O amigo Ubiratan Leal escreveu em seu perfil do Facebook:
A única coisa que me incomodou na polêmica do Jamie Oliver é que as pessoas se doeram todas por causa de brigadeiro. Convenhamos, brigadeiro é superestimado. Eu entenderia uma revolta popular pela crítica do cara ao quindim. Aí é comprar briga!
Poucas vezes li palavras de mais meridiano bom senso. Quando Jamie Oliver fala mal do sublime quindim, ele faz com que eu lembre automaticamente do English Breakfast, verdadeira nojeira, festa da gordura e do mau gosto com a qual os ingleses se refestelam toda manhã. Vou poupá-los até das fotos da iguaria britânica, mas jamais deixaria de colocar uma foto de quindins. Afinal, além de lindos, são gostosos.
Ahhhh, o quindim: o melhor e mais belo doce brasileiro
OK, quando ele fala mal do brigadeiro. Eu até o compreendo. Mas criticar o quindim é como dizer que Machado de Assis era mau escritor, que Tom Jobim era desafinado e que Cândido Portinari era um pintor de rodapés, tudo junto somado. Ou seja, é atacar o pouco que temos de indiscutível.
O quindim é o príncipe dos nossos doces. Mordê-lo é segunda forma mais perfeita de lambuzar os bigodes. Poucas coisas são mais sensuais do que observar o belo espelho amarelo para depois deixar que nossos dentes penetrem lenta e empoderadamente na essência adocicada feita de ovos, até encontrar o bendito coco da base, que diminui a doçura e justifica nossa existência neste mundo.
Assim como o anão escritor que vos escreve, o poeta Mario Quintana (1906-1994) era um grande admirador do quindim. Ele o consumia ritualmente com um café sem açúcar. O nome quindim é de origem africana e significa dengo ou encanto. Tem como ingredientes gema de ovo, açúcar e coco ralado. A receita que utiliza o coco ralado é originária do nordeste brasileiro, diferente da receita portuguesa.
Jamie Oliver, com todo o respeito, vá emagrecer no raio que o parta.
… que À-TOA (com hífen) é sem-vergonha, puta, essas coisas, enquanto que À TOA significa sem rumo, como o Chico de A Banda?
… que INCIPIENTE é iniciante, enquanto INSIPIENTE é ignorante?
… que CERRAÇÃO é com C, vem de cerrar, fechar, e não vem de serra?
… que ESTADA é permanência de alguém, enquanto ESTADIA é a permanência paga de um navio no porto?
… que EM PRINCÍPIO é em tese e A PRINCÍPIO é no início?
… que ACERCA DE é a respeito de, A CERCA DE é a alguma distância e HÁ CERCA DE é faz aproximadamente (em sentido de tempo)?
… que soprano e contralto, apesar de cantoras, são substantivos masculinos?
… que o correto é PRETENSIOSO e não as suas variantes tão utilizadas por aí?
… que você deixa seus livros na ESTANTE e os deixa em exposição ou feira num ESTANDE?
… que, segundo a Nova Ortografia, tanto faz escrever GRÊMIO ou GRÉMIO, pois os dois estão corretos, têm a mesma pronúncia e referenciam o mesmo time do bairro Uma e tá?
Entre 2010 e 2014, a inflação acumulada foi de 26,7%, mas nossos deputados tiveram um aumento de 101,7% em seus patrimônios. O valor global de bens declarados à Justiça Eleitoral, subiu de R$ 26,3 milhões em 2010 para R$ 53,1 milhões neste ano. Foi um aumento de 101,7%.
O Homem do Tempo, o deputado Paulo Borges, do DEM, foi o que teve a maior variação percentual: 952,2%, passando de R$ 70,6 mil para 742,6 mil. Sua assessoria informou que o ele financiou uma casa e um veículo de alto valor neste período. O parlamentar que teve o incremento mais expressivo em valores absolutos foi Paulo Odone (PPS), cujo patrimônio saltou de R$ 1,8 milhão para R$ 8,7 milhões — uma alta de 377,6% no período.
Fico feliz por eles. Com subsídio mensal de R$ 20.042,34, sem incluir benefícios como a “ajuda de custo” (duas parcelas no valor do subsídio mensal, uma no início outra no final do mandato), um deputado estadual recebe pouco mais de R$ 962 mil em quatro anos.
Já os deputados federais não pouparam tanto assim. O valor dos bens declarado à Justiça Eleitoral pelos 29 deputados federais gaúchos que concorrerão nestas eleições aumentou, em média, apenas 69,93%, passando de R$ 17,4 milhões em 2010 para R$ 29,6 milhões em 2014. Bah, que vergonha!
Sem dúvida, o suíço Nicolas Rauss é um excelente regente. Trabalha em Rosário, na Argentina, desde 2008, o que explica nosso título. Ontem, para além dos raios e da chuva lá fora, o concerto do Ospa foi cheio de contratempos — até um microfone, que ficou aberto por um erro operacional, começou a cuspir ruídos pelas caixas bem no coração da Sinfonia de Schumann, a qual teve de ser interrompida! –, mas a música sempre saiu soberana. Rauss viu coisas em Villa-Lobos que estão fora de nosso padrão de deixar nosso maior compositor descer a ladeira na banguela. E Carrara tocou muito. E Rauss fez um grande Schumann. E o suíço gingou e dançou com Gnatalli e Villa. Eu vi. Todos os que estavam lá viram.
A noite começou com o Concerto Noel Rosa para piano e orquestra (1978), de Radamés Gnattali. Seus movimentos são arranjos sobre três clássicos de Noel: As Pastorinhas, Feitio de Oração e Conversa de Botequim. André Carrara esteve perfeitamente à vontade, principalmente na melhor das peças, uma encantadora Conversa de Botequim, onde pode demonstrar uma antes insuspeitada faceta: a do jazz sem glúten by Carrara. Um belo início de concerto.
Mais ambiciosa, depois veio a Bachianas Brasileiras nº 2 (1930), de Heitor Villa-Lobos. Não sou muito apaixonado pela obra, feita de movimentos rearranjados a partir de peças mais antigas, escritas originalmente para piano solo ou para violoncelo e piano. Nos três primeiro movimentos, eu ouvia a música com meia atenção. Na verdade, estava observando os músicos da Ospa, desejando saber quais deles eram ou tinham se filiado ao PP ou a um de seus coligados nas próximas eleições estaduais. Não, não desejo a Ana Amélia nem ao pior de meus inimigos, mas sei que quem tiver feito isso, é sério candidato a um CC, creio. Deus me livre!
Mas voltamos a Villa. Não dá para negar que as locomotivas suíças são mais velozes e confortáveis do que os trens do interior do Brasil. Rauss acelerou o O Trenzinho do Caipira já de cara, ficando muito mais próximo da interpretação cantada por Edu Lobo (com letra extraída do Poema Sujo de Ferreira Gullar) no disco Camaleão, do que do comum dos regentes. A ousadia foi premiada, a peça ficou linda e a Reitoria do UFRGS veio abaixo em aplausos.
