Genocídio, sim + Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

A Faixa de Gaza é um território situado no Oriente Médio limitado a norte e a leste por Israel e a sul pelo Egito. É um dos territórios mais densamente povoados do planeta, com 1,5 milhão de palestinos para uma área de 300 Km², ou seja, sua densidade demográfica é de estupefacientes 5000 habitantes por Km². Atualmente a Faixa de Gaza não é reconhecida internacionalmente como pertencente a um país soberano. O espaço aéreo e o acesso marítimo a ela são controlados pelo estado de Israel.

5000 habitantes por quilômetro quadrado. Isto significa dizer que, se Israel jogar bombas a esmo, matará. Também significa dizer que os “alvos militares” estão certamente misturados a residências de civis.

Israel, antes dos ataques, já mantinha os habitantes de Gaza sob constante fome. É claro que tudo o que é consumido em Gaza é produzido fora. O “país” são alguns bairros lotados de gente. Gaza é uma prisão a céu aberto vista com indulgência por nós, ocidentais. Os israelenses decidiam o que poderia entrar no “país”. Só que há o Hamas, que conseguia trazer foguetes de pequeno porte para dentro de Gaza e os lança. É natural, meus amigos. No Brasil, quem tenta fugir da cadeia não tem sua pena aumentada, pois é considerado normal que o oprimido — e não importa seu crime — procure libertar-se.

Então, Israel passou a racionar drasticamente os víveres que entravam em Gaza. Tudo para criar um conflito que justificasse o atual genocídio. Sim, é um genocídio. Perguntei a dois amigos judeus se eles se ofenderiam se eu dissesse que as atitudes de Israel são comparáveis com o holocausto judeu promovido por Hitler. Não, acham normal que eu diga isso. Aquilo e isto são genocídios. Um deles apenas pediu para que eu não dissesse que aquilo era feito por judeus, pediu que eu acusasse Israel e seu atual governo.

Estou muito tranquilo para dizer que esses ataques são matança pura e simples, digo serenamente que Israel quis os foguetes do Hamas para justificar ao mundo seu Auschwitz particular. E o mundo ocidental, ainda culpado por fatos ocorridos há mais de 60 anos e adubados por filmes americanos que retratam um holocausto real e indiscutível, vê a reedição de fatos que nunca deveriam se repetir sob seus narizes. É uma vergonha sem fim para toda a humanidade.

Porém, um dia, provavelmente quando eu já estiver morto, haverá uma enorme guerra contra Israel. Há 1 bilhão de árabes quase desarmados e 7 milhões de israelenses competentíssimos e preparados para guerra. Um dia isso muda. Eu não quero ver como será a vingança, mas que ela virá, tenho certeza.

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O Diário Gauche publicou um post que demonstra a perda de território a que os palestinos foram submetidos por Israel e os EUA. Vejam abaixo a consequência das repetidas guerras. Mas acho melhor vocês verem o mapa lá no post do Diário Gauche, pois meu blog está tão estranho que não aceita imagens maiores do que 35-40K.

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Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).

As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:

1)No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2)As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3)Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.

Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4)Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5)Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6)A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7)Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8)Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9)A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10)É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11)Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12)Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13)Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:

a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo)
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14)A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15)O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16)Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.

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Chico Buarque

Tinha 9 anos quando meu pai trouxe para casa o recém-lançado vinil “Chico Buarque de Hollanda”. Na capa, duas fotos de Chico – uma sorridente e outra sério – sobre fundo azul contínuo. Ali havia “A Banda”, “Olê Olá”, “Pedro Pedreiro”, “Você Não Ouviu”, “Tem Mais Samba”, “A Rita”, “Juca” e mais 5 músicas. Tal como os discos dos Beatles que ouvia com minha irmã, era um vinil de que se podia ouvir todas as canções. Não havia nada de segunda linha. Depois, continuamos a acompanhar a carreira de Chico comprando cada um de seus discos, até os italianos. Como muitos brasileiros, posso cantar muitíssimas músicas dele; faz parte da vida e da memória de nosso país e, quando meu pai faleceu, uma das poucas coisas que fiz questão de pegar foi este vinil.

Dia desses, vi numa comunidade do orkut pessoas escolhendo suas letras preferidas de Chico. É complicado — a audição ou leitura da obra de Chico mais parece antologia de grande autor do que obras completas –, são muitas letras notáveis e cada um só podia escolher três. A escolha passa necessariamente por nossas preferências pessoais e pelas idiossincrasias de cada um… Bem, eu meti a colher escolhendo “Eu te amo”, “Flor da Idade” e “Moto-contínuo”.

Depois, deitado em busca de sono, decidi que gostava mais da letra de “Moto-contínuo”. Em primeiro lugar por causa da perfeita combinação com a música de Edu Lobo, em segundo lugar por ser uma música sobre um assunto raro: a fé do homem e a fé no homem. Quem chamou minha atenção para esta letra foi meu amigo Alejandro Borche Casalas, pois, quando a ouvi pela primeira vez no vinil “Almanaque”, fiquei tão hipnotizado pela música de Edu que deixei de lado a letra, que pareceu-me confusamente dedicada a alguma musa de Chico… Engano crasso. Alejandro, num final de noite de 1982, perguntou-nos: sobre o que fala esta música? Não lembro de minha resposta nem das dos amigos. Lembro que ninguém disse que era sobre a fé. Como Alejandro é uruguaio, esclareceu-nos: é sobre a fê; disse assim mesmo: fê.

“Eu te amo” é uma escolha lírica e “Flor da Idade” é sua antítese; talvez seja a música mais sacana de Chico. Sacana no sentido de sacanagem mesmo.

Abaixo, transcrevo as letras de minhas preferidas para meus 7 leitores. Vocês concordam? Discordam?

Moto-Contínuo

Um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for por você
Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você
Pode inventar qualquer mundo, como um vagabundo se for por você
Basta sonhar com você

Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício
Porque vai habitar o edifício que fez pra você
E no aconchego da pele na pele, da carne na carne
Entender que o homem foi feito direito
Do jeito que é feito o prazer

Homem constrói sete usinas usando a energia
Que vem de você
Homem conduz a alegria que sai das turbinas
De volta a você
E cria o moto-contínuo da noite pro dia se for por você

E quando o homem já está de partida
Da curva da vida ele vê
Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque

Sabe que o homem vai fundo e vai fundo e vai fundo
se for por você.

Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da hora,
Se juntos já jogamos tudo fora,
Me conta agora como hei de partir?

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios,
Rompi com o mundo, queimei meus navios,
Me diz pra onde é que inda posso ir…

Se nós, nas travessuras das noites eternas,
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir…

Se entornaste a nossa sorte pelo chão,
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu…

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu…

Como, se nos amamos feito dois pagãos,
Teus seios inda estão nas minhas mãos,
Me explica com que cara eu vou sair?

Não, acho que estás te fazendo de tonta,
Te dei meus olhos pra tomares conta,
Agora conta como hei de partir…

Flor da Idade

A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixa um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor
Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

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Divertimento de feriadão

Entediado, o governo de Israel resolveu bombardear a Faixa de Gaza na manhã de ontem. Mataram 224 palestinos e fizeram 700 feridos, 120 deles em estado grave. O primeiro-ministro do país, Ehud Olmert, disse que a operação militar “pode levar tempo” e uma fonte militar afirmou que a campanha pode ser ampliada e incluir forças terrestres. “Não temos limite de tempo e estamos determinados a fazer o que for preciso, incluindo todas as nossas opções, por ar ou por terra”, disse o militar a repórteres. Condoleezza achou o máximo.


Acima, um modelo profissional palestino procura obter sua compaixão, prezado leitor ocidental, durante o ataque de ontem…

É, meus amigos, a Palestina tem um inimigo que conta com incondicional simpatia no ocidente e que ainda costuma exibir-se como vítima. Isto significa que Israel pode promover suas carnificinas quando bem entender. Haverá muito mais sangue. É assim que começamos 2009.

Atualização das 18h:

Ataque israelense a Gaza

É a mesma velha técnica de Israel: poucos dias antes da posse do novo presidente dos EUA, os israelenses criam uma nova situação gravíssima, para garantir que os EUA sejam obrigados a continuar lá, fazendo o que sempre fizeram (pagando, sobretudo, tudo e todos). Os palestinos não têm qquer chance, enquanto os EUA reinarem no planeta. Leia mais aqui.

Atualização de segunda-feira, 12h:

Um post esclarecedor de Idelber Avelar aqui.

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Porto do Desespero – Mais Vôos – Cap. XVIII

Publicado em 30 de junho de 2006

Obs.: Aqui, damos continuidade à novela coletiva Porto do Desespero. O segmento anterior está aqui e dizem que todos os outros capítulos estão aqui, na coluna da esquerda. Mas tem que dar uma procurada dentro de cada blog que você entrar, viu?

Os décimos de segundo que o corpo de Daniel levou para cair da janela até o chão foram longuíssimos. Todos os principais fatos de sua vida foram-lhe apresentados como num filme para que pudesse, quem sabe, arrepender-se. Como fundo, a voz de Cid Moreira, recitando em tom fúnebre:

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Enquanto via o chão branco com 50 centímetros de neve aproximar-se rapidamente, continuava a ouvir:

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
sem uma bolsa d’água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Daniel, cada vez mais preocupado com a batida contra o solo, especulava: quem me dera ter um pára-quedas ou ser mais leve! Será que o autor deste ícone da auto-ajuda achava que o cego Borges andava para lá e para cá com um pára-quedas sob a axila?

Porém, quando Cid chegou na sílaba tônica de “leve”, Daniel chegou ao chão. O fato de haver ouvido claramente a segunda sílaba era no mínimo alvissareiro. Visto da janela de onde saíra há poucos segundos, o recorte de seu corpo enterrado na neve faria a alegria de qualquer cineasta. Os poucos transeuntes que viram a cena – todos velhinhos canadenses que costumavam passear quando a temperatura chegava aos vinte graus negativos – exclamavam-se, mas uma velha senhora gritava desesperadamente. Mesmo com o nariz enterrado na neve, Daniel notou que caíra sobre algo peludo e gostoso de abraçar, ao mesmo tempo que escutava destacar-se a voz da velha:

– Ele levou um tiro e caiu sobre o cão de minha sobrinha-neta Anne-Lucie! Eu ouvi o tiro. Que horror!

Sob um ohhhhh dos circunstantes, Daniel ergueu-se lentamente e, com uma furtiva lágrima caindo-lhe do olho esquerdo, disse à velha senhora:

– Diga a Ana Lúcia que seu cão não morreu em vão. E… Gostaria de lhe dizer que… Sei lá, sabe? É que se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.

Os velhinhos olharam apalermados uns para os outros quando um casal saiu correndo do Hotel Quebec pedindo para que Daniel os acompanhasse. Mariana chorava e Roberto a puxava pelo braço. Roberto disse a Daniel:

– Vamos resolver esta merda com um moderador. Queremos que o Idelber Avelar resolva quem de nós, a partir de agora, comerá Mariana.

– Mas ele nem tem um blog! – reclamou Mariana.
– Já tem de novo!

Olhou para Daniel novamente.

– Essa vaca queria que o Smart Shade of Blue fosse nosso moderador, disse que todos o odiavam. Claro que, em sendo assim, deve ser um justo. Mas prefiro ir a New Orleans, muito mais perto.

Entraram os três no Karmann Ghia de Roberto. Como isto é uma Pulp Fiction, havia espaço de sobra.

– Você está bem, Daniel? – perguntara docemente Mariana, enquanto o via abrir o zíper das calças.
– Preciso de maior leveza, gente. Vou me masturbar.
– Ninguém vai sujar de porra a porra do meu carro – trovejou Roberto.

(Porém, meus sete leitores devem estar se perguntando sobre o tiro ouvido no quarto durante a longa queda de Daniel. Simples, no momento em que Mariana e Roberto lutavam, um homem de fenótipo neo-nazista – musculoso, skinhead, de botas pretas e piedosos cilícios nos pulsos – derrubara a porta com um pontapé e perguntara:

– Há alguém aqui que não aprecia os Wunderblogs?

Mariana percebeu a gritaria lá fora e concluiu que Daniel, aquele boca aberta, teria caído e morrido na queda. Também viu uma tatuajem no pulço do homem, logo abaixo dos torturantes silícios vindos diretamente da Califórnia.

Era o rosto de Alexandre Soares Silva!

Naquele momento, sentiu que crescera como ser humano. Entendeu que tinha que ser autêntica na presença do corpo morto de um dos homens com os quais praticara intercurso e declarou, veemente:

– Eu não gosto!

E Roberto interveio:

– Ele perguntou o quê? Se a gente não gosta do blog do Wunder Wildner? Eu adoro o Wunder. Ele tem blog?

Em resposta, a cara do articulado skinhead torceu-se em indescritível mágoa. Ele puxou um trabuco e fez mira em Mariana. Antes de atirar, gritou dramaticamente “Morraaaaaaa!”, porém Roberto, ex-goleiro do ASA de Arapiraca, saltou sobre seu braço, desviando o tiro. Quando preparava-se para encher o cara de porradas, Roberto sentiu que o skinhead desistira do combate por decisão deste escriba. Saiu furibundo dizendo que

– porra, o Flavio Prada me deixa apanhar de uma mulher no capítulo anterior, e neste não me deixam bater no Wunderbar, que merda.

Após rápida deliberação, fugiram do hotel. Nas escadas, Mariana explicava-lhe que o cantor era Wander – e não Wunder – Wildner. Fim da história do tiro.)

Agora, eles rumavam para New Orleans, milhares de quilômetros ao sul de Quebec, a fim de que Idelber resolvesse a pendenga sobre quem continuaria comendo quem. Não conseguiam descobrir a pronúncia correta do nome do moderador. Roberto garantia: era Ídelber; Daniel sustentava ser Idélber e Mariana queria um Idle Bear. Enquanto dirigia, Roberto via como Daniel se recuperara da queda. Com a ponta dos dedos da mão esquerda, ele segurava um dos mamilos de Mariana, enquanto que, com a mão direita, se masturbava. Só que, sentado no meio do espaçoso banco de trás, era obrigado a cruzar os braços, pois não conseguia masturbar-se com a mão esquerda. Com isto seu braço esquerdo atravessava o carro em direção ao seio de Mariana, enquanto que, com a mão direita, tentava manter um certo ritmo. Não era confortável. Mariana tirava o máximo prazer possível da situação com suas duas mãos dentro da calcinha. Chegou tão rapidamente a seu objetivo que Roberto refletia sobre quão rodada seria aquela gata.

Foi uma viagem altamente confusa, psicologicamente tensa e cheia de momentos bergmanianos – pois os rapazes não sabiam mesmo quem comeria quem e apenas Mariana tinha alguma idéia do que fazer. Roberto insistia em cheirar a cada parada, além de polvilhar com a droga tudo o que comia. Finalmente, chegaram a New Orleans. Estava tudo diferente. A cidade parecia um lago. Viram um cãozinho chamado Oliver vibrando com a oportunidade de ganhar um novo dono, um blogueiro desesperado por ver submersos os pés das mulheres, os professores de Tulane boiando nas águas aproveitando o sol e pássaros voando sem ter onde pousar.

Foi quando o Karmann-Ghia (um anfíbio?) começou a ser acompanhado por uma enorme sombra. Aquilo assustou-os. Era estranho: sol por toda a paisagem e uma sombra acompanhando-os! Depois desta situação hitchcoquiana, notaram que as pessoas olhavam admiradas para algo que estava sobre o carro. Foi uma circunstância fortemente shyamalaniana. Enquanto resolviam – sem decidirem-se a nada – quem sairia para examinar o que havia no teto, viram enormes garras envolver o carro como se este fosse uma lata de sardinha. Perceberam que eram erguidos ao mesmo tempo que enormes asas assomavam às janelas. Começaram a gritar desesperamente, mas só obtiveram como resposta um

– Graaaaak!

Creio que todos vocês sabem de quem será o próximo segmento da sensacional, aleatória e aleotária novela feminista “Porto do Desespero”. Sim, ele mesmo, El Rey, terá que se ver novamente com o pássaro que acaba de matar num post.

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O Monólogo Amoroso (XI)

Raul senta-se calmamente diante do psiquiatra e recomeça.

Eu era muito moço e não sabia que uma separação era algo tão terrível. OK…, sim, na vez passada eu falava sobre como descobri que a Nina estava se encontrando com seu ex-namorado, é isso? Bem, um amigo me contou. Um dia, o Flávio veio cheio de dedos, dizendo que ia me contar uma coisa pela amizade que nos ligava e que eu não me irritasse. E falou claramente que a Nina entrava e saía e passava a noite no apartamento do tal de Ricardo. Minha primeira reação foi de ódio, mas acho que uma hora depois minha tristeza e desespero eram tão profundos que eu não queria voltar a conversar sobre o assunto. Enquanto estava com Flávio, perguntei duas ou três vezes se ele tinha certeza daquilo, se ele vira, se o fato se repetira, se era ela mesmo. Quis saber sobre horários e até sobre suas roupas. Não havia a menor sombra de dúvida: era ela, era ele e só se meu amigo fosse um louco de filme americano para inventar tantos detalhes. Pior: sua mãe era quem tinha visto primeiro.

O ciúme é o inferno, o ciúme é o inferno, o ciúme é o inferno. Nossa relação quase não existia mais, mas quando vi que nosso pobre relacionamento estava sob ameaça, ele tornou-se a coisa mais valiosa de minha vida. Como não me enganava a respeito da Nina – a qual mal possuíra e agora me fugia para sempre –, punha toda minha frustração sobre o afastamento que sofreria de Ana e em minha frustração e azar de ter casado com uma puta, etc. Mas o pior era o que eu sentia. O ódio que tivera dela no primeiro momento retornou contra mim sob muitas outras formas. Passei a me sentir incapaz, infeliz comigo mesmo, perdi o prazer de participar das brincadeiras no trabalho, passei a achar tudo uma idiotice. Não tinha concentração para fazer a mais simples das tarefas, o cansaço tomou conta de mim e comia o mínimo. Minha mãe notou que eu não estava bem e disse que tudo era culpa de Nina, que eu devia obrigá-la a morar comigo ou que a mandasse pedir o desquite. (Suspira). Mas eu não queria conversar sobre o que me deixava tão triste e, se conversasse, não seria com minha mãe, sempre muito alterada quando o assunto era Nina. Fui me isolando cada vez mais; imagina que até os carros passaram a ser coisas pouco importantes, assim como a família e os amigos; sentia-me burro, incapaz, azarado, inferior a todos os que conhecia.

Então, um dia, ao visitar a Ana, segui a Nina até seu quarto, uma atitude cada vez mais rara, mas que não chegava e ser uma invasão de privacidade porque aquele era supostamente “o nosso quarto”, e perguntei com voz embargada, louco de vontade de chorar – uma constante, apesar de que nunca chorava –, como nós ficaríamos. Naqueles dias, o ar de desinteresse dela por tudo o que eu dissesse era evidente, até suas brincadeiras e piadas tinham diminuído muito, ela estava vivendo livremente sua vida, mas parecia que eu precisava ouvir dela palavras ainda mais duras, aquelas que me fariam mergulhar com maior convicção ainda na minha incompetência e desespero. Ela me olhou com ar casual e respondeu que nada mudara.

— Por que isso agora? E Raul, teu humor funéreo vai acabar assustando a Ana. Tua cara não recomenda.

— É. Acho melhor tu ficar com ela. Eu me afasto por completo e tu educa ela. Mando dinheiro.

— Mas, por favor! O que está acontecendo? É o apocalipse?

— Tu sabe o que está acontecendo. Quero dizer, eu estou nesta merda e tu feliz por aí.

— Que merda, o que está acontecendo? Poderia ser mais claro? Tu está me criticando por ser ou estar ou parecer mais feliz do que tu? É isso?

— Nina, nossa situação é uma tragédia. Eu gostaria de morar contigo, temos uma filha, a chance de construir alguma coisa e tu fica por aí balançando o rabo como uma inconseqüente.

— Raul, eu não pretendo responder a tuas agressões. Acho que a única expectativa que tu deves depositar em mim é a de que eu cuide e ame nossa filha. E mais nada. Para mim, tu és um ex-namorado ou ex-marido, se um dia chegamos a tanto. É assim que tu deverias me tratar. Fui clara?

— E já que tu acha que é assim, isso te permite encontros com ex-namorados e outras putarias por aí?

O rosto dela ficou muito vermelho. O meu também. Conseguira falar. Incrivelmente, meu objetivo interno era reconquistá-la e viver uma vida confortável noutro lugar, mas tinha feito com ela o que não fazia com mais ninguém: despejei nela um pouco do que estava pensando e sofrendo, um pouco do meu enorme ressentimento. Hoje sei que virar meu caminhão de lixo em cima dela não me traria resultado nenhum, só que eu não conseguia pensar, só tinha certeza que minha vida estava sendo destruída pela única pessoa que me interessava no mundo. Pensei que a vermelhidão no rosto dela era de raiva, mas tinha mais: ela se sentira atingida por eu saber de suas escapadas. Ela falou calmamente:

— Então tu e o mundo já sabem.

— Não, acho que só eu, o Flávio e a mãe dele.

— E todas as amigas dela e os dele.

— Mas tu tens te encontrado mesmo com o tal de Ricardo?

— Sim, Raul. Eu me sinto separada de ti, apesar de tu me veres como a prometida.

— É que temos toda a possibilidade de uma vida…

— Pára com isso, Raul. Está tudo atravessado, fora do lugar. Eu sou a mulher casada que dá para outro e tu és o corno. Até o “nosso futuro” da tua imaginação é impossível. Tua família logo vai saber e eu serei tratada como uma bruxa a ser queimada.

— Eu não deixarei que aconteça isso.

— Bah, tu não tem mesmo pudor de ser patético, hein? Agora, dane-se. A culpa é minha de não ter me protegido. Me encontro com Ricardo em qualquer lugar, entende? Não fico me esgueirando.

Com a confirmação, comecei a fantasiar todo tipo de suicídio, viagens para lugares longínquos onde me estabeleceria deixando tudo para trás. Era um merda. Por meses não conversei pessoalmente com Nina. Escrevi me comprometendo a pagar para minha filha um valor que inventei e até hoje ela não me respondeu. Mas eu pagava. Era um valor decente. Quase tudo o que ganhava. Em finais de semana alternados, ia a sua casa pegar Ana e retornava para entregá-la de volta segunda pela manhã. Nada disso, mas absolutamente nada disso melhorou meu humor e minhas negativas a comentar os fatos. Meu trabalho voltou ao normal, o resto demorou muito mais ou nunca voltou ao normal. Quando minha mãe me perguntava sobre meu casamento, recebia de volta um grito dizendo que aquilo não interessava a ela, ela que fosse cuidar de sua vida. Meu pai dizia que a “véia” estava muito triste e preocupada comigo e eu o mandava à merda. Comecei a sair à noite e ia bastante com prostitutas. Parecia bem, acho, mas a nuvem em torno da minha cabeça me ameaça até hoje. Uma separação, qualquer separação, é o maior dos horrores e não desejo para ninguém. A auto-estima some. Não é assim com todo mundo?

O psiquiatra aponta para o relógio e Raul ergue-se lentamente, dizendo-lhe que seu emprego era chato, mas que não dava incomodação.

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O professor de botânica, de Samir Machado de Machado

A Não Editora segue surpreendendo. Tem nove livros, li dois e ambos são bons. O professor de botânica é um divertido e maldoso mergulho no ambiente acadêmico. Dividido em departamentos que mais parecem pequenos cestos de ofídios onde cada um de seus membros espreitam a mínima desatenção do outro, armando parcerias e inimizades aqui e ali, planejando viagens (muitas) e sacanagens, tais cestinhos cheios de emoções são bons locais para o exercício da ficção.

No quesito saco cheio, o professor de Samir está próximo do velho catedrático Nicolai Stiepánovich de Tal, da novela Uma história enfadonha, de Tchekhov, mas sua fama e modus operandi é muito diversa. Perto de uma vulgar aposentadoria, ainda luta por seus bolsistas e enfrenta seus inimigos, no caso Rogério Mourão, que o ameaça com a perda de seu bolsista, um jovem na verdade indiferente à biologia e que tem o discutível mérito de suportar o mau humor do chefe. Durante uma visita a uma reserva ecológica, Samir nos prega um elegante susto ao fazer de conta que a trama se tornará um whodunit, mas a ameaça não se cumpre. Ainda bem.

O livro gruda. Tanto que foi lido na tarde de 23 de dezembro apenas com três interrupções para que este leitor bebesse a água necessária à sobrevivência na insuportável canícula porto-alegrense.

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Feliz Natal, o retorno

O Marco Aurélio Weissheimer veio com a melhor. Surpresa nenhuma.

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Anos de Formação de um Sequestrador

Publicado em 28 de outubro de 2004

Alexandre envolvia-se com drogas desde os tempos do segundo grau. Quando tinha 16 anos, levava uma vida tranqüila com seus pais. Não precisava trabalhar nem estudar muito e usava seu tempo livre no cinema e com os amigos. Dinheiro não era uma grande preocupação até que começou a experimentar drogas. Estas eram fáceis de conseguir e acessíveis, mas trouxeram outros amigos, festas, bebida e ele precisou de meios para financiar o novo estilo de vida. Para não levantar suspeitas, decidiu não pedir dinheiro à mãe.

Lia era uma respeitável e emotiva senhora de 75 anos e há 16 vivia com Belle, uma cachorrinha da raça cocker. Lia tivera cinco filhos que a visitavam raramente, enquanto Belle nunca tivera uma ninhada, pois sempre vivera no pequeno apartamento com sua dona. Quem as conhecia, sabia que se amavam. Belle seguia Lia onde quer que fosse, enroscava-se em suas pernas, pedia colo e, devido à pouca mobilidade de sua dona, engordava. Comiam da mesma comida, deitavam-se no mesmo sofá e na mesma cama; enfim, faziam companhia constante uma à outra. Lia conversava com Belle, reclamava das dores da idade, da ausência dos filhos, das fofocas dos vizinhos, dos preços da farmácia e do supermercado. Belle, com o olhar triste e sonolento dos de sua raça, acompanhava tudo compreensiva e passivamente.

Alexandre passou a dedicar-se a pequenos roubos num ambiente que conhecia bem: o do ônibus. Ali, nos horários de maior movimento, explorava as bolsas das mulheres. Poucas vezes foi flagrado em ação e, quando acontecia, reagia dizendo que a bolsa estava aberta, que a mulher era louca, etc. Roubava normalmente os trocados da passagem.

Numa madrugada gelada, Lia foi ao banheiro (ia muitas vezes durante a noite) e verificou não ter sido acompanhada por Belle. Ao voltar, foi olhar sua cachorra ao lado da cama. Belle estava tranqüila, de olhos abertos e morta.

Nos últimos dias, Alexandre passou a achar que seus ganhos nos ônibus eram insuficientes se comparados com os riscos envolvidos. Sonhava com um lance maior, mas como conseguir isto dentro de um local freqüentado somente por pés-rapados como ele?

A perda fez Lia sofrer como nunca. Não sofrera tanto nem quando seu marido falecera após longa doença. Dependia daquele amor, como Belle dependia dela para comer e permanecer limpa, sem pulgas e perfumada. Porém, Lia não desejava ser ridicularizada por amar tanto a um cão. Prezava a discrição. Assim, passou dois dias fechada em casa choramingando e se perguntando sobre o que seria de sua vida sem sua querida. Quando um de seus filhos lhe telefonou, procurou esconder o luto que lhe embargava a voz. O filho nada notou; ademais, não queria saber de nenhum problema que o fizesse perder tempo. Tudo o que queria era que sua mãe estivesse bem de saúde e longe.

Alexandre resolveu tentar a sorte num bairro longínquo. Escolheu Petrópolis, um local cheio de velhinhas de bom poder aquisitivo.

No terceiro dia, Lia concluiu que teria de fazer alguma coisa com o corpo de sua companheira. Fez-lhe um lindo pacote e finalmente saiu de casa com Belle. Era difícil carregá-la, a cachorra era pesada e ela precisava pegar um ônibus para ir ao hospital veterinário. Com esforço e dignidade, chegou à parada. Mesmo sob a baixa temperatura, suava. Vestia casacão, blusão de lã, camisa de algodão grosso e camiseta. Subiu equilibrando-se no coletivo e conseguiu um lugar para sentar-se e descansar um pouco.

Alexandre encontrou sua vítima numa senhora que parecia carregar um tesouro consigo. O que haveria ali dentro? Era uma caixa retangular, parecia um pequeno baú e estava enrolado em belo pano bordado. Pensou em alguma peça antiga, bastante valiosa e fácil de vender; ou talvez num aparelho eletrônico que ela estivesse levando para uma amiga ou neto.

O ônibus foi ficando cheio e Lia levantou-se a fim de chegar perto da saída. Na porta, havia um jovem bem apessoado que lhe inspirou imediata simpatia; ele se oferecera para segurar o fardo. Lia aceitou. Com o olhar úmido, confidenciou-lhe que naquele volume havia algo de muito importante, tudo o que lhe restava neste mundo. O olhar risonho do menino pareceu-lhe consolador e Lia sentiu-se invadida por doce ternura. Então a porta abriu-se e Alexandre saiu correndo, carregando as melhores lembranças de Lia.

Ela foi até o fim da linha e voltou para casa no mesmo ônibus. No caminho, pensava no menino, no roubo e na surpresa que ele teria ao abrir o embrulho. Quando lembrava, não conseguia evitar um sorriso. Enquanto isto, Alexandre, no banheiro do colégio, deparava-se com Belle. Após o horror inicial, deixara o cão ali mesmo e concluíra:

– Não adianta! Acho que o negócio é seqüestrar alguém.

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O blog deseja um autêntico Feliz Natal a seus leitores

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Por que Dostoiévski é diferente?

Durante minha adolescência e após, quando era um estudante universitário com bastante tempo livre — ou, como diria Kafka, com mais energia do que necessidade de produzir –, passei um longo tempo lendo clássicos. Houve alguns autores que ataquei de forma sistemática, pois minha expectativa a seu respeito era muito alta. Foi o caso de Dostoiévski. A leitura de todas as suas obras em ordem cronológica constituiu-se numa experiência inesquecível. Como literatura e visão de mundo, foi algo arrebatador, chocante mesmo. Ele era um escritor… diferente, mas eu não imaginava o motivo disto. Se a aventura de lê-lo jovem nos causa profundas marcas emocionais, também tolhe-nos, pela inexperiência, a análise das razões de tal assombro.

Após este período, já aos 24 anos, li um livro que investigava os procedimentos ficcionais do escritor russo e aquilo que neles havia de original. Problemas da Poética de Dostoiévski, de Mikhail Bakhtin, é uma obra complexa, mas que vale o investimento de tempo, pois analisa o tratamento que o autor dá a cada ponto de sua literatura. Procurarei resumir um dos capítulos deste livro: A Idéia em Dostoievski, pois em minha opinião, nele está descrito o que há de mais surpreendente em sua obra e, talvez, o que mais seduz seus leitores.

Primeiramente, Bakhtin nos fala de Sócrates e sobre a natureza dialógica da idéia. Segundo o grego, o habitat natural das idéias é diálogo. A idéia internalizada é algo inútil e morto; porém, se a mera divulgação de uma idéia já a altera pelas limitações da linguagem e de quem a expressa, imaginem as transformações que nela ocorrem quando em choque com outras. O diálogo socrático influenciou tanto Dostoievski que ele direcionou sua arte no sentido de tornar-se principalmente um regente de personagens, retirando de seu texto a voz onisciente (que tudo sabe) do autor. Seu objetivo era o de deixar suas criaturas livres e de colocar-se à altura delas, nunca acima. Para fazer isto, o escritor tinha de converter seu pensamento numa arena na qual as diversas vozes do romance lutavam, sofriam, amavam, decidiam e se debatiam, sempre com lógica interna e verossimilhança – mas sem a aparente mediação do autor. Não é fácil. Com esta disposição, Dostoiévski coloca-se como um criador de biografias pessoais e de situações que falam simbolicamente por si mesmas; mas que, pronto isto, parece deixar seus personagens livres, agindo e opinando de forma independente, enquanto anota o que dizem.

A tal projeto artístico, a esta quase insanidade de tornar sua obra uma arena, temos que acrescentar o fato de que Dostoiévski dá razão a todos e a ninguém, pois NUNCA EMITE JULGAMENTO DEFINITIVOS. O escritor-voz-da-razão, o que elabora belas teses e aforismos infalíveis foi misturado a seus personagens. Dostoiévski não é divino nem definitivo. O realismo o obrigou a isto.

A partir de Crime e Castigo – isto significa eliminar apenas as obras da juventude – só se conhecem as idéias de cada personagem, não a clara opinião do autor sobre elas. E muito menos se saberá quem o representa dentre os personagens. Ele não nos deixa pistas claras, pois permanece não distante, mas eqüidistante. Some-se a isto uma imensa capacidade de observação, um talento artístico ímpar e o fato do homem ser um manancial de preocupações éticas muito a frente de seu tempo, e estaremos no caminho de entender porque Dostoiévski é tão apaixonante.

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Umbigo revisited

Publicado em 5 de julho de 2003

É um sábado de manhã nublado, horroroso. É o dia e o tempo ideal para se fazer quase nada até o meio-dia. Penso não ser, neste momento, necessário a ninguém. Posso ficar aqui, olhando pela janeja, enquanto faço um download besta. À tarde, irei a dois aniversários de pessoas queridas, uma que não vejo há uns 6 anos. Vou tentar escrever como se me espreguiçasse.

Gosto…

1. De livros, livros, livros…
2. De cinema.
3. De música erudita.
4. De rock clássico.
5. De amigos. De conviver. De saber dos outros.
6. Das pessoas que contam histórias, tenho necessidade disto.
7. Do amor dos e pelos filhos.
8. Da Pousada, Fazenda e Vinhedos Don Giovanni, em Bento Gonçalves (Pinto Bandeira).
9. De praia de alta qualidade. Água limpinha e mar piscininha, entende?
10. De escrever às vezes sem objetivo e muito… Como agora.
11. De dormir.
12. De ficar rolando na cama por meia hora de manhã.
13. Do inverno desde que não muito chuvoso.
14. De correr na rua.
15. Apesar de ser o Homem Multi-Função Tabajara, também gosto de olhar para o teto, divagando. Como agora. Só que é difícil digitar e olhar para o teto.
16. Da luz do outono (final de abril e maio), apesar do daltonismo.
17. De algumas obras cujo contato parece fazer a vida valer a pena: a segunda gravação do Glenn Gould das Variações Goldberg, a gravação da Missa em si menor de Bach do Gustav Leonhardt, a gravação do Pollini das últimas sonatas de Beethoven, alguns pratos (estou formando um catálogo deles na cabeça), a música de Bach, Brahms, Beethoven, Shostakovitch e Charlie Mingus, a música dos Beatles e do Led Zeppelin, o cinema de Ingmar Bergman e o filme Afogando em Números, a literatura de Dostoiévski, Thomas Mann, Thomas Bernhardt e Machado de Assis.
18. De churrasco.
19. De dirigir em estrada. Em alta velocidade.
20. De pessoas que me surpreendem. De surpreender pessoas.
21. De repetir as viagens.
22. De abraços apertados.
23. De repetir beijos indefinidamente.
24. De lareira acesa. E de mexer nela! E de dizer para as crianças que é muito perigoso…
25. De apertos de mão firmes.
26. De vinhos tintos encorpados.
27. De ensinar coisas aos outros, principalmente crianças.
28. De fazer planos.
29. De poder ajudar os amigos.
30. De ouvir a Rádio da Universidade, 1080 AM (UFRGS).
31. De parar na frente de 500 CDs sem saber o que ouvir.
32. De parar na frente de 1000 livros sem saber o que ler.
33. Do Sport Clube Internacional.
34. Do cheiro das cabeças dos bebês.
35. De ficar brincando horas com crianças.
36. De provocá-las.
37. De mulher (putz, como só agora lembrei-me disto?).
38. Da Claudia e da Juliette.
39. De Internet.
40. De dormir com a TV ligada, mas sem som e sem dar-lhe atenção.
41. De novidades e de mais 200 coisas.

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Uma tentativa de limpeza nos quase 1000 Gols de Romário, nos 1283 de Pelé, nos 1497 de Gerd Müller…

É bom esclarecer desde logo: se tivesse que escolher entre Romário e Pelé para meu time, escolheria tranqüilamente Pelé, mas se fosse para conversar, escolheria Romário, autor de frases imortais como, por exemplo: “Pelé calado é um poeta”. Nada mais verdadeiro. Não tenho nada contra a comemoração do gol 1000 de Romário, ele foi / é um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Talvez seja o maior se ficarmos limitados ao pequeno espaço da grande área. Tem 1,68m, mas faz gols de cabeça como poucos. Não costuma chutar forte, faz quase todos os seus gols com um calculado toque na bola. Não bate faltas de fora da área, mas tem 999 gols.

Mesmo que eu considere Pelé – eu o vi jogar muitas vezes, tenho 51 anos – um jogador superior e mais completo do que Romário, um pequeno estudo das estatísticas disponíveis colocará Romário e Pelé como artilheiros de calibre muito próximo.

Farei uma tentativa de “equalizar” as estatísticas de ambos e a de Gerd Müller, pois os critérios – ou a falta de – e o fator histórico influenciaram todas as contagens. Assim sendo, considerarei apenas os jogos oficiais, numa tentatica de “limpar” as listas.. A fonte para a separação dos gols por categorias foi este blog do jornalista Paulo Vinícius Coelho. Nele, há detalhes sobre os 1283 gols de Pelé, sobre os de Romário e depois sobre os 1497 gols do ex-centroavante da seleção alemã e do Bayern de Munique – outro baixinho – Gerd Müller.

A comparação entre os gols que eles fizeram em jogos oficiais é equilibrada:

– Pelé fez 794 gols em partidas oficiais,
– Romário fez 744.

É isso. A conta acima inclui todos os jogos de campeonatos que eles realizaram em seus clubes e na seleção brasileira.

A diferença, antes de 1283 para 999, diminuiu bastante, mas não fico boquiaberto. Na época de Pelé, os grandes times excursionavam e, com um calendário bastante livre, faziam inúmeros amistosos. O Santos, com seu Rei Pelé, era uma atração mundial e os gols de seu maior jogador eram desejados pelos empresários, pela platéia e até pelos adversários. Muitos desses amistosos foram contra equipes africanas e asiáticas – algumas improvisadas na última hora -, que, na época, nem sabiam a forma correta de bater um lateral. Desta forma, Pelé tem um número incrível de gols em amistosos caça-níqueis, como vocês, meus sete queridos leitores, podem comprovar abaixo:

Santos – 1086 gols – 714 em jogos oficiais, 372 em amistosos
Seleção – 95 gols – 43 em jogos de campeonato, 52 em amistosos
Cosmos – 65 gols – 37 em jogos de campeonato, 28 em amistosos
Seleção do Exército – 15
Combinado Santos/Vasco – 6
Seleção Paulista – 11
Sindicato dos Atletas – 3
Seleção do Sudeste – 1
Seleção Amigos do Garrincha – 1

Total: 1283 gols.

E Gerd Müller?

Segundo o livro Bomber der Nation, publicado por Walter Grueber, citado pelo PVC, Gerd Muller marcou 1497 gols, 690 deles em amistosos do Bayern. Ou seja, era um contemporâneo de Pelé, também era da época em que as equipes tinham muito tempo para ganhar dinheiro em festins. Se fizermos o cálculo de jogos oficiais para Müller, teremos 722 gols, o que o colocaria atrás da dupla brasileira.

Eis o registro dos 1497 gols de Muller, discriminados no livro “Bomber der Nation”.

No TSV Nordlingen:
Championship: 51
Friendlies: 18

No Bayern Munich:
Bundesliga: 365
Regionalliga: 33
Bundesliga Play-off: 6
German Cup: 78
Regional Cup: 2
European Cups: 67
European Supercup: 3
Club-World-Cup: 1
League-Cup: 12
Reserve-Team: 6
Indoor: 26
Friendlies: 690

No Ft. Lauderdale Strikers (EUA):
NASL: 38
Play-offs: 2
Friendlies: 4

Na Seleção da Alemanha:
Competition: 68
Friendlies: 20
U-23: 1

Outras seleções:
World-Team: 2
Farewell-Game: 1
Munich-Team: 1
Combinado Munich/Nuremberg: 2

Total de gols: 1497

Ou seja, as posições de alguns jornalistas mau humorados e passadistas que dizem que a lista de gols de Romário é espúria e a de Pelé justa, são equivocadas. O baixinho não é mole. Mesmo. Seja com 1000 ou com 744.

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Sexo Anal [uma novela marrom], de Luiz Biajoni

O Biajoni, nosso amigo da Verbeat, fez o seguinte: escreveu a novela Sexo Anal e, antes de procurar uma editora, mandou confeccionar 180 exemplares para que os amigos e potenciais editores pudessem lê-los em formato agradável. Trata-se de um respeitável investimento. A quem não faz falta R$ 1.500,00? Pois o livro ficou bonito, com depoimentos de vários blogueiros na contracapa, com o Idelber e seus títulos numa orelha e com uma foto desnecessária do autor na outra.

Tenho que começar comentando o título da novela. Recebi-a na Primavera dos Livros em São Paulo e deixei-a sobre a minha mesa de autógrafos – estávamos em novembro, época do lançamento do Blog de Papel. Notei logo que as pessoas olhavam espantadas para o livro do Bia e depois para o meu. Tratei de virá-lo, escondendo sua capa. O Bia, há 100 metros da mesa e com olhos de lince, viu minha atitude e desesperou-se… Eu estava envergonhado de sua novela! Fato semelhante ocorreu numa sala de espera de um médico. Todo um mulherio desconhecido estava aguardando comigo e eu não quis ser identificado por elas como o cara que lê Sexo Anal. Sou um cara discreto, meio sem graça, aceitavelmente simpático. Então, peguei minha agenda, pus meu sexo anal dentro dela, sorri vitoriosamente para aquelas doentes e continuei minha leitura. Aliás, recebi importantes feedbacks e o Bia tem que saber disso: os homens dão gargalhadas com o título, as mulheres são discretas quando lêem “Sexo Anal”, mas o subtítulo “Uma Novela Marrom” causa-lhes rejeição e horríveis caretas. Quando a gente começa a ler, fica sabendo que a história em grande parte retrata a vida dentro da redação de um jornal da imprensa marrom, porém quem lê o título acha que o marrom alude a outra coisa… É um jogo de palavras bem ao estilo do Bia, porém minha irmã, a Claudia e também a bela Belly, do Mishappenings – que veio iluminar uma manhã meio chata aqui no escritório – torceram o nariz para a coloração da coisa. Sabemos que o cérebro feminino funciona diferentemente do nosso, muito mais simples.

Faço todo este blá-blá-blá porque a novela é muito boa e é uma injustiça pensar que trata-se de um título escandaloso a encobrir uma história chata e de prosa raquítica. Pelo contrário! O Biajoni é um escritor pop, o gênero de ficção que ele faz é pulp, ele está totalmente voltado a contar uma história e o faz com grande fluência (li as 200 páginas em três dias, o que é muito rápido para quem trabalha bastante como eu). Com personagens muito bem construídos, a novela grudou em mim e Biajoni – tudo para contar a história – usa bastante e habilmente um achado que funciona bem, acelerando a narrativa. Numa novela cheia de diálogos, o Bia faz assim, ó:

– Vamos voltar?
– …
– Vamos voltar ao que era antes… No final de semana vamos dançar, etc.

Aquelas reticências utilizadas como resposta no diálogo tornam desnecessárias grandes explicações. O leitor sabe que do outro lado está alguém ouvindo e que a frase anterior teve alguma repercussão. O conteúdo dela pouco interessa, o que interessa é que algo bateu do outro lado. Nós, com a nossa experiência, trataremos de dar-lhe algum significado. Isto acelera a narrativa e evita os parágrafos descritivos. Muito bom.

E a história de Virgínia, Luiz, Ana, do outro Luiz e de sua filha, entremeada do ambiente de redação de um pequeno jornal que sobrevive de manchetes sanguinolentas é muito boa. Virgínia é uma jornalista que namora Luiz, um funcionariozinho sem graça de um escritório de contabilidade que lhe dá aquilo que ela gosta. Só que ela o trai com seu médico e, por pura honestidade, conta para Luiz. O que vem depois é a história da crise entre os dois, onde participam o amigo legal (o outro Luiz), Ana (a homossexual interessada em Virgínia), a filha de Luiz e toda a fauna do jornal em que Virginia trabalha. Para perturbar ainda mais a namorada do funcionário, seu chefe passa a encarregá-la de trabalhos cada vez mais importantes dentro do órgão marrom que chefia, o que a faz pensar que Luiz não seria um bom investimento para uma jornalista prestes a tornar-se famosa, mas até tal ascensão é relativa… Bom, não vou contar tudo!

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Para não ficar só nos elogios, tenho algumas restrições ao final do livro e disse isto ao Bia. É uma questão de gosto pessoal. Acho que o livro deveria ir algumas páginas além, complementando a história da filha do Luiz. O que fazer se a considerei uma personagem especial e me preocupei com ela?

Como special guest star, temos um certo Alexandre, um sujeito absolutamente tarado por pés e que protagoniza patéticas cenas lambendo, beijando e etc. os pés das heroínas… Fazendo uma interpretação não autorizada, diria que Bia está “homenageando” seu grande amigo blogueiro Alex Castro, altíssimo intelectual e notório podólatra carioca, que fotografa e manipula os pés de suas amigas, às vezes criando uma verdadeira podoteca em seu blog.

Fico pasmo pela dificuldade do Bia em encontrar editora para sua novela. É pura diversão, não há teses, não irá mudar o mundo, não é auto-ajuda e… e daí? Sexo Anal é eficiente naquilo que se propõe – contar uma história grudenta e tornar interessantes – e são!, e devem ser contadas! – as vidas de pessoas absolutamente comuns. E, por favor, não pensem que é uma novela pornográfica ou erótica. Também é, mas penso que Sexo Anal sirva melhor à diversão do que à masturbação.

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Equilibrando-me entre o futebol e o tênis

Sou daqueles homens que podem passar horas abobalhados assistindo a um jogo de futebol ou de tênis. O que fazer se nascemos com esta estranha necessidade, tão comum entre os homens e tão rara entre as mulheres? Tenho absoluta certeza de que o motivo maior pelo qual fico vendo futebol não é o ódio mortal (e perfeitamente natural) que cultivo ao Grêmio nem o amor que devoto ao Inter (algo mais natural ainda). Posso ficar igualmente hipnotizado se a atração for Boca X River, Manchester United X Milan, Náutico X Íbis ou uma pelada entre garotos. Trata-se de um defeito de fabricação muito comum entre nós, seres mais apreciados por elas pela produção de testoterona.

E o pior é que tenho absoluta certeza de que o motivo pelo qual gosto de futebol e tênis é estético, é plástico… Entendem? O futebol, principalmente quando visto no campo, é algo belíssimo, digníssimas senhoras. A movimentação, a tática que os jogadores obedecem ou não, é muito interessante. A dinâmica do jogo é complexa e alguns treinadores levam enorme tempo para gerar aquela sincronia a qual denominamos bom futebol. Tá bom, concordo que isto é parcialmente desmentido pelas entrevistas que ouvimos aos finais de jogos. Nossas mulheres devem questionar se a mente de quem fala daquela maneira pode gerar, noutras circunstâncias, quaisquer pensamentos abstratos. Outra dúvida possível é se a complexidade do futebol não é um fato apenas imaginado por nós com a finalidade de valorizar o triste fato de sermos fanáticos adoradores de algo imbecil. Mas sei que alguns jogadores podem ser verdadeiramente geniais dentro de campo, tal como Johan Cruyff, Tostão e Zidane; enquanto que outros — como Ronaldinho Gaúcho — são provas vivas de que uma excepcional coordenação motora pode ser comandada por um cérebro burro sem grandes problemas…

Algumas mulheres se irritam conosco, outras — mais espertas — suportam bravamente nossas características. A minha está no segundo time. Ela já foi adestrada (desculpe, meu amor) por um marido italiano que passava todo o domingo na frente da televisão em Verona. Como sou capaz de ficar apenas 3 horas contínuas atento aos jogos, talvez eu seja uma evolução em sua vida. Semana passada, durante uma preguiçosa e amorosa manhã, víamos um torneio de tênis e tratei de explicar-lhe as regras que regem um jogo daqueles. Foi complicado, pois não conheço a raiz histórica que faz com que contemos os pontos de forma tão estapafúrdia — 1 a 0 no game é 15-0, 2 a 0 é 30-0, 3 a 0 é 40-0… –, só sei que é assim. Como ela não costuma aceitar explicações vagas, tendo a irritante mania de dominar todos os conceitos fundamentais, não é adequado dizer-lhe que é assim porque é. Graças ao bom Deus, ela concluiu que devia ser algo inventado por ingleses, povo que tem o sistema monetário e de medidas mais complicado do planeta. No final, ela já estava até fazendo comentários pertinentes…

Ontem pela manhã, liguei a TV para ver LDU x Pachuca. Me entusiasmei além da conta com a cobrança de falta de Bolaños e disse o que deveria ter evitado: Olha, a trajetória desta bola! Não é pura arte? E completei a merda de forma condigna: Parece um traço de Picasso. De onde tirei uma besteira dessas? Recebi de volta apenas um arquear de sobrancelhas. Aquele arquear, entendem? Aquele que significa 100% de ceticismo, que nos reduz a meros adoradores de algo que não vale coisa alguma e que só poderá ser reequilibrado se ela ficar duas horas se arrumando para uma festa, provocando constrangedor atraso…

Céus, quanto investimento jogado fora!

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Internacional, Campeão do Mundo 2006

Publicado em 17 de dezembro de 2006

Quero agradecer a todas as manifestações dos amigos sobre a conquista de hoje. Destaco especialmente – e quem mora no sul sabe o quanto isto é raro em nosso futebol – a elegância e a grandeza dos amigos gremistas Afonso XX o Chato, Ery Roberto e de minha mulher, assim como o e-mail emocionado do colorado Marcelo Backes, que hoje mora no Rio de Janeiro.

Fiquei até tarde na festa da Av. Goethe e tenho algumas fotos que estão na máquina fotográfica do meu filho. Meu sobrinho Filipe bateu todos os recordes e deu uma volta na quadra em que mora, correndo e berrando, com uma bandeira do Inter na mão. Detalhe: ele trajava apenas cuecas. Infelizmente, não conseguimos ainda a liberação das fotos.

Ceará e Wellington Monteiro conseguiram o que só Parreira fizera antes