Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

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Eu li todo Jane Eyre para minha mulher. Fiquei com um carinho todo especial pelo livro. É um daqueles romances que sobrevivem porque, além de ser uma história apaixonante, é uma conjetura — avaliei muito este termo — sobre a liberdade das mulheres. Jane Eyre é o romance de uma mulher que não quis abrir mão de si mesma. Mesmo pobre, primeiro negou-se a ficar com um homem casado, depois recusou o casamento com um sujeito bem estranho, na verdade um gay que desejava um casamento de fachada, ao menos eu interpretei assim. Aliás, o hétero e o gay eram ambos bem estranhos.

Vale lembrar que Charlotte Brontë seria um caso atípico em qualquer época. Ela era uma escritora de inteligência e alta percepção estilística. Mas também era uma figura excêntrica: era antiquada — com suas apropriações do terror gótico e seu protagonista byroniano assustador sedutor –, era também excepcionalmente progressista em sua representação da situação das governantas e em sua insistência de que o trabalho de mulheres tinha valor. Era também uma forasteira isolada dos principais circuitos literários ingleses, longe da grande metrópole onde gente como Thackeray e Dickens mandavam. Ela achava Londres um lugar de perigos e vícios inimagináveis. Quando uma amiga visitou a cidade em 1834, Charlotte chegou a escrever uma carta para ela depois, expressando seu espanto por ela ter retornado “inalterada”.

É reveladora é a relação de Brontë com Thackeray. Ela era perspicaz o suficiente para compreender seu gênio, chegando a dedicar-lhe a segunda edição de Jane Eyre devido à sua profunda admiração por A Feira das Vaidades. Felizmente, ela também era distante o suficiente das fofocas literárias para não saber que Thackeray havia escondido sua esposa em um hospício (o fato de um personagem de Jane Eyre ter feito quase o mesmo foi pura coincidência). Seus encontros também foram marcados por confusão: diz-se que Charlotte ficou inicialmente estupefata ao conhecer seu ídolo — e confusa quando ele começou a falar sobre o aroma de charutos, sem perceber que ele estava fazendo uma referência lisonjeira à cena de um capítulo de Jane Eyre em que o cheiro do charuto do Sr. Rochester deixa Jane encantada. Charlotte pareceu não entender…

Mal-entendidos semelhantes ocorreram quando ele organizou uma festa em homenagem a Brontë, em 1849. O problema desta vez foi que ela se recusou a reconhecer que era Currer Bell (o pseudônimo que usara na publicação inicial de Jane Eyre) e só dava respostas curtas e ríspidas. Thackeray ficou puto e acabou saindo de sua própria festa para ir ao clube. Very english.

Quando Jane Eyre foi publicado, em 1847, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell, muitos leitores ficaram impressionados com a intensidade daquela voz narrativa em primeira pessoa. Havia ali uma mulher pobre, órfã e considerada feia que ousava afirmar, com absoluta convicção, sua igualdade diante dos homens. Entre os muitos talentos de Brontë, está a capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos vendo o mundo exatamente como sua narradora o vê. Há a maneira acolhedora como ela nos envolve na história com esse discurso direto a “você”, ao “leitor”, a quem ela convida constantemente a ver o que ela vê. Imaginamos “a luz de uma lamparina a óleo pendurada no teto”, esforçando-nos para ver exatamente a mesma cena sob a mesma luz bruxuleante que Jane. Mas não é apenas o que Jane vê que importa: Brontë também nos leva para o fundo de sua mente e, aparentemente, de sua alma. Mesmo quando ela diz: “Caro leitor, talvez você nunca sinta o que eu senti!”.

Às vezes, Jane Eyre parece um romance gótico. Há a mansão isolada, o patrão enigmático, os corredores escuros, os segredos do andar de cima e uma atmosfera de permanente expectativa. Mas Charlotte Brontë utiliza todos esses elementos apenas como cenário. O verdadeiro mistério do romance é o de como preservar a própria dignidade num mundo que tenta, a todo momento, dizer como você deve agir e pensar.

Para mim, a melhor parte da história é o começo, quando Jane está na Escola Lowood, definindo-se como pessoa. O livro poderia ter terminado ali, mas então Jane foi morar com o estranho Rochester a fim de ensinar sua filha. Jane atravessa a infância de forma bem dickensiana, marcada pela humilhação e a severidade da escola. Depois vem o amor por Rochester e as imposições de St. John Rivers. Em cada etapa, ela poderia escolher um caminho mais fácil: submeter-se, aceitando a dependência e os “deveres”. Ela se recusa, mas não é uma rebelde, é apenas íntegra. Jane ama profundamente, porém nunca aceita que o amor custe sua liberdade.

É justamente essa tensão que faz de Rochester e St. John figuras complementares. Rochester representa a paixão hétero que ignora os limites da moral. St. John representa a moral torta que sufoca qualquer possibilidade de paixão. Jane rejeita ambos. Ela busca uma vida em que amor, respeito e autonomia possam coexistir.

Mas Jane Eyre também é um extraordinário romance psicológico. Charlotte Brontë escreve como se acompanhasse o movimento mais íntimo da consciência. Muito antes de Virginia Woolf, ela compreendia que os acontecimentos decisivos da vida não ocorrem apenas no mundo exterior, mas na lenta transformação interior das pessoas. Ao mesmo tempo, o livro é um retrato mordaz da sociedade inglesa vitoriana. A condição feminina, as diferenças de classe, a educação, a religião e a hipocrisia moral aparecem constantemente, mas nunca transformam o romance em panfleto. Charlotte Brontë discute essas questões através de personagens vivos e contraditórios.

E há as perguntas, inúmeras, que nos fazemos durante a leitura. O ponto mais óbvio é a religião. É difícil para nós avaliarmos a sinceridade de Jane em relação à sua fé cristã, particularmente sua atitude em relação ao zelo missionário de seu primo St. John. Será que ainda existe nela a orgulhosa “pagã” e rebelde que ela declara ser nas primeiras páginas? Ela diz uma coisa e quer dizer outra quando professa seu desejo de se submeter aos ideais cristãos? Seu amor inabalável por Rochester é algo que ela mantém apesar (e em oposição) aos ensinamentos da Igreja sobre o casamento — ou existe um conjunto mais complexo de conflitos internos em jogo? O mesquinho e religioso St. John expressa a verdade profunda sobre os homens de fé? Ou ele é simplesmente uma maçã podre? É possível para nós, que tivemos a sorte de crescer em uma sociedade predominantemente secular, sentir a profunda fé que influencia Jane?

Talvez seja essa a razão de sua permanência. Poucos romances conseguem unir, com tamanha naturalidade, suspense, paixão, crítica social e reflexão moral. Quase dois séculos depois, Jane segue falando diretamente a nós porque a busca de uma vida em que seja possível amar sem deixar de ser quem se é é universal.

Há um aspecto que me emocionou nesse romance. Diferentemente de tantas heroínas do século XIX, Jane não vence porque é bela, rica ou socialmente privilegiada. Ela vence porque possui algo muito mais raro: uma consciência independente. Charlotte Brontë parece nos dizer que a verdadeira nobreza não vem do nascimento nem da fortuna, mas da capacidade de permanecer fiel a si mesmo mesmo quando isso exige renúncia. Talvez seja essa a razão de Jane Eyre continuar tão moderno.

Charlotte com filtro, certamente

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