Ontem o concerto da Ospa previa um Festival Mozart. O programa era o que segue, copiado site da Ospa:
W. A. Mozart: La Clemenza di Tito – Overture
W. A. Mozart: Concerto para Flauta nº 1, em Sol Maior
W. A. Mozart: Andante para Flauta e Orquestra, em Dó Maior
W. A. Mozart: Sinfonia nº 41, em Dó Maior
A acústica da Igreja da Ressurreição é uma coisa, o blog é uma coisa pessoal e Mozart é um coisa pessoal problemática. Há muitas obras de Mozart que estão no meu panteão, mas não sou um admirador incondicional de sua música assim como sou da de Bach, Beethoven, Brahms ou Mahler. Grosso modo, a qualidade da música de Mozart eleva-se juntamente com o número do Koechel. Explico: Ludwig Alois Friedrich Ritter von Köchel (1800-1877) foi um musicólogo, escritor, compositor, botânico e editor austríaco, mas imortalizou-se como musicólogo ao catalogar toda a obra de Mozart, originando os números de Koechel, pelas quais as obras de Mozart são conhecidas. Desta forma, a belíssima Sinfonia concertante de dois posts atrás é a Sinfonia Concertante para Violino e Viola, K. 364. Estranhamente, o programa da Ospa falhou ao não incluir “os Ks”, mas a gente informa pra vocês sem problemas.
Como o catálogo Koechel é cronológico, fica fácil de notar que a música da juventude de Mozart era gentil, perfeita, bonita e equilibrada. Depois, a vida, as dívidas e o contratos começaram a influenciar e sua música ganhou drama, sangue e agressividade. Melhorou muito. A abertura La Clemenza di Tito, K. 621 e a Sinfonia Nº 41, Júpiter. K. 551, são obras da maturidade do compositor. Já o Concerto para Flauta Nº 1 tem K. 313, e o Andante para Flauta e Orquestra, K. 315, são obras que se encaixam naquele mundo inodoro e perfeito do Mozart inicial. Como disse lá no início, o blog é uma coisa pessoal e eu não gosto destas obras para flauta. É muita limpeza e pouco drama.
A execução valeu pelo excelente solista Leonardo Winter que, como sempre, fez um trabalho notável, apesar do Andante arrastado demais do regente Ricardo Sciammarella, que, pelo ouvido, o desejava Adagio.
Já a qualidade musical, o pulso e a veemência da Júpiter e de La Clemenza di Tito trazem tanto interesse a um concerto que a gente consegue ignorar o fato da acústica da Igreja da Ressurreição ser tão ruim. A Júpiter é tão boa que até o minueto — terceiro movimento da forma sinfônica clássica — é legal. Por motivos certamente ligados à inadequação acústica da sala, Sciammarella fez uma virou a Ospa de cabeça para baixo, colocando, a partir da esquerda, os primeiros violinos (com os contrabaixos atrás), os violoncelos, as violas e os segundos violinos. Boa tentativa, mas a sala é incontrolavelmente demoníaca.
P.S. — Um fato desagradável que pode ser evitado: o programa indicava que haveria um intervalo antes da Júpiter. Por isso todos levantaram enquanto os alto-falantes mandavam a plateia sentar. Chato, né?
Equipe de resgate e familiares tentam impedir uma mulher de saltar de um prédio em Zhanjiang, província de Guangdong, em 14 de agosto de 2012. A mulher tinha matado seu sobrinho depois de uma disputa familiar. Foi salva. As fotos são da Reuters.
(Por isso é que mantenho a categoria “Amigos, tudo”).
Acho que ainda não chegamos à edição de nº 214, mas certamente já passamos fácil das 50 edições. Os Festins Diabólicos são as festas aqui de casa, sempre com 20 pessoas para fora. Sábado, foram 36. O motivo do nome do encontro é o filme de Hitchcock, que tinha um baú no meio da sala. Já sabem o que temos no meio da nossa, mas sem um morto dentro, se lembro bem. Ultimamente, após o jantar, quase sempre alguém senta em nosso combalido piano ou pega seu instrumento e a música acontece. São amigos, músicos profissionais, que tocam aqui em casa por pura amizade. Poderiam deixar seus instrumentos e partituras em casa. Poderiam dizer que não estavam a fim, poderiam alegar uma tendinite ou simular um desmaio, qualquer coisa que todo mundo compreenderia, mas não, eles tocam pra nós.
No grupo, há o núcleo duro, os que sempre são convidados. Dentre eles, há gente como a Nikelen e o Guto que viajam incondicionalmente por quatro horas com um filho pequeno e o deixa com a avó num hotel. E viajam mais quatro horas de volta, tudo por quatro horas de festa. É maravilhoso isso. Lamentavelmente, alguns dos habituais participantes acabaram ficando de fora no último sábado porque a casa poderia explodir de tanta gente. Fazer o quê? Bem, os dois últimos Festins foram muito particulares, mas o de ontem foi invulgar para mim. Era meu aniversário e houve algumas manifestações que realmente me tocaram.
A Claudia, minha mulher, sempre faz a comida e a bebida é trazida pelos comensais. A “chef” que fica mais próxima dela é a Astrid. Pois ontem ela veio com um exército de canapés. Dizendo assim, parece pouco. Parece até que ela comprou ali na esquina. Nada disso, ela, que está super estressada com uma série de coisas, fez um por um para quase quarenta pessoas. E eram ab-so-lu-ta-men-te geniais. Assim como os músicos que tocam aqui expressam seu carinho através de seu trabalho, há pessoas que o fazem através da comida. É o caso da Claudia e da Astrid. Agora cheguei a um impasse em meu texto porque sou bom para comer mas péssimo para descrever comida. Talvez consiga algumas fotos depois… Para que meus sete leitores tenham uma ideia, no dia seguinte, domingo, quando acordou, o meu concunhado Bruno ligou aqui pra casa perguntando se tinha sobrado canapés. Das centenas, tinha sobrado um (1) e a primeira coisa que fiz ao acordar foi zerar a conta. Peço desculpas a ele.
A música. Deve ter sido ideia da Elena Romanov. De repente, logo após o jantar, ela, que é violinista e seu marido, o violista Vladimir Romanov, prepararam as estantes. Até aí, tudo normal. O pianista Alexandre Constantino estava sentado ao meu lado com uma partitura e me informou vou tocar com eles e eu disse que estava ótimo, ora. Tudo normal. Então, o Alexandre juntou-se ao casal e eles começaram o Andante da Sinfonia Concertante para Violino, Viola e Orquestra de Mozart. A Elena sabe de amor que tenho por esta música, protagonista de minha novelinha O Violista. Foi a coisa mais linda e só pensei que aquilo era endereçado a mim quando estavam terminando. Queria até que repetissem… Eles tocaram uma redução onde o acompanhamento é feito pelo piano. Abaixo, o original.
Tchê, foi lindo. Depois o professor doutor Luís Augusto Farinatti, o Guto, fez mais um de seus tradicionais e irresistíveis stand-ups. A Carmen Crochemore me disse hoje que nunca tinha rido tanto. O curioso é que o Farinatti acha que a gente se incomoda com as repetições. Negativo, rapaz.
E depois para terminar. O Marcelo Delacroix deu um show completo aqui em casa com mais dois músicos seus amigos — o Rodrigo Calveyra e Manuel de Olaso. Confesso que tinha pedido pra ele como presente. A afinação, seu bom gosto e senso de estilo são um verdadeiro absurdo e às vezes tenho que olhar para a sala refletindo que recebi tudo o que ele desempenhou de presente, somado ao Farinatti, ao Mozart do trio e à gastronomia da Astrid e da Claudia. É óbvio que nenhum dos não citados deixam de ser extraordinários; todos são inquilinos de meu ventrículo esquerdo — que é onde o coração bate mais forte (minha irmã me ensinou) — , só que a amizade + a música ou o riso ou a gastronomia tornam tudo mais memorável, não? Ou, melhor dizendo, a amizade mais a arte acaba sendo superior, o que não significa que esta não esteja assentada naquela. Bem, ao menos aqui em casa, sempre está.
A seguir, fotos. Não sei se todos estão nelas, não contei.
Vladimir Romanov e Lia Zanini aguardando o vinho que o Augusto Maurer abre lá atrás.Astrid Müller e Rovena Marshall: brinde e risadas para alguém fora do quadro.Augusto Maurer e Marcelo Delacroix em primeira leitura do primeiro.Meus filhos Bárbara e Bernardo estremecendo a foto.Os mesmos da foto acima, mas agora absolutamente enfeitiçados pelo Farinatti. Olhem as caras.Batatas.Gente falando bobagem, gente ouvindo bobagem. Eu, Dario Bestetti e Luís Augusto Farinatti.Cadê?Antônio Castro num impasse: como pegar o garfo? Carmen Crochemore o orienta.Igor fica aliviado quando Castro logra libertar as mãos. Com Igor Natusch, Bruno Zortea, Nikelen Witter, Farinatti, Carmen, eu e as mãos.Mãos muito, extremamente bobas. Com Anderson Larentis, Rachel Duarte e Igor.Claudia Guglieri ensina Vladimir como se bebe o suco.Credo, como esse cara come (e mente). Nikelen e Farinatti.Magro de ruim.Grande momento. Marcelo Delacroix solo.Uma toca violino, todos tocam piano. Com Elena Romanov, Alexandre Constantino e Liana Bozzetto.Preparação para o Andante. Com Elena e Vladimir. Adorei.Credo, se tu soubesses como eu te odeio, Chico Marshall! Com Farinatti , o odioso e Nikelen.E o impossível acontece. Farinatti para de movimentar os braços.Sei lá, acho que alguém já bebera um ribeiro de vinho. Com Chico e Astrid.Aspecto singular da sala dos Antonini Ribeiro.Todos ouvindo Elena, Vladimir e Alexandre. Em primeiro plano eu a Claudia.Ah, não. Me sujei de novo! Com Rovena Marshall.O pé da Bárbara, meu cunhado Sylvio e minha irmã Iracema. Ao fundo, no espelho, o casal Rovena e Chico.Alexandre, o Cavaleiro das Trevas.Tão bonita, só que ninguém queria fotografar a Bianca! Lá à direita. Com Claudia Antonini e Bruno.Apagando a (1) velinha com la Guglieri.
Obs.: Fotos de Liana Bozzetto, Lia Zanini e Augusto Maurer.
Em dezembro passado, o escritor gaúcho André Czarnobai, o Cardoso, publicou um diário na piauí intitulado “Pasfundo calipígia”. Salvo engano, foi a primeira vez em que se utilizou em letra impressa o termo “louco de palestra”. Imediatamente, a expressão ganhou densidade acadêmica e popularizou-se nos redutos universitários nacionais, encorajando loucos latentes e chamando a atenção da saúde pública para o problema.
O louco de palestra é o sujeito que, durante uma conferência, levanta a mão para perguntar algo absolutamente aleatório. Ou para fazer uma observação longa e sem sentido sobre qualquer coisa que lhe venha à mente. É a alegria dos assistentes enfastiados e o pesadelo dos oradores, que passam o evento inteiro aguardando sua inevitável manifestação, como se dispostos a enfrentar a própria Morte.
Há inúmeras categorias de loucos de palestra, que olhos e ouvidos atentos podem identificar em qualquer manifestação de cunho argumentativo-reflexivo, com a palavra franqueada ao público.
Há o louco clássico: aquele que levanta, faz uma longa explanação sobre qualquer tema, que raramente tangencia o assunto em debate, e termina sem perguntar nada de específico. Seu único objetivo é impressionar intelectualmente a plebe, inclusive o palestrante oficial. Ele sempre pede licença para “fazer uma colocação”.
Há o louco militante, que invariavelmente aproveita para culpar a exploração da classe dominante, mesmo que o tópico do debate seja arraiolo & bordado.
Há o louco desorientado, que não entendeu nada da palestra – e não vem entendendo desde a 2a série, quando a professora lhe comunicou que o Sol é maior que a Terra – e, depois de circunlóquios labirínticos, faz uma pergunta óbvia.
Há o que faz questão de encaixar no discurso a palavra “sub-repticiamente”: é o louco vernaculista.
Uma criteriosa tipificação do objeto de estudo não pode deixar de registrar o louco do complô, que, segundo integrantes do próprio complô, é “aquele que acredita que toda a imprensa se reúne de madrugada com o governo ou a oposição para pegar a mala de dinheiro”.
Ou o louco adulador, que gasta os trinta segundos que lhe foram franqueados para dizer em dez minutos como o palestrante é divino. O louco deleuziano, que não sabe o que fala, mas emprega muito a palavra “rizoma”. E o louco pobre coitado, que pede desculpas por não saber se expressar, o que não o impede de não se expressar durante minutos intermináveis.
Depois de falar “Gostaria de fazer uma colocação”, todos podem usar a expressão “na chave de…”. Como nessa típica colocação: “O jornalismo entendido na chave da sociologia é sem dúvida uma ocupação rizomática, em termos de vir-a-ser.” São poucos os que dizem que algo acontece por causa de outra coisa. É sempre “por conta” da qualquer coisa em questão.
No entender de Cardoso, é raro não haver um louco à espreita quando ele está palestrando (ou painelando, ou debatendo, ou mesmo plateiando). O mais recente de que ele tem lembrança manifestou-se num encontro de blogueiros com editores, em São Paulo. Na ocasião, um camarada que até então ouvia tudo com atenção – mas em silêncio – pediu a palavra. “Em primeiro lugar, queria dizer que não sou blogueiro, não leio blogs, não entendo nada dessas coisas, mas também tenho direito a uma opinião”, afirmou, à guisa de apresentação.
E prosseguiu, o celerado: “Sou médico comunitário, organizo saraus na periferia e quero dizer que discordo de tudo que todo mundo falou aqui. Está todo mundo puxando o saco da Companhia das Letras.”
E disse mais: “O blog da editora está muito feio. Não tem cara de blog. Tem mais cara de site, e além disso acho que ninguém quer ler sobre os bastidores de como são feitos os livros.”
Em poucos minutos, ele invalidou audaciosamente tudo o que havia sido postulado até então. É o louco de palestra majestático, que ouve a conferência com ar de superioridade e acha tudo uma grande e gorda estultice.
Um bom louco de palestra é sempre o último a falar, pois passa o tempo todo digerindo o que foi dito. Só então ele pode dar alguma declaração desvinculada do tema, equivocada, mal-intencionada ou apenas incompreensível. Para o jornalista Matinas Suzuki, o tipo contempla com desprezo o que se discute, aguarda pacientemente a sua vez e, então, discorda com virulência. “Me corrijam se eu estiver errado”, ele diz a certa altura, só para parecer democrático. “Concordo com tudo o que vocês disseram, mas ao contrário”, prossegue. Ou ainda: “A minha colocação engloba a do companheiro e vai além”, num típico comentário condescendente de loucos de assembleia.
Há que se distinguir o maluco de palestra do desvairado de assembleia estudantil ou sindical. Nesta última, não há palestrante; todos têm o direito de incluir o nome na lista de oradores e falar, sem a necessidade de se ater forçosamente a um tema.
Segundo uma enquete com personagens da época, um dos mais célebres representantes dessa categoria, na década de 70, era o Gilson, um estudante do curso noturno de economia na Universidade de São Paulo. Era um gordinho trotskista que tinha a voz fina e usava um bigode ralo. O outro era o Reinaldinho, da ciências sociais, que, qualquer que fosse o assunto, dava sempre um jeito de encaixar a frase: “O concreto é a síntese de múltiplas determinações.” É verdade. Até Marx sabia disso. Mas repetir o conceito em todas as assembleias da usp dos anos 70 nem Engels aguentaria.
Embora essas duas categorias de louco (palestra vs. assembleia) se diferenciem por motivos óbvios, existe a possibilidade de infiltração de loucos de palestra numa típica assembleia estudantil/sindical. O infiltrado, em regra, é aquele que toma o microfone à revelia de todos e anuncia: “Questão de ordem!”, ainda que a alegação não proceda. Daí em diante, a performance é livre.
São assim os loucos de palestra: audazes, imprevisíveis, implacáveis, destituídos de noção ou sentido. Cardoso também se lembra de um debate em Curitiba, quando “um senhor moreno, grisalho, com uma sacola ecológica atravessada no peito e toda a pinta de quem pratica ioga, anunciou que ‘a internet é como uma vaca mágica, de onde cada um extrai o leite que deseja’”.
Infelizmente, é só isso que ele se lembra daquela longa e bizarra colocação.
Há quem se depare com um louco contemplativo, que é dos mais difíceis de lidar. Sobretudo na primeira mediação de sua vida. Foi o que ocorreu com o escritor e editor Emilio Fraia, que, nervoso e pautado por dezenas de papéis amarelos, conduziu um debate entre o cineasta Hector Babenco e o escritor William Kennedy, no dia 11 de agosto, em São Paulo.
“Primeiro, a moça levantou a mão e disse: ‘Eu tenho uma pergunta’”, contou Emilio Fraia com a pungência de quem luta contra um quadro de estresse pós-traumático. “Então, ela disse não saber por que estava ali. Viu que haveria uma palestra e entrou.” A moça era de Minas, estava há quatro dias num quarto de hotel, sozinha. “Mas gostei muito do que o senhor Kennedy falou, de ter sido recusado por treze editoras antes de publicar. Sou artista plástica.”
Nesse instante, começaram os apupos da plateia: “Pergunta!” Intrépida, ela não fez caso: “Tenho um trabalho baseado em cores e…” Apupos, apupos.
Ao término do arrazoado, Fraia não conseguiu esboçar reação. Ficou vermelho. Paralisado. “Até que a palestra encerrou-se por si só. Foi o fim, nada mais poderia acontecer após aquela intervenção”, relata.
Outra recente ocorrência de louco contemplativo deu-se numa palestra da escritora Fred Vargas, no Rio de Janeiro, acerca do caso Cesare Battisti. Um sujeito pediu a palavra e falou vinte minutos sobre a sua militância no Nordeste, nos anos 50, sem pronunciar nem uma vez o nome do Battisti.
Com esse tipo de maluco em vista, o cartunista Laerte Coutinho confessou imaginar o que restaria daquela experiência para o sujeito, o louco propriamente dito. “Acho que tudo se reduz à sua própria intervenção”, filosofou Laerte. E emendou uma teoria: dos debates, o louco de palestra deve se lembrar tão somente da sua performance. “Lembra aquela vez, em Curitiba, quando eu levantei a mão e comparei a internet a uma vaca mágica?”, diria o sujeito, satisfeitíssimo, numa reunião de um hipotético Grupo Unificado de Apoio aos Loucos de Palestra, o gulp.
O que poucos sabem é que a origem do louco de palestra remonta à história do pensamento. “Acho que ele surgiu pela primeira vez na Ágora grega: a democracia está cheia de loucos de palestra”, postula o editor Milton Ohata.
Na peça As Nuvens (423 a.C.), o dramaturgo Aristófanes, por exemplo, faz chacota dos sofistas – os loucos de palestra mais insignes da Grécia Clássica. Naquele tempo, já existiam “profetas, quiropráticos, mocinhos cabeludos, poetas ditirâmbicos, astrólogos, charlatões, impostores e muitos outros mais”, diz o texto. Gente que se rendia ao arrebatamento do discurso e à volúpia da articulação, um bando de consumados tratantes, palavrosos e descarados. Tais como Cairefonte, discípulo de Sócrates, que levantou certa vez a mão e perguntou ao mestre qual das duas era a teoria certa: “O mosquito, ao zumbir, se utiliza da boca ou justamente do contrário?”
Na antiga Palestina, talvez durante o Sermão da Montanha, devia haver loucos de palestra prontos para agir. Uma das perguntas lançadas ao Filho de Deus, e omitida dos registros canônicos, teria sido: “E aí, o que está achando de Cafarnaum?”
Especulações à parte, uma coisa é certa: foi um louco de palestra fariseu que abordou o Messias com uma pergunta mal-intencionada, e que recebeu como resposta: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Uma reação divina ao interlocutor maledicente.
O que nos leva ao difícil papel do mediador. É sabido que, diante de um louco de palestra, ele tem poucas opções. Uma é dirigir-se a uma rota de fuga predeterminada, levando os braços ao ar e abandonando o público à própria sorte. A segunda é a solução escolhida por Emilio Fraia: a completa e resignada paralisação, seguida de conclusão precoce do seminário e aceitação da ruína. Numa variante pouco mais elegante, o mediador pode emitir um constrangido “Fica aí a pergunta”, e encerrar a palestra com certo ar de mistério.
A terceira saída é se fingir de louco e ignorar a intervenção por completo. A tática é defendida por oradores calejados como o jornalista Humberto Werneck. Durante um papo sobre seu livro O Santo Sujo, em Belo Horizonte, um rapaz pediu a palavra e não fez pergunta alguma – divagou sobre coisas que ninguém entendeu. “Acho que era doidinho, e não fiz mal em esperar que esvaziasse a piscina verbal. Levou vários minutos. O cara terminou sem ponto de interrogação. Agradeci a participação e fui ao perguntador seguinte”, conta, sem constrangimento.
A quarta e última reação possível é a mais artística e profissional de todas. No domínio dessa técnica estão mediadores experientes como o crítico de arte Alberto Tassinari. Ele diz ter muita paciência quando um louco desses se pronuncia, “pois sempre bate em algum lugar respondível e o diálogo fica tremulando entre sua racionalidade intrínseca e sua irracionalidade que vem de fora, fora de hora e quase inutilizando tudo”.
O professor Samuel Titan Jr., da usp, é do mesmo time. “Meu louco favorito começa pedindo para fazer uma colocação e embarca imediatamente na autopromoção, que pode ser pseudoacadêmica, pseudoliterária ou de fundo ressentido (nas variantes de raça, sexo, classe, opção sexual ou todas as anteriores)”, revela, com a sabedoria advinda da experiência.
Nesses casos, ele recomenda que a única saída para se livrar da situação é “responder alguma coisa que não tenha nada a ver com o que ele disse e que tenha alguma coisa a ver com o que você tinha tentado dizer, tudo isso olhando no olho da criatura e usando cá e lá umas palavras difíceis, que é pra ver se o bicho se intimida – em geral, nem um pouco”.
É preciso encarar essas coisas filosoficamente, pondera Titan, que há poucos meses teve que enfrentar um belo exemplar da espécie.
O episódio ocorreu em 25 de março, na Casa do Saber, em São Paulo, num debate sobre ensaísmo. Estavam presentes o arquiteto Guilherme Wisnik, o artista plástico Nuno Ramos, Matinas Suzuki Jr. e, como mediador, Samuel Titan Jr.
A gravação em vídeo do colóquio é uma verdadeira obra-prima tragicômica. Por um feliz acaso, a câmera permanece focada nos quatro palestrantes durante a longa peroração de uma moça da plateia, que deve ter tomado fôlego antes de se levantar. Cada um dos intelectuais supracitados reage à sua maneira, coçando a cabeça, esfregando o nariz, olhando pra cima e tentando desesperadamente manter a compostura diante de ocorrência tão alarmante.
A intervenção se dá em dois tempos. No primeiro, que dura quase cinco minutos corridos, a moça expõe a sua verve: “A minha pergunta é sobre lugares e fronteiras”, inicia, num tom didático que pressupunha prévia reflexão sobre o tópico. “Eu vejo o ensaio como um espírito livre do pensamento expresso na forma escrita. Então acho que ele merecia um lugar de destaque, mas pelo que eu vejo da discussão, do debate entre vocês, há uma questão do lugar e das fronteiras, quando se fala num lugar chamado ‘entre nós’, ou quando se fala no Brasil, no mundo e, indo mais além ainda dessas fronteiras, na própria realidade.”
Dominado por um compreensível reflexo instintivo, Nuno Ramos passa a beber água compulsivamente. Samuel Titan alterna vigorosas coçadas de cabeça a uma distraída extração da pele ao redor das unhas. No coração de todos, a esperança de que a pergunta não tardará. A moça prossegue: “Eu vejo o ensaio como esse espírito livre do pensamento escrito porque ele vai além do pensamento escrito, chegando na realidade, com toda essa liberdade de conexões intertemas, e não só temas intelectuais ou conceituais ou acadêmicos, mas os próprios acontecimentos da realidade.”
Curiosamente, os quatro palestrantes decidem apoiar-se no cotovelo esquerdo, recostam-se nas cadeiras e cruzam os braços, como que tentando se defender da avalanche de conceitos que lhes são atirados impiedosamente.
E a moça vai em frente: “Então vejo uma maneira de resolver esses dilemas, essas questões que foram apresentadas, e me atendo ao que foi debatido entre vocês, que os ensaístas deveriam eles mesmos se colocar como espíritos livres.”
Sublinhe-se que ela faz referência à discussão e promete se ater ao que foi debatido, como se procurasse despistar a audiência. Dito isso, segue em frente: “Criar como que uma onda, o ensaio como uma pedra que cai na água e gera ondas não só daquilo a que ele se propõe, mas indo além. Indo além da própria subjetividade de quem escreve, ou do próprio arsenal de conhecimento acadêmico restrito, então o próprio ensaio brasileiro precisa adotar a postura de quebrar essa fronteira e se colocar como um ponto de convergência de forças que estão presentes no mundo hoje, tanto politicamente, como literariamente, cientificamente, artisticamente.”
Depois daquela peroração sem perguntas, Samuel Titan interrompe a moça e faz o que pode para encaminhar o debate. Os palestrantes comentam uma suposta “zona de conforto” no ensaísmo brasileiro, termo que a moça citou a esmo, dentro de um contexto só dela. O debate parece que vai engrenar. Que nada: num momento de deslize do mediador, a moça da plateia leva a melhor e consegue retomar o raciocínio: “Tenho visto coisas riquíssimas”, ela interrompe, e torna a abusar de advérbios: politicamente, literariamente, cientificamente.
É o segundo momento de sua dissertação, quando, em resumo, ela conclui que é preciso cultivar um ensaio “que também se dilui, também luta sub-repticiamente. Tem que haver uma coragem de sair da zona de conforto, quebrar essas fronteiras pra conseguir criar novas fronteiras, realmente fazer diferença na realidade”. Assim é encerrada a sua fala e, com ela, o debate.
De tanto ver Nuno Ramos bebendo água temeu-se que ele pudesse ter uma congestão.
A lenda é difusa, mas deve ter ocorrido nos anos 60, durante uma aula do professor Bento Prado Jr., na rua Maria Antônia. Terminada a explanação, em que o docente citou o filósofo Plotino várias vezes, um aluno respeitosamente levantou a mão e disparou: “Com licença, professor. Esse Plotino aí não seria o Platão, não?” Ao que o mestre respondeu: “Não, cretão.”
Como prova de que os tempos mudam, mas os loucos continuam, o escritor Antonio Prata relembra um doido recente da usp. Sua alcunha: Santo Agostinho. “Era um cabeludo, barbudo, meio sujão, sempre chegava com uns jornais que a gente não sabia se estava lendo ou se tinha dormido com eles”, descreve. O sujeito tinha lido uma única coisa na vida: Santo Agostinho. “E não importava qual fosse a aula, não importava quanto tempo ele tivesse que esperar, em alguma hora ele achava a ligação. Não fazia uma pergunta, ele vomitava: “Professor, professor, isso aí que você está falando de – Descartes – Platão – Adorno – neo-liberalismo – assentamento – greve – filtro solar – não tem a ver com aquele conceito do Santo Agostinho?”
É o louco monotemático, de tendência obsessivo-compulsiva.
Vale observar que nem as grandes personalidades estão imunes ao ataque verbal de um desatinado espectador. Conta-se que, durante uma reunião da esquerda latino-americana em Paris, na época das ditaduras militares, um louco de palestra investiu contra o escritor Mario Vargas Llosa. Da plateia, um barbudão levantou e vociferou: Mientras Obregón se moria en la selva por el pueblo peruano, tu, que hacias?
O público silenciou. Sem se abalar, Vargas Llosa respondeu que dava aulas de literatura espanhola numa universidade. E devolveu a pergunta: Y tu, que hacias?
Yo tenía la hepatitis, disse o barbudão.
Uma categoria popular é a do louco lírico. “É o cara que, a todo custo, quer ler um poema, um conto, o primeiro capítulo de um romance. Já aconteceu de pegarem o microfone da minha mão e saírem soltando o verbo”, disse o escritor Marcelino Freire. Para ele, os poetas são os piores: estão sempre pedindo a voz.
O cartunista Laerte aprecia em particular o louco superespecialista, que conhece o seu próprio trabalho melhor que você, e aponta incoerências e contradições no que acabou de ser dito. Esse tipo pode trazer proventos vantajosos e é até possível forjar um deles para atuar em sua própria palestra – o sujeito levanta a mão e diz que certamente naquele trecho você fez uma referência velada à noção de witzelsucht tal qual é discutida em Heidegger. Gênio, grande pensador, você emite um “arrã” de modéstia e segue para a próxima pergunta.
Para o crítico Rodrigo Naves, que ministra um curso livre de história da arte em São Paulo, os doidos mais comuns são os carentes, que se põem a falar de seus problemas afetivos, existenciais, mercadológicos. “Tem um oriental que já vi se pronunciar em três ocasiões diferentes”, conta, ele mesmo um ocasional louco de palestra, do tipo agressivo, se bem que em recuperação. Houve uma vez em que Naves se ergueu da cadeira e, indignado com a opinião do palestrante, disse: “Não, não, não, não. Não, não, não”, como só um bom profissional do ramo conseguiria exprimir.
Há um subgênero de louco latente que, no entender do jornalista Elio Gaspari, é aquele que vai para as conferências, ouve tudo com atenção, mas o negócio dele é a comida oferecida ao final do evento. “Conheci um elegantíssimo, nos Estados Unidos, que ia de terno jaquetão. A piada era que um dia ele faria uma pergunta recitando todas as palestras que ouvira”, conta.
O mais recente registro formal de um louco de palestra ocorreu no último dia 10 de agosto, após um bate-papo com os cartunistas Gilbert Shelton e Robert Crumb, em São Paulo.
A intervenção abilolada saiu nas páginas do Estado de S. Paulo, registrada por Jotabê Medeiros: “Um maluco gritou lá de cima do mezanino perguntando qual seria a personalidade morta que Crumb elegeria para tomar uma cerveja consigo.” Crumb retrucou: “Não tomo cerveja com gente morta. Na verdade, nem tomo cerveja.” Em outro momento da noite, o cartunista pediu que um fã dominasse seus ânimos. “‘Shutupfuckoff!’, rosnou, e o menino riu.”
Bem-aventurado é o louco anônimo, o louco voluntário, o que se levanta indômito no meio da palestra e parte rumo à consagração. Amaldiçoadas sejam as perguntas por escrito, as regras contra a manifestação do público, o apupo impaciente, a placa de aplausos obrigatórios, as pessoas que jogam tomates em quem está atrapalhando o andamento da coisa.
Amaldiçoado seja o antropólogo Claude Lévi-Strauss, que no livro Minhas Palavras agradece aos alunos por suas reações “mudas, mas perceptíveis” que lhe permitiram desenvolver o pensamento sem grandes atropelos.
Viva aquele que comparece a palestras apenas para matar o tempo, e que ainda assim não perde a chance de se expressar, pois que é interessado em dividir suas opiniões com os outros seres. Viva a falta de noção, de vergonha e de respeito às autoridades presentes.
Todos têm um louco de palestra dentro de si, esperando para aflorar. Somos apenas reprimidos pelos grilhões da compostura, da sanidade mental e da idade adulta, o que nos impossibilita de protagonizar, em conferências, grandes momentos da história da argumentação humana – como quando, na Flipinha de 2005, um ouvinte de 5 anos de idade levantou a mão e perguntou ao escritor Luis Fernando Veríssimo: “Você gosta de suco de uva?”
… fez intensa referência a este blog e a outro. Era uma bela caneca ornamentada com a imagem abaixo. Clique na imagem para ampliar, vale muito a pena. A concepção foi de Francisco Marshall e a produção foi dele e de sua filha Heloísa, que andaram muitos quilômetros de bicicleta ontem pela manhã a fim de conseguir alguém que entregasse a caneca a tempo. O périplo foi realmente imenso. Durante o dia ou à noite de hoje, maiores detalhes sobre a modesta festa para quase 40 aqui em casa.
Lembro de ter lido algumas das reportagens literárias da série A vida que ninguém vê na Zero Hora. Gostava daquilo. Eram casos de pessoas anônimas, cujas vidas eram descritas numa linguagem derramada, intensa, que funcionava, iluminava o jornal. Acho que as histórias eram publicadas semanalmente. Comprei o livro da reunião delas numa feirinha do Mercado Público e li 50 páginas de enfiada no mesmo dia. E, juntas, tudo funcionou bem pior. O esquema geral ficou aparente demais, a linguagem tornou-se pesada, a adjetivação passou a incomodar. Como gosto de mim e, consequentemente, de sentir prazer em ler, fechei o livro e voltei a ele 15 dias depois, lendo uma história a cada dois dias. Melhorou muito.
Sei bem o motivo da primeira rejeição, mas isto faria com que eu desse uma imensa volta que passaria pela minha experiência e preferências como leitor — que absurdamente já ultrapassa os 40 anos de consumo diário de livros… — a teóricos como Pound, Bakhtin e James Wood. Seria longo e chato fazer o périplo, mas vou dar uma tangenciada, vou evitar a abordagem literário-ontológica e partir para o sociológico. Em outras palavras, vou enganar vocês ignorando toda uma faceta do livro, restituindo o caráter boêmio e irresponsável deste blog…
Outro problema da coleção de histórias é a escolha de seus personagens. Com poucas exceções — só o carregador de malas e o colecionador? — , temos uma galeria de desvalidos, de pessoas realmente paupérrimas ou deficientes, como se um solteirão sozinho num apartamento de classe média ou a estudante do interior que se esforça como Sísifo em vestibulares não fossem anônimos. O fato de serem de classe média não os deixa visíveis e talvez eles estejam desesperados ou indiferentes ou compulsivos ou infelizes ou eufóricos em outros âmbitos. Sabemos que uma lente de aumento sobre qualquer ser humano torna-o distinto, único. Ou seja, o sujeito não precisa estar numa situação-limite para ser interessante e estar na vida que ninguém vê.
A escolha quase exclusiva pelos enjeitados coloca-nos numa situação de culpa em relação a eles, certo; mas também coloca-os numa vitrine na qual a classe média pode observá-los como num zoológico. Parece haver uma separação, uma fronteira nos olhos da autora. Não gostei da opção e acho que a galeria deveria ser mais equilibrada em função da proposta. Afinal, o título do livro não é A pobreza que ninguém vê.
Para finalizar: costumo ler as colunas de Brum. Se as da Vida que ninguém vê já eram boas, as atuais são muito melhores. Gostaria de ler seu livro de ficção Uma Duas. Isso me faz recordar que estou de aniversário domingo!
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P.S.– O que dá ler duas vezes Ulysses em três meses… Hoje, eu escrevi naturalmente: Mesmo os pianistas mais geniais têm seus momentos de absoluta bocabertice. Já a interpretação, a concepção, reafirmam Hewitt como a maior pianobachiana viva. Putz, tô me sentindo como aqueles gaúchos que passam uma semana no Rio e voltam chiando. A propósito, esqueci de comentar aqui uma das passagens mais cômicas que já li: os fatos imediatamente posteriores ao encontro entre Bloom e Gerty MacDowell, sobre cheiros e coisas que grudam. Hilariante!
Como é que eles cantam “Com o Grêmio onde o Grêmio estiver” se não sabem onde estão?
Costumo discutir com meus amigos gremistas sobre a localização do Estádio Olímpico Monumental (grandioso, não?), o qual possui este nome por ter sido a sede principal das Olimpíadas de Porto Alegre. Sempre soube que o time da Azenha era, na verdade, o time da Medianeira, mas eles e a imprensa esportiva desejam ser “da Azenha”. Há músicas do clube que falam em Azenha e o site do clube confirma a informação. São equívocos.
Pois, em verdade, o estádio localiza-se na Medianeira, sendo que apenas o Pórtico Monumental e Imortal dos Campeões faz limite com o modesto bairro onde morei alguns anos. Como somos pessoas normais, sempre estranhei que abrigássemos o santuário de Zeus. Hoje eu descobri a verdade:
Medianeira é um bairro da zona sul da cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Foi criado pela Lei 1762 de 23 de julho de 1957, com limites alterados pela Lei 4626 de 21 de dezembro de 1979. Foi o primeiro bairro criado por lei.
(…)
O bairro também abriga o Estádio Olímpico Monumental, do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, que fica nos limites com o bairro vizinho da Azenha. Entretanto, como o acesso se dá por este último – e, para confundir, por uma avenida homônima ao bairro -, muitas pessoas acreditam que o referido estádio fica no bairro Azenha, o que é uma inverdade.
OK, nosso estádio deveria ser chamado de Beira-Lago, mas isso eu não acho tão divertido.
O bairro Azenha encontra-se às costas do fotógrafo que mostra a parte mais desinteressante da Medianeira | Foto: http://espaomarapoatextoseimagens.blogspot.com.br/
Em 2012, a clássica novela de Kafka, A Metamorfose, estará completando 100 anos. A marca que ela deixou na cultura ocidental é tão profunda quanto aquela deixada por 1984 de George Orwell e por pouquíssimos outros livros dos últimos séculos. E, com efeito, aqueles que leram a pequena obra de pouco mais de 30 mil palavras, dificilmente deixarão de lembrá-la e, dentre os apaixonados pela literatura ou pelo fantástico, não é raro encontrar quem saiba recitar de cor o início da novela, certamente uma das melhores e mais intrigantes aberturas da literatura de todos os tempos:
Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.
“O que terá acontecido comigo?” ele pensou.
Tradução de Marcelo Backes para a L&PM
Apesar de ter sido publicada em 1915, A Metamorfose foi escrita em novembro de 1912. A quase centenária novela foi concluída em apenas 20 dias no dia 7 de dezembro de 1912, quando Kafka escreveu à sua eterna e repetida noiva Felice Bauer: “Minha pequena história está terminada”. Há outra nota muito significativa escrita por Kafka. Dois meses antes, ao finalizar O Veredicto, outra pequena novela, Kafka registrou em seu diário que havia descoberto “como tudo poderia ser dito”. A Metamorfose foi a primeira tentativa após a nota.
Felice Bauer: duas vezes noiva de Kafka, jamais casaram
Tudo é muito enigmático em se tratando de alguém tão tímido e com tão poucos amigos como Kafka, mas certamente a frase escrita tem o significado de uma iluminação e tudo o que o escritor criou a partir dali — uma notável série de romances e novelas onde podem ser listados O Foguista, Diante da Lei, A Colônia Penal, O Processo, Carta ao Pai, Um Médico Rural, O Artista da Fome, O Castelo e A Construção, dentre outros — são obras ou de primeira linha ou de conteúdo nada desprezível ou esquecível. O crítico Otto Maria Carpeaux, que emigrou para o Brasil com a ascensão do nazismo, lembra:
— Fui apresentado a Kafka em Praga. Estávamos num jantar. Disseram-me que se tratava de um gênio. Era muito magro, sabemos hoje que tinha 1,82 m e por volta de 65 quilos. Estava num canto, sozinho. Fui até ele de forma a integrá-lo na conversa geral. Quando me apresentei, entendi seu nome como Kauka, porque ele falava muito baixo. Ora, se era Kauka, não era aquele autor do qual recebera dois livros que ainda não lera. Tentei puxar conversa, mas ele não dava continuidade, respondendo apenas o mínimo. Achei que incomodava e me afastei.
Kafka com seu grande amigo Max Brod na praia
Carpeaux — um grande crítico literário, autor de uma alentada História da Literatura Ocidental em oito volumes — arrependeu-se pelo resto da vida por ter desistido tão rápido de um escritor que passou a incensar poucos anos depois. Ele ouvira errado, não era Kauka, era mesmo o Kafka dos livrinhos recebidos. É compreensível que Carpeaux lamente a perda da oportunidade, mas não é lógico torturar-se — afinal, era o ano de 1921 e, embora a tal “iluminação” fosse de 1912 e o escritor tivesse vivido até 1924, Kafka nunca chegou a ser muito conhecido enquanto vivo. Era um escritor obscuro que publicava alguma coisa e engavetava outras. Quando morreu, pediu a um bom amigo que destruísse seus escritos não publicados. Para nossa sorte, Max Brod foi um amigo ainda melhor e o traiu, salvando para o mundo romances como O Processo e O Castelo.
Hoje, os volumes de crítica da obra de Kafka enchem estantes, mas os enigmas permanecem, mesmo em relação a A Metamorfose. Sabe-se que Kafka leu trechos da obra para Max Brod e outros de seus poucos amigos. Os biógrafos dizem que o grupo ria do grotesco das cenas. Kafka também. É possível ler Kafka em registro cômico, sem dúvida, mas é indiscutível que a leitura mais grandiosa é a que coloca o homem em desespero frente à existência. Há uma quase imperceptível camada de humor e outra de ironia, esta pouco mais espessa, perpassando seus textos, mas o efeito geral nunca pode ser descrito como alegre ou motivador. Na verdade, é um narrador imperturbável contando uma história sufocante, sem apelar para fórmulas de suspense ou terror. Gunther Andres, na página 19 de Kafka: pró e contra (os autos do processo), resume brilhantemente: “O espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém”.
Franz Kafka com a irma Ottla, no Centro Histórico de Praga
O título A Metamorfose provavelmente se refere não somente à mudança física de Gregor Samsa – nome estruturalmente bem semelhante à Kafka, não? –, que se torna um inseto “certa manhã”, como a todas as outras mudanças decorrentes na família. Se antes da metamorfose toda a família dependia de seu trabalho como caixeiro-viajante e o apoiava e amava, com a transformação em inseto e consequente prisão no quarto, o pai é obrigado a voltar a trabalhar, a ingênua e pura irmã de 17 anos também, a mãe passa a costurar e a casa transforma-se numa hospedaria onde Gregor é mais do que dispensável, é indesejado. A transformação física de Samsa gera outra metamorfose e pode-se dizer que ele passa de parasitado a parasitário, de arrimo a peso morto e objeto de repulsa.
Kafka pedira "encarecidamente" que a figura de Gregor não fosse retratada por seu editor, a posteridade não lhe deu atenção
É estranho que Gregor acorde aquela manhã sem tentar analisar o que teria acontecido, como e por quê. A pergunta “O que terá acontecido comigo?” é isolada. Depois, ficamos sabendo de suas incomodações com a vida anterior e temos a impressão de que a atual tanto faz. Em alguns momentos da narrativa, ele parece estar vingando-se, em outros, concupiscente. O ostracismo no seio familiar, a pressão do trabalho, a necessidade de obedecer, a profunda insatisfação de estar sendo escravizado, tudo o que a novela sugere encontra repercussão na vida do autor. A história do homem tornado besouro é inteiramente realista. O problema familiar recebe uma importante observação do tradutor Marcelo Backes: “Kafka invoca seu pai, mãe e irmã quase sem o uso dos pronomes possessivos. É algo muito insistente. É raro que o narrador fale de SUA irmã, de SEU pai, de SUA mãe. Eles são, na maior parte das vezes, apenas pai, mãe e irmã, sem a afetividade do pronome possessivo e vivendo tão-só em sua condição genérica de pai, mãe e irmã”.
No clássico Conversações com Kafka (1920-1923), Gustav Janouch cita que Kafka afirmara que “A metamorfose não é uma confissão, ainda que – em certo sentido – seja uma indiscrição”. Indiscrição certamente menor do que a célebre Carta ao Pai, mas não tergiversemos.
Detalhe da adaptação para os quadrinhos de 'A metamorfose', de Franz Kafka, desenhada por Peter Kuper (Clique sobre a imagem para ampliar)
A forma como Kafka monta rapidamente os conflitos do livro também surpreende. O primeiro está no famoso primeiro parágrafo, depois há outros dois conflitos graves, construídos na mesma linguagem direta e sucinta, de exatidão quase cartorial: o momento em que Gregor é visto pela primeira vez por seus familiares — uma cena de notável realização artística de Kafka — e momento onde a irmã de Gregor, Grete Samsa, aconselha seus pais a livrarem-se do enorme inseto, pois já haviam tentado de tudo para conviver com ele. Há também a interpretadíssima agressão com a maçã, mas talvez o que deixe o leitor mais perturbado é o que subjaz desde a primeira até a última palavra: é o fato de que outro acontecimento extraordinário simplesmente não ocorre. Não há o momento de explicação para o acontecido ou do retorno ao estado normal. Na verdade, não há explicações, tudo fica aberto às interpretações, há uma aristotélica e perturbadora ausência do esquema clássico de exposição, conflito, clímax e conclusão.
Kafka pediu a seu editor que evitasse desenhar, mesmo de longe, a figura de Gregor, mas hoje temos versões de Gregor Samsa até em quadrinhos, além de filmes. Para alguns trata-se de uma barata, apesar de que os sinais indicam claramente para uma espécie de besouro. Invocamos novamente o tradutor Marcelo Backes: “Kafka o refere apenas como “rola-bosta” (besouro). Mas o que é objetivo pode ser tanto mais difuso, uma vez que Mistkäfer (rola-bosta) pode-se referir também e inclusive a uma pessoa suja e descuidada, ou tratar-se de um escaravelho qualquer, uma vez que é designação comum a insetos coleópteros, coprófagos e escarabeídeos, que em geral vivem de excrementos de mamíferos herbívoros”.
Kafka sempre dizia: “Tudo o que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversações sobre literatura”. O que incluiria certamente este artigo. Ou seja, vale muito mais a pena ler a pequena e revolucionária novela.
Uma curiosa campanha para o incentivo à leitura, feita pela Johnson County Library em 2010
Ontem, Luis Otávio Santos foi apenas regente, e dos bons
Se eu tivesse todo o tempo do mundo, escreveria 4 ou 5 laudas sobre o bom concerto de ontem, mas como não tenho, vamos ver o que dá para escrever.
O programa era excelente, todo dedicado ao barroco tardio:
J. S. Bach: Suíte Orquestral nº 3 em Ré Maior George Philipp Telemann: Concerto para Viola em Sol Maior Antonio Vivaldi: Salve Regina George Friederich Handel: Música Aquática (Suíte Nº 1)
Todas obras conhecidíssimas, daquelas que postamos a toda hora no PQP Bach. Sendo assim, sabíamos bem o que íamos ouvir e o que seria original, diferente ou estranho. A começar pela acústica da Igreja Nossa Senhora das Dores nas Costas, que é apenas aceitável, mas ainda assim muito melhor do que a da Igrejinha do Colégio Anchieta. Apesar disso, o violista Cosmas Grieneisen ficava algumas vezes inaudível em função da orquestra. O curioso é que o soprano Cíntia de los Santos sempre esteve audível na posição em que eu estava, no canto direito, atrás dos violoncelos e do Benevides. Também ouvi perfeita e distintamente o violino do excelente Emerson Kretschmer, mesmo quando tocado em uníssono, principalmente no Handel. É um mistério acústico, pois eles estavam no lugar e ao lado do Cosmas. Eu conseguia ouvir até aquele delicado tsk de quando o arco começa a se movimentar na corda do violino do Emerson…
Talvez em comparação com gravações ouvidas por décadas, o efetivo orquestral deu-me a impressão de estar perfeito no Bach e no Handel, mas superdimensionado para o Telemann e o Vivaldi. Já o Vivaldi saiu com um jeitão de que parecia que a Rainha seria salva pela SWAT, tal a veemência de alguns momentos.
Maravilhoso foi o público que lotou todos os espaços, com pessoas em pé e outras sentadas no chão. Não eram as caras dos 200 de sempre, eram outras. Começaram aplaudindo entre os movimentos e depois pararam. Fizeram só uma vez. Nunca vi tanta atenção e aprendizado mais rápido.
A Suíte de Bach foi extremamente bem tocada. O regente Luis Otávio Santos sabe muito bem o que faz — é violinista e regente especializado no barroco — e fundou a Orquestra de Câmara da Ospa, um subconjunto da orquestra maior que soou muito interessante. O que quero dizer é que o som não foi o mesmo que ouvimos, por exemplo, quando a Ospa tocou o ciclo de cantatas do Oratório de Natal, de Bach, lá no SESC faz uns anos — ontem ela emitia um som de orquestra barroca, com perfeitos trompetes manhosos e outra dicção de parte dos violinos. Daquela vez, no SESC, repito, era a Ospa reduzida; desta vez era uma orquestra de câmara. Ah, sim — o moço Luis Otávio deve conhecer bem seu ofício. (Quem foram os trompetistas? Podem me informar nos comentários?)
Vamos para o outro ponto alto? Sim, o Handel. A Música Aquática é espaçosa e barulhenta, tanto que foi estreada numa embarcação bem no meio do Tâmisa, durante um passeio da corte inglesa. Os trompistas e os oboés se impõem em grande parte da música. Só que ontem o time titular estava em campo e não tivemos fadiga nos metais. Israel Oliveira e Viktória Tatour músicos de primeira linha, assim como seus cúmplices (quem são?). A interpretação foi impecável, com grande destaque também para as cordas.
(Handel sempre lembra minha adolescência Nos anos 70, amava aquelas gravações do Karl Richter e da Orquestra Bach de Munique. Música Aquática, Música para Fogos de Artifício e carradas de Concerti Grossi. Saudades).
O Concerto para Viola de Telemann estava assim assim. Na verdade, eu não ouvia muito bem o Cosmas Grieneisen de onde estava. Esta é a razão de eu não ter gostado. Ensaiando onde ensaiam, o pessoal da Ospa está acostumado a não ouvir ou ouvir demais o colega, mas eu, que conheço bem o concerto, deixava de ouvir a viola toda vez que esta era acompanhada pelo restante das cordas. Foi um negócio meio desesperador, porque acho legal que um músico da orquestra vá lá e sole. E, quando isso acontece, não ouço direito… E, já disse, este Concerto tem uma instrumentação bem mais delicadinha nas minhas adoradas gravações com instrumentos originais. Acho que estou acostumado a ouvir este concerto com 1/3 de músicos, no máximo 8 ou 10.
O mesmo vale para o Vivaldi. Eu ouvia perfeitamente o soprano Cíntia de los Santos, porém a orquestra parecia um exército. Pode ser um engano de minha parte, mas me pareceu estar ouvindo coisas de uma época pré Academy of Saint-Martin-in-the-fields, que utilizava instrumentos modernos, mas com maior parcimônia.
De qualquer maneira, como é BOM, ÓTIMO, EXTRAORDINÁRIO ouvir música de câmara desta qualidade e muito bem tocada! Saí muito feliz de lá.
O caso do romance Ulysses X Paulo Coelho: ontem li uma monumental besteira escrita por uma articulista num veículo de esquerda. É chocante a dificuldade que as pessoas têm de simplesmente admitir que foi uma bem urdida — mais uma — jogada de marketing.
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Sugiro aos querelantes que leiam um e outro. Parece-me tão simples.
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Detesto ir a dentistas. Vou hoje fazer uma revisão. Ainda bem que não sinto dores e tudo acabará em limpeza, como tem sido nos últimos cinco anos.
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Ontem, comprei o Amsterdam do McEwan. O Charlles Campos nem imagina, mas o fiz por insistência dele.
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O Inter contratou Rafael Moura quase na data do retorno de Leandro Damião. É uma diretoria muito bem humorada.
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Acho que o Inter pode continuar mandando seus jogos no Beira-Rio, mas não o Gre-Nal. Isto é, não jogos com duas torcidas.
É uma imagem clássica. No dia 14 de agosto de 1945, o Japão anunciou sua rendição, certamente em pânico após as bombas jogadas sobre Hiroxima e Nagasaki. Era o final da II Guerra Mundial e havia festa no Times Square de Nova Iorque. É a imagem do final da guerra: um marinheiro dando um beijo apaixonado em uma enfermeira. 67 anos depois, sem nunca ter repetido a cena, George Mendonsa e Greta Zimmer Friedman, ambos de 89 anos, se reuniram no local do famoso beijo.
“Era o momento. Você volta do Pacífico, e fica sabendo que a guerra terminou”, disse Mendonsa. Ele conta que tinha um encontro marcado com outra mulher chamada Rita Petry — sua esposa até hoje — no Radio City Music Hall, quando a notícia da rendição japonesa foi anunciada. Ele encontrou Rita e eles foram para um bar, beberam alguma coisa e, no caminho, Mendonsa viu uma mulher com uniforme de enfermeira. Então, deixou Rita a ver navios e correu para agarrá-la. “Era a emoção pelo final da guerra, somada ao álcool. Quando eu vi a enfermeira, saí correndo, abracei-a e a beijei.”
Greta disse: “Eu não o vi se aproximando; antes que eu percebesse, estava em seus braços”.
O que não se faz para tirar uma casquinha, né? Esse momento de alegria, oportunismo e paixão foi capturado pelo fotógrafo Alfred Eisenstaedt, da Life. Rita Mendonsa pode ser vista sorrindo ao lado do ombro do marinheiro na clássica foto. Ela diz que não se importou com o beijo que seu namorado deu na desconhecida. Dá para notar que se trata de um ser humano altamente evoluído.
A enfermeira e o marinheiro hoje, aos 89 anosO conquistador e sua esposa Rita: deixada subitamente por ele naquele 14 de agosto de 1945
Tudo o que diz respeito a Edu Lobo tem sempre pelo menos três marcas vigorosas: qualidade, discrição e rigor. Assim ele se transformou, desde os primeiros trabalhos, num referencial entre os compositores de sua geração. Assim conquistou o respeito de seus pares. E assim está sendo essa etapa de suas apresentações Brasil afora, que começaram há dois anos com o lançamento de seu disco “Tantas Marés”. Até agora, na sequência de shows realizados sem grande alarde, mas com público robusto, ele passou por Belém e Porto Alegre, Recife e Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte, Maceió e Salvador, além, claro, do Rio. Em algumas dessas cidades (Rio, São Paulo, Recife) precisou voltar mais de uma vez com o mesmo show. Há uma polpuda lista de espera, e os chamados vão sendo atendidos aos poucos.
Além da temporada que nasceu com “Tantas Marés”, vem mais Edu Lobo por aí. Há dois discos previstos para o ano que vem: o relançamento de “Corrupião” e o lançamento de um disco novo, gravado na Holanda em 2011. Outra novidade é que ele, sempre avesso ao que chama de “vida de cantor”, está gostando imensamente do palco. E mais: se a vida inteira preferiu enfrentar a plateia em locais menores, de pouco público e ambiente mais intimista, passou a sentir-se à vontade em espaços grandes, como o Palácio das Artes, em Belo Horizonte, com mais de 1.600 lugares e bilheteria esgotada.
Ele concorda e reconhece: “O que mudou é que hoje faço os shows com alegria, com um prazer enorme. O fato de não tocar violão nos shows me aproxima bem mais dos meus músicos e também do público. Tocando violão, me preocupo com o que estou fazendo, deixo os músicos em segundo plano. É que o violão protege, mas também afasta. Agora já não tenho as preocupações de antes, sumiu aquele frio na barriga na hora de entrar no palco. Entendo você usar o verbo ‘enfrentar’ o público. Mas esse verbo foi demitido, espero que para sempre. Sinto que já não enfrento o público: agora, encontro”.
O resultado é um intérprete maduro e seguro, dono de um repertório de canções extremamente elaboradas e refinadas que são sucessos impregnados na memória coletiva, transmitidos gerações afora. Muitas das canções, que nunca foram propriamente sucesso de vendas, são entoadas em coro por milhares de pessoas que souberam guardá-las. Essa permanência de uma obra é o que justifica o título de clássico. E Edu Lobo é autor de vários clássicos.
Nessa espécie de reencontro com o público, além de “Tantas Marés”, Edu relançou, há alguns meses, “Meia-Noite”, que estava fora de catálogo. Para ele, não existe intervalo algum entre seus discos individuais (“Corrupião” é de 1993, “Meia-Noite”, de 1995, “Tantas Marés”, de 2010) e o que chama de “discos de projeto” (“O Grande Circo Místico” é de 1983, “Dança da Meia-Lua” e “O Corsário do Rei” são de 1985, e “Álbum de Teatro”, que é de 1997, reuniu temas criados para montagens teatrais; “Cambaio”, de 2002, foi escrito por ele e Chico Buarque para uma peça de João Falcão).
“Sempre digo que os discos de projeto são tão meus quanto qualquer um dos individuais. Nesses discos eu trabalho com os orquestradores, passo ideias, acompanho todas as gravações, acabo cantando algumas canções. E o fato de não ser o único cantor do disco não me incomoda. Afinal, e também já disse isso muitas vezes, sou fundamentalmente um compositor. Trabalhar em projetos é, para mim, tão importante como fazer um disco só meu”, diz.
“Meia-Noite” é um desses discos só dele. Relançado pela gravadora Biscoito Fino, passou, nessa reedição, por uma mudança. “Pra Dizer Adeus”, gravada por Edu e Dori Caymmi na edição original, foi posta de lado. Com letra de Torquato Neto, “Pra Dizer Adeus”, conta Edu, “é uma música que foi gravada por meio mundo, Sarah Vaughan inclusive, e não achei que tivesse muito sentido mantê-la. Em seu lugar, preferi a gravação que Dori fez do ‘Choro Bandido’, com letra do Chico Buarque”. Com seu rigoroso sentido de exigência, diz que agora “Meia-Noite” ficou do jeito que gostaria que ficasse. Entre as canções estão clássicos como “Beatriz” e “Meia-Noite” (com Chico Buarque), “Candeias” (letra do próprio Edu) e “Canto Triste” (com Vinícius de Moraes).
E para seguir na toada de novidades, Edu está terminando as mixagens do disco, ainda sem nome, gravado na Holanda, durante sua apresentação com a Metropole Orkestra de Amsterdã, uma das bandas de jazz mais reverenciadas da Europa. Ser convidado para se apresentar com ela é sinal de prestígio indiscutível. Já se apresentaram com a Metropole Dizzie Gillespie, Ella Fitzgerald, Bill Evans e Sarah Vaughan, entre outros. Do Brasil, Ivan Lins e Wagner Tiso. Para essa missão, Edu convocou o pianista e orquestrador Gilson Peranzzetta e o saxofonista Mauro Senise.
Sua maior preocupação era como a orquestra se daria com a alma marcadamente brasileira, em especial no aspecto rítmico, de algumas de suas canções. Já nos ensaios, essa preocupação desapareceu. A integração entre os músicos europeus, os arranjos de Peranzzetta, os sopros de Senise e as canções foi total.
O resultado é uma cuidadosa releitura, cheia de vigor, de parte substancial de sua obra. De “Vento Bravo” a “Casa Forte”, de “Zanzibar” a “A História de Lily Braun”, “Frevo Diabo” e outras canções escritas com Chico Buarque, o “disco holandês” surpreende até quem conhece de perto o trabalho de Edu.
Tudo isso – apresentações no Brasil, relançamento de discos, álbum novo – não significa exatamente uma retomada. Afinal, só se retoma algo que foi interrompido. E ele não abandonou nem interrompeu nada. O que Edu Lobo tem feito, ao longo dos anos, é ficar quieto no seu canto, trabalhando com seu rigor e exigência extrema e volta e meia deixar chegar ao público uma obra que, com justa razão, fez e faz dele motivo de respeito e reverência de seus colegas de ofício. E fez dele um dos autores mais presentes na memória de todos nós.
Apesar do contéudo, esta é uma das frases que mais gosto. É da maravilhosa e tiritante ária do Rei Arthur de meu querido Henry Purcell. Já ouvi versões mais geladas, onde tanto o cantor quando as cordas batiam mais os dentes…
Nestas férias, levei as crianças para passar uma temporada num acampamento ateu nos EUA. Durante duas semanas eu, minha mulher e os dois garotos fizemos programas familiares na região de Washington DC, fustigada por um calor senegalês. Eram 40 graus à sombra. Na semana seguinte, enquanto eu e Josiane gozávamos um idílio romântico, os gêmeos Ian e David, agora com dez anos, eram iniciados nos evangelhos de Dawkins, brincando com outras crianças enquanto recebiam lições de ciência e ceticismo. Era um daqueles acampamentos de filme, em que os meninos dormiam em cabanas de madeira bem primitivas no meio de uma floresta e derretiam marshmellow na fogueira.
Minha ideia inicial não era a de doutrinar os garotos, que já são por constituição dois bons ateuzinhos. Pretendia apenas promover uma viagem em família e aproveitar para reciclar-lhes o inglês, aprendido no período em que moramos em Michigan, internando-os num “summer camp”. Mas, durante minhas buscas na internet por um lugar adequado, sempre topava com descrições que frisavam os “valores cristãos” ali ensinados. Aos poucos, aquilo foi me deixando irritado. Os garotos já aprendem mais valores cristãos do que eu desejaria na escola católica em que estudam em São Paulo (não tenho nada contra religiosos desde que promovam um bom ensino). Eu queria apenas um acampamento de verão que fosse divertido. Assim, num momento de exasperação, joguei no Google “atheist summer camp” e, para minha surpresa, apareceu o Camp Quest, no qual logo os matriculei.
Trata-se, na verdade, de uma rede com acampamentos em vários Estados dos EUA e no Reino Unido. Eles até tentam, sem muito esforço, negar a pecha de ateus, preferindo termos como “secular” e “freetought” (pensamento livre), mas o caráter da instituição fica claro no nome com que batizaram a barraca em que Ian e David ficaram: “Magic of Reality”, título do último livro de Richard Dawkins, em que ele explica ciência e prega ateísmo para crianças.
Os garotos adoraram. Ressentiram-se um pouco de não ter conseguido jogar futebol como pretendiam, mas divertiram-se a valer, aprenderam os rudimentos do pensamento crítico e atualizaram seu inglês. Ian, que tem um talento especial para idiomas, chegou arrastando um sotaque levemente sulista, já que a maioria dos “campers” vinha da Virgínia, de Maryland e da Carolina do Norte.
Essa pequena mágica, a mudança de acento, esconde uma espécie de segredo de polichinelo da psicologia, algo que está bem na nossa cara, mas que nos recusamos a ver: pais importam muito menos para a formação dos filhos do que estamos dispostos a admitir. Quem primeiro lançou essa tese foi Judith Harris em “The Nurture Assumption – Why Children Turn Out the Way They Do” (a hipótese da criação – por que crianças se tornam o que se tornam), lançado em meio a muita polêmica em 1998. Esse foi um dos bons livros que li nas férias.
Harris sustenta que a socialização dos jovens não se dá através dos pais, como nossa cultura prega, mas por meio de seus pares, isto é, de outras crianças da mesma faixa etária e sexo. Um dos muitos argumentos que ela usa para apoiar sua teoria é o fato de que filhos de imigrantes não terminam falando com a pronúncia dos pais, mas sim com a dos jovens com os quais convivem. Pode parecer até meio banal, mas a conexão linguística é especialmente interessante para o debate hereditariedade X educação porque ela é uma das poucas características que não embaralha fatores genéticos e ambientais. Com efeito, o idioma que falamos e a forma como o fazemos não são determinados pelos genes, mas só pelo meio em que vivemos. E, nesse meio, a força dos pares claramente prevalece sobre a dos pais. Harris se pergunta se esse mesmo esquema não valeria para outras características, ainda que entremeadas com condicionantes genéticas, como personalidade, religiosidade, propensão a vícios, a cometer crimes etc.
E ela acredita que sim. Para a pesquisadora, a influência dos pares supera a dos pais em quase tudo. É apenas por uma herança cultural relativamente recente, que valoriza sobremaneira a criação, que imaginamos o contrário. É verdade que existe toda uma biblioteca de pesquisas supostamente científicas que aponta para os efeitos paternos, mas Harris afirma que esses estudos sofrem de graves falhas metodológicas. Eles continuam a ser produzidos porque dizem o que queremos ouvir.
Boa parte das conclusões a que Harris chegou tem como base os estudos de gêmeos e adotados, que permitem não apenas discriminar efeitos genéticos de ambientais como também distinguir, nesta segunda categoria, o que seria o ambiente reprodutível (aquilo que passa para todos os que são criados no mesmo lar, escola etc.) do ambiente único (aquilo que faz parte da história exclusiva de cada indivíduo). E a somatória desses trabalhos aponta de forma mais ou menos clara que o ambiente reprodutível, onde os efeitos gerados pela criação se incluiriam, tem muito pouca força no longo prazo.
Um caso eloquente é o do comportamento criminoso. Um estudo dinamarquês que mantinha registros dos pais biológicos e dos adotivos e acompanhava o desenvolvimento das crianças, inclusive as condenações penais que receberiam como adolescentes e adultos, mostrou que 15% dos filhos de pais sem problemas judiciais criados por delinquentes acabaram tornando-se criminosos. Já entre os descendentes de gente honesta criados por pais adotivos também honestos, a taxa de desencaminhados foi de 14%, uma diferença irrisória.
A história muda um pouco para os filhos de criminosos criados por pais honestos. Aqui, a delinquência atingiu 20%, um bom indício de que a genética influi na sanha infracional. Na ponta final temos os filhos de criminosos educados por criminosos. A taxa de desviados nessa categoria foi de 25%. Esse seria um sinal de que a criação, afinal, faz diferença, ainda que apenas para o mal. Mas o resultado deve ser relativizado à luz de um outro dado. Nas cidades pequenas, o efeito do pai adotivo criminoso simplesmente desaparecia, o que se explica se pensarmos menos em termos de pais e mais da vizinhança em que a criança cresceu. De novo, são os pares que importam mais.
Para Harris, essa sensibilidade extrema do ser humano a seus iguais faz sentido do ponto de vista da evolução. No ambiente darwiniano em que nossa espécie passou a maior parte do tempo, tornar-se órfão ainda em tenra idade era, senão a regra, ao menos uma possibilidade bastante concreta. A melhor chance de um jovem sobreviver nessas condições era ser capaz de aprender e socializar-se com o grupo, não com os genitores.
A hipótese encontra amparo no fato de que crianças que são criadas em condições razoáveis de vínculos, vá lá, amorosos, por um dos pais ou um substituto pelo menos até os quatro anos acabam se tornando adultos funcionais mesmo que, dos 4 aos 18, passem por um festival de horrores em orfanatos ou nas ruas. Já quando traumas e abusos vêm antes dos quatro anos, o mais provável é que a criança se torne um adulto problemático, mesmo que, depois da idade crítica, seja tratada a pão de ló. Na Idade da Pedra em que o homem foi forjado, perder os pais antes dos quatro e não encontrar nenhum substituto equivalia a uma sentença de morte.
Para Harris, o efeito dos pares sobre o indivíduo é inafastável. Mesmo que a criança seja rejeitada pelos colegas num bullying maciço e não tenha nenhum amigo, ainda será ao grupo de semelhantes que ela irá se comparar e do qual tirará suas referências e inferirá as regras sob as quais o mundo funciona. É nesse processo de comparações e busca de inserção social que ela consolidará as características de sua personalidade, em boa medida genéticas.
O que o ambiente moderno fez, sustenta a pesquisadora, é criar uma multiplicidade de nichos por causa das grandes aglomerações em que vivemos. Entre caçadores-coletores, as crianças são “criadas” pelo grupo de jovens que reúne tipicamente meninos e meninas de várias idades. Hoje em dia, com escolas de centenas de alunos, o garoto(a) socializa-se apenas com coleguinhas do mesmo sexo e idade. O resultado é a exacerbação das características. Meninas se tornam hiperfemininas e meninos, hiperativos. O mau aluno encontra outros maus alunos, que constituirão um grupo onde rejeitar a escola é percebido como uma característica positiva. O mesmo vale para a violência e o uso de drogas. Na outra ponta, podem surgir subculturas que valorizem a leitura, a utilização de computadores e outras “nerdices”.
O livro de Harris é muito bom. Mesmo que não compremos todas as suas conclusões pelo valor de face, é difícil rejeitar todas as evidências que ela oferece e seguir acreditando piamente no mito da boa criação. E reconhecer que o papel dos pais não era bem aquilo que imaginávamos não significa que os genitores sejam inúteis ou impotentes.
Para começar, cada um deles fornece 50% da matéria-prima, que são os genes. A melhor maneira de ajudar o futuro de seu rebento é encontrar um bom(a) parceiro(a) para gerá-lo. Depois disso, é preciso mantê-lo vivo pelas próximas duas décadas e recebendo quantidades adequadas de nutrientes e informações. A fase até os quatro anos de vida é especialmente sensível. Se você não cometer abusos nem submetê-lo a maus-tratos nessa janela, o mais provável é que ele se torne um adulto funcional.
Há ainda outras maneiras de influir. É bem verdade que você pode pouco contra os pares, mas, como adulto, tem o poder de determinar a área em que a família vai viver o que, em boa medida, determina os colegas e amigos que ele terá à sua disposição. Se o seu filho está nas piores companhias, em vias de tornar-se um marginal, você pode mudar-se para uma cidade menor, onde não será tão fácil encontrar um grupo de “bad boys”. Não é garantia de dar certo, mas é uma chance.
Outra coisa que pais podem fazer é transmitir hábitos e práticas que não são escrutinados pelo grupo e, portanto, tendem a manter-se incontestados. É nessa categoria que entram coisas como cozinhar ou tocar piano. É difícil uma criança ser ridicularizada por algo que não entra nas conversas do grupo e, portanto, ninguém sabe que ela faz. Se a prática não é condenada, pode ser conservada.
De resto, o importante, como já coloquei num outro texto em que comentava aspectos da criação, é aproveitar a jornada. Mesmo que o poder dos pais de imprimir características duradouras aos filhos seja pequeno, o de gerar momentos prazerosos que se consolidarão em memórias carregadas por toda a vida é quase ilimitado. E, como sabe todo ateu, a capacidade de deixar lembranças é a única forma de transcendência cientificamente comprovada.
O blog Ateísmo & Peitos não é de minha autoria, mas todos os meus amigos sabem que poderia ser, pois são duas coisas nas quais acredito incondicionalmente. Ontem à noite, eles trouxeram três imagens que são grandes representações, uma do amor, outra da fé e a última demonstra a importância da prudência. Vou guardá-las em meu coração.
Mais uma anotação da terceira tradução e leitura de Ulysses, a MELHOR, sem dúvida.
E então mudamos de capítulo e, como ocorre sempre em Ulysses, muda o escritor. Entra um que parece viver em pleno esplendor kitsch:
O entardecer estival começara a envolver o mundo em seu misterioso abraço. Longe no Oeste o sol se punha e o último reluzir do dia fugaz brilhava ainda encantador sobre mar e areia, o altivo promontório do nosso querido Howth, vigilante como sempre sobre as águas da baía, as pedras cobertas de algas da praia de Sandymount e, com não menos importância, sobre a tranquila igreja de onde brotava por vezes no silêncio do ar em tornoa voz das preces a ela que em sua pura radiância é um farol para o coração do homem, fustigado pelas tormentas, Maria, estrela do mar.
As três amiguinhas estavam sentadas nas pedras, aproveitando o espetáculo do crepúsculo e…
Joyce é um baita gozador. Logo depois vem a famosa cena de masturbação de Bloom sob o olhar e a provocação de Gerty MacDowell, uma das três amiguinhas. Não, não cabe num tuíte, Paulo Coelho. E este livro é demais e é muito, mas muito divertido.
... o altivo promontório do nosso querido Howth, vigilante como sempre sobre as águas da baía...Olhando a foto anterior, o Howth parece ser uma ilha. Não é.
“Se incomoda demais com as críticas”? Paulo Coelho é achincalhado, vilipendiado, ridicularizado todo santo dia, em todos os veículos de mídia brasileiros, há duas décadas. Jamais, por exemplo, processou ninguém — coisa que uma escritora gaúcha fez com o blogueiro Milton Ribeiro por causa de UMA resenha crítica. O Mago nunca passou nem perto de ameaçar agredir ninguém, coisa que escritor iniciante muito menos criticado já andou fazendo por aí. Considerando a pancadaria que ele recebe todo dia, e em comparação com o mundo literário que eu observo, o Mago é super tranquilo com críticas.