Uma reflexão sobre o crossover porto-alegrense

Uma reflexão sobre o crossover porto-alegrense

Aury Hilário protesta que antes havia menos salas e mais música erudita em Porto Alegre, que as orquestras da Ulbra, da Unisinos e os tais Concertos Dana dão generosos espaços para roqueiros, nativistas e MPB. E tem razão. Porto Alegre tornou-se um grande palco da música de crossover — termo usado na música para designar canções que apresentam junções de dois ou mais gêneros musicais. Na minha opinião, resumindo em duas palavras, trata-se de pura vulgaridade. São orquestras universitárias que talvez contem com patrocínios e que deveriam divulgar alguma cultura diferenciada, mas que preferem agradar um público que, na verdade, quer reconhecer músicas de sua preferência em uma roupagem orquestral e mais nobre, ignorando que a melhor versão dos Beatles é a que tem o grupo de Liverpool e o melhor nativista é aquele que traz o cheiro de capim e os sapatos sujos de terra vermelha. Misturar terno e gravata com modelos populares é apenas e simplesmente bagaceiro.

Foto: Divulgação
A Ulbra acabando com os Beatles, dois já morreram | Foto: Divulgação

O que estas orquestras têm feito, e muito, é repertório nhemnhemnhem para ignorantes, com a desculpa da formação de público. O que nunca ocorrerá. Não há como formar público para Shostakovich tocando Beatles… Beatles forma plateia para… BEATLES!!! Aury diz, com toda a razão:

Temos todo o direito de duvidar da eficácia dessa estratégia [de captação de público]. O que pode vir a ocorrer é a redução do já restrito mercado de trabalho dos instrumentistas e cantores líricos e o nosso afastamento das salas de concerto.

Neste sábado, em Zero Hora, Juarez Fonseca deu uma bela escorregadela em sua brilhante carreira. Acontece com todos. Tentando acalmar a pequena comunidade erudita de Porto Alegre, ele chegou a um argumento de patético paroxismo e confusão, finalizando assim seu texto:

Acho que poderiam ser menos corporativistas – em alguns casos até preconceituosos – e deixarem os maestros Antônio Borges-Cunha e Tiago Flores trabalharem em paz. Quanto à preocupação com a “perda de espaço”, posso lembrar, por exemplo, que Vivaldi vem sendo tocado há mais de 300 anos. Bach, quase o mesmo. Mozart Beethoven, ali perto. E o Chopin de Nelson Freire, desde 1830. Todos (e centenas de outros) gravados sem parar pela Deutsche Grammophon. A chance de a música erudita perder espaço para o rock, em Porto Alegre, é praticamente zero. Então, keep calm…

Não sei nem responder a acusação de “corporativismo”. O corporativismo representa interesses econômicos, industriais ou profissionais. Bem, meu caro, Aury é médico e eu sou um colega seu. Não sei de qual corporativismo estamos falando. Estamos aqui pela cultura. Mais: a música erudita é bastante vasta e inclui até contemporâneos nossos bem divertidos e formadores de público.

http://youtu.be/PA7vEIj6Lzk

Justificar pelo número de execuções de Bach, Vivaldi, Mozart e Beethoven pode ser facilmente rebatido pelo número de execuções dos artistas populares em rádios, TVs, iPod, mp3 e iTunes de toda a população, que os ouve a pé, em ônibus, nas salas de espera e até trabalhando.

A questão é muito maior, mas eu gostaria de focalizar três itens. O primeiro é a feiura da coisa. Ouvindo os arranjos — a maioria péssimos, redutores — que são escritos para esses artistas não eruditos, nota-se claramente que suas músicas pioram e que a orquestra poderia ser facilmente substituída por um teclado qualquer, talvez vestido de terno e gravata. Aquelas harmonias são ridículas desde que Claus Ogerman tentou sistematicamente acabar com o genial João Gilberto.

O segundo é que a justificativa para a existência de tais excrescências sonoras deve ser o público, que acha bonitinho ouvir seus Beatles ou seu Nenhum de Nós sob uma roupagem amenizada. Até as vovozinhas poderão curtir a música que sai pasteurizada e sem nada de seu espírito original das cordas assépticas da orquestra. É a morte da morte. Morte de uma orquestra que poderia dedicar-se a algo mais digno de seu estilo e história e morte da vivacidade de uma música que reaparece morta, estrangulada sob o peso de um anacronismo digno de um Paul Mauriat ou de um Ray Coniff, sem nunca chegar ao (baixo) nível de um André Rieu, que pelo menos dedica-se a eruditos ligeiros. Mas esqueci, há mais uma morte: a da sonoridade da orquestra. Esta é um organismo acústico e, nesses concertos de música popular, elas aparecem amplificadas, elétricas, como símbolo de uma sofisticação inexistente. Se o sentido é escutar a orquestra tocando, com suas nuances e espacialidade, acaba-se a experiência quando todo o som da mesma sai de um par de caixas de som.

O terceiro item é que essas orquestras devem receber algum tipo de incentivo governamental para suas “atividades culturais”. Afinal, são ligadas a universidades. Mas as universidades não estão nem aí para o desenvolvimento de uma boa orquestra ou de determinada contribuição artística para a comunidade. Filha bastarda da universidade, essas orquestras servem mais aos músicos que engordam seus salários com cachês. Para eles, sim, serve a facilidade de tocar roquezinhos em concertos. Fazem-no com uma mão nas costas, sem nem precisar estudar. Que ganhem seu dinheiro — que não é muito — honrando a música para a qual estudaram.

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A Hard Day’s Night completa 50 anos

A Hard Day’s Night completa 50 anos
A capa do original inglês de vinil. A edição brasileira trazia a mesma capa, só que com a cor vermelha substituindo o azul. Clique para ampliar.
A capa do original inglês de vinil. A edição brasileira trazia a mesma capa, só que com a cor vermelha substituindo o azul. Clique para ampliar.

Publicado em 10 de julho de 2014 no Sul21

A Hard Day’s Night é o terceiro álbum dos Beatles. Seu aguardado lançamento aconteceu na Inglaterra em 10 de julho de 1964, acompanhando o lançamento do filme homônimo de Richard Lester.

O título da canção A Hard Day’s Night tem origem numa expressão criada por Ringo Starr em uma entrevista, daquelas bem bagunçadas. Ele disse ao disc jockey Dave Hull, no começo de 1964: “Tínhamos trabalhado um dia inteiro e mais a noite toda. Quando saímos do estúdio, eu pensava que ainda era dia e disse: “Foi um dia duro… mas olhei em torno e vi que estava escuro, então eu disse: foi a noite de um dia duro”. A Hard Day’s Night.

John Lennon escreveu a música em uma noite — desta vez sem trabalhar durante o dia –, e apresentou-a aos outros Beatles na manhã seguinte. A letra do manuscrito original pode ser vista na Biblioteca Britânica, rabiscada em caneta esferográfica nas costas de um cartão de aniversário.

Apesar de assinarem juntos a maior parte das músicas do grupo, Lennon e McCartney raramente as escreviam juntos. Eles as faziam separadamente e depois discutiam alguma alteração. É simples identificar quem fez o quê. Basta ouvir o cantor principal. John cantava as dele e Paul as suas.

Correria
Correria

O filme lançado com o disco foi dirigido por Richard Lester. Dez ENORME sucesso. Mostrava, em preto e branco, a história de uma banda de rock que era perseguida por fãs histéricos. Após perseguições de fãs, entrevistas, e muitas piadas, a banda realiza um show na televisão. O filme mostra um pouco da realidade dos Beatles na época. No Brasil, o disco e o filme foram lançados pelo nome de Os reis do iê, iê, iê (a expressão “iê, iê, iê” deriva de “yeah, yeah, yeah”, presente no refrão da canção She Loves You).

Saltos
Saltos

Como se fazia na época, o álbum foi gravado em apenas nove dias não consecutivos, de janeiro a junho de 1964. Entre as sessões, os Beatles cumpriam seus compromissos de shows e da filmagem de A Hard Day`s Night. Durante a filmagem, John Lennon e Paul McCartney escreviam mais e mais canções. A maioria destas ficou fora de A Hard Day`s Night, indo para o seguinte, Beatles for Sale, lançado em 4 de dezembro do mesmo ano.

Descanso
Descanso

A Hard Day`s Night tornou-se seu primeiro álbum do grupo que continha material exclusivamente original, só com canções de Lennon e McCartney, ainda sem a participação de George Harrison como compositor.

É um álbum bem diferente do que veio antes e do que virá depois. O motivo é simples. É o único disco dominado por canções de John Lennon. Isto o trona muito mais rápido, muito mais rock ‘n’ roll. A típica presença de Paul, muito mais lírico e melodioso, é notada em And I love her e Things we said today. O resto, com exceção de If I fell, são rocks rápidos.

Mais correria
Mais correria

Lennon foi o único compositor da faixa-título, juntamente com I Should Have Known Better, Tell Me Why, Any Time At All, I’ll Cry Instead, When I Get Home e You Can’t Do That. Ele também escreveu a maior parte de If I Fell e I’ll Be Back, e colaborou com McCartney em I’m Happy Just To Dance With You.

As contribuições de McCartney para o álbum foram discretas, porém excelentes: as clássicas baladas And I Love Her e Things We Said Today, bem como Can’t Buy Me Love.

A Hard Day’s Night é um dos três únicos álbuns dos Beatles para não contêm vocais por Ringo Starr. Os outros são Let It Be e Magical Mystery Tour.

O cartaz do filme de Lester
O cartaz do filme de Lester

As faixas de A Hard Day`s Night:

Lado A

A Hard Day’s Night
I Should Have Known Better
If I Fell
I’m Happy Just To Dance With You
And I Love Her
Tell Me Why
Can’t Buy Me Love

Lado B

Any Time At All
I’ll Cry Instead
Things We Said Today
When I Get Home
You Can’t Do That
I’ll Be Back

John Lennon: vocal, guitarra, violão, harmônica, tamborim
Paul McCartney: vocal, baixo, piano, sinos
George Harrison: vocal, guitarra, violão
Ringo Starr: bateria, congas, bongôs, tamborim
George Martin: piano

Produtor: George Martin, óbvio

O disco completo:

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10 (pequenas) coisas (histórias) que (talvez) você não conheça sobre Bach

10 (pequenas) coisas (histórias) que (talvez) você não conheça sobre Bach

bach

Quando dizemos Johann Sebastian Bach, pensamos imediatamente nas Variações Goldberg, nas Cantatas e Paixões, nos Brandemburgo e naqueles retratos austeros do Kantor de Leipzig segurando na mão direita uma partitura. A imagem de um bon vivant e do prisioneiro é rara.

