Estrela Distante, de Roberto Bolãno

Por Charlles Campos

O que poderia haver de errado, nesse começo de século pouco promissor para a literatura — no qual Norman Mailer lamentou que tudo pelo qual sua geração de intelectuais lutara tenha fracassado, e onde as mesmas formas eternamente combatidas de dominação tenham obtido uma vitória incontestável sobre qualquer resistência contrária — , com o fato de Roberto Bolaño ter sido escolhido como objeto de acirrada adoração pela mídia cultural mundial? Nessa época desencantada dos ilimitados milagres da eletrônica, onde Philip Roth vaticinou que a próxima geração a surgir trará incutida no gene o fim do interesse pela leitura, não é espantoso que o romance de mil páginas “2666” já tenha vendido mais de 23.000 exemplares em Portugal? E que “Detetives Selvagens” tenha movimentado o competidíssimo mercado editorial norte-americano; e que os outros livros de Bolaño já sejam por lá tidos como potenciais clássicos de um escritor genial? E o que poderia ser mais esperançoso do que vermos Bolaño ocupando o centro de vários debates culturais pelo mundo, seus livros aparecendo mesmo em locais exórdinos como na mala de viagem do apresentador da Globo Zéca Camargo ( que levou “A Pista de Gelo” para o acompanhar nas filmagens pela Tailândia, demonstrando os critérios práticos da simplificação de sua escolha)?

Mas essa iconização, por outro lado, é o reflexo de outros aspectos não tão festivos do atual momento cultural por que passa a América Latina. À exceção de Bolaño, de qual outro escritor latinoamericano se ouve falar com a mesma persistência? O cenário mostra-se desconcertantemente desértico, ainda mais em comparação à profusão de nomes de valor que existiam há cinquenta ou quarenta anos. A acreditarmos na tendência — o emprego de tal palavra talvez seja o mais maneirista dos eufemismos — do definhamento da escrita, essa espera pelo desaparecimento dos últimos grandes escritores sem que se veja o natural surgimento de uma geração que os substitua, é uma realidade não só das Américas, mas universal. Não que os escritores apareçam obedecendo a u ma determinada sistemática providencial, ou são produzidos em série para, no momento devido, virem com a resolução para os conflitos da pobre humanidade desgovernada. Mas o que ocorre é que o prognóstico lançado por Mailer, Roth, Vargas Llosa e uma dezena de outros escritores, sobre o futuro inglório que eles não verão , parece se encaixar com perfeição nos estágios velozes da técnica que já nos pegam pela frente, onde a escrita se torna irrelevante e descartada, e, com isso, o pensamento crítico, as nuances lingüísticas, a contestação às doutrinas dominantes, o reconhecimento de uma dimensão mental independente, a lentidão necessária para inteirar-se da constituição espiritual morta por fora pela extenuante falta de tempo da escravidão dedicada às empresas, ao Estado e ao modus operandi de consumidores infinitos.

Se a efervescência intelectual é expressão produzida pela intolerância alcançada aos conflitos históricos, como vemos os poderosos escritores surgidos na Rússia czarista, nos memorialistas do extermínio da Segunda Guerra mundial, nos inconformados contrários ao bezerro de ouro do capitalismo norte-americano, nos refugiados hispano-americanos que acusam as ditaduras assassinas em seus países, não há momento mais legítimo para a imposição da voz do que o que vivemos hoje. Se a desgraça crônica explode no desenvolvimento de pessoas comuns em contestadores que escrevem grandes livros, o estágio atual de desgraças seria mais que justificável para a descavernização desses anônimos, a fim de instigarem aos demais míopes silenciados as possibilid ades de um mundo lá fora.

E é aqui que a carga relegada a Bolaño demonstra-se demasiado pesada. Bolaño, em decorrência da degradação de sua saúde e da conseqüente falta de tempo para amadurecer sua escrita, aceitou resignadamente o trabalho que tinha e, como o albatroz com as asas quebradas, desmoronou-se em desistência para o interior de sua imensa depressão. E ficou com toda a soberba constituição de pássaro majestoso, mas incapaz de disfarçar para si mesmo o pouco tempo que lhe restava, e o quanto isto lhe destruiu a capacidade de ver com abrangência. Não venham me dizer que a proximidade da morte cause essas coisas; quase pela mesma época, Edward Said compunha sua biografia e um volume de ensaios onde se negava a afastar uma revificação solar de todas as idéias humanistas de seus outros livros, ele que também via o fim irrevogável se aproximando.

Bolaño não estava apto a continuar a resistência contra os antigos poderes de dominação vigentes e mais poderosos do que nunca na América Latina: a política patriarcal, a mídia a serviço desses poderosos, a grande alienação e o expansivo silêncio. (Não se mostrou apto a incorporar o intelectual que fala a verdade ao poder, na definição ativista de Said.) Resistência que se fazia com uma militância romântica (hoje tão anacrônica em suas singelas tentativas, que de imediato é taxada de ingênua e demagoga) pelos escritores do assim chamado boom da literatura hispano-americana: Miguel Àngel Astúrias, Juan Rulfo, Mário Vargas Llosa, Rômulo Galegos, Júlio Cortázar, Manuel Scorza, o jovem García Márquez.

Com seu nome valorizado nos mais altos índices de graduação pela crítica estrangeira como representante da atual intelectualidade latino americana, o seu quietismo raivoso, a sua falta de fé, o seu queixume derrotado, alinha-se ao pesado silêncio que mais uma vez assola nosso continente. E Bolaño é tanto mais decepcionante por sua desistência por não se poder dizer que os escritores atuantes em outras regiões do planeta perfaçam a mesma entrega de pontos e pacificação resignada; é só ver Ismail Kadaré, Amós Óz, Ohran Pamuk, Mia Couto, entre outros. J. M. Coetzee, por exemplo, continua insurgindo com uma revisão desafiadora contra o instituído ponto comum e politicamente correto em que coube calar a questão da guetização do negro e da miséria ainda reinante sob a edulcorada versão oficial de uma África redimida e liberta pós Nelson Mandela (como no magnífico romance-palestra “Margareth Costello”).

A crítica que cabe a Bolaño é a mesma que em outra época e sob óticas diferentes, D. H. Lawrence fez a Joseph Conrad, não perdoando por este ser um escritor tão inexoravelmente triste. Com todo esse potencial para o fantástico, e cedendo na primeira investida às formas aterrorizantes da falta de perspectivas do mundo real, era o que estava dizendo Lawrence, lamentando que a música bombástica da prosa exuberante de Conrad o engolisse antes que o arrebatasse para fora da cadeira. O que pode alimentar a interpretação de que os trópicos seja um cinturão global cujos atributos coincidentes são o desespero, a apequenização e o silêncio.

Bolaño, com seu estilo que parece ser independente de qualquer influência, sua profusão de histórias, seu talento em revirar a trama inúmeras vezes, seu humor surpreendente, suas frases que aparecem aqui e ali no relevo do coloquialismo como sentenças borgeanas, o que vemos é seu receio em mitificar, em ir além. Suas narrativas são todas sobre exilados que, mesmo professando a mais difícil e anti-moderna das artes — a poesia — , ainda assim são imediatamente descartados como poetas medíocres, mais uns versejadores outsiders que vão se silenciando e rendendo ao suicídio, à doença ou aos aspectos comezinhos da vida cotidiana. Em determinado momento de “Estrela Distante”, o narrador declara que o Chile ainda não está pronto para a poesia.

Os intelectuais que erram pelas páginas de seus livros não estão motivados a transformarem céu e terra, a bradarem seu canto selvagem sobre os telhados do mundo — mesmo que sempre quebrando a cara no final — , como os personagens de Saul Bellow; também não visam o sublime, como os desesperados que se apartam da mesquinharia mundana para seus territórios artísticos pessoais, como o dos livros de Thomas Bernhard. Seus personagens não tem o firme estoicismo intelectual dos de Philip Roth; ou o prosaísmo quixotesco dos de García Márquez; ou o provincianismo que conlui o submundo bairrista da infância com a experiência do militarismo regimentar dos livros de Vargas Llosa. Os seres de Bolaño não se encaixam nem ao mais niilista dos existencialismos; vivem apenas uma pobre e levianamente documentada aventura de passantes. Não existem dois personagens mais anêmicos e inexpressivos que Arturo Belano e Ulisses Lima.

Eu não perdoo que Bolaño seja tão triste. Quem lê “Putas Assassinas”, sai com a certeza de uns três ou quatro contos realmente muito bons, mas com uma sombra na alma que leva dias para desaparecer. Poderão me dizer que mexer com um material tão emocionalmente radioativo como a literatura é tarefa para quem tenha estoicismo suficiente para suportar doses cavalares de desencanto. Mas eu saio revitalizado depois de ler Bernhard, Beckett e Céline (para citar três escritores do desencanto). Ler “Extinção”, “Origem” e “Viagem ao Fim da Noite”, é percorrer uma indignação festiva, uma repugnância que recorda sempre a força de contestação juvenil, a desconstrução de toda certeza e gratidão imposta pela farsa da sociedade equânime; é literatura adrenérgica e viril, que, dependendo da época, deve ser naturalmente reprimida pelo sistema que estiver vigorando.

Já o Chile, Pinochet, as andanças sem rumo pelo México e pela Europa — até as cenas espetaculares numa guerrilha africana que aparece em “Detetives Selvagens” — , são incapazes de romper o isolamento de Bolaño; essa violência mundana não consegue suscitar nele nada mais que o aproveitamento, sob a devida distância, de matéria para sua prosa documental. Um conto de três páginas de Cortazar, “Grafite”, faz mais pela indignação, a denúncia e reação, do que “Amuleto” e aquelas últimas páginas de “Detetives Selvagens”. “Estrela Distante” vai mostrar mais uma vez isso, com um número inédito de aberrações e corpos mutilados, de que Bolaño renunciara à política, à filosofia e à poesia, e o resultado é um livro competentemente limpo de qualquer transcendência em qualquer sentido. O único símbolo sutil perceptivo é deixado à deriva, como se Bolaño, com seu cigarrinho entre os dedos, mandasse às favas o trabalho que daria dar escopo ao inteligente esquema do personagem central ser uma serial killer. Como em Detetives, em que ele não consegue mitificar a procura por 600 páginas pela Cesária Tinajero, ele também não passa ao leitor aquela indagação após fechar o livro de “o que diabos ele quis dizer com aquilo?” O poeta fascista assassino Carlos Wieder representa o que? Bolaño não constrói vínculos inteligíveis em que se possa dizer: “Ah! É a desumanização que a rendição à ditadura causa!”, ou “Ah! Cesária Tinajero é o símbolo da liberdade perdida!” A prosa de Bolaño é indevidamente rarefeita numa época em que a literatura precisa de mais para prosseguir.

