48 Variações sobre Bach, de Franz Rueb

O número 48 é um pouco surpreendente. Esperava os 30 das Variações Goldberg, mas Franz Rueb escolheu os 48 Prelúdios e Fugas (Livros I e II somados) de Bach, certamente em razão de ter assunto demais. E é isso o que surpreende — assunto demais, 375 páginas sobre alguém do qual se sabe tão pouco. Explico melhor: este livro é formado por 48 capítulos (flashes) — que têm de 5 a 10 páginas cada um — sobre a obra e principalmente sobre a vida de Bach.

A abordagem do escritor Rueb é basicamente histórica. 48 Variações sobre Bach parte da família de Bach em direção ao ambiente dos principados e das igrejas daquilo que hoje é a Alemanha. Aprofunda-se no estudo do que era a educação da época e procura compreender um artista absolutamente brilhante e original nascido naquele contexto e que ficou órfão aos 10 anos de idade, indo de casa em casa, de instituição em instituição, até aprender seu ofício e alcançar vários cargos em principados. A tarefa não é nada simples, mas se fizer a comparação deste livro com outras biografias que li, a de Rueb parece das mais honestas. A conclusão de que Bach provavelmente não entenderia a divisão que hoje se faz entre sua música sacra e secular é uma tese bastante sólida. A certeza de que Bach era um tipo de homem que não tinha a compreensão do próprio gênio e de que era adogmático na área musical são certezas. A descrição de suas muitas lutas contra as autoridades são bem conhecidas, mas aqui são descritas com riquezas de detalhes que as tornam interessantes. O único defeito que encontro neste livro cheio de qualidades e de tão engenhosa feitura são certos exageros na vontade de dar sempre razão a Bach, o qual, cumpre lembrar, era um ser humano. (OK, quando ouço algumas de suas obras, parece-me sobre-humano, porém o ouvinte normalmente é um e o biógrafo outro menos arrebatado, de preferência).

Nunca li descrições tão completas e convincentes do entorno do compositor, nunca o final de sua vida em Leipzig foi mostrada com tanta crueza e tristeza. Então, o livro, que termina com a afirmação de que os ossos que estão no túmulo de Bach são de outra pessoa, vale a pena. E como.

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Sono atrasado, Bach e sobre ontem à noite

Em cada um dos quatro dias de carnaval, corri 5 Km pela manhã. Algo leve, para todos os dias, tanto que ganhei um 1 kg. Às vezes, dormia à tarde, perfazendo horas e horas da vida besta que não tinha há meses. Durante a noite, dormia umas 7h. Digamos que dormisse mais 2 à tarde, completando aproximandamente 9 horas diárias de sono. O milagre foi acontecendo aos poucos: a sensação de cansaço que me perseguia há meses foi me abandonando aos poucos. Nunca pensei que essa coisa de “sono atrasado” existisse mesmo. No passado, uma noite normal já me deixava em forma. Agora, nesta sexta década — estou com 53 anos — , preciso de muitas horas de sono para me sentir bem de novo.

Temakeria Japesca

Passar um feriado longo em Porto Alegre com temperatura amena é reencontrar a qualidade de nossa vida junto aos amigos, no cinema à tardinha, na leitura a qualquer hora ou no passeio à Redenção com os cachorros. Com grande parte dos restaurantes fechados em férias coletivas, sobrou de bom a Temakeria e Empório Japesca do Mercado Público, espaço onde a gente pode se empanturrar de temakis de salmão ao preço de R$ 5,00 cada. Esta é uma iniciativa muito boa, espero que ela auxilie a fazer o preço da comida dos japas recuar a valores mais justos. E o temaki dos caras é de primeira categoria. Mesmo num sábado de carnaval, ficamos na fila. Coisa pouca, 15 minutos e olhe lá.

Estou lendo um livro sobre Bach. É tão bom que não quero terminá-lo. Franz Rueb dá uma visão muito realista e documentada da vida de repetidas discordâncias entre o compositor com seus chefes. Em 48 flashes de 5 a 10 páginas cada um, Rueb faz a descrição de todos os problemas, das demissões, das relações com a sociedade, com seus pares e também da educação de Bach desde a infância. Naquela época, a falta de títulos já fazia de alguém um idiota e, bem, Bach era autodidata. O livro faz surgir um ser humano interessantíssimo e muito brigão por trás da obra sobre-humana legada a seus filhos e que chegou a nós muito, mas muito incompleta. Foi tão grande quanto Shakespeare, certamente. É curioso. Livros muito mais analíticos não conseguem fazer surgir o homem que há em Bach, um empregado tão obediente que levava sua mulher para cantar na igreja quando isto era um importante pecado. De santo, o cara não tinha nada.

Urretaviscaya

Vi o jogo do Grêmio ontem. Pobre Caxias, ser time do interior é complicado. Nunca vi tantos e tão injustos descontos. Quando o Grêmio marcou seu gol, aos 53 do segundo tempo, perguntei aos amigos o que o juiz faria em reparação. A responsabilidade pelo resultado passava tanto por Márcio Chagas que ele precisava fazer alguma bobagem para demonstrar que era probo, honesto, ilibado. Bingo!, acertei na mosca: ele expulsou inexplicavelmente um jogador do Grêmio. Havia culpa, claro. Acredito que ele escreverá horrores na súmula. Porém, se houve emoção no Olímpico, o grande futebol apareceu antes, às 19h30, no tremendo jogo entre Peñarol e LDU. Os uruguaios estão renascendo de verdade. O Peñarol tem um atacante chamado Urretaviscaya que é uma verdadeira joia. O incrível é que ele, aos 21 anos, é jogador do Benfica de Portugal, que o empresta há 3 anos para manter jogadores duvidosos em seu elenco. Bem, o futebol não é para ser entendido completamente.

Hoje, o Inter joga contra o Ypiranga. Se não ganhar fácil, o juiz dá uma mão, imagina se não?

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Leve impressão

Carol Bensimon pergunta no Facebook quantos estarão em Porto Alegre no Carnaval. Poucos respondem. Vamos ser uns 26 em Porto Alegre, acho.

A previsão do tempo indica máximas de 29 graus para o sábado, 31 no domingo e 33 e 34 para a segunda e terça. Isto significa que os dois últimos dias do feriadão serão insuportáveis. Estou de plantão na cidade.

Tenho a leve impressão de que estarei entre trabalhadores plantonistas, doentes e carnavalescos irrecuperáveis. Espero que o super e os cinemas abram e alguém telefone.

Nos blogs, só os internacionais estão sendo atualizados decentemente, além da equipe do Nassif, que dá notícias no futuro do pretérito — a China teria… Kadafi estaria… E isso sem parar. O Fernando Guimarães manda eu ler que o Wikileaks tem documentos que garantem o Alckmin como membro do Opus Dei. Curti, mas acho que já sabia.

Tenho que dar um jeito de tornar meu Carnaval produtivo. Tenho que terminar aquele romance, mas penso mesmo é na beira do Lago Guaíba e em correr por ali. Há uns aparelhos novos que queria experimentar…

Ah, chega um post brasileiro! É de Charles Kiefer. Sintam só a animação do moço. Não é contagiante? Aliás, por falar em contagiante, mas agora sem ironia, leia o que o Idelber — que nunca erra em suas indicações — está mandando a gente ler. Há que lhe obedecer? Sim, claro, como não?

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Ferreira Gullar, uma triste figura no Roda Viva

Ferreira Gullar, uma triste figura no Roda Viva

Ferreira Gullar foi o entrevistado de ontem no Roda Viva. O programa, agora capitaneado por Marília Gabriela, é parecido com o Manhattan Connection, ou seja, parece uma sucursal televisiva da Veja. Gullar, aos 80, é ainda uma figura sedutora, fluente, de ar jovial, com a qual é complicado não estabelecer imediatamente empatia.

Além disso, também não sou indiferente a sua poesia. Como tenho 53 anos, pude comprar a primeira edição do Poema Sujo e também a primeira versão do Toda Poesia, onde havia por inteiro toda sua obra poética de antes dos anos 80. Li aquilo com devoção. Gullar era um de meus deuses por suas qualidades de poeta e não pretendo atacar o que considero inatacável. Após Barulhos (1988?, 87?), começou a decadência. O homem ficou cada vez mais crítico de arte e menos poeta.

É óbvio que tenho vontade de ligar seu direitismo tardio à decadência da poesia. Acho que há ligações mesmo, pois quem se une à direita mais truculenta (Augusto Nunes e amigos), dificilmente terá uma produção que faça sombra ao ex-Gullar, atual José Ribamar Ferreira, simplesmente. Porém, também sei que há Pound e Céline com seus Mussolini e Hitler e que Augusto Nunes não poderia comparar-se a estes, pois está abaixo em realizações — não consegue nem obter votos para o Serra, imaginem.

Então, minha afirmativa de ontem no twitter de que “Ferreira Gullar preservou pouca coisa daquilo que o levou a ser Ferreira Gullar” é baseada não apenas numa posição política, mas numa sensilidade de leitor. Principalmente depois de Muitas vozes, mas já clara em O Formigueiro (acho que é este o nome do livro do início dos anos 90), o poeta já tinha abandonado o barco para dar lugar a um bom crítico de arte.

Então, fiquei realmente deprimido ao ouvir a multidão de lugares comuns do programa de ontem. Fui dormir cedo para esquecer.