1. Ele esteve na prisão

É certo que Johann Sebastian Bach esteve quase um mês na prisão — entre 6 de novembro a 2 de dezembro de 1717 — durante seu período em Weimar. O crime era o de traição a seu patrão. Fora-lhe recusado o cargo de Kapellmeister na cidade, então ele decidiu tentar a sorte em outro lugar. Queria o posto de maestro em Köthen. Bach insistiu e insistiu para ser demitido. Acabou preso. De acordo com o relatório do tribunal, o motivo foi o de “forçar a sua demissão”. Não havia CLT por lá.

2. Ele foi (infelizmente) operado pelo mesmo médico que Handel

O grande doutor John Taylor (1703-1772) operou duas vezes a catarata de Johann Sebastian Bach em 1750. Fez o mesmo com Handel em 1753. Fracassou com ambos. Pior, matou Bach, enfraquecido após as cirurgias, e deixou Handel inteiramente cego.

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3. Ele causava medo na concorrência

Durante uma viagem a Dresden em 1717, houve uma brincadeira idiota entre aristocratas. Foi organizada uma competição para decidir quem tinha mais habilidades para a improvisação: se Johann Sebastian Bach ou Louis Marchand, famoso organista francês. Na véspera da grande luta, Marchand deu de cara com Bach ensaiando. Resultado: alegou uma doença súbita e fugiu.

4. O trabalho não era fácil

Ser Kappellmeister não era simples. Regente do coro da igreja, da orquestra, compositor, ensaios e mais ensaios, além de professor de música e catecismo. Em relatório de 1706, quando tinha 21 anos, Bach dizia mais: que as crianças “já não temem seus professores, elas até mesmo lutam em suas presenças, ( … ) só não carregam espadas e pedras pela rua, mas também na sala de aula.”

5. Ele não era muito amado em Leipzig

Se Bach é apelidado de “O Kantor de Leipzig”, não podemos dizer que a cidade dava-lhe afetuosa contrapartida. Seus chefes eram rápidos para lembrá-lo de sua incompetência. Alguns chefes são assim mesmo, eu já convivi com isso. Em 1723, um assessor disse que Bach não compusera nada durante todo o ano. Hoje, sabemos que ele, como sempre, trabalhou louca e produtivamente naquele ano. Em 1730, ele foi repreendido e advertido pelo mesmo motivo. Quando de sua morte, um jornal da cidade publicou uma notinha onde dizia que “um homem de 67 anos (ele tinha 65), o Sr. Johann Sebastian Bach, maestro e Kantor na Escola St. Thomas”, morrera. Nada mais.

6. Faltava muito às aulas

O maestro John Eliot Gardiner Bach enfatiza a violência do ambiente em que o compositor passou a infância. Eram comuns as rivalidades entre gangues, as brigas entre estudantes e as maldades sádicas. O menino Johann Sebastian esteve ausente por 258 dias em seus três primeiros anos de escola. O motivo mais comum para tais ausências era a violência.

7. Ele apanhou de um fagotista

O episódio demonstra a violência que enfrentou o compositor até depois da adolescência. Em 1705, ocorreu uma briga com um estagiário fagotista chamado Geyersbah: voltando para casa ontem à noite, Bach viu seis músicos estudantes sentados em bancos de pedra e, quando passou por eles, Geyersbach foi atrás e o provocou, perguntando por que ele tinha sido insultado. Bach respondeu que não o tinha insultado, mas foi agredido mesmo assim.

8. Ele adorava café

O gosto de Johann Sebastian Bach para o café vem de sua participação na instituição de Gottlieb Zimmermann, o Café Zimmermann, onde o compositor apresentava-se regularmente durante a década de 1730. O café era uma novidade recente e sucesso absoluto naquele início de século XVIII. Na época, era encarado como uma moda passageira e um luxo. O compositor dedicou uma Cantata ao produto (BWV 211, a Cantata do Café) em que uma moça casadoura diz preferir a bebida a mais de mil beijos e afirma que só aceita casar com um marido que lhe dê café. No inventário de Bach, há menção a dois potes de café (um grande e um pequeno) e um açucareiro.

9. Ele bebia e bebia

Se o conselho da cidade de Leipzig tratava-o com dureza, deve-se notar que Bach gozou de relativa liberdade na cidade luterana. Ele fazia sua própria cerveja e pagava mais imposto sobre a produção desta do que gastava com habitação. As notas examinadas por seus biógrafos indicam que a família Bach consumia toneladas de cerveja. Um relatório de gastos com impostos do compositor em 1725 (tinha 40 anos) dá conta de um consumo espetacular, mesmo considerando família e alunos.

10. Tudo sobrava, sobretudo talento

A perfeição daquilo que criava e que era rápida e desatentamente fruída pelos habitantes das cidades onde viveu, era pura necessidade individual de fazer as coisas bem feitas. Como era pouco compreendido, brincava sozinho criando dificuldades adicionais em seus trabalhos. Muitas vezes o número de compassos de uma cantata corresponde ao capítulo e versículo da Bíblia daquilo que está sendo cantado. Em seus temas aparecem palavras — pois a notação alemã (não apenas a alemã) é feita com letras — , e suas fugas envolvem complexidades que só podiam ser apreendidas por especialistas. Então Bach era não apenas um fantástico melodista capaz amolecer as pernas de quaisquer ditadores — sei do que falo — , como um sólido teórico capaz de brincar com seu conhecimento. Em poucas palavras, pode-se dizer que o velho sobrava… Sua obra, mesmo com a perda de mais de 100 Cantatas e de outras obras por seu filho mais velho, o preferido de Bach, o maldito Wilhelm Friedemann, corresponde a 153 CDs da mais perfeita música. Grosso modo, 153 CDs são 153 horas ou mais de 6 dias ininterruptos de música.

Obs.: Um pouco traduzido, um pouco baseado em 10 (petites) choses que vous ne savez (peut-être) pas sur Jean-Sébastien Bach.

via Helen Osório

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Na ativa, Chico Buarque chega aos 70 anos de vida e a quase 50 de carreira

Na ativa, Chico Buarque chega aos 70 anos de vida e a quase 50 de carreira

Publicado em 19 de junho de 2014 no Sul21

Provavelmente, poucas pessoas conseguirão falar com Chico Buarque no dia de hoje, em que ele completa 70 anos. Ele é um sujeito muito reservado. Quando fez 60 anos, mentiu que viajaria para Paris a fim de ficar tranquilo. Porém, na tarde daquele dia, fez alongamentos e correu no Leblon. Para aqueles que o questionavam, respondia “Viajando nada!”. E ria. É que este verdadeiro patrimônio da cultura nacional, compositor, cantor e escritor, esta figura pública que não evita falar em política, que é ao mesmo tempo lírico, nostálgico e porta-voz das mulheres, é um cidadão mais afeito à tranquilidade do que a inevitável notoriedade que alcançou sua obra. Aliás, a notoriedade veio rápida, alçando-o em menos de um ano do anonimato ao posto de unanimidade nacional, concedido informalmente pelo amigo Millôr Fernandes.

Chico-Buarque

Cedendo ao pecado da primeira pessoa do singular, digo que certa vez estava em Parati e, após alguns dias de contenção, resolvi gastar algum dinheiro. Fui jantar em um dos melhores restaurantes da cidade. Logo que sentamos na mesa escolhida do restaurante quase vazio, dois garçons vieram falar conosco. “Na mesa ao lado, o Chico Buarque jantará com uma de suas filhas e amigos. Ele não tolera fãs. Espero que o senhor não o incomode”. Um tanto contrariado pela observação, respondi que saberia me comportar. Minutos depois, muito sorridente, Chico chegou, fazendo questão de cumprimentar a todos antes de sentar-se com seus amigos.

Conto esta história porque o restaurante está “prenhe de razão”, como diria Julinho da Adelaide. Chico Buarque é um homem especialmente talentoso e bonito. As pessoas têm curiosidade sobre ele, principalmente as mulheres. Algumas das moças que nos acompanhavam talvez ficassem atrapalhadas ao vê-lo adentrar o restaurante com seus olhos verdes para sentar na mesa logo ao lado. Era melhor avisar mesmo.

Chico-Buarque-crianca

Francisco Buarque de Holanda nasceu em 19 de junho de 1944, no Rio de Janeiro, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e de Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Holanda. Aos dois anos, mudou-se com a família para São Paulo. A primeira vez que apareceu na imprensa foi nas páginas policiais da Última Hora em razão de um ilícito: com um amigo, ele roubara um carro para passear. Acabou preso. A foto da delegacia foi parar na capa do disco Paratodos.

Chico Buarque paratodos

Quando trocou a editoria de Polícia pela de Cultura, havia um impasse na música brasileira. De um lado, estavam os defensores do samba tradicional e, de outro, o pessoal da bossa nova,com suas harmonias mais elaboradas. Chico nunca escolheu um dos lados pelo simples motivo de que tinha os dois em seu coração. Se suas letras revelavam um jovem nostálgico — ele parece reviver seu ídolo Noel Rosa (Chico diz que a maior canção brasileira de todos os tempos é Último Desejo) –, as harmonias não são mais as de Noel. É que em 1959, quando Chico tinha 15 anos, fora lançado o LP Chega de Saudade, de João Gilberto, e ele não passara incólume. Nem os vizinhos. Chico ouvia este disco tão repetidamente que a família Buarque de Holanda era alvo de reclamações.

sonho de un carnaval chico buarqueMúsica

Lançado há 49 anos, em 1965, seu primeiro compacto simples trazia duas canções: de um lado Pedro Pedreiro e do outro Sonho de um Carnaval. Pedro Pedreiro é uma canção com letra de conteúdo social, agregada a uma harmonia complexa que incorpora ao estilo tradicional o que lhe interessava da bossa nova. Chico nunca foi um revolucionário da arte, utiliza-se das formas disponíveis para elevá-las a um nível talvez inalcançável por nenhum outro artista popular. Suas combinações de letra e música deram tanto uma feição literária à MPB, como alçaram a música popular ao status de poesia.

Nos anos 60, Chico foi um estranho e talentoso jovem. Era um jovem nostálgico. Realejo e A Televisão mostram uma saudade esquisita em alguém de menos de 25 anos. Mas um de seus temas mais caros já se fazia presente: a preocupação com a condição feminina fazia-o criar personagens e ele convidava mulheres para cantar Com açúcar, com afeto e o dueto de Noite dos Mascarados. Ao lado destas, apareciam a malandragem de Noel em Logo eu? e o lirismo de Morena dos Olhos d´água, Januária e Olê Olá, por exemplo.

chico buarque de hollanda a bandaQuando foi lançada, A banda tornou-se um divisor de águas na carreira de Chico. Interpretada por ele e Nara Leão, dividiu o 1º lugar com Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, no 2º Festival de Música Popular Brasileira, em 1966. Vendeu mais de 100 mil cópias em uma semana.

