dia, Piffero (com os melhores lances daquela coisa de ontem à noite)
Bruno Baio
Bruno Baio no meio da Av. 9 de Julho, em Buenos Aires

Foi uma tacinha bem modesta, menor ainda que um Gauchão e depois de uma partida miserável, mas a gente conhece o D’Alessandro. Ele não passou nenhum ano no Inter sem ganhar alguma coisa, nem neste 2016. Mas acabou, tudo passa, até a uva passa e agora vamos ter que lidar com nossas limitações, grandes limitações.

O Inter não se preparou para este momento. Aliás, não se preparou nem para substituir o lesionado Valdívia, nem para a ausência de centroavante neste início de ano, todas coisas sabidas de antemão. Ontem, o clima de emoção da despedida não foi suficiente para esconder a ruindade de nosso time. A bola vai e volta rapidamente, há repetidíssimos erros de passes, temos Anderson pensando na China, Sacha fora de posição — inteiramente perdido — e, quando sai, é substituído por Bruno Baio… Aliás, Bruno Baio não me parece um jogador de futebol. Apesar da altura, também não poderia ser jogador de vôlei ou basquete, pois não pula. É, na verdade, um braço roubado à agricultura ou algo como o Obelisco de Buenos Aires, que todo mundo vê e ninguém sabe para que serve. Nem bonito é. Poderia ser um agente da EPTC. (Não, isto não poderia. Agentes da EPTC não gostam de chuva e ontem ele estava lá, no meio do maior aguaceiro). Mas como Obelisco ficaria bem.

Argel disse que o Inter não teve pressa para ganhar o jogo. É verdade. Tanto não teve que não ganhou. Ganhou foi a tacinha nos pênaltis. Para o Costelão 2016, o jogo de ontem contra o São José rendeu um parco ponto. Depois, nosso douto treinador ainda completou estranhamente: “Mas estamos na diretriz certa”.

Piffero, te meteste num mato sem cachorro. Te livraste de custos sem pensar no faturamento. A crise não pode ser teu único programa, quem está fazendo isso é o Sartori. Se for assim, planejemos 2017, como sugeriu meu amigo Bruno Zortea. Porque este ano servirá para a gente chegar em 14º no Brasileiro e protagonizar toda sorte de eliminações precoces.

Recomendo uma grande vaia pra ti. Pior do que tu, só o campo do São José.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A carta de despedida de D`Alessandro

A carta de despedida de D`Alessandro

Publicada no perfil do Facebook do jogador

Colorados!

Estou diante do maior desafio da minha vida. Jamais pensei que dizer ou escrever essa frase seria tão difícil: Estou de saída do Internacional !! Eu sabia que esse dia iria chegar em algum momento, em alguma circunstância… tentei me preparar para essa hora, mas não tem como: é difícil dizer “tchau” para o lugar em que fui mais feliz em minha vida. Dizer que estou emocionado seria redundante… Chorei muitas vezes até tomar essa decisão… Não sai da minha cabeça todos os momentos que vivemos desde aquele 30 de julho de 2008, data que desembarquei pela primeira vez em Porto ALEGRE. Nem nos meus maiores sonhos de infância sonhei que seria tão bem quisto em um lugar longe da minha casa.

Jamais vou esquecer da recepção que vocês me fizeram no aeroporto, jamais vou esquecer daqueles torcedores que se penduraram na arquibancada para pegar um autógrafo meu naquele Inter x Santos, no Beira-Rio. Eu sequer havia vestido a camisa do clube e já estava sendo tratado como um rei. Aquilo foi inacreditável para mim. Não tenham dúvida que esse carinho que recebi logo no primeiro contato esteve na minha mente em todas as 340 partidas em que vesti com o maior orgulho do mundo a camisa colorada.

Nosso caso de amor foi inesquecível logo na primeira vez que joguei pelo Inter. Estrear em um Gre-Nal. Não poderia ter sido mais bonito o início da minha história no clube. Também lembro até hoje do primeiro gol. Foi contra o Botafogo, no Engenhão! Jogada do Guiña com o Taison, recebo na entrada da área, avanço, corto para o meio, dou uma última ajeitada na bola com a canhota e chuto cruzado, rasteiro. Que emoção! Nunca imaginei que viria a fazer outros 75 gols.

A primeira vez que balancei a rede contra o Grêmio também foi marcante. No Gre-Nal 373, ganhamos por 4 a 1 e pude fazer meu primeiro gol nesse que é um dos confrontos de maior rivalidade no mundo! Desde pequeno, as grandes rivalidades sempre me fascinaram. Quando entro em campo para jogar com o maior rival, sempre sinto uma sensação diferente. Graças a Deus, eu fui muito feliz na maioria das vezes que joguei Gre-Nal. Tenham a certeza que cada um dos clássicos que defendi o Inter foram diferenciados.

dale

Quando assinei com o Inter, uma coisa eu tinha certeza: ia levantar taça! Esse é uma garantia que você tem quando assina com um dos maiores clubes do mundo. Minha previsão demorou pouco tempo para se confirmar. Aquela decisão contra o Estudiantes, pela Sul-Americana de 2008, foi de arrepiar! O ambiente criado no Beira-Rio foi sensacional. Um baita time + uma torcida sensacional. Impossível ter outro resultado: CAMPEÃO!

Em 2009, passei a usar a camisa 10! Que responsabilidade enorme! Também foi a vez de conhecer o Campeonato Gaúcho. Nossa jornada beirou a perfeição. Entramos em campo 21 vezes e ganhamos 18. Campeões invictos! Foi muito bom! E quem diria que viria mais por aí? Ao longo da minha carreira pelo Inter, ganhamos seis dos sete Campeonatos Gaúchos que disputamos.

