Final do jogo de ontem: A volta do parafuso 7 x 6 Mrs. Dalloway

Foi um jogo muito bom, com argumentações surpreendentes (e inteligentes) da plateia, que participou bastante. Ao final, James e sua prosa cheia de armadilhas acabou vencendo no detalhe. Com escritores muito bons jogando no ataque, saíram muitos gols. A conversa com a Nikelen fluiu natural e eu, de estomago vazio, tive que diminuir a frequência de minhas idas ao copo de Coruja. Era necessária 100% de atenção ao papo. Tendo lido os livros há pouco, acho que visitamos o que há de mais importante em ambos e, como tomei contato com um bom número de críticos, sei que tivemos tempo de ser originais, reverentes, desrespeitosos e, é claro, pessoais. E, bem, ter a Nikelen como partner foi uma dilícia, viu Farinatti? Sentimos tua falta, mas fazer o quê? Alguém tem que cuidar das crianças enquanto a gente se diverte.


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Anotações para a noite: Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf X A Volta do Parafuso, de Henry James

Hoje à noite, às 19h, haverá dois dos mais esperados embates do ano. No StudioClio, se enfrentarão os dois livros acima. Antes teremos Suicídios exemplares (Suicidios ejemplares, 1991), de Enrique Vila-Matas X Vésperas (2002), de Adriana Lunardi. Estarei no jogo entre Woolf e James junto com Nikelen Witter e as cervejas Corujas, sempre presentes ao evento. Abaixo, minhas anotações de fim-de-semana sobre os livros. Devido a problemas com a Fox Sports, a Net não transmitirá o evento ao vivo. Só indo lá assistir.

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Logo que soube da escolha deste jogo por parte do StudioClio, a ideia de uma partida que reunisse Mrs. Dalloway e A volta do parafuso pareceu-me algo muito aleatório, mas tal impressão não subsistiu a alguns minutos de reflexão. O livro de James foi escrito em 1898 e o de Woolf apenas 27 anos depois, em 1925. Porém, sabemos que o mundo foi virado de cabeça para baixo naquele período, quando o romance do século XIX foi, em parte, substituído pelo romance moderno.

Não foram anos quaisquer. Alguém pode me dizer que o critério evolutivo não serve para a história do romance. Afinal, Grande Sertão: Veredas foi escrito há 56 anos, mas quando comparado com os romances atuais, dá a impressão (ou a certeza) de ser mais moderno do que aquilo que os romancistas de hoje escrevem. Talvez fosse interessante refletir se os escritores de hoje escrevem para o passado ou, pior, para um leitor que não existe mais. Bem, acho que isto é em parte verdade, mas não tergiversemos.

O fato é que Guimarães Rosa foi um fenômeno isolado enquanto Virginia Woolf fez parte de um oceano que estava destinado a mudar a arte do romance. Para comprovar que era um tsunami completo, com direito a levar de roldão o que houvesse pela frente, nem invocarei a literatura. Invoco, por exemplo, a música. O Allegro Barbaro de Bartók é de 1911, A Sagração da Primavera é de 1913, as Sinfonias de Mahler de 4 a 10 estão também entre a obra de James e de Woolf, Brahms morrera em 1897 e seu cadáver nem estava muito frio quando Debussy já rascunhava seus Noturnos orquestrais. Mas não era só na música, na pintura havia uma revolução análoga e até mais charmosa e célebre. Na literatura, Tolstói morria em 1910 para dar lugar a James Joyce, T.S. Eliot, Rilke, Proust, Kafka, Pirandello, Svevo… Todos autores que produziram toda ou grande parte de sua obra entre 1898 e 1925. Ou seja, não quero dar uma de Juscelino Kubitschek que empolgou o país com seu bordão “cinquenta anos em cinco”, porém o fato é que o mundo adquiria outra feição e velocidade naqueles anos.

Pois bem, acabo de separar os dois livros como se houvesse 200 anos entre eles, agora é o momento de aproximá-los. Por mais que hoje nos pareça estranho, Henry James era um escritor de vanguarda em sua época. Seu desenvolvimento calmo e sua classe encontram boa analogia no Bruxo de Cosme Velho. Tal como Machado, a literatura de James apresentava-se bastante estranha em 1898. Era como se o escritor, cansado do meramente romanesco, passasse a abrir mão da trama complicada e da construção de conflitos para que o leitor pudesse fruir a linguagem. James, em seus romances e novelas da época, revela um virtuosismo arrebatador sobre um quase nada, assim como Machado fez em Memorial de Aires. A trama de A Volta do Parafuso é tão rarefeita que uma sinopse do livro pode destruir a boa intenção de qualquer leitor e é isso que vou fazer agora. Calma, não vou estragar o prazer de ninguém ao ler o livro, tudo o que descreverei está bem no início da novela.

Uma mulher jovem, solteira e precisando de emprego, vai a Londres em atendimento a um anúncio. Necessitava-se de uma preceptora para cuidar de dois órfãos. O tutor é um tio bonito e bon vivant e o casal de crianças sob sua tutela é um grande incômodo. O que ele oferece? Um bom salário para morar afastado numa residência burguesa no campo, Bly, com muitos serviçais. O que ele pede? Que a contratada permaneça lá, cuidando e ensinando as crianças como uma condição: ela não deve aborrecê-lo com quaisquer problemas. Ele paga para não se incomodar. Mandará o dinheiro e ela deve resolver tudo, sem encher o saco com picuinhas e não-picuinhas. O tio é encantador, percebe que ela é suscetível a esse encanto e eles fecham o acordo. Ela vai para a propriedade, faz amizade com uma servidora simples e confiável, Mrs. Grove; logo descobrirá que as crianças são uns amores, excepcionalmente inteligentes e belas, e então não se tem mais certeza de nada. A única estranheza é o fato de o encantador Miles, o irmão mais velho, ter sido expulso da escola. A narradora não questiona o fato junto ao menino para não melindrá-lo; afinal é tão fofo! A partir de então, tudo fica BEM ESTRANHO: a ex-preceptora aparece em forma de fantasma… Ou é a narradora que enlouqueceu? O serviçal Peter Quint é outro fantasma do qual temos dúvidas se está ali mesmo ou apenas na imaginação da narradora. Well…

(Intermezzo: Pesquisei e contei 24 adaptações de The turn of the screw. Seis filmes – um com Marlon Brando, outro com Deborah Kerr, outro com Harvey Keitel e outro com Shelley Duvall – , mais uma ópera de Benjamin Britten, balés, adaptações radiofônicas, teatrais, o diabo. Nestas, muita criatividade, talvez abuso. Muito sexo, principalmente. As cenas de sexo do filme de Brando são um show à parte. Ele recém saíra de O Último Tango em Paris e o diretor Michel Winner resolveu utilizá-lo sem Maria Schneider nem manteiga, mas usando a liberdade de interpretação que James permite).

Respondendo a meus parênteses: Winner errou? Não, certamente não. Mas a preceptora aproxima-se “fisicamente” do fantasma de Quint no livro? Olha, James não descreveu nada parecido, mas ela pensava muito nele. Os pensamentos eram libidinosos? Não, eram de horror, mas falemos sério e de nossa posição pós-Freud: o fantasma de Quint cria uma atração irresistível na preceptora. Ela afirma que se trata de um monstro, mas ela o acha bonito e Mrs. Grove – que o conheceu vivo – garante: Quint era muito bonito e permissivo. O narrador James – o livro é narrado em primeira pessoa pela preceptora – não diz nada, mas nos leva a desconfiar de muita bobagem. Quint não é, decididamente, um cavalheiro; antes é sempre comparado a um animal. Quem sabe um fauno permissivo, instintivo e execrável à moral da moça? Talvez apenas a sua moral, claro.

Tudo no romance é perfeito. E insuficiente. As aparições dos fantasmas são raras e espaçadas, as informações sobre o possível conchavo deles com as crianças podem ser fruto da imaginação tola da narradora. Sabe-se pouco e fica claro que um dos fatos principais do livro é a linguagem de James, sempre pronta a nos enganar e a levar nosso pensamento para qualquer direção, nenhuma delas inocente. A Volta do Parafuso é escrito com o óbvio propósito de iludir o leitor a cada página. A interpretação é livre, tão livre que, no Brasil, uma editora espírita do interior de São Paulo publicou Os Inocentes de Henry James, como uma novela espírita da possessão de duas almas infantis por dois espíritos malvados, obsessores. Acho que de modo nenhum podemos explicar o livro por aí. De meu ponto de vista, eu, que jamais acreditei em fantasmas nem em espiritismo, confesso que James me assustou. Sim, confesso ter ficado arrepiado, inteiramente envolvido pela linguagem de James. Aliás, se houver alguma explicação para o livro, ela não será nada, nada óbvia. O mínimo que sobrará a um leitor de inteligência mediana, como eu, será a certeza de que se trata de um livro absolutamente assustador e instigante.

Mrs. Dalloway é muito diferente. O que me salta imediatamente aos olhos é o trabalho de linguagem de Virginia Woolf, sua enorme leveza e feminilidade ao escrever. Mrs. Dalloway é o primeiro livro de VW que subverte a linguagem tradicional. O livro inicia com a seguinte frase: “A Sra. Dalloway disse que ela própria compraria as flores”. Depois o que se vê inicialmente é uma explosão de alegria de uma mulher casada que dará uma festa à noite em sua casa. Sim, o ambiente inicial é de festa, mas logo abrem-se frestas. O surgimento de Peter Walsh, o seu primeiro amor, que retorna da Índia, muda alguma coisa, trazendo consigo os desejos da juventude que acabaram num casamento morno. Há também Septimus Warren Smith, enlouquecido pelo trauma da Primeira Guerra Mundial e cujos medos parecem se refletir em Clarissa (Dalloway). Enquanto Septimus é uma chaga aberta, Clarissa cobre sua dor com festas, amigos e tarefinhas. O futuro parece assustador, a velhice – Clarissa tem 52 anos – também. Melhor que os convidados saiam de sua casa dizendo a frase que Francisco Marshall escreveu em seu Facebook logo após a última festa que demos em minha casa e na qual Nikelen  Witter também estava presente: “Tudo perfeito! Assim a vida fica bem mais leve e melhor!”. É outro contexto, mas serve a frase, que agradeço.