P.S. — Ah, eu sempre brincava com meus amigos dizendo que eu cantara em casa O Trenzinho do Caipira de Villa-Lobos com a letra de Gullar antes do Edu Lobo gravar a música. E era verdade! A letra está no Poema Sujo com uma ordem mais ou menos assim: leia os versos a seguir cantando sobre a melodia do Trenzinho Caipira das Bachianas Brasileiras Nº 2. Este é um de meus orgulhos mais bobos da juventude…

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Moacyr Scliar e eu

Eu pouco li Moacyr Scliar. Não gostei do primeiro romance seu que conheci — não lembro mais qual foi — e depois suas crônicas dominicais acabaram por me afastar totalmente do autor. Lá por 1992, fiquei curioso sobre Sonhos Tropicais, uma espécie de romance biografia (nada de biografia romanceada, é um romance com personagens reais mesmo) sobre Oswaldo Cruz e passei a detestá-lo de vez. A obra ficou completa com seu ingresso na Academia Brasileira de Letras em 2003.

Uma vez, escrevi-lhe um e-mail. Estávamos no início do ano 2000 e Moacyr escrevera uma crônica sobre o filme Jonas, que terá 25 anos no ano 2000, de Alain Tanner. Este filme fizera enorme sucesso ao passar em Porto Alegre lá pelos anos de 1976-77 e muitos cinéfilos pensavam em rever o filme, assim eu fiz com 2001 no ano seguinte e com romance 1984, 16 anos antes. Pois bem, em sua crônica, Scliar errava parcialmente o nome do filme e enganava-se de personagens, assim como de sua procedência. Concluí até que ele talvez estivesse se referindo a outro filme!

Então, preparei um e-mail bem irônico e mandei para o endereço constante no jornal. Achei que ele ia lê-lo, mas que nunca iria respondê-lo. Depois de algumas horas, pam, cai a resposta de Scliar em minha Caixa de Entrada. Com imensa autoironia, ele fazia uma admissão de seus equívocos, acusava a si mesmo e ainda confessava outros erros cometidos em semanas anteriores. Dizia estar feliz por estar em contato com alguém atento, porque ninguém — entre revisores e leitores — tinha coragem de apontar suas muitas mancadas.

Fiquei meio pasmo com aquela falta de vaidade inteiramente estranha aos autores nacionais, sempre tão peremptórios e ágeis para  se defenderem do mais débil ataque. Voltei a escrever-lhe citando sua civilidade e pedindo desculpas por minhas ironias. E Scliar voltou a afirmar que era um idiota em não consultar, fontes, etc.

E aqui termina minha história com ele. Devia ser um sujeito legal e fico autenticamente triste com sua morte ontem.

httpv://www.youtube.com/watch?v=N8fhqHyRj6M&feature=player_embedded

httpv://www.youtube.com/watch?v=n5Vw7OvcOFI&NR=1

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Quero morar lá

Na livraria The Shakespeare & Co, Paris, França. Sempre sonhei em ter um sebo, sabem? Já pensaram um desses? (Suspiro).

Clique na foto para ampliar. Foto encontrada bem aqui, ó.

Update das 13h35: Contribuição de Giseli Miliozi vinda pelo Facebook: o site da Shakespeare and Company. É de arrasar!

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O desfile de Páscoa, de Richard Yates (sem spoiler)

O Desfile de Páscoa (Alfaguara, 221 páginas), do estadonidense Richard Yates (1926-1992), é a segunda grande surpresa deste autor tardiamente publicado no Brasil. No ano passado, trazido pelo filme com Kate Winslet e Leonardo di Caprio, já tinha sido lançado o extraordinário Foi apenas um sonho (Revolutionary Road).

O romance começa pela seguinte frase: “Nenhuma das irmãs Grimes teria uma vida feliz e, olhando em retrospecto, sempre pareceu que o problema começou com o divórcio de seus pais”. E é notável a forma como Yates segue este pequeno apontamento durante todo o romance. Ele pontua cada ato importante da vida das irmãs Sarah e Emily em seu caminho rumo à infelicidade — uma casa jovem e logo tem três filhos, a outra busca a realização no trabalho. O desfile de Páscoa trata da condição da mulher na época pré-feminismo dos anos 1950, quando as opções pareciam ser as tomadas pelas irmã: ou o jugo sob um marido ou a solidão interrompida por pequenos casos com homens casados ou desinteressados.

Tanto a forma como as Sarah e Emily se relacionam quanto suas vidas em separado demonstra uma crudelíssima impotência frente a uma sociedade hostil à mulher. O grande destaque do romance é a forma como Yates trata a violência contra a mulher nos anos 50.

Um livro estarrecedor. Um grande livro.

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Merda

Quando a gente está lendo um livro e vemos que a página seguinte à 32 não é a 33 e sim a 49. O livro? A Denúncia, de Leonardo Sciascia, comprado num sebo da última Feira do Livro por R$ 2,00. Tinha iniciado bem pra caralho.

A propósito, ninguém mais lê, cita ou fala sobre Uma Confraria de Tolos, de John Kennedy Toole?

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Maria Schneider (1952-2011)

Uma pena morrer tão cedo. Maria Schneider, que morreu hoje aos 58 anos, estava há muito tempo doente. Suas fotos demonstravam. Era muito boa atriz, não obstante ter ficado famosa apenas pelo que representava como sex symbol dos anos 70. Seus trabalhos em duas obras-primas — O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e O Passageiro, Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni — , não são nada esquecíveis. Fico autenticamente triste.

R.I.P., Maria.

Abaixo, a extraordinária e misteriosa cena final do filme de Antonioni.

httpv://www.youtube.com/watch?v=pvbqy8FZq8Y&feature=related

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"Charla" com Pilar del Río sobre o filme José e Pilar

O El País proporcionou um chat de seus leitores com Pilar del Río. Eu achei interessante. Poderia corrigir os erros de digitação dos leitores e de Pilar, mas apenas acertei os mais evidentes. Admiro seu feminismo duro e articulado, se me entendem.

~o~

Leitor do El País: Hola Pilar, te escribo desde Euskadi. Un par de preguntas: ¿cuando dejaras de ser para los medios la viuda de José Saramago y pasarás a ser la Presidenta de la Fundación José Saramago (tengo el recuerdo del pie de foto del 50 aniversario de Santillana)?. Es conocido tu cariño y preocupación por la situación en Euskadi. ¿Cómo la ves en este momento? Pacto PSE-PP, tregua de ETA, movimientos de la izquierda abertzale… Gracias.

Pilar del Río: Fermín, no me dejan hacer un ensayo en esta sección… Espero que los medios de comunicación dejen de llamarme ‘La viuda de Saramago’ ya porque soy la mujer de Saramago o la novia de Saramago y desde luego soy la presidenta de la Fundación Saramago, cosa que no sé si por machismo o por frivolidad, algunos prefieren ignorar. En cuanto a lo de la paz en Euskadi y los pactos, hijo, a ver si os ponéis de acuerdo, lo solucionáis de una vez por todas que estamos hartitos todos de vuestros problemas y de vuestros sufrimientos. Solidarios, pero también hartitos. Vamos a hacer el futuro y a dejar de pensar en el pasado. El de Franco y el que no hemos sabido solucionar los que hemos venido después de Franco.

Leitor do El País: ¿Cómo recordará Saramago a Castril?

Pilar del Río: ¿No será mejor cómo recordará Castril a Saramago? ¿Se darán cuenta en el pueblo de mi madre que tuvieron el privilegio de compartir momentos de belleza y de intimidad, como nuestra boda en España, con uno de los hombres que más ha dignificado el siglo XX?

Leitor do El País: ¿Con qué cosas (actividades) se divertía más don José? ¿Qué cosas le causaban risa?

Pilar del Río: Todos los días se reía con el programa de El Gran Wyoming (‘El intermedio’). Le divertía el buen cine (Fellini o Bergman o Almodóvar, por ejemplo), las buenas series de televisión, vimos ‘El ala oeste de la Casa Blanca’ de principio a fin, le gustaban lo libros de ciencia ficción, la buena literatura también, nuestros perros, los solitarios, la música:sus últimos días, cuando ya no podía casi seguir una película veía y oía ópera en la sala de proyección que tenemos en nuestra casa. La belleza de Mozart y de Beethoven le dieron refugio en esos malos momentos.

Leitor do El País: ¿De qué manera cree que los años vividos en Lanzarote han influído en la obra y en la forma de ver la vida de su marido? Gracias

Pilar del Río: Sí. El dijo que hasta ‘El evangelio según Jesucristo’, había tratado de describir la estatua, que tal vez influído por la aridez de Lanzarote ahora lo que le interesaba era la piedra de la que estaba hecha la estatua.

Leitor do El País: He leido una hermosa entrevista suya al Subcomandante Marcos. ¿Sigue escribiendo?

Pilar del Río: No. No tengo medio donde publicar.

Leitor do El País: ¿Qué opinas de la reciente victoria de Cavaco Silva en Portugal?

Pilar del Río: Prefiero opinar del 53% de abstención. ¿Qué tipo de sociedad estamos haciendo para que el 53% de las personas se queden en su casa y no se tomen la molestia en emitir un voto que a su vez es una opinión?