Após o intervalo, tivemos a ultra-romântica Sinfonia Nº 4 de Robert Schumann. Restabelecidos do choque — jamais Schumann deveria suceder Villa — pudemos até curtir a complexidade da obra que não foi, cronologicamente, a última sinfonia a ser composta por Schumann e sim a segunda. Tal como a primeira, a sinfonia foi composta em 1841, mas a sua instrumentação foi revista em 1851 (quando já tinham sido estreadas a segunda e a terceira). O seu título original dizia Fantasia Sinfônica. É a mais original das sinfonias de Schumann, uma vez que os quatro andamentos se encadeiam sem interrupção, pondo em prática o procedimento cíclico que viria a ser utilizado depois por outros compositores, onde os temas vão reaparecendo ao longo dos vários andamentos.
A Ospa foi digna de uma obra difícil e estranha, que parece mais adequada ao piano do que a uma orquestra. Pois, não adianta, Schumann escrevia para orquestra pensando em seu piano.
A dicotomia tipicamente gaúcha foi exportada para a política nacional faz mais de uma década. O Grêmio e o Inter, a noite e o dia, o bem e o mal, o preto e o branco, deus e o diabo, o céu e o inferno, o PT e o PSDB. Isso é empobrecedor demais. A Veja e assemelhados fazem seu discurso de ódio ao PT, enquanto vários pequenos veículos e blogs respondem. Um trata de demonizar o outro em exageros espetaculares, como se o mundo se resumisse a detestar a Dilma ou o Aécio.
No entanto, há mais coisas no ar. Houve uma bancada que conseguiu enorme projeção no primeiro mandato de Dilma: a Bancada Evangélica. Segundo dados da própria Frente Parlamentar Evangélica, nas eleições de 2010 a bancada cresceu de 46 deputados (9% do total da Casa) para 68 deputados (13,2% do total), um crescimento de quase 50%. No Senado, os evangélicos têm 3 representantes: Walter Pinheiro (PT-BA) da Igreja Batista, Magno Malta (PR-ES) da Assembleia de Deus e o bispo Marcelo Crivella (PR-RJ), um ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.
Os evangélicos cresceram tanto que o comando da campanha à reeleição de Dilma Rousseff está preocupado com o voto deles, um eleitorado que representa 22,2% da população, ou 42,3 milhões de brasileiros, segundo o último Censo do IBGE. Agora será mais difícil conquistar esse eleitorado, sobretudo diante da candidatura de um de seus representantes, o Pastor Everaldo Pereira, do “Partido” Social Cristão (PSC) e da Assembleia de Deus. Em seu primeiro dia de campanha, Everaldo anunciou que criará o Ministério da Segurança Pública. E disse: “Com a Bíblia e a Constituição Federal nas mãos, inicio aqui, com Fé, minha caminhada para mudar o Brasil de verdade”. Assim vai nosso Estado Laico.
Dei uma passada no Facebook, blog e site do pastor. É de um retrocesso constrangedor. Inverdades vendidas como “verdades” e mais ódio, ódio e ódio à, digamos o termo exato, felicidade. Os evangélicos preveem um maior crescimento nestas eleições. Pensam que aumentarão em 30% sua presença no Congresso. Já há partidos políticos que se colocam frontalmente contrários ao Estado Laico, casos do PR e PSC. As mulheres e os homossexuais que se preparem, ainda mais que as leis de financiamento de campanha nunca são alteradas. Os caras têm grana e Everaldo já teria 4% dos votos, segundo as pesquisas. Isso sem contar com Marina Silva, vice de Eduardo Campos, terceiro colocado nas pesquisas.
Aberrações como o tal Estatuto do Nascituro — com sua consequente proibição do aborto –, cura-gay, homofobia, retirada da diversidade de gênero do Plano Nacional de Educação, o impedimento do kit gay — que foi retirado do MEC por Dilma e que era apenas um kit educacional contra a homofobia — e outros fatos foram os primeiros passos contrários a um Estado Laico onde a religião seja uma escolha íntima, uma necessidade pessoal. O que virá? Olha, me cago de medo dessa gente.
Vou começar minha cartinha de hoje combinando duas coisas contigo: (1) o Flamengo é muito ruim e (2) quando a gente está jogando mal, pode se atrapalhar até com times ruins. Minha mãe já ensinava que, quando a fase é ruim, até peido descadeira. Não foi nosso caso.
O jogo foi fácil. Tá certo que o time ficou todo enrolado quando viu Aránguiz sair de campo. O chileno jogava bem como sempre. Só que o Fla é tão ruim que viramos o primeiro tempo vencendo por 2 x 0, mesmo sem mostrar nenhum brilhantismo. O segundo tempo sim: jogamos muito melhor, beneficiados pela expulsão de Chicão.
Mas, Abel, olha só: deu para notar claramente que o Alan Patrick não está jogando nada naquele meio-de-campo. Ele está lento como o Ademir da Guia, porém sua velocidade de raciocínio não é a do Divino, é a do Alan Patrick mesmo. Está se achando craque, tanto que encostou uma bola para dentro do gol aberto do Flamengo, dando tempo a um zagueiro para impedir o evento consagrador. Acho que ele quer voltar para a Ucrânia, para o Shakhtar Donetsk, num voo da Malaysia Airlines. Esse Wellington Silva, o lateral, até que joga bem para um estreante, mas ainda não emprestaria meu cachorro para passear com ele. E o Wellington volante… Melhor deixar de lado, é uma dessas paixões inexplicáveis que os técnicos contraem. Ele me lembra o Michel. (Por onde anda?) Ah, ia esquecendo do Rafael Moura! Como disse o respeitável senhor que sentou a meu lado na arquibancada, era o jogo para ele se consagrar. Fez um e perdeu três gols feitos, mas feitos mesmo.
Olha, tchê, com tantas críticas a jogadores — e tu sabes, Abel, o quanto que são justas! — a gente fica com medo. Sou cachorro desses que chegam com o rabo entre as pernas, sabendo que no fim vai apanhar. São 35 anos sem vencer um Brasileiro e sei que ou a gente faz logo umas trocas ou vamos ficar ali no nosso lugar cativo: entre o 6º e o 10º lugar.
Abre o olho, Abel.
Boa semana de treinos. De treinos, tá? Larga o trago.
Em primeiro lugar, talvez devesse dizer que vejo futebol sem som na TV. SEMPRE.
Ouço música enquanto vejo o jogo.
Talvez eu vá ao estádio pela beleza plástica do jogo ou de sua tática (na TV não é tão bonito, nem tão interessante), mas talvez vá pela beleza do gramado, iluminado pelo sol ou pelos holofotes em jogos noturnos, ou quem sabe apenas por amor à disputa e ao Inter, mas acredito que a verdadeira razão é a de que o futebol é um gênero de espetáculo que produz maior variação de humores e participação do que qualquer outro que conheça. Por exemplo, se você for a um concerto, provavelmente não poderá ofender o artista ou, num museu, será no mínimo estranho se começar a vaiar o quadro. Vou a muitos concertos; sei que escolho bem e, quase sempre, saio feliz. Às vezes, ele é apenas aceitável. Há possibilidades bem tristes, é claro, porém elas raramente incluem a vaia, chamar o artista de filha-da-puta ou a disposição de odiar o time e odiar a si mesmo a ponto de desejar a própria derrota – em outras palavras, de desejar o próprio fracasso.