Durante esses sete anos e seis meses que fiquei no Inter, jamais encerramos uma temporada sem ganhar título. E para falar de conquistas não posso deixar de mencionar como 2010 foi um ano especial. A Copa Libertadores me fascinava desde menino. É uma competição que tem extremo valor na Argentina (e no Brasil também). Nossa jornada de 2010 foi repleta de momentos especiais. Na fase de grupos, fizemos uma campanha como mandam os manuais: três vitórias em casa, três empates fora. Classificados, na liderança do grupo. Veio o mata-mata e o bicho pegou! Logo de cara, o Banfield. Um adversário difícil, em um campo difícil. Sofremos muito no jogo de ida, com o poder do rival e com erros de arbitragem. Teríamos que reverter um placar adverso de 3 a 1 para que nosso sonho não terminasse ali. E aí voltou aquele ambiente infalível: time com sangue no olho + torcida fantástica. 2 a 0, passamos, e ganhamos muita força!

Nas quartas-de-final, outro argentino, o Estudiantes! Missão duríssima. Na ida, no Beira-Rio, insistimos até o fim e fomos premiados com um gol do Sorondo, aos 42 minutos do segundo tempo. Na volta, uma verdadeira batalha! Perdíamos a vaga até os 43 minutos do segundo tempo. Mas veio o gol! Passamos de forma heroica e cada vez mais sentíamos que estávamos no caminho certo!

Veio a semifinal com o São Paulo. Dois jogos duríssimos. Mais uma vez repetimos a dose! Vitória mínima em casa, derrota com gols fora! A torcida colorada outra vez deu show. Eram mais de 2 mil presentes no jogo de volta, no Morumbi. Uma festa linda!

Chegou a final e sabíamos que não poderíamos parar por ali. No México, conseguimos ganhar do Chivas de virada e encaminhamos a taça. No Beira-Rio, outro jogo duríssimo, mas ganhamos de novo! Campeões da Libertadores! Um momento mágico.

E 2010 não parou por aí. Além das conquistas coletivas, o timaço do Inter me ajudou a ganhar distinções individuais. Fui escolhido o melhor meio-campista do Brasileirão e das Américas. Ainda ganhei o prêmio de melhor jogador das Américas. O título mundial não veio, ficou esse gostinho amargo, mas o amanhã é imprevisível. Quem sabe um dia, em alguma outra ocasião, eu não estarei junto com o Inter outra vez para pagar essa conta?

Os anos foram passando e minha identificação com o Inter não parava de crescer. Em 2012, passei a ser o capitão. Uma responsabilidade imensa. Na época, eu só pensava em quantos craques tinham usado aquela braçadeira. Logo no Campeonato Gaúcho já tive a responsabilidade de levantar a primeira taça nessa nova condição.

Em 2013, experimentei uma sensação que não conhecia. A de ser o goleador. Foi um ano em que estive com a pontaria afiada. Fiz gol no Gauchão, No Brasileiro e na Copa do Brasil. Foram 20 gols, uma marca significativa para um meia… Terminei como artilheiro da temporada!

Veio 2014 e mais um momento marcante. Estreávamos o novo Beira-Rio. Um amistoso contra o Peñarol e um ambiente repleto de história. Coube a mim a honra de fazer o primeiro gol da história da nossa nova casa! O resultado do jogo? Ganhamos! Mais uma vez!

Minha história no Inter rompeu a barreira das quatro linhas. Fiquei esse tempo todo aqui não apenas pela identificação que criei com o clube. Foi muito mais que isso! Em Porto Alegre, finquei raízes. Minha família foi muito bem tratada aqui. Nós, argentinos, com toda a rivalidade que se diz entre os dois países, vivemos anos maravilhosos aqui! Posso dizer que sou gaúcho de coração! Sou porto-alegrense (até título de cidadão da cidade ganhei). Meu filho, Gonzalo, nasceu aqui! É brasileiro, gaúcho e, claro, COLORADO!

Agora, chegou a hora de voltar para as minhas raízes. Para deixar o Inter, eu só poderia ir para o dono da outra metade do meu coração: o RIVER PLATE. Um clube que me deu tudo quando eu não tinha quase nada. Um clube que me abriu as portas para o mundo, me deu a oportunidade de seguir a profissão que sempre sonhei. É com muito orgulho que voltarei a Núñez, é com muita alegria que voltarei a reencontrar pessoas que foram importantíssimas no início da minha carreira, é com muita felicidade que voltarei a estar perto de minha família e dos meus amigos de infância.

Chegou a hora de um novo desafio! Campeonato Argentino, Copa Libertadores e Recopa! Vamos com tudo! Vai ser emocionante voltar a vestir a sagrada rojiblanca, vai ser emocionante voltar a sentir a hinchada Millonaria.

Saio de Porto Alegre, mas o Inter, os colorados, e todos que me deram carinho jamais vão sair do meu coração. Estarei aqui do lado, não mais jogando, mas torcendo muito pelo colorado! Não tenham dúvida que em todo o planeta não encontrarão um argentino mais fanático pelo Inter do que eu! E isso não é um adeus, mas sim, um ATÉ LOGO!!! MUITO OBRIGADO POR TUDO! SEREI ETERNAMENTE GRATO!!!

‪#‎NuncaTeEsquecerei‬ ‪#‎VamoInter‬

Andrés Nicolás D’Alessandro

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!