Leitor do El País: En Cuadernos de Lanzarote, Saramago escribe sobre las intromisiones de EEUU en Portugal. ¿Que podríamos haber leido en el Cuaderno de Saramago acerca de Wikileaks? Un abrazo, y mi admiración por Saramago.

Pilar del Río: Nunca me atrevería a interpretar a Saramago. Lo siento, no puedo contestar a esta pregunta.

Leitor do El País: ¿Quiénes eran los escritores de cabecera de Saramago, los que más le marcaron?

Pilar del Río: Kafka, en el siglo XX, Borges y Pessoa. Cervantes, Gogol y el padre Vieiras, un jesuíta portugués, parecido a nuestro Bartolomé de las Casas, del que Saramago decía que nunca el portugués sonó tan bello y tan armonioso de como él lo escribió.

Leitor do El País: Por qué está exhibición de su vida personal que no interesa, o no debería interesar? Yo que José Saramago ha dejado una obra maravillosa que no necesita de esta publicidad como si se tratara de Angelina y Brad Pitt….

Pilar del Río: Me parece bien que a usted no le interese la vida de José Saramago, yo daría lo que no tengo por ver una película así de Cortazar, Proust, Borges… He visto ‘La última estación’ de Tolstoi emocionada y eso que Tolstoi estaba interpretado por un actor. Hay personas a las que sí nos interesan los autores que escriben los libros. Saramago abrió su casa en un gesto de generosidad, no su intimidad, sí su cotidianidad. Es una película para los amigos de Saramago. Simplemente.

Leitor do El País: He leido y visto en la pagina de la Fundacion Saramago q todos los 18 de cada mes se hace un homenaje hasta el noveno mes. ¿Que significado tiene eso? Gracias

Pilar del Río: Saramago decía que una persona no está muerta del todo hasta pasado nueve meses, como los nueve meses primeros no está vida del todo, por eso los días 18 de estos 9 meses nos reunimos amigos en distintos continentes y de distintas maneras pero siempre para brindar por la vida de Saramago. Hay música, hay lecturas de textos, se cuentan experiencias, y siempre, siempre, terminamos brindando por la vida de Saramago. El reunirnos con Saramago los 18 está sacado de una complicidad entre Pessoa y Ricardo Reis que Saramago cuenta en ‘El año de la muerte de Ricardo Reis’.

Leitor do El País: Hola Pilar! Pude ver el estreno del documental en el Maestranza. Sólo puedo decirte que me emocionasteis. No decaigas, que no te vengan los momentos de desánimo, que la palabra de José no puede caer en el silencio. Gracias a tí y a José.

Pilar del Río: ¡Qué bien que entendieras la película! Porque es una película de amor, el amor que se proyecta desde la pantalla y que abarca a los espectadores y el amor de los espectadores hacia Saramago. En todas las sesiones en las que he estado he sentido la emoción a parte de las muchas risas y alguno que otro sollozo contenido.

Leitor do El País: En mi opinión la obra de José Saramago, de la que soy un ávido lector y admirador, tiene una fuerte influencia del Quijote, especialmente podría decir en El Evangelio según Jesucristo, La intermitencias de la muerte o Caín. En ellas alcanza una maestría y una libertad en la escritura admirables, pero también un juego en la estructura, así del papel del que me recuerdan a la gran novela de Cervantes. Cuál es su criterio al respecto? gracias. Saludos Pilar, como si se dijera agua.

Pilar del Río: Lázaro Carreter, que fue presidente de la RAE, escribió un día que Saramago era el escritor más ‘cervantiano’ que existía en estos momentos. Es más, dijo que ‘La balsa de piedra’ era como un ‘El Quijote’ de ahora, esos personajes recorriendo La Mancha que es España, luchando con molinos de viento, llendo hacia América como Don Quijote iba hacia Dulcinea. Yo solo soy una periodista de provincias, nunca diría que Lázaro Carreter estaba equivocado.

Leitor do El País: Pilar , era Saramago feminista ????, Te seguía en tus ideas feministas que las percibo en la pelicula ???He visto la película y además de descubrir a Saramago que a través de sus libros lo intuía , te he descubierto a ti , una gran mujer .Que buena respuesta en Portugal , cuando te preguntan por la legalización del matrimonio entre parejas del mismo sexo , y el peligro de la familia ,y que grande tu respuesta en contra de la homofobia ……Saludos Y felicidades por la película .

Pilar del Río: Respondo a un periodista portugués que la legalización de los matrimonios homosexuales era la correción de un deficil democrático. Lo creo firmemente. En cuanto a si Saramago era feminista, respóndame usted. Mire como son los personajes femeninos en su obra. Y ya me dirá. En cuanto a la discusión sobre Hillary Clinton no deja de ser una anécdota. De la que, por cierto, no me apeo.

Leitor do El País: Siempre Saramago. Hola Pilar. Al final de su vida José apoyo pronunciadamente al juez Baltasar Garzón. ¿Cómo veía él lo que le está ocurriendo al juez?

Pilar del Río: El último artículo que José Saramago escribió en su vida fue sobre Baltazar Garzón y decía que ese juez era de los que demostraban que la justicia no ha muerto. El penúltimo artículo que José Saramago dictó porque ya no podía escribir fue viendo en el Telediario salir a Baltasar Garzón de la Audiencia Nacional expulsado por sus pares. Entonces dijo: “Las lágrimas de Baltasar Garzón son mis lágrimas.” Era un amigo, en Argentina consolaron juntos a las madres que les habían matado a sus hijos, en España recibieron juntos a los nietos que buscaban a sus abuelos para enterrarlos juntos a sus abuelas. Le respetaba y le quería. Garzón me acompañó la primera vez que entré en casa ya sin Saramago y ese gesto de amistad no lo olvidaré nunca. Quiero añadir también que lo último que Saramago dictó fue el 2 de junio, el murió el 18. Fueron solo dos palabras: “Gracias Mankell.” Cuando lo vio en la flotilla de la paz a la que Saramago estaba invitado pero que la enfermedad le impidió ir. Que un compañero de letras estuviera ahí le reconfortó en sus últimos días.

Leitor do El País: ¿Qué más le da fuerza para vivir hoy sin Saramago?

Pilar del Río: ¿Quién le ha dicho que vivo sin Saramago?

Leitor do El País: Esta pregunta va desde el cariño. Nunca he leido a José Saramago. Por favor, dígame una razón para ser su lector. Gracias.

Pilar del Río: Porque cuando acabe de leer a Saramago se sentirá más listo, más alto, más guapo, más rubio, más bueno. Porque se sentirá respetado como lector, porque tendrá que poner mucho de su parte para entender y se dará cuenta que usted es más sabio de lo que creía.

Leitor do El País: ¿Por qué ha pedido usted la nacionalidad portuguesa? Saramago es para nosotros algo más que un escritor ibérico, es “uno de los nuestros” sentimos mucho que se haya ido y ahora también nos apena que usted se vaya ¿Qué´va a ser del legado de Saramago en nuestro país? ¿No tendrá continuidad su obra? ¿No hay ninguna propuesta institucional para mantener su legado aquí?

Pilar del Río: No hay ninguna propuesta institucional para mantener el legado de Saramago en España, pero está mi firme voluntad de abrir la casa de José Saramago en Lanzarote el 18 de marzo para quien quiera entrar y respirar el aire de Saramago. Con toda la humildad que caracterizó Saramago y que nos caracteriza a su entorno pero con toda la ambición de quienes sabemos que solamente uniendo voluntades podremos conseguir objetivos grandes. He pedido la nacionalidad portuguesa, y ya me la han dado, porque era una forma de continuar a Saramago y porque quiero pertenecer al país que dio a un hombre tan cercano y tan maravilloso. Claro que todos somos ibéricos pero la tentación de ser portuguesa no me la he querido evitar.

Leitor do El País: Como periodista, ¿qué piensas de la profesión hoy en día?

Pilar del Río: Que la hemos prostituído entre todos. Las empresas convirtiéndose en negocio multimedia, los periodistas bajando la cabeza y siendo cínicos o sumisos. El periodismo ya difícilmente dará un García Márzquez o nos dará una satisfacción cívica tan grande como cuando a las seis de la tarde del 23F El País sacó una edición especial ‘El País con la democracia’. Hoy, todos los medios juegan con nosotros como si los ciudadanos fueran mercancían. No nos respetan y por ello venden menos.

Leitor do El País: Con todo lo que han viajado juntos, ¿qué han aprendido de nosotros, los humanos?

Pilar del Río: Hay una frase que Saramago repetía continuamente: “El otro es como yo y tiene derecho a decir yo.” Eso es lo más importante que he aprendido. Que todos somos iguales pertenezcamos al continente que sea, a la etnia que sea, a la clase social que sea, independientemente del nivel intelectual que tengamos. En cuanto personas, ningún tipo de Wall Street, ningún Presidente de Gobierno, ningún sabio, es más que el minusválido que está pidiendo limosna en la puerta de la FNAC.

Leitor do El País: ¿Eres atea, al igual que José Saramago?

Pilar del Río: Lamentablemente, no podría ser otra cosa que atea. Porque si pensara que existe un Dios tendría que llevarlo a los tribunales por permitir que pasen las cosas que pasan. Prefiero pensar que no existe a que sea tan malo.