Assim como o Ulisses de Joyce, a ação de Mrs. Dalloway transcorre num único dia. Entre a manhã e a madrugada seguinte, com as horas (aliás, o primeiro título do romance era As Horas) bem marcadas pelas badaladas do Big Ben. Lendo-se de um ponto de vista estritamente idiota, é a narrativa de um dia na vida da esposa de um membro da Câmara dos Comuns, sobrecarregada de coisas para fazer e preocupada com o que não fez por falta de coragem. Indo um pouco mais longe, é um livro sobre o efeito de nossas opções, o que não é pouca coisa.

A trama (trama?) de Virginia Woolf é ainda mais rarefeita do que a de James. Como veremos a seguir, VW é muitíssimo mais informativa, porém são fatos desconexos, jogados pela autora em aparente livre-associação formando um mosaico completo, repleto dos detalhes que são nossas vidas. Vejamos: enquanto Clarissa Dalloway dirige-se à florista Miss Pym, o leitor vai conhecendo a sua vida: o marido chatinho Richard, a filha Elizabeth; a religiosa Miss Kilman, espécie de preceptora que influencia a filha Elisabeth e de quem Clarissa não gostava e recebia retribuição. Pensa em seu amigo Peter Walsh, a quem preterira em casamento. Retornando à casa, Clarissa encontra o marido Richard, que lhe diz que foi convidado para ir almoçar na casa de Lady Bruton. Clarissa fica com ciúmes, mas há mais em que pensar, pois não disse que ela receberá a visita de seu primeiro amor, o citado Peter Walsh? O passado emerge, as cenas entre os dois e as lembranças de ambos são belíssimas e tristes. Durante o jantar, Richard diz a Walsh  que se sente inseguro, que oferece com alguma frequência flores a Clarissa para poder dizer “eu te amo”, mas que a frase não sai, apenas as flores são entregues. Durante a festa, Peter conhece Sally Seton, uma velha amiga que depois de casada passou a ser conhecida como Lady Rosseter e deu luz a cinco filhos. Ela foi íntima de Clarissa, trocaram carícias, mas aconteceu com ela o mesmo que ocorreu com Walsh. Clarissa trocou-a por uma posição social. Simultaneamente, travamos conhecimento com Septimus Warren Smith, um herói da Primeira Guerra Mundial que tem alucinações, e com o sofrimento da sua esposa Lucrezia (Rezia).

Woolf utiliza uma técnica de fluxo de consciência conectando os pensamentos de seus personagens. O romance é uma narrativa contínua, sem grandes divisões ou seções. O Big Ben conta o tempo. Os pensamentos de personagens como Mrs. Dalloway e Septimus Warren Smith são conectados por eventos externos do mundo, como o som de um automóvel, ou a visão de um avião no céu.
O que há em comum entre as duas “heroinas”? Não gosto de ambas. Dalloway escolhe a  segurança e o convencionalismo. A narradora de James é muito chata e doida varrida…Clarissa ama o sucesso, odeia o desconforto, e tem necessidade de ser amada. Ela é atraída para homens e mulheres. Teme que sua filha seja cooptada por Miss Kilman. Clarissa teve uma doença recente, e descansa por uma hora depois do almoço. Pensa na morte. Bem, agora temos anotações mesmo!
Agora, a contagem dos gols. Tudo pode mudar até a noite.
1. Linguagem, foco narrativo

Empate. Fico mais feliz com Woolf, mas acho que há que respeitar o sabor clássico de James. Cada um faz um gol.

2. Construção de conflitos e estrutura do romance

James constrói uma miríade de conflitos dentro de um guarda-chuva maior. Todos eles são cuidadosa ou nervosamente analisados e revisados em seus muitos detalhes. Na verdade, A volta do parafuso é uma longa construção de um conflito que não é solucionado até o final muito bem definido até o final e até mesmo depois dele. Gol de James.

3. Construção de personagens

Tenho que pensar.

4. Relevância sociológica.

O romance de Woolf é, não obstante sua aparente leveza, lotado de observações à terceira década de século XX: as sobras da Primeira Guerra Mundial que traumatiza, culpa e enlouquece Septimus Warren Smith. Rezia, sua mulher expatriada e semi rejeitada por ser uma estrangeira, sentindo-se duplamente impotente frente ao marido que sucumbe e ao qual ama. O caso de Clarissa e Peter Walsh e de Clarissa e Sally que não vão adiante pelo puro preconceito de classe de Clarissa. Gol de Woolf, fácil.

5. Relevância ontológica.

Aqui também Woolf faz gol. O fluxo de consciência é um ganho enorme e ele garante enorme vantagem sobre o discurso livre indireto de James. Além do mais, os personagens de James estão obcecados pelos fantasmas e os problemas dos garotos. Mesmo que James vire e revire as ideias da narradora, ela não é páreo para a montanha de elementos que é exposta por Woolf.

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De Millôr Fernandes (1923-2012), em seu livro Poemas (1999)


Chico morreram. Millôr morremos. Simples assim.

Guga Alayon

Poema para grande orquestra parada – um silêncio bem alto

Você já amou uma mulher brilhante.
Você já amou uma mulher formosa.
Você já amou uma mulher
Silenciosa?
Que fala pouco.
E bem,
E baixo,
Que não eleva a voz por raiva
Nem má educação,
Que anda com seus pés de seda
Num mundo de algodão.
Que não bate, fecha a porta,
Como quem fecha o casaco
De um filho
(Ou abre um coração)?
Que quando fala, se aproxima
Ao alcance da mão
Pra que a voz não se transforme em grito?
E que absorve o mundo
Sem re-percussão
Num olhar de preguiça
Num colchão de cortiça
Como um mata-borrão?

Mas um dia ela sai
Levando o seu silêncio
De pingüim andando solitário em
sua Antártica
(ou Antártida),
No eterno
Gelo sobre gelo
No infinito
Branco sobre branco
E dos cantos e recantos
Onde habitou calada
– entre oniausente –
Brotam aos poucos,
Os ruídos
Pisados,
Colocados embaixo do tapete
Guardados na despensa
Na gaveta mais funda
De uma vida em comum.
Os trincos falam,
A cafeteira chia,
A espreguiçadora range,
O telefone toca,
As louças tinem,
O relógio bate,
O cão ladra,
O rádio mia,
Toda a casa ressoa, reverbera
e brada
E a orquestra em pleno do teu
dia-a-dia
Ataca a algaravia
Fabril
Escondida no lençol de silêncio
Com que ela partiu.

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Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf X A volta do parafuso, de Henry James

Fortes e confirmados indícios dão conta de que este que vos escreve e Nikelen Witter estarão na próxima segunda-feira, 2 de abril, discutindo os dois títulos acima no StudioClio. A volta do parafuso é de 1898; Mrs. Dalloway, de 1925. Neste ínterim, a arte mudou muito. Não gosto da palavra ruptura, até porque Virginia Woolf, com seu respeito aos escritores que a antecederam, a rejeitaria, mas há que considerar que a distância temporal entre as obras, de 27 anos, parece ser maior se entremearmos James Joyce e seu Ulisses, Diaghilev, Mahler, T.S. Eliot, Rilke, Ravel, Proust, Kafka, Pirandello, Svevo, Stravinsky… ou seja, o modernismo. A distância entre as duas pequenas obras-primas assemelha-se a comparar a perfeição clássica de Brahms a Mahler ou Bartók.

Henry James era o grande estilista, um escritor cheio de artifícios e que foi ficando cada vez mais intrincado em sua prosa. Ele talvez seja um dos maiores representantes do fim de uma época que já forçava os limites do romance do século XIX, apontando para o que viria. Já Woolf gozava de uma liberdade que ainda escandalizava e criava seu primeiro grande romance, o saltitante Mrs. Dalloway.

Dá muito papo, ainda mais com a Nikelen, que é escritora e historiadora. Estaremos devidamente calibrados com cerveja Coruja. Acho que será bom.

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O centenário de Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto

Publicado em 25/02/2012 no Sul21

Não é à toa que Contos Gauchescos faz parte da lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS nos últimos anos. Ele ali está na justa companhia de José Saramago (História do Cerco de Lisboa), Guimarães Rosa (Manuelzão e Miguilim) e de outros. E de outros menores, deveria dizer. Claro, a lista da UFRGS não é garantia de qualidade — por exemplo, lá não estão Erico nem Dyonélio –, mas serve como comprovação de que o pequeno volume de 19 contos narrados por Blau Nunes está bem vivo.

Contos Gauchescos (1912) é o segundo livro de João Simões Lopes Neto (1865-1916), que também escreveu Cancioneiro Guasca (1910), Lendas do Sul (1913) e Casos do Romualdo (1914). O autor viveu 51 anos e publicou apenas quatro livros. Talvez sejam muitos, se considerarmos a colorida vida do autor.

Casa onde residiu Simões Lopes Neto em Pelotas. Hoje abriga o Instituto João Simões Lopes Neto (Rua Dom Pedro II, 810)

Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas, na estância da Graça, filho de uma tradicional família da região, proprietária de muitas terras. Aos treze anos, foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar no famoso Colégio Abílio. Retornando ao Rio Grande do Sul, fixou-se para sempre em Pelotas, então uma cidade rica para os padrões gaúchos. Cerca de cinquenta charqueadas formavam a base de sua economia. Porém, engana-se quem pensa que Simões andava de bombacha. Seus hábitos eram urbanos e as histórias contadas nos Contos Gauchescos eram baseadas em reminiscências, histórias de infância e, bem, a verdade ficcional as indica como de autoria de Blau Nunes, não? A epígrafe da obra deixa isto muito claro: À memória de pai. Saudade. Mas voltemos ao autor.

Sua vida em Pelotas não foi nada monótona. Abriu primeiro uma fábrica de vidro e uma destilaria. Não deram certo. Depois criou a Diabo, uma fábrica de cigarros cujo nome gerou protestos da igreja local. Seu empreendedorismo levou-o ainda a montar uma empresa para torrar e moer café e a desenvolver uma fórmula à base de tabaco para combater sarna e carrapatos. Fundou também uma mineradora. Nada deu muito certo para o sonhador e inventivo João, que foi também professor e tabelião, mas ao fim e ao cabo apenas sobreviveria como jornalista em Pelotas, conseguindo com dificuldades publicar seus livros e folhetins, assim como montar suas peças teatrais e operetas. Este faz-tudo faleceu em total pobreza.

A primeira edição de Contos Gauchescos foi publicada em 1912. Se o ano é este, a data exata da publicação parece ter sido perdida. Na primeira página do volume é feita a apresentação do vaqueano Blau Nunes, que o autor afirma ter sido seu guia numa longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul.

PATRÍCIO, apresento-te Blau, o vaqueano. Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana, molhei as mãos no soberbo Uruguai, tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei entre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em São Gabriel, a forja rebrilhante que tantas espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas possantes, corri pelas paragens magníficas de Tupanciretã, o nome doce, que no lábio ingênuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus…

(…)

Genuíno tipo – crioulo – rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.

(…)

Querido digno velho!
Saudoso Blau!

Patrício, escuta-o.

Capa da edição pocket da L&PM

Após esta apresentação — de pouco mais de duas páginas na edição pocket da L&PM — , está pronto o cenário para os 19 contos (ou “causos”) que o narrador Blau Nunes contará a seu patrício. Blau é o protagonista de algumas histórias, em outras é um assistente interessado que banha os fatos de intensa subjetividade. E aqui chegamos ao que o livro apresenta de mais original: o trabalho de linguagem de Simões Lopes Neto. Os contos são “falados”, são “causos” contados por Blau e a linguagem acaba por ser uma representação da fala popular misturada a uma inflexão erudita — certamente a de Simões — , transformando-se numa terceira forma de expressão. Numa belíssima terceira forma de expressão. Sabemos que o leitor do Sul21 já está pensando em Guimarães Rosa e tem toda a razão. Rosa confessou que seu texto tinha muito da influência de Simões. O gaúcho abriu as portas para as grandes criações do autor de Grande Sertão: Veredas e esta afirmativa não é a do ufanismo vazio que procura gaúchos em navios adernados, mas uma manifestação de consistente orgulho.

E, assim como nos livros de Rosa, a linguagem de Simões Lopes Neto talvez soe estranha à princípio, apesar de que o estranhamento é muito menor do que aquele com que se depara o leitor do mineiro. Se lá Rosa cria palavras utilizando seu enciclopédico conhecimento etimológico, se lá utiliza-se até de línguas eslavas; aqui Simões transforma o sotaque da região onde nasceu. Há os adágios populares, há os muitos gauchismos do campo e da cidade e há as expressões típicas da fronteira, recheadas de espanholismos. A memória de Blau Nunes é a memória geral do pampa narrando os acontecimentos principais de sua história que, em mosaico, formam uma visão subjetiva da região e de sua gente. Era 1912, não havia regionalismo, estávamos a 10 anos da Semana de Arte Moderna e 4 anos após o falecimento e Machado de Assis. Estamos, pois, falando da literatura de um pioneiro.

Ilustração de uma edição de Contos Gauchescos

Mas Simões Lopes Neto não trabalha apenas a linguagem, é um escritor que sabe criar constante subtexto. Ou seja, há as palavras, mas há um grande contador de histórias trabalhando-as, jogando informações subjacentes que reforçam ou contradizem o que está sendo contado. Isto pode ser sentido no pequeno conto O negro Bonifácio e no tristíssimo No Manantial — segundo e terceiro contos da coleção. A propósito, no CD Ramilonga, Vitor Ramil fez uma homenagem a No Manantial. A frase que é dita no início da canção é a primeira do conto e a que a encerra — Vancê está vendo bem, agora? — está próxima ao final do conto. É uma justa homenagem. Talvez No Manantial seja o melhor conto escrito por autor gaúcho até o surgimento de Sergio Faraco. Apenas em 1937, com a publicação de Sem rumo e Porteira fechada (1944), de Cyro Martins, e de O Continente (Erico Verissimo, 1949), a literatura do RS produziria outras grandes figuras ficcionais gaúchas. Dizia Tolstói: Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia. E Blau Nunes, na condição de narrador e protagonista dos Contos Gauchescos, é um gaúcho de qualquer latitude.

Marcelo Spalding, em excelente artigo análogo a este, finaliza citando a definição de Italo Calvino para o que seria um clássico. De seu artigo, roubamos duas frases de Calvino que, a nosso ver, cabem tão adequadamente a Contos Gauchescos que não há razão para não citá-las. Segundo Calvino, um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe. Mais: clássicos seriam livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos  se revelam novos, inesperados, inéditos. E, avançando no perigoso terreno do tradicionalismo gaúcho, arriscamos dizer que a ligação com o, em sua maioria, tosco movimento, acaba por prejudicar o autor de Contos Gauchescos. O fato de haver inclusive uma Medalha Simões Lopes Neto faz com que muitos leitores do RS o associem ao MTG e deixem de entrar em contato um autor muito sofisticado. Pois o homem que desejava livrar-nos da sarna e dos carrapatos produziu grande literatura.

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Ribamar, de José Castello

José Castello é um conhecido crítico literário, escritor e jornalista que me acostumei a acompanhar nas páginas da Rascunho. Ribamar é seu mais recente romance. Romance? Romance muitíssimo autobiográfico, romance que é uma mistura entre ficção, memória, autobiografia e biografia do pai. Ribamar é José Ribamar Martins Castello Branco, pai do escritor, e o livro é uma dolorosa aproximação do filho ao pai morto.

Minha primeira surpresa ao ler Ribamar foi o tom deprimido do, tá bom, romance. O Castello que conhecia dos jornais me parecia incapaz disto: era um crítico e pessoa calma e bem-humorado, cujas críticas inteligentes eram sempre permeadas de compreensão. Fazia quase a crônica daquilo que lia. Era um agradabilíssimo gentleman literário, mas vá saber que abismos se escondem sob a casca? Sim, muito profundos. O mote para o romance-texto-anotações que vai sendo montado por Castello é a Carta ao pai, de Franz Kafka. Assim como Hermann Kafka não leu o livro do filho, Ribamar parece não ter lido mesmo livro quando lhe foi dado de presente pelo filho José. Anos depois, já com o pai morto, José depara-se com o exemplar que dera ao pai. O livro aparentemente não tinha sido lido, mas há uma frase sublinhada: Comigo não existia praticamente luta; minha derrota era quase imediata; apenas subsistiam evasão, amargura, tristeza, conflito interior. É neste ponto, além da lembrança de uma canção de ninar que manda “o mimoso José calar a Boca”, e que era cantada por seu pai, que começa a tentativa de retomada deste por parte do escritor.

O romance que, repito, é dilacerante e por vezes difícil de avançar, na segunda metade leva Castello à quente Parnaíba a fim de tentar recolher mais alguns cacos da infância paterna. A forma bisonha com que tais lembranças são procuradas e todos os sentimentos envolvidos dão enorme potência à Ribamar. Ribamar é aquele gênero de pai que penso seja cada vez mais raro, aquele que acha que humilhar educa, que criticar de forma acerba endireita. E o livro é tão dolorido que é realmente difícil escrever a respeito numa agradável manhã porto-alegrense, após uma noite feliz com os filhos.

O livro foi o vencedor da categoria melhor romance do 53º Prêmio Jabuti. Deve ter merecido. A carta ao pai de Castello não é a prosa fechada, redonda e circunstanciada de Kafka. O que faz Castello mais parece um amontoado de folhas, mas como doem.

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O dia em que Porto Alegre será destruída

Foto tirada ontem por Ramiro Furquim / Sul21

2014. 18 de junho. Dia do quarto jogo a ser realizado no Beira-Rio, cujas obras foram entregues à Fifa e ao mundo faz um mês. Era um dia estranhamente quente para aquele finalzinho de outono. A partida reúne — reúne… — Argentina e Inglaterra. A cidade está tomada pelos hermanos, mas também, em menor número, pelos polidos e simpáticos invasores das Malvinas. Após duas greves, a Brigada Militar está de prontidão e as rádios “de sucesso” anunciam que o Rio Grande do Sul será palco do confronto do século e que um gaúcho-úcho-úcho, Leandro Vuaden, será o quarto árbitro. Todas as preocupações se voltam para a situação nas ruas, ignorando o que ocorre nos céus. Só a Defesa Civil do governador olham para lá. É que lá formam-se nuvens e mais nuvens e, no final da manhã do grande jogo, começa um toró de varrer Malvinas, Margarets e Cristinas do mapa.

Logo falta luz na Zona Sul, claro. Todos os ingleses que tomavam banho nas águas do Guaíba são direcionados para o BarraShoppingSul, onde há energia elétrica e argentinos que, à princípio, apenas os observam silenciosamente. Nas ruas, instala-se o caos com 35 pontos de alagamentos. Para piorar, ocorre um acidente entre dois ônibus dentro da Túnel da Conceição, formando um engarrafamento verdadeiramente inesquecível, pois os argentinos saem dos seus carros para beberem cerveja e quebrarem qualquer coisa coisa que encontram, no que são imediatamente imitados por ingleses e gaúchos. Uma árvore cai sobre um inglês e a Embaixada do país cobra explicações do governo brasileiro.

Tudo se torna muito mais divertido quando os torcedores notam que será impossível chegar ao estádio no horário, digamos, aprazado. Na Zona Sul, a muito custo, a Brigada consegue criar dois corredores que levam separadamente ingleses e argentinos a pé, sob forte chuva, para o estádio, aproveitando a proximidade. Os que estão no resto da cidade… Bem, estes não vão chegar a lugar algum. Então, brigam. Como um jogo de futebol que se torna mais violento conforme a chuva, a coisa fica cada vez mais descontrolada. Três ingleses são afogados hasta la muerte por grupos argentinos na Av. Osvaldo Aranha, enquanto comandos ingleses perseguem hemanitos com paus e pedras. Gremistas trajados com seus típicos pijamas são confundidos pelos ingleses — as camisetas são quase iguais, lembram? — e entram no bolo para apanhar. Os colorados aproveitam para tirar uma casquinha.

(Putz, 7h, dia cheio, tenho que cobrir a abertura da Semana de Porto Alegre. Desculpem, vou para o trabalho agora. Nem revisei, só achei a ideia divertida, tá? Talvez dê continuidade mais tarde a este verdadeiro drama gaúcho).

Filme de 2009 no Arroio Dilúvio:

Esse diz que é de ontem, mas é o mesmo surfista de 2009. Acho que é outra filmagem do mesmo fato, pois encontrei esta filme ainda ontem, durante o toró:

http://youtu.be/mU-MskcwjDY

E ontem…

Tartarugas queriam sair do Arroio Dilúvio ontem. Lá fora estava igual. | Foto: Léo Cardoso

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Atualmente, com Anna Kariênina, o kamasutra é bem pesado

(Imagem enviada por Sergio Gonçalves)

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Erland Josephson (1923-2012)

Dias atrás, em 15 de novembro, escrevi que, em minha opinião, Erland Josephson era o maior ator de todos os tempos. Por isso, dois dias de depois de sua morte, aos 88 anos, é natural que escreva algumas linhas sobre aquilo que me deixou triste anteontem.

Josephson — que foi também contista, dramaturgo, cineasta e poeta — foi a cara de Bergman, o alter ego do diretor em muitos filmes, o alter ego de Bergman até em filmes em que o diretor era apenas o roteirista, como Infiel, de Liv Ullmann. Ele protagonizou ou participou de uma impressionante sucessão de clássicos bergmanianos — O Rosto, A Hora do Lobo, A Paixão de Ana, A Hora do Amor, Gritos e Sussurros, Cenas de Um Casamento, A Flauta Mágica, Face a Face, Sonata de Outono, Fanny e Alexander, Na presença de um palhaço, Sarabanda, etc. Também foi dirigido por Andrei Tarkóvski em Nostagia e por Theo Angelopuolos em Um olhar a cada dia. Após a morte de Bergman, em 31 de julho de 2007, Josephson disse: “Eu era muito apegado a ele. Tivemos uma vida divertida, emocionante e interessante. Ele foi decisivo na minha carreira de ator”. Foi mesmo, assim como também o foi Liv Ullmann e como Mastroianni foi para Fellini durante certa época.

A face de Erland Josephson sempre foi, para mim, a cara do cinema. Sua presença em cena sempre me tranquilizou — sempre me transportou automaticamente para aquele clima único que apenas o cinema pode criar — e a impressão que tenho é a de que era um conhecido meu. Erland era um amigo que dava um selo de qualidade a qualquer produção. Esta sempre foi a minha fantasia. E ele, em si, tinha tais qualidades que de sua “circunscrição” estava garantida. Talvez, avançando decididamente o sinal, o considerasse um representante meu em cena. Quando, em Sarabanda, Bergman o colocou mergulhado de cabeça entre duas caixas de som, ouvindo uma sinfonia em volume altíssimo, a idenficação foi enorme. Eu faria aquilo diariamente.

Nos livros de Bergman, fica clara a enorme amizade e respeito que o unia a seu ator predileto. Bergman muitas vezes pediu desculpas a Josephson pelos papéis nem sempre dignos, o que acho no mínimo curioso. Da leitura, surge uma amizade que misturava profundo respeito e admiração com a maior intimidade.

Foi uma grande e prolífica vida a de Erland Josephson.

Grupaço: Ingmar Bergman, Sven Nykvist, Erland Josephson e Liv Ullmann

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Em silêncio, Brasil vê o mundo comemorar o bicentenário de Charles Dickens

Charles Dickens (1812-1870): poucas edições no Brasil

Popular e piegas, social e relevante, a obra de Charles Dickens (1812-1870) cumpre longa agonia no Brasil. É difícil estabelecer o que aconteceu primeiro: se as más traduções ou os poucos leitores. Porém, se pensarmos que as más traduções também perseguiram outros autores que têm sido sistematicamente retraduzidos — com a admissão de que a maioria das traduções de décadas passadas eram mesmo de baixa qualidade — e reeditados, talvez cheguemos à conclusão de que há algo em Dickens que não bate conosco. Contrariamente a nosso silêncio, o mundo comemorou na última terça-feira (7) o bicentenário de nascimento do autor. Até o Google alterou seu logotipo por 24 horas (imagem abaixo) a fim de homenagear o grande escritor.

Consideremos três grandes livros de Dickens: Os Pickwick Papers (1836), David Copperfield (1849-1850) e Grandes Esperanças (1860–1861). A última edição brasileira dos Pickwick Papers foi de 2004 pela Editora Globo e a tradução era ainda a da velha Livraria do Globo dos anos 50. David Copperfield não foi publicado neste século, apenas em versão recontada e o mesmo vale para o esplêndido Grandes Esperanças. Mas nossa intenção não é a de revelar aos sebos que Dickens, que ora completa 200 anos de nascimento, é uma raridade. Nossa intenção é a de demonstrar que Dickens foi um escritor importantíssimo e por quê.

Ilustração de uma edição inglesa de Oliver Twist (Clique para ampliar)

A historiadora Nikelen Witter considera Dickens um colega de trabalho: “Minha percepção de Dickens envolve muito o que o romance dele representou em sua época e quem ele foi como escritor. Minha leitura juvenil do autor, confesso, foi totalmente reestruturada pelo meu estudo da história do século XIX. Talvez meu gosto por ele seja menos em razão de seu texto do que pelas ferramentas que ele disponibiliza para entender o século XIX. Dickens está entre os autores que recomendo a meus alunos de História Contemporânea e minha intenção não é a de causar diabetes em ninguém. A descrição de Dickens das gangues infantis é bastante precisa, bem como da reprodução das estruturas de poder dos adultos nas crianças abandonadas. A lacrimosa saga de Copperfield abre espaço para uma série de questionamentos históricos sobre legitimidade, pátrio poder e escolaridade, além, é claro, da irresponsabilidade do agir das classes mais altas. Há em Dickens uma defesa da igualdade”.

Pip e um mendigo: ilustração para Grandes Esperanças, seu romance mais maduro e sofisticado (Clique para ampliar)

Não sem razão, Witter refere-se ao diabetes e à defesa da igualdade. Dickens era mesmo açucarado. Oliver Twist e David Copperfield são verdadeiras torrentes de lágrimas. A morte de personagens como a pequena Nell em The Old Curiosity Shop (O Armazém de Antiguidades) é algo de deixar sóbria qualquer novela mexicana. Witter discorda do termo “piegas” e justifica: “Os livros do Dickens e das irmãs Brönte que tematizavam as agruras dos órfãos e abandonados na Inglaterra chegaram a provocar o que foi chamado de Movimento pela Infância (que começa por volta dos anos 1840), o qual lutou contra o trabalho infantil e exigiu melhorias nos orfanatos. A burguesia e a classe média leitora sensibilizaram-se com textos que demonstravam o sofrimento envolto num realismo poético — à falta de palavra melhor e para não usar o termo piegas, que, creio, teve seu conceito inventado por esta época. O fato é que o texto de Dickens são de denúncia das mazelas provocadas pelo capitalismo, em especial quando atingia os mais fracos: os pobres e as crianças abandonadas. Não é à toa que o próprio Marx foi seu admirador”.

Dickens: açúcar e defesa da igualdade

Era uma abordagem nada indignada, mas muito ressentida e dolorida da pobreza e da infância. Afinal, aquilo tinha sido a infância de Dickens. Educado pela mãe, que lhe ensinou inglês e latim, ele dizia que não fora muito mimado e que passara muito tempo lendo as novelas picarescas e romances de Henry Fielding, Daniel Defoe, Jonathan Swift e de seus contemporâneos, assim como de Cervantes e “As Mil e uma Noites”. Durante um curto período, pôde frequentar uma escola particular. Contudo, a situação piorou quando tinha dez anos. Seu pai foi preso por dívidas após esgotar os parcos recursos da família no afã de manter uma posição social digna. Nesta época, a família mudou-se para o bairro popular de Camden Town em Londres, onde ocupavam quartos baratos. A biblioteca familiar que tinha feito as delícias do jovem Dickens foi vendida, os talheres empenhados e, com doze anos, Dickens já tinha a idade considerada necessária para trabalhar colando rótulos em frascos de graxa. Ou seja, quando Dickens falava e chorava os pobres da Revolução Industrial, não estava apenas representando ou fazendo tese.

Gravura da última leitura pública de Charles Dickens (Clique para ampliar)

A defesa da igualdade era implícita. Quando Bernard Shaw comparou Marx e Dickens e quando lemos sobre o profundo apreço de Hobsbawm pelo autor, damos-nos conta do Dickens político. Só que a tribuna de Dickens era outra. Para entender sua importância, é fundamental saber que o texto de Dickens era multiuso. Ele não se tornou o mais popular autor do século XIX casualmente: tinha extremo conhecimento de seu público e dava especial atenção às formas de divulgação de seus trabalhos. A primeira forma adotada por Dickens era testar seus textos lendo-os em voz alta. Isto era fundamental por dois motivos: primeiro pelas constantes leituras públicas que o autor fazia e que lhe deram celebridade, e também porque sabia que seria lido em reuniões familiares, hábito comum na época. (Depois, reforça a historiadora Nikelen Witter, “estes leitores debateriam o que foi lido e, especialmente, ouvido. E — desejo expresso de Dickens — olhariam sob outra forma os mendigos que se acumulavam nas estradas e arrabaldes das grandes cidades inglesas”). Em segundo lugar, as publicações vinham em folhetins, então o final de cada capítulo necessitava de uma alta temperatura emocional e de suficiente expectativa para justificar a compra do próximo. Seria totalmente inválida a caricatura de que os livros de Dickens seriam um Criança Esperança misturado com novela das oito?

Sam Weller e Mr.Pickwick num prato vitoriano

Só que com qualidade muitíssimo superior. Dickens era engraçadíssimo e seu Pickwick Papers é tão intensamente cômico que demonstra não apenas a genialidade de Dickens como também o fato de ter aprendido as lições de Fielding e Swift. Mesmo seus livros mais dramáticos contêm fartas doses de humor e, dentre os personagens secundários de seus romances, há tipos inesquecíveis. Personagens como Uriah Heep, Miss Havisham, a esposa do Sr. Micawber, Sam Weller e dezenas de outros povoam sua páginas em cenas absolutamente hilariantes. Quase sempre atuam com a mesma seriedade que um membro do Monty Python atuaria. Aliás, há algo de Dickens nos filmes do Monty Python, principalmente em O Sentido da Vida. A curiosa adjetivação das cenas cômicas é matéria de estudo e os tais personagens “secundários” são tão importantes que, quando Pickwick Papers foi lançado, a recepção do público não foi calorosa no início — Dickens era um estreante de 24 anos — , mas quando apareceu a personagem de Sam Weller, o criado de Pickwick que acompanha as aventuras de seu amo, as vendas do folhetim subiram de 400 exemplares para 40 000! Sam Weller é simplesmente impagável!

O Google mudou seu logotipo no dia dos 200 anos de Dickens em homenagem ao autor (Clique para ampliar)

Então, por que Dickens é tão famoso no mundo inteiro, mas não no Brasil, onde mal tem seus livros editados e traduzidos? Será pelos enredos inverossímeis, cheios de coincidências e reviravoltas? Bem, mas não é isso o que se vê em nossas novelas? Será que Dickens não esconderia demais sua crítica social? Será complicado concluir que o ingrediente base de Oliver Twist e Nicholas Nickleby é a denúncia da condição infantil e da situação de muitos estabelecimentos de ensino? Seria igualmente complexo notar que A Casa Soturna é um romance contra a corrupção e a ineficiência do sistema jurídico inglês, tal como A pequena Dorrit? Será este último lido apenas como a típica história do pobre que enriquece e não como uma violenta sátira ao judiciário da época? Ficam as perguntas. O fato é que Dickens, aos 200 anos de nascimento, é celebrado em grande parte do mundo enquanto agoniza no Brasil.

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Lendo Anna Kariênina (ainda não é uma resenha, é só paixão)

Li rapidamente um terço do livro de 814 páginas. Incrível como minha lembrança do romance era distorcida. É ainda melhor do que eu lembrava. Tolstói não é aquele estilista perfeito — usa estranhas pontuações e repete palavras tal como o tradutor Rubens Figueiredo (excelente) referiu no prefácio. Por exemplo, nas páginas 241-242 há um parágrafo de quase uma página onde a palavra “camponeses” aparece 15 vezes. Sem problemas, o homem sabe contar uma história como ninguém. Tais repetições não revelam descaso com o texto. Tolstói era um escritor cuidadoso, revisava muitas vezes seus textos que depois eram passados a limpo à noite por sua mulher. Ele usa as repetições em seu hábil discurso livre indireto, inserindo-se nas idiossincrasias e vícios de linguagem dos personagens.

Outra coisa é que as descrições nunca são contadas sem o filtro e a emoção de um personagem. Não são descrições mortas, sem ação, Tolstói integra tudo, fica lindo. Vemos a propriedade de Liêvin enquanto o mesmo sofre e trabalha nela. Nada para, tudo narra.

Esta tremenda obra de arte muito bem planejada é cheia de pequenos detalhes significativos. Há dois personagens principais, Liêvin e Anna. Em torno deles gira toda a ação, com apenas dois ou três pontos de contato mais claros, Kitty, Oblónski e sua mulher Dolly. Duas perspectivas da mesmíssima Rússia. Um painel? Sim, mas um painel de câmara, sem e com maior grandiosidade do que em Guerra e Paz.

Tal como na primeira leitura, que fiz aos 17 anos, o bovarismo de Anna me parece mais antipático do que o da heroína de Flaubert, mas sua impulsiva irreflexão é um dos pontos altos do romance. Uma coisa de que não lembrava era da ironia de frases que se contradizem em grande parte do romance. Às vezes umas contra as outras, às vezes internamente.

(Paixão de outros: estou num banco para falar com uma gélida gerente de contas. Ela se levanta para ver se um cartão está na agência. Quando volta, interrompe arregalada o ato de sentar. Fica suspensa olhando para o livro de Tolstói e me diz lenta e saborosamente: Anna Kariênina… eu simplesmente amo esse livro! Senta-se e começa a falar comigo com se fôssemos velhos amigos).

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O Google homenageou Dickens ontem

E ficou muito legal.

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Aforismos, de Karl Kraus

Não sou nada original: sou mais uma pessoa que não acredita no politicamente correto. Principalmente no âmbito artístico, é algo que não funciona. Fico pensando no que seria uma versão politicamente correta do Monty Python… É possível? Sim, mas perderia toda a graça. O politicamente correto acaba com o humor e muitas vezes destrói a arte. Por exemplo, dois recentes filmes dramáticos, ambos candidatos ao Oscar, viram uma criancice em suas cenas finais em razão do politicamente correto: Tudo pelo Poder, onde a “consciência” do malvadinho recebe uma chamada na última cena, e Os Descendentes, onde os adúlteros são punidos. Esses filmes poderiam até ser muito bons se mantivessem algum ponto de contato com a realidade. Na realidade, sabemos, quase sempre os bons se ralam, dando lugar aos arrivistas. Fico imaginando a versão PC de Lolita, mas deixa pra lá.

Karl Kraus (1874-1936) não pisa na linha que separa o correto e o incorreto, Kraus vive dentro do incorreto de tal maneira que até este comentarista fica meio sem jeito. Os primeiros aforismos deste volume — que tem excelente tradução de Renato Zwick e luxuosa edição da Arquipélago — são um quase só de ataques à mulher. No início, a gente estranha, depois acha engraçada a misoginia de Kraus. Não se trata de hipérboles, ou seja, de  intensificar algo até o inconcebível. É uma misoginia tão pensada, inteligente, antiquada e terrível que apenas pode ser suportada da mesma forma com que se admira Nelson Rodrigues e tantos outros autores que viviam em sociedades que aceitavam a misoginia e o machismo. Para a contemporaneidade, a genialidade de Kraus vem logo a seguir, quando ataca todo e qualquer ser humano e intelectual e jornalista e político. O mau humor de Kraus manifesta-se principalmente contra seu país de adoção, a Áustria. Aliás, a Áustria também é objeto do ódio de outro gênio indiscutível do século XX, o grande Thomas Bernhard. Com efeito, deve ser um país habitado por um povo repugnante, mas produz bons artistas. Kraus, obviamente, era um colecionador de inimigos.

Os aforismos do livro da Arquipélago foram selecionados em três coletâneas que Kraus publicou em vida: Ditos e Contraditos (1909), Pro Domo et Mundo (1912) e De Noite (1919). As coletâneas tiveram origem na virulência que o autor demonstrava nas páginas do Die Fackel (“A Tocha”) — revista que fundou e da qual foi praticamente o único redator durante quarenta anos. Paradoxalmente, Kraus, um dos maiores escritores satíricos em língua alemã do século XX, trabalhava na imprensa, apesar de odiá-la minuciosamente. Odiava como ninguém a estupidez e a ignorância dos jornalistas de seu tempo. Seus temas são a política, a filosofia, a imprensa e o papel do artista na sociedade.

São pequenos textos e frases furibundas e geniais. Seu autor insiste que todos os aforismos devem ser lidos mais de um vez. É horrível ter que dar razão a alguém tão arrogante, mas o fato é que na segunda leitura cada um dos aforismos ganha significado duplo ou triplo. Fazer o quê? Há muito que aprender com as frases curtas de exatidão milimétrica e múltiplo sentido de Kraus.

A seguir, alguns petiscos:

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A relação dos jornais com a vida é mais ou menos a mesma das cartomantes com a metafísica.

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A expressão “laços de família” tem um ressaibo de verdade.

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A vida de família é uma invasão da vida privada.

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Muitos têm o desejo de me matar. Muitos, o desejo de ter dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei me protege.

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As penas servem para intimidar aqueles que não querem cometer crimes.

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Não há criatura mais infeliz sob o sol do que um fetichista que anseia por um sapato feminino e precisa se contentar com uma mulher inteira.

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Eles tratam a mulher como se fosse um refresco. No entanto, não admitem o fato de as mulheres sentirem sede.

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Formação é aquilo que a maioria recebe, muitos passam adiante e poucos possuem.

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Propostas para que essa cidade volte a conquistar minha simpatia: mudança de dialeto e proibição de reprodução.

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Não ter pensamentos e ser capaz de expressá-los — eis um jornalista.

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Preciso estar outra vez entre os seres humanos. Pois neste verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, minha misantropia degenerou gravemente.

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Muitos talentos conservam sua precocidade até idade avançada.

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Não tenho mais colaboradores. Eu tinha inveja deles. Eles afastam os leitores que eu mesmo quero perder.

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O que distingue Berlim e Viena ao primeiro olhar é a observação de que lá se consegue um efeito ilusório com o material mais desprovido de valor, enquanto que aqui, na produção do kitsch, se emprega apenaas material autêntico.

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Quando o pecado se atreve a avançar, ele é proibido pela polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.

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A ética cristã conseguiu transformar heteras em freiras. Infelizmente, ela também conseguiu transformar filósofos em libertinos. E graças a Deus, a primeira metamorfose não é assim tão confiável.

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A sexualidade mal recalcada causou perturbações em muitas casas; a bem recalcada, no entanto, perturbou a ordem do universo.

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Ao sadio basta a mulher. Ao erotista basta a meia para chegar à mulher. Ao doente basta a meia.

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“Não se permitir mais ilusões”: é então que elas começam.

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Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os ruins. Uns serão reconhecidos, e ou outros, desmascarados.

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Anotações sobre Anton Tchékhov

Anton Tchekhov e Liev Tolstói

Publicado originalmente no Sul21 — É um texto antigo que foi bastante revisado para publicação no site

É curiosa a celebridade póstuma alcançada por Anton Tchékhov. Seja na Rússia ou em qualquer lugar do mundo, o escritor está cada vez mais próximo do nível de semideuses de Dostoiévski e Tolstói, só para ficar entre seus conterrâneos. É justo. Não há uma “grande obra” do autor, mas o numeroso mosaico formado por seus contos, peças teatrais e novelas merece lugar entre as maiores da literatura ocidental.

O fascínio de nossa contemporaneidade com o escritor russo não é casual: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações — ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui — , a imaginação para criar cenas e situações significantes, sua visão sem ilusões do amor e a total falta de preconceitos não apenas o permitia transitar por toda a sociedade russa do século XIX como permite que o mesmo aconteça entre os leitores de hoje. Talvez ele não fale a todos da mesma forma, mas há um fato comum citado por vários ensaístas: ele é uma leitura inteligente cuja presença e essência é amiga e irônica. Ou seja, ele vicia.

Tchékhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…

Tchékhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe violentas críticas, que acusavam seu “mau gosto” e a utilização de “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz importantes observações sobre Tchékhov:

No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchékhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.

Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchékhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.

O desconcertante é que Tchékhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.

E, mais desconcertante para a época:

Para Tchékhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.

E o próprio Tchekhov escreveu, demonstrando uma posição absolutamente moderna, a do escritor que se nega a proferir “verdades”:

Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.

Indicações de leitura

Há muitos livros de Tchékhov para serem indicados. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. O extraordinário A Enfermaria Nº 6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam reunir-se a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

A novela A Estepe, curta e genial, narra a viagem de uma criança como uma metáfora da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê. A impressão estranha que a novela causa é semelhante a causada pelo filme Olhos Negros de Nikita Mikhálkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”.

O melhor livro talvez seja uma tradução dos contos feita por Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editado primeiro pela Civilização Brasileira, depois pela Max Limonad e finalmentye para Editora 34.

Outros livros:

Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Lenco Tchékhov. Ensaio e Contos. Ediouro. 2004. Trad.de Tatiana Belinky.

Filmes: há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchékhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

A opinião de Tolstói

Os personagens de Tchékhov são cheios de boas intenções sobrecarregadas de estupidez, inatividade e finalidade. Tchekhov é moderno em sua concisão, pouca adjetivação e principalmente na recusa em explicar o mundo. Confrontado com as idéias de Tolstói — o qual em seus textos parece ter resolvido todos os impasses da humanidade — , Tchékhov era um apresentador de realidades complexas e insolúveis que habitam uma dentro da outra. Também defendia, uma novidade na época, os efeitos benéficos da ciência e do progresso. Porém, apesar de totalmente diferente, Tolstói apreciava muito sua obra.

Em vida, Anton Tchékhov era razoavelmente conhecido, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstói disse: “Creio que Tchékhov criou novas — absolutamente novas — formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar o amigo, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstói não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchékhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

As mortes de Tchékhov

Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.

Olga Knipper, esposa de Anton Tchékhov.

A morte de Tchékhov no balneário de Badenweiler é uma das mais recontadas da historia da literatura. Parece haver enorme sedução na cena do escritor moribundo, sua mulher, seu médico, o estudante que chegou para ajudar e a garrafa de champanhe. Quem pediu a bebida? O médico ou Tchékhov? A sedução é tanta que o grande Raymond Carver escreveu um conto, Três rosas amarelas, no qual narra a cena, só que cheia de detalhes inventados. Talvez isso tenha nascido da narrativa de Olga Knipper, atriz e mulher do escritor. Em seu relato, a cena é contada com tanto, mas tanto romantismo que não parece verdadeira. O cômico sobre sua morte é que a prórpia Olga narrou a morte do marido várias vezes. De forma sempre diversa…

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado ocorreu. Tchékhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha. Tinha nascido em 29 de janeiro de 1860.

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Comentário de: PAULO TIMM | 29 de janeiro de 2012 | 16:29 |Editar

Suplico , por favor, a publicaçao do citado conto:
Raymond Carver -Três rosas amarelas
E, se for impossível, peço que me enviem por email. Fico morrendo de ansiedade para lê-lo. Aguardo [email protected]

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Comentário de: Celso | 29 de janeiro de 2012 | 17:50 |Editar

Além do Tchekhov, o escritor que está acima de todos, é fundamental conhecer o que pensava o homem Tchekhov. Sugiro 2 livrinhos imprescindíveis, ambos de 2007 e editados pela editora Martins (São Paulo): “UM BOM PAR DE SAPATOS E UM CADERNO DE ANOTAÇÕES – Como fazer uma reportagem” e “SEM TRAMA E SEM FINAL – 90 conselhos de escrita”, ambos baseados em correspondências de Anton Tchekhov.

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Comentário de: Jeferson | 30 de janeiro de 2012 | 0:22 |Editar

Estupenda apresentação. Parabéns. Vou só deixar uma discordância, a título de colaboração. Não concordo com a ideia de ler o teatro do Tchekhov como se fosse novela. Acho que o leitor ganha em salientar as diferentes tarefas dos dois gêneros e em compreender como o autor fez uso dessas diferenças.

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Comentário de: Jéferson Assumção | 30 de janeiro de 2012 | 9:33 |Editar

Parabéns, pelo texto. Sugiro colocar na lista Consejos a un Escritor, com as cartas entre ele e Olga. Há quatro anos, seis amigos me presentearam com os seis volumes dos contos completos de Tchecov. Maravilhoso!

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Coisas várias (post antigo que estava no "lixo" de meu blog, sei lá por que — de que data será?)

A meu pedido, o Idelber indicou uma série de livros argentinos que considerasse ótimos. Acho que ele já tinha feito isto em seu blog, mas não encontrei onde, ainda mais estando em viagem e evitando o excesso de internet. Então pedi a ele e fui atendido com a simpatia e presteza de sempre. A lista é a seguinte e a divulgo a pedido da Viva e de outros que não lembro.

Museo de la novela de eterna, de Macedonio Fernandez.
El director, de Gustavo Ferreyra.
El pasado, de Alan Pauls.
La ciudad ausente, de Ricardo Piglia.
– Qualquer uma das curtinhas do César Aira.
El desperdício, de Matilde Sánchez
Cosas de negros, de Washington Cucurto.
Museo de la revolución, de Martín Kohan (esta você vai adorar)
Yo nunca te prometí la eternidad, de Tununa Mercado.
– Se encontrar algo de Gombrowicz, compre.
– Se não conhece Roberto Arlt, compre logo as obras completas.

Ricardo Piglia, Roberto Artl e Gombrowicz eu já conhecia e gostava. Gombrowicz foi um escritor polonês que, se não me engano, foi pego pela Segunda Guerra Mundial durante uma viagem a Buenos Aires. Ficou por lá. Os hermanos tiveram sorte; enquanto recebíamos o xaroposo Zweig, os argentinos ganhavam de presente um tremendo escritor. Artl e Piglia são meus velhos conhecidos. Li-os sempre em traduções. São excelentes mas não tinha vontade de relê-los em espanhol.

Não procurei enlouquecidamente e acabei não encontrando os livros de Macedonio Fernandez, Gustavo Ferreyra e Matilde Sánchez. Não simpatizei com El Pasado, do qual li algumas partes — posso estar errado. Mas fiquei horas escolhendo uma das curtinhas de César Aira – escolhi El Pequeño Monje Budista – , comprei sem hesitação Cosas de negros, Museo de la revolución e Yo nunca te prometí la eternidad. Tenho absoluta certeza que adorarei os livros de Kohan e de Tununa Mercado.

Comprei muitos outros. Duas traduções: Montauk, do meu queridíssimo suíço Max Frisch, um dos autores de que mais gosto e dois pequenos volumes de Raymond Carver, o extraordinário escritor americano que possui apenas dois grandes admiradores no Brasil: eu e Branco Leone. Destaco também o best seller argentino Historias de diván, do psiquiatra Gabriel Rolón, que comprei por pura curiosidade, e Teoría del desamparo, um policial premiado na Argentina, de Orlando Van Bredam. Os outros foram livros sobre música e artes plásticas.

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O argentino Reinaldo Waveqche, 24, casou-se em Santa Fé com Adelia Volpes, de 82. Ele confessou gostar de “mulheres mais velhas” e garantiu não ter interesse financeiro, até porque Adélia já tinha lhe doado todas as suas posses. A lua-de-mel será no Rio de Janeiro. Os 58 anos de diferença não serão problema, declarou.

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Enquanto a Veja descobre que Che Guevara não tomava muitos banhos e por isso fedia, a governadora Yeda Crusius ataca de aumento de impostos. Em sua mira, alguns produtos pouco fundamentais como luz, combustíveis e… cerveja. É claro que ela aumentaria impostos de itens sem os quais não podemos viver, até porque isso garantiria a renda que seu governo não consegue receber de outro modo. Mas o que me surpreende é saber que o déficit poderia ser zerado através de medidas moralizadoras ou de fiscalização que diminuíssem a crescente sonegação. Por que só o governo federal cuida bem de seus cofres? (Tive uma pequena empresa e sei que simplesmente não posso sonegar impostos federais nem que queira.) Por que Yedinha, que faz uma administração repugnante e é naturalmente limitada – mas que conhece o caminho da fiscalização -, não nos ataca pelo outro lado? Por que a luz, os combustíveis e a cerveja e não fiscalização? Ora, Milton, porque é mais fácil; além disso, a moralidade e a isonomia é uma das últimas prioridades de Yeda.

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Lewis Carroll, o matemático e fotógrafo gago que inventou Alice

Lewis Carroll (ou Charles Dodgson), autor do fascinante, louco e engenhoso Alice no país das maravilhas

Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como Lewis Carroll, nasceu na Inglaterra em 27 de janeiro de 1832 e morreu em 14 de janeiro de 1898. Além de escritor, Carroll foi matemático, lógico, pastor anglicano e fotógrafo; além de obras de ficção e poesia, escreveu tratados matemáticos, livros de lógica, adivinhações e jogos; mas sua celebridade póstuma foi garantida por Alice no país das maravilhas (Alice in Wonderland), publicado pela primeira vez em 1865. Trata-se de um dos mais fascinantes, loucos e engenhosos livros já escritos. Há uma continuação – chamada Através do espelho e o que Alice encontrou lá (Through the Looking-Glass and What Alice Found There) – , que passou a ser rotineiramente publicada na parte final do volume de Alice.

Quando era professor de matemática e lógica na Universidade de Oxford, Carroll conheceu Henry Liddell. Liddell chegara à Oxford no mesmo ano que Dodgson, em 1856, trazendo consigo sua jovem família, os quais viriam a ter grande influência na vida e na carreira do autor. Dodgson tornou-se logo íntimo da esposa de Liddell, Lorina, e de seus filhos, principalmente das três irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell, fonte de inspiração para a Alice do livro.

Embora as informações sejam escassas – os diários de Dodgson do período entre os anos de 1858 a 1862 foram perdidos – , os biográfos garantem que, no começo da década de 1860, Dogdson tinha o hábito de levar as crianças – primeiro o menino, Harry, e mais tarde também as três meninas — em passeios de barco a remo até Nuneham Courtenay ou Godstow.

A primeira edição de Alice

Foi numa destas expedições que, em 4 de julho de 1862, Dodgson criou o esboço da história de Alice. Tendo-a inventado no barco e contado de improviso para as crianças, ouviu Alice Liddell implorar para que a pusesse por escrito. Depois de mais de dois anos, em novembro de 1864, Dodgson presenteou Alice com um manuscrito, ilustrado pelo próprio autor, chamado Alice’s Adventures Under Ground ou As Aventuras de Alice sob a Terra. O manuscrito foi parar nos escritórios da editora Macmillan, que o aprovou imediatamente. Após alterarem o titulo para Alice among the fairies (Alice entre as fadas) e depois para Alice’s Golden Hour (A hora maravilhosa de Alice), finalmente chegaram a Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas) e a autoria passou a um certo Lewis Carroll, pseudônimo que Dodgson costumava utilizar em seus escritos literários. As ilustrações de Carroll foram substituídas pelas de um profissional e, por sugestão do escritor Henry Kingsley, Alice foi publicado sem especificar se era destinado a adultos ou crianças.

A primeira adaptação de Alice no país das maravilhas para o cinema foi produzido no longínquo ano de 1903…

Uma das principais características de Alice no país das maravilhas é a de permitir tanto a abordagem infantil quanto a adulta. Tudo começa quando Alice, uma menina curiosa, mas cansada de sua vida monótona, vai atrás de um apressado Coelho Branco, caindo em um mundo diferente, divertido e nonsense. Lá, conhece personagens como os irmãos gêmeos Tweedledee e Tweedledum, o Gato Risonho, a Lagarta, toma chá com a Lebre Maluca e o Chapeleiro Louco e participa de um jogo de cróquete com a Rainha de Copas. Alice é mais uma espectadora surpresa das coisas que acontecem ao seu redor e seu encantamento efetivamente parece ser o de uma criança absolutamente desconcertada e feliz. Há grande literatura envolvida, muitas reviravoltas, jogos, propostas, experimentalismo e uma criatividade incontrável e wit. Após anos sendo parcialmente traduzido no Brasil como livro infantil — houve edições parciais de até 10 páginas! — , Alice só ganhou sua verdadeira grandiosidade quando foi traduzido, em 1980, pelo poeta Sebastião Uchoa Leite.

A edição da Summus com a tradução de Sebastião Uchoa Leite

Quem lê esta versão, nota não apenas as analogias e trocadilhos geniais, mas a fina ironia de perpassa o relato e principalmente um surpreendente sequência de situações que representam fatos da própria infância de Alice e da de todos nós ou, tal como explica Lenir Fátima de Castro, da UFF (Universidade Federal Fluminense), que representam “imagens mentais das várias situações vividas pela menina Alice — os diversos apuros, as diversas dificuldades”. Segundo ela, “os maiores atrativos são o ‘logos fantástico’, o nonsense e a capacidade que o autor tem de imprimir ao texto um encadeamento por imagens e sensações”. Além do mais, há um elaborado trabalho de linguagem que, assim como a simbologia, permanecera inapreensível ao leitor brasileiro antes da tradução de Leite.

No século XIX, a história foi um sucesso instantâneo e desde então consta entre os mais importantes textos da literatura universal. A obra tem sido objeto de filmes, histórias em quadrinhos e álbuns de colecionar, mas também tem sido lida e estudada por muitos adultos.

Outra Alice produzida para o cinema, esta de Walt Disney (1951):

O enorme sucesso comercial do livro mudou a vida de Dodgson em muitos aspectos. A fama de seu alter ego Lewis Carroll logo se espalhou ao redor do mundo e ele viu-se soterrado por cartas de fãs e atenções muitas vezes indesejadas. Por exemplo, a Rainha Vitória gostou tanto que sugeriu que o livro seguinte de Carroll fosse dedicado a ela. Carroll negou o fato, apesar das muitas testemunhas. A verdade é que seu próximo livro, um volume acadêmico de matemática intitulado Tratado Elementar sobre Determinantes, foi dedicado à Rainha. Um livro de matemática talvez não fosse exatamente o que ela desejasse…

A Alice mais recente, de Tim Burton:

No final de 1871, Carroll publicou uma sequência – Alice através do Espelho e o que encontrou lá. As cores menos vivas desta continuação provavelmente reflitam as mudanças na vida de Carroll. A morte de seu pai, em 1868, mergulhou-o numa depressão que durou alguns anos.

Lewis Carroll: dificuldades para pronunciar o próprio sobrenome

Charles Dodgson

Charles Dodgson foi um homem alto, surdo de um ouvido e “hesitante”. “Hesitação” era o sucedâneo utilizado por Dodgson para referir-se à sua gagueira. A gagueira de Dodgson era peculiar. Há a crença de que gaguejava somente na companhia dos adultos e seria fluente com crianças. Porém, logo após sua morte, seus biógrafos informaram que havia crianças que lembravam da gagueira e adultos que mal a perceberam. Dodgson parece ter sido o mais consciente dela, tanto que teria se autocaricaturizado como o Dodo de Alice, referência à própria dificuldade para pronunciar o sobrenome.

Não deixa de ser estranho que o gago Dodgson cantasse e se apresentasse para plateias em ambiente familiares, tendo sido um apreciado narrador de histórias. Também era ótimo em mímica e em responder charadas. Dizia que a chave para uma boa história era ter sempre em mente surpreender as pessoas.

As tais fotografias

Alice Liddell, a inspiração para o livro | Foto: Lewis Carroll

Carroll também foi fotógrafo amador e colecionava imagens de meninas entre 8 e 12 anos de idade. A nossos olhos, as fotografias parecem o mesmo que pareceram a Vladimir Nabokov, autor de Lolita e criador do personagem-narrador Humbert Humbert:

Eu sempre o chamo de Lewis Carroll Carroll porque ele foi o primeiro Humbert Humbert. Você viu as fotografias dele com as meninas? Ele fazia acertos com as tias e mães para fotografar as crianças. Mas nunca foi acusado, exceto por uma menina que escreveu sobre ele quando já era velha.

Vladimir Nabokov em entrevista para a Vogue em dezembro de 1966

O que se dizia na época era que, quando tinha oportunidade, gostava de desenhar ou fotografar meninas seminuas, com a permissão e presença de suas mães. “Se eu tivesse a criança mais linda do mundo para desenhar e fotografar”, escreveu, “e descobrisse nela um ligeiro acanhamento (por mais ligeiro e facilmente superável que fosse) de ser retratada nua, eu sentia ser um dever solene para com Deus abandonar por completo a solicitação”.

Os nus infantis foram destruídos ou devolvidos aos pais das crianças| Foto: Lewis Carroll

Por temor que estas imagens de crianças desnudas criassem embaraços para as meninas mais tarde, Carroll pediu que, após a sua morte, fossem destruídas ou devolvidas às crianças ou aos pais delas. As fotos eram presumidas como perdidas, mas, desde então, surgiram seis imagens. Na verdade, a atenção de Carroll como fotógrafo foca-se tanto em suas imagens de meninas como em estudos de homens, mulheres, crianças do sexo masculino e paisagens, assim como esqueletos, bonecas, cães, estátuas e árvores.

Após 24 anos, em 1880, Carroll deixou subitamente a fotografia. Menos de 1000 imagens sobreviveram ao tempo e à destruição deliberada. Ele afirmou que parou de tirá-las porque manter o trabalho no estúdio era difícil (ele usava o processo de revelação com colódio líquido) e os fotógrafos comerciais (que começaram a utilizar o processo de chapas secas na década de 1870) tiravam fotos com maior rapidez.

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Uma galeria de fotos de Lewis Carroll (pesquisa de Ramiro Furquim):

Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Alice Liddell | Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll

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Como funciona a ficção, de James Wood

Só existe uma receita: ter o maior cuidado na hora de cozinhar.
HENRY JAMES

Esta citação abre Como Funciona a Ficção (232 páginas, Cosac Naify, tradução de Denise Bottmann), de James Wood, e é uma frase muito humilde e realista da parte do autor, pois no final quem decidirá o que será usado na  ficção serão as decisões do autor e de seu editor aliadas à apreensão do leitor, que dirá afinal se funcionou. São coisas realmente muito complicadas de se colocar num manual, pois há toda uma realidade complexa e inapreensível: o ouvido, a música, a qualidade das analogias, o uso dos detalhes, a criação de personagens, os diálogos, o bom uso do discurso livre indireto, o foco, a capacidade de fugir do convencional, etc. Ou quem sabe poderíamos chamar todos este itens simplesmente de bom gosto?

Wood sai avisando logo de cara:

Neste livro, tento responder algumas das perguntas fundamentais sobre a arte de ficção. (…) espero que seja um livro que faz perguntas teóricas e dá respostas práticas – ou, em outras palavras, que faz as perguntas do crítico e dá as respostas do escritor.

Nem tanto, Mr. Wood. As respostas vêm por exemplos, é mostrado o que funciona e tais demonstrações certamente são irrepetíveis — pois qualquer ingrediente alterado tem o condão de mudar inteiramente o sabor e se não fosse alterado teríamos casos de plágio… Desta forma, acho que é demais dizer que dá respostas práticas. (Fico pensando nas oficinas literárias. Como se aprende a fazer ficção? Com algumas instruções sai alguma coisa, mas é possível “formar o ouvido” lendo poesia, como sugere Wood? Ou seria mais eficiente ouvir Bach ou observar os trabalhos gráficos de Goya? Como se forma a sensibilidade, cara-pálida? Ah, não me perguntem. Acho que os “professores” das oficinas apenas podem dar uma melhorada, verificar que o aluno está pronto ou mandá-lo guardar seu dinheiro).

Apesar de ser organizado por assunto, o livro funciona por acumulação, tendo citações reutilizadas. Conhecer a maioria dos livros citados é bom, mas não é fundamental para a compreensão do todo. A primeira parte, “Narrando” trata basicamente do artifício do “discurso ou estilo indireto livre”, onde características dos personagens grudam num texto escrito em 3ª pessoa e quem passa a falar não é mais o autor. Os exemplos vem de Joyce, principalmente dos contos de Dublinenses, onde o irlandês usa e abusa do recurso. É um bom capítulo. Depois, grande parte dos argumentos derivam principalmente de Flaubert, mas também de James, Woolf, Dickens, Dostoiévski, Tolstói, Bellow, Saramago, Philip Roth e Muriel Spark. Há observações excelentes sobre o flâneur, os personagens, os detalhes, a linguagem e o melhor, o último, sobre verdade, convenção e realismo.

Leio estes livros sobre ficção por puro prazer. É como se sentasse com um amigo muito culto e gentil para trocarmos ideias num café. Não tenho a expectativa de aprender. No máximo, a discussão auxilia a organizar os pensamentos, o que já é muito e faz certamente parte de um aprendizado. Organizar o que se sabe É aprender, certamente, e é bom falar sobre literatura e lembrar passagens de livros.  Mas que ninguém leia este gênero de livro ou frequente oficinas na expectativa de que os horizontes se abram. São momentos enriquecedores e agradáveis. Se serão fecundos é outra história.

Leia mais e melhor: Aprendendo como funciona a ficção

P.S. — Há toda uma discussão sobre se Wood é conservador ou não. Não me pareceu sê-lo. O que é correto dizer é que ele parte via de regra do ícone e que cultiva grande amor pelo realismo. As pessoas fazem confusão entre realismo e naturalismo… E, bem, para ser compreendido há que dar exemplos de conhecimento comum, correto? Além do mais, vários autores recentes e muito diferentes entre si são citados. Esqueçam.

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Um local de Porto Alegre: a Palavraria, local para livros e convivência

Uma livraria que não é apenas um local de compra e venda | Ramiro Furquim/Sul21

Publicado originalmente neste sábado (7) no Sul21

Os três sócios da Palavraria (Vasco da Gama, 165, Bonfim, Porto Alegre, (51) 3268 4260) têm algo em comum além dos nomes. Carla Osório, Carlos Luiz da Silva e Luiz Heron da Silva eram amigos que tinham diferentes profissões. Carla era advogada; Heron, professor de português, e Carlos, bibliotecário. Mas eles queriam ter uma livraria que não fosse apenas um local de compra e venda. “Há nove anos, criamos um projeto do qual não nos afastamos até hoje”, diz Carla. Eles procuravam e não conseguiam encontrar uma livraria que fosse um lugar onde quem vendesse os livros soubesse o que estava vendendo, que soubesse conversar sobre eles e sugerir alternativas se a obra procurada não estivesse disponível. Se agregasse um café, melhor. “Boas livrarias existiam e existem, a Bamboletras, o Gustavo da Ventura e outros estão aí, mas nós queríamos não apenas o acervo e a compra interessante, mas outras coisas que tornassem o ambiente mais agradável”.

Carla: “Há nove anos, criamos um projeto do qual não nos afastamos até hoje" | Ramiro Furquim/Sul21

A mistura de livraria com café foi desaconselhada em todas as consultas, mas o trio insistiu em colocar a livraria no mesmo ambiente do café. “Tínhamos razão nisso”. Nas livrarias convencionais só se pode levar os livros da livraria para a cafeteria se os mesmos já estiverem comprados. Na Palavraria não. Nela, o cliente pode namorar com calma os livros a fim de estabelecer uma relação antes do casamento. “O que nos interessa é deixar o cliente à vontade num ambiente agradável”, diz Heron. E se o cliente, durante a abordagem, sujar o livro de café? Bem, é o ônus. “Logo que inauguramos, um amigo nosso derrubou uma xícara cheia sobre livros de arte… Sobre vários livros… É um risco que a gente aceita correr porque as vantagens são imensas. Via de regra, nossos clientes cuidam muito bem dos livros”.

O primeiro café que Carla fez foi para Flávio Koutzii. “Eu recém estava aprendendo a fazer café expresso e me resolvi me arriscar com ele. Ele começou a bebê-lo e eu perguntei como estava. A resposta foi: ‘O café está bom, mas alguns diriam que está morno como o dia de hoje…’”.

Hoje, o café é servido quente... | Ramiro Furquim/Sul21

Heron diz que os sócios sempre quiseram estar num negócio do qual gostassem. “Há trabalhos em que tu fazes o que tens que fazer e outros em que tu consegues fazer o que gosta, sem muito ‘tarefismo’”. Atrair um público que gostasse de literatura, política e arte era algo motivador. Os clientes entenderam o espírito da coisa. “Muita gente vem aqui para conversar, para conviver num local agradável. Claro, as pessoas falam sobre qualquer assunto, mas a efervescência, a perspectiva cultural é mantida, o que torna tudo mais interessante, mesmo que se trate de assuntos comuns como o futebol ou uma nova cor de batom. Não raro se encontram escritores numa mesa, editores noutra, leitores noutra, além dos que vêm apenas tomar café e dar uma folheada nas novidades”.

Ou seja, a livraria é o suporte, o café é um local de encontro e isso faz sentido do ponto de vista antropológico, pois as pessoas se entendem melhor comendo e bebendo. Dentro deste clima, a Palavaria tornou-se um local de fomento cultural, de incentivo, de divulgação, um local onde os produtores culturais, artistas, cientistas, etc. apresentam trabalhos, expõem ideias e fazem interações com o público interessado. “Provemos a livraria de uma discussão, de uma conversa constante, programática ou não. Então, desde o projeto – procuramos uma casa de dois pisos para que pudéssemos viabilizar uma sala de aula – , previmos oficinas literárias, leituras, bate-papos e música. Mantemos um discurso cultural formal e informal”, explica Carla.

Heron: "Não raro se encontram escritores numa mesa, editores noutra, leitores noutra, além dos que vêm apenas tomar café e dar uma folhada nas novidades”. | Ramiro Furquim/Sul21

Atrás da mesa onde conversamos, há um microfone e um pequeno palco, mas a atmosfera de proximidade não é quebrada, “É uma ideia pretensiosa manter um espaço assim, ainda mais que não temos marketing profissional”.

No segundo andar da Palavraria, há uma sala que serve às duas oficinas mantidas atualmente: uma de Charles Kiefer, voltada ao romance e ao conto, e outra de Ronald Augusto, voltada à poesia. A sala também serve para seminários, cursos e está disponível para ser utilizada. Aliás, o Sul21 realizou suas primeiras reuniões e foi em parte concebido na sala da Palavraria. “Temos planos de ampliar a programação. Provocamos pessoas a ministrar cursos aqui. O público é muito variado. O perfil das turmas da manhã e da noite são diversos e a tentativa é fugir daquilo que se encontra na academia.”

“Um espaço como o nosso está na contramão da história. Não somos um oligopólio, uma megalivraria, não vamos vender eletrodomésticos… Somos uma pequena livraria de bairro, segmentada, de rua, não temos nem estacionamento. A gente privilegia as relações pessoais, o relacionamento direto, o conhecimento dos livros dos quais nossos clientes gostam. Também sugerimos presentes tendo por base o gosto do presenteado. Aqui ninguém vai levar um romance político para quem gosta de algo intimista. Pessoalmente, ter abrido a Palavraria foi muito enriquecedor do ponto de vista humano e intelectual. Aprendemos muito mais a lidar com a diversidade do que antes da livraria”, explica Carla.

Heron sublinha que há uma troca, que com o tempo os clientes também passam a indicar livros. Mas revela: “Temos a preocupação de respeitar o perfil do cliente, de não sermos invasivos. Mas valorizamos o vínculo”.

"A gente privilegia as relações pessoais, o relacionamento direto, o conhecimento dos livros dos quais nossos clientes gostam." | Ramiro Furquim/Sul21

A Palavraria também costuma apoiar os autores gaúchos e os que frequentam a livraria. Mas tampouco esta é atitude destituída de conceito. “Faz falta uma crítica confiável que possa auxiliar no julgamento de nossa contemporaneidade, que procure fazer uma síntese do que acontece em termos de ofertas culturais nesta cidade e no estado. Queremos contribuir com isso divulgando tais trabalhos. Acho que não nos cabe julgar, cabe é divulgar ao máximo os autores locais para que as coisas deixem de ser avaliadas pelas conhecidas perversões provincianas do tipo não-li-e-não-gostei. É difícil julgar o novo, mas para que a arte se desenvolva e possa ser avaliada no futuro, ela tem de ser apresentada e vendida”, afirma Heron.

E, se o visitante quiser arranjar uma discussão civilizada na Palavraria, basta rebaixar gratuitamente um autor novo. “Deixemos que a história julgue se é bom ou não. Temos que tornar os autores lidos a fim de possam construir uma história. Nós colocamos o escritor desconhecido ao lado de Tolstói. Não nos damos autoridade para retirar um autor novo da vitrine”.

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A bela Sylvia Beach Whitman existe, se mexe e até fala

Coisa típica de mulher. Depois de toda a babação por este post, uma das leitoras do grupo dos sete visitantes deste blog veio, de forma secreta e insidiosa, me perguntar pelo GTalk se ela seria mesmo bonita, inteligente, sexy e irresistível ou apenas… fotogênica. Típico. A leitora segurou a pergunta por algum tempo — só conseguiu ser traiçoeira e vingativa após quatro dias. Tocado pela preocupação dela, o editor do blog foi à caça de filmes que mostrassem Sylvia em formato “mais tridimensional”, com voz e, fundamentalmente, se mexendo. A vitória do editor do blog está plasmada abaixo.

(Interlúdio: a Nikelen Witter me mandou hoje este link sobre a Shakespeare and Company. Nele, mais filmes, mas agora sobre papai George, que aparece rapidamente, e seus livros).

O primeiro filme (abaixo) é o melhor deles em termos cinematográficos e… enfim.

Este aqui é totalmente amador, mas é um bom passeio pela livraria, mostra Notre Dame do outro lado da rua e serve como introdução para…

… uma longa entrevista bastante improvisada.

Aqui temos uma conversinha na porta da livraria…

Aqui sobre a Sylvia Beach de quem herdou o nome…

Aqui sobre projetos futuros…

 

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Sabedoria?

Fiquei até triste já que costumo ler as introduções e até (pasmem!) dou uma olhada, apenas uma passada de olhos, pelos rodapés. Agora, quando o rodapé invade outra página, nunca leio. Questão de princípios. Não aceito a falta de classe do sujeito que não consegue inserir citações com elegância em seu próprio texto. Já os rodapés de traduções podem ser muito interessantes, úteis e divertidos, principalmente se forem de Marcelo Backes e ainda mais se forem as do livro Vidas Novas,de Ingo Schulze.

Roubado daqui.

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