Mas vale lê-lo? Vale! Cada centavo empregado! Não sei se Bolaño é um grande escritor. Estou propenso a pensar o contrário, o que seria uma contribuição à mesma mitificação que favorece ao setor das compras antes do deleite da leitura. Um dos melhores livros que li foi escrito por um autor menor, “Pergunte ao Pó”, do John Fante, e pouca coisa há de mais singela que Arturo Bandini (que coincidência!) atirando seu livro publicado em direção às areias do deserto da Califórnia. Não estou dizendo que Bolaño seja medíocre. Mas contra a comercialização desarroada de sua imagem (que só imponho reação quanto às possibilidades críticas, e não contra o quanto se consiga vender de seus livros — é um aspecto de raríssimo otimismo ver Bolaño ocupar algumas listas de mais vendidos), eu creio que o Bolaño verdadeiro é aquele da foto e m que aparece sentado atrás de uma mesa atulhada de papéis, com o olhar perdido para dentro de si mesmo, frágil, solitário, equilibrado com seu cigarrinho eterno na fina linha de sua vida, com a cabeça cheia da música mais angustiante.

Grafite de Roberto Bolaño numa rua de Buenos Aires

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Diagnóstico de Alma Welt

Engraçado, meus sete leitores gostam mesmo de um mistério. Telefonemas, e-mails, comentários até hoje, réplicas… Tudo para descobrir a identidade de Alma Welt. E em verdade vos digo: Alma Welt existiu, assim como existem Lúcia Welt e o pesquisador Jungmar Jensen.

Anton Tchékhov existiu também. E quem duvida da realidade de Gurov e de sua dama do cachorrinho Ana Serguêievna? Thomas Mann esteve entre nós, mas confesso que Adrian Leverkühn me é muito mais consistente e presente, até por ter feito um pacto com o Demônio. O Demônio também existe e não serei eu a duvidar de Fausto. Aquele foi criado pela religião, este por uma lenda popular, o que é a mesma coisa. E o que dizer de Deus, tão presente em nossas vidas?

Um de nossos leitores foi bastante fundo, pois trabalhou como inspetor de polícia na cidade onde Alma Welt escreveu grande parte de sua obra e suicidou-se. Por vício de profissão e equipado de boas práticas e autoironia, encafifou com o caso: imaginem que ele pesquisou sobre todas as mortes e suicídios recentes de Rosário do Sul. Mais: entrou em contato com a Associação dos Poetas Rosarienses. Um de seus membros declarou estar “consternado por desconhecer a pessoa e a obra de Alma Welt e mais ainda por ela nunca ter feito parte dos quadros da instituição”. Desta e de muitas outras formas, meu leitor garante que nada daquilo ocorreu, nem a morte daquele pobre e torturado padre citado na fortuna crítica e biográfica da grande Alma. Sua única preocupação é um elegante deboche: ele gostaria de saber se dialoga com um homem ou com uma mulher. Por quê? Ora, é que estava despedindo-se de Lúcia Welt com beijos e se esta fosse um homem tal atitude poderia, em suas palavras, “arruinar minha reputação”.

Pois eu me contraponho e ataco a Jorge Lima perguntando-lhe se foram documentados os terríveis crimes ocorridos nas cidades gaúchas de Boa Ventura e Santa Fé. Por exemplo, o jornalista e advogado Dr. Alcides Viana foi morto numa madrugada por um certo Fagundes ao sair da casa de sua noiva. Onde soube disso? Ah, foi no romance Porteira Fechada, de Cyro Martins, mas e daí? Alcides não representa a imprensa idealista com colhões? E toda aquela mortantade que houve por dois séculos em Santa Fé? Ou alguém aí vai dizer que nosso escritor maior mentiu e que, por exemplo, Ana Terra e Rodrigo Cambará jamais existiram? ERA SÓ O QUE FALTAVA PARA ACABAR DE VEZ COM NOSSO ESTADO!!! Não basta a Yeda?

Então, mesmo que o número IP de Jungmar Jensen e Lúcia Welt fossem iguais em alguns momentos — apesar do cuidado que deus tinha de usar IPs variáveis — , a gente deve contribuir para que a existência e a essência da Alma Welt se espraie pelo pampa como a de Erico e de Cyro.

E digo mais, tive um caso com Lúcia Welt, sua irmã. Vi in loquo as extraordinárias pinturas de Guilherme de Faria tendo Alma Welt como modelo. Pratiquei maravilhosos intercursos em salas com paredes lotadas de Almas que nos observavam, arfantes e apaixonados. Amei Lúcia Welt sabendo que nela encontraria algo dos restos de sua irmã. E, contrariamente a nosso inspetor, encontrei não apenas a mesma carne e o mesmo sangue, como os inestimáveis papéis amarelados de Alma, todos rabiscados de sonetos.

O Pranto de Alma Welt, de Guilherme de Faria

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Lúcia Welt, a irmã de Alma, responde

Nosso blog tem a honra de abrir espaço para para a irmã de Alma Welt, Lúcia Welt. Dentro da maior civilidade, ela veio não apenas prestar esclarecimentos sobre a existência de sua irmã. como explicar as lamentáveis circunstâncias de sua morte. Ontem, houve fortes questionamentos a este respeito por parte de nosso leitor Jorge Lima, inspetor real de polícia ora envolvido informalmente num caso a meu ver ficcional, assim como, em tom irônico e compreensivo, de Luís A. Farinatti, professor do Departamento de História da UFSM, especialista em história agrária, da família e social do Brasil Império.

Prezado Milton Ribeiro

Eu sou Lucia, irmã da saudosa Alma, Poetisa maior do Pampa, e gostaria de esclarecer algumas coisas sobre o “mistério Alma Welt”, já que é o que está se tornando a sua trágica e prematura morte, aos 35 anos , no auge de seu talento e beleza.

1°- Meus avós, Joachim e Frida Welt, agricultores alemães imigrados dos Sudetos da Tchecoslováquia antes da segunda grande guerra, depois de décadas na região de Blumenau SC compraram uma estância pampiana no extremo sul do país e foram pioneiros na plantação de um vinhedo no Pampa, de que agora há muitos outros exemplos.

2°- Por razões que por enquanto não devo esclarecer, a cidade do Rosário do Sul foi usada apenas como uma referência deliberadamente falsa, pois eu não quis que identificassem a verdadeira cidade mais próxima da região de nossa estância. Assim também o citado delegado Benotti é um nome falso (por razões de segurança) de uma pessoa real, de outra cidade.

3°- Um comentador referiu-se ao nosso poço da cascata (onde Alma se afogou) como uma “cachoeira”. Nem Alma nem eu nunca nos referimos a essa cascatinha como “cachoeira”. E ela em si, não é “perigosa”. Há um riacho aqui na nossa estância que depois de uma pequenina cascata de três lances forma um “poço” (laguinho) mais fundo onde Alma se afogou colocando um laço em seu pecoço e a ponta da corda de 150cm a uma pedra de mais ou menos 40cm de diâmetro que a arrastou para o fundo quando ela a deixou cair do alto de uma pedra mais alta da margem que fica perto do centro do “poço” .

4°- Devo protestar quanto à tua afirmação de que as obras da Alma não chegam a ser obras-primas. É claro que nem tudo é e nem poderia ser, mas se mergulhares nesse mundo de textos, verás que há muitas, sim, muitas obra-primas. E o conjunto forma um todo monumental, conquanto sejam obras de caráter intimista (contradição em termos, eu sei) e confessional. Mas o encanto da obra da Alma é justamente que ela consegue transcender o mero personalismo e, mormente os sonetos, permite uma leitura no plano simbólico universal. Ela seria o que Keats chamava de “egotista sublime” (ele se referia ao seu contemporâneo Wordsworth) um tipo de poeta de que temos inúmeros exemplos, sendo o maior o grande Walt Whitman, embora também Florbela Espanca.

5°- O famoso artista plástico e tambem escritor e poeta cordelista Guilherme de Faria (66), descobriu a Alma e sua obra literária em 2001, em seu ateliê de pintora na região dos Jardins, onde ela morou e trabalhou entre 1999 e 2005. Ela chamava esse período de seu “auto -exílio paulistano” motivado pela dor da morte do nosso Vati (papai), que era um médico que não se dedicou à medicina, e era um pianista clássico amador de grande talento e hablidade, mas que só tocava para a família. Quanto ao mestre Guilherme, não fez somente gravuras, mas muitos retratos dela em pintura a óleo sobre tela (vide seu blog), bem como magníficos desenhos a pincel e nanquim que captam de maneira magnífica o belíssimo perfil de minha irmã, e outros, o seu corpo inteiro, quase sempre nu. Até hoje ele está na sua “fase Alma Welt”, pois ele a amou e a considera a sua “última e definitiva Musa” (como ele diz).

Se precisarem de mais esclarecimentos, estarei à disposição com prazer, aqui, se me permites, ou no meu blog. Digo isso porque vejo que trataram Alma com respeito, principalmente por sua obra, que realmente está acima de dúvidas e controvérsias. Estou grata.

Abraços a ti e aos que amam ou respeitam a Alma.

Lucia W

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Quem acredita em Alma Welt (1972-2007)?

Já aprendi — com Lacan, veja só! — que o significado do que se diz é dado por quem escuta e não por quem fala. Freud, muito antes, já descobrira que a chave da interpretação está com o analisando, não com o analista. Este, quando não atrapalha, oferece a escuta e… aí o analisando diz e exclama: — “Eu sabia!”. Assim vivemos: num mundo imaginário onde até mesmo a imagem de si mesmo é constructo imaginário! Por isso acredito piamente em TUDO que você escreve – o que é a mesma coisa que dizer: “não acredito em NADA disso”.

Comentário do Dr. Cláudio Costa ao post A Autocensura, de meu blog anterior (fora do ar)

Alma Welt foi uma grande escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo (RS) em 8 de janeiro de 1972. Belíssima, prolífica e talentosa, suicidou-se em 20 de janeiro de 2007 na fazenda onde vivia no interior gaúcho — mais exatamente na Estância Sta. Gertrudes, em Rosário do Sul. Ela não se deixava fotografar e dela só há gravuras, todas feitas por Guilherme de Faria.

Até hoje, seus dois biógrafos, a irmã Lúcia Welt e Guilherme, publicam na internet textos inéditos da imensa obra de Alma. Seu único livro publicado foi Contos da Alma (Editora Palavras e Gestos, 2004), o qual foi saudado por José Mindlin como uma obra admirável. O célebre bibliófilo procurou Alma sem sucesso. Eu não fiz uma contagem dos sonetos (fala-se em 700), contos, romances e textos vários de Alma Welt que encontrei na rede, mas posso dizer que não é pouca coisa. Mais: não é pouca coisa e há coisas de muito boa qualidade, como vários dos Sonetos Pampianos e dos Metafísicos. Alma Welt foi uma espécie de estrela do site Recanto das Letras até ser expulsa postumamente, fato tão inédito quanto sua imensa obra. O motivo teriam sido as circunstâncias de sua morte, “demasiado romanesca”. Estranhamente, o site abriga milhares de escritores com os nomes e codinomes mais esquisitos, como Miss Pain, flash e Menina Sol, mas não pode abrigar a obra da cultíssima Alma nem ter seu protetor Guilherme (de) Faria entre seus membros.