Leitor do El País: Si el cielo no existe, tal y como comenta Saramago en el documental, ¿dónde está Saramago ahora?

Pilar del Río: En los libros, que el decía que cuidáramos cada libro que abrieramos porque contenía dentro a una persona, está en la música que oyó, en los cuadros que miró, en los libros que acarició y, con perdón, también está en mi cuerpo.

Leitor do El País: ¿Cómo logró el realizador llegar a ese nivel de complicidad con vosotros? ¡A veces parece que no existe la cámara!

Pilar del Río: Es que la cámara no existía. Hicimos un pacto: ellos no interferirían en nuestra vida y nosotros tampoco en la suya. Acabamos amigos pero cada uno en su casa.

Leitor do El País: Una de las escenas que más me impactó del documental es cuando José está rodeado de bailarines saltarines y de fotógrafos. Te busca con la mirada y grita tu nombre medio asustado. ¿Cuál es tu escena favorita de la película?

Pilar del Río: José me busca en esa escena porque estaba débil y sentía que las piernas le fallaban. Pero nadie se dio cuenta. Y yo esto ahora lo quiero compartir para que se vea el valor de ese hombre. A mí la escena que más me gusta es cuando estamos leyendo simultáneamente, él en portugués y yo en castellano, el fina del ‘El evangelio según Jesucristo’ y la Montaña Blanca de Lanzarote está al fondo…

Leitor do El País: En el documental, el verdadero descubrimiento eres tú Pilar. Me hiciste pensar en los personajes femeninos de Pedro Almodóvar. ¿Te molesta la comparación?

Pilar del Río: En absoluto, los personajes femeninos de Pedro Almodóvar son grandísimos personajes con más profundidad de la que pueden aparantar en una primera lectura. Son los que sostienen el mundo.

Leitor do El País: Tuvo alguna vez celos del otro gran amor de Saramago : la escritura?

Pilar del Río: Nunca he tenido celos de nada ni de nadie. Saramago y yo nos encontramos en la edad madura y sabíamos compartir admiraciones, afectos, pasiones… eramos cómplices. No había lugar para los celos.

Leitor do El País: ¿Le puedes decir algo a una mujer casada con un hombre veintisiete años mayor que ella, al que no solo ama, sino admira, comparte, etc. pero inexorablemente condenada a la diferencia biolóca/temporal? Gracias, contestes o no.

Pilar del Río: Que nadie tenemos el futuro escrito. Lo importante es vivir en cada momento la oportunidad que tenemos y que muchas veces las diferencias de edad están solamente en el carnet de identidad y no en la vida. Porque hay jóvenes mucho más viejos que algunas personas mayores.

Leitor do El País: En su crítica de hoy Javier Ocaña dice sobre el documental: “Perdón por verla, perdón por disfrutarla, maestro.” ¿Qué pensaría José de la película?

Pilar del Río: Que dijo: Que le gustó, que era una película sobre la vida, más interesante en el resultado final de lo que le iba pareciendo durante el rodaje. Que era una declaración de amor a la vida, a la persona con la que vivía. Lástima que el crítico de El País no se haya dado cuenta de esto y haya pensado que Saramago se dejaba llevar por una persona calculadora. Pilar del Rio era la que frenaba y Saramago es el que termina la película diciendo: “Quiero ir a Tokio, quiero ir a la India.”

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Os Funerais da Mamãe Grande, de Gabriel García Márquez

Ganhei este livro do casal mais legal do mundo: Nikelen Witter e Luiz Augusto Farinatti. A capa não é a que está ao lado, é uma bem novinha, daquelas bem desinteressantes com as quais costumam ser agraciados os Prêmios Nobel. Os oito contos do volume  — A sesta de terça-feira, Um dia desses, Nesta cidade não existem ladrões, A prodigiosa tarde de Baltazar, A viúva de Montiel, Um dia depois do sábado, Rosas artificiais e Os funerais de Mamãe Grande — passam-se em ou próximas a Macondo, a habitual e visitadíssima cidade ficcional do autor.

Apesar de ser um admirador do colombiano, ainda não tinha lido a Mamãe e o fiz pelo Método Milton Ribeiro de leitura, isto é, em ônibus, salas de espera, banheiros e refeições. Sei lá, estou passando por um período severamente musical e minha cabeça anda muito sinfônica, não obstante estar ouvindo agora as Triosonatas para órgão solo de J. S. Bach. E o órgão não é quase sinfônico? Bem, não há muito espaço para muita coisa. Mas voltemos ao que interessa.

Há belos contos aqui. Minha preferência total vai para o que título ao livrinho. A história da soberana de Macondo é contada com enorme talento e ironia. Tudo, mas tudo serve para empurrar a vertiginosa narrativa que mais não faz do que demonstrar a estrutura de um poder feudal nada afastado de algumas regiões latino-americanas.

Os seus bens, que datavam da época da conquista, eram incalculáveis. Abarcavam cinco municípios, 352 famílias e também a riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades dos cidadãos, o primeiro magistrado, a segunda instância, o terceiro debate, as cartas de recomendação… Demorou três horas a enumeração dos bens terrenos da Mamãe Grande.

Eu me apaixonei, assim como também pelo estupendo e minimalista conto de abertura A sesta de terça-feira. Nesta cidade não existem ladrões, A prodigiosa tarde de Baltazar, A viúva de Montiel ficam um degrau abaixo talvez apenas pelo gosto pessoal deste leitor um tanto desorganizado.

Pássaros que caem mortos, viúvas ressentidas contra quem não entende os méritos do marido morto, ladrões que não têm o que fazer com o produto roubado, o dentista que arranca dentes de poderosos, a belíssima gaiola de Baltazar, Cem Anos de Solidão, La Mala Hora,  tudo isso serviu para gravar Macondo na memória de milhões de leitores e para que alguns habitantes de Aracataca, cidade natal do autor, tentassem mudar o nome da cidade. Gente sem graça, gente sem graça. Macondo é uma catetral imaginária. OK, também é uma cidade em Angola, mas isso é casual. A Macondo latino-americana é ficcional e  assim deve permanecer em sua glória.

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É proibido gostar de Saramago

Não, ninguém é obrigado a gostar de José Saramago. Nem do escritor, nem do político, nem do homem. Porém, ele ganhou o Nobel e isso tira muita gente de seu prumo. Nosso complexo de vira-latas nos faz pensar que, quando alguém de nossa sociedade se destaca, é porque ou roubou ou foi beneficiado por quem roubou. Muitas vezes alguém que deveria ser alvo de nossa admiração é simplesmente “rebaixado” como gay…  Enfim, o bom mesmo é ser igual a todo mundo, embora a maioria aja de forma diversa, pois paradoxalmente milhares querem se destacar num BBB ou coisa pior.  O nome disso: inveja. Lembro de quantos no passado chamavam Tom Jobim de embuste… Seria apenas um epígono do jazz. Dia desses, um post laudatório sobre Oscar Niemeyer foi capaz de jogar meio mundo contra ele e suas obras. Na boa, fiquei rindo, imaginando quando aquilo ocorreria em outro país que conheça. Nunca, é coisa nossa. Já ouvi também gente dizendo que Chico Buarque é um compositor e letrista apenas regular e que só ele usaria a ridícula palavra “cabrocha”. Dificuldades com os gênios deste país? Ora, certamente.

Com o tempo e o contato com vários amigos portugueses, descobri que isto é uma herança daquele país. Há países que homenageiam seus maiores autores. Nas livrarias de Montevidéu, só dá Benedetti. Nas de Buenos Aires, o autor argentino manda (e merece). Mesmo antes do Nobel, Saramago era combatido por ganhar muitos prêmios, por falar (ser entrevistado) demais, por ser convidado (e aceitar) demais. Ah, a inveja, os ciúmes que nos corroem!

Hoje, o bom intelectual deve duvidar da profundidade e da importância de O Evangelho segundo Jesus Cristo, deve achar mais ou menoso extraordinário O Ano da Morte de Ricardo Reis, tem que ignorar Caim e afirmar que As Intermitências da Morte é um livro de gênero transversal. Gosto muito de todos eles e acrescento ainda o “detestável” Ensaio sobre a Cegueira e o “mal realizado” A Jangada de Pedra, pois seria um livro onde a coisa mais extraordinária e insuperável ocorre nos primeiros minutos de jogo, deixando o autor sem ter o que fazer no restante das páginas… Mas também há os que não gosto mesmo: acho Todos os Nomes, o célebre Levantado do Chão e a tal Viagem do elefante bem fracos. Fazer o quê?

Ou será que o ódio de alguns ao autor têm raízes geopolíticas? O cara era ateu e comunista. Como Niemeyer e Chico. Pode até ser, mas aposto mais no Complexo de Vira-Latas.

Ontem, uma pessoa que não conheço e que não é minha “amiga” no Facebook, publicou em seu perfil esta imagem.

Trata-se de uma alusão ao admirável documentário José e Pilar. O primarismo da montagem não adere a nada que foi mostrado no delicado filme, mas a “autora” cometeu um outro ato bastante desagradável. Resolveu agredir as pessoas que já declararam gostar de Saramago. Ora, todos nós sabemos que a segurança do Facebook inexiste, que a gente entra onde quer e quando quer. Os motivos disso é a vontade dos produtores do aplicativo. Eles que querem ser sedutores e mostrar as grandes qualidades (reais) do Facebook e… Dane-se a segurança. Pois a imagem acima foi marcada em todos os seus cantos como se tivessem fotos de pessoas — quem conhece o programa sabe do que estou falando. Desta forma, a cada comentário feito à imbecil imagem, todos os marcados recebiam um e-mail com o conteúdo. O título do e-mail é assim: Juliana L. comentou uma foto sua. Então eu clico sobre um endereço e encontro a imagem acima. Dã.

É uma forma bem cretina de agressão, pois a autora deve ter me encontrado na internet elogiando seu desafeto póstumo e sabia que eu ia começar a receber e-mails. Por sorte, conheço alguma coisa do Face e me retirei da imagem. Ah, elogiei também o filme! Foi meu erro…

Olha, desconfio muito de quem escolhe Saramago como um importante alvo. Há tantos, mas tantos alvos que merecem chiste que começo a achar que quem o agride com tanta inisistência é católico, direitista e morre de inveja até de quem participa do BBB. Porque nada, na obra ou no homem Saramago justifica tal vulgaridade. Leiam ou releiam o autor, vejam o filme e comparem com a imagem acima. Nada a ver.

Como disse no início é permitido não gostar de Saramago, Paulo Coelho, Shakespeare ou Thomas Mann. Mas, para fazê-lo, é mais honesto usar argumentos.

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A Espécie Fabuladora, de Nancy Huston

Autran Dourado é um raro caso de escritor em que sua qualidade como cantor é muito superior à música interpretada. A qualidade de sua escritura bate fácil os temas escolhidos. Tal característica talvez seja fatal para a sobrevivência de seus romances. Conheço casos como o de Naipaul, em que o escritor é tão, mas tão inteligente e arguto, que lhe falta texto para organizar a superfetação de temas e interpretações. Posso ser burro demais para ele, claro; tanto que — à exceção de Uma Casa para Sr. Biswas — costumo ficar meio zonzo. O caso de Nancy Huston parece ser outro. Intuo uma grande escritora e uma grande capacidade que é dobrada pela necessidade de ser simples.

É efetivamente complicado comentar este ensaio sobre a Necessidade da Ficção. De forma sintomática, faço uma analogia ao clássico A Necessidade da Arte, de Ernst Fischer, pois o ensaio de Huston trata de forma menos poética e menos geral dos mesmos temas. Porém, se é menos geral, avança muito mais na forma de pensar e de fantasiar do ser humano.

O livro foi escrito a fim de dar uma resposta à pergunta que uma presidiária fez à autora:

— Para que inventar histórias quando a realidade já é tão extraordinária?

Em resposta à pergunta, a canadense Nancy Huston comprova como o fato de acreditar em coisas irreais nos faz suportar a melhor vida real. Ela comprova que a inserção no mundo ficcional começa quando nascemos, com o sentimento de pertencimento a um grupo, com deus, com os primeiros relacionamentos e a gloriosa busca para encontrar um sentido naquilo que estamos vivendo — instinto básico à condição humana, a única espécie que sabe que nasceu e morrerá. Então, já que a realidade humana é tão repleta de ficções pobres e incompletas, é preciso inventar ficções mais ricas, com situações que façam sentido.

Por que disse que era complicado comentar o ensaio sobre um tema tão fundamental e interdisciplinar? Ora, porque, repito, acho que Nancy Huston é maior do que o resultado. Acredito que a autora tenha facilitado seu texto para que este ficasse mais acessível. Não pretendo colocá-la no pelourinho por isto, mas fiquei com a forte impressão de que, por trás daqueles parágrafos encurtados à fórceps, havia o desejo de ser mais e mais simples num assunto que não é nada trivial e que trata de assuntos que partem do atavismo para chegar à arte mais sofitiscada.

Porém, o grande mérito do livro é o da divulgação de verdades complexas de uma forma perfeitamente organizada e simples. E seu problema é exatamente o mesmo; isto é, o de levar ao paroxismo esta característica. Mas vale a leitura, garanto.

Nancy Huston escreve em francês, vive na França e é autora de Marcas de Nascença, vencedor do Prêmio Femina e finalista do Prêmio Goncourt e do recém lançado Dolce Agonia, além de uma dezena de livros. Me deu vontade de conhecê-la melhor.

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A Vida Sexual de Robinson Crusoé, de Michel Gall

OK, podem tirar com minha cara. Poucas vezes me enganei tanto com um balaio de Feira do Livro como com este A Vida Sexual de Robinson Crusoé, do francês Michel Gall (Editora Brasiliense, 165 páginas, Coleção Brasiliensex). Uma boa piada, uma engraçadíssima introdução do autor e — pronto! — Milton Ribeiro caiu como um patinho. Ainda bem que custou apenas R$ 5,00.

O livro tinha tudo para ser bom — a introdução é esplêndida — , contando as fantasias do solitário Robinson, assim como os modos como ele, um homem jovem e saudável, fazia justiça pelas próprias mãos ou pela criatividade na inóspita ilha. Mas a coisa degringola de uma forma tão absurda, com tantas cabras e ovelhas passeando satisfeitas que, olha, não dá. O belo Sexta-feira só aparece ao final do livro e nem precisava, tão movimentada já era a vida sexual do involutário eremita.

Gall faz literatura erótica de qualidade média, apenas isso. Quando comprei eu não sabia, mas ele é autor também de A Vida Sexual de Ulisses, de A Vida Sexual de Adão e Eva e de um certo Os Segredos das Mil e Uma Noites.

Penso que possa sugerir: fuja de todos eles.

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Carol Bensimon vence o 1º Campeonato Gaúcho de Literatura

Carol Bensimon e seu Pó de Parede venceram a 1ª edição do Campeonato Gaúcho de Literatura na final contra Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues. Li ambos os livros, assim como alguns outros que foram eliminados pelo caminho. A presença dos dois na partida decisiva e a vitória de Carol foram merecidas. Apenas livros de contos participaram nesta edição. A próxima edição focará romances.

Foi uma boa decisão a de ter ido ao StudioClio anteontem (28/12)  às 18h a fim de assistir o jogo final através da palavra ao vivo e a cores dos três árbitros. O juiz e seus bandeirinhas — não pensem que vou distribuir os cargos entre eles — fizeram um excelente trabalho. Carlos André Moreira, Luiz Gonzaga Lopes e Marcelo Frizon foram bastante competentes nas fundamentações de seus julgamentos,  assim como o foram o quarto e quinto árbitros — Lu Thomé e Rodrigo Rosp (o qual parece não ter um link para chamar de seu) — na organização do imenso torneio de seis meses e 51 jogos.

Foto de Marcelo Ribeiro - Jornal do Comércio
Francisco Marshall - Foto de Marcelo Ribeiro (Jornal do Comércio)

No âmbito de Porto Alegre, o StudioClio firma-se como o local perfeito para o indispensável diálogo culto e a presença da cerveja Coruja serve para como oportuno e delicioso catalisador de debates. Só não entendi o motivo que levava o curador do local, Chico Marshall (acima), a desejar que eu me embriagasse, servindo-me irrecusáveis Corujas uma atrás da outra, como punhaladas de louco.

Mas tergiverso. Se a proposta do projeto era a de provocar o debate sobre a produção local, esta foi alcançada com sobras e só a tímida  divulgação impediu um sucesso maior do Campeonato. Digo isto porque acabo de escrever no Google “Campeonato Gaúcho de Literatura” e a primeira referência encontrada é a deste prestigioso blog de sete leitores, sendo que a segunda é a do árbitro Carlos André Moreira. Se escrever “Gauchão de Literatura”, o primeiro a ser encontrado é o blog de Antônio Xerxenesky e o segundo é novamente a do blog bi-vice de Carlos André. Estranho.

Foto: Revista O Grito!
Foto: Revista O Grito!

Não discordei do julgamento, mas estava com muita vontade de levantar o braço e interromper os votos para fazer perguntas e encher o saco. Sim, pois eles disseram que o livro de Alexandre Rodrigues seria mais experimental e o de Carol mais, assim, convencional, com construção rigorosa de personagens e outros que tais que caracterizariam uma literatura mais “enquadrada”. Se não disseram isto com todas as letras, deram a impressão de terem dito, o que não é a mesma coisa, mas provoca o mesmo efeito. Ora, ora, acho que o livro do Alexandre é mais ousado na formatação dos 14 contos, alguns curtíssimos, outros verdadeiros enigmas, outros efetivamente belos; porém Carol é absolutamente original e desenquandrada na realização de um original e poético trabalho de linguagem que nunca poderá ser chamado de clássico.

Mesmo a construção dos personagens no(s) livro(s) de Carol são feitos na forma mais de mosaicos faulknerianos do que na de um tijolo balzaquiano. O problema é que a Carol é densa e o Alexandre é rarefeito. Quem gosta mais de densidade, de um trabalho voltado para contar a história de forma mais e mais completa, vai com Carol; quem se seduz com formas originais, com histórias cheias de detalhes literários surpreendentes, vai com Alexandre. Ou será que é antiquado ser denso? Nada disso significa que um seja muito melhor do que o outro, significa apenas que, se estamos comparando um com o outro, devemos dar-lhes as devidas qualidades.

Eu evitei escrever sobre o livro do Alexandre porque ainda tenho aquele pingo de bom senso que me dizia estar acima ou abaixo do que eu tinha lido, nunca em sintonia. Ou seja, estava mais ou menos como o juiz Luiz Gonzaga Lopes, que disse num momento que não gostava dos contos de uma página — e os há no livro do Alexandre. São minoria, mas há. Um conto de uma página que não é uma piada ou altamente poético me deixa brocha por dez páginas. Não sei é também o caso do Gonzaga, falo por mim. Fato análogo ocorreu quando li V.S. Naipaul. Eu sabia que era bom, mas que eu não era o leitor ideal. Se me colocarem na parede, direi que que não gosto do trinitário tão mais inteligente e capaz do que eu, mas como aqui posso abrir mão de fazer críticas àquilo que está  afastado de meu gosto pessoal ou que não compreendo, abro, ora.

Porém, o principal a ser destacado é que esta é uma geração que, apesar de demonstrar tremenda educação e imensos cuidados para não ferir suscetibilidades, começa lentamente a desprezar o compadrio e os elogios vazios para substituí-los por algum debate. As sete pessoas que leem meu blog sabem o quanto sou bakhtiniano e amigo de Platão: a natureza e o habitat das ideias, onde elas vivem e se transformam é durante o diálogo, e elas ficam ainda mais vivas e melhores ainda com Corujas e um curador louco para nos embebedar.

Pois a gente só sabe agora o quanto nos fazia falta um StudioClio.

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Queremos de volta as PEQUENAS e acolhedoras livrarias

Publicado em 2 de outubro de 2006

Introdução:

O que é ser old-fashioned? Creio não satisfazer os requisitos mínimos para receber tal epíteto. Uso celular, tele-entrega, cartão de crédito, vou ao shopping (pouco, mas vou), compro na rede, corro na rua (quando posso vou à academia), visto-me como os outros, passo o fim de semana de tênis, mexo com mp3, logo terei um iPod, leio livros e vejo filmes contemporâneos, não sou conservador e não sinto grandes saudades dos tempos passados. Por outro lado, tenho consciência de que os filmes, a música e a literatura contemporâneas são inferiores àquela que se praticava há meio século, assim como meu filho de 15 anos – que passava indagorinha na minha frente -, ao ser questionado sobre o que mais seria atual, respondeu:

– Pai, música ruim é uma coisa bem atual.

E ele, que está sintonizado com seu tempo, que vai a festas, dança, namora, fica, estuda e passa seus dias no Orkut, enfim, que sabe o que há por aí, ouve mesmo é The Who, Led Zeppelin, Bob Dylan, Beatles, Stones, Pink Floyd e Black Sabbath em CDs, assim como eu vejo A Noite de Antonioni em DVD. Mas tergiverso, deixem-me retornar a meu assunto.

De uma forma geral, não creio absolutamente que a humanidade esteja pior do que era, apenas creio que está mais vulgar, mais superficial. Acredito nesta frase de considerável sutileza, humor e conteúdo político, que li no extinto blog português Bombyx Mori:

Não vogando já na doce ilusão de uma sociedade sem classes, concordei em viver numa sociedade sem classe.

Sim, estou adaptado para viver numa sociedade sem classe. Qual era minha outra opção? Desde que a TV não fique ligada naquelas horríveis séries americanas ou na nova e imbecil televisão inglesa, desde que não me obriguem a ler Paulo Coelho nem a ouvir funk, vivo bem. Mas há coisas que não suporto, que me afetam e uma delas está descrita com notável riqueza de argumentos e ironia no texto de Fernando Monteiro que apresento a seguir. Também não acredito que quem escreva os livros que Fernando escreve, os quais estão flagrantemente à frente daquilo que se produz no país, possa ser chamado de old-fashioned ou saudosista. Provavelmente, ele seja justamente o contrário. Fernando Monteiro é autor, dentre outros, dos excelentes Aspades, ETs, etc. (Record), O Grau Graumann (Globo) e do recente As Confissões de Lúcio (Francis).

Queremos de volta as PEQUENAS e acolhedoras livrarias – Por FERNANDO MONTEIRO

Não sei de onde terá vindo o modelo, em voga, das megalivrarias. Se já inaugurou uma na sua cidade, você sabe que estamos falando de alguma coisa daquelas que, a princípio, parecem muito boas e brilhantes, até se ter – no caso das livrarias dos “centros de compras” – a curiosa impressão de livros para ver nas estantes, como holografias sob holofotes, se é que me entendem os que já espirraram em alguma quieta livraria de Trastevere ou de Ipanema mesmo.

Não me sinto numa livraria nesses espaços novos e monumentais, com livros cativos da apresentação suntuosa de celofane e capas envernizadas, mocinhas e rapazes meio zombies e fãs de Caetano vendendo obras que nunca irão ler, os títulos como que disfarçados sob o clima de consumo de cultura ao som de música ambiente e mastigação de pão de queijo com capuccino na cafeteria das ditas cujas super-hiper-megas “lojas” de livros (assim as chamam os seus proprietários orgulhosos dos metros quadrados) etc.

Suponho que esse modelo triunfante tenha vindo dos shoppings que pouco têm a ver com livros fora de moda, acomodados nos pequenos espaços de silêncio acolhedor, sem música, café e “área educativa” para crianças brincarem com livros como objetos descartáveis na forma de elefante, leão e hipopótamo supostamente simpáticos.

Comprei quase todos os meus livros – depois de muito procurar ou escolher – no ambiente limitado de livrarias que já não estão nos seus lugares, foram fechadas, extintas e até mesmo demolidas para existir só na memória do tato, dos dedos examinando volumes numerados e assinados, não escapando o leitor compulsivo de aspirar o cheiro das páginas de livros portugueses, espanhóis e franceses de folhas à espera das espátulas aposentadas.

Havia um ritual com o livro, uma cerimônia secreta no manuseio desse “produto” venerável e mais digno de ser embrulhado do que ser entregue num saco plástico com propaganda de croissants gordurosos e outras parcerias das novas livrarias guinchando o leitor para a compra do acessório – porque o Livro talvez seja um estranho no ninho das novas livrarias suntuosas de espelho, luz e vazio como uma casa moderna num antigo filme de Antonioni sobre o eclipse do humano na noite da incomunicabilidade.

Minha vista educou-se na luz discreta sobre as lombadas, sou do tempo de estantes até envidraçadas, onde os livros do estoque semelhavam as estantes de uma casa, enquanto os lançamentos estavam nas bancadas acessíveis, sob a luz amarela de lâmpadas antecipando o tom dourado da tarde ir suavizando as coisas lá fora, quando o crepúsculo na Rua da Imperatriz vinha por sua coria na sombra das árvores curvadas sobre o rio cortando a cidade.

Num tempo em que tudo virou Mercado, eu sei que o livro – um dos “objetos” mais antigos do mundo – teria a sua vez de ser tratado como produto, em dezenas de telas de terminais de computadores que amputaram o prazer de descobrir um título apertado nas estantes das livrarias de outrora, antes do admirável mundo novo do e-book e do livro on-line, entregue pelos fantasmas sem mãos da virtualidade.

“Imperatriz”, “tom dourado”, “fantasmas” – essas são palavras propositadamente deslocadas para tratar do tema das livrarias espetaculares no lugar das livrarias ricas de modéstia e calma, expondo Suave é noite como um mistério a ser decifrado. No lugar disso, agora entramos numa livraria-monstro do gosto desta época (será mesmo?) e todas as luzes violentas do comércio se acendem sobre capas gritando nos ouvidos dos meus olhos: compre, compre, compre.

A leitura não é – nunca será – estimulada pelo impacto. A grandiosidade equivocada não tem o que fazer por livros de verdadeira qualidade, que o tempo vela e que você descobre, cedo ou tarde, secretamente acumulando a estranha sabedoria das obras indefiníveis num certo escaninho da alma.

“Alma”? Desculpem pela palavra (este é um texto de gosto antiquado).

Ia eu dizendo que não se conquista (nem sequer os pequenos leitores) pelo aliciamento para o reino demolido das palavras, tipo “aqui, temos um espaço para vândalos-mirins brincarem com livros como se fossem bonecos sempre-em-pé como uma bola quadrada; aqui, você ouve música, aprende-se karatê e a fazer sushi de ikebana. De quebra, vende-se livros com sabor de literatura de plástico para o namorado que não esteja sabendo o que dar para a namorada, etc.

Em defesa das super-livrarias, deve-se dizer que elas podem ser boas ao menos para marcar encontros: ninguém deixa de ver uma dessas grandes “lojas” de livros do tamanho de estacionamentos verticais, brilhando como catarro em parede de vidro. Brilho sob brilho, são lágrimas na chuva os lamentos chorados sob os números estonteantes das livrarias de 200 mil títulos como que resguardados da leitura – e nenhuma obra de salvação que possa evitar o suicídio de um mendigo desesperado.

Os livros – alguns livros – podem salvar o mundo (e o pedinte de Fiodor), além do novo papa e até você – que gosta das jumbo-livrarias instaladas nos espaços-âncoras dos monster-shoppings.

Mas, você realmente gosta das grandes, modernas, assépticas e abstratas livrarias do gosto de Matrix?

O Livro vem do enrugado pergaminho e do silêncio de claustro das universidades medievais empoeiradas. Debaixo do pó, elas preservaram o mundo da antiguidade clássica no meio do mistério cristão-bizantino. Há obras sobre isso, lacradas sob liso papel celofane, na seção de livros de arte das completas, maravilhosas, incríveis “MacBooks” que nem são mais livrarias, ou não mais apenas isso, essa palavra que lembra alfarrábio, manuscrito, sebo, vela, pena, papel de arroz, percalina, douradura, encardenações inglesas, gravuras e lembranças da margem esquerda do Sena transferida, afinal, para a direita do capitalismo triunfante do final do século 20.

E uma livraria da nova cultura é uma coisa do 21, do jogo iluminado para admirar e comprar (e ler?) os livros entregues em sacolas de plástico reciclável, colorido e artificialmente aromatizado.

Por que procurar um livro obscuro, para que comprar o “Judas”, numa imensa livraria cheia de estudantes comemorando o novo Dia de Matar o Índio? Numa velha livraria, pequena e cheia de pó, se você não achava o livro já-não-lido de Thomas Hardy, terminava levando um outro, algum livrinho que você não buscava e que se revelava capaz de mudar a sua vida, debaixo da luz fraca, no meio da relativa calma do antigo lugar dominado por um porta de guizos.

Mas, quem quer calma? E quem ainda quer ouvir guizos, címbalos, sistros, quando todos parecem preferir percussão metalizada, sintetizada e aumentada entre as escadas que dão acesso ao telão instalado no andar de cima, o andar eletrônico das benesses do Mercado “que recupera tudo”?

Numa antiga livraria demolida você poderia encontrar até um livro desconhecido de George Katsimbalis – aquele que gritava para os galos da Ática – e, talvez, quem sabe também o grande amor da sua vida, calçada com galochas, num sábado de chuva (“ela entrou, sob o som delicado da porta, e você a viu sob a luz coada, a fronte molhada dos pingos na franja um tanto juvenil”)…

Poesia! Para que serve a poesia – numa grande e dispersa livraria? Como no poema de Ascenso Ferreira: “para nada”, quando já não parece haver tempo para poesia & amor entre dois cafezinhos. O tempo ruge, a calculadora urge, a época é fria e ninguém mais usa galochas – mesmo nos sábados antigos dos novos romances com o gosto ressecado de pão de queijo frio. E, em vez do galos da Ática, ouve-se os címbalos falsos do mais novo “romance” de Paulo Coelho abarrotando a entrada da cultura e o caixa.

Melhor: se você achar que PC já era, está chato e repetitivo das bobagens que ele sempre repetiu, leve a nova versão de auto-ajuda elaborada por Lya Luft, com a inteligência da gaúcha agora a serviço dos descartes do livro-sanduíche-íche-íche. É o produto, por excelência, das super-hiper-megalivrarias.

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Sons, Blogs, Literatura e Poesia Descosturadas num Post Curto e Confuso

Publicado em 3 de agosto de 2007

Em 2003, publiquei um post de boa repercussão sobre a Rádio da UFRGS. Uma amiga minha, ao ler aquele post, repassou-o a sua mailing list da UFRGS e isto foi fatal. O Departamento de Artes inteiro leu, até os aposentados da Universidade leram. Sofri alguns ataques de estudantes, mas sabia que tinha razão e, mais importante, a rádio mudou, adequando-se magicamente ao que eu tinha pedido.

Achava que tudo tinha sido casual, talvez tivesse ocorrido uma mudança já planejada, sei lá. Isto até ontem, quando uma funcionária da rádio sentou-se na minha frente por razões profissionais e descobriu que era eu o autor da “bomba”. Soube que o post havia sido discutido longamente, que eu era detestado por alguns e amado por outros e que a rádio aceitara alguns de meus argumentos.

A rádio anda otimamente bem com seu jovem programador, sobre quem tenho uma história estranha. Um dia, lá no início de 2005, quis fazer uma entrevista ao vivo ou por escrito com ele; tal entrevista serviria como uma espécie de reconciliação com a rádio, porém, quando ele soube que eu era o autor daquelas críticas de 2003, tratou de fugiu de mim como o diabo da cruz ou a cruz do diabo, tanto faz. Alegou timidez e fiquei me sentindo um leproso. Entendi agora. Sem problemas, ele é excelente, conhece música e a rádio está arrasando no item qualidade.

Estas pequenas histórias servem para sublinhar o surpreendente poder dos blogs, que receberam excelente artigo na revista Época deste mês, com destaque para a incrível foto de um Inagaki em camisa-de-força.

Por falar em rádio, todos os interessados em literatura deveriam ouvir a belíssima entrevista de João Gilberto Noll para a rádio Antena 1 portuguesa. A entrevista, conduzida magistralmente pelo escritor português Francisco José Viegas, pode ser ouvida na íntegra aqui. E vejam que nem admiro tanto o Noll. Porém, encantou-me a forma hábil com que o Viegas retirou de Noll detalhes sobre seu universo, sobre a marginalidade de seus personagens e como o contextualizou no mundo e no Brasil. A civilidade e o conhecimento do entrevistador revelou a riqueza do entrevistado. Não é para qualquer um. Uma jóia imperdível para quem gosta de literatura e sinceridade.

Com a finalidade de unir de forma esfarrapada estes dois assuntos, há o declaradíssimo e derramado amor de Noll por Bach e por Porto Alegre – o sul, o sul -, amores que compartilho com ele e onde me descubro seu par. “A catedral viva” de Bach, o homem que é sempre sublime – expressões utilizadas por ele na entrevista -, torna-nos irmãos agnósticos crentes na religião da música. Ah, e Noll mostra conhecer bem o caráter dos blogs. Não adianta, de escritores a programadores de rádio, de ex-mulheres a advogados, todo mundo lê blogs.

Para ouvir a grande rádio da Universidade – ativa há 49 anos – em seu micro, clique aqui e vá seguindo o “AO VIVO”: vale a pena!

Diálogos Amorosos:

– Hum – digo.
– Eu sei que não foi muito engraçado, mas fico triste quando invento uma piada e tu não ris.
– (Risadas.)

Utilíssimo Manual (Revisitado hoje):

Eu era recém separado e a procurava com um manual na mão. Quando via uma, observava-a detidamente e fazia a comparação com o manual. Não descansava. Ele já estava manuseado, amarelado e engordurado; abria sozinho naquela página. Era só o que eu queria e tinha que ser. Não fosse daquele jeito, tudo voltaria. Até que encontrei.

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Poema da imensa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen.

(O manual pode ser encontrado no Brasil em Poemas Escolhidos, Companhia das Letras, 2004.)

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O Amor em Tempos de Copa (com exclusivo final feliz!)

Publicado em 19 de junho de 2006

Ana Cristtina fazia aniversário em 12 de junho, Dia dos Namorados. É claro que isto apenas a prejudicava. Ganhava menos presentes, ora! Seus namorados, pensava, aproveitavam-se do fato e davam-lhe somente um presente. Mais: tornava-se hiper-sensível neste dia e nos precedentes. Tanto que, no dia anterior, um domingo, mandara seu namorado passear ao ser trocada por Portugal x Angola. Se ainda fosse um jogo do Brasil ou da Argentina, tudo bem, mas Portugal x Angola era demais.

Ramiro respirou aliviado. Estava sem grana e agora mesmo é que não lhe daria presente algum, quem manda ser histérica. Depois, passado o dia 12, tentaria reatar. Afinal, Ana Cristtina valia a pena. Era bonita e boa de cama. Seu único problema era aquela eterna mania de querer discutir a relação aos prantos e tarde da noite, quando ele estava louco para dormir e já pensando na encheção de saco do dia seguinte. Era motoboy por influência de Ana, que fazia o mesmo serviço.

Ana passou o dia 12 recebendo ligações de seus clientes e, cada vez que desligava o celular, dizia em voz alta:

– Puta que o pariu. De novo, não era o filho da puta.

Durante a tarde, chegava e saía dos clientes com os olhos marejados. Alguns, que lhe conheciam há mais tempo, cumprimentavam Ana pelo Dia dos Namorados e faziam seus cumprimentos extensivos a Ramiro. Perguntavam se onde eles iriam à noite, um jantarzinho íntimo, um motel? Ela sorria e não respondia nada. Depois, na moto, mais lágrimas. Ao final da tarde, mais nervosa, passou a acelerar mais e a fazer suas freadas bem próxima aos automóveis. Pensou que um pequeno acidente seria uma boa. Neste momento, como por mágica, uma carro à sua frente deu engatou a ré acertando-lhe em cheio o joelho. Ana deu um grito, descarregando todo o seu ódio naquela má motorista que certamente comprara sua carteira. Mas a mulher que batera em Ana parecia preocupada, saiu do carro pedindo-lhe desculpas, dizendo que iria levá-la imediatamente a um hospital e que aquele estava sendo um dia terrível para ela. Não parecia grave, mas Ana não estava conseguindo apoiar o pé no chão sem dor.

Estacionaram a moto e foram ao hospital. No carro, ambas pegaram seus celulares:

– Ramiro, me acidentei com a moto. Não queria te ligar, mas a quem poderia pedir ajuda?
– Ronaldo, meu amor, aconteceu algo horrível.
– Um carro deu ré bem na minha frente e…
– Sei que não devia te ligar, mas és homem e talvez…
– … acertou o meu joelho. Estou sendo levada para o hospital…
– … saibas a burocracia que envolve um acidente. Tenho…
– … com muita dor… Não, a própria mulher que bateu em mim. Tu poderia vir aqui?
– … seguro e tudo, mas sei lá. Isto é coisa de homem.

Na sala de espera, dois homens esperavam vendo Itália x Gana. Um estava vestido como um executivo, o outro de calças jeans e capacete no colo. Trocavam observações sobre o jogo. O pênalti não marcado por Carlos Simon a favor dos ganeses foi recebido com compreensão. Afinal, todos os gaúchos sabem que Simon é um dos piores árbitros brasileiros, mas que deve ter amigos importantes. Deram risada. Quando ele não deu o segundo pênalti, riram mais ainda. Quando a Itália fez o segundo gol, ambos ficaram vacilantes entre ver o gol e receber Ana e Mônica que apareram no corredor. Ana vinha claudicante, apoiando-se a Mônica.

Os dois homens notaram a simetria da situação e, já sérios, encaminharam-se para suas mulheres.

– Ai, tá doendo, me fizeram uma atadura e me mandaram ficar em casa à noite.
– Eu estava nervosa com nossa discussão, Ronaldo. Imagina que engatei a ré em vez da primeira.
– Tu podes me levar para casa? Putz, logo no meu aniversário…
– Poderia ter matado a menina. Sou uma idiota.
– Obrigado. Mas, acho que não dá para deixar a moto onde ela está estacionada.
– Só quero ir para casa tomar um banho e que este dia passe.

Quando atravessaram a sala de espera, os dois viraram-se para a TV a fim de ver que o jogo tinha terminado 2 x 0. Ronaldo piscou o olho para o amigo.

Ramiro passou a noite com Ana Cristtina. Deu-lhe os parabéns repetidas vezes pela dupla data e, se não houve presentes, não faltaram beijos e suspiros no pequeno apartamento dela. No lugar de discutirem até altas horas, a única provocação que houve foi a de Ramiro dizer que os dois tês do nome de Cristtina significavam “tesão” e “TPM”. Riram. Do outro lado, Ronaldo, o cidadão um pouco gordo que namora Mônica, fez o mesmo, dormindo fora de casa.

Por serem pessoas normais, não viveram felizes para sempre, mas garanto-lhes que, naquela noite, tiveram a ilusão de que isto seria possível.

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O Salário Moral de um Dia Triste

Publicado em 1º de junho de 2006

Comecei o dia lendo no jornal a pior das notícias. Morrera o pai do melhor amigo de meu filho. Acordei-o e dei-lhe a notícia quando saía do banheiro. Fora uma uma longa doença, o fato era esperado, mas ficamos muito tristes, é claro. Daniel Herz era um jornalista e intelectual, mas antes disso era alguém doce, que gostava de conversar e que tinha recebido o Bernardo em sua casa por centenas de vezes, assim como recebemos o Guilherme. Gostava de conversar com ele. Era alguém inteiro.

Macambúzios, descemos antes das sete da manhã para que eu levasse os meninos à escola. Nosso carro, pela primeira vez em anos, não ligou. Bateria, motor de arranque, alternador? Não sei. Fomos de táxi até a casa de minha santa sogra – santa mesmo! – para pegar seu carro emprestado. Os guris chegaram atrasados na aula.

Depois de um compromisso que me tomou metade da manhã, voltei para devolver o carro e fui em casa ver o que tinha acontecido com o nosso. Com meus inexistentes olhos de mecânico, achei tudo normal. Chamei o seguro e fui ver meus e-mails. Havia este:

(Para tudo! Antes tenho que contextualizar meus sete leitores para que compreendam o e-mail:

Um dia, pelo MSN, Paulo José Miranda, escritor português e meu amigo, contou a história de uma pequena grande livraria da cidade de Aveiro, em Portugal. Esta livraria, chamada O Navio de Espelhos não é um estabelecimento comercial trivial. Ela tem como donos pessoas que conhecem livros e que, além de promover encontros entre leitores e escritores em ambiente agradável, patrocinam uma programação diária de serões de narração, noites de poesia, serões de contos, debates, comunidades de leitores, etc., tudo entre chás e bolos. Até aí tudo muito civilizado. O incivilizado começa agora. Ao lado da livraria, foi inaugurado um shopping e, no shopping, uma destas megalivrarias onde não há espaço para nada disso e muito menos para livreiros cultos. Então, Paulo propôs uma reação ainda mais civilizada. Sugeriu que fossem distribuídos aos leitores contos inéditos de escritores amigos da Navio de Espelhos. Aí entrei eu. Completo dizendo que Aveiro – cidade que não conheço – é a cidade onde nasceram meus avós paternos.)

Agora o e-mail que li:

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Caríssimo Milton,

Antes de mais, muito obrigada por nos ter enviado um inédito seu.

Nós imprimimos numa edição caseira, que temos a “petulância” de achar muito bonita. Imprimimos 50 exemplares à vez aqui na nossa “oficina”. Depois vestimos, cantamos, dizemos, pintamos o seu texto e os demais. Fizemos “quase” tudo. Na prática esta ideia do Paulo fez-se gente e está a crescer devagarinho mas de forma preciosa. É uma história dos afectos.

Esta ideia dos inéditos é uma história de amor. Do que se pode fazer quando se quer lutar por alguma coisa incondicionalmente.

Obrigada por participar.

Envie-nos, por favor, a sua morada e nós enviamos o seu inédito impresso por nós e também os outros inéditos, a fazer de conta que nos veio visitar.

Mais uma vez,

Obrigada.
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Fiquei absolutamente feliz, mas não pude responder porque tinha que tratar do carro – que foi rapidamente consertado – e de buscar meu filho a fim de levá-lo ao velório. Foi com um misto de pressa e cuidado que respondi quando cheguei ao escritório.

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Querida Sónia.

Talvez seja difícil imaginar o que esta proposta do Paulo teve de “afetos” também deste lado do mundo. Nunca fui à Portugal, mas meus avós vieram de Aveiro. Tua cidade é a única de Portugal com a qual tenho ligações afetivas. Sempre penso: “E Aveiro? Quando?”.

Quando o Paulo me falou sobre a idéia dos inéditos e tua livraria, aderi imediatamente ao plano e o farei sempre que desejares. Podes (e deves) usar e abusar daquilo de bom (ou ruim…) que eu venha a produzir. Nunca senti tão fortemente aquilo que Borges chamava de “a nostalgia do desconhecido”. Anteontem, o Paulo avisou-me que nossos livros estavam na vitrine (montra) de tua livraria. Logo pensei: puxa, estou em Aveiro. Adoraria – e como! – receber o exemplar de minha modesta farsa de tuas mãos, dentro da tua livraria, mas… Já que não é possível, vamos a meu endereço:

Outra coisa: muitas vezes escrevi – e até comentei certa vez com o Luís Graça – sobre as grandes livrarias sem personalidade, com caras de shopping e com atendentes que parecem nunca ter aberto um livro. São uma praga. Nego-me a fazer compras nestes lugares da pressa e da falta de contato humano.

E mais: se considerares que tens poucos exemplares dos outros inéditos, por favor, não os envie. De forma alguma gostaria de deixar um de teus clientes a ver, por assim dizer, navios. Mas faço questão de ter o meu! Afinal, quero a minha parte nesta história de amor….

Um beijo carinhoso e muito obrigado.
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A expressão “salário moral” do título me foi trazida por outro escritor amigo, o pernambucano Fernando Monteiro. Significa aquilo que ganhamos em centímetros quando um fato nos envaidece. Creio que ele poderia nos explicar melhor nos comentários.

Observações Finais:
1. Não dei o nome da livraria porque ainda não pedi autorização a seus donos para contar esta história.

Up-date das 9h: Recebo outro e-mail de Aveiro:

Milton, venho secretamente trabalhar nos papeis quando o resto da cidade ainda tem a cara encostada ao lençol. É nesse instante que abro o seu e-mail. Bela maneira de começar o dia.

Autorização concedida.

Muito obrigada.
Sónia.

2. O conto que está sendo publicado é uma versão corrigida e ampliada deste aqui. Minha mulher e a revisora não gostam dele. Eu o acho divertido. Aqui no blog está sua primeira versão.

3. Além do site cujo link coloquei acima, a livraria O Navio de Espelhos – nome mais português impossível! – ainda tem um blog aqui.

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Aforismos e Minicontos de Primeira Linha

Publicado em 23 de março de 2006

Marcelo Backes acaba de lançar, pela Editora Record, o surpreendente e inclassificável volume Estilhaços. No livro, pertinho do impagável Pequeno Dicionário Nostálgico de Meu Futebol Missioneiro, há, exatamente na página 89, o que segue:

A inteligência vem do berço?

Bernardo, filho do meu amigo Milton Ribeiro
– o melhor leitor não-profissional do Brasil -,
gosta de documentários.
Aos cinco anos de idade,
ao ver três funcionários
do departamento municipal de limpeza urbana
inspecionando as canalizações de esgoto em
Porto Alegre
perguntou:
“Pai,
São paleontólogos?”.

O resto livro também vale a pena. Juro que não há mais elogios a mim… A amizade cria exageros. Uma prova? Bem, na contracapa do livro há isto, simplesmente:

Princípio

Viver
é escrever
para não
matar…

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