Por falar em 100 mil, Chico participou da passeata dos 100 mil, em 1968. Ele militou contra a ditadura militar compondo canções e peças que criticavam o regime, às vezes de forma explícita, e em outras buscando driblar a censura de maneira alegórica. Não chegou a ser preso, mas foi interrogado no Dops e no 1º Exército. Também em 1968, Chico venceu o 3º Festival Internacional da Canção, em parceria com Tom Jobim, com a canção Sabiá. O público vaiou Chico, Tom e o Quarteto em Cy. Preferia Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré. Em 1969, Chico recebeu convite para gravar um disco na Itália e cantar na França. Seguiu para Roma com Marieta, grávida da primeira filha. Ao saber da prisão de Gil e Caetano, decidiu não voltar. O casal passou 14 meses na Europa.

Construção_chico_buarqueA maturidade como compositor

Na volta, Chico lançou Construção (1971), um disco absurdamente bom e completamente distinto dos anteriores. Chico se modernizara em tudo: as letras não são mais nostálgicas, as citações ao samba não estão mais em toda canção e os arranjos de Magro (MPB-4) e Rogério Duprat deram a roupagem que as canções já mereciam mas não tinham. O disco tem de tudo: sambas de exílio, canções intimistas, acalantos e a grandiosidade de Construção e Deus lhe pague. As letras estão carregadas de críticas ao regime militar e às condições sociais do país. Além da preciosidade técnica da letra de Construção — 41 versos, todos terminando com um proparoxítono de três sílabas –, a canção revela o engajamento social de seu autor. Foi uma redefinição e tanto. É seu primeiro disco adulto. Na época, ele disse que xingou o Sabiá, abandonou a Rita e empurrou a Carolina da janela para fazer esse disco.

No âmbito da canção, era a maturidade chegando aos 27 anos. Nos anos seguintes, ele abriu mais frentes. Sem açúcar, que está em Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo, trazia um amargor nunca antes ouvido em seus discos. Por outro lado, a censura incomodava. “Eles me encheram o saco, mas também enchi muito o saco deles”. O compositor teve dezenas de canções proibidas ou “tesouradas”, mas algumas escapavam. As principais foram Apesar de você e Cálice. Quando se deram conta do vacilo, os censores já não podiam impedir as ruas de cantá-las. A fim de burlar a censura prévia, o compositor inventou o sambista Julinho da Adelaide, que “escreveu” a notável Acorda amor. A identidade de Julinho foi revelada em 1975, numa reportagem sobre a censura publicada no Jornal do Brasil.

Em 1974, Chico estreou na literatura com Fazenda modelo, definida por seu autor como uma “novela pecuária”. No mesmo ano, ele lançou Sinal Fechado só com canções de outros compositores, além de Acorda Amor. O disco é excelente, mas demonstra as dificuldades com a censura. Mas a fileira de discos de obras próprias aparecia lotada de obras-primas.

chico-amigos

Meus caros amigos (1976), Chico Buarque (1978), Ópera do Malandro (1979), Vida (1980), Almanaque (1981) e Chico Buarque (1984), mais parecem antologias de melhores músicas do que discos regulares. Não há nada que seja de segunda linha, fato que obrigou a Almir Chediak, por exemplo, a lotar de canções os oito CDs de seu Songbook de Chico Buarque. (Songbook é um livro impresso com partituras, letras e CDs, de uma ou mais bandas ou músicos).

Musicalmente liberado, Chico tanto se valeu da eletrificação — Jorge Maravilha, Hino de Duran, A Voz do Dono e o Dono da voz –, quanto de ritmos estrangeiros — Fado Tropical, Tanto amar, Tango do Covil, Bancarrora Blues –, do charleston — Ai, se eles me pegam –, das marchinhas sacanas — Não existe pecado no lado debaixo do Equador e a sensacional Boi voador não pode, etc. Ele ainda explorava preferencialmente o samba e as delicadas valsas — Terezinha, Eu te amo, João e Maria — e revelava auto-ironia em Corrente — “Pra confessar que andei sambando errado / Talvez até precisa tomar na cara”) e Até o fim, além do drama nos versos de Olhos nos Olhos, Folhetim ,Mil Perdões e Bastidores.

Após 1984, a produção de Chico Buarque diminuiu em número, mas não em qualidade. Chico também desenvolveu discos em parcerias com Caetano Veloso e, principalmente com outro gênio da MPB, Edu Lobo. De Francisco (1987) a Carioca (2006) e Chico (2011), seus últimos trabalhos na música nada ficam a dever ao Chico dos anos jovens ou ao Chico maduro.

chico2011

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra / Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora, canta Chico em Essa pequena, do disco Chico, certamente referindo-se a seu envolvimento com a cantora Thaís Gulin. Seu último disco é um esplêndido trabalho de canções de amor. Talvez a melhor música seja Nina, uma bela e imaginativa valsa de sabor russo e internético. Nina diz que tem a pele cor de neve / E dois olhos negros como o breu, canta.

A discussão sobre a relação entre a música, a letra de canção e a poesia é antiga. O Chico letrista escreve com profundo conhecimento das técnicas literárias, mas nunca perdem a comunicação e são embaladas por uma musicalidade interna quase natural. Herdeiro da linguagem urbana de Noel, estas incorporam elementos da poesia modernista de Manuel Bandeira, Drummond e Vinícius. A força da poesia das canções de Chico por muito tempo obscureceu a arte do melodista. Ainda mais que, mais recentemente, suas composições foram ganhando os elementos eruditos que lhe chegaram filtradas pela arte de Tom Jobim.

budapeste-livroLiteratura

Fazenda Modelo (1974) era quase uma brincadeira com A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Estorvo (1991) não é um bom romance, mas revela que o romancista não é somente uma extensão do cancionista. Em Benjamin (1995) já havia uma voz própria, mas tudo mudou com o extraordinário Budapeste (2003). Não obstante as críticas geralmente negativas a Estorvo e Benjamim, estes e Budapeste foram adaptados para o cinema. Seu mais recente romance é Leite derramado (2009). É o mais reconhecido deles, tendo recebido o Jabuti de melhor ficção do ano. Na época da premiação, houve grande debate pelo fato de que muitos acharam o livro inferior ao segundo colocado Se eu fechar os olhos agora, do repórter da Globo Edney Silvestre. Leite é a biografia de um homem em meio aos tormentos da memória, que simboliza a formação do país e suas feridas sociais. Seus dois últimos livros apresentam boa variação temática — a questão dos duplos, a velhice, a geopolítica brasileira — e protagonistas em que a fronteira entre a realidade e a imaginação está pouco definida, o que torna seus relatos muito pouco confiáveis.

.oOo.

Fontes consultadas:
— Fascículo dedicado a Chico Buarque da História da Música Popular Brasileira
Conheça 70 fatos marcantes da vida de Chico Buarque

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O estranho concurso da Ospa (Parte V – Que Banca é essa?)

O estranho concurso da Ospa (Parte V – Que Banca é essa?)

A Banca Examinadora do Concurso Público para preenchimento de vagas de músicos na Ospa foi publicada dia 10 no Diário Oficial do Estado do RS. Ninguém de fora. Ninguém de nome, apesar da alta qualidade de alguns maestros e solistas que participam de concertos com a Ospa. Só gente da própria orquestra. Vários alunos serão julgados por seus professores; vários amigos serão julgados por amigos; e se houver inimizades? Como garantir a imparcialidade?

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Citando C.P.E. Bach

Citando C.P.E. Bach

“Eu penso que a música deve predominantemente tocar o coração. Faz parte da verdadeira arte musical uma liberdade que exclui tudo o que é escravo e mecânico. Deve-se tocar a partir da alma, e não como um pássaro domesticado”

Carl Philipp Emanuel Bach, que completa 300 anos de nascimento este ano.
Ele foi o filho mais talentoso de Johann Sebastian e seria famosíssimo se a história da música não o tivesse colocado sob a enorme sombra projetada pelo pai

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A Ospa com Shinik Hahm

A Ospa com Shinik Hahm
Shinik Hahm, correto | Foto: Antonieta Pinheiro / Divulgação
Shinik Hahm, correto | Foto: Antonieta Pinheiro / Divulgação

O maestro sul-coreano Shinik Hahm é colorado. E suas boas escolhas ficaram comprovadas ao convocar sua conterrânea Hyejin Kim para interpretar o Concerto para piano e orquestra, Op. 16, de Edvard Grieg. É a segunda vez este ano que assisto a este concerto. A primeira vez foi com a Osesp no Theatro São Pedro, com Dmitry Mayboroda ao piano e regência de Marin Alsop. Como pianista, Kim me pareceu ainda melhor. Como estamos entre colorados, afirmo que ela também é melhor do que Wellington Silva como lateral, por exemplo. A moça deu uma interpretação de notável perfeição técnica e musicalidade para uma obra apenas OK. Uma pena que uma pianista de tamanha qualidade tivesse vindo ao RS apenas para tocar o concerto de Grieg. Merecia algo mais interessante. Como o seu bis, por exemplo, um esplêndido e jazzístico primeiro movimento de uma Sonata do ucraniano Nikolai Kapustin. Grieg é como a defesa do Inter, não tira o sono de ninguém. Sabiam que ele era parente distante de Glenn Gould? Pois é.

Retirado do palco o piano, o programa seguiu com a Sinfonias (assim mesmo, no plural) para instrumentos de sopro, de Igor Stravinsky. A peça foi dedicada à memória de Claude Debussy e inaugura o período neoclássico do compositor. Foi muito bom ouvir música com menos de 100 anos e fora da curva habitual da orquestra. Aliás, negando a frase anterior, em 2012 a Ospa já tinha tocado esta obra com o regente Dario Sotelo dançando as tortuosas melodias do talentoso nanico russo amante da grana. Foi um bom momento com os bons sopros da Ospa mandando bala na noite quente.

Depois veio o poema sinfônico As Fontes de Roma, de Ottorino Respighi. O bolonhês Respighi gostava da cidade e escreveu também Os Pinheiros de Roma e Festas Romanas, formando sua Trilogia Romana. Na primeira metade do século passado, Toscanini deixou as peças famosas, mas sua orquestra tinha certamente cordas mais afinadas do que as da Ospa. Há uma história curiosa sobre a de As Fontes: Arturo Toscanini tinha planejado estrear a obra em 1916, mas o compositor italiano se recusou a comparecer ao concerto por motivos políticos. Acontece que, na mesma noite, Tosco iria executar algumas peças de Wagner. Consequentemente, a estreia foi adiada, acontecendo só em 1917, com Antonio Guarnieri. Embora a desavença inicial, Toscanini foi o grande divulgador da obra, regendo-a diversas vezes com enorme sucesso.

Foi um bom concerto. O crescimento da Ospa em menos de sete dias de Hahm, faz-me pensar se ele não aceitaria o lugar de Abel Braga no Inter. Também precisamos de uma melhora súbita. Vai lá, Shinik! Aliás, a célebre Holanda de 74 tinha em seu meio de campo um grande jogador chamado Hahn, lembram? Vai que o coreano não aceita?

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10 coisas que deveriam mudar nas salas de concertos. Ou não

10 coisas que deveriam mudar nas salas de concertos. Ou não

Este post é baseado na polêmica opinião do maestro Baldur Brönnimann. Minha tradução é mais ou menos traidora. Traduttore, traditore. Os itálicos são observações minhas.

Johnny Greenwood é guitarrista do Radiohead. Ele publicou recentemente um artigo no qual opinava que a música clássica ao vivo era excludente. Era uma constatação de alguém que vinha de fora do mundo da música clássica. Ele disse que, ao longo dos anos, tem assistido — e realizado — uma série de espetáculos e que, se a música clássica quer atrair um novo público, deve pensar sobre alguns fatos de fora de sua vivência habitual.

Pensando no assunto, o maestro Brönnimann elaborou um decálogo de sugestões. Na sua opinião, sentar em uma sala de concertos e não fazer qualquer outra coisa que ouvir música por duas horas é uma grande e radical experiência. E que há muitas regras e convenções em concertos de música clássica que muitas vezes aceitamos sem discutir e que tornam a experiência de concerto clássico pior do que deveria ser.

Uma Sala de Concerto de Copenhagen | Foto: Divulgação
Sala de Concerto em Copenhagen | Foto: Divulgação

Abaixo, Brönnimann sugere alterações no ritual da música erudita (meus comentários, como já disse estão em itálico):

  1. O público deveria poder aplaudir entre andamentos: Gustav Mahler introduziu o hábito de sentar em silêncio até o final de uma peça e eu acho que, depois de cerca de 100 anos, é hora de mudar isso. Eu adoro quando as pessoas batem palmas entre os movimentos. É uma expressão espontânea de prazer e as pessoas devem se sentir livres para mostrar seus sentimentos em um concerto. Acharia estranho aplaudir nas passagens dos movimentos lentos para os rápidos. É um momento em que, quase sempre, está presente uma tensão a ser quebrada. Acho que os aplausos atrapalhariam. Mas também acho ridículo “não poder” aplaudir. Fico em cima do muro.
  2. As orquestras deveriam afinar nos bastidores: Há algo autenticamente emocionante sobre a audição de uma grande orquestra em uma grande sala. Não devemos estragar o impacto dos primeiros sons de uma peça adiantando muitos desses sons mágicos, de forma aleatória, no início de um concerto. Eles devem emergir de completo silêncio. Teríamos então que equalizar a temperatura do palco e dos camarins. A luz do palco é muito mais quente e desafina os instrumentos. Por isso é que os músicos afinam no palco. Discordo.
  3. Deveria ser permitida a utilização de celulares e dispositivos eletrônicos móveis em modo silencioso: Eu não quero dizer que se permitam fazer chamadas telefônicas, é claro, mas se, ao invés de desligar os aparelhos, as pessoas pudessem tuitar, facebookear, tirar fotos ou gravar em silêncio. Se o espectador compra ingresso, deve ter o direito de registrar o que vê e partilhar com os amigos. Concordo.
  4. Os programas deveriam ser menos previsíveis: As orquestras devem assumir o risco e nem sempre imprimir todo o programa, mas apenas algumas obras-chave. Deve haver um elemento de imprevisibilidade sobre um concerto. Algo inesperado. A surpresa deve vir é da interpretação individual ou coletiva da peça. Discordo.
  5. Deveria ser permitido levar as bebidas para a sala de concerto: Eu gosto de me sentir relaxado em um concerto, ter tempo e não ter que esvaziar o copo rapidamente no intervalo. É uma boa, desde que fossem servidos cálices de vinho ou bebidas em copos. Nada de abrir garrafas ou latinhas. A coisa seria comprara num bar lá fora. Por que não?
  6. Os músicos deveriam falar com o publico no bar ou nos bastidores: Ser capaz de fazer uma introdução oral a uma peça, cumprimentar a platéia ou assinar um programa — isso deveria ser obrigatório para todos os artistas. Pior, muitas vezes o público é impedido de ir aos bastidores depois de um concerto. Todo mundo deve poder falar com os músicos para compartilhar com eles pensamentos e opiniões. Nós não vivemos em uma torre de marfim e devemos falar com as pessoas que amam a música tanto quanto nós fazemos. Seria uma forma interessante de precisamente aproximar a música do espectadores sem perturbar o essencial. Concordo.
  7. As orquestras não deveriam atuar com fraques: Essa é velha. Claro que camisas coloridas seria um exagero, mas os fraques com cauda também são. Há opções muito elegantes de ternos. Uma forma de vestir menos formal ajudaria a reduzir a distância. Concordo.
  8. Os concertos deveriam ser mais fáceis para as famílias: As pessoas com crianças pequenas também querem ir a concertos, mas eles têm que ser capazes de deixar a sala de forma rápida e silenciosa quando os pequenos cansam. As salas de concerto deveriam pensar nas famílias com crianças e dar-lhes assentos prioritários perto das saídas. Os bebês choram e ninguém se importa muito, mas os pais devem ter a possibilidade de irem e virem, porque alguns concertos são longos até para os adultos. Complicado de realizar, não? Discordo. Que chorem à vontade.
  9. As salas de concerto deveriam utilizar tecnologia de ponta: Todos gostariam de ver o artista de perto. Então por que as salas de concertos não usam telas para mostrar detalhes de uma performance? Por que não usamos  amplificação para as salas de concerto de acústica deficiente? Há um purismo desnecessário quanto a tecnologia em salas de concerto. Como artistas criativos, devemos estar na vanguarda do uso da tecnologia de forma criativa. Concordo com reservas. Nada de amplificação, por favor. Amplificação = bagaceirice.
  10. Cada programa deveria conter pelo menos uma obra contemporânea: Temos que voltar a ligar o repertório clássico com nossas vidas contemporâneas, precisamos tocar a música do nosso tempo. Isso não quer dizer que não devemos tocar as obras-primas históricas, mas a música clássica tornou-se uma espécie de “fetichização do passado”, como Alex Ross escreveu em um ótimo artigo sobre a influência de Beethoven na música clássica. Programação das grandes obras do passado ao lado da música do nosso tempo vai lançar uma luz diferente sobre o passado, bem como sobre o presente musical. Nossa salas são museus sonoros. Concordo, a menos que o concerto seja de uma orquestra de época, com violas da gamba, bandurras, vielas de roda, etc. Instrumentos medievais não devem tocar música moderna, é óbvio.

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Uma resenha cheia de dedos: a Ospa, a Sinfonia Concertante de Mozart e a 3ª de Schumann

Uma resenha cheia de dedos: a Ospa, a Sinfonia Concertante de Mozart e a 3ª de Schumann
Um chocolatinho.
Um chocolatinho.

Além de eu gostar muito da obra, tenho uma ligação pessoal com a Sinfonia Concertante para Violino e Viola, K. 364, de Wolfgang Amadeus Mozart.

A primeira e mais simplória das ligações é a ex-tra-or-di-ná-ria obra-prima de Peter Greenaway Afogando em Números (Drowning by Numbers, 1988). A cada um dos afogamentos é tocado o segundo movimento (Andante). O filme é esplêndido. Sério: vi-o mais de cinco vezes. Até hoje tenho vontade de decorar as falas dos personagens.

A segunda é o fato de eu ter escrito uma novela tendo por tema a Sinfonia Concertante. O Violista — lá de 2006, 2007 — conta os dramas de um instrumentista antes de um importante concerto. Sei lá, é divertido.

Mas a mais profunda ligação deu-se depois, em 2012. No dia 19 de agosto, sempre um dia glorioso, ganhei de presente de aniversário uma interpretação do Andante em minha casa, executada por Elena Romanov (violino), Vladimir Romanov (viola) e Alexandre Constantino (piano). Fiquei comovidíssimo com o presente — ideia de Elena após ler a citada novelinha –, mas, no dia seguinte, tomei um susto ao lembrar que a peça refletia o impacto que teve, em Mozart, a morte de sua mãe. Explico duas coisas: (1) na época, minha mãe estava muito mal — faleceu em 31 de outubro daquele ano — e (2) absolutamente nada fazia prever que Elena se tornaria minha namorada. Eu era amigo de uma mulher linda e inteligente e gentil e de humor peculiar. Com intenções nulas, nada indicava um futuro com ela.

Então, voltando, digo-lhes, meus sete fiéis leitores, que a Sinfonia Concertante é uma peça que conheço profundamente. Para muitos, esta peça é o maior dos concertos para violino de Mozart, superando os cinco oficiais. E digo-lhes que não ouvi ainda gravação melhor do que a da dupla sueca Bernt Lysell e Nils-Erik Sparf, feita para a Bis. Se Mozart é o compositor da leveza e da ousadia, Lysell e Sparf acertaram em cheio no tom utilizado. Não é uma gravação pretensiosa e sem erros, é apenas muito musical.

O programa de ontem da Ospa tinha a Sinfonia concertante para violino e viola, de Mozart e a Sinfonia Nº 3, de Robert Schumann. Os dois solistas — Emerson Kretschmer (violino) e novamente Vladimir Romanov (viola) –, da Concertante não costumam postar-se diante do público, normalmente há um maestro entre eles e o povão. Um é spalla dos violinos e outro das violas na Ospa.

E, bem, sabem? Como direi?

É o seguinte: sinto-me impedido de elogiar ou detonar o Mozart de ontem. O violista é o ex-marido de minha namorada e qualquer posicionamento poderia ser interpretado MUITO criativamente. Tenho opinião, sim, mas preferiria enviar um sincero Cartão de Agradecimentos e a caixa de chocolate que ornamenta este post a ele. Afinal, ele foi um dos que provocou a virada mais feliz de minha vida. Como iria reclamar dele ou fazer-lhe um elogio que poderia soar protocolar como uma conversa entre dois embaixadores de nações inimigas? Não quero confusão. E mais não digo.

O primeiro movimento (Allegro maestoso) é lindíssimo e não chega a ser surpresa que George Balanchine tenha coreografado um famoso balé para esta música em que o papel dos solistas é mais de uma conversa entre si e não com a orquestra em geral. É interessante notar que a voz de Mozart seria a da viola. O compositor adorava tocar viola em quartetos de cordas, gostando de estar “no meio”, se me entendem.

A grande “ária” do Andante realça a diferença da sonoridade entre o som de violino e o da viola. É da beleza deslumbrante da peça: é como se o violino fizesse um lamento, sendo consolado pela viola. A alegria do 3º movimento faz-lhe intenso contraste. É um belo concerto e foi bem melhor do que a soporífera execução da Sinfonia Nº 3 de Robert Schumann.

Um músico da orquestra me disse que faltou a linha curva, a surpresa, a abertura de uma garrafa de champanhe. Também disse que a obra do marido de Clara Wieck parecia um carro 1.0 subindo lotado a Lucas de Oliveira. Concordo! Foi opaco, para dormir.

O programa:

Wolfgang Amadeus Mozart: Sinfonia concertante para violino e viola K. 364
Robert Schumann: Sinfonia n° 3

Regente: Tiago Flores
Solistas: Emerson Kretschmer (violino) e Vladimir Romanov (viola)

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Da coragem para não se dobrar: Jordi Savall recusa o Prêmio Nacional de Música da Espanha

Da coragem para não se dobrar: Jordi Savall recusa o Prêmio Nacional de Música da Espanha

O pioneiro da música antiga com instrumentos originais Jordi Savall não aprecia muito as políticas de cultura do governo espanhol e, na carta abaixo, acusou Madrid de “dramático desinteresse e incompetência na defesa e promoção das artes e de seus criadores”. O prêmio dava 30 mil euros e grande prestígio. Jordi, 73, não se vende.

Jordi-SAVALL30 de octubre de 2014

Sr. José Ignacio Wert
Ministro de Educación, Cultura y Deportes
Gobierno de España

Distinguido Sr. Wert,
Distinguidos Señores del Jurado del Premio Nacional de Música 2014,

Recibir la noticia de este importante premio me ha creado dos sentimientos profundamente contradictorios y totalmente incompatibles: primero, una gran alegría por un tardío reconocimiento a más de 40 años de dedicación apasionada y exigente a la difusión de la música como fuerza y lenguaje de civilización y de convivencia y, al mismo tiempo, una inmensa tristeza por sentir que no podía aceptarlo sin traicionar mis principios y mis convicciones más intimas.

Lamento tener que comunicarles pues, que no puedo aceptar esta distinción, ya que viene dada de la mano de la principal institución del estado español responsable, a mi entender, del dramático desinterés y de la grave incompetencia en la defensa y promoción del arte y de sus creadores. Una distinción que proviene de un Ministerio de Educación, Cultura y Deportes responsable también de mantener en el olvido una parte esencial de nuestra cultura, el patrimonio musical hispánico milenario, así como de menospreciar a la inmensa mayoría de músicos que con grandes sacrificios dedican sus vidas a mantenerlo vivo.

Es cierto que en algunas contadas ocasiones he podido beneficiarme, a lo largo de más de 40 años de actividad, de alguna colaboración institucional: la celebración del V Centenario del descubrimiento de América, las pequeñas ayudas a giras internacionales y recientemente las invitaciones del Centro Nacional de Difusión Musical a presentar nuestros proyectos en Madrid. Pero igual que la inmensa mayoría de músicos y conjuntos del país, he seguido adelante solo con mi esfuerzo personal sin contar jamás con una ayuda institucional estable a la producción y materialización de todos mis proyectos musicales. Demasiado tiempo en que las instancias del Ministerio de Educación, Cultura y Deportes que usted dirige continúan sin dar el impulso necesario a las diferentes disciplinas de la vida cultural del Estado español que luchan actualmente por sobrevivir sin un amparo institucional ni una ley de mecenazgo que las ayudaría, sin duda alguna, a financiarse y a afianzarse.

Vivimos en una grave crisis política, económica y cultural, a consecuencia de la cual una cuarta parte de los españoles está en situación de gran precariedad y más de la mitad de nuestros jóvenes no tiene ni tendrá posibilidad alguna de conseguir un trabajo que les asegure una vida mínimamente digna. La Cultura, el Arte, y especialmente la Música, son la base de la educación que nos permite realizarnos personalmente y, al mismo tiempo, estar presentes como entidad cultural, en un mundo cada vez más globalizado. Estoy profundamente convencido que el arte es útil a la sociedad, contribuyendo a la educación de los jóvenes, y a elevar y a fortalecer la dimensión humana y espiritual del ser humano. ¿Cuántos españoles han podido alguna vez en sus vidas, escuchar en vivo las sublimes músicas de Cristóbal de Morales, Francisco Guerrero o Tomás Luis de Victoria? Quizás algunos miles de privilegiados que han podido asistir a algún concierto de los poquísimos festivales que programan este tipo de música. Pero la inmensa mayoría, nunca podrá beneficiarse de la fabulosa energía espiritual que transmiten la divina belleza de estas músicas. ¿Podríamos imaginar un Museo del Prado en el cual todo el patrimonio antiguo no fuera accesible? Pues esto es lo que sucede con la música, ya que la música viva solo existe cuando un cantante la canta o un músico la toca, los músicos son los verdaderos museos vivientes del arte musical. Es gracias a ellos que podemos escuchar las Cantigas de Santa María de Alfonso X el Sabio, los Villancicos y Motetes de los siglos de Oro, los Tonos Humanos y Divinos del Barroco… Por ello es indispensable dar a los músicos un mínimo de apoyo institucional estable, ya que sin ellos nuestro patrimonio musical continuaría durmiendo el triste sueño del olvido y de la ignorancia.

La ignorancia y la amnesia son el fin de toda civilización, ya que sin educación no hay arte y sin memoria no hay justicia. No podemos permitir que la ignorancia y la falta de conciencia del valor de la cultura de los responsables de las más altas instancias del gobierno de España, erosionen impunemente el arduo trabajo de tantos músicos, actores, bailarines, cineastas, escritores y artistas plásticos que detentan el verdadero estandarte de la Cultura y que no merecen sin duda alguna el trato que padecen, pues son los verdaderos protagonistas de la identidad cultural de este país.

Por todo ello, y con profunda tristeza, le reitero mi renuncia al Premio Nacional de Música 2014, esperando que este sacrificio sea comprendido como un acto revulsivo en defensa de la dignidad de los artistas y pueda, quizás, servir de reflexión para imaginar y construir un futuro más esperanzador para nuestros jóvenes.

Creo, como decía Dostoyevski, que la Belleza salvará al mudo (sic), pero para ello es necesario poder vivir con dignidad y tener acceso a la Educación y a la Cultura.

Cordialmente le saluda,

Jordi Savall

via Norman Lebrecht

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Ellington, o nobre, inovador e prolífico duque do jazz

Ellington, o nobre, inovador e prolífico duque do jazz
Duke Ellington: escrevendo e escrevendo música.
Duke Ellington: escrevendo e escrevendo música.

Publicado em 24 de maio de 2014 no Sul21

Duke Ellington era um ser humano de grande elegância. Assistir a uma entrevista sua é encantar-se com pessoa de primeiríssima linha. Era fino e educado. Tanto que, aos 8 anos, recebeu o apelido de Duke, duque, em razão de suas boas maneiras. De uma família negra relativamente abastada de Washington, nasceu em 1899 e morreu em 24 de maio de 1974, há exatos 40 anos. Sua importância para o jazz e para a música em geral é notável. Compositor, arranjador, bandleader e pianista, Ellington gastou trinta páginas de sua autobiografia, Music is my mistress, simplesmente para relacionar suas composições. São duas mil, aproximadamente. E é provável que tenha perdido ou esquecido de várias, pois passou a vida escrevendo música, excelente música, seja no trem, no avião, no camarim, na cama e até em seu piano. Alguns dos temas eram executados apenas uma vez e logo abandonados para dar lugar a outros.

Ellington em concerto
Ellington em concerto

Duke Ellington redefiniu a forma, harmonia e melodia da música americana. Reconhecer uma composição — ou o estilo — de Duke Ellington é fácil. É música negra, muito bem escrita, quase sempre alegre e cheia de nuances, com um fator distintivo fundamental: ele explorava sonoridades novas, juntava instrumentos inusitados, obtendo resultados tão surpreendentes quanto os que alcançaram Ravel e Rimsky-Korsakov, outros mestres em escrever para orquestras de modo a desconcertar o ouvinte com sons insuspeitados. Sua grandeza fez com que tivesse obras encomendadas para o cinema, caso do clássico Anatomia de um Crime, de Otto Preminger, e para orquestras sinfônicas, caso de Arturo Toscanini, que lhe encomendou a Harlem Suite, retrato sinfônico do famoso bairro nova-iorquino.

Também era respeitado entre seus pares. Miles Davis, que sempre foi temido por suas opiniões sinceras sobre seus colegas, disse à Downbeat, quando do 75º aniversário do mestre, que “todos os músicos deveriam um dia se reunir e agradecer de joelhos a Duke”. Também o imenso Charles Mingus devia tanto a Duke , que tem uma dúzia de composições onde este é citado no título, apenas perdendo para as obras de militância dedicadas à causa negra nos Estados Unidos. Como bandleader, Ellington era um regente tranquilo que, após marcar os primeiros compassos, sentava-se ao piano deixando seu sempre incrível grupo de músicos se acharem em meio aos contrapontos que lhes propunha. Poucas vezes um autor experimental foi tão cultuado pelo público, crítica e colegas.

Duke, em 1948, junto com Benny Goodman, assiste a uma de suas grandes parceiras: Ella Fitzgerald
Duke, em 1948, junto com Benny Goodman, assiste a uma de suas grandes parceiras: Ella Fitzgerald

O pai de Duke era mordomo na Casa Branca e sua mãe o mimava ao extremo. Ele começou a estudar piano aos 7 anos, incentivado pela mãe que, mesmo nos períodos mais difíceis, mantinha suas aulas. Porém, não demostrou grande interesse pelo instrumento até os 13 anos, quando conheceu, em uma viagem com mamãe a Atlantic City, o pianista Harvey Brooks, que lhe ensinou alguns truques. Seu primeiro emprego, no entanto, não foi na música. Ele amava o baseball e, para poder ver seus ídolos, arrumou um emprego de vendedor de amendoim. Costumava dizer que esse emprego o ajudou a vencer a timidez, já que tinha de gritar para conseguir seus trocados.

Foto promocional com alguns de seus músicos
Foto promocional com alguns de seus músicos

Em Washington, dois pianistas o auxiliaram muito: Oliver “Doc” Peri e Louis Brown. Eles lhe ensinaram a ler partituras e aprimoraram sua técnica. Entrou para um sexteto chamado “The Washingtonians” que tocava músicas dançantes em bailes. Foi nesta época que começou a carreira de bandleader, quando os músicos do sexteto descobriram que o líder da banda, o banjonista Elmer Snowder, estava roubando dinheiro deles. Expulsaram-no e elegeram Duke o novo líder. Tinha 18 anos.

Um de seus ídolos foi o Fats Waller, que foi fundamental nos primeiros anos de Ellington em Nova Iorque. Com ele, Duke entrou em contato com novos estilos, diferentes do ragtime ouvido em Washington. Em 1923, ele e os “The Washingtonians” tocaram em vários clubes de Nova Iorque e viajaram pelo estado da Nova Inglaterra como uma banda de música de dança que escapava para o jazz, até que em 1927 tiveram a sua primeira oportunidade no gênero. E que oportunidade!

Duke-Ellington

Isto ocorreu quando Joe “King” Oliver exigiu mais dinheiro ao Cotton Club e o lugar de banda residente do clube foi oferecido à banda de Ellington. O Cotton Club era o clube do Harlem de maior nome — virou filme nas mãos de Francis Ford Coppola — e a “Duke Ellington and his Jungle Band” tornaram-se conhecidos em âmbito nacional, pois o rádio transmitia regularmente os shows.

Ali, Duke teve oportunidade de escrever música com total liberdade. Fazia experiências com a tonalidade, puxava os trompetes a notas muito agudas e buscava efeitos dos saxofones. Quando abandonou o Cotton Club, em 1931, já era uma das maiores estrelas negras da América, gravando regularmente para várias companhias discográficas e aparecendo em filmes.

Durante ensaio em Londres no ano de 1973 para um concerto na Abadia de Westminster
Durante ensaio em Londres no ano de 1973 para um concerto na Abadia de Westminster

Nos anos 40, a banda atingiu um pico criativo, enquanto Ellington escrevia para orquestra a várias vozes, isto é, deixando de lado a apresentação de temas em uníssono. Mesmo com a saída de músicos e a diminuição da popularidade do swing, Ellington continuou a encontrar espaço, novas formas e novos parceiros. Ele compunha frequentemente de forma similar à música clássica, como em Black, Brown and Beige (1943), e Such Sweet Thunder (1957), baseado em Shakespeare. Sua composição Diminuendo and Crescendo in Blue — e principalmente a célebre atuação de Paul Gonsalves em 1956 no Newport Jazz Festival – é inesquecível. Durante toda a sua vida escreveu música experimental, gravando não somente com sua especular orquestra — onde a maioria dos músicos permaneciam por décadas — mas como nomes como John Coltrane e Charlie Mingus.

Também compôs para filmes, o primeiro dos quais foi Black and Tan Fantasy (1929), e também para Anatomy of a Murder (1959) que contava com a participação de James Stewart, e onde Ellington apareceu como líder de orquestra, e ainda Paris Blues (1961), no qual Paul Newman e Sidney Poitier apareciam como músicos de jazz.

Louis Armstrong e Ellington se assustam com Paul Newman
Louis Armstrong e Ellington se assustam com Paul Newman

Apesar do seu trabalho posterior ser ofuscado pelo brilho da sua música do início dos anos 40, Ellington continuou a inovar — por exemplo com The Far East Suite (1966) e The Afro-Eurasian Eclipse (1971) — até ao fim da sua vida. Duke foi indicado ao Prêmio Pulitzer em 1965, mas foi não o recebeu, reagindo assim: “O destino tem sido gentil comigo. Não quer que eu seja famoso demasiado cedo”. Ele não precisava do Pulitzer. O que ele fez ao misturar o som de New Orleans, as inovações de Armstrong, os estilos pianísticos do Harlem, o blues, os materiais folclóricos dos negros e as técnicas europeias foi único.

As homenagens a Duke Ellington são inúmeras. Recebeu a medalha da Legião de Honra do governo francês, a Medalha Presidencial da Liberdade do presidente norte-americano, foi o primeiro músico de jazz a entrar para a Academia Real de Música de Estocolmo, e foi honoris causa em inúmeras universidades do mundo.

Mais sério, ouvindo Dizzy Gillespie
Mais sério, ouvindo Dizzy Gillespie

Duke Ellington faleceu a 24 de Maio de 1974 e foi enterrado no Woodlawn Cemetery, no Bronx em Nova Iorque. Um grande memorial a Duke Ellington criado pelo escultor Robert Graham foi-lhe erigido em 1997 no Central Park, Nova Iorque, próximo do cruzamento da Quinta Avenida com a 110th Street, uma intersecção chamada Duke Ellington Circle. Em Washington D.C. existe uma escola dedicada à sua honra e memória, a The Duke Ellington School of the Arts, onde se ensinam músicos promissores que desejam seguir carreira.

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Abaixo, alguns vídeos com Duke Ellington:

https://www.youtube.com/watch?v=9nDnbOraNlE

https://www.youtube.com/watch?v=XNBpMRPfw0A

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Fontes consultadas:

— Gigantes do Jazz: volume de Duke Ellington com texto de Albert McCarthy
Duke Ellington (1899-1974), com texto de Fernando Jardim.
Wikipedia.
— Youtube.

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Ospa na 5ª de Mahler: o homem ideal encontra a mulher fatal

Ospa na 5ª de Mahler: o homem ideal encontra a mulher fatal
Alma Mahler em 1899
Alma Mahler em 1899

A Quinta Sinfonia de Mahler foi composta num momento em que ocorria um rito de passagem na vida do compositor. Ele trabalhava de forma incessante na Ópera Real e da Filarmônica de Viena. Mahler era um workaholic (trabalhador compulsivo). A exaustão levou-o a ser hospitalizado em 1901. A Sinfonia surgiu na virada de 1901 para 1902 — foi revisada algumas vezes, em 1904, 1905, 1907 e 1909 — e estreada em 18 de outubro de 1904, em Colônia, Alemanha, sob a regência do próprio autor.

Mas voltemos a 1901. No final daquele ano, Mahler se apaixonara pela linda e brilhante Alma Schindler (1879-1964), futura Frau Mahler, de 19 anos e 19 anos mais jovem que ele. Como o sofredor profissional que era, Mahler sofria pela possibilidade de encontrar e talvez perder a felicidade. Todo essa explicação é fundamental, pois o que se ouve nos 5 movimentos que tomam os aproximadamente 75 minutos de música da Quinta é uma caminhada das trevas para a luz. Inicia com uma Marcha Fúnebre, passa por um momento de valsa e alegria no terceiro movimento, traz um poema de amor à Alma no quarto movimento — o famoso Adagietto — e termina em festa.

Mahler escreveu para Alma: — “O quanto eu te amo, meu sol! Não posso expressar em palavras meu desejo e meu amor”.

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Talentosa pianista amadora, Alma Mahler deve ter sido mesmo um espanto de mulher, uma verdadeira femme-fatale. Vamos a uma rápida contabilidade: antes de Mahler, Alma já tinha sido namorada de Gustav Klimt. Depois da Morte de Mahler, em 1911, foi esposa ou teve longos casos com Walter Gropius (arquiteto da Bauhaus), com o pintor Oskar Kokoschka e com o escritor Franz Werfel, entre outros. Devia ser uma mulher absolutamente fascinante, ela não apenas casava ou namorava, mas recebia homenagens. Poucas mulheres podem mostrar obras de arte a ela dedicadas pelos maiores artistas do país. No seu acervo, Alma podia mostrar pinturas de Kokoschka e Klimt, composições de Gustav Mahler, manuscritos de Franz Werfel e cartas de amor de Gropius. Imaginem que Kokoschka mandou fazer uma boneca em tamanho real, reproduzindo fielmente Alma em seus íntimos detalhes… Gropius também descreveu quentes noites de amor com ela… Mas seu grande amor parece ter sido Mahler. E ele lhe escreveu o Adagietto.

(Um amigo que leu a autobiografia de Alma Mahler informa: “Gropius mandava cartas com esperma dele dentro para Alma Mahler quando servia na Primeira Guerra Mundial”).

(Em faixa não amorosa, Alban Berg compôs um belíssimo réquiem sob a dolorosa morte de Manon Gropius, a filha de Alma e Walter Gropius, uma jovem de apenas 18 anos, amiga da família Berg. OK, não foi dedicado a Alma, mas “À Memória de um Anjo”).

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A Quinta é uma tremenda sinfonia, mas também é um castigo para os músicos. Longa e complicada, mata as cordas e exige bastante dos numerosos metais. Mahler também costuma tratar grupos de instrumentos como solistas, alternando instrumentações rarefeitas para tonitruantes tutti. Curioso, alguns músicos saíram decepcionados do concerto, apontando os erros que cometeram, mas para o público ficou lindo. E me incluo de forma entusiasmada entre eles. As falhas técnicas foram sobrepujadas de longe pela emoção. A Ospa foi convincente e o grande herói foi Kiyotaka Teraoka. O Jaspion conseguiu.

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O estranho concurso da Ospa (Parte IV – A Banca)

O estranho concurso da Ospa (Parte IV – A Banca)

O crítico tem que educar o público; o artista tem que educar o crítico.
OSCAR WILDE

Verdade. Aprendi muito e me senti muito honrado ao receber diversos textos com opiniões de mestres a respeito de concursos para músicos em geral. Como o fluxo de informações não foi estancado pelo final de minhas publicações — ao contrário! — fico obrigado a elaborar um curto post a respeito das últimas manifestações. Alguns músicos, ao lerem as publicações anteriores e verem garantida a confidencialidade, acharam interessante meterem sua colher no assunto com uma franqueza aparentemente impossível de se usar num ambiente tão pontuado pelo compadrio como o gaúcho ou o brasileiro. (Isto ocorre não somente na música, os escritores também trocam elogios de forma baratíssima). Vi elogiada a minha “coragem” de colocar em discussão algo que não costuma ser tema em nosso ambiente. Grande coisa…

Outra conclusão a que chego é que a maioria dos músicos leram corretamente em minhas manifestações o mais profundo interesse em guindar a orquestra a um patamar artístico superior, fato que permaneceu obnubilado para alguns membros da orquestra que simplesmente não concebem tal interesse. Espero que minha atitude não lhes pareça por demais inusitada. Quero uma Ospa melhor — penso que ela seja deficiente — e acho que melhores músicos mudarão também o perfil cultural da cidade. Além disso, poderão também trabalhar como professores e aumentarão o número de recitais de música de câmara. Enfim, teriam o potencial de arejarem o ambiente musical da cidade, deixando-o mais rico e diverso.

Sigo achando o edital apressado e torto. Obviamente, não sou contra o concurso, mas que deveria ter sido feito antes, que a primeira parte deveria ter obras solo já que não tem piano, deveria ter prazos maiores, deveria ter uma abertura bem clara aos estrangeiros, e, bem… Já disse que tinha ficado muito decepcionado porque nenhum dos “comentaristas” que me mandaram suas opiniões haviam falado numa coisa que considerava fundamental, ou seja, a banca?

julgamento

Claro, já que ninguém falou nela, não devia ser tão importante e recolhi-me ao silêncio. Porém, na quinta e sexta-feira, eu recebi belas explicações sobre a composição de bancas e, se algumas pessoas da orquestra ficaram furibundas com meus posts anteriores, este irá deixá-los dez vezes mais contrariados. E só vou colocar trechos leves.

Um dos discursos é este: “O importante é garantir a entrada dos melhores músicos. A OSPA não tem em sua estrutura membros capazes de formar várias bancas completas de primeira linha. Há bons músicos somente aqui e ali. A sociedade não cobra suficientemente seus secretários de cultura e governadores para que pensem a OSPA como uma grande representante do RS em uma das esferas de produção cultural. A orquestra poderia ser excelente. A banca examinadora pode e deve ter músicos da orquestra, principalmente aqueles de primeira linha, porém os locais não devem jamais formar uma maioria. Isto somente funciona nas grandes orquestras internacionais — aquelas em que os próprios músicos cobram de si mesmos e de cada colega que apresente o seu melhor em cada ensaio e concerto. Não é o caso de Porto Alegre”.

E vem um velho músico aposentado e enfia o dedo ainda mais profundamente: “Acho que os erros de avaliação podem ocorrer não como um pacto combinado, mas como reflexo do referencial pobre dos membros da banca. A maioria não consegue detectar arte de alto nível porque não têm cultura de alto nível. Por isto, a banca deveria ter convidados incontestáveis que formassem maioria em relação aos locais ‘sem horizonte'”.

E outro: “Na Europa, por exemplo, o comum é que cada banca seja formada pelos spallas dos naipes junto com convidados e o regente titular. Os naipes devem assistir e, quando dois ou mais candidatos chegam no final com a pontuação igual, o naipe é perguntado sobre quem cabe melhor no grupo”.

Não lembro de ter lido detalhes sobre a formação da banca no edital. Só lembro do anúncio da banca para o dia 11 ou outro dia. Não se sabe quantos convidados haverá lá. Espero que vários. Se eu estiver errado, bastará explicar calmamente nos comentários. Não estou aceitando ofensas, OK?

Concluo a quarta parte com duas ou três afirmativas. (1) Se o salário da Ospa não é maravilhoso, há estabilidade, o que torna cada vaga objeto de cobiça. (2) Os candidatos serão numerosos e a banca, a ser anunciada em 11 de novembro  — se não me engano –, é fator CRUCIAL para o sucesso do concurso. Espero realmente que haja maioria de autoridades de fora para que não haja isto, tão comum em nossas instituições federais e estaduais — já trabalhei com estatais e sei como é. (3) Mantenho as posições que expus anteriormente. Não li nada que me convencesse cabalmente de que estou equivocado. (4) Com a (lamentável) vitória de Sartori, é provável que o diretor artístico esteja de malas prontas. Sua presença está prevista na banca?

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Concurso Público Ospa 2014 | Aviso aos candidatos estrangeiros?

Concurso Público Ospa 2014 | Aviso aos candidatos estrangeiros?
Mais 24h...
Mais 24h… | Foto: Antonieta Pinheiro

Não tive tempo de examinar, mas o adiamento foi somente por um dia útil. Pouca coisa. E não mudaram mais nada. Deram o aviso em inglês? Como avisar a quem já desistiu? De qualquer maneira, deve ser um aviso ao pessoal de fora. Abaixo, a nota da Ospa no Facebook. E vamos lá, gurizada! Pra cima com a viga!

Os candidatos estrangeiros que não possuem o nº de CPF (Cadastro de Pessoa Física) da Receita Federal do Brasil, deverão solicitar, pelo e-mail [email protected], número de CPF Fundatec.

Este CPF Fundatec não terá validade em território brasileiro como documentação e servirá apenas para a inscrição no Concurso Público da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

O prazo de inscrições para o concurso foi prorrogado até o dia 27! Saiba mais: http://bit.ly/1z3Q8bx

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O estranho concurso da Ospa (Parte III – final: Os Requisitos)

O estranho concurso da Ospa (Parte III – final: Os Requisitos)
Venezuelanos, stay at home!
Venezuelanos, stay at home!

A primeira parte está aqui e a  segunda aqui.

Nas duas primeiras partes, contei com o auxílio de várias pessoas — citadas ou não — que falaram com muita seriedade e conhecimento a respeito do assunto. Finalizo mantendo a seriedade, mas contando apenas com o pouco brilhantismo de minhas opiniões.

Antes de analisar alguns dos requisitos, gostaria de escrever algumas frases sobre a pressa e o momento inoportuno em que ocorre o concurso. E nem falo mais no final do mandato do governo do estado.

O edital foi publicado no DOE (Diário Oficial do Estado) no dia 3 de outubro e o final das inscrições ocorrerá nesta sexta-feira, 24 de outubro, às 23h59. Penso que tudo foi feito dentro da lei, mas fora do bom senso. As provas serão realizadas em novembro, que é uma parte do ano em que todos estão muito ocupados. Também o pequeno prazo torna complicado marcar passagens, cancelar compromissos, etc., para as pessoas de fora de Porto Alegre. E acredito que a Ospa pense em obter os melhores instrumentistas para a orquestra, facilitando ao máximo o acesso ao concurso. As vagas não são milionárias mas há a estabilidade logo ali no horizonte. Por isso, muita gente se interessa. Seria o caso de fazer tudo com mais tempo, acredito.

Bem, a questão dos requisitos é delicada e costuma agredir os brios de muita gente. O primeiro problema é com o item b) no caso de estrangeiros, estar em situação regular no Brasil. Ora, estar em situação regular significa ter visto de trabalho. Ou seja, os que podem participar do concurso são os brasileiros, os estrangeiros naturalizados e aqueles que já estiverem trabalhando no país. Isso exclui o pessoal do Prata e, principalmente, os venezuelanos do El Sistema. Desta forma, podemos ter médicos cubanos, mas não violinistas venezuelanos! Ou seja, o item b) é limitador e, diria, provinciano. A Osesp, para dar um exemplo de alta qualidade no país, faz o mesmo — pois a lei exige, é claro, situação regular no país –, mas dá um prazo para que o estrangeiro regularize sua situação. A Ospa não poderia fazer o mesmo? Outro problema é que o formulário de inscrição da fundatec.org.br só fala português e, para poder chegar até a tela de inscrição, há que se informar o CPF… E há músicos desempregados e orquestras desmanchando-se na Espanha, Itália, etc.

Paradoxalmente, o item d) é extremamente democrático. É assim: podem participar do concurso os que d) possuir(em) escolaridade nível médio completo ou equivalente (estrangeiros) (sic). Tal indulgência extrema é empobrecedora ao não valorizar a educação e a cultura. A falta de uma formação musical acadêmica não deveria ser eliminatória, mas tal formação deveria ser pontuada. A Ospa não dá muita bola, mas creio que não precise explicar para meus sete leitores que educação é uma coisa boa. E talvez não precise explicar que a entrada de músicos de outras culturas melhoram o nível da orquestra, apesar do estado orgulhar-se de seu caráter insular. Não pontuar por títulos, não diferenciar a experiência, a vivência, o conhecimento e a cultura… Desculpem, mas eu ri. Com seriedade.

Faria mais alguns reparos, mas é semana de eleições e as obrigações me chamam.

Antes de terminar, gostaria de acrescentar à Parte I desta série que recebemos um telefonema informando que há 22 pessoas trabalhando na administração da Ospa. Destas, 20 seriam CCs. Pergunto: é verdade? Os espaços para comentários — nosso guichê de atendimento — está sempre aberto para esclarecimentos, elogios, choros, ofensas e bombons.

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O estranho concurso da Ospa (Parte II: Esta é a melhor forma de se avaliar os músicos?)

O estranho concurso da Ospa (Parte II: Esta é a melhor forma de se avaliar os músicos?)
Tocando sem piano... E sem avaliar, ritmo, afinação,
Tocando sem piano… E sem avaliar, ritmo, afinação, fraseado, conjunto…

A primeira parte está aqui.

Como sou um cara chato, fui procurar grandes maestros e músicos com três perguntas debaixo do braço. Eram sobre algumas características da disputa por vagas de músico. Procurei bem longe, é óbvio. Procurei gente que nunca trabalhou em Porto Alegre. Meus sete leitores nem imaginam quais foram os nomes escolhidos. E não vou lhes dizer porque eles não acreditariam. Não, não vou dizer porque sei como funcionam as coisas e garanti confidencialidade. Fiz uma abordagem em inglês, em que só não prometia caixas de bombons. Se me permite, poderia incomodá-lo? Com a intenção de formar minha opinião, estou fazendo algumas perguntas a músicos de destaque. Obviamente, sua resposta ficará em segredo. Sou um experiente jornalista e sei respeitar the confidentiality of sources, which is central to the ethics of journalism. (Apesar de estar num blog…). 

Agradecidíssimo pelas respostas detalhadas, tabulo-as abaixo como minha cara.

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Pergunta Nº 1: A fase eliminatória do concurso prevê a execução de diferentes concertos. Por exemplo, os primeiros violinos e solistas tocarão O 5° Concerto para Violino de Mozart e os segundos e o tutti tocarão o 3º. Os flautistas tocarão o Concerto em Sol Maior, e os fagotistas o Concerto em Si Bemol Maior, K.191, sempre de Mozart. Haverá os concertos de Haydn para violoncelo, etc. (explicitei aqui exemplos das partes da segunda fase). As apresentações, assim como as de outros instrumentos e cantores, serão sempre solo, SEM PIANO. Isto é o habitual ou o candidato deveria ser avaliado tocando em conjunto, como fará na orquestra? E como executar um concerto sem acompanhamento? Não seria mais razoável utilizar obras solo?

As respostas foram mais ou menos iguais: 100% afirmaram que um músico de orquestra deveria ser sempre avaliado com um instrumento acompanhando, pois exatamente dessa forma se pode avaliar afinação, ritmo, fraseado e a maneira como ele se relaciona com o conjunto. Três utilizaram a palavra Ridículo! (com exclamação), outro usou Absurdo!, referindo-se a esta característica do concurso. Na minha opinião, é como avaliar um jogador de futebol apenas com a bola, sem vê-lo em campo com companheiros e adversários.

Pergunta Nº 2: Quem deve formar a banca? Ela deve ser formada por músicos da orquestra ou por músicos ou regentes convidados?

Aqui, houve dois tipos de respostas, 50% para cada lado: (1) dificilmente se convida músicos de fora da orquestra, apenas exceção feita se aquele instrumento não tem representantes em seu próprio instrumento. (2) Devem ser convidados um músico representativo do instrumento e um regente.

Pergunta Nº 3: Temos eleições estaduais e a orquestra é estadual. Isto é, pode ser que o diretor artístico e outros membros do staff — que são cargos políticos na orquestra — mudem no próximo ano. O Sr(a). acha normal que se faça um concurso no final de uma gestão?

Novamente duas linhas de respostas: (1) 50% disseram algo como “Claro que seria mais inteligente esperar a eleição para fazer as audições com o novo maestro titular”. 25% disseram quase a mesma coisa: “O melhor seria que já estivesse na banca alguém que pudesse dar continuidade ao que essa pessoa irá ‘carimbar’. Uma questão certamente complicada”. E 25% escreveram que (2) Talvez a mescla com uma banca convidada de notáveis, juntamente com a comissão da orquestra, atenuasse este “problema”.

Na minha opinião, este concurso está acontecendo fora de hora.

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Esta série deverá continuar com comentários sobre os requisitos para o concurso.

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O estranho concurso da Ospa (Parte I: Onde foram parar aquelas vagas?)

O estranho concurso da Ospa (Parte I: Onde foram parar aquelas vagas?)
Vagas suprimidas | Foto: Antonieta Pinheiro
Vagas suprimidas. Por quê? | Foto: Antonieta Pinheiro

A segunda parte está aqui.

Uma postagem no Facebook de um músico da Ospa que simplesmente divulgava o concurso para 28 vagas para músicos da orquestra desnudou um problema ou uma dúvida. Onde foram parar as vagas administrativas? Em resposta à postagem, que apenas tinha o link para o edital do concurso, sem texto, Maristela Heck, ex-diretora do Departamento de Administração e dos Recursos Humanos (Dearh) do Estado, disse que as vagas para a área administrativa e para os cargos de músicos foram autorizados pela Fazenda há mais de 7 meses. E completou por escrito e publicamente: “Foram autorizadas vagas para todos os cargos da área administrativa. Eu mesma peguei o processo em baixo do braço e convenci o Secretário da Fazenda de que era necessário fazer o concurso, já que foi criado o quadro e a Lei prevê a extinção dos cargos de CCs”.

Sim, a Lei prevê que os cargos administrativos comissionados sejam extintos e que deveria ser realizado concurso público para provimento destes cargos. É claro que não há ilegalidade num concurso que selecione apenas músicos, mas o concurso deveria ser maior.

Ainda duvidando que a Ospa sumisse com vagas para funcionários seus, consultei o membro do Conselho da Ospa Roberto Schmitt-Prym, que respondeu também publicamente no Facebook: “Estava tudo certo, foram autorizadas as vagas para cargos administrativos, para a orquestra e para o coro. É preciso ver o que está acontecendo. Quanto à AFFOSPA, o blog da Associação está parado desde dezembro de 2010”.

Eu é que não sei onde foram parar as vagas. Eu lembro de ter lido na internet uma relação de 10 ou mais cargos administrativos — velha reivindicação da orquestra –, mas não a reencontrei agora. Isto é, não posso comprovar.

Se as vagas foram retiradas da orquestra não seria o caso de parar tudo e retificar o concurso? Repito, acho que não há ilegalidade no ato, mas a lei que criou o quadro e que prevê a extinção dos cargos de CCs não estaria sendo ignorada?

Bem, amanhã exporei mais dúvidas. Estou ainda finalizando minhas consultas. Tenho todo o material mas tenho que organizar algumas coisas. Voltaremos amanhã.

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Porque me retirei da Associação dos Amigos da OSPA

Logo-OSPA

Carta aberta a meus sete leitores 

Hoje foi o dia de receber e-mails me perguntando coisas. É normal. O anormal foi receber uma série de questionamentos acerca de minha não participação no grupo do Facebook chamado Associação dos Amigos da OSPA. Já havia recebido vários outros, mas o número de perguntas cresceu em função do espetáculo que a Orquestra apresentará neste fim-de-semana. Um de vocês me escreveu 3 vezes apenas hoje! Pô, cara! OK, respondo a todos aqui no blog, espaço administrado por mim.

Eu fui um dos moderadores do grupo e, além de só permitir posts que dissessem respeito à orquestra, ali publicava chamadas para os concertos que achava prometedores e para minhas opiniões críticas — elogiosas ou não. Só que a imaturidade de alguns, assim como a de uma moderadora, recebia extremamente mal quaisquer reparos que eu fizesse a um concerto. Eram esperados apenas elogios. Quando não cumpria minha função de mero elogiador, podia e fui chamado de palhaço, idiota, etc. Não vejo problemas. Tenho mais de um blog, vivo no Brasil e estou acostumado às ofensas. Mas as reações de alguns do grupo eram desproporcionais, por demais infantis, chegando às vezes à beira da psicopatia. O baixo controle comportamental parecia ser a regra, inclusive da moderadora. Aqui, vejo problemas, pois houve a invasão de problemas particulares da moderadora para comigo que nunca deveriam aflorar num grupo público. Para minha não-surpresa, logo deixei de ser um dos moderadores e, ato contínuo, deixei de poder postar no grupo. E minhas opiniões passaram a ser rejeitadas. Retirei-me silenciosamente.

Bem, meus caros sete leitores, não sou nada brilhante ou original, mas nasci com teimosia e opinião, infelizmente. Não pensem que o fato de não poder colocar meus humildes links no grupo diminuiu o número de pessoas que leem minhas observações concertísticas. Ao contrário, o número de leitores de meus posts sobre a Ospa aumentou inexplicavelmente. Fora do grupo, também não saí por aí fazendo campanha contra quem me combateu ou contra a moderadora que se candidatou a deputada estadual. Também não aconselhei ninguém a deixar o grupo. Mais: seria uma irresponsabilidade contra-atacar. Vocês sete foram 34 mil visitantes únicos em setembro. É muita gente, fico feliz. Mas é claro que não sirvo mais, pois, como externou equivocadamente um dos músicos, aquele grupo da futura Associação serve apoiar a Ospa, nunca para criticá-la (?). Hum… Pensei que criticar fosse uma das formas mais honestas e francas de apoio a uma instituição.

Sou um melômano de grande experiência como ouvinte. Sei quando as cordas desafinam ou quando bolas batem na trave ou na bandeirinha de escanteio. Sei também que vários maestros acabaram meus amigos, principalmente os melhores e principalmente após receberem críticas negativas. Por outro lado, sou um leigo e conheço a diminuta relevância de minhas observações. Talvez elas devam ser mesmo desprezadas, pois escrevo-as rapidamente, com grande liberdade e colorido de expressão. Há ideologia nisso. Mas algumas coisas eu mantenho para todos os casos: o texto tem que ser legível, informativo, divertido, leve e ousado, sem dobrar-se aos elogios baratos. Todos os meus poros se revoltam contra o compadrio. Não me serve a troca vazia de adulações, o “tu és genial” que aguarda o retorno de um “tu és fabuloso”. Isso só se faz com o filho pequeno quando se deixa que ele nos ganhe no futebol ou com a filha para convencê-la de que é a mais linda. E mesmo assim não devemos exagerar.

Esta é a segunda ou terceira Associação que se forma em torno da Orquestra de Porto Alegre. Nunca elas deram certo. Mas acredito mesmo que um dia a Ospa será como outras (grandes) orquestras e terá uma Associação digna. Pode ser que seja dessa vez, por que não? Espero que a atual dê certo e que fique totalmente afastada de partidos e dos interesses de pessoas partidarizadas. O que importa é a instituição. Sem isso, a Associação será novamente estéril. Quem estiver ao lado da orquestra tem que estar tanto pronto a defendê-la do que a prejudique quanto disposto a apontar publicamente seus problemas. Ou ao menos para seus membros. Hoje, a Ospa detesta discutir problemas. Faz de conta que tudo vai bem.

E eu? Eu, meus caros missivistas, permanecerei como gosto e como sou — um melômano que quer a melhor Ospa possível. E que vai escrever de vez em quando sabendo que, um dia, aparecerão pessoas para tecer criticas e que estas serão ouvidas por gente mais consistente e consequente. Ou tudo vai ficar mais ou menos assim para pior.

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Um longo caminho

Um longo caminho

Numa noite fria do século XVIII, Bach escrevia a Chacona da Partita Nº 2 para violino solo. A música partia de sua imaginação (1) para o violino (2), no qual era testada, e daí para o papel (3). Anos depois, foi copiada (4) e publicada (5). Hoje, o violinista lê a Chacona (6) e de seus olhos passa o que está escrito ao violino (9) utilizando para isso seu controverso cérebro (7) e sua instável, ou não, técnica (8). Do violino, a música passa a um engenheiro de som (10) que a grava em um equipamento (11), para só então chegar ao ouvinte (12), que se desmilingúi àquilo.

Na variação entre todas essas passagens e comunicações, está a infindável diversidade das interpretações. Mas ainda faltam elos, como a qualidade do violino – e se seu som for divino ou de lata, e se ele for um instrumento original ou moderno? E o calibre do violinista? E seu senso de estilo e cultura? E o ouvinte? E… as verdadeiras intenções de Bach? Desejava ele que o pequeno violino tomasse as proporções gigantescas e polifônicas do órgão? Mesmo?

E depois tem gente que acha chata a música erudita…

Henri Cartier-Bresson, Escada Camondo Galata Istambul, 1964
Henri Cartier-Bresson, Escada Camondo Galata Istambul, 1964

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Machado de Assis, a Polca, o Jazz, Shostakovitch e o Pestana

Em um famoso conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, havia um grande compositor de polcas, o Pestana, que queria fazer algo maior, grandioso, mas — que diabo! — só lhe saíam mais polcas. O que fazer? O personagem fazia o maior esforço, passava meses trancado em casa a fim de parir a grande obra, porém não produzia nada além de belas polcas, que logo se tornavam popularíssimas e eram assobiadas pelo povo nas ruas, para desespero do Pestana. Estas eram compostas copiosa e rapidamente. Acabou rico, infeliz e doente. Coitado.

Com Shostakovitch o caso é diferente. Compôs copiosamente obras-primas, tem obra profunda e numerosa, mas, um belo dia, resolveu escrever suítes para grupos de jazz. Vocês podem adivinhar o que aconteceu? Saíram apenas… polcas. Polcas e valsas. Ah, vocês não acreditam? A esplêndida Valsa 2 da Suíte Nro. 2 foi utilizada por Stanley Kubrick na abertura de De Olhos bem Fechados, com um ritmo e um solo de sax que nos obriga a levantar e ensaiar uns passinhos pela sala. É o “Grande Projeto Falhado” do imortal Shosta e, mesmo assim, é muito bom e divertido.

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