Não, não há indícios de plágio ou outro crime de qualquer natureza. O material é todo original, o único senão é a profunda desconfiança de que Alma Welt jamais tenha existido. Só que Alma Welt, ficcional ou não, existiu e existe. Tem obra própria, biografia e seus textos seguem aparecendo aqui e ali.

Minha amiga Vera Medeiros é professora da Unipampa em Bagé (RS). Ela existe, tanto que escorregou ontem em seu banheiro bageense, tendo realizado um spaccata involuntário (ou espacato ou espacate, como queiram), peripécia de que não se orgulha, mas da qual é lembrada sempre que tenta caminhar…. Mas tergiverso… Graduada em Letras pela UFRGS, é mestre e doutora em Literatura Brasileira. Em seu mestrado e doutorado, dedicou-se ao estudo da obra da escritora Clarice Lispector que, supomos, tenha efetivamente existido. Um de seus alunos fez um trabalho sobre Alma Welt. Vera, que escorrega mas não é exatamente uma desequilibrada, ficou desconfiada. Welt, Alma Welt? Welt significa “mundo” em alemão e Alma é um nome de mulher. E é alma. Vera me disse: “Não, ela não existiu; mas a obra dela, provavelmente escrita por Guilherme de Faria, está aí e há coisas interessantes. Vou te mostrar.” E mostrou.

Vida e Obra de Alma Welt

Sonetos Metafísicos de Alma Welt

Sonetos de Mistérios da Alma (de Alma Welt )

Contos da Alma (de Alma Welt)

Romances de Alma Welt

O espaço da irmã da Alma

Guilherme de Faria

O Caso Alma Welt

E eu, com um sorriso irônico, pergunto àqueles que dentre meus sete leitores clicaram nos links acima: você acredita em Alma Welt?

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Lançamento: Fora do Lugar, de Rodrigo Rosp

Estarei lá, bem cedinho. É mais um Não-lançamento.

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Belíssima ideia, belíssimo blog

Aqui, O Silêncio dos Livros.

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Ingo Schulze

Ingo Schulze é quase desconhecido no Brasil. Tem 47 anos e sabe que já escreveu o grande romance de sua vida, Vidas Novas. O livro terá lançamento no próximo dia 30 pela Cosac & Naify. Ontem, assisti à palestra do Marcelo Backes, tradutor e coautor da edição brasileira, a respeito de Schulze e do livro.

Tenho de explicar o fato do autor ter escrito seu mais importante romance ainda jovem. Ocorre que Vidas Novas deriva de sua experiência pessoal, um ex-alemão oriental tragado pelo estilo de vida ocidental aos 30 anos. Schulze talvez tenha razão ao pensar que se trata da maior experiência e tema de sua vida. Como experiência é certamente irrepetível, como tema… Bem, Schulze estará na Amazônia nos próximos dias, realizando pesquisas para seu próximo livro, o que certamente indica uma não aceitação da confortável posição de autor-do-melhor-livro-sobre-a-reunificação.

É notável como a Alemanha divulga com orgulho seus autores. Na falta de Schulze — que estará presente no lançamento em São Paulo e Rio — , o Instituto Goethe convidou seu tradutor para falar e responder perguntas por duas horas. Vidas Novas retoma o pacto fáustico num tom de ironia e diálogo com o leitor. O autor constante na capa é Ingo Schulze, claro. Afinal, foi ele quem escreveu o livro! Porém, na primeira página, ele reaparece como personegem, na pele do organizador dos papéis e cartas de um certo Enrico Türmer, escritor e redator de jornal, que passa a atuar como empresário na nova Alemanha. Seu Diabo é um homem de negócios que se apresenta a ele de gravata e simplesmente aperta sua mão. Não li o livro e posso estar dizendo coisas nem tão verdadeiras assim, mas uma das muitas curiosidades do livro é que o organizador Ingo Schulze mostra-se muitas vezes hostil, combatendo e denunciando Türmer. E, para que o diálogo se amplificasse ainda mais, Schulze pediu ao tradutor e escritor Marcelo Backes que escrevesse livremente suas próprias notas de rodapé, com liberdade para duvidar, desacreditar, ironizar e debochar da dupla de personagens-narradores. Ou seja, Schulze pediu a seu tradutor que fosse também um personagem. Detalhe: Schulze, que conhece Marcelo pessoalmente, não sabe português, e não pediu ao tradutor que mostrasse ou explicasse suas intervenções, deixou-o livre para fazer o que bem entendesse.

Backes relatou em sua palestra que escreveu 3% do que gostaria. Obviamente, mesmo que o autor o instigasse a participar de um jogo literário entre ficção e realidade, ele não se sentia bem em “participar tanto” de uma obra que é considerada um dos três maiores romances europeus da década. Além disso, há a próprio DNA do Backes tradutor, o DNA de alguém que não deve aparecer muito nem encher o saco do leitor com notinhas…, fato que muitos críticos apressados confundirão com pura loucura de um tradutor descontrolado.

Após a palestra, caminhei longamente com Backes e uma de suas irmãs até um bar. Nossos assuntos já eram outros, Ingo Schulze só reapareceu quando Marcelo falou das vacinas que tomou para acompanhar o alemão na Amazônia. Afinal, colorados que somos, estávamos preocupados com o fim-de-semana futebolístico, comentávamos as mulheres que passavam, as do bar, coisas assim.

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Banal, piegas, fake. Paul Auster?!

Marcos Nunes me envia por e-mail uma boa polêmica: uma avaliação sobre a literatura de Paul Auster escrita pelo importante crítico James Wood. Lembro de ter achado — durante a leitura da Trilogia de Nova Iorque e de A Noite do Oráculo — que Auster era uma espécie de Woody Allen: novaiorquino, excelente narrador, cria conflitos interessantes, humanos, mas onde o conteúdo dramático costuma ser sacrificado em nome de uma elegância blasé muito sedutora e hábil para contornar os conflitos criados através de uma pieguice muito bem escondida sob engenhosos artifícios. Ou seja, minha impressão foi a de que estava lendo romances convencionais, sob um filtro agradável. James Wood, porém, é muito mais agressivo. O Charlles Campos é que vai adorar esta polêmica, suponho.

Está na “New Yorker” a leitura-obrigatória/mote-para-discussão-cabeça-em-mesa-de-bar do mundo literário desta semana. Num artigo intitulado “Covas rasas”, o crítico James Wood arregaça as mangas e vai com tudo para cima dos livros de Paul Auster. É provavelmente o mais negativo texto de crítica já dirigido à ficção de Auster na grande imprensa americana, e vai escrito pelo mais influente crítico do mundo anglófono hoje. Por certo que nos próximos dias vai repercutir por toda parte.

Resumindo bastante, o argumento fundamental de Wood é que Auster é um pós-modernista de almanaque, um diluidor que incorpora de modo ornamental e chamativo (“Atenção, eu sou pós-moderno!”) elementos como a narração autorreflexiva, o ceticismo e o pastiche a histórias que no fundo exprimem uma visão de mundo convencional, impregnada de clichê e sentimentalismo.

O livro mais recente de Auster, “Invisible”, acaba de ser lançado nos EUA, e o texto de Wood deve dar um travo amargo à recepção usualmente exclamatória que os críticos reservam ao escritor. Abaixo, os melhores momentos com o cerne dos argumentos de Wood.

Paul Auster é provavelmente o mais conhecido romancista pós-moderno dos Estados Unidos; sua “Trilogia de Nova York” deve ter sido lida por milhares que geralmente não leem ficção de vanguarda. Auster claramente compartilha [com autores modernos e pós-modernos] um compromisso com a mediação e o tomar emprestado – daí seus enredos com jeito de cinema e diálogos de segunda linha – e no entanto ele não faz nada com o clichê a não ser usá-lo.

Isso é surpreendente, a princípio, mas afinal Auster é um tipo peculiar de pós-modernista. Ou será que ele é mesmo um pós-modernista? Oitenta porcento de um típico romance de Auster procedem de modo indistinguível do realismo americano; os 20% restantes fazem uma espécie de cirurgia pós-modernista nos 80%, com frequência jogando dúvida sobre a veracidade do enredo.

(…) O que é problemático nesses livros não é seu ceticismo pós-moderno a respeito da estabilidade da narrativa, algo padrão, mas a gravidade e a lógica emocional que Auster tenta extrair do lado “realista” de suas histórias. Auster é sempre mais solene naqueles momentos de seus livros que são os menos plausíveis e os mais insípidos.

O resultado é que ele com frequência consegue o pior de ambos os mundos: realismo fake e ceticismo superficial. As duas fraquezas estão relacionadas. Auster é um contador de histórias envolvente, mas suas histórias são asserções em vez de persuasões. Elas se declaram; elas perseguem a próxima revelação. Como nada é construído de modo persuasivo, a desconstrução pós-moderna deixa o leitor em boa parte intocado.

(…) As formulações clássicas do pós-modernismo, por filósofos como Maurice Blanchot e Ihab Hassan, enfatizam o modo como a linguagem contemporânea toca o silêncio. Para Blanchot, como para Beckett, a linguagem está sempre anunciando sua invalidade. Os textos gaguejam e se fragmentam, se despedaçam em torno de um vazio. Talvez o mais estranho na reputação de Auster como um pós-modernista é que sua linguagem nunca registre esse tipo de ausência no nível da frase. O vazio é sempre muito dizível na obra de Auster. Agradáveis, algo complacentes, os livros são lançados quase todo ano, tão arrumadinhos e pontuais como selos de correio, e os resenhistas laudatórios entram na fila como colecionadores ansiosos para pegar o número mais recente.

Retirado daqui.

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Istambul, de Orhan Pamuk, e maisquememória, de Marcelo Backes

Lidos casualmente um após o outro, os livros de Pamuk (Istambul, Cia. das Letras, 399 págs.) e de Backes (maisquememória, Record, 399 págs.) podem parecer obras pertencentes a um gênero muito específico, o do memorialismo precoce e turístico, mas tal redução é injusta e, mesmo sendo tão diferentes, elas têm outras semelhanças além do número de páginas.

Conheci Pamuk numa Flip. Na verdade, fiquei (ficamos) abolhados com a metralhadora que é o homem. O tema de sua palestra era muito sedutor: “A influência de Borges sobre As Mil e uma Noites“. Sim, porque a admiração dos eruditos ocidentais, capitaneados argentino quando ainda não enxergava muito bem, causou tal furor nas pesquisas sobre o que havia de autêntico e o que tinha sido abusivamente alterado na obra, que, hoje, As Mil e uma Noites têm pouco a ver com a do começo do século XX. O tema era interessantíssimo, mas era o último da programação daquela dia na Flip e minha mulher desistiu no meio da fala daquele homem maluco que fazia tantas perguntas quanto respondia ao entrevistador. Mais: avisava que tinha pouco tempo e MUITO a contar. Falava com uma rapidez que deixava o tradutor audivelmente nervoso… OK, ela desistiu, mas eu fiquei ali ouvindo aquele homem estava em Parati mas que falava — palavras dele — desde a ponte de Istambul que liga a Europa à Ásia, voltando-se ora para um lado, ora para outro. Ao final daquele mesmo ano, aquele desconhecido turco maluco e inteligente receberia o Nobel.

Conheci Marcelo Backes num churrasco e não me arrependo até hoje. Ele devia ter uns 25 ou 26 anos, mas parecia ter lido 100 anos. Logo vi que era bom tê-lo por perto, pois Marcelo não apenas sabia muito como não se incomodava em ensinar. Desde lá, passaram-se mais de dez anos. Marcelo foi para a Alemanha finalizar mestrado e doutorado, publicou vários livros e traduziu mais de uma dezena, tendo percorrido desde Marx até Stanišić, passando por Kafka, Arthur Schnitzler e outros. De sua autoria, li A Arte do Combate, obra sobre a literatura alemã e seu caráter combativo em comparação com o habitual compadrio brasileiro; o sarcástico e aforístico Estilhaços (onde sou citado…) e agora este maisquememória. Hoje, Marcelo Backes mora no Rio. Falamos pouco, infelizmente.

Mas vamos antes às coincidências:

1. São ambos livros em grande parte de memórias, embora Backes chame, com razão, maisquememória de “romance”.
2. São ambos livros que falam muito eruditamente sobre história e artes em geral.
3. São ambos livros apaixonados, onde as cidades e a geografia participam na condição de personagens. Istambul parece levar a vida de Pamuk como a música de Bach leva adiante o texto de suas árias e Backes corre de cidade em cidade como se fosse um Lazarillo de Tormes moderno, mas a intenção não é só a de fazer graça e sim a de entabular diálogos — visuais, verbais e físicos — com a cultura local.
4. Istambul caracteriza-se pela melancolia (hüzun) e sabemos que Pamuk, de forma inacreditável e certamente sofrida, acabou separando-se da cidade que tanto ama e conhece, por fazer denúncias sobre o extermínio de armênios, enquanto maisquememória nos dá um itinerário muito sutil de como são emitidos e/ou ignorados os sinais que levam um casal à separação. Nos dois casos, ambos — e o “ambos” aqui é reforço de expressão — sabiam das conseqüências. Mas foram tragicamente em sua direção, como se outra coisa não fosse possível.
5. A pintura de Pamuk — pois o escritor é um ex-futuro pintor — é o fio condutor de grande parte do livro. Ela carrega todas as motivações, inclusive as sexuais, do autor. E Backes faz das obras de Oskar Kokoschka e de seu amor por Alma Mahler — desfeito por esta — um abrasador comentário paralelo, nem um pouco isento de sexo, sobre ocaso do casamento de seu personagem, matéria em pequena parte real e em grande parte ficcional.

Istambul é um livro para ser lido e admirado. Ganhar o livro de minha filha Bárbara como presente duplo de Dias dos Pais e aniversário, foi muito bom: ela não apenas escolheu o livro sozinha como comprou-o como sua própria mesada. Acertou em cheio. Fiquei folheando o livro (notem o ato falho: eu tinha escrito “filhando o livro”!) como forma de domar a comoção e a coisa só piorava, pois as fotos de Ara Güler que acompanham a obra e que pontuam minuciosamente a narrativa são lindíssimas, dignas de que você entre na livraria só para dar uma olhada, como numa pinacoteca. Mas faça isso no Brasil, pois o trabalho da Cia. das Letras é infinitamente melhor do que os da edição espanhola, argentina e mexicana.

À parte o turismo, maisquememória trata de uma separação que vai sendo lentamente anunciada durante a leitura. Aliás, há dois fatos que vão se aprofundando durante a leitura. (1) A dissociação entre o personagem principal e seu “cavalo” acentua-se até que o cavalo acaba por revoltar-se contra o primeiro eu de Marcelo Backes (ou de seu personagem Marcelo Backes) com seu enorme ego e (2) os melancólicos intermezzi — que chegam ao leitor em belo ostinato — não servem apenas para mostrar como Kokoschka é interessante, mas vão adquirindo significado antes do anúncio da separação. São extratos do profundo e inaceitado abandono que obcecou Kokoschka por anos. Então, o “eu narrador”, enquanto fala do mundo lá fora, caminha – repito – tragicamente na direção daquilo que é o que efetiva e talvez inconscientemente deseja e do qual só desconhece o amargor, ou seja, o cerne. É estranho que alguns leitores revoltaram-se contra o memorialista, ignorando a palavra “Romance” que há na capa. Tudo o que é contado em primeira pessoa são verdades… ficcionais…

Istambul, a ex-capital do ex-Império Bizantino, ex-capital do ex-Império Turco-Otomano tornou-se, no século XX, uma cidade que oscilava entre o riqueza e a pobreza, entre a ocidentalização chique e o orientalismo démodé. Filho de uma família rica, cujos pais estavam sempre às turras pelas constantes traições dele – fato notável, pois a mãe de Pamuk era belíssima, uma das mulheres mais belas da alta sociedade de Istambul, como podemos comprovar nas fotos do livro, prova de a vida é mesmo estranha … -, Pamuk constrói uma tranqüila e bela narrativa sobre o mundo infantil dentro da cidade que tenta ocidentalizar-se até mesmo através de incêndios. As descrições do Bósforo, acompanhadas pelas imagens de Güler, tornam a obra a mais bela homenagem que conheço a uma cidade. Falei com vários amigos que conhecem Istambul e eles não reconhecem a tal melancolia de seus habitantes, tão explorada por Pamuk, prova de que não somente a vida é estranha, mas o turismo também, pois o texto de Istambul combina tão bem com as fotos apresentadas que Pamuk nos convence de forma inequívoca.

maisquememória é um livro que cresce muito em sentido durante sua leitura. Se de início ficamos de nariz torcido para o narrador arrogante que nos enche – e como! – de informações muito interessantes e úteis acerca de suas viagens, se o autor adentra de forma oblíqua os mais variados assuntos e come as mais variadas mulheres das mais variadas etnias e línguas, ele nos causa estranheza pela intervenção de um cavalo de bom senso (o cavalo é um outro eu de Marcelo, bem mais razoável) e pelo coral grego representado pela narrativa, jogada aqui e ali, da separação de Oskar Kokoschka e Alma Mahler. Ao longo do livro, curiosamente, o contraditório que está na cabeça do leitor passa ao livro, que combate as assertivas do primeiro Marcelo através das vozes do segundo Marcelo e da que descreve o amor de Kokoschka. Ao final, as três vozes discutem abertamente, sendo caracterizadas por fontes (refiro-me ao tipo de letra) diferentes. Ou seja, o contraditório, a objeção presente do leitor migra para dentro do livro. Sem dúvida, é original.

O que mais gostei nos livros. Istambul: a esplêndida descrição do primeiro amor e as caminhadas do casal pela cidade, que são arrepiantes; os apontamentos sobre o pitoresco casual da cidade; a história dos escritores que escreveram antes sobre ela, turcos ou ocidentais; sua relação com a mãe e irmão e a prosa de Pamuk com sua perfeita noção de estilo. Ele efetivamente consegue mudar de capítulo para capítulo. Há os líricos, os descritivos, os jocosos; enfim, trata-se de um escritor que aprecia “mostrar” sua habilidade. Ah, e as fotos de Güler, as fotos, as fotos!

maisquememória é estupidamente informativo e tem todo o gênero de comentários divertidos sobre cultura em geral, mas estas opiniões e descrições vão se intrometendo nas “memórias” de forma curiosa, principalmente quando Kokoschka manda fazer uma boneca — fato real — de sua (já não sua) Alma Mahler. Tal procedimento acaba por criar o clima perfeito para a grandiosidade humana que o romance adquire em suas seções finais.

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FHC teria recebido milhões de dólares da CIA

Resenha do jornal Correio do Brasil sobre um livro recém lançado Brasil abre algumas caixas pretas das ligações entre o alto tucanato e a CIA.

LIVRO ACUSA FHC DE RECEBER MILHÕES DE DÓLARES DA CIA

Mal chegou às livrarias e Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura — Frances Stonor Saunders (*), Record, tradução de Vera Ribeiro — já se transformou na gazua que os adversários dos tucanos e neoliberais de todos os matizes mais desejavam. Em mensagens distribuídas neste domingo pela internet, já é possível perceber o ambiente de enfrentamento que precede as eleições deste ano. A obra da pesquisadora inglesa, ao mesmo tempo em que pergunta, responde: Quem “pagava a conta” era a CIA, a mesma fonte que financiou os US$ 145 mil iniciais para a tentativa de dominação cultural e ideológica do Brasil, assim como os milhões de dólares que os procederam, todos entregues pela Fundação Ford a Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do país no período de 1994 a 2002. O comentário sobre o livro consta na coluna do jornalista Sebastião Nery, na edição deste sábado do diário carioca Tribuna da Imprensa: “Não dá para resumir em uma coluna de jornal um livro que é um terremoto. São 550 páginas documentadas, minuciosa e magistralmente escritas”. “Consistente e fascinante” (The Washington Post). “Um livro que é uma martelada, e que estabelece em definitivo a verdade sobre as atividades da CIA” (Spectator). “Uma história crucial sobre as energias comprometedoras e sobre a manipulação de toda uma era muito recente” (The Times).

DINHEIRO DA CIA PARA FHC

“Numa noite de inverno do ano de 1969, nos escritórios da Fundação Ford, no Rio, Fernando Henrique teve uma conversa com Peter Bell, o representante da Fundação Ford no Brasil. Peter Bell se entusiasma e lhe oferece uma ajuda financeira de 145 mil dólares. Nasce o Cebrap”. Esta história, assim aparentemente inocente, era a ponta de um iceberg. Está contada na página 154 do livro “Fernando Henrique Cardoso, o Brasil do possível”, da jornalista francesa Brigitte Hersant Leoni (Editora Nova Fronteira, Rio, 1997, tradução de Dora Rocha). O “inverno do ano de 1969” era fevereiro de 69.

FUNDAÇÃO FORD

Há menos de 60 dias, em 13 de dezembro, a ditadura havia lançado o AI-5 e jogado o País no ponto alto do terrorismo de estado pós-golpe de 64, desde o início financiado, comandado e sustentado pelos Estados Unidos. Centenas de novas cassações e suspensões de direitos políticos estavam sendo assinadas. As prisões, lotadas. Até Juscelino e Lacerda tinham sido presos. E Fernando Henrique recebia da poderosa e notória Fundação Ford, uma primeira parcela de 145 mil dólares para fundar o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). O total do financiamento nunca foi revelado. Na Universidade de São Paulo, sabia-se e se dizia que o compromisso final dos americanos era de 800 mil a um milhão de dólares.

A SERVIÇO DA CIA

Os americanos não estavam jogando dinheiro pela janela. Fernando Henrique já tinha serviços prestados. Eles sabiam em quem estavam aplicando sua grana. Com o economista chileno Faletto, Fernando Henrique havia acabado de lançar o livro “Dependência e desenvolvimento na América Latina”, em que os dois defendiam a tese de que países em desenvolvimento ou mais atrasados poderiam desenvolver-se mantendo-se dependentes de outros países mais ricos. Como os Estados Unidos. Montado na cobertura e no dinheiro dos gringos, Fernando Henrique logo se tornou uma “personalidade internacional” e passou a dar aulas e fazer conferências em universidades norte-americanas e européias. Era “um homem da Fundação Ford”. E o que era a Fundação Ford? Um dos braços da CIA, o serviço secreto dos EUA.

MILHÕES DE DÓLARES

1 – “A Fundação Farfield era uma fundação da CIA… As fundações autênticas, como a Ford, a Rockfeller, a Carnegie, eram consideradas o tipo melhor e mais plausível de disfarce para os financiamentos… permitiu que a CIA financiasse um leque aparentemente ilimitado de programas secretos de ação que afetavam grupos de jovens, sindicatos de trabalhadores, universidades, editoras e outras instituições privadas” (pág. 153).

2 – “O uso de fundações filantrópicas era uma maneira conveniente de transferir grandes somas para projetos da CIA, sem alertar para sua origem. Em meados da década de 50, a intromissão no campo das fundações foi maciça…” (pág. 152). “A CIA e a Fundação Ford, entre outras agências, haviam montado e financiado um aparelho de intelectuais escolhidos por sua postura correta na guerra fria” (pág. 443).

3 – “A liberdade cultural não foi barata. A CIA bombeou dezenas de milhões de dólares… Ela funcionava, na verdade, como o ministério da Cultura dos Estados Unidos… com a organização sistemática de uma rede de grupos ou amigos, que trabalhavam de mãos dadas com a CIA, para proporcionar o financiamento de seus programas secretos” (pág. 147).

4 – “Não conseguíamos gastar tudo. Lembro-me de ter encontrado o tesoureiro. Santo Deus, disse eu, como podemos gastar isso? Não havia limites, ninguém tinha que prestar contas. Era impressionante” (pág. 123).

5 – “Surgiu uma profusão de sucursais, não apenas na Europa (havia escritorios na Alemanha Ocidental, na Grã-Bretanha, na Suécia, na Dinamarca e na Islândia), mas também noutras regiões: no Japão, na Índia, na Argentina, no Chile, na Austrália, no Líbano, no México, no Peru, no Uruguai, na Colômbia, no Paquistão e no Brasil” (pág. 119).

6 – “A ajuda financeira teria de ser complementada por um programa concentrado de guerra cultural, numa das mais ambiciosas operações secretas da guerra fria: conquistar a intelectualidade ocidental para a proposta norte-americana” (pág. 45).

(*) O nome correto da autora é Frances Stonor Saunders e não como está na capa do livro.

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Diferentes formas de sobrevivência

.: 1 :.

O veterano Rubens Barrichello teve um grande 2009. Após quase não arranjar equipe, Rubens acabou o mundial de pilotos em terceiro lugar e em alta. Para completar, saiu da habitual passividade e reagiu ao fato de ser uma piada em todo lugar. Nesta semana, ganhou um processo contra o Google, obrigando a que o gigante retire, principalmente do Orkut, mais de trezentos falsos perfis onde Barrichello era tratado como tartaruga, chofer, etc., além de 90 comunidades ofensivas. O motivo da ação foram as reclamações dos filhos do piloto. O valor da indenização é uma piada para os padrões da Fórmula 1, US$ 500 mil, e a grana vai para instituições de caridade. Barrichello, claro, é multimilionário e só alguns brasileiros o acham incompetente.

.: 2 :.

Enquanto isso, o ex-tenista Andre Agassi escolheu outra forma de sobrevivência: o suícidio póstumo como atleta. Em sua autobiografia Open, o vencedor de oito Grand Slam confessa ter tomado regularmente a droga cristal — também conhecida como MD cristal, crystal meth ou ice. Uma vez ao ser flagrado num antidoping, mentiu, em carta por escrito, que seu auxiliar havia colocado a droga num refrigerante e a ATP acreditou ou não quis levar o caso adiante. O auxiliar que “batizara” o refri foi mandado embora e Agassi seguiu a carreira nas quadras e no cristal. Uma maravilha.

Mas é pior. Depois dessa, a ATP afrouxou o controle sobre o doping. Hoje, os tenistas apenas escrevem onde estiveram e o que tomaram. Uma piada. Rafael Nadal e Marat Safin tiveram reações bastante fortes. Nadal foi sério:

— Não entendo porque disse isso agora, já que está aposentado. É uma forma de prejudicar o esporte sem nenhum sentido. Se nesses momentos a ATP escondeu o assunto (do doping) de Agassi e puniu outros, parece uma falta de respeito com todos os esportistas. Quero acreditar e espero que nada disto esteja acontecendo agora. Acho que temos um esporte limpo e sou o primeiro a desejar isso, mesmo sem estar de acordo com a forma (em que são realizados os exames antidoping). Os trapaceiros devem ser punidos, e se Agassi trapaceou em sua época, deveria ter sido punido — disse.

Agassi disse estar triste e arrependido. Coitado.

O tenista russo Marat Safin, mantendo a habitual irreverência e ironia que me fazem admirá-lo, propôs a solução para o “problema de consciência” de Agassi.

— Ele sente culpa? Então que ele devolva os seus títulos, dinheiro e seus Grand Slams — , afirmou Safin em entrevista ao jornal francês L’Equipe. — Se ele agora é limpo e franco, poderia fazê-lo. Vocês sabe, a ATP tem uma conta bancária e ele pode fazer a restituição, basta querer — completou.

Como Safin é do meu time e não alivia, seguiu mandando bala:

— Eu não vou escrever minha biografia, não preciso de nenhum dinheiro. A questão é: por que ele fez e por que confessou após aposentar-se? — , perguntou. — O que ele quer é vender mais livros, é completamente estúpido — , criticou o russo. Safin encerrou sua carreira esta semana em Paris fazendo uma grande partida contra Juan Martin del Potro. Foi eliminado ao perder por 2 x 1.

Além do russo e do espanhol, poucos se manifestaram. Guga foi cauteloso e político.

— Eu confesso que não sei até que ponto essa notícia pode se tornar algo real — , disse. — O Agassi que conheço é um sujeito competitivo e sincero nas palavras dele. Na realidade, se comprovado, ele deve ter tentado demonstrar no seu livro momentos de sua trajetória em que enfrentou dificuldades.

Mas é ainda pior. Os médicos revelam que, em algumas circunstâncias, o cristal provoca pânico e…

Bem, Agassi afirma em seu livro que perdeu de maneira proposital para Michael Chang na semifinal do Aberto da Austrália em 1996, pois queria fugir de Boris Becker na decisão. Apesar de transparecer sempre sério e objetivo. Agassi agora diz que tinha medo de Jim Courier, Thomas Muster, Yevgeny Kafelnikov, Boris Becker (que chama de “maldito alemão”) e de Pete Sampras. Estranho. Sobre Chang, Agassi tem algumas pérolas bastante interessantes:

— Eu o odiava. Ele dava graças à Deus e atribuía suas vitórias a Deus, isso me irritava muito. Por que Deus se importaria com uma partida de tênis? E por que ele se colocaria contra mim e a favor do Chang? Isso é ridículo. Quando ele venceu Roland Garros em 1989, fiquei com vontade de vomitar. Me perguntei: “Por que logo o Chang? Por quê, entre tantos outros, logo ele foi vencer um Slam antes de mim?”

.: 3 :.

E a Feira do Livro de Porto Alegre? Por que agoniza? Ora, por sua exclusiva culpa. Há anos que este blogueiro de sete leitores diz que a Feira tornou-se uma grande livraria, que não há variedade, que a quantidade de livros iguais — se a gente pede alguma coisa diferente, os livreiros têm de encomendar (?!) — torna a Feira um espetáculo nauseante. Este ano, não comprei nenhum livro lá, até porque sei que dificilmente os livros que procuro estarão lá. Alguém encontrou na Feira o livro o recentíssimo Música Mundana de John Neschling? Alguém viu por lá a trilogia do Gaúcho a Pé de Cyro Martins naquela bela edição comemorativa ao centenário de Cyro Martins lançada no ANO PASSADO? Melhor o site da Cultura ou a Estante Virtual, né? E, de quebra, não se precisa caminhar no meio de corredores cheio de livros de vampiros e autoajuda. De bom, a Feira tem os bares. Lá é onde estão atualmente os leitores.

.: 4 :.

Cada um busca a aposentadoria que pensa merecer. Barrichello aspira a uma dignidade tardia. Agassi faz o exato contrário. Barrichello quer entrar na história de uma forma diferente do que foi sua vida; Agassi quer o desprezo, mas antes venderá livros. A Feira está em fase minguante, mas não sou nada apocalíptico a respeito. Talvez até melhore.

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O Ao Mirante… E, ah, as mulheres… A música…

Hoje acordei pensando no Nelson Moraes — nada a ver com os dois outros itens do post. Pensava no Love and death. Vocês sete leram o conto prematuro? É mais uma obra de arte de nosso blogueiro maior.

Love and death

Era um continho bem, mas bem raquítico, nascido prematuro, sem condições ainda de ser divulgado nem lido. Daí o autor tê-lo colocado na incubadora: todos os dias ele vinha visitar o conto tão mirradinho, de arcabouço frágil, situações incipientes, diálogos padecendo de disritmia e falta de fôlego — tanto que respirava por meio de aparelhos, aqueles tubos e aqueles êmbolos tão grandes e barulhentos para um continho como ele. O autor enfiava a mão na incubadora pela abertura circular e, com a luva de borracha, tocava nos dedinhos do conto, que de tão miudinhos mal conseguiam se fechar na ponta do polegar dele. O autor sussurrava, quase cantando, quase mais pensando do que falando, “Um dia você vai ser incluído na antologia do século e nós vamos rir disso tudo”. E o autor gostava de achar que os dedinhos do continho davam uma apertadinha em seu polegar. Mas lá pelo segundo ou terceiro dia, enquanto pajeava o continho, o autor percebeu as enfermeiras rindo e cochichando, atrás do vidro da sala da incubadora. Então ele, que além de arrebatado era um autor suscetível a certo tipo de crítica, foi ver que tititi era aquele – e uma das enfermeiras não demorou a soltar que corria por aí que aquele continho, sabe, podia não ser dele. Mas — ela emendou — era só boato maldoso, imagina. De gente invejosa. Falou e foi embora. O autor sentiu o chão rodar e faltar ao mesmo tempo, a garganta entalar, e depois de uns cardíacos minutos voltou até a incubadora. Enquanto o sangue lhe voltava devagar ao rosto ele observava o continho mirradinho, de olhinho fechado, dormindo. E esperou, esperou, esperou até ficar tarde, até não ter ninguém por perto – aí foi à máquina de oxigênio da incubadora e nem hesitou para desligar. O barulho parou mas não de repente. O autor apagou a luz da sala, pegou o casaco e só então lembrou que tinha guardado no bolso um pacote. Um pacote contendo uma roupagenzinha para o continho, para ser colocada assim que pudessem ir para casa. Uma roupagenzinha pequenininha, engraçadinha, do tamanhinho exato do conto e que revestiria a criaturinha de um estilo e de um acabamento que fariam as visitas dizer “é a sua cara”. O autor olhou para trás, guardando no labirinto do ouvido o seco e esticado silêncio da máquina de oxigênio, foi até a lata de lixo, jogou o pacote e saiu do hospital. Lá fora a brisa carregada de motes para histórias de amor e morte circulava sem muita pressa, com alguma melodia e um tanto assim úmida.

Obs.: se este não estiver entre Os Macacos do Museu Britânico… Não, nada, só vou ficar surpreso.

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Desejamos as mulheres fisicamente pelo que são: as corcundas pela corcunda, as burguesas pelo perfume, as putas pelo mau gosto (alguns acham bom), as gordas pelas dobrinhas, as magras pelos ossos e saboneteira, as sardentas pelo braile, as bonitas porque são bonitas, as caolhas pelo olho sempre a boiar (ou pelo que agita) e as comuns porque a gente olha, olha, olha e encontra a beleza. Sonhamos invadir suas existências sem maiores delongas e, eventualmente, aspiramos a uma retirada com a mesma velocidade. Em algumas, viciamos; às vezes incorremos no grave erro de casar com elas. Um cantinho confortável, macio e quente em suas companhias é tudo o que desejamos.

Desejamos as mulheres abstratamente pelo que são: as moralistas pela virtude, as militantes pela militância, as alegres pela risada, as tensas pelo nervosismo, as choronas pelas lágrimas, as neuróticas pela loucura, as zangadas para provocá-las (sou bom nisso), as espevitadas por derrubarem tudo, as delicadas pelas promessas, as imprevisíveis pelas surpresas e as inteligentes por evitarem discutir a relação quando estamos cansados. Sonhamos com surpresas e telefonemas em horários estapafúrdios. Algumas pedem-nos explicações sobre conceitos fundamentais, como o futebol. Uma mesa de canto, um Bailey`s pós-prandial e suas vozes é tudo o que desejamos.

Tal como Truffaut, alguns de nós amam as mulheres.

-=-=-=-

Ontem, um dia produtivo (e cansativo) de trabalho; a companhia de dois livros, um de Bolaño, outro de Stanišić; o Concerto Nº 3 para Piano e Orquestra de Béla Bartók nos ouvidos, este computador ligado. Terminado Bartók, para manter o padrão, fiz Bruno Cocset atacar a Suíte nº 6 para cello solo daquele cara. E agora, de manhã, Stravinski. Vida miserável.

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Um certo livro infantil

Em minha curta experiência na Biblioteca do Instituto Santa Luzia, sempre perguntava quais eram os livros mais retirados e amados pelos alunos. O primeiro da lista era uma unanimidade entre as bibliotecárias: o belíssimo A Casa Sonolenta, de Audrey Wood (desenhos de Don Wood). Este livro foi lido e mostrado por mim e por minha ex para meus filhos incontáveis vezes. Trata-se de um dia chuvoso e chato em que todas as pessoas da casa só desejam dormir. Todos, desde a avó, vão se empilhando sobre uma cama periclitante até que uma pulga resolve morder o gato que está no alto da pilha. Este dá um salto e o resultado é mais do que acordar todo mundo. O bom é observar o susto de cada um, todos de pijamas, em trajes mais ou menos íntimos.

O que a criançada mais gosta são dos contos de repetição. Há uma situação — boa ou ruim — que se repete. Tal situação ou está ameaçada ou afirma-se inevitavelmente, sob as circunstâncias mais improváveis. Também contribui para o sucesso o fato de que tais histórias simples permitem certa “atuação” ao adulto que as relata. É divertido. As crianças amam as repetições e pedem para que a gente as conte trocentas vezes. Lembro de muitas outras que obviamemente acabei decorando. Uma das melhores é também do casal Wood: a deliciosa O Rei Bigodeira e sua Banheira. Ambas estavam entre os livros que mais recontava para meus filhos, mas havia um que acabei fazendo sumir lá de casa.

Um belo dia, provavelmente em 25 de setembro de 2001, vi que a Bárbara ganhara (de quem?, não lembro) um livro anormalmente bonito chamado O Homem que amava caixas, de Stephen Michael King. O livro foi dado a ela fora da festa, talvez por um colega de aula, pois lembro que ela chegara inesperadamente com a novidade e, ato contínuo, pediu para que eu lesse a história. Olha, não sei como cheguei ao fim. Não sou de chorar em filmes nem na vida. No final de As Pontes de Madison, por exemplo, olhei divertido o festival de homens e mulheres fungantes de olhos vermelhos, mas o livro que a Bárbara ganhara me fazia desmanchar a ponto de eu acabar por retirá-lo de circulação. Por quê? Ora, um certo pudor me dizia que era melhor não demonstrar uma comoção além da conta. Não faço a mínima ideia de onde o escondi, talvez tenha sumido na casa de minha mãe. Durante o feriado andei por aí atrás dele. Nada.

Fui à Internet e descobri que tem status de clássico. Muitos adultos escreveram a respeito, é a história preferida de vários, seu texto está reproduzido por todo lado e ele é mostrado e contado no YouTube. Acredito que esta história ocupe uma posição diversa do habitual. Pois ela fala demais ao adulto. Tenho certeza de que minha emoção vinha mais da minha relação com meu pai, já morto em 2001, e menos do relacionamento com meus filhos. Ou talvez fosse mais correto dizer que misture tudo.

Então hoje é o dia de submeter meus sete leitores a uma “contação de histórias” (isto se eles conseguiram chegar até este ponto do post). Uma certa Kika gravou um vídeo em que ela mostra o livro e lê O homem que amava caixas. Primeiro vai o vídeo e após o texto. Sim, mesmo que a tia Kika nos conte bem devagarinho e mexa o livro deixando o foco quase maluco, ainda fico comovido… Fazer o quê? Não, não choro mais, só faço ela contar de novo…

O homem que amava caixas

Era uma vez um homem
O homem tinha um filho
O filho amava o homem
e o homem amava caixas.

Caixas grandes
caixas redondas
caixas pequenas
caixas altas
todos os tipos de caixas!

O homem tinha dificuldade em dizer ao filho que o amava;
então, com suas caixas, ele começou a construir coisas para seu filho.
Ele era perito em fazer castelos
e seus aviões sempre voavam…
a não ser, claro, que chovesse.

As caixas apareciam de repente, quando os amigos chegavam, e, nessas caixas, eles brincavam…
e brincavam…
e brincavam.

A maioria das pessoas achava que o homem era muito estranho.
Os velhos apontavam para ele.
As velhas olhavam zangadas para ele.
Seus vizinhos riam dele pelas costas.

Mas nada disso preocupava o homem,
porque ele sabia que tinham encontrado uma maneira especial de compartilharem…
o amor de um pelo outro.

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Dia de provocar (light)

A eleição do Cristo Redentor como uma das sete maravilhas modernas só me afetou ontem, quando meu filho me apresentou a Estátua da Mãe Rússia, erguida em 1967 na cidade de Volgogrado, ex-Stalingrado. (Bernardo costuma viajar pelo mundo com o Google Earth). Logo pensei nas linhas retas e sem graça de nossa falsa maravilha, comparando-as com as de uma estátua muito maior, mais bonita e de significado mais concreto que o das linhas retas e sem graça do sólido “realismo socialista” de nosso Cristo. Do alto do Corcovado, temos uma vista deslumbrante de 360 graus, mas é melhor esquecer aquele cara de braços abertos sobre a Guanabara.

Então, além de ser muito mais bela, heroica e trabalhada, além da vantagem de não ter o significado rarefeito de um monumento religioso, a Mãe Rússia mede 85 metros contra os 30 do Cristo.

Vejam:

Sim, falta o Corcovado, mas sobra estátua. Ela foi construída em homenagem aos mortos da Batalha de Stalingrado.

As formiguinhas na foto acima são pessoas… E mais uma foto, esta tirada do parque que circunda a colina Mamayev, onde está localizada a estátua.

Mother Russia 10 x 0 Cristo Redentor. E não me venham com os 45 metros da Estátua da Liberdade (aquela mulher em posição de árbitro de futebol apresentando um cartão vermelho ao mundo), nem com os 67 metros do obelisco bonairense (um taxista me disse que era uma homenagem aos políticos argentinos — todos os veem, mas ninguém sabe para que servem).

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2666, de Roberto Bolaño (2ª Parte – La parte de Amalfitano)

Benno Von Archimboldi? Esqueçam. Seu nome nem é citado. A segunda é a parte mais curta de 2666 e se a violência e a morte são os panos de fundo do romance, esta é a parte em que a morte domina sozinha. Domina a primeira metade do capítulo, onde o professor de filosofia Amalfitano dedica-se a evocar sua ex-mulher Lola, uma bicho-grilo das mais radicais que o deixa sozinho com a filha Rosa em Barcelona para ir atrás, ir atrás e ir atrás — como tantos personagens de Bolaño — de um poeta, enquanto o melancólico Amalfitano instala-se com a filha na cidade de Santa Teresa, na fronteira do México com os EUA. E domina também a segunda metade, em que ficamos incomodados pelos sintomas de uma loucura que começa a insinuar-se em Amalfitano, o qual ouve vozes, comete pequenas esquisitices, preocupa-se com a segurança de Rosa numa cidade de repetidos assassinatos e sonha, sonha muito.

O personagem Oscar Amalfitano tem na decadência física sua dimensão trágica. A descrição que Bolaño realiza ao descrever rapidamente suas aulas e seus diálogos com a “voz” é comovente. Também o aparecimento de um livro do qual absolutamente não lembrava — O Testamento Geometrico, do galego Rafael Dieste — e seu entorno são narrados de forma inalcançável por autores menos capazes, a grande maioria. Inspirado por Marcel Duchamp, Amalfitano pendura o livro no varal de sua casa, de forma que este possa aprender sobre a vida cotidiana de Santa Teresa e proteger sua filha, tudo isso dentro de uma série de livres associações que funcionam espetacularmente neste capítulo que é finalizado por mais um sonho. Aposto que a história de Amalfitano e de seu destino serão deixados assim mesmo, no máximo ele reaparecerá como personagem secundária. Afinal, estamos lendo Bolaño e cabe a nós dar continuidade ou nexo à superfetação de ficções.

E aqui está o final de A parte de Amalfitano (trad. portuguesa de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, copiada daqui e “tropicalizada” (ho, ho, ho) por este abusivo resenhista:

… Amalfitano sonhou que via aparecer num pátio de mármore cor-de-rosa o último filósofo comunista do século XX. Falava em russo. Ou melhor dizendo: cantava uma canção em russo enquanto o seu corpanzil se deslocava, fazendo esses, até um conjunto de majólicas (azulejos pintados) listadas de vermelho intenso que sobressaía no plano regular do pátio como uma espécie de cratera ou latrina. (…) Quando o último filósofo do comunismo estava finalmente chegando à cratera ou à latrina, Amalfitano descobria estupefato que se tratava nem mais nem menos de Boris Yeltsin. É este o último filósofo do comunismo? Em que espécie de louco me estou a transformar se sou capaz de sonhar tais disparates? O sonho, contudo, estava em paz com o espírito de Amalfitano. Não era um pesadelo. Além disso, proporcionava-lhe uma espécie de bem-estar leve como uma pluma. Então Boris Yeltsin olhava para Amalfitano com curiosidade, como se fosse Amalfitano a irromper no seu sonho e não ele no sonho de Amalfitano. E lhe dizia: escuta as minhas palavras com atenção, camarada. Vou te explicar qual é a terceira perna da mesa humana. Eu vou te explicar. E depois me deixa em paz. A vida é procura e oferta, ou oferta e procura, tudo se limita a isso, mas assim não se pode viver. É necessária uma terceira perna para que a mesa não caia nas lixeiras da História, que por sua vez está permanentemente a se desmoronar nas lixeiras do vazio. Por isso toma nota. A equação é esta: oferta + procura + magia. E o que é a magia? Magia é épica e também é sexo, e bruma dionísiaca e jogo. E depois Yeltsin sentava-se na cratera ou latrina, mostrava a Amalfitano os dedos que lhe faltavam e falava da sua infância e dos Urais e da Sibéria e de um tigre branco que errava pelos infinitos espaços nevados. Seguidamente tirava uma garrafa de vodka da bolso e dizia:

— Acho que é hora de beber um copinho.

Obs.: A Livraria Cultura (link acima, na coluna do meio) tem 2666 na edição espanhola da Anagrama. Pelo que é, custa bem baratinho, R$ 71,34. Afinal, veio de um país onde as edições são enormes. A propósito, lançado em 26 de setembro em Portugal, 2666 já vendeu 23.000 exemplares. Pobre Brasil-sil-sil…

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Necessidade estética do formol, por Charlles Campos

Era notório que tinha duas das qualidades mais requeridas para a boa absorção social quando olhava seu reflexo nos espelhos e percebia-se passando incólume ao abrutalhamento das ocupações da sobrevivência diária. Tinha beleza distribuída em seus 1,75m de estatura perfeita, e sorte. Essa última também uma herança da inerente capacidade cavaleiresca de não se preocupar e a adstringência corporal que permitia a seu pai posicionar-se no limiar da porta do cartório de ofícios Hudberg & Sanders, no horário de expediente, diante a constatação muda de todos de que era uma espécie de tributário da perfeição natural para não exigir-se dele a necessidade da inteligência e da eficiência burocrática. Seu avô, Sólemon Hudberg, repudiara a decisão da filha de se casar com um tipo de homem tão inútil, mas seu amor paterno, mais que a corrente versão de manter as aparências, por final aceitara, trazendo o casal com o bebê para uma das propriedades da família, empregando o marido como escrevente de nível um no cartório. Mas sua condescendência não abarcava o neto, direcionado à Faculdade de Medicina; a pequena réplica excessivamente bela daquele intruso aceito com resignação, mostrando que a intervenção do avô o livrava da inutilidade, destinando-lhe às melhores escolas católicas, enfiando-lhe na cabeça o melhor do pensamento de todos os tempos, à medida que se tornava um rapaz brilhante e circunspecto. Seu avô, em toda ocasião, lhe colocava no colo e dizia sem preocupação para quem ouvisse: “Mas como saiu escarrado ao pai, como minha participação nisso não vingou nem no feitio das orelhas.”E contudo, o marido da filha não passava de um lindo animal doméstico; antes da velhice liberá-lo para admitir isso com o alívio do anúncio da tragédia não cumprida, o Sr. Sólemon Hudberg observava apreensivo como seu genro não possuía a menor fimbra de libido, a menor manifestação de lubricidade, como era imune ao erro e à tentação. Era uma beleza desperdiçada. Sua filha parecia saber disso, mantendo-se à altura daquele merecimento, dispensando-lhe um amor tão íntimo, que avizinhava-se em sua proteção à maternidade. Enquanto estava na faculdade de medicina, observava os corpos infundidos no formol, marmorizados numa inacessível salinidade mortuária; retirava-lhes de pesados baldes de ferro do meio de caldos químicos que transfundiam para fora os líquidos que lhes restavam dos tecidos, e os depositavam nas mesas de dissecação. O mestre ria da violência como o odor batia contra as narinas dos alunos, e dizia que iriam se acostumar rapidamente. A ele nunca lhe afligira. O formol retirava a autenticidade dos corpos, aquela representação adulterada da morte. Nas férias de verão soube que seu pai estava internado no Hospital para tratamento. Vê-lo magro,as faces encovadas, os lustrosos cabelos loiros estranhamente ressecados, deitado no leito, além do choque trouxe uma resposta que buscava desde que na infância descobriu se mover numa velocidade menor que a de todo mundo. Ao longo dos próximos meses foi sendo informado da degradação do pai, a forma do detalhe dos relatórios reportado com distanciamento impregnava um certo determinismo sistemático que o isentava da dor. Quando o prognóstico se cumpriu, o diretor honorário lhe dispensou por uma semana com o rosto da mais heráldica condolência, e pode ver a morte em toda sua frescura legítima na inexpugnável condição de matéria do pai, embrulhado em seda branca no hexágono estendido do caixão, com um terno negro de listas de giz que remetia àquele outro que um dia havia sido quase insuportavelmente belo. Teve que se retirar antes do sepultamento, pois incomodava-o enormemente a assimilação que os olhares lhe faziam da figura do pai. Beijou a mãe e o avô, este sinceramente resguardando uma dor que lhe fazia um amálgama por dentro, e saiu. Nunca mais voltou, tampouco para a faculdade de medicina. Pesava-lhe na cabeça a mão do conhecimento de como as providências diárias artificialmente construídas para mostrar segurança subsumiam sobre o fluxo daquilo que meramente determinava a falta absoluta de controle das coisas, sem punição ou glória, sem merecimento ou perda, sem juízos e valores. Sua função era somente existir.

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Quem acompanha este blog, sabe: ontem à tarde, nosso comentarista Charlles Campos foi acometido de um severo surto criativo e brindou-nos com a peça literária acima, a qual foi devidamente avaliada por nossa equipe de críticos residentes. Dentro da mais rigorosa sacrofobia, Marcos Nunes sugeriu ao autor experimentar uma prosa com mais alegria erótica, ao menos no padrão Thomas Mann.

Adepto de uma literatura concentrada, que nos leve após tênue resistência (detalhe importantíssimo), ao rico mundo pessoal do autor (parece sexo, né?), Charlles Campos escreveu em resposta duas pecinhas mais relaxadas às quais nomeio com simplicidade:

Zwei Variationen über ein Thema von Charlles Felder

Variatio 1 im Stil von Harold Robbins (dedicada a Victor Hugo Lisboa). A estranha pontuação do autor deve ser resultado da forte influência que Laurence Sterne preserva no interior de Goiás:

1._Filho, venha ligeiro. Teu pai morreu!

2.O aprendiz de médico atravessa em um dia e duas noites as estradas sinuosas entre os alpes suíços, com seu porsche negro, o vento secando as lágrimas de seu belo rosto, tão parecido ao do falecido pai.

3.Diante o cadáver do pai, arrumado com aprumo pelos caros especialistas funerários da Morgue`s Berna Foundation, o jovem médico percebe a grande gratuidade da vida, onde planos de controle de nada valem.

4.Ele pensa com seus botões:

5._Em vez de ser um playboy oportunista, vou me dedicar a apenas viver.

6.Mas, no fundo, nosso herói esperava ao menos encontrar o grande amor de sua vida, sincero e imortal.

7.Diz adeus a seu velho avô, o sábio patriarca da família, beija sua mãe e se manda.”

Final alternativo para o Marcos da alegria erótica:

“_Antes, porém, já que ser abençoado pela abstenção em prol da melhora da humanidade e cagar se reduz à mesma coisa, sendo que a última pelo menos tem a vantagem de poder-se ler a parte cultural da Veja e se deleitar animalescamente com o cheiro da própria bosta, vem cá coroa!

_Mas júnior, isto é um pecado mortal. Teu pai está na sala ao lado, pronto para receber Nosso Senhor. E, além do mais (uh!), eu SOU SUA MÃE!

_ Não seja cínica mulher. Por acaso está acima das máximas deterministas do velho Freud, onde já tá provado que tudo não pas…

_Cala a boca, fedelho, e come essa buceta logo.

A penetração é profunda e selvagem, em que os dois amantes tem que ajustar seus corpos para aproveitarem melhor o gozo proporcionado pelo apoio da pia batismal em que ele a colocara sentada. No momento em que o esperma sai caudaloso, com um grito reprimido para que o padre não fosse ali averiguar, a mãe segura um crucifixo que estava pendurado acima, na parede.

Meu Deuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuus!

O jovem a deixa semi-desmaiada no chão e sai, para se lamentar do grande vazio que é o mundo.

Variatio 2, mit Moral (dedicada a Ramiro Conceição):

O mulato João Tenório, faixa amarela do Clube da Capoeira, bonito que só com sua fileira de dentes geneticamente perfeitos, estava tendo aula de aperfeiçoamento do perigoso passo Salto do Macaco à beira mar de Porto Seguro, ao lado de uma tenda armada pela Rede Globo onde se apresentava o grupo Chiclete com Banana (que na hora cantava o lema incentivador da leitura “lê-lê, lê-lêlê lê lê-ô, lê-lê_lê-lê-ô-ô).

Súbito, Sebastião Remanso, dono da barraquinha de água de côco ali perto, lhe chama a atender o orelhão.

João Tenório cancela o sorriso ao ouvir do outro lado da linha a voz de sua mãe:

_Ô Nego, Ô Tê! Oxum acaba de levar teu pai!

Entre làgrimas, Tê pergunta a causa da desgraça á sua mãe que morava no Rio.

_ Bala perdida, igual a seu irmão ano passado. Vem ligeiro que o IML tá pra liberar teu pai.

João Tenório despede-se de sua mulher e seus treze filhos e embarca no trans-estadual para o Rio.

Diante o cadáver do pai, Tenório não vê sentido continuar na capoeira. Dá um beijo na mãe; beija o avô, aspirando a fumaça de arruda misturada a fumo de corda que sai do cachimbo do velho pai de santo, e se manda.

Anos depois reaparece acompanhado com a nova mulher dançarina, que lhe acolheu à porta na época de fome, famoso como guitarrista principal de uma banda de axé. No último dia dos pais interpretou uma versão de arrepiar no Programa do Gugu, de uma canção do Fábio Júnior.

Moral: tá pra se criar desgraça suficiente pra tornar um brasileiro filósofo.

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Retrato de um Casamento, de Nigel Nicholson

Very english, para o bem e principalmente para o mal. Cheguei a indicar Retrato de um Casamento, de Nigel Nicolson, a uma amiga. Estava no começo da leitura; arrependi-me. Este livro de 1973 foi traduzido com enorme sucesso no Brasil em 1976. Trata-se da biografia da aristocrata Vita Sackville-West escrita por seu filho Nigel, mas também é uma autobiografia. Explico melhor: é um livro em que dois longos capítulos são retirados do diário de Vita Sackville-West e três outros – também longos – são escritos por Nigel.

Mamãe Vita foi uma escritora de muitos livros e o filho Nigel tornou-se um político conservador inglês. Só que o político escreve muitíssimo melhor que a escritora. O primeiro capítulo de Nigel é maravilhoso. Então vem Vita e é uma tragédia! Tal fato diz tão mal da personagem principal que me foi impossível não achá-la ridícula. Pensava: “Então quem faz isto, também escreve aquelas expressões cheias de uma adjetivação obtusa?”. Blergh!

O livro trata basicamente do amor entre Vita e sua amiga Violet Trefusis, que escrevia muito melhor, a julgar pelas cartas que Nigel transcreve. Esta paixão magoa o marido homossexual Harold Nicolson, pois ele vê nela uma real ameaça de abandono. Ele não admite perdê-la, apesar de não ter interesse físico por Vita. É um estóico: não reclama, permanece gentil, prestativo e apaixonado. Very english, indeed.

Então esqueçamos os capítulos escritos por Vita e fiquemos com os três de Nigel. Dono de uma prosa elegante, ele narra os segredos sexuais e emocionais de sua mãe. É desconfortável e este é o grande ponto de interesse, na minha opinião. Nigel fala também do pai, Harold, e do fortíssimo e inabalável amor deste por Vita, que cresceu, recebeu retribuição platônica e se tornou cada vez mais importante com o passar dos anos. Era o porto seguro a que ambos regressavam após as aventuras de Harold com jovens rapazes e de Vita – uma delas com Virginia Woolf.

Para que a imagem de Vita saia ainda mais machucada do livro, o filho faz questão de salientar o profundo esnobismo de Vita e a seu profundo desprezo pelos pobres e plebeus. É o único momento em que ele parece perder o controle, falando abertamente mal da mãe. Francamente, que atitude inadequada, Nigel!

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Anúncio do Prêmio Nobel de Literatura ao vivo

Aqui às 8h em ponto.

And the Nobel goes to… Hertha Müller, poeta (ainda se usa “poetisa”?) alemã.

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Sinuca embaixo d`água, de Carol Bensimon

O segundo livro de Carol só perde para o primeiro na capa. Deve haver um critério muito misterioso de marketing que justifique o fato da Companhia das Letras ter escolhido aquela coisa sem graça num livro tão visual como Sinuca. Antes de qualquer consideração, porém, peço licença para observar meu próprio umbigo. Se a atmosfera do romance é a da morte de uma jovem (Antônia), do fim de um bar (causado pela estupidez dos moradores em torno), da poluição do lago e do abandono de uma criança, nada disso me afeta muito comparado com a alegria que me causa a realização de um romance tão belo. Você pode dizer que troco e-mails com Carol, que já a vi duas ou três vezes e que meu exemplar veio com dedicatória, mas tal admiração passa longe do compadrio que detesto. A alegria é um defeito de fabricação: quando, por exemplo, ouço a desesperada súplica de arrependimento diante de Deus de Erbarme dich, mein Gott da Paixão Segundo São Mateus, de J. S. Bach, fico feliz pela realização de Bach, mesmo sem ignorar o sentimento que o levou àquilo. Na verdade, sinto-me eufórico.

E o mesmo ocorreu comigo ao finalizar Sinuca, fiquei eufórico com um romance que trata, entre outras coisas, da morte. Ou seja, Sinuca embaixo d`água não é um bombom nem um passeio de pedalinho pelo lago. É o romance do luto de três personagens principais — o namorado Bernardo, irmão Camilo e o dono do bar next door Polaco –, de quatro pequenas histórias paralelas e do bar, do próprio bar, outro morto.

A linguagem de Carol Bensimon alterou-se em relação a Pó de Parede. Lá, havia uma poesia menos dura do que a de Sinuca. As frases encurtaram, muitas são intencionalmente vagas e o seu significado exato é dado pela experiência do leitor. Não obstante, não é uma leitura trabalhosa; é, isto sim, poética. Deu trabalho, certamente, pois Carol ainda precisava adaptar a linguagem a cada um dos personagens.

E cada personagem encara a morte de sua maneira. Bernardo é o namorado culto que percorre a via crucis da forma mais inteligente e “normal”. Houve uma grande perda e a hora é de sofrer, seja ouvindo jazz, seja ouvindo coisas desnecessárias da parte de amigos, seja jogando um jogo à morte. Temos a impressão de que a construção da linguagem foi dedicada a ele, mas ela adapta-se igualmente a Camilo, o irmão preterido pela morte. Drogadito light, faz-nada e mecânico amador, amava a irmã ao ponto de sentir um controlado ciúme de Bernardo. E Polaco é o dono do bar que coleciona perdas. Porém os maiores personagens do romance são Antônia, desenhada lenta e minuciosamente a seis mãos, e o bar, ponto de encontro e centro do ódio de certa cidade.

O bar não tem seu nome declinado pela autora mas…, meus amigos, é o Timbuka. Se eu soubesse disso, teria falado três vezes com Carol Bensimon. Conheci-a na quarta ou quinta-feira da noite de autógrafos (1). Voltei a vê-la no Parangolé, durante a ImpedFest (2) e, no dia seguinte, lá estava ela, talvez com uma garrafa térmica, quem sabe com uma cuia, tomando chimarrão com o namorado do lado esquerdo e as ruínas do Timbuka do lado direito. Não quis interromper, mas interromperia, se soubesse que o bar era um dos temas do livro — teria excesso de assunto!.

Então, para terminar esta resenha que já vai longe, digo que este é um dos melhores romances porto-alegrenses que li, até por trazer com delicadeza um dos fatos dos quais a cidade deveria se envergonhar: a derrubada do Timbuka. Algo de perto semelhante vi no final de 2005: participei de uma reunião do movimento da Rua Gonçalo de Carvalho, justo em essência, mas que conseguiu enxotar uma Orquestra Sinfônica em nome do ecossistema da rua… A exposição de burrices e a emissão de preconceitos devem ter sido análogas quando da discussão sobre a ação de uma retroescavadeira sobre um local era apenas um culto à felicidade, como o Franciel descreve neste post.

Para não finalizar fora do tópico e como o pessoal que visita meu blog não é brincadeira e lê mesmo, uso o tempinho que sobra para sugerir os capítulos “Polaco” (p. 19), “Lucas” (p. 96) e “Bernardo” (p. 83, 101 e 115). São demonstrações claras do virtuosismo nada gratuito de Carol neste Timbuka, ops, Sinuca embaixo d`água.

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Una novelita lumpen, de Roberto Bolaño (crítica publicada no El Pais do último sábado)

No hay un Bolaño menor

Por JORDI GRACIA

 

Esta novela breve nació como un encargo y el resultado fue valioso, como sucede con tantos otros encargos que felizmente la industria editorial hace a los autores de los que se fía (o en los que confía). Quizá por eso Herralde ha decidido rescatar este relato de Roberto Bolaño, escrito por encargo de Claudio López de Lamadrid para una colección de Mondadori en 2002 (lo ha contado por escrito el propio Herralde). Transcurre en Roma pero podría transcurrir en las quimbambas mientras hubiera casas grandes y pisos pequeños, comercios de alquiler de vídeos y personajes con biografías complicadas o infinitamente sosas. La de la protagonista es anodina y amputada, peluquera de poco futuro, amante mecánica y urgente de un par de tipos que viven azarosamente en su propia casa, huérfana de edad indefinida pero ya crecida, y a cargo de un hermano desorientado y más joven que ella.

El cuadro es simple y muy poco prometedor: lo que sucede es todo mate. No hay melodrama ni hay autocompasión ni fantasías redentoras más allá de la mera ilusión de mejorar de vida. Pero hay una gran habilidad en dotar de una irresistible inocencia a la protagonista que narra una breve etapa de su vida y donde vibra sin notarse la inteligencia sentimental del mejor Bolaño. Algunos somos más decididamente partidarios del Bolaño comedido y sutil -el de esta novela breve o el de Estrella distante– que del Bolaño arrebatado por la ambición y la desmesura de Los detectives salvajes o de 2666. En las más extensas demasiadas veces acude la pregunta de para qué, y en ésta cada línea tiene un para qué inequívoco, fatal. Quizá precisamente porque el propio Bolaño no debió tomársela demasiado en serio.

Está el mejor Bolaño sin desatarse: el de la piedad difusa y sin huellas visibles, el de la amargura de las vidas malsanas sin culpa, el de las frustraciones veladas pero invencibles, y el de la vitalidad psicológica suficiente como para trazar personajes de escasa complejidad cuyo papel sin embargo desemboca en relatos complejos. Todo es fácil y directo en Una novelita lumpen y sin embargo la novela trata de la infelicidad y de las recompensas falsas dentro de la infelicidad, de la valentía para cambiar de rumbo y de la lucidez súbita sobre el rumbo real de la vida de cada cual: un pedazo de realismo inteligente sin sermón.

(Una novelita lumpen, Anagrama, Barcelona, 2009, 151 páginas. 15 euros.)

Mais um artigo encontrado e enviado por Helen Osório. Obrigado!

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