Estou enrolando para dizer isso: um concerto ou qualquer outro espetáculo que aconteça dentro de um teatro são representações mais incompletas da vida do que um jogo de futebol. Pronto, disse! Talvez não consiga dormir hoje. Os fantasmas de Shakespeare, Pirandello, Tchekhov, Bergman, Wagner (ai que medo!), Sófocles e de tantos outros me perturbarão a noite. Sei que os aspectos culturais envolvidos fariam o futebol perder de goleada nos primeiros minutos de uma discussão, mas experimente olhar de frente para uma torcida de futebol com o jogo se desenvolvendo às nossas costas. O sofrimento, a alegria, a expectativa, a frustração e quase todos os sentimentos são coisas presentes, visíveis quase a ponto de serem fenômenos físicos. Talvez até o amor romântico tenha representação no futebol… No teatro elisabetano – época de Shakespeare -, os assistentes manifestavam-se, podiam gritar e fazer piadas sobre Otelo, Iago e Desdêmona, mas, hoje, fazer isto seria uma tremenda falta de educação e eu até concordo. Pô, já imaginaram um cara berrando ao nosso lado, fazendo-nos perder as falas?
A possibilidade de amar, de ser indiferente ou de detestar o próprio time, de ridicularizar e sentir medo do adversário, de aplaudir ou desejar a própria derrota é exercida plenamente apenas quando estamos no estádio. Não sinto e, mais, acharia ridículo sentir tanta coisa na frente da TV. A maravilha está no campo de batalha e no leque de opções por ele oferecidas. Na proximidade do fato e no oscilar entre o píncaro da glória e o possível funeral está o fascínio da coisa.
Acho que a narração da TV deveria ser substituída pelo simples som ambiente do estádio. Sério! Apenas ele, o som, os gritos e cantos da torcida, quiçá o som da casamata com as ordens, palavrões e lamentações dos técnicos. Quem sabe umas mensagens escritas, indicando o tempo de jogo e as substituições. Sim, sei que sou lido por vários jornalistas e eles poderiam (e até deveriam) chamar o sindicato para intervir num caso desses, mas quando lembro de Galvão Bueno e alguns “famosos alguéns” de nosso Rio Grande, fico com esta posição.
Por Paulo Moreira* Publicado no Sul21 em 28 de setembro de 2013
Foto: divulgação
Lembro bem do dia em que Miles Davis morreu. Era um sábado e eu estava em casa com as minhas filhas quando a notícia surgiu no Jornal Nacional com aquela brevidade bem estilo Globo. Fiquei atônito. E fui ouvir os meus discos. Um deles, o álbum duplo Get Up With It, tinha uma história particular. Lá por 82, 83, eu e os meus amigos de sempre, Mauro Magalhães e Marcelo Jardim, tínhamos feito uma excursão exploratória no subsolo da Yes Discos, lá na esquina da Borges com a Salgado Filho. Alguém tinha nos dito que havia uma liquidação de discos de jazz. E eu encontrei esta pérola, importada, a um precinho camarada. É claro que comprei. Qual não foi a surpresa ao me deparar com o que estava naquele LP. Uma música densa, muito percussiva e com o Miles tocando órgão (!!!) ao invés do seu habitual trompete. De qualquer maneira, a música me intrigou. O disco era uma homenagem ao grande mestre Duke Ellington e a primeira faixa era uma viagem de mais de 30 minutos chamado He Loved Him Madly, ou seja “Ele o amava loucamente”, que era o sentimento de Miles em relação ao grande Duke.
Miles Davis em foto de Jan Persson
Recentemente, esta história teve seu círculo fechado. O flautista da canção, Dave Liebman, esteve em Porto Alegre para fazer um concerto com o Edu Martins Trio e a OCTSP. Numa das conversas que tive com Liebman, ele contou que Miles, ao saber da morte de Duke, lhe disse que deveriam fazer alguma coisa musicalmente como um tributo ao mestre. Um mês depois, Liebman foi chamado aos estúdios da Columbia por Miles que lhe disse: “pegue sua flauta e toque alguma coisa”. O músico lhe atendeu e Miles deu por encerrada a gravação. Qual não foi a surpresa de Liebman quando o LP foi lançado. Seu solo de flauta se estendia por incontáveis minutos, obra do grande parceiro e “montador” dos discos de Miles da década de 70, o saxofonista e produtor Teo Macero. Assim funcionava a mente musical de Miles Davis. Um gênio que muitas vezes, mostrava as outras facetas — nem tão bonitas e agradáveis — de seu caráter aos músicos, ao público, à crítica e à Polícia de Nova Iorque.
foto: divulgação
Nascido em Saint Louis, filho de uma família de classe média — uma raridade na década de 20 –, Miles Davis ganhou seu primeiro trompete aos 13 anos. Foi descoberto pelo também trompetista Clark Terry e foi estudar na Julliard School of Music, em Nova Iorque. Em plena era do bebop, o jovem trompetista foi fisgado pelos sons de Dizzy Gillespie e, especialmente, de um saxofonista alto que estava fazendo sua particular revolução no jazz: Charlie Parker. Logo, estava tocando no quinteto do saxofonista e gravando com o baterista Max Roach e com os pianistas Bud Powell e John Lewis. Inquieto como sempre foi, Miles tinha um jeito diverso, mais relaxado, de tocar o frenético bebop. E, ao se juntar ao sax barítono Gerry Mulligan e ao arranjador canadense Gil Evans, perpetrou sua primeira revolução na história do gênero: o Cool Jazz, em gravações avulsas com noneto que, com o surgimento do long-play, foram reunidas num volume chamado The Birth of the Cool.
Porém, esta primeira revolução seria seguida de um período difícil de luta contra o vício da heroína. Para se livrar da droga, Miles voltou a Saint Louis, se enfurnou na casa da fazenda de seus pais e só saiu de lá depois de passar pelo cold turkey, a temida síndrome de abstinência. Ao voltar para Nova Iorque, juntou-se a um grupo de jovens músicos muito talentosos que marcariam o seu primeiro grande quinteto: John Coltrane (sax tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo acústico) e Philly Joe Jones (bateria). Com eles, gravou grandes discos para dois selos diferentes: Prestige, onde estava contratado, e Columbia, para onde foi “desviado”. Para cumprir o contrato com a primeira, teve de enfrentar duas monumentais sessões de gravação que resultaram nos discos Relaxin’, Workin’, Steamin’ e Cookin’, verdadeiros paradigmas da música que se fazia na época.
