Cada época relê seus clássicos à sua maneira. Estou finalizando a leitura do tremendo romance Jane Eyre e, na minha opinião, St. John Rivers é claramente gay. Isso não interessa? Ah, interessa, sim. Leia o romence! Ele é um gay muito religioso e chato, chato, chato. Acho que, sem poder dizê-lo, Charlotte Brontë faz enorme esforço para exprimir que ele não quer nada com Jane por ser gay, não por ser um ato pecaminoso — claro, o livro é de 1847 e foi originalmente publicado sob o pseudônimo masculino de Currer Bell. Na Inglaterra vitoriana não havia gays (…) e, mais, havia um forte preconceito contra mulheres escritoras, sobretudo quando escreviam obras de grande ambição intelectual ou que abordavam temas considerados impróprios, como desejo feminino, independência ou crítica social. O melhor romance inglês de todos os tempos — Middlemarch — foi escrito por George Eliot, na verdade Mary Ann Evans.
St. John só mostra como Charlotte foi genial. Há muita sexualidade no romance. Vejamos: em Jane Eyre, Charlotte Brontë cria dois pólos opostos de masculinidade que cortejam a heroína: de um lado, o fogoso e apaixonado Sr. Rochester; de outro, o frio, austero e devoto St. John Rivers. Enquanto Rochester representa o desejo e a paixão avassaladora, St. John simboliza o dever, a razão e a completa negação do afeto. É exatamente essa repressão extrema que leva muitos leitores a questionar a verdadeira natureza da sexualidade do clérigo. Jane diz que abraçá-lo é como abraçar mármore. Ele tem um profundo incômodo em relação às mulheres. Ele não demonstra qualquer interesse romântico ou atração genuína por Jane, deixando claro que seu pedido de casamento é um ato de dever, não de amor. Para ele, Jane não é uma parceira desejada, mas uma ferramenta útil para seu trabalho missionário. Sua rigidez e frieza são tão marcantes que chegam a ser descritas como uma forma de “insanidade” — uma insanidade fria e controlada que contrasta com a paixão avassaladora de Rochester. A insistência de St. John para que Jane se case com ele e o acompanhe à Índia é vista por alguns não como um ato de amor, mas como uma forma de “predação sexual”, onde ele não deseja seu corpo, mas busca controlar e possuir sua alma.
A interpretação mais recorrente é que St. John Rivers é um homem que reprime seus próprios desejos, possivelmente homossexuais, ao ponto de se tornar uma figura assexuada. Ele canaliza toda a sua energia para a religião e o trabalho missionário como uma fuga das tentações “pecaminosas” que ele teme e odeia. Essa leitura o transforma em um espelho invertido de Jane: ele representa o caminho que ela poderia ter seguido caso tivesse se fechado completamente para a vida e para o amor, sufocando sua própria natureza apaixonada. A rejeição de Jane a seu pedido de casamento é, sob essa ótica, uma rejeição não apenas de uma vida sem amor, mas também de uma existência marcada pela repressão sexual e espiritual.
Harold Bloom, por exemplo, citou a “ambiguidade do personagem de St. John Rivers”. O próprio nome do personagem, “St. John”, carrega um peso religioso que sugere abstração e frieza sexual, mas sua descrição física é paradoxalmente sexy — rosto grego, nariz clássico, boca ateniense — que contrasta com sua personalidade gelada, criando uma figura de atraente, mas distorcida em algo perigoso e prejudicial, na visão da autora.
Penso que a discussão sobre a sexualidade de St. John Rivers é uma discussão sobre os limites da repressão vitoriana. Mais do que uma afirmação categórica, a teoria de que o personagem é gay serve como uma ferramenta para explorar as profundezas da psiquê do personagem, revelando um homem cuja devoção a Deus e ao dever pode ser, na verdade, uma fuga desesperada de sua própria humanidade.
Um leitor vitoriano enxergava nele um asceta protestante, leitor freudiano veria nele um homem reprimido, um leitor contemporâneo pode identificar traços que remetem à homossexualidade ou à dissociação oculta entre desejo e vocação. Essas interpretações dizem menos de St. John quanto sobre as mudanças nas formas de compreender a sexualidade. Claro, não vou “resolver” a identidade de St. John, estou mais interessado em mostrar como um personagem de 1847 pode seguir provocando novas leituras quase dois séculos depois.
Para finalizar, o texto de Jane Eyre é muito ambíguo. Quando Rosamond Oliver sente-se atraída por St. John, este parece muito mais incomodado por ser objeto de desejo do que por perder Rosamond. Essa diferença é sutil, mas importante. Em Rochester, o super-hétero, o desejo é explosivo e incontido. Em St. John, o desejo parece sempre uma obrigação. Jane não sente que ele a ama, descrevendo esse amor de uma maneira extraordinariamente gelada. É justamente aí que entra a leitura queer. E se Jane estiver interpretando mal? E se St. John nunca tivesse amado Rosamond da maneira convencional? E se sua “luta” fosse de outra natureza?
Bah, que romance genial!
Óbvio que a Livraria Bamboletras tem o livro.
