Feira do Livro sem praça: na pandemia, livreiros e editoras se preparam para edição online

Feira do Livro sem praça: na pandemia, livreiros e editoras se preparam para edição online

Por Bruna Paulin e Gustavo Foster, no Noite dos Museus

Mais do que os grandes lançamentos do ano ou os atrativos descontos oferecidos, o grande barato da Feira do Livro de Porto Alegre é a aglomeração na Praça da Alfândega, coração da cidade. O passeio no entorno das bancas, os bate-papos sem pressa entre livreiros e visitantes, a vida que toma conta de um espaço muitas vezes pouco frequentado pela população no resto do ano.

A Feira do Livro, tão tradicional no calendário cultural gaúcho, é espaço de formação de público – e sem dúvida grande parte de seu sucesso vem das trocas presenciais. Em 2020, devido à pandemia, a principal feira literária do Estado não poderá ser realizada fisicamente – como tantas outras em cidades espalhadas pelo Brasil. Por conta da impossibilidade de ocorrer em seu formato tradicional, os organizadores levaram-na para o mundo virtual, onde pretendem emular tudo aquilo que a feira tem de melhor, além de servir de inspiração para outros eventos do tipo. Não somente seu produto final, o livro, estará à venda pelos sites dos associados, mas também toda a programação da Feira, incluindo a transmissão ao vivo das atividades oferecidas.

Sob o slogan “Janelas abertas para a Praça”, o evento terá sua programação, totalmente gratuita, veiculada pelo portal www.feiradolivro-poa.com.br entre os dias 30 de outubro e 15 de novembro. Em 29 de setembro, a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) divulgará os lançamentos, os autores participantes e o patrono desta edição, além de promover mais três eventos de aquecimento, nos dias 13, 20 e 27 de outubro. A escritora chileno-norte-americana Isabel Allende é a autora convidada e participará da abertura.

“Na nossa 66ª edição, estamos focando na qualidade dos eventos e no potencial que eles têm de debater, a partir do universo do livro, temas atuais relevantes. A programação geral terá quase 40 atividades, envolvendo cem convidados. Um universo que espelha também a nossa ideia de valorizar o que é diverso, de temas a perfis dos escritores”, explica Lu Thomé, uma das curadoras da feira.

“O ‘Janelas abertas para a Praça’ une estas duas coisas: a nossa comunicação atual por ‘janelas’ e telas de celulares, notebooks e computadores durante o período de isolamento social. Telas que, com a participação dos leitores na nossa programação, estarão voltadas para a Praça, que é o símbolo da Feira. A Praça estará na casa de todas as pessoas que desejarem. Nesse sentido, a programação precisa ser mais abrangente possível. Então, seguimos algumas linhas temáticas centrais: cultura (com valorização da cultura e liberdade de expressão), diversidade (com inclusão, feminismo, antirracismo e tolerância), ciência (pandemia, saúde) e sustentabilidade (relação com o mundo e o meio ambiente, economia verde)”, detalha Lu.

O momento atípico gerou inseguranças e apresenta desafios, mas a CRL garante que fez de tudo para preparar público e livreiros para as novidades.

“Em um evento tão tradicional como a Feira do Livro de Porto Alegre, é natural que exista alguma resistência à mudança por parte dos livreiros. Muitos deles participam há décadas da feira, que, diga-se, manteve um formato muito semelhante desde as primeiras edições. Ao mesmo tempo, percebo que há uma parcela cada vez maior de livreiros, distribuidores e editores em busca de informação sobre como vender pela internet”, avalia Tito Montenegro, editor da Arquipélago Editorial e diretor da CRL.

Livreiros receberam consultoria, sites novos e ajuda em transações para entrar no mundo novo

Para os associados que ainda não tinham comércio eletrônico, por exemplo, a entidade firmou parceria com uma empresa que desenvolve lojas virtuais, a GetCommerce, para que os expositores possam criar seus comércios eletrônicos em condições especiais. Firmou-se também um convênio com o Sebrae-RS, proporcionando uma consultoria para os livreiros qualificarem seus negócios para enfrentar os novos tempos, com ênfase na recuperação pós-pandemia e na crescente digitalização da divulgação e da venda de livros.

Para a tradicional livraria porto-alegrense Bamboletras, as inovações já começaram a surtir efeito. Se antes da pandemia o empreendimento se caracterizava como uma “livraria de balcão”, a quarentena forçou o proprietário Milton Ribeiro a criar um site da empresa. Se as vendas no início da pandemia caíram a 20%, Ribeiro espera que a feira ajude na retomada do crescimento, algo que já vem acontecendo nos últimos meses.

“A Feira do Livro vai ser uma continuidade dessa evolução. Nem tanto balcão, mais atendimento remoto. A Bamboletras se caracteriza por ter pessoas que conhecem livros e fazem uma curadoria. De certa forma, esse atendimento remoto vai continuar. A Câmara do Livro nos disponibilizou a possibilidade de ter um site – éramos tão de balcão que não tínhamos um. Teremos também a comunicação por redes sociais. Vai ser uma estreia, um mundo novo”, comemora o livreiro, antes de ponderar: – Minha perspectiva é otimista, porque vai ter muita divulgação, porém eu não sei muito bem qual vai ser a repercussão, porque é inédito.

Novos públicos e oportunidades infinitas

Se, por um lado, a impossibilidade de reunir pessoas é uma barreira, por outro, pode ser uma oportunidade para mudar. Gustavo Guertler, CEO da Editora Belas-Letras, conta que a empresa decidiu oficializar o home office, vai entregar a sala em que funciona sua sede em Caxias do Sul até dezembro e migrará o estoque para Osasco, em São Paulo. A partir dessa novidade, a editora pretende continuar inovando no ambiente digital – com a contribuição da Feira do Livro.

“Vamos tentar criar uma experiência mais próxima do que acontecia na feira física, no que se refere a curadoria e relacionamento com as pessoas, dentro do que é possível. Por outro lado, também tentamos criar ações que só o ambiente digital permite, então pensamos nisso como uma oportunidade. Há uma infinidade de ações que podemos fazer online, como garantir uma experiência da Feira para pessoas que não são da cidade”, acredita Guertler.

Lu Thomé concorda e vai além: para ela, as novidades devem se tornar padrão a partir de agora.

“Pela primeira vez, estaremos transmitindo para o Brasil e o mundo. É um ganho gigante. É provável que o formato online não seja mais abandonado, e as edições futuras passem a ser idealizadas num modelo híbrido de digital e presencial. Tudo ainda precisa ser confirmado e também precisaremos saber sobre os protocolos sanitários dos próximos anos. Todo o investimento e estrutura digital é um legado que fica para as próximas edições.”

Os hábitos de leitura também mudaram na pandemia?

Se tudo está mudando por conta da pandemia, as leituras de quem está em quarentena também ganharam outro perfil. Pelo menos é o que estimam Guertler e Ribeiro. O CEO da Belas-Letras diz que percebeu “uma pequena mudança nos títulos”:

“Por um lado, houve uma queda leve em títulos mais relacionados a negócios, empreendedorismo, mas houve também um aumento nas vendas de títulos que envolvem memória afetiva, entretenimento, autoconhecimento. As pessoas estão buscando olhar um pouco mais para dentro de si.”

Segundo ele, a editora teve crescimento de 16% nas vendas no primeiro semestre. Já Ribeiro afirma que “mudou muito a temática das vendas”:

“Em primeiro lugar, as pessoas começaram a atacar aqueles calhamaços, como Grande Sertão: Veredas, livros grandes de Tolstói, Dostoiévski, aqueles tijolos. Estão saindo todos. Nunca teve tanta procura. Leituras atrasadas, acho. Outra coisa, algo mais cômico, mas muita gente está procurando por gastronomia. Os livros da Rita Lobo, livros de receita, isso está saindo muito. As pessoas dizem ‘não aguento mais a comida da minha mãe, não aguento mais o que eu faço em casa’, e tentam mudar”, se diverte.

A Feira da gurizada para além de Porto Alegre

Nestes últimos 66 anos, é possível afirmar que grande parte da população infantojuvenil de Porto Alegre visitou pelo menos uma vez na vida a Praça da Alfândega com sua escola. O dedicado trabalho de formação de público desenvolvido pela organização da Feira tem como figura-chave Sônia Zanchetta, envolvida com a programação dos eventos infantis e juvenis desde 1998. Em 2020, os desafios deixam de ser os mesmos de 22 anos de experiência:

“É um desafio e tanto produzir as programações da Área Infantil e Juvenil em formato online. Mas estamos contentes porque, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, a Feira do Livro está confirmada. Confiamos em que os professores, bibliotecários e outros mediadores da leitura que costumam nos visitar com alunos atuem com o mesmo entusiasmo de sempre, promovendo a leitura prévia de obras dos autores, para que os encontros digitais, que permitirão a interação entre o público e os convidados, sejam prazerosos e produtivos”, afirma Sônia.

As escolas e professores que estão conseguindo manter atividades com seus alunos já podem entrar em contato para saber mais detalhes sobre o funcionamento e as opções para direcionarem suas turmas em atividades online. Não é necessário agendamento prévio neste ano, pois não há limite físico para a participação simultânea de mais de uma turma. A equipe da programação infantil e juvenil e do ciclo A Hora do Educador atende pelo e-mail [email protected] e sugere as atividades para a participação dos estudantes, de acordo com a idade e o ano escolar.

Serão 20 autores que promoverão 20 encontros, além de 20 contações de histórias, realizadas por Bárbara Catarina e Carmen Lima. Sônia destaca que o formato digital da Feira possibilitará a interação de mais estudantes, muitos deles que não conseguiam participar presencialmente:

“Muitas crianças e jovens de municípios que não eram atendidos pelo transporte escolar do evento terão a oportunidade de fazer parte da Feira em 2020.”

A Feira virtual também auxiliou a trazer nomes que a curadoria desejava há alguns anos, como Kiusam de Oliveira Eliane Potiguara. Da literatura indígena, além de Potiguara, Yaguaré Yamã integra a lista de autores participantes. Para se ter uma ideia da amplitude desse universo de alunos, só no Rio Grande do Sul existem 90 escolas indígenas.

Entre os escritores de literatura infantil afro-brasileira, além de Kiusam de Oliveira, está Rogério Andrade Barbosa, provavelmente o autor com mais livros publicados na área. O evento também contará com Otávio Júnior, conhecido por abrir a primeira biblioteca nas favelas do Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro.

Para acompanhar as novidades e a programação completa da 66ª Feira do Livro, visite o site www.feiradolivro-poa.com.br.

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Este poema de Drummond deveria ser estudado nas escolas

Diz muito sobre nosso tempo bolsonarista.

~ Morte do leiteiro

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

Carlos Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo (1945).

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A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante

A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante


Este é o primeiro livro que leio de Elena Ferrante. Certo dia, dentro de uma livraria, estive com a Série Napolitana e com a série de Karl Ove Knausgård, Minha Luta, disponíveis na minha frente. Resolvi que ia ler apenas uma das duas. Então, percorri as três primeiras páginas de A Amiga Genial e três primeiras de A Morte do Pai. Não lembro por qual motivo, escolhi o norueguês e só agora começo a preencher a lacuna cultural contemporânea de não ter lido Ferrante. Ela é excelente!

E, nossa, gruda na gente! Trata-se de uma narradora poderosa. Texto fluido e sedutor, capítulos curtos — a gente pensa que dá tempo de ler mais um e mais um e vai indo–, muitos fatos em poucas linhas e quase nenhuma frase ensaística, demonstrando que a história, as situações e a estrutura arranham mais a realidade do que as teorizações intermináveis.

Ferrante é uma excelente analista das famílias, de como elas influenciam as crianças e adolescentes, jogando-as em qualquer direção. Às vezes, elas obedecem, em outras vão no exato sentido que os pais tentam evitar.

O livro é narrado por Giovanna. Logo da cara, ela, aos 12 anos, filha de professores bem-sucedidos, ouve seu admirado e amado pai dizer à mãe como a filha ficou “feia”. Tornou-se como Vittoria, sua irmã com quem rompeu relações há muito tempo, uma mulher na qual “feiura e o maldade coincidiam perfeitamente”. Morena, desajeitada, de seios grandes, ela era bem diferente de sua mãe, esguia e elegante. Ela fica marcada com a acusação do pai. Então, quer conhecer a tia cuja aparência deve comparar com a sua. Sua jornada a leva para o inferno napolitano de onde seus pais vieram originalmente, o Pascone, um bairro pobre cheio de gente que fala berrando e se relaciona brigando.

O processo de amadurecimento da menina é muito bem relatado. É o desabrochar de uma mulher, mas é mais: é o entendimento de como a vida é complexa, contraditória e dura.

E há os reflexos do machismo. A postura dos meninos é para humilhar — “basta colocar um travesseiro sobre seu rosto e você será uma ótima foda”, um deles diz sobre ela, tendo primeiro elogiado seu seios e traseiro. No dia seguinte, quando o mesmo garoto tenta flertar, ela lhe enfia um lápis afiado em seu braço, acidentalmente, é claro — como se sua tia tivesse se infiltrado nela. A direção da escola a chama. Ela mente que foi por acaso e seu pai, presente na reunião, termina o serviço seduzindo a diretora com um discurso polido e elogioso. Ela se desmancha e esquece a punição.

Todos, mas principalmente os homens, podem ser mentirosos mas são apaixonantes e ela admira Roberto, um duplo de Giovanna — jovem, intelectual e educado. Certamente ele é diferente. Bem…

Aos poucos, Giovanna que descobre que os adultos de sua vida mentem para ela. E que ela, ficando adulta, também começa a contar suas lorotas. Também aprende que o conteúdo das mentiras é menos curioso do que seus estilos — exagero, omissão, justificativa, foco — e que variam no prazer e na dor que proporcionam.

Ferrante é ótima e conta a história da adolescente Giovanna com segurança. É a Dickens de nosso tempo, fazendo com que, sem apelação ou golpes baixos, a gente queira saber o que acontecerá depois. Se possível imediatamente.

Recomendo.

Pobreza estilo Napoli, uma imagem do Pascone | https://www.giovanniminervini.it/un_altrove_imprevedibile-r5898

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O Herói do Nosso Tempo, de Mikhail Liérmontov

O Herói do Nosso Tempo, de Mikhail Liérmontov

Ah, a literatura russa do século XIX… Quando jovem, eu achava que ela era um fenômeno que se limitava a indivíduos como Dostoiévski, Púchkin, Gógol, Tolstói, Tchékhov, Turguêniev — e já eram muitos para um país semifeudal, pobre e lotado de analfabetos e escravos! — mas depois fui adiante com Oblómov e este O herói do nosso tempo (Martins Fontes, 221 páginas). E, olha, que livros, que literatura!

(Bem, os argentinos também têm uma penca de escritores fantásticos vá saber por quê).

Liérmontov foi um dezembrista. Ocorrida na Rússia em 1825, a Revolta Dezembrista desejava a supressão do regime servil, o fim do feudalismo, a implantação de uma democracia representativa na Rússia czarista, programas de incentivo às artes e às ciências e aproximação do país à Europa. O czar Nicolai I respondeu às reivindicações com repressão implacável, censura, tortura e o fim das atividades científicas. E, desta forma bolsonarista, venceu, sufocando a revolta. Tal tragédia foi respondida por um clima de indiferença a todo o sentido de dever, justiça e verdade, além de um desdém cínico pelo pensamento e pela dignidade do homem. É claro que isto foi impulsionado pela novidade do romantismo, que estava em seu início.

Por que iniciei minha resenha assim? Ora, porque tudo isso está incrustrado no personagem principal do livro, Pietchórin. O Herói do Nosso Tempo é não somente o retrato desse herói entediado, mas também desse tempo em que as dissidências foram esmagadas e só resta o imobilismo geral ou a exibição cínica do desinteresse. É claro que os czaristas achavam o livro desprezível.

A obra-prima de Mikhail Liérmontov é um dos mais influentes e importantes romances russos. Ele é composto por cinco seções, todas girando em torno de Pietchórin. Ele é um dos personagens mais ambíguos da literatura mundial: mente, engana e manipula os outros para obter o que deseja – e quando consegue já não sabe mais se quer aquilo.

O Herói do Nosso Tempo não é o habitual calhamaço russo. Tem pouco mais de 200 páginas e vem com um pequeno elenco de personagens. Como disse, o livro é dividido em cinco partes, sempre com o mesmo personagem principal, o citado Pietchórin. Com ele, Liérmontov talvez tenha criado o primeiro anti-herói da literatura. Num primeiro momento, Liérmontov faz com que o cínico e sem raízes Pietchórin aproxime-se de nós por meio das reminiscências de um veterano capitão que servia no Cáucaso. Em seguida, o conhecemos rápida e diretamente e, finalmente, por meio de seus próprios diários, que acabam abruptamente, como se o autor tivesse simplesmente largado a caneta.

Ou levado um tiro. A vida de Liérmontov não ficou muito distante da de seu personagem: afinal, o autor também serviu como oficial no Cáucaso, entrou em encrencas românticas e perdeu a vida em um duelo. Aliás, provavelmente, este duelo tenha sido provocado por ordem de Nicolau I. No momento do tiro, Liérmontov ergueu a arma e atirou para o alto, porém, seu “desafeto” cumpriu a ordem do czar e o autor morreu aos 27 anos com um tiro à queima-roupa, tendo deixado este estranho e belo romance e uma importante obra poética que todo russo conhece.

Pietchórin é certamente uma versão endurecida de Liérmontov. Era alguém que poderia manipular os corações das mulheres aparentemente à vontade, ou que poderia alegremente ir a um duelo fraudulento. “E daí? Se eu morrer, morrerei! A perda para o mundo não será grande. Sim, já estou bastante entediado comigo mesmo. Sou como um homem que está bocejando em um baile”.

Pietchórin é uma grande criação. Ele é por demais atraente e envolvente. Pode ter características lamentáveis ​​e é uma ameaça a si mesmo e àqueles ao seu redor. É desagradável muitas vezes. “Talvez alguns leitores queiram saber minha opinião sobre o caráter de Pietchórin. Minha resposta é o título deste livro. ‘É, eis uma ironia ferina!’, — dirão. Não sei”. Essas duas últimas palavras resumem lindamente a ambiguidade do livro. O próprio prefácio de Liérmontov diz que o livro é “um retrato composto das falhas de toda a nossa geração em seu desenvolvimento completo” e também usa a palavra “desagradável” para descrever Pietchórin.

O Herói do Nosso Tempo é narrado em primeira pessoa por três personagens diferentes, sendo que o último é o próprio Pietchórin escrevendo um diário. Tudo é digno de interesse, e gostei muito da sensação estética de ver o que vai se revelando para compor o personagem à medida que os capítulos vão passando. O livro é de arrebatador. Não preciso nem dizer que, como os russos de sua época, Liérmontov foi um mestre.

Mikhail Liérmontov (1814-1841)

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Minha palestrinha sobre ‘Manual da Faxineira’ no Instituto Ling

Ontem, 24 de agosto, no Clube de Leitura do Instituto Ling, tivemos um longo papo sobre esta obra-prima que é Manual da Faxineira, de Lucia Berlin.

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Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (final)

Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (final)
Oaxaca, México, em 1964

Então, agora vamos fazer o elogio de alguns dos contos do livro.

Manual da Faxineira traz 43 dos 78 contos que Lucia Berlin escreveu. Ela é concisa porque é precisa, é brutal porque trata do horrível da vida e é desiludida (no sentido de realista), mas nunca ao ponto de tornar-se melancólica. E há sempre o humor, que sempre parece garantir que há alguma coisa de divertida para além do horror.

“Não me importo de dizer coisas horríveis, desde que possa torná-las engraçadas”, diz a narradora do conto Silêncio. Serve para todo o livro.

A propósito, Silêncio é um dos melhores contos da coleção. A ação ocorre em El Paso, enquanto o pai da menina protagonista está na guerra. A mãe é uma alcoolista que pune a filha injustamente. O avô é abusador. Já o tio é outro alcoolista, mas é delicado e relaciona-se bem com a menina Lucia. Certo dia, ela apanha da mãe sem justificativa e passa a não falar mais. Mas ela conversa com o tio amigo, que só de vê-la descobre que cinta para a escoliose está apertada e tem que ser trocada. Depois o tio comete um grande erro — na rua, durante uma bebedeira, sem relação direta com a menina — sobre o qual é necessário também silenciar. Ele foge. Quando li o conto pela segunda vez, ele me pareceu quase um ensaio sobre a culpa e a delicadeza, a irritação e a vergonha. O final é uma paulada. Eles se reencontram anos depois:

“Conversamos sobre a vida, contamos piadas. Nenhum dos dois sequer mencionou El Paso. Claro que, a essa altura, eu já tinha percebido todas as razões de ele não ter parado o caminhão naquele dia, porque a essa altura eu era alcoólatra”. (p. 419)

O conto Manual da Faxineira é pura diversão triste. É uma montanha de fragmentos curiosos e engraçados sobre ser faxineira, sem explicar os motivos que levaram uma pessoa tão culta àquela situação:

“Mostre a eles que você faz um serviço completo. No primeiro dia, ponha todos os móveis de volta no lugar errado… dez a vinte centímetros mais para um lado, ou virados em outra direção. Quando tirar o pó, inverta a posição dos gatos siameses. Ponha a cremeira à esquerda do açucareiro. Troque as escovas de dentes de lugar”. (p. 47)

Ela explica isso querendo dizer que nem precisa limpar muito, é só mostrar que tudo foi mexido.

O esplêndido Desgarrados é ambientado em uma espécie de colônia para dependentes químicos e alcoolistas. É um projeto piloto de reabilitação, ironicamente chamado de “La vida”. Fica no meio do deserto, isolado, onde os internos, após receberem as doses matinais de metadona, realizam trabalhos compulsórios. O cenário é hostil, brutal em todos os sentidos, os companheiros de reclusão da narradora são figuras tristes, desgarradas, como indica o título. E mesmo assim, em meio a tudo que há de inóspito, há a lua, e a capacidade da narradora de ver uma brecha na rudeza ao redor.

A lua é vista refletida nos olhos amarelos de um cão. Nada importa muito, sabe? Quer dizer, nada importa de verdade. Mas aí, às vezes, só por um segundo, é como se você recebesse uma graça, a crença de que aquilo importa muito. (p. 221)

Outro trecho potente está em Mordidas de tigre. Quando uma jovem de dezenove anos, com um filho de um ano, grávida do segundo e abandonada pelo marido, se vê em uma clínica clandestina de aborto, rodeada por mulheres constrangidas e amedrontadas. Ela então percebe que não quer realizar o aborto, que por mais ingratas que as perspectivas sejam, ela, o filho e o bebê por vir podem ser uma família. Não é algum otimismo pueril, é o horror transfigurado, é a beleza possível da vida, que não exclui o trágico, que se trata mais de uma tomada de posição subjetiva perante o adverso, a tristeza, a solidão.

Muito diferente é Mijito (contração de Mi hijito) uma narrativa pungente de uma mexicana cujo marido é preso. Ela está grávida, não sabe falar inglês e, na verdade, mal sabe pensar. As narradoras são uma atendente de clínica médica, supõe-se que a própria Lucia novamente, e a mãe. O filho nasce, lhe aparece uma hérnia e deve ser operado. A mãe trabalha para amigos do marido preso, fazendo serviços eventuais. Eles as detestam, à mãe e à criança. A mãe não consegue ir às consultas porque tem compromissos ou perde caronas. Também não consegue deixar seu bebê em jejum para a operação. Onde está o humor em toda esta desgraça? Na rotina da clínica, que vê tudo acontecer sob olhos mais ou menos calmos. Um conto de horror absoluto contado em ritmo de dança.

Como ela consegue dar um jeito de misturar humor e horror de uma forma que nos deixa perplexos?

Em outros contos, por exemplo: a jovem que assiste o médico introduzir o mecanismo para realizar abortos descreve o procedimento:

“… empurrando lentamente o tubo lá para dentro, como quem recheia um peru”. (p. 101)

Ou a idosa que observa um funcionário que mede o banheiro para trocar o ladrilho:

“Aquela sua catinga era como uma madeleine para mim, trazendo de volta vovô e Tio John, para começar”. (p. 475)

Ora, comparar a madeleine de Proust com o odor de um homem velho e gordo demais para realizar o serviço pelo qual ela o contratou, e o poder desse cheiro de levar a narradora de volta à infância… É esse o tipo de transformação que Berlin cria.

Ou em Amigos, quando ela pensa que está ajudando — e se sacrificando um pouco por — um casal solitário de velhos e ouve o seguinte diálogo:

— Ela nunca se atrasou antes Talvez ela não venha.

— Ah, ela vem sim… essas manhãs significam tanto para ela.

— Coitada, tão sozinha. Ela precisa de nós. Na verdade, somos a única família que ela tem. 

— Ela com certeza adora minhas histórias. Droga. Não estou conseguindo pensar em nenhuma história para contar pra ela hoje.

— Alguma coisa vai acabar te ocorrendo… (p. 191)

É difícil pensar que ela, a escritora, fosse tímida, mas aparentemente ela poderia ser. O belo romance de Quero ver aquele seu sorriso — onde um apaixonado casal sempre bêbado atrai um advogado caro para defender a mulher acusada de uma agressão a policiais e que acaba seduzido pelo estilo de vida deles, no mais longo e um dos melhores contos do livro — e as histórias hospitalares de Meu Jockey, Caderno de notas do setor de emergência, Temps Perdu não apontam para uma pessoa retraída.

Porém, há um vídeo que sobreviveu de uma leitura em Oakland em 1984, e ela não parece nada à vontade. Um amigo disse que “Era como se ela tivesse medo de errar, medo de agir como uma alcoólatra: cair, vomitar bobagens, agir como uma louca”.

Pois bem, há vários contos sobre alcoolismo. Um ansioso e trágico é Incontrolável, onde a personagem principal espera que o supermercado abra às 6h da manhã para que ela possa comprar o álcool salvador. Ela estava trêmula e hiperventilando. Se não tomasse logo algo entraria em delirium tremens. O filho fica com as chaves do carro e a carteira de motorista por segurança. A tranquilidade da casa faz enorme contraste com a abstinência.

Há o cômico 502. Bêbada, ela deixa o carro estacionado em ponto morto e vai dormir em casa. Bem, o carro acaba descendo a rua quando o carro de frente desencosta. Ele vai longe até bater num prédio, mas não machuca ninguém. Os bêbados amigos dela, todos eles negros que costumam beber dentro de um caro abandonado e sem motor da rua, a defendem junto à autoridade policial. Como é que ela vai ser multada se estava dormindo em casa???

“Se você não está dirigindo, não pode ser multado por dirigir embriagado”. (p. 456)

Depois, quando conseguiu se recuperar, seguia avaliando cidades pelo nível de dificuldade para arranjar bebidas.

Ela deixa de beber depois dos 50 anos de idade enquanto cuida da irmã mais nova que morreu de câncer na Cidade do México. Em várias histórias — Espere um instante, Mamãe, Dor — os últimos meses da vida de Sally são contados de várias maneiras, em situações sempre diferentes e complementares.

Em seus relatos há enfermeiras, professoras, faxineiras que oferecem interessantes conselhos — “Pegue tudo que sua patroa te dê e agradeça. Pode deixar no ônibus, entre os bancos –, e também há muitas garrafas de uísque, bebedeiras, vícios, viagens para o México, uma avó que pede que seus netos se afastem dela como se fossem cachorros. As histórias acontecem em centros de desintoxicação, hospitais, casas de família.

Em suas explorações da memória pessoal, Berlin tem um controle nada trêmulo de suas narrativas. As conclusões não são nada reconfortantes: quanto mais velhos ficamos, mais nossas lembranças se tornam catálogos de perdas. Parentes morrem, relacionamentos se desfazem. “As partes boas são tão difíceis de lidar quanto as ruins”, conclui uma das personagens.

Já falei sobre isso, mas vamos de novo. A última história que Berlin escreveu, B.F. e eu, é sobre uma mulher idosa em um trailer, amarrada a um tanque de oxigênio, tentando conseguir um faz-tudo para colocar ladrilhos novos em seu banheiro, acaba recebendo um senhor tão velho e quase tão enfisêmico quanto ela para fazer o serviço. O conto tem uma conclusão apropriadamente não sentimental. Como já dissemos, o ladrilheiro faz com que ela invoque Proust, como outra história que se chama Temps Perdu.

[B. F.] era um homem enorme, alto, muito gordo e muito velho. Mesmo enquanto ele ainda estava do lado de fora, tentando recuperar o fôlego, eu já estava sentindo o cheiro dele. Tabaco e lã suja, suor fedorento de alcoólatra. Gostei dele de cara. […] Fiquei vendo B. F. medir o banheiro durante um tempo, depois fui me sentar na cozinha. Continuei sentindo o cheiro dele de lá.  Aquela sua catinga era uma madeleine para mim, trazendo de volta vovô [o dentista alcoolista e arrancador de dentes] e o Tio John [aquele que fugiu do atropelamento], para começar. (p. 475)

Como vemos, assim como na grande obra circular de Proust, em Lucia Berlin o fim se torna um caminho de volta ao início. E, por falar em fim, acho que, assim, chegamos ao nosso final, desejando termos dado a vocês uma boa ideia do que é esta grande escritora.

Com Rascunho e The Guardian.

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Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (III)

Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (III)

Primeiro, eu vi Manual da Faxineira em sua edição portuguesa de 2016, chamada Manual para Mulheres de Limpeza. O livro fora lançado em 2015 nos EUA.

11 anos após sua morte, Lucia ganhava enorme reconhecimento e levava quase todos os prêmios de Melhor Livro do Ano nos EUA e Reino Unido.

Manual chegou ao Brasil em 2017. Mas voltando à edição portuguesa, foi com alguma irritação que li na orelha a frase “Lucia Berlin talvez seja a melhor escritora de todos os tempos”. Pô! É claro que isto afasta os leitores pelo exagero e vazio de significado. Não comprei o livro.

Quando li a edição brasileira da Cia. das Letras, a frase portuguesa seguia me irritando pela banalidade. Afinal, há tanta coisa diferente para se dizer sobre o livro, Lucia é tão diversa e original que a única coisa que aproveitei daquela orelha foi a de saber que a autora preferia ouvir seu nome à maneira da América espanhola: “Lu-ssí-a”, em vez da pronúncia anglo-saxônica ou italiana.

Compreendo, porém, o entusiasmo que a escrita de Berlin causa. Durante e após a leitura, parece que somos forçados a falar sobre o que estamos lendo e em nosso discurso brotam frases desbragadamente elogiosas. Igualmente, quando lemos os dois textos finais do livro, dos ensaístas Lydia Davis e Stephen Emerson, notamos suas dificuldades na escolha dos adjetivos.

Personagens

A tentação é grande de falar mais das aventuras e desventuras da autora do que de seus contos. O que seria uma grande injustiça porque, como escritora, ela consegue muito. Conta boas histórias, tem humor e encanta o leitor. Sério, sua escrita sem floreios desliza diante de nossos olhos com a fluência de uma conversa entre amigos. Os personagens são quase sempre seres atrapalhados que vão tropeçando em suas fraquezas, mas — e aí chegamos ao crucial — a autora não os ridiculariza, não tem pena deles, não dramatiza suas desgraças. No fundo, todo mundo é igual — ela parece nos dizer — seja o índio bêbado de Albuquerque, a beldade que sonha com Hollywood, a grávida que conta o que viu na clínica de abortos, a mãe que se apaixona pelo amigo do filho, a alcoólatra que sai de madrugada para comprar uísque antes que as crianças acordem, a mulher negra e bem-sucedida que trata com desdém a faxineira.

Em seus tempos de alcoolismo pesado, Lucia trabalhou como faxineira mesmo tendo diploma universitário. “As faxineiras mais antigas nem sempre me aceitam com muita facilidade. E é difícil arranjar serviços de faxina também, porque eu sou ‘instruída’. Só que eu não tenho conseguido de jeito nenhum arranjar outro tipo de trabalho.” É Lucia falando através da personagem principal do conto que dá nome ao livro.

Virtuosismos

Já falei sobre o primeiro conto do livro, aquele em que ela narra fatos ocorridos em duas lavanderias separadas tanto geográfica quando temporalmente, então falemos de outro conto, Ponto de vista.

Nesta história, que poderíamos chamar de experimental, a narradora confessa sobre o personagem que está criando: “…O que eu espero conseguir fazer é, por meio da utilização de detalhes intrincados, tornar essa mulher tão verossímil que você não tenha como deixar de se compadecer dela.” Ela consegue isso com aparente facilidade. Mais: ela nos dá duas opções de parágrafo para abordar a personagem, uma boa e outra ante a qual o leitor reagiria com um “Ah, tenha a santa paciência”. (pág. 66 e 67 da edição brasileira).

Neste conto inacreditavelmente original e elegante, há mais duplicidades, há comparações entre a atual assistente de um consultório médico e sua antecessora, a narradora. Mas não pensem que isso resulte numa leitura complexa, é tudo muito claro. Em dado momento a narradora diz que jamais adotaria a postura de sua personagem frente a um médico, que aquilo é um erro, mas que sua personagem faz refeições modestas e solitárias usando “belíssimos talheres italianos de inox”, assim como ela, a narradora, conta fazer.

Nas últimas linhas, a confusão entre a narradora-assistente e sua personagem é total. Tanto que, após descrever o personagem solitário observando alguém na rua, o narrador diz: “Eu me apoio no peitoril frio da janela e fico observando o homem.”. E já não sabemos quem é o “eu”. Repito: toda esta complexidade vem muito clara e distinta para o leitor, que fica pensando no quanto nossas histórias pessoais se alteram quando em contato com diferentes personagens.

Essas confusões propositais reforçam a impressão de que a escrita de Lucia é, mais do que ficção, memória escrita ao sabor do fluxo de consciência. Como se ela arrancasse páginas de seu diário e as publicasse isoladamente, oferecendo-as para nós, leitores, como histórias curtas. Contribui para esta impressão o fato de que o mesmo personagem ressurge em diferentes fases da vida. A jovem que vive com um músico em um conto é também a mãe que abriga os filhos em uma manhã gelada de Nova York e que, madura, cuidará da irmã à beira da morte? A mulher que descreve a clínica de reabilitação é a mesma que esquece de frear o carro estacionado em uma subida para pavor e graça de seus amigos, alcoolistas como ela? Certamente.

Mais: Lucia tem o costume de usar poucas linhas e frases curtas e diretas para nos contextualizar. Rapidamente, ficamos conhecendo o local onde estamos e também o gênero de pessoa que está a falar conosco. Às vezes, ela nos dá o contexto em frases sem verbo. Um exemplo com verbos:

“O ônibus está atrasado. Carros passam. Gente rica dentro de carro nunca olha para as pessoas na rua. Gente pobre sempre olha… na verdade, às vezes parece que elas estão só passeando, olhando para as pessoas na rua. Eu já fiz isso. Gente pobre espera muito. Em postos de previdência social, filas de desempregados, lavanderias, cabines telefônicas, prontos-socorros, prisões, etc.” (p. 40)

Ou seja, apesar de não perder tempo com descrições de ambientes, ela é muito eficiente nisso, é uma escritora atenta a todos os pormenores e que sabe a importância deles para caracterizar um lugar, uma pessoa e uma vida.

Em Tremoços-de-flor-azul, Berlin declara diretamente a um professor de filosofia, cujo último livro acabou de traduzir, e que se entusiasma a falar com ela sobre Heidegger, Wittgenstein, Derrida e Chomsky:

Desculpe. Eu sou poeta. Lido com o específico. Fico perdida no abstrato. Eu  simplesmente não tenho a bagagem para discutir essas coisas com você” (p. 276)

E é com o específico, o particular, que nos deparamos em cada conto e em cada descrição concreta, precisa, detalhada. Esta afirmação, dirigida ao professor de filosofia, é uma declaração da autora acerca daquilo que faz sua escrita. Não há abstração. Todos os contos são Berlin a falar da sua vida, quer ela se chame Maria, Carlotta, Loretta, Dottie, Adele, quer os seus filhos se chamem Nick ou Ben, ou o seu marido ou amante seja Jesse, Rex ou Mel. É sempre a voz e o carácter de Berlin, os lugares onde sabemos que viveu, as pessoas que conheceu, seus parentes, o alcoolismo, as situações pelas quais passou, etc. Ninguém sente sono lendo as histórias, que têm viradas a cada momento. Claro que ela tem maiores preocupações com a estrutura, a técnica, e menos com ser exatamente fiel à realidade. Tudo o que ela narra pode ter sido sua vida, mas nossas histórias jamais nascem prontas para virar bons contos.

Do humor

A violência das situações descritas na maioria dos contos, de natureza física e emocional, é contrabalançada pelo humor que Berlin introduz no relato desses acontecimentos. Não há como não rirmos alto quando, após termos assistido detalhadamente à extração a sangue frio de cada dente da boca do avô de Berlin, realizada por ele mesmo e pela própria Lucia, ainda criança, em Dr. H. A. Moynihan, nos deparamos com este cenário:

Eu queria pegar uns saquinhos de chá; meu avô costumava fazer os pacientes morderem saquinhos de chá para estancar o sangramento. (…) A toalha de papel que eu tinha posto na boca do meu avô estava encharcada de sangue agora. Joguei-a no chão, enfiei um punhado de saquinhos de chá na boca dele e apertei os maxilares um contra o outro. Gritei. Sem dente nenhum, o rosto dele parecia uma caveira, ossos brancos em cima do pescoço ensanguentado. Um monstro medonho, um bule de chá que ganhou vida, com etiquetas amarelas e pretas de chá Lipton penduradas como enfeites de Carnaval. (p. 21)

E mais à frente, há o conto Sex Appeal, de humor rasgado. A prima linda resolve ir a Hollywood. Como acha que tem peitos pequenos, usa um sutiã com enchimento. Pega um avião para ir à Califórnia e, quando este ganha altura, o sutiã explode na cabine despressurizada. Mas não é por isso que ela retorna. Depois, há um baile na cidade no qual estará presente um famoso alguém. A prima vai acompanhada da menina Lucia, então com dez anos. No baile, a prima atrai o famoso homenageado com seu irresistível sex appeal. Mas vai ao banheiro e então fica claro que o cara desejava era a menininha Lucia. Tudo isso é contado de forma hilariante e leve, mesmo que o assunto seja pedofilia.

O humor não é um esforço para mitigar os eventos dolorosos ou sensações de perturbação e solidão – é um sintoma do modo como Berlin observa as pessoas, os lugares e as situações. Apesar do carácter sombrio de alguns contos, apesar mesmo de Berlin confessar, no final de Mamãe, que não tem compaixão nenhuma pela mãe já falecida, não há qualquer resquício de ressentimento ou raiva nas histórias.

Nascimentos, mortes, abortos, violações, traições, alcoolismo, abandono, reencontros, faz tudo parte de uma vida que é sempre vista afirmativamente, em tudo aquilo que a compõe. Em Boba de chorar, Carlotta almoça com Basil no dia de aniversário dela. Estão ambos nos seus cinquenta anos. Ele é apaixonado por ela desde a adolescência, mas foi preterido em favor de outro rapaz, e não é difícil perceber por quê:

«Você e Hilda costumam ir para o litoral?”, perguntei.

«Como alguém conseguiria, depois de frequentar a costa do Chile? Não vou, há sempre muitas hordas de americanos. Eu acho o Pacífico mexicano entediante.»

«Basil, como você pode achar um oceano entediante?»

«O que você acha entediante?»

«Na verdade, nada. Eu nunca fiquei entediada.» (p. 292)

Nem ela, nem nós, quando lemos estas histórias. Mas é mais do que não sentirmos aborrecimento: é sentirmo-nos a viver com ela da maneira como ela vive, chegando até a desejar estar numa prisão no meio do deserto de Albuquerque, pela forma como isso é descrito. Afirmar isto, admita-se, não está longe de classificar a sua escrita de “colorida” ou “vibrante”. A dificuldade de falar de Lucia Berlin reside precisamente em percebermos que a escrita é tecnicamente perfeita e que a tentativa de explicar a experiência da leitura resultará sempre insatisfatória.

Ser comparada a escritores como Raymond Carver ou Tchékhov é um elogio e sinal do talento de Berlin, mas ela é única. Mais do que qualificá-la, entre aspas, “como a melhor escritora de todos os tempos”, o que importa dizer é que ela foi uma escritora de raras virtudes e que, tão importante quanto o talento de Berlin para os detalhes precisos e cortantes, é o que ela deixa de fora.

Existem mestres do parágrafo e mestres da frase; Lucia Berlin é a mestra do fragmento. Suas fotografias de momentos e sua habilidade narrativa faz com que a leitura avance sem resistências, alta velocidade. A história parece que se impulsiona para a frente, sem deixar de ser inteligente ou terrível.

(segue)

Com Observador.pt e Cândido.

LITERARY ESTATE OF LUCIA BERLIN / Divulgação

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Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (II)

Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (II)

Conhecer a biografia de Lucia Berlin não é fundamental para entender seus contos, mas a relação entre vida x ficção faz com que quase consideremos sua obra como autoficção. “Eu exagero muito e confundo ficção e realidade, mas nunca minto” é uma frase importante que a própria autora proferiu a respeito de seus contos. Seu filho Mark disse que ela escreveu histórias verdadeiras, não exatamente autobiográficas, mas muito próximas de situações vivenciadas. Suas histórias — muitas vezes duríssimas — era o que, incrivelmente, ela contava para fazer seus filhos dormirem e algumas delas chegaram à contos que ela digitava na máquina de escrever até altas horas da noite, ao lado de uma garrafa de whisky que desaparecia rapidamente. Sim, com as pequenas alterações de praxe — nomes, locais, talvez exageros –, ela retirava de sua própria vida o material para os contos. E muitas vezes sem alterações. Por exemplo, a irmã Sally está em vários de seus contos e, bem, sua irmã chamava-se Sally e os acontecimentos que a cercam nos relatos “ficcionais” de Berlin são exatamente os mesmos da biografia da irmã. Esta era mais nova e morreu de câncer na Cidade do México, na vida real e nos contos, etc.

Lucia Berlin teve uma vida surpreendente, quase inacreditável, com muitas mudanças de situação, profissões e cidades, além do alcoolismo como o qual conviveu por décadas. Teve muitos casos amorosos. Parece que os homens apaixonavam-se facilmente por ela, o que não é muito difícil de entender. Foi uma mulher muito bonita, com algo de uma versão em tamanho maior de Elizabeth Taylor no formato do rosto e nos olhos azuis-gelo. Também foi uma professora muito querida por seus alunos, o que é claro sinal de boa expressão, simpatia e talento. Com isso, quero caracterizar uma mulher que devia ser pessoalmente fascinante.

Albuquerque, Novo México, 1954, aos 18 anos

Ela nasceu Lucia Brown em 1936, no Alasca, e morreu em 2004 no dia de seu próprio aniversário, aos 68 anos, distinção que divide com Shakespeare. A família logo se mudou. Seu pai era Engenheiro de Minas e os primeiros anos da escritora foram vividos em campos de mineração nos estados de Idaho, Kentucky e Montana. Em 1941, quando a futura escritora tinha 5 anos, o pai de Lucia partiu para a guerra e sua mãe mudou-se com ela e sua irmã mais nova para El Paso, no Texas, bem na fronteira com o México, onde seu avô era um conhecido dentista. O dentista aparece depois nos contos, claro.

Sim, a segunda história do livro é sobre o avô e é dantesca. Conta como ele arrancou os próprios dentes para colocar em si mesmo uma dentadura que seria sua obra-prima, a réplica perfeita de seus dentes. Ele seria o melhor dentista de El Paso. Detalhe: nas janelas de seu consultório, estava gravado “Dr. H. A. Moynihan. Eu não trabalho para negros”.

Aos 10 anos, Lucia teve a primeira crise de escoliose — como ela diz em vários contos, sua coluna vertebral tinha a forma de um S. Esta foi uma condição dolorosa que a acompanhou por toda a vida e que muitas vezes lhe exigiu o uso de cintas de aço. Aliás, na terceira história do livro, Estrelas e Santos, a escoliose é central. Ela sofria bullying por ser muito alta, meio torta, por usar um aparelho ortopédico nas costas e por responder a todas as perguntas da professora até calar-se para sempre, ao menos naquele colégio, em razão de um fato. Mas chega de spoilers. Só lhes digo que o final de Estrelas e Santos é abrupto e inesquecível.

Logo após voltar da guerra, o pai de Berlin levou a família para Santiago do Chile, onde ele passara a ocupar um importante cargo numa multinacional mineradora. Em Santiago, Lucia embarcou numa existência glamurosa, rica e extravagante. Lá, frequentava muitas festas. Imaginem que seu primeiro cigarro foi aceso pelo príncipe Ali Khan, do Paquistão — que foi vice-presidente da ONU e que casou com Rita Hayworth.

Lucia Berlin (direita) em 1949, ela tinha 13 anos

No Chile, ela terminou a formação escolar, enquanto servia como a anfitriã perfeita para as reuniões dos amigos de seu pai. Depois. a língua espanhola apareceu em muitos de seus contos e ela amava o México, assim como a postura mais liberal das pessoas da América espanhola. Sim, no conto Boa e Má, há um retrato de uma professora comunista que levava a jovem personagem principal para trabalhar para a população pobre durante os finais de semana. A professora queria causar algum desconforto a ela e fazer a cooptação da jovem privilegiada para a causa. Não deu muito certo e não por culpa de nenhuma das duas. Estou evitando spoilers.

Aos 18 anos, em 1954, ela se matriculou na Universidade do Novo México, em Albuquerque (EUA). Logo casou e teve dois filhos. Durante a gravidez do segundo filho, o marido se foi. Berlin completou sua graduação e casou-se com o pianista de jazz Race Newton em 1958 (22 anos). Suas primeiras histórias apareceram sob o nome de Lucia Newton. No ano seguinte, eles e as crianças se mudaram para um loft em Nova York.

Em 1961 (25), Lucia teve um caso com um amigo de Newton, Buddy Berlin, e o novo casal acabou viajando para o México. Berlin tornou-se o terceiro marido dela. Ele era carismático e rico. E bebia muito. Durante os anos 1962-65, mais dois filhos nasceram.

Preciso dizer que todos estes casamentos e filhos estão em suas histórias?

Em 1967, quando Lucia tinha 31 anos, os Berlin se divorciaram. Na época, Lucia estava fazendo um mestrado na Universidade do Novo México. Ela nunca casou novamente.

Os anos de 1971 a 94, isto é, entre os 35 e 58 anos de idade, foram passados ​​em Berkeley e Oakland, na Califórnia. Berlin trabalhou como professora do ensino médio, telefonista, recepcionista de hospital, faxineira e assistente de clínica médica, enquanto escrevia, criava seus quatro filhos e bebia, bebia e bebia. Em 94, venceu o alcoolismo após passar boa parte de 91 e 92 na casa da irmã, na Cidade do México, onde esta estava morrendo de câncer. A mãe morreu em 1986, num provável suicídio.

Em 1994, Edward Dorn levou Berlin para a Universidade do Colorado, e ela passou os seis anos seguintes em Boulder como escritora visitante e, finalmente, professora associada. Neste cargo, ela se tornou incrivelmente popular e amada pelos alunos. Em seu segundo ano, ela recebeu um prêmio da universidade por excelência em ensino.

Os amigos diziam que Lucia Berlin tinha lido tudo e todos e podia falar sobre isso com grande humor e paixão. Fazendo uma interrupção nada a ver, digo que ela acreditava que o mundo de Jane Austen “era tão duro quanto um alcoólatra em um quarto de motel em uma história de Raymond Carver”. Concordo com ela.

Fechando o parêntese, digo que o conteúdo autobiográfico das histórias de Berlin não prejudica a vivacidade de sua narrativa nem a astúcia da escritora. Um fino humor mina a feiura de algumas das situações retratadas. Berlin é assim: escreve coisas que a maioria dos autores ficaria envergonhada de compartilhar, depois recosta-se calmamente enquanto rimos e nos diz “Essas coisas… Bem, elas aconteceram comigo”.

Agora vamos falar sobre o livro Manual da Faxineira.

(segue)

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Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (I)

Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (I)

Para abordar uma contista tão rica e surpreendente como Lucia Berlin, vamos fazer antes uma rápida excursão à origem do conto e a sua definição, se é que podemos defini-lo.

Determinar o que exatamente separa um conto de formatos ficcionais mais longos é problemático. A definição clássica foi dada por Poe e é bem simples: “O conto é aquilo que pode ser lido em uma sessão de leitura ou, digamos, em uma sentada”. A interpretação disto pode ser problemática hoje em dia, porque talvez, nos nossos dias, a duração de “uma sentada” possa ser mais curta do que era na época de Poe…

Então, os contos têm tamanhos vagamente definidos. Mas há pessoas que demarcam os gêneros literários em termos de contagem de palavras, como se a diferença entre uma crônica, um conto, uma novela ou um romance pudesse ser definida pelo número de palavras. Eu acho que as definições devem partir do contexto, mas tem gente que insiste em contar palavras e que diz que um conto deve ter menos de 7.500 delas.

Histórias mais longas que não podem ser chamadas de romances são às vezes consideradas “novelas”, que são normalmente publicadas como os contos, em coleções dentro de um só volume ou em pequenos livros com só uma delas.

Mas como o conto surgiu?

Vamos a uma brevíssima história. Os precursores do conto foram as lendas, os contos populares, os de fadas, as fábulas e as anedotas. Claro que estas histórias curtas existiam principalmente na forma oral e assim iam sendo transmitidas de uma geração para outra. Um grande número destes contos é encontrado na literatura antiga, desde os épicos indianos como o Ramayana e o Mahabharata até os épicos homéricos, como a Ilíada e a Odisseia. As 1001 Noites, compiladas pela primeira vez provavelmente no século VIII, também é um repositório de contos folclóricos do Oriente Médio.

Na Europa, a tradição oral de contar histórias passou para o papel no início do século XIV, principalmente com os Contos de Canterbury, de Chaucer,  e o Decamerão, de Boccaccio. Ambos os livros são compostos de contos individuais — que variam de histórias de humor rasgado até ficções literárias mais elaboradas — inseridos em uma narrativa mais ampla, aliás como já eram As 1001 Noites.

Na década de 1690, os contos de fadas tradicionais começaram a ser publicados por Charles Perrault. Logo depois, apareceu a primeira tradução moderna para o francês de As 1001 Noites, a qual teria enorme influência nos contos europeus.

As primeiras coleções de contos, próximas do que hoje se conhece, apareceram entre 1810 e 1830 em vários países ao mesmo tempo. Foi o momento em que o conto começou a abandonar a necessidade de passar uma mensagem, uma moral. Notem, por exemplo, que o livro de contos de Cervantes, escrito em 1613, chama-se Novelas Exemplares.

Então veio a virada de Poe

Edgar Allan Poe (1809-1849)

O grande transformador do conto foi Edgar Allan Poe. Ele criou o conto psicológico, o de terror e deu um passo gigantesco na direção do que seria a literatura policial, que depois adquiriu enorme prestígio e tradição. Mas o principal é que ele iniciou a fase em que o contista narra duas histórias ao mesmo tempo. Não há mais uma moral, mas há uma segunda história subterrânea que vai sendo contada sob a superfície. Esta segunda história não é explicitada. A segunda história contada está escondida sob a primeira, que é a que você lê.

Esta tese não é minha, é do brilhante escritor argentino Ricardo Piglia: ele assegura que o segredo de um conto bem escrito é que, na realidade, todo conto conta duas histórias: uma em primeiro plano e outra que se constrói em segredo. A arte do contista estaria em saber cifrar a segunda história nos interstícios da primeira. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de forma elíptica e fragmentária. O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta nos salta aos olhos. Às vezes, o que parece  supérfluo para uma história é fundamental para a outra.

Vou dar um exemplo para que fique mais claro. Acho que todos conhecem o conto Missa do Galo, de Machado de Assis, um dos contos mais perfeitos que conheço. A história da superfície mostra o narrador, Nogueira, relembrando uma noite da sua juventude e a conversa que teve com uma mulher mais velha, D. Conceição. Ironicamente, mestre Machado inicia o conto com a seguinte frase: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta”. Esta história é tão, mas tão perfeita, que o narrador nos confessa logo de cara que não entendeu a segunda história. E ele passa a nos encher de detalhes e diálogos. Vemos claramente, sob nossos olhos, o desenrolar da segunda história, contada muito aos pedaços e sutilmente, a de como vive D. Conceição, a de como seu marido a abandona em casa, a de sua falta de afeto, os motivos que ela tinha para tentar seduzir o menino.

Outra coisa é a maestria de Machado. Ele não apenas demonstra tudo isso, como fica claro o momento em que D. Conceição para de tentar, pois, certamente pouco conhecedora da arte da sedução, ela erra a mão e deixa passar o momento. E Machado nos demonstra tudo isso sem frases como “Conceição cansou e desistiu do menino”.

Depois, Joyce inverteu este modelo. Em Dublinenses, parece que a história 2 comenta a 1, às vezes a ataca ou duvida dela.

Lucia Berlin usa e abusa destes artifícios e de outros. Por exemplo, no conto que abre Manual da Faxineira, Lavanderia Angel`s, ela conta duas histórias de superfície. Ambas acontecem dentro de lavanderias self-services, dessas de moedas, uma em Nova York e outra em Albuquerque, no Novo México. As duas histórias estão separadas não somente geográfica como temporalmente. E ambas contam uma terceira história, a da própria autora, mãe de 4 filhos antes dos 30 anos, sempre lavando muita roupa, sempre devaneando muito e causando problemas, como o que ela causa ao apertar botões e reprogramar máquinas que estão lavando as roupas de outrem. Uma mulher inteligente, muito bonita, mas que parece um tanto inadequada ao mundo.

Agora, somos obrigados a falar da biografia de Lucia Berlin porque ela sempre escreveu sobre si mesma.

(continua com uma pequena biografia de Lucia Berlin)

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Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Reli o super clássico Memórias póstumas de Brás Cubas, a obra que marcou uma mudança radical na produção de Machado de Assis. Na época, Machado tinha 41 anos — a história foi publicada em folhetim em 1880, tomando a forma de livro no ano seguinte — e ele era considerado um excelente escritor do romantismo. Pois então veio Brás Cubas veio para mudar e dar um salto de qualidade não somente dentro de sua obra como no panorama da literatura brasileira. Memórias Póstumas é o livro que faz a transição do romantismo para o realismo, incutindo audácia e graça, refinamento e pessimismo, sensualidade e humor (às vezes negro) em nossa literatura. Os críticos torceram o nariz e depois se curvaram ao novo estilo livre de Machado, fã confesso de Laurence Sterne.

Anos depois, ao escrever o prefácio de Helena, romance de sua fase romântica (1876), Machado comenta rapidamente sua revolução:

Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. Dos que então fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e diferente páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. E claro que, em nenhum caso, lhes tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu tempo.

Brás Cubas é narrado por um defunto e dedicado ao primeiro verme que roeu as frias carnes de seu cadáver e é a celebração do nada que foi a vida do personagem principal. Brás Cubas é um rentista canalha, uma daquelas pessoas que nasceram podendo fazer exatamente nada, para apenas ficar administrando a herança recebida do pai e tentando vagamente uma carreira na política. Boa-vida, ele representa maravilhosamente nossa elite endinheirada, fútil e amante de privilégios. Sua vida é basicamente a narração de seus amores, por onde vazam suas características pessoais.

Primeiro vem Marcela, uma bela cortesã que trata de obter ganho financeiro de Brás Cubas, fato que só cessa com a intervenção de papai, que o manda estudar em Coimbra, de onde ele volta formado em Direito. De seu curso, ele mesmo diz que colheu “de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação”. O resto foram festas. Quando volta, seu pai quer vê-lo casado e deputado… E aparece Eugênia, a flor da moita, uma coxa que se enamora dele, mas que não se deixa humilhar com a certa rejeição. Depois vem Vírgília, o grande amor de sua vida. Num episódio que demonstra que Virgília não é flor que se cheire, ela se casa com Lobo Neves. Depois, Brás e ela tornam-se amantes por longos anos. Vírgília toma as páginas do livro, porém ainda há Eulália, a flor do pântano.

Por onde passa, Brás não somente conta de forma sedutora sua vida medíocre, como faz observações bastante cínicas sobre a vida e a política nacionais. Um dos personagens muitas vezes admirados por Brás é seu cunhado Cotrim, uma figura abjeta que trafica escravos e ganha muito com isso. Ao mesmo tempo, Cotrim seria “ferozmente honrado”, um “filantropo dotado de sentimentos pios”, mas com um detalhe: mandava “com frequência escravos para o calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue”.

O texto é maravilhoso. Dividido em 160 capítulos curtos e ziguezagueantes, muitos deles meros exercícios de prosa, o livro é que há de sedutor e grudento. Machado não julga, não dá lições, apenas mostra e deixa seu crápula tagarelar, argumentando à vontade seus motivos e contando os acontecimentos. É uma leitura toda de viés, com o autor não deixando clara sua opinião certamente desfavorável sobre o “herói” do romance. Ao final, quando Brás diz “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, respondemos no mesmo estilo dele: sorte nossa. Só que não adiantou muito, pois ainda estamos lotados de  de Brás Cubas — e de todo gênero de privilegiados — em nosso amado Brasil.

Claro, trata-se de um clássico que merece o lugar-comum: Memórias Póstumas de Brás Cubas é incontornável!

O grande Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

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Em tempos de angústia, nada melhor do que as narrativas sombrias e engraçadas de Charles Dickens

Em tempos de angústia, nada melhor do que as narrativas sombrias e engraçadas de Charles Dickens

Da coluna de JOSÉ ANDRÉS ROJO, no El País
Traduzido livremente por este criado de vocês

Muito foi dito sobre a oportunidade que o confinamento nos proporcionou de reencontrar livros e filmes, ver séries. Falamos também das chances para começar a desenhar ou escrever, para contar coisas, para ouvi-las. Ficamos em casa para ajudar a conter o contágio da doença, e acontece que, entre quatro paredes, havia muitas possibilidades. Nestes momentos em que não se sabe o que finalmente acontecerá e que a suspensão da normalidade mais uma vez valorizou o tempo e, portanto, as histórias, recordamos que Charles Dickens foi um dos mais capazes de contá-las. E este ano está sendo lembrado que ele morreu em 1870, há 150 anos.

E ele tem algo a nos dizer neste momento, as aventuras de seus personagens são interessantes, ele oferece alguma lição, seus assuntos ainda preocupam as pessoas de hoje? Há um momento em um de seus livros em que um de seus personagens deixa cair um chapéu. E este começa a escapar, empurrado por um vento “sutil e brincalhão”. “Existem poucos momentos na vida de um homem”, escreve Dickens, “onde ele experimenta um sofrimento mais grotesco do que quando persegue seu próprio chapéu”. Esse homem é o Sr. Pickwick, fundador de um clube selecionado ao qual outros membros ilustres se juntam a fim de contarem suas aventuras e registrar suas viagens e investigações, suas observações e conjecturas sobre o mundo. E essa autoridade imponente de um clube tão especial sofre esse revés no meio de uma multidão que observava algumas práticas militares. As tropas aparecem em perfeita formação, a banda militar se interrompe para tocar, os cavalos movem suas caudas de um lado para o outro, há uma sucessão interminável de guerreiros de farda vermelha e calças brancas, os soldados se preparam para executar suas exibições de tiros e manobras. E Pickwick está na primeira fila, para não perder nada, e seu chapéu voa.

Dickens estava escrevendo suas histórias em capítulos, o público as esperava, lia e comemorava. Ele contou o que estava acontecendo com os curiosos membros do clube Pickwick, mas também contou histórias tristes de órfãos que viviam terríveis circunstâncias na Londres vitoriana. Casas apertadas e pobreza, mas também mansões e luxo, grandes ambições e esperanças, caminhos truncados, renúncias generosas e manobras repugnantes de exploradores sem escrúpulos. Dickens era um mestre a contar as mais diversas histórias. Você conhece George Silverman`s Explanation, nada mais do que algumas páginas em que ele conta a vida de uma criança que vê seus pais morrerem em um porão infectado e que depois renuncia à mulher que ama?

Onde exatamente estamos agora? Mais perto do homem que sofre ao levar a mulher que ama para os braços de outro ou do pobre diabo que é forçado a se fazer de bobo enquanto corre atrás do chapéu? Certamente de ambos os lados, no caso menor e no que parece maior. As histórias valem a pena e são melhores se forem contadas por alguém tão bom e engraçado como Dickens.

Charles Dickens (7 de fevereiro de 1812 – 9 de junho de 1870)

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Segredos, de Domenico Starnone

Segredos, de Domenico Starnone

Após os excelentes pequenos romances Laços e Assombrações, Domenico Starnone retorna com mais um, Segredos. Os três livros — todos publicados no Brasil pela Todavia — formam uma esplêndida trilogia sobre as complexas tramas dos relacionamentos amorosos e familiares.

Pietro vive um amor tempestuoso com a bela e brilhante Teresa, uma mulher exuberante em todos os sentidos. Ele fora um professor muito admirado por ela na escola. Meses depois de sair da escola, ela procura Pietro e o seduz facilmente. É uma mulher incontrolável, 12 anos mais jovem que o professor. Eles brigam muito e, após uma destas discussões, surge uma ideia: diga-me algo que você nunca disse a ninguém — ela sugere –, diga-me a coisa de que mais se envergonha e farei o mesmo. Deste modo, permaneceremos unidos para sempre.

(Diga-se de passagem que Starnone foi professor de escola por mais de 30 anos).

Unidos? Eles terminarão o relacionamento logo em seguida… Então, quando Pietro conhece Nadia, ele instantaneamente se apaixona por sua timidez e relutância, por sua suavidade, depois de tanta agitação. Só que alguns dias antes do casamento, Teresa reaparece. Ela não quer nada com ele, mas, com ela, ressurge a sombra do que eles confessaram um ao outro.

— Lembre que, se você vacilar com essa pobre moça bonita, eu sei de coisas que podem te destruir –, disse ela, alegremente.
— Eu também sei coisas lindas de você. Por isso, olhe lá, ande na linha. Fique esperta.

Unidos sim. A vivacidade e as atitudes fortes de Teresa marcam Pietro. Eles seguem caminhos diferentes na vida: ela inicia uma fulgurante carreira nos Estados Unidos e Pietro, mais discretamente, começa a se destacar como um crítico do sistema educacional italiano. Mesmo casado com Nadia, Pietro mantém por décadas trocas de cartas com Teresa. De  certo modo, sua autoestima e reconhecimento de sucesso dependem do aval dela. Ele pensa temer pelos segredos trocados, mas isso é passado e ele depende dela apenas porque depende.

Que problema, um amigo me disse uma vez, se apaixonar por uma mulher que, em todos os aspectos, é mais viva do que nós.

Os anos passam e a jovem família se consolida, cresce e Nadia agora é mãe de Emma, ​​Sergio e Ernesto, os três filhos de Pietro. Segredos começa com estas palavras:

O amor, dizer o quê?, fala-se tanto dele, mas não acho que eu tenha usado a palavra com frequência, aliás, minha impressão é que nunca recorri a ela, apesar de ter amado, claro que amei, amei até perder a cabeça e os sentimentos. De fato, o amor tal como o conheci, é uma lava de vida bruta que queima a vida fina, uma erupção que anula a compreensão e a piedade, a razão e as razões, a geografia e a história, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a exceção e a regra.

Domenico Starnone nos coloca diante de dois tipos muito diferentes de relacionamentos. Na vida há amores e amores, relacionamentos e relacionamentos: cada um tem muito que não pode ser reproduzido nos outros. Os amores vão se alterando, transformam-se às vezes em monstros mas, de uma forma ou de outra, não desaparecem. Aqueles que amamos um dia continuam sendo os guardiões de algumas ansiedades, incertezas, hesitações e de fatos que poucos conhecem. Eu sempre disse que ex, qualquer ex, é cargo de confiança…

Segredos mostra as qualidades indiscutíveis ​​de Starnone, um escritor direto, observador crítico e agudo dos traços humanos. Seus personagens são muito imperfeitos, não parecem sinceros e consideram-se medíocres. Starnone guarda para eles um olhar desapegado, além da leveza das boas narrativas. Ele nos fala de pessoas que parecem inadequadas para si mesmas, mostrando o quão frágeis são as bases em que se baseiam suas (nossas) identidades.

Domenico Starnone (1943)

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O Milton Ribeiro que não é Ministro sugere

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Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe

Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe

Um Diário do Ano da Peste é uma leitura óbvia — uma releitura, no meu caso — neste período de pandemia, pois é um livro que nos dá uma perspectiva peculiar, uma visão do passado sobre nossa crise atual. Mas não é apenas isso: ele também tem sido por séculos fonte de admiração, com suas histórias “de uma Londres estranhamente alterada”, onde, durante 18 meses em 1665 e 1666, a cidade perdeu 100.000 pessoas — quase um quarto da sua população. García Márquez e Anthony Burgess eram grandes admiradores da obra que narra jornalisticamente, em um texto sem divisões por capítulos, uma distopia semelhante a que estamos vivendo hoje.

A primeira coisa que devemos dizer sobre Um Diário do Ano da Peste é que não é, estritamente falando, um registro in loco. O livro foi publicado em 1722, mais de 50 anos após os eventos que descreve. Quando a praga assolava Londres, Defoe tinha cerca de cinco anos. Mas o autor afirma que o livro é um relato contemporâneo genuíno — a página de rosto afirma que o livro consiste de “Observações e recordações dos acontecimentos mais extraordinários, sejam públicos ou privados, ocorridos em Londres durante a última grande epidemia em 1665. Escrito por um CIDADÃO que permaneceu o tempo todo em Londres. Nunca publicado antes” e credita o livro a HF, entendido como seu tio Henry Foe.

Mas voltemos a 1722 e pensemos que os escritores costumavam dar ares de realidade a tudo. Por exemplo, Defoe também afirmou que Robinson Crusoe foi escrito por um homem que realmente viveu em uma ilha deserta por 28 anos, e que seu livro sobre o célebre ladra Moll Flanders foi escrito “a partir de seus próprios memorandos”. Ele até coloca essa afirmação no enorme título, que vale a pena reler na íntegra: As aventuras e desventuras da famosa Moll Flanders, que nasceu na prisão de Newgate e que, ao longo de uma vida de contínuas peripécias, que durou três vintenas de anos, sem considerarmos sua infância, foi por doze anos prostituta, por doze anos ladra, casou-se cinco vezes (uma das quais com o próprio irmão), foi deportada por oito anos para a Virgínia e, enfim, enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente. Escrito com base em suas próprias memórias.

Digo isso reconhecendo a extraordinária qualidade e o enorme significado literário e histórico de Um Diário do Ano da Peste. É possível, claro, que tenha sido baseado nos diários do tio de Defoe. É certo que o próprio Defoe pesquisou longa e detalhadamente sobre o assunto e que usou seu enorme talento ​​para dar vida a ele. O livro está cheio de descrições vívidas da maneira como a praga se deslocou pelos diferentes bairros de Londres, as precauções tomadas para combatê-la e o progresso assustador das carroças carregadas de cadáveres acompanhadas por gritos de “tragam seus mortos”. Também há percepções notáveis ​​sobre o comportamento humano sob a sombra de uma pandemia, sem mencionar os casos de mau comportamento e loucura, como o demonstrado por um cidadão chamado Solomon Eagle, que desfilou pelas ruas denunciando os pecados dos cidade, às vezes completamente nu. Os relatos de médicos, de charlatães vendedores de “remédios milagrosos”, de padres e padeiros são sensacionais.

O próprio Defoe também é um assunto intrigante. Além de escrever mais de 300 livros e folhetos sob quase 200 pseudônimos diferentes, ele viajou amplamente, administrou uma fábrica de azulejos e tijolos e encontrou tempo para participar da desastrosa rebelião de Monmouth que tentava derrubar James II. Foi rico e perdeu tudo várias vezes… Possuiu navios e uma propriedade rural, acabando várias vezes na prisão de devedores… Também foi preso por fingir argumentar, em sua sátira de 1702 The Shortest Way with Dissenters, que a melhor maneira de lidar com rebeldes religiosos era bani-los do país e matar seus pregadores. Houve gente que não entendeu a piada e a Câmara dos Comuns queimou o livro e mandou o autor para a prisão de Newgate por calúnia, enquanto seus amigos aproveitavam a oportunidade para divulgar mais seus panfletos.

Tudo isso ocorreu antes de ele realmente começar a escrever livros. Seu romance mais famoso, Robinson Crusoe, foi publicado em 1719 e Um Diário do Ano da Peste seguiu-o em 1722. Em seus últimos anos, ele também escreveu um grande livro de viagens sobre a Grã-Bretanha , o mencionado Moll Flanders e mais de uma dúzia de outros romances. Na época de sua morte, em 1731, ele estava novamente escondendo-se dos credores.

.oOo.

Ao reler um Um Diário do Ano da Peste, os primeiros ecos de 2020 vêm na primeira página 1. O narrador nos diz que ele e seus vizinhos ouviram que a praga “voltara da Holanda”. Somos informados de que o governo recebeu avisos, mas não achou algo digno de preocupação. E os navios daquele país continuaram chegando.

Os paralelos para com nossa despreocupada reação inicial a um problema distante — a pandemia iniciou na China — são tão impressionantes que parece quase ridículo apontá-los. Depois, vire a página e leia o primeiro relatório das “contas semanais” mostrando o aumento de mortes em cada paróquia de Londres. Tais estatísticas são obsessivamente observadas pelo nosso narrador ao longo de seu relato. Os registros fornecem comentários sombrios sobre o terror da doença, assim como os números de mortes que agora recebemos todos os dias há semanas.

Então, descobrimos que esses registros podem não ser confiáveis. Os números das autoridades são sempre baixos. Que coincidência, há subnotificação! “Os números da peste apontavam 17, mas os enterros em St. Giles eram 53″.

Os paralelos continuam. O narrador observa que as medidas necessárias para conter o surto foram tomadas tarde demais. Em outras passagens, há descrições assustadoras do vazio das ruas, “pois quando as pessoas chegavam às ruas, elas as viam vazias, as casas e lojas fechadas, com uns poucos andando no meio da rua, um bem afastado do outro”. Não temos o hábito de pintar cruzes vermelhas nas portas das casas onde há infectados ou de colocar guardas do lado de fora para que as pessoas que contraíram a doença não possam escapar. Também não impusemos o período de isolamento de 40 dias, o que dá nome à “quarentena”. Mas hoje qualquer leitor reconhecerá o medo e a piedade com que o narrador fala das pessoas que têm a doença e podem transmiti-la, especialmente daquelas que o fazem sem querer:

Quero falar daqueles que receberam o contágio e o tiveram realmente em seu sangue, mas que não mostraram as conseqüências disso em seus semblantes: ou melhor, nem eles próprios eram sensíveis, pois muitos não são por vários dias. Sem saber, expiravam a morte sobre todos os lugares e sobre todos os que se aproximassem deles, Suas próprias roupas retinham a infecção e suas mãos infectavam as coisas que tocavam.

Uns expiravam e outros aspiravam a morte, outra coincidência! Não é de surpreender que todo mundo, na Londres de Defoe, esteja nervoso. Mas hoje sabemos que o contágio não vinha das pessoas: a culpa era de ratos e pulgas. Há poucas menções aos ratos cujas pulgas transmitiam a peste bubônica — mas há preocupações sobre animais domésticos. Defoe observa que um número prodigioso desses animais foi morto. Foram mortos 40 mil cães e 200 mil gatos…

Defoe também nos fala dos ricos que fogem para o interior e levam a morte — na verdade alguns ratos — com eles, observando como os pobres estiveram muito mais expostos à doença. Mais uma coincidência… Ele descreve como charlatões vendem curas falsas e de como pobres “até se envenenavam de antemão por medo do veneno da infecção”.

As correspondências são tão claras que parece estranho lembrar que Defoe estava descrevendo eventos de 355 anos atrás — e que Um Diário do Ano da Peste, publicado em 1722, nem sequer seja uma descrição em primeira mão. Mas nisso, pelo menos, há esperança. Ele escreve no final:

Terrível peste esteve em Londres
no ano de sessenta e cinco
cem mil almas levou consigo
mesmo assim, estou vivo!

Espero que eu e você possamos dizer o mesmo no final da atual pandemia.

RECOMENDO MUITO!

Daniel Defoe (1660-1731)

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Perigo de extinção: livreiros em pé de guerra

Perigo de extinção: livreiros em pé de guerra

Um relatório divulgado há alguns dias pela Câmara Argentina do Livro (CAL) traz números alarmantes: nos últimos cinco anos, as quedas acumuladas na produção da indústria editorial são imensas. Para as livrarias, a pandemia foi um fenômeno devastador: hoje elas vendem entre 20 e 25% do que faturavam antes. Dado esse panorama, as livrarias de Buenos Aires podem desaparecer? Os envolvidos respondem.

De Natalia Viñes
Publicado originalmente em Perfil.com
Tradução apressada de Milton Ribeiro

As livrarias estão passando pela maior crise de sua história. É difícil calcular seu futuro quando o presente se afunda em uma distopia impossível de se imaginar há três meses. A realidade que os afeta desde o confinamento muda abruptamente a cada semana, e eles vêm enfrentando um profundo problema durante os primeiros meses do governo do Cambiemos.

As livrarias continuarão a existir após o crescimento das vendas de livros na Internet durante o isolamento? O que acontecerá em Buenos Aires, a capital mundial das livrarias, quando a pandemia acabar? Alguns dias atrás, especialistas do setor previram um possível fechamento maciço de livrarias. Consultados por este jornal, os livreiros contam sobre sua situação atual, seu estado de alerta e incerteza e as possíveis consequências.

A Argentina é o país com o maior hábito de leitura da região e Buenos Aires é a cidade com o maior número de bibliotecas por habitante no mundo: 8 mil habitantes para cada uma. Há um total de 350 livrarias que representam 63% das livrarias de todo o país, de acordo com o último relatório estatístico (2018) da Câmara de Publicações da Argentina (CAP). No mesmo relatório, observou-se que o setor editorial mantinha uma estrutura tradicional que ainda tinha um longo caminho a percorrer em direção a novas tecnologias.

Essa situação está sendo refletida durante a pandemia, com diferentes consequências nas vendas das livrarias. Algumas já incorporaram sistemas de vendas on-line que funcionavam bem desde antes do isolamento. A situação atual acelerou processos que, em muitos casos, nem foram planejados. A maioria das livrarias se interessou pelas vendas on-line pela primeira vez, com resultados ainda bastante ruins; os editores adicionaram urgentemente carrinhos de compras em suas páginas da web; e sites de vendas de livros virtuais, como o Mercado Libre ou o Busca Libre, aumentaram exponencialmente suas vendas, enquanto novas plataformas semelhantes apareceram da noite para o dia, como as Sakura Libros, Colorín Colorado e Mandolina Libros, entre muitos outros.

O fim das livrarias de Buenos Aires?

No início do isolamento, as livrarias foram fechadas por um mês, com uma perda de ganhos de 100%. Em seguida, a venda por entrega foi autorizada e, a partir de 12 de maio, o governo de Buenos Aires autorizou a reabertura. Mesmo assim, as livrarias que não estavam preparadas para venda on-line calculam suas perdas entre 60 e 80% em suas vendas e concordam que precisam de ajuda especial para o setor.

Pablo Braun, proprietário da livraria Eterna Cadencia e de uma cadeia de quatro bibliotecas da Station Book, que fica nos shoppings, diz: “Por um lado, estávamos muito bem preparados na Eterna com vendas on-line e que quase supriam o que estava sendo vendido antes. Mas, por outro lado, há quatro shopping centers fechados. Há quase quarenta pessoas trabalhando. Felizmente, existe o auxílio estatal para salários, que funciona para nós, mas não sei quantos meses mais eles podem fazê-lo. Essa é uma catástrofe total e absoluta, vendendo cinco livros por dia”. No mesmo sentido, Sandro Barrella, da Librería Norte, percebe que, quando as vendas on-line começaram, eles conseguiram faturar entre 40 e 50% do que estavam vendendo normalmente. Com a abertura da livraria física, eles começaram a vender 40% a mais do que vendiam apenas on-line. “A livraria tinha uma estrutura em torno do site que estava em funcionamento há muitos anos e que permitiu nos instalássemos rapidamente. Então é uma corrida do dia a dia, porque o livro vem de uma crise de quatro anos muito difícil.”

Por outro lado, José Rosa, da Librería de las Luces e delegado da Câmara de Livreiros, até agora registra uma queda de 80% nas vendas. “As pessoas não vêm ao centro se não houver movimento normal. Se a quarentena continuar, terei que pensar no fechamento”, diz o proprietário da livraria histórica fundada em 1965.” Só agora estamos começando a vender on-line. Mas isso representa dez por cento. É como abrir um novo negócio, que é suicídio hoje em dia. Precisamos de ajuda especial para o setor, porque as livrarias são um negócio com rentabilidade muito baixa”.

Gabriel Waldhuter, da Livraria Waldhuter, diz que “as vendas por entrega representam 15% da venda total de uma livraria; muitos deles, principalmente os pequenos, não possuem site e recorrem ao Mercado Libre, que, entre impostos, comissões e custos de envio, representa um desconto de 20%. Uma pequena livraria obtém 35 a 40% de desconto na editora.

Portanto, nessa pequena venda que fazemos, a lucratividade é nula. Com a reabertura da livraria, se antes cerca de cem pessoas entravam, agora entram dez. A venda de abril de 2020, em comparação a abril de 2019, foi 80% menor. Imagino que a perda anual será de 60 a 70%, dependendo, é claro, de como evoluirá a pandemia. As despesas fixas são mantidas e a receita não para de cair. Tudo sugere que as livrarias serão fechadas. A preocupação é muito grande. A cadeia de pagamentos está completamente quebrada. O setor de publicação e livreiro está sangrando.”

Enrique Avogadro: “Devemos defender livrarias independentes”

Ecequiel Leder Kremer, diretor da Librería Hernández e colaborador e participante da Câmara de Bibliotecas da Fundação el Libro e da Câmara Argentina del Libro (CAL), afirma que “as perdas são importantes. No momento, estamos tendo uma queda de 60%. Embora os 40% que recebemos sejam essenciais porque nos permitem cumprir nossas obrigações, pagar salários com a ajuda do ATP (Programa de Assistência a Trabalho e Produção) e pagar a nossos fornecedores, isso apresenta um cenário que não é bom. Os auxílios estatais são muito importantes e o comportamento das pessoas está definindo o que a situação lhes permite fazer do ponto de vista econômico e de saúde.

Adicionado a esse panorama, há 15 dias uma notícia explodiu como uma bomba: a Editorial Planeta abriu sua própria loja on-line no Mercado Libre. Por meio das redes e sob a hashtag LasLibreríasImportan, um grande grupo de livrarias emitiu uma declaração expressando seu profundo desconforto. A partir desse momento, livreiros, escritores e leitores se juntam à hashtag todos os dias para expressar seu apoio às livrarias.

A Editorial Planeta respondeu há alguns dias , através de Santiago Satz, gerente de imprensa da empresa: “Isso não implica que mais livrarias não sejam mais pontos de venda, elas são nossa prioridade”. No entanto, isso não acalmou os livreiros que, como resultado, estão se reunindo para ver como podem se organizar contra o que consideram uma ameaça.

A Planeta pode legalmente abrir um canal direto com o Mercado Libre (e também não é a única editora que vende diretamente por essa plataforma), mas por ser um colosso, graças ao seu poder econômico, pode se posicionar para obter visibilidade muitas vezes maior que a o das livrarias que vendem e sobrevivem nesse canal no momento. Por sua vez, a lógica do Mercado Libre direciona, através de seus algoritmos, as buscas pelos produtos com maior rentabilidade. Essa confluência de forças é o que as livrarias apontam como um possível efeito devastador em suas instalações. “

A Biblioteca do Norte está em total desacordo com o que Planeta está fazendo. A ideia é manter uma postura crítica, ver quais ações podem ser tomadas em um coletivo de livrarias e também junto às editoras para ver qual proteção pode ser dada ao setor “”, afirma Sandro Barrella.

Parece para Pablo Braun que “isso pode mudar as regras do jogo e, se isso acontecer, a reconversão pode ser mais profunda. Se o Mercado Libre alterar as regras e decidir, por exemplo, vender diretamente através de editoras e não através de livrarias, como a Amazon faz nos Estados Unidos, esse canal pode ser perigoso. E para uma grande editora também. Se o Mercado Libre disser: ‘Se você não me fizer 60%, não comprarei você’. Parece-me que o melhor, apesar de muito difícil, é estar atento ao que o Mercado Libre faz ”, conclui.

A situação não é estranha aos especialistas da área. Alejandro Dujovne, pesquisador e especialista na indústria do livro, diz que “a Planeta (com essa decisão) quebra um certo pacto implícito existente” e que é essencial que haja mesas para conversas e espaços para o diálogo. “O problema é ter um setor fragmentado e uma crise que não contribui para fortalecer esses espaços de conversação. Penso que, se deixar o mercado com suas próprias regras, iremos para uma situação de maior vulnerabilidade das livrarias “.

Brincando de esconde-esconde com o leitor argentino

Por seu lado, Natalia Calcagno, socióloga especializada em economia cultural, acredita que “a prática da Planeta é prejudicial às livrarias em um momento de emergência e seria necessário reagir, nesse sentido, para protegê-las”. Mas ele diz que lhe parece que não é possível que os editores ponham em risco o canal da livraria: um intermediário não pode existir sem eles. Calcagno considera que é necessário solicitar regulamentos ao Estado e que “existem muitas leis culturais de emergência em outros países, como Alemanha, Espanha, Canadá ou França.

Propostas

Consultado dias atrás, Enrique Avogadro, Ministro da Cultura de Buenos Aires, comentou sua disposição de prestar atenção à questão: “Devemos defender livrarias independentes”. Ele mencionou que o governo de Buenos Aires permitiu a reabertura das livrarias e que estão sendo feitos progressos em reuniões com o setor para analisar quais medidas paliativas podem ser tomadas. “Estamos incentivando as livrarias a se estruturarem como associação ou grupo, pelo menos para trabalharem juntas”, afirmou.

Por seu turno, a Câmara Argentina do Livro (CAL) divulgou na terça-feira 9 um documento que relata o estado do setor da indústria do livro e propõe propostas para aplicar na pandemia e mesmo depois dela. Entre as medidas que envolvem diretamente as livrarias, eles propõem um trabalho conjunto com o Correo Argentino para reduzir os custos logísticos das vendas on-line. A ideia seria considerar uma taxa especial para livros e frete grátis em alguns casos. No momento, esses custos favorecem a concentração das cadeias de livrarias e plataformas de vendas e reduzem o percentual de faturamento das livrarias para menos de dez por cento.

O Centro Regional de Promoção de Livros da América Latina e do Caribe (Cerlalc-Unesco) publicou em maio deste ano um documento urgente para entender a situação do setor editorial ibero-americano. Ele afirma que “analistas como Bernat Ruiz, Manuel Gil ou Guillermo Schavelzon concordam que a principal medida do governo para a recuperação do setor não apenas passa pela compra de livros, mas que deve ser dada prioridade às livrarias, pois é o elo mais fraco do mercado. As livrarias precisarão de uma injeção rápida de liquidez que lhes permita evitar o fechamento, diminuir os retornos e continuar fazendo pedidos”, diz Ruiz.

Sobre o futuro das livrarias. Quando a pandemia termina, os livreiros acreditam que muitas livrarias podem fechar. Dizem que não é fácil saber como as coisas vão acontecer, mas não vêem que a livraria, a figura do livreiro e a tradição cultural que temos aqui, terminem. No entanto, eles não podem arriscar uma visão clara do que o futuro lhes reserva após essa transformação que estão começando a conhecer agora.

Pablo Braun diz que “há uma mudança no paradigma do consumo das pessoas. Parece-me que há as telentregas vieram para ficar. Este é um golpe muito forte e todos nós vamos ter que mudar. Não consigo imaginar um futuro sem livrarias. Haverá menos, haverá menos pessoas trabalharão, é muito difícil. Coisas assim podem começar com os editores que vendem direto. Há algo que não tem nada a ver com o mundo do livro, tem a ver com o fato de que todo mundo quer matar o intermediário. E isso teria consequências muito sérias, porque, se não houver intermediários, o que eles acabarão comprando?

Gabriel Waldhuter acredita que “isso está apenas começando, tenho imagens de 2001, acho que essa crise de saúde será pior. Agora, se a vacina muito desejada aparecer, voltaremos a visitar livrarias, para continuar as que possuíamos.

As livrarias não vão desaparecer

Para Ecequiel Leder Kremer, “Provavelmente existe uma prática residual de fazer compras através dos canais digitais, mas parece-me que, como muitos estão esperando para voltar ao cinema, muitos leitores estão esperando para retornar às livrarias com tudo o que isso implica: o relacionamento com a livraria, a possibilidade de percorrer a livraria, percorrer os setores temáticos, identificar editoriais. Isso não substitui a tela do computador.”

Sandro Barrella: “Não tenho escolha a não ser ser otimista, porque é isso que me permite a possibilidade de trabalhar. Então, se tudo desmorona, desmorona. Parece-me que existe um espaço além da mística para pequenas livrarias. Se não houver mais condições uniformes para competir, será muito complicado.”

O que desaparece se as bibliotecas desaparecerem?

Natalia Calcagno: “Quando você entra em uma livraria para conversar, olhar, um mundo de diversidade se abre por recomendação do livreiro. O tema da exposição é essencial para conhecer. Caso contrário, você está limitando a venda. Temos dezenas de milhares de títulos por ano produzidos na Argentina. Além disso, há o que é produzido em outros países. E também a livraria é a possibilidade de a pequena editora se aproximar do leitor ”

Alejandro Dujovne: “Há várias perguntas a serem pensadas, uma delas é qual é o valor social e qual é o valor cultural que uma livraria tem. É uma discussão que a sociedade e a política precisam adotar para ver o que fazer com isso. As livrarias são mais do que apenas um canal de marketing. Embora sua dimensão mercantil ou comercial não deva ser negligenciada, porque muitas pessoas vivem disso. Ao mesmo tempo, são, do nível de produção de valor do livro, um lugar muito importante, porque têm a ver com a experiência da leitura, com a maneira como a literatura e o livro se relacionam com a sociedade como um todo. e como os livros circulam. As livrarias agregam valor e dão visibilidade.”

O escritor Jorge Carrión, que acaba de publicar na Argentina Contra a Amazon, diz que “prevaleceu a lógica que Jeff Bezos (fundador e CEO da Amazon) inventada há mais de vinte anos: o que importa é rapidez e, portanto, é necessário eliminar os números dos intermediários (como o editor, com a editoração eletrônica, ou o livreiro, com a compra na web). Mas essa lógica, se você pensar sobre isso, é bastante absurda. Elimine a caminhada, o desejo, a história que o une com a aquisição e leitura de um livro, a descoberta, a possibilidade de um encontro ou um café. Assim como Buenos Aires protegeu seus cafés notáveis, agora deve proteger suas livrarias. Mas acima de tudo, os leitores devem fazê-lo.”

A Bamboletras numa tarde de domingo de 2019 | Foto: Milton Ribeiro

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A autoimolação de Valéri Kosolápov ao publicar Babi Yar, de Ievguêni Ievtuchenko

A autoimolação de Valéri Kosolápov ao publicar Babi Yar, de Ievguêni Ievtuchenko

Por Vadim Málev, em 10 de junho de 2020
Texto de Milton Ribeiro a partir de tradução oral de Elena Romanov

Valéri Kosolápov

Hoje é o dia dos 110 anos do nascimento de Valéri Kosolápov. Mas quem é esse Valéri Kosolápov? Por que deveria escrever sobre ele e você deveria ler? Valéri Kosolápov tornou-se um grande homem em uma noite e, se não fosse assim, talvez não conhecêssemos o poema de Yevgeny Yevtushenko (Ievguêni Ievtuchenko) Babi Yar. Kosolápov era então editor do Jornal de Literatura (Literatúrnii Jurnál), o qual publicou corajosamente o poema em 19 de setembro de 1961. Foi um feito civil real.

Afinal, o próprio Yevtushenko admitiu que esses versos eram mais fáceis de escrever do que de publicar naquela época. Tudo se deve ao fato de o jovem poeta ter conhecido o escritor Anatoly Kuznetsov, autor do romance Babi Yar, que contou verbalmente a Yevtushenko sobre a tragédia acontecida naquela assim chamada ravina (ou barranco). Por consequencia, Yevtushenko pediu a Kuznetsov que o levasse até o local e ele ficou chocado com o que viu.

“Eu sabia que não havia monumento lá, mas esperava ver algum tipo de placa in memorian ou ao menos algo que mostrasse que o local era de alguma forma respeitado. E de repente me vi num aterro sanitário comum, que era como imenso sanduíche podre. E era ali que dezenas de milhares de pessoas inocentes — principalmente crianças, idosos e mulheres — estavam enterradas. Diante de nossos olhos, no momento em que estava lá com Kuznetsov, caminhões chegaram e despejaram seu conteúdo fedorento bem no local onde essas vítimas estavam. Jogaram mais e mais pilhas de lixo sobre os corpos”, disse Yevtushenko.

Ele questionou Kuznetsov sobre porque parecia haver uma vil conspiração de silêncio sobre os fatos ocorridos em Babi Yar? Kuznetsov respondeu que 70% das pessoas que participaram dessas atrocidades foram policiais ucranianos que colaboraram com os nazistas. Os alemães lhes ofereceram o pior e mais sujo dos trabalhos, o de matar judeus inocentes.

Yevtushenko ficou estupefato. Ou, como disse, ficou tão “envergonhado” com o que viu que naquela noite compôs seu poema. De manhã, foi visitado por alguns poetas liderados por Korotich e leu alguns novos poemas para eles, incluindo Babi Yar… Claro que um dedo-duro ligou para as autoridades de Kiev e estas tentaram cancelar a leitura pública que Yevtushenko faria à noite. Mas ele não desistiu, ameaçou com escândalo e, no dia seguinte ao que fora escrito, Babi Yar foi ouvido publicamente pela primeira vez.

Yevtushenko lê seus poemas. Nos anos sessenta, os poetas podiam reunir milhares de pessoas…

Passemos a palavra a Yevtushenko: “Depois da leitura, houve um momento de silêncio que me pareceu interminável. Uma velhinha saiu da plateia mancando, apoiando-se em uma bengala, e encaminhou-se lentamente até o palco onde eu me encontrava. Ela disse que estivera em Babi Yar, que fora uma das poucas sobreviventes que conseguiu rastejar entre os cadáveres para se salvar. Ela fez uma reverência para mim e beijou minha mão. Nunca antes alguém beijara minha mão”.

Então Yevtushenko foi ao Jornal de Literatura. Seu editor era Valéri Kosolápov, que substituiu o célebre Aleksandr Tvardovsky no posto. Kosolápov era conhecido como uma pessoa muito decente e liberal, naturalmente dentro de certos limites. Tinha ficha no Partido, claro, caso contrário, nunca acabaria na cadeira de editor-chefe. Kosolápov leu Babi Yar e imediatamente disse que os versos eram muito fortes e necessários.

— O que vamos fazer com eles? — pensou Kosolápov em voz alta.

— Como assim? — Yevtushenko respondeu, fingindo que não tinha entendido — Vamos publicar!

Yevtushenko sabia muito bem que, quando alguém dizia “versos fortes”, logo depois vinha “mas, eu não posso publicar isso”. Mas Kosolápov olhou para Yevtushenko com tristeza e até com alguma ternura. Como se esta não fosse sua decisão.

— Sim.

Depois pensou mais um pouco e disse:

— Bem, você vai ter que  esperar, sente-se no corredor. Eu tenho que chamar minha esposa.

Yevtushenko ficou surpreso e o editor continuou:

— Por que devo chamar minha esposa? Porque esta deve ser uma decisão de família.

— Por que de família?

— Bem, eles vão me demitir do meu cargo quando o poema for publicado e eu tenho que consultá-la. Aguarde, por favor. Enquanto isso, já vamos mandando o poema para a tipografia.

Kosolápov sabia com certeza que seria demitido. E isso não significava simplesmente a perda de um emprego. Isso significava perda de status, perda de privilégios, de tapinhas nas costas de poderosos, de jantares, de viagens a resorts de prestígio …

Yevtushenko ficou preocupado. Sentou no corredor e esperou. A espera foi longa e insuportável. O poema se espalhou instantaneamente pela redação e pela gráfica. Operários da gráfica se aproximaram dele, deram-lhe parabéns, apertaram suas mãos. Um velho tipógrafo veio. “Ele me trouxe um pouco de vodka, um pepino salgado e um pedaço de pão”, contou o poeta. E este velho disse: — “Espere, espere, eles imprimirão, você verá.”

E então chegou a esposa de Kosolápov e se trancou com o marido em seu escritório por quase uma hora. Ela era uma mulher grande. Na Guerra, ela fora uma enfermeira que carregara muitos corpos nos ombros. Essa rocha saiu da reunião, aproximando-se de Yevtushenko: “Eu não diria que ela estava chorando, mas seus olhos estavam úmidos. Ela olhou para mim com atenção e sorriu. E disse: ‘Não se preocupe, Jenia, decidimos ser demitidos’.”

Olha, é simplesmente lindo: “Decidimos ser demitidos”. Foi quase um ato heroico. Somente uma mulher que foi para a front sob balas podia não ter medo.

Na manhã seguinte, chegou um grupo do Comitê Central, aos berros: “Quem deixou passar, quem aprovou isto?”. Mas já era tarde demais — o jornal estava à venda em todos os quiosques. E vendia muito.

“Durante a semana, recebi dez mil cartas, telegramas e radiogramas. O poema se espalhou como um raio. Foi transmitido por telefone a fim de ser publicado em locais mais distantes. Eles ligavam, liam, gravavam. Me ligaram de Kamchatka. Perguntei como tinham lido lá, porque o jornal ainda não tinha chegado. “Não chegou, mas pessoas nos leram pelo telefone, nós anotamos”, contou Yevtushenko.

Claro que as autoridades não gostaram e trataram de se vingar. Artigos aos montes foram escritos contra Yevtushenko. Kosolápov foi demitido.

Aqui está o jovem Yevtushenko, na época em que escreveu “Babi Yar”

O que salvou Yevtushenko foi a reação mundial. Em uma semana, o poema foi traduzido para 72 idiomas e publicado nas primeiras páginas de todos os principais jornais, incluindo os norte-americanos. Em pouco tempo, Yevtushenko recebeu outras 10 mil cartas agora de diferentes partes do mundo. E, é claro, não apenas judeus escreveram cartas de agradecimento, o poema fisgou muita gente. Mas houve muitas ações hostis contra o poeta. A palavra “judeu” foi riscada em seu carro e, pior, ele foi ameaçado e criticado em várias oportunidades.

“Vieram até meu edifício uns universitários enormes, do tamanho de jogadores da basquete. Eles se comprometeram a me proteger voluntariamente, embora não houvesse casos de agressão física. Mas poderia acontecer. Eles passavam a noite nas escadarias do meu prédio. Minha mãe os viu. As pessoas realmente me apoiaram ”, lembrou Yevtushenko.

— E, o milagre mais importante, Dmitri Shostakovich me telefonou. Minha esposa e eu não acreditamos, pensamos que era mais um gênero de intimidação ou que estavam aplicando um trote em nós. Mas Shostakovich apenas me perguntou se eu daria permissão para escrever música sobre meu poema.

Shostakovich e Yevtushenko na primeira apresentação da 13ª Sinfonia de Shostakovich, em cuja primeira parte foi colocada o poema “Babi Yar”

Esta história tem um belo final. Kosolápov aceitou tão dignamente sua demissão que o pessoal do Partido ficou assustado. Eles decidiram que se ele estava tão calmo era porque tinha proteção de alguém muito importante e superior… Depois de algum tempo, ele foi chamado para ser editor-chefe da revista Novy Mir. “E apenas a consciência o protegia”, resumiu Yevtushenko. “Era um Verdadeiro Homem.”

Valéri Kosolápov
A lápide de Valéri Kosolápov

RIP

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Anotações de um jovem médico, de Mikhail Bulgákov

Anotações de um jovem médico, de Mikhail Bulgákov

O Mestre e Margarida é um dos melhores livros que já li. Então, é natural que persiga outros livros de Bulgákov. Este Anotações de um jovem médico reúne trabalhos da juventude do escritor. Algumas das histórias foram publicadas numa revista de medicina — Bulgákov foi também médico — e falam da época em que ele foi mandado para ser o único médico numa gelada comunidade rural da Rússia.

Há um pouco do humor do escritor maduro, mas o que chama a atenção é o tremendo realismo e poder de observação presentes no texto. Além disso, o texto de Bulgákov nos envolve totalmente. Enviado para assumir um posto como clínico geral em um hospital isolado da civilização, ele é, à princípio, um médico 100% inseguro. O hospital é bem provido materialmente, mas o novo médico não sabe como utilizar boa parte do que tem… E ele lidera uma pequena equipe que conta com um enfermeiro-dentista e duas parteiras-obstetras, acostumados com a liderança de seu antecessor, um médico velho e experiente. Há momentos em que o jovem doutor volta até sua casa para dar uma olhada em seus livros de medicina… Mas ele começa a trabalhar adequadamente, a salvar vidas, sua fama se solidifica e ele passa a atender mais de 100 pacientes por dia. Está sempre exausto. Se você já exerceu um trabalho de grande responsabilidade irá sentir empatia pelo jovem. A ansiedade é muito bem descrita.

Os contos não têm uma ligação cronológica rígida e retratam os episódios mais notáveis da temporada glacial do jovem doutor. Da parte dele, há sincera preocupação pelos pacientes, que costumam ser muito desinformados, chegando um deles a receber comprimidos para tomar um por dia, mas que acaba tomando todos de uma vez porque com esse negócio de um por dia ele poderia esquecer de tomá-los.

O livro também traz o famoso relato Morfina, que narra a história do vício em morfina do Dr. Poliakov, um colega do protagonista de Anotações — que vai receber o nome de Dr. Bomgard. Poliakov substitui Bomgard no hospital isolado. Usando a morfina uma vez para amenizar uma dor física, ele percebe que esta também lhe amenizava os problemas pessoais e renovava sua capacidade de trabalho. A partir daí, já viram… O conto é muito realista e doloroso.

Morfina é também autobiográfico. Bulgákov foi viciado em morfina em sua juventude, e sua primeira esposa, Tatiana Lappa, foi de extrema importância para ajudá-lo a superar a dependência. Ela é considerada o modelo para a personagem Anna, de Morfina, do mesmo modo que a terceira esposa de Bulgákov, Elena, serviu de base para a Margarida de seu maior romance.

Mas há também o conto Eu matei, que traz a aventura de um médico forçado a servir o exército de Petliura, líder nacionalista ucraniano que colaborou com as tropas alemãs durante a Primeira Guerra Mundial, resistindo aos bolcheviques durante a Revolução de 1917.

Excelente! Recomendo!

Mikhail Bulgákov

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Você lê este poema e depois manda os racistas pra onde eles merecem ir

Você lê este poema e depois manda os racistas pra onde eles merecem ir

~ Casa dos Mundos Irrepetíveis ~

Se digo mãe, digo Itália; se digo avó, digo ilha,
se digo bisavô, digo Galiza; se digo trisavó, digo França
um tetravô na Grécia outro em Damasco;
um perdido na Índia cigana outra nas ruas da Palestina,
se chegar aos décimos avós sou de todos os lugares,
venho de todas as origens, concebido em todas as religiões;
venho de um pirata e seguramente de uma puta,
de um marajá e de uma cortesã, uma geisha
e um traficante de sedas; uma amazona das estepes
e um boiardo; um vizir e uma poeta,
família de assaltantes nos idos dos avós doze,
marinheiros das austrálias, perdidos nos infernos
de ser gente do mundo e no mundo parental
chego depois de várias incidências
a esta Lisboa remodelada; na Mouraria um primo
outro no Quartier, uma prima no Magrebe
outra em Moscou e mais uma no Congo
e milhares no Brasil, o meu DNA é o mundo,
as minhas células do universo
sou um homem feito de mulheres em verso.
Nas minhas veias há um refugiado profundo
Afinal onde está o meu berço?

Luís Filipe Sarmento

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O ardente manuscrito (sobre ‘O Mestre e Margarida’)

Clássico de Mikhail Bulgákov traz o diabo como única força motriz possível para renovar a literatura numa Rússia ateísta

Por Arthur Marchetto — No Jornal Rascunho

Em 1928, já sofrendo as restrições impostas pelo regime stalinista, Mikhail Bulgákov começou a escrever sobre o dia em que satã e sua comitiva chegaram em Moscou e a deixaram de cabeça para baixo. A história, concluída postumamente doze anos depois e intitulada O Mestre e Margarida, só chegou ao público 40 anos depois daquela primeira linha. O longo tempo para finalizar o livro está relacionado às dificuldades que Bulgákov enfrentou.

Além da pressão econômica e política promovida pelo Estado soviético, o escritor foi diagnosticado com neurosclerose hipertônica e perdeu quase todos os movimentos e a visão. Até sua morte, o escritor ditou ajustes e correções para sua terceira esposa, Ielena Serguêievna, que finalizou a obra. Publicado pela primeira vez na revista Moscou em duas edições, em 1966 e 1967, a edição teve cerca de 14 mil palavras censuradas.

Ao longo dos anos, os originais foram submetidos a diversos especialistas e muitas versões do livro coexistiram. Na tentativa de unificá-los, a pesquisadora Ielena Kolycheva promoveu um extenso estudo para chegar a uma versão mais próxima da vontade de Bulgákov, utilizando seus manuscritos e duas versões em circulação. Foi o estabelecimento do texto gerado na conclusão da pesquisa, publicado em 2014, que a Editora 34 utilizou como base para a tradução do livro, lançado em 2017.

O Mestre e Margarida é considerada a grande obra-prima de Bulgákov porque seu estilo, procedimentos artísticos e críticas sobre o regime soviético estão em plena forma. O próprio escritor sentia isso. Segundo o relato da viúva, quando estava morrendo o escritor disse: “Talvez isso esteja certo. O que poderia eu escrever depois de O Mestre?”.

Em suas obras, Bulgákov utilizou a sátira, o sarcasmo e a ironia como armas políticas. Escrevia contra a nova política econômica (NEP), contra o burocratismo, contra o discurso oficial e sua influência no homo sovieticus. Em seus livros, a história contemporânea e sua autobiografia aparecem como fortes elementos, mas revestidos por uma forte dose de fantasia.

Bulgákov nasceu em Kiev, atual capital da Ucrânia, onde estudou e se formou em medicina. Antes de começar a escrever, começou uma carreira médica no serviço militar na primeira guerra. Sua relação com o regime soviético sempre foi conflituosa e, na Guerra Civil, lutou ao lado dos Brancos. Em 1920, Mikhail largou o exército e começou seu trabalho como escritor na imprensa, publicando folhetins e reportagens já com seu tom sarcástico. Pouco tempo depois, arriscou-se na escrita de novelas e contos.

Na metade da década, quando já estava consolidado no círculo literário russo, começou a ter o mesmo tratamento que era destinado aos outros dissidentes, como seu amigo Evguênii Zamiátin, autor de Nós. Gradualmente deslocado para fora da cena literária numa espécie de ostracismo, passou por dificuldades econômicas e perseguição política. Em 1926, seus diários e novelas foram apreendidas, a crítica começou a execrá-lo e ele declarou que estava em uma “morte em vida”. Foi dentro desse contexto que, em 1930, escreveu uma carta para Stálin solicitando sua ida ao estrangeiro. A correspondência foi respondida por um telefonema do próprio Josef Stálin que, além de garantir que não havia nenhuma perseguição ao escritor, declarou sua admiração pela peça O dia dos Turbin e lhe garantiu um emprego no Teatro de Arte de Moscou.

No entanto, a passagem pelo teatro foi conturbada e a censura continuou. Nesse período, diversos textos do escritor foram apreendidos e devolvidos tempos depois. Com medo, Bulgákov queimou esses manuscritos. Anos depois descobriu-se que o Estado havia feito cópias de seus escritos e arquivado tudo num dossiê sobre o escritor. Dentro de O Mestre e Margarida, tal contexto e experiência de vida se tornam mais uma das diversas referências espalhadas pela narrativa, assim como seu conhecimento musical e literário, sua vida nos teatros e o cotidiano dos soviéticos.

A narrativa do romance nos guia conforme satã, representado pela figura do prof. Woland, chega em Moscou com seu séquito — a vampira Hella, um gato que fala e anda em duas patas chamado Behemoth, um ruivo pequeno e bronco com um canino de fora chamado Azazello e seu escudeiro alto e desengonçado, chamado de Koroviév ou de Fagote — e instaura o caos gradualmente.

Sua primeira aparição é no Lago do Patriota, interferindo na discussão entre um poeta, Ivan Nikoláievitch, e um editor de revista, Mikhail Berlioz. Ambos discutem o texto encomendado que, segundo o desejo do editor, deveria defender a existência de Jesus como um absurdo ao invés de caracterizá-lo como uma personagem histórica desmistificada. Woland interrompe a conversa, questionando a certeza de Berlioz sobre a inexistência de Jesus e de quaisquer forças superiores.

Essa conversa entre os três sujeitos introduz uma narrativa secundária que permeará toda a história: o julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos — em um primeiro momento, contada por Woland em frente ao lago, mas que se revelará como o livro escrito pelo Mestre, personagem que dá nome ao romance.

Esses capítulos iniciais servem como ponto de entrada para a descrição de uma sociedade controladora e paranoica, deixam a atitude covarde de Pilatos em pé de igualdade com o cotidiano dos cidadãos nos tempos stalinistas e apresenta a ideia de um ateísmo militante presente naquele tempo na Rússia. Nesse contexto, com tantas certezas de que Deus não existe, o diabo se torna a força motriz possível para os russos.

Fáustico
O Fausto, de Goethe, e mais ainda sua adaptação operística por Gounod, aparecem como fortes inspirações para a inversão de realidade que critica a sociedade por meio do escárnio, tão presente nas obras de Bulgákov. O Mefistófeles do original é bem diferente do criado por Bulgákov. Ele não faz pactos pela alma de ninguém, não se torna servo. Sua intenção é ser servido e realizar o baile anual de primavera no submundo, tendo como pré-requisito uma anfitriã aleatória chamada Margarida.

O livro se mostra mais carnavalesco do que infernal, mesclando o bem e o mal, o humano e o divino. A epígrafe do livro, também retirada do Fausto de Goethe, insinua a mistura entre as duas faces opostas: “— Pois bem, quem és então?/ — Sou parte da Energia que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria”. É por meio desse poder “diabólico” que Bulgákov trata da arte e do amor, e de como libertá-los de suas amarras.

Sobre a arte, Bulgákov traz dois criadores incompreendidos, o poeta Ivan Nikoláievitch e o Mestre, dentro de um contexto em que a literatura era subordinada às forças oficiais, onde os escritores eram assim considerados pelo seu credenciamento no Estado e não pela qualidade do que escreviam. Como dito no próprio livro, tais “artistas” estavam mais preocupados com suas férias no campo do que com o desenvolvimento estético.

No entanto, apesar da realidade perversa, a verdadeira literatura se mostra forte e resistente, simbolizada pelo trabalho do Mestre. A frase “os manuscritos não ardem”, repetida ao longo da narrativa, dialoga com a vida de Bulgákov. Além dos manuscritos apreendidos pelo Estado que queimou posteriormente, também tentou queimar o rascunho de O Mestre e Margarida, impedido pela esposa. Dentro do romance, o Mestre também queima os manuscritos de seu livro em uma fornalha, mas as forças diabólicas de Woland o recuperam.

Por fim, no campo do amor, Margarida aparece como uma força celestial, um poder feminino necessário na criatividade masculina. Além disso, a personagem se relaciona com as mulheres do Fausto de Goethe, a terceira esposa de Bulgákov, Ielena Serguêievna, e ao amor incondicional da doutrina ortodoxa na Rússia.

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Franny & Zooey, de J. D. Salinger

Franny & Zooey, de J. D. Salinger

Apesar de reconhecer o que há de (muito) maniático neste livro. gostei muito de reler Franny & Zooey após algumas décadas. O romance é formado por poucas e detalhadíssimas cenas. Os dois personagens principais são os dois irmãos do título, nascidos na célebre família Glass, presente neste e em outros livros de Salinger. Há mais cinco irmãos, mas eles não são protagonistas aqui.

As cenas? Sem spoiler? Vamos lá. Na primeira, Franny começa a entrar em crise. Ela explica ao namorado Lane as razões que a levam a pensar que a religião é a única solução para seu crescente desencanto, tudo isso pontuado por crises de choro e incompreensão. Não é uma cena hilária e vamos nos acostumando com a notável profusão de detalhes que Salinger nos expõe. Depois vem a cena mais engraçada do livro. Zooey discute com mamãe Bessie sobre o fato de Franny não se alimentar, de estar estranha e sem rumo, à beira de um colapso. E finaliza com um enorme diálogo entre Franny e Zooey. As últimas páginas são realmente lindas.

Resumindo, a coisa parece bem teatral. Temos três atos descritos minuciosamente. Primeiro ato: Franny sem rumo e próxima a um colapso. Segundo: mãe pressiona Zooey a conversar com Franny após este ler carta de Buddy, um dos irmãos mais velhos. Terceiro: Zooey intervém a seu modo.

Eu já conhecia este drama de família e sua curiosa intensidade me prendeu novamente. A implacável luta intelectual de Zooey com Franny é exaustiva, dentro de um conflito familiar altamente realista. E não cansa discutir? Nossa, cansa muito! O relacionamento irônico, carinhoso, mas também intolerante de Zooey com sua mãe ajuda a fazer deste livro uma joia. Eles discutem no banheiro, com Zooey absurdamente preso na banheira que esfria, debatendo com uma mãe cansada através da cortina de chuveiro. Esta cena é um bálsamo para todas as banalidades ​​que abundam na literatura.

Talvez seja surpreendente que Franny & Zooey tenha se tornado um sucesso instantâneo. O apanhador no campo de centeio pode ser o livro mais famoso de Salinger, mas Franny & Zooey não está abaixo. Frenético e intransigente, este livro pode até irritar você, mas uma coisa é certa, ele não o deixará indiferente.

Salinger disse que este romance é um “tipo de filme caseiro em prosa”. Sim, é verdade. Só que também é um excelente trabalho de artesanato. Sabem? No início do livro, certa vivacidade fazia com eu me surpreendesse com o fato de Franny estar sendo foco de tanta atenção. E me perguntava se era possível dizer que ela sofria efetivamente. Mas à medida que as coisas progridem na segunda história, cresce a preocupação de ela estar no mesmo caminho suicida que seu irmão Seymour.

Os diálogos sinuosos revelam bastante de Franny mas também de seu irmão. Ambos têm ânsia por um runo. Quando vemos Zooey suando, sentado em silêncio por 20 minutos no quarto abandonado do irmão perdido, sabemos que ele sofre tanto quanto a pobre Franny. O livro é um retrato terno e compreensivo que certamente reflete muito de Salinger. O que torna tudo mais triste.

Franny & Zooey é uma rara e valiosa obra de arte e empatia.

E eu o recomendo.

J. D. Salinger fumando como um personagem de J. D. Salinger.

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