Ele desfez o primeiro grande quinteto porque Coltrane e Philly Joe Jones estavam mergulhados na heroína. Ele tinha largado e, no horizonte, estava disponível seu velho amigo Gil Evans. Com ele, Miles gravou três discos em sequência que se inscreveram na história do jazz como exercícios estilísticos com uma big band: Miles Ahead (1957); Porgy and Bess (1958); Sketches of Spain(1959/60). Mais adiante, a Columbia lançou outras gravações num LP, aí flertando com a bossa-nova e com a música brasileira, chamado Quiet Nights (1962). Sempre ranzinza, Miles reclamou deste lançamento, dizendo que era apenas meio álbum. No meio de tudo isso, o incansável Miles reformou seu quinteto, trazendo de volta Paul Chambers e John Coltrane (já recuperado do vício da heroína e começando a atravessar uma fase mística), buscando na Flórida um professor e saxofonista alto chamado Julian Adderley que, de tão gordo, era chamado de Cannonball (bola de canhão), o baterista Jimmy Cobb e a suprema heresia para o público negro: um pianista com cara de professor de matemática de colégio, Bill Evans.
foto: divulgação
Gravou então o que é considerado, hoje em dia, como um dos maiores — se não o maior — disco da história do jazz: Kind of Blue. Tanto Miles quanto Evans estavam intrigados com os experimentos sonoros do compositor e arranjador George Russel com a música modal. Neles, eram usados modos ao invés de progressões de acordes para liberar os solistas. E com um time daqueles, o resultado só poderia ser um clássico da história da música. O problema é que cada um dos músicos participantes tinha seus próprios planos. Evans com seu trio, Cannnoball com seu quinteto e Coltrane com o quarteto.
De 1960 até 64, Miles procurou incansavelmente um novo grupo de músicos que se adequasse ao seu estilo de tocar. Passaram pela banda os saxofonistas George Coleman, Hank Mobley, Sonny Stitt e Joe Henderson. Esta busca terminou quando um baterista de 17 anos chamado Tony Williams e um pianista de 23 chamado Herbie Hancock entraram para a banda que já tinha o baixista Ron Carter. Faltava o saxofonista. Que estava tocando com Art Blakey & The Jazz Messengers: Wayne Shorter. Quando este aceitou o convite, formou-se então o segundo grande quinteto da carreira de Miles. Durante cinco anos, este grupo barbarizou o mundo do jazz com seu “freebop”, um hard bop com pitadas de modal jazz. Entre os discos gravados por este grupo, destacam-se Neffertiti e Sorcerer, ambos de 1967. Mas a inquietude de Miles não dava tréguas.
Fã confesso dos experimentos eletrônicos do Karlheinz Stockhausen e do rock de Jimi Hendrix (com quem quase gravou), além do soul de Sly and Family Stone e James Brown, Miles resolveu adotar a linguagem elétrica nos seus trabalhos. Trouxe da Inglaterra o baixista Dave Holland e o guitarrista John McLaughlin, acrescentou à mistura os pianistas Chick Corea e Joe Zawinul, ambos pilotando os recentes pianos elétricos Fender Rhodes, e o baterista Jack DeJohnette. Com eles, gravou o disco In a Silent Way (1969), seu primeiro grande experimento elétrico. A consagração viria no mesmo ano com o seminal Bitches Brew, um marco na história do jazz, incorporando as sonoridades do rock ao jazz, utilizando instrumentos elétricos e inaugurando uma nova fase no gênero, o jazz-rock. Este disco é tão importante para o desenvolvimento do jazz que cada instrumentista foi fazer seu próprio trabalho. Wayne Shorter, Zawinul e Airto Moreira fundaram o Weather Report. Já Chick Corea se juntou ao baixista Stanley Clarke e ao saxofonista e flautista Joe Farrel e montou o Return to Forever. John McLaughlin já havia participado do grupo Lifetime com Tony Williams e criou a lendária Mahavishnu Orchestra. Hancock e o claronista Bennie Maupin formaram o Headhunters.
foto: divulgação
E Miles seguiu em frente, experimentando cada vez mais durante os cinco primeiros anos da década de 70. Nos discos desta fase, destacam-se o já citado Get Up With It e On the Corner. Mas, em 1975, a máquina começou a enguiçar. Anos de uso de drogas mais um problema no quadril fizeram Miles sair do circuito por cinco anos e se entocar na famosa casa de Malibu, palco de histórias que não devem ser contadas para as crianças. Ele só voltou em 1981, ajudado pela atriz Cicely Tyson, com quem havia retomado o relacionamento, e escudado pelo baixista Marcus Miller, responsável por grande parte da música nos seus últimos dez anos de vida. Seu retorno foi morno com The Man With the Horn, mas o negócio esquentou com o disco ao vivo We Want Miles (1982) e Star People, uma investigação do blues pela ótica de Miles Davis.
Seus últimos anos de vida foram marcados pela polêmica em que se envolveu com o também trompetista — e jovem adversário na Columbia Records — Wynton Marsalis. Representante da turma dos neoclássicos, Wynton desdenhava os experimentos estilísticos de Miles, afirmando que “aquilo não era jazz”. Arrogante como sempre, Miles mandou o guri calar a boca, dizendo que ele era “um jovem legal, apenas confuso”. Os discos foram se acumulando: You’re Under Arrest (1985); Tutu (1986), fruto de seu novo contrato com a Warner Brothers; Amandla (1987) e o derradeiro Doo-Bop (1991), um experimento com o hip-hop. Miles Davis morreu de pneumonia e insuficiência respiratória em 29 de setembro de 1991. Postumamente, foi lançado um disco feito meses antes de sua morte no Festival de Jazz de Montreux, quando o maestro Quincy Jones montou uma orquestra para regravar os arranjos de Gil Evans. Miles participou de algumas faixas, mas já estava doente.
Uma lenda da música do Século XX, Miles Davis foi um dos mais importantes músicos de jazz de todos os tempos ao lado de Duke Ellington e Louis Armstrong. Ele passou por várias revoluções na música, começando com o bebop dos anos 40, o cool jazz no início dos anos 50, a música modal do disco Kind of Blue e o jazz elétrico dos anos 70. Além disso, passeou por inúmeros estilos, sempre deixando impressa sua marca de trompetista e bandleader. Seu modus operandi era o de juntar sempre os melhores e dar espaço para que seus talentos pudessem acrescentar qualidade à sua música. E nisso ele foi mestre. Poucos líderes tiveram à sua disposição nomes como John Coltrane. Phlly Joe Jones, Paul Chambers, Bill Evans, Cannonball Adderley, Herbie Hancock, Tony Williams, Wayne Shorter, Chick Corea, Joe Zawinul, John McLaughlin, Dave Holland, Jack DeJohnette, Lenny White, Bennie Maupin, Dave Liebman, Keith Jarrett, Marcus Miller, Mike Stern, Al Foster, John Scofield, Branford Marsalis, entre muitos outros. Nestes 22 anos sem Miles, a música ficou certamente mais pobre.
foto: divulgação
* Paulo Moreira é jornalista e radialista há 32 anos. Apresenta diariamente há 14 anos na FM Cultura o programa SESSÃO JAZZ, que vai ao ar de segunda a sexta, das 20h às 22h. Além disso trabalha na Coordenação de Música da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, na assessoria de imprensa e na curadoria dos projetos “Sons da Cidade” e “POA Instrumental”. Tem duas filhas, uma neta e, especialmente, é colorado.
Abel, já te disse e não vou mais repetir: estás muito gordo.
E olha, meu amigo, no futebol, eu acho que só fiz uma coisa nos últimos quatro anos: esperei que a Era Luigi terminasse. E isso ocorrerá finalmente em dezembro. Este retorno ao Brasileiro tem a tua cara, Abel, mas também a de nosso presidente. Confessa, a folga da Copa do Mundo foi uma espécie de licença-prêmio, né? Vocês só fizeram treinamentos leves e bate-papos. Viram bem a Copa e não ensaiaram nenhuma jogadinha nova, acertei? Confirma, vai.
Nos jogos-treino do Inter, contra Metropolitano, Joinville e Novo Hamburgo, perdemos duas e empatamos uma. Foram jogos feios, com expulsões e tudo. Aquilo já cheirava mal, mas estávamos mais atentos à queda do Brasil na Copa. Ontem, em nosso primeiro e importante jogo oficial, conseguiste errar na escalação após dois meses “observando o time”. Escolhido por ti pelo espetacular rendimento nos treinos, João Afonso errou passes, esteve perdido, tomou cartão, deixou espaços e teve que ser substituído ainda no primeiro tempo por Cláudio Winck. Só que aí já estava 2 x 0 para Corinthians. Foram dois gols em dois minutos, lembrei do Felipão.
Não ouvi tua entrevista de final de jogo — não quis ouvir, entende? –, mas espero que tu não tenhas demonstrado laivos de orgulho por ter arrumado o time com a mudança e sim tenhas sugerido alguma tristeza pela má escolha. De resto, teu time esteve lento, deprimido, previsível, frouxo e sem centroavante. E o pior é que fiz check-in para ver Inter x Flamengo no Beira-Rio… Abel, o Flamengo é o lanterna do Campeonato, vê bem o que tu vais fazer!
Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Caxias auxilia os ganeses a encaminhar documentos | Foto: Rafael Lopes/ Câmara de Vereadores de Caxias do Sul
Minha namorada é uma brasileira nascida em Mogilev, na Bielorrússia. Eu sou um brasileiro neto de portugueses nascidos numa pequena localidade próxima de Aveiro, em Portugal. Minha namorada chegou aqui com menos de 30 anos de idade, é altamente qualificada e logo conseguiu emprego. Depois, fez concurso para uma orquestra sinfônica, obtendo vaga. Meu avô, de formação menos sofisticada, chegou mais ou menos com a mesma idade e trabalhou como estivador em Porto Alegre. Depois, o velho Manuel abriu sua padaria, chamada Lisboa.
Nossos imigrantes adoram contar histórias fantasiosas de suas famílias. A maioria delas é absolutamente mentirosa. O pessoal veio para cá porque era pobre. Muitos passaram fome. Ninguém era nobre nem tinha ligações com a realeza. Somos quase todos imigrantes recentes. A maioria de nós, brasileiros, somos netos e bisnetos de famílias pobres europeias que estão aqui há menos de dois séculos. Se não somos descendentes de europeus, somos descendentes de escravos que chegaram antes dos primeiros por aqui.
Acho triste, acho revelador de pobreza de conhecimento de sua história familiar e do Brasil, quando alguém reclama dos haitianos, dos médicos cubanos e agora dos ganeses. Somos quase todos imigrantes. E recentes.
Além do mais, quando se torce o nariz — especialmente para os que chegam dos países citados acima — há racismo embutido. E há também o preconceito de classe. Afinal, haitianos, cubanos e ganeses são gente normalmente pobre. Assim como meus parentes, eles passavam fome no local onde nasceram ou moravam. Que coincidência, não? Se fossem brancos europeus, talvez fossem saudados como pessoas do primeiro mundo reconhecendo boas possibilidades em nosso país. Já li reportagens ufanando-se disso.
Há imigrantes que, como os haitianos, cubanos e meu avô, vieram simplesmente buscando oportunidades, mas há aqueles que vieram atender nossas necessidades de mão-de-obra. Seus fluxos migratórios atendem à demandas por força de trabalho no Brasil, onde determinadas ocupações já não são preenchidas apenas por brasileiros, como operários da construção civil, empregadas domésticas, costureiras, etc.
A imigração é um fenômeno mundial, assim como a exploração das fragilidades dos imigrantes. Assim, devem ser protegidos e auxiliados. O fato da maioria de nossos antepassados ter sido explorada quando aqui chegou é mais um motivo para tratarmos bem os que, agora, chegam em busca de sustento para construir nosso país. Esse papo crescente de ajudar os brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, do está ruim sem vocês, pior com vocês, é de uma tolice vergonhosa. Ainda vindo de quem não suporta o Bolsa-Família…
Não penso que o velho Manuel tenha vindo para o Brasil a fim de roubar o emprego de algum brasileiro que chegou um pouco antes. Não gostaria de pensar que ele sofreu preconceito. Então, tratemos os ganeses como seres humanos que estão fazendo agora o que nossos ascendentes fizeram há pouco tempo, tá? Não é gente inferior, não. É gente necessitada, apenas.
Minha mãe costumava dizer que não se interessava por “música perecível”. Admirava-se quando alguém ia correndo comprar um disco novo, pois a coisa mais natural, segundo ela, seria esperar uns dez ou quinze anos para avaliar o que sobrara do trabalho do músico.
Fui à Cultura com um objetivo preciso: o de comprar o CD de Mônica Salmaso com os afro-sambas de Baden e Vinícius e o disco de 1973, agora CD, de Edu Lôbo. Sobre o primeiro, tinha recebido por parte de um amigo uma intimação peremptória: “Ouve!”; sobre o segundo, a intimação era interna. São dois trabalhos espantosos e antigos; se o disco de Edu tem 41 anos, o dos afros completarão 19 anos neste 2014. O CD de Mônica está fora de catálogo, o de Edu foi encontrado facilmente.
Mônica Salmaso apresenta os afros-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes ao lado do violonista Paulo Bellinati. Ou será que é Bellinati quem convida Mônica para cantá-los a seu lado? Provavelmente a última suposição é a correta; afinal, seu nome aparece com maior destaque no CD e ele é o produtor. Mas a ordem tanto faz. Mônica Salmaso é uma cantora imensa. De voz meio entubada, é uma mezzo de musicalidade, emoção e elegância mais encontráveis no jazz norte-americano. A facilidade que parece ter para cantar e seu colorido são um deleite que, na primeira audição, obrigou-me a deitar no sofá da sala para ficar ouvindo apenas. O violonista Bellinati possui aquele tipo raro de virtuosismo que está inteiramente voltado para a música. Os arranjos são seus.
O CD é rigoroso. Trata-se do clássico recital voz e violão de princípio a fim. Apesar do termo “afro-samba” nos sugerir imediatamente percussão, não há outros músicos no projeto – e eles são mesmo desnecessários. Os sambas mais líricos têm arranjos lindíssimos e os mais agitados têm o freio de mão um tanto puxado, provavelmente em nome da unidade do trabalho. Este CD deveria ser um best-seller divulgado pela grande imprensa, mas aparece mais pela propaganda que as pessoas fazem. Aqui no sul, Arthur de Faria o divulga insistentemente, assim como a todos os trabalhos de Mônica. Das 11 músicas, só teria restrições a “Canto de Xangô” que gostaria que estivesse mais próxima da gravação que meu pai ouvia em casa… Mas desconsiderem, por favor! Se você ainda não ouviu este CD, se não tem nada contra aquela música popular (ou seria impopular?) que é para ser ouvida pelos ouvidos e não pelas pernas, não sabe o que está perdendo.
Conheci Edu Lôbo quando era criança. Minha irmã era uma adolescente apaixonada por sua música e pelo próprio Edu que, com sua cara de bom menino, provocava efeitos em seu precário equilíbrio hormonal. Enquanto todas as moças culturalizadas suspiravam por Chico Buarque, ela o descartava em favor do “muito mais charmoso” Edu, um carioca do Rio de Janeiro, filho do também compositor Fernando Lôbo. Se Chico não fazia com que o sangue de minha irmã errasse de veia e se perdesse, ela ia para não voltar com Edu, nem que fosse só prá dizer adeus. O mesmo já lhe acontecera quando do episódio Beatles. Suas colegas colecionavam posters de Paul McCartney e John Lennon, mas o amor de minha querida irmã ia para o tímido George Harrison. Talvez por isto ela tivesse tão poucos posters.
Já eu o via como o principal adversário de Chico Buarque nos festivais da Record, o que não era pouca coisa. Depois disto, com uma pequena ajuda da ditadura militar, este pessoal foi levado para o exílio. Chico ficou entre a Itália e a França, Gil e Caetano foram para a swinging London e Edu foi estudar música nos Estados Unidos. Ao retornar, gravou este Edu Lôbo (1973), também conhecido como Missa Brevis.
Naquela altura, eu tinha 16 anos e ficava muito contrariado com as gravações que tínhamos no Brasil. Toda a atenção era dada aos cantores, os músicos só podiam tocar a introdução e acompanhar a estrela. Os arranjos eram previsíveis e a desafinação era tolerada. (Será que nossa música de consumo mudou muito?) Ouçam os primeiros discos do Chico para conferir o fato. Já este Edu Lôbo era totalmente diverso. Os arranjos eram sensacionais e, de forma muito peculiar, a grande música de Edu estava perturbada por Bartók e Stravinski.
É difícil destacar as melhores faixas deste trabalho. Minhas preferências são Gloria – que faz parte da Missa Breve -, Vento Bravo, Viola Fora de Moda e Zanga, zangada.
Creio ter ouvido este disco diariamente por meses em 73 até o dia em que minha proverbial generosidade resolveu emprestá-lo a um “amigo” que está com ele há mais de 30 anos… Recuperei-o só agora.
Após o concerto de ontem, a Ospa mereceria este sorriso e charuto do mestre.
Não terei tempo para escrever com maiores cuidados a resenha do concerto de ontem à noite no Salão de Atos da UFRGS. Então, vou iniciar pelo final: foi muito bom. O maestro Carlos Prazeres entregou-se à música e o resultado foi bom para mim e para todos. Mas poderia ter sido ainda mais satisfatório… O público cometeu um grande erro. O excelente pianista georgiano Guigla Katsarava daria seu bis se voltasse pela terceira vez ao palco, puxado pelos aplausos. É a praxe, gente! E falamos com ele! Como o pessoal cessou de aplaudir logo após a segunda entrada, ficamos chupando o dedo. Ele tocou maravilhosamente o Concerto para piano nº 1, Op. 23, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky.
Este concerto abriu a função. Foi composto entre novembro 1874 e fevereiro de 1875 e revisto no verão de 1879 e novamente em dezembro de 1888. É uma das mais populares composições de Tchaikovsky e está entre os mais conhecidos concertos para piano. Embora a estreia tivesse sido um sucesso de público, os críticos não ficaram nada felizes. Um deles escreveu que “não estava destinado a se tornar famoso”. Errou feio.
A execução da obra foi magnífica. Katsarava trouxe um sotaque autenticamente russo a Tchaikovsky. A orquestra esteve muito bem e, logo após o segundo movimento, anotei apressadamente no programa: “Klaus Volkmann, que bonito, que delicadeza! Javier tb mto bem!”.
O feito de Klaus é digno de nota, ainda mais que eu soube depois, através de fontes ligadas à orquestra, que ele tinha deixado cair no chão o estojo de sua flauta, avariando o instrumento. Imaginem que ele tocou num INSTRUMENTO EMPRESTADO do segundo flautista! Com todos os solos que fez — era uma noite em que Klaus seria especialmente exigido — e com a extraordinária qualidade deles, dá para se ter uma ideia da magnitude do feito. Poucos conseguiriam. É como se ele tivesse saído do banco de reservas, após longa lesão, para virar o jogo. Porra, Klaus, foi demais!
Depois veio Batuque, de Alberto Nepomuceno (1864-1920), espécie de micro-Bolero de Ravel. O cearense Nepomuceno tem o mérito de ter sido um dos precursores do nacionalismo musical, que explodiu mesmo com o talento de Heitor Villa-Lobos
Por falar nele… E veio a melhor peça da noite, o Choros N° 6, de Villa-Lobos. Escrita para orquestra em 1926, a peça só foi estreada no Rio em 1942. É irresistível. Meus sete leitores sabem, tenho o coração duro e o derramamento de mel promovido por Tchaikovsky apenas me agradou parcialmente. Gostei mesmo foi do Choros, espécie de passeio musical — de trem, como Villa gostava de trens! — por bairros e cidades da periferia do Rio de Janeiro. É uma obra de primeira linha, com episódios muito belos, seresteiros, carnavalescos, chorados e contrastantes. O que anotei apressadamente no meu programa? “Klaus de novo, abrindo maravilhosamente os trabalhos. Não esquecer do Calloni (corne-inglês), do Tiago (trompete), o belo sax soprano do Carlos Gontijo e o clarinete do Samuel de Oliveira.”. Porra, Klaus!
Grande concerto.
Ao centro da foto, Elena Romanov, com Klaus logo atrás, à direita | Foto: Olga Markelova Medeiros
Programa:
Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Concerto para piano nº 1, Op. 23
Alberto Nepomuceno: Batuque
Heitor Villa-Lobos: Choros n° 6
Regente: Carlos Prazeres
Solista: Guigla Katsarava (piano)
Poucos notaram a dança pataxó que os alemães fizeram em campo.
É que a casa da Alemanha nesta Copa do Mundo foi Santa Cruz Cabrália e lá, no sul da Bahia, os alemães conheceram um pouco dos índios.
“Reunimos os grupos indígenas em um círculo. Acendemos os cachimbos e tocamos os maracás. Aí, em nossa língua, fazemos os nossos pedidos e orações. E os pedidos dessa vez foram para que os alemães vençam”, revelou o cacique. Durante a coletiva, o próprio cacique fez esse pedido a Thomas Müller e a Philipp Lahm. “Primeiro falei que eles exageraram demais contra o Brasil e que 2 x 0 tava bom. Depois, pedi que eles não deixassem a Argentina ganhar”.
Klose celebrou seus 36 anos de vida dançando com os índios, no primeiro contato alemão com a tribo local. De lá para cá, o contato ficou cada vez mais próximo, até a despedida, na última sexta-feira.
Estranho. Eles respeitam os índios.
O aniversário de 36 anos de Klose.Schweinsteiger e Müller na festa.A lembrança dos pataxós no Maracanã, em meio à comemoração.
Você está feliz de ter como presidente da CBF um tipo como José Maria Marín?
Olha, eu assisti aos jogos e não me vinha nenhuma empatia pelo time. Nenhuma. E isso antes dos fiascos. Eu, que acompanho futebol, não reconheço a biografia recente de vários de nossos jogadores — aliás, alguém sabe por qual clube David Luiz atuou no Brasil? (*) — e, quando jogavam os “brasileiros”, o resultado era péssimo. Mas há mais problemas. O futebol sempre foi corrupto, só que nunca tivemos como presidente da CBF alguém tão identificado com a repressão como José Maria Marin. Trata-se de um arqui-anacronismo ungido ao posto do líder que deveria nos levar à Copa de 2014. É preciso estômago. Mais incomodações? Sim. Existe a lembrança de Ricardo Teixeira e a necessidade empresarial que a Rede Globo tem de nos incutir entusiasmo à fórceps.
Independentemente de algumas boas seleções formadas, a CBF (antes, CBD) sempre foi uma entidade nebulosa, comandada por aproveitadores que se alçaram a um duvidoso profissionalismo a partir do impulso dado por seus clubes. E isso não tem jeito, pois no mundo inteiro é assim, as exceções de praxe à parte. (A Alemanha parece ser uma dessas exceções).
O que é irritante é que — mafiosos ou não — os dirigentes da CBF deveriam ser minimamente competentes para formar um time de qualidade, propiciando a todos eles garantias de embolsos fabulosos ou simples fama. Mas a velha classe dominante brasileira é useira e vezeira em matar, uma após uma, as galinhas de ovos de ouro postas pelo povo brasileiro em seu quintal.
Vejo uma tremenda bagunça no meu Inter, também acho que lá a incompetência grassa, mas permaneço fiel. Tenho dificuldades em fazer o mesmo com a Seleção. Será em função da proximidade?
Bem, por mais que pense não sei explicar este fenômeno de rejeição à Seleção Brasileira que noto em mim e em muitos amigos. Será por que a geração atual não apenas joga muito menos como é por demais inodora, sem dramas, opiniões ou posturas distintas? Não fiquei feliz com os 7 x 1 da Alemanha, mas também não quis me esconder de vergonha. Acabo por não encontrar motivos para torcer pelo combinado montado pela entidade privada chamada CBF, vulgarmente conhecida como Seleção Brasileira.
(*) No Vitória da Bahia, dos 18 aos 20 anos de idade. Jogou apenas 26 vezes e foi vendido ao Benfica.
Recebi esta mensagem para ti, MR, e a transmito, traduzida:
“Querido Milton Ribeiro, cujo nome celebra nosso herói maior, Bach,
Clicando em mim, a imagem fica bem grande, tá?
oi, querido.
Duvido que você realmente goste da flauta que vem de seus vizinhos, argentinos.
Até posso vestir azul, mas é só para poder despir e viver bem meu corpo cheio de fantasia.
Gosto das praias da América, e de usar bikinis generosos
mas por solidariedade latino-americana, eu não apoiaria Pinochet, Videla ou Stroessner, menos ainda bravateiros arrogantes que insultam o nosso amado Brasil
Além disso, estranho que um especialista como tu prefira estes peitos estranhos da argentina, às minhas obras primas.
Ademais, tenho outros atributos
Eu também falo castelhano, viu?
Por estas e outras, e por tudo que te permito sonhar
O Jane Austen Centre mostrou ao mundo nesta semana uma figura de cera da autora criada por uma equipe de especialistas, utilizando técnicas baseados em relatos de testemunhas oculares contemporâneas de Jane.
No dia 22 de setembro de 1701, nascia Anna Magdalena Wilcke, futura segunda esposa de Johann Sebastian Bach. Sempre houve grande curiosidade por sua pessoa; afinal, ela foi uma mulher que saiu discretamente da sombra a que eram segregadas as mulheres de seu século. Não apenas deu treze dos vinte filhos do compositor, mas teve participação ativa em sua vida e trabalho num mundo em que a mulher deveria reinar no lar, sem desejos pessoais que visassem qualquer atuação fora da esfera doméstica. Uma esposa exemplar deveria apenas zelar para que seu marido pudesse, este sim, aparecer na vida pública. Cuidar dos filhos, limpar e ficar em casa era o destino que a “natureza” havia determinado à mulher.
Mas Anna Magdalena apareceu um pouco mais do que o normal, saindo sutilmente da esfera doméstica e criando grande curiosidade a seu respeito. Assim como Anne Hathaway — não a bela atriz de O casamento de Rachel, mas a esposa de William Shakespeare, nascida em 1555 — recebeu especulações e romances, Anna Magdalena foi tema de filmes e romances. O mais famoso é Pequena Crônica de Anna Magdalena Bach, romance inteiramente ficcional escrito em 1925 pela inglesa Esther Meynell.
Na verdade, pouco se sabe sobre Anna Magdalena Bach (1701-1760). O que se sabe é que era, provavelmente, muito talentosa, e que, certamente, era muito cativante e trabalhadora. Bach e sua família deram-lhe dois presentes musicais muito famosos. São os chamados Cadernos de Notas de Anna Magdalena Bach. O primeiro data de 1722 e contém somente composições de Johann Sebastian. O segundo é de 1725 e é uma compilação de obras de Bach e de seus filhos e alunos. Além da excelente qualidade musical dos cadernos — fartamente gravados –, o interessante é a possibilidade que nos dão de espreitar o ambiente doméstico da família Bach ou, no mínimo, a música que era ouvida na casa deles. Trata-se de uma coleção de pequenas peças como árias, minuetos, rondós, polonaises, prelúdios, gavotas, etc. Porém, no primeiro livro, também estão quase todas as Suítes Francesas, peças nada fáceis que hoje fazem parte importante do repertório bachiano.
Anna Magdalena nasceu na Saxônia, numa família de músicos. O pai era trompetista e a mãe também era filha de músico. Na época, era comum que os filhos herdassem a profissão dos pais. Não havia um sistema educacional eficiente e as crianças passavam longas horas em aulas de religião. Então, aprendiam a ganhar a vida em casa mesmo. Mas, desde jovem, Anna trabalhava como cantora e conhecia Bach. Dezessete meses depois de Maria Bárbara, primeira esposa do compositor falecer inesperadamente em 1720, este casou-se com Anna Magdalena. Era o ano de 1721: ele tinha 36 anos; Anna, 20. Bach teve vinte filhos — sete com Maria Bárbara e treze com Anna Magdalena, entre os anos de 1723 e 42.
Christiane Lang-Drewanz como Anna Magdalena Bach no filme “The Chronicle of Anna Magdalena Bach” (1968).
Dos treze, sete perderam a partida para a alta mortalidade infantil da época. Dentre os sobreviventes estavam os também compositores Johann Christian Bach e Johann Christoph Friedrich Bach. Parece ter sido um casamento feliz. Além dos trabalhos de toda mulher da época, ela cantava, tocava cravo e transcrevia suas músicas. Na época em que moraram em Leipzig, a casa dos Bach tornou-se um regular local de saraus onde o casal organizava noites em que toda a família cantava e tocava com alunos do compositor e amigos.
Deviam ser saraus muito alegres. Provavelmente havia muita cerveja. Os contratos de Bach com seus empregadores previam não somente salários e condições de trabalho, como outras vitualhas fundamentais: trigo, lenha, cerveja, cevada… Pois Bach também produzia a bebida. Pode-se de dizer que, naquela época, por questões de saúde, era mais seguro beber cerveja do que água, mas as notas examinadas por seus biógrafos indicam que a família Bach consumia toneladas dela. Um relatório de gastos do compositor em 1725 (tinha 40 anos e já estava casado com Anna Magdalena) dá conta de um consumo enorme. Mas esta é outra história.
Há muitas suposições sobre o fato de Anna Magdalena ter auxiliado Bach em várias composições. Diz-se até que a maravilhosa ária que abre as Variações Goldberg seria de autoria de Anna Magdalena, mas provavelmente tudo isso é lenda, pois o caminho de Bach como maior compositor de todos os tempos já vinha sido pavimentado de forma muito consistente antes de Anna. Porém, é indiscutível que ela lhe serviu como copista – há sua caligrafia em quase todas obras do compositor depois do casamento – e de inspiração. E Bach expressou sua gratidão dedicando várias peças para teclado e de câmara a ela.
Mas é claro que tudo vai acabar mal. Infelizmente, as histórias felizes não têm muita graça e raras vezes são lembradas. Bach viveu até 1750. Morreu aos 65 anos. Anna Magdalena sobreviveu-lhe dez anos. Após a morte do marido, houve um desentendimento entre os filhos, que brigaram e se separaram. Anna Magdalena permaneceu com suas duas filhas mais jovens e uma enteada do primeiro casamento de seu marido. Mulheres sozinhas no século XVIII eram sinônimo de caridade ou ruína. Ninguém da família as auxiliou economicamente e Anna Magdalena ficou cada vez mais dependente da caridade dos auxílios do conselho da cidade.
Na época, a herança e os bem materiais eram transmitidos ao filho mais velho ou ao parente mais próximo do sexo masculino. Bach nunca foi um homem rico, mas mesmo que fosse, as mulheres nunca herdariam nada. Assim era a lei na época, criada para que as posses ficassem ligadas ao nome de uma família por várias gerações, e para que não fosse loteada.
O que se sabe do fim de Anna Magdalena, mulher de Johann Sebastian Bach, é que ela morreu em 27 de fevereiro de 1760 e foi enterrada numa cova de indigente, sem identificação, na Johanniskirche de Leipzig (Igreja de São João). E que o local foi destruído por bombardeios aliados durante a Segunda Guerra Mundial.
Gravura estilizada de Johann Sebastian e Anna Magdalena Bach.
A capa do original inglês de vinil. A edição brasileira trazia a mesma capa, só que com a cor vermelha substituindo o azul. Clique se quiser ampliar.
A Hard Day’s Night é o terceiro álbum dos Beatles. Seu aguardado lançamento aconteceu na Inglaterra em 10 de julho de 1964, acompanhando o lançamento do filme homônimo de Richard Lester.
O título da canção A Hard Day’s Night tem origem numa expressão criada por Ringo Starr em uma entrevista, daquelas bem bagunçadas. Ele disse ao disc jockey Dave Hull, no começo de 1964: “Tínhamos trabalhado um dia inteiro e mais a noite toda. Quando saímos do estúdio, eu pensava que ainda era dia e disse: “Foi um dia duro… mas olhei em torno e vi que estava escuro, então eu disse: foi a noite de um dia duro”. A Hard Day’s Night.
Correria
John Lennon escreveu a música em uma noite — desta vez sem trabalhar durante o dia –, e apresentou-a aos outros Beatles na manhã seguinte. A letra do manuscrito original pode ser vista na Biblioteca Britânica, rabiscada em caneta esferográfica nas costas de um cartão de aniversário.
Meus sete leitores devem saber que, apesar de assinarem juntos a maior parte das músicas do grupo, Lennon e McCartney raramente as escreviam juntos. Eles as faziam separadamente e depois discutiam alguma alteração. É simples identificar quem fez o quê. Basta ouvir o cantor principal. John cantava as dele e Paul as suas.
Saltos
O filme lançado com o disco foi dirigido por Richard Lester. Dez ENORME sucesso. Mostrava, em preto e branco, a história de uma banda de rock que era perseguida por fãs histéricos. Após perseguições de fãs, entrevistas, e muitas piadas, a banda realiza um show na televisão. O filme mostra um pouco da realidade dos Beatles na época. No Brasil, o disco e o filme foram lançados pelo nome de Os reis do iê, iê, iê (a expressão “iê, iê, iê” deriva de “yeah, yeah, yeah”, presente no refrão da canção She Loves You).
Como se fazia na época, o álbum foi gravado em apenas nove dias não consecutivos, de janeiro a junho de 1964. Entre as sessões, os Beatles cumpriam seus compromissos de shows e da filmagem de A Hard Day`s Night. Durante a filmagem, John Lennon e Paul McCartney escreviam mais e mais canções. A maioria destas ficou fora de A Hard Day`s Night, indo para o seguinte, Beatles for Sale, lançado em 4 de dezembro do mesmo ano.
Descanso
A Hard Day`s Night tornou-se seu primeiro álbum do grupo que continha material exclusivamente original, só com canções de Lennon e McCartney, ainda sem a participação de George Harrison como compositor.
Ouvi o disco novamente ontem e reforcei minha impressão. É um álbum bem diferente do que veio antes e do que virá depois. O motivo é simples. É o único disco dominado por canções de John Lennon. Isto o trona muito mais rápido, muito mais rock ‘n’ roll. A típica presença de Paul, muito mais lírico e melodioso, é notada em And I love her e Things we said today. O resto, com exceção de If I fell, são rocks rápidos.
Mais correria
Lennon foi o único compositor da faixa-título, juntamente com I Should Have Known Better, Tell Me Why, Any Time At All, I’ll Cry Instead, When I Get Home e You Can’t Do That. Ele também escreveu a maior parte de If I Fell e I’ll Be Back, e colaborou com McCartney em I’m Happy Just To Dance With You.
As contribuições de McCartney para o álbum foram discretas, porém excelentes: as clássicas baladas And I Love Her e Things We Said Today, bem como Can’t Buy Me Love.
A Hard Day’s Night é um dos três únicos álbuns dos Beatles para não contêm vocais por Ringo Starr. Os outros são Let It Be e Magical Mystery Tour.
O cartaz do filme de Lester
As faixas de A Hard Day`s Night:
Lado A
A Hard Day’s Night
I Should Have Known Better
If I Fell
I’m Happy Just To Dance With You
And I Love Her
Tell Me Why
Can’t Buy Me Love
Lado B
Any Time At All
I’ll Cry Instead
Things We Said Today
When I Get Home
You Can’t Do That
I’ll Be Back
John Lennon: vocal, guitarra, violão, harmônica, tamborim
Paul McCartney: vocal, baixo, piano, sinos
George Harrison: vocal, guitarra, violão
Ringo Starr: bateria, congas, bongôs, tamborim
George Martin: piano
Produtor: George Martin, óbvio
O disco completo para meus sete leitores-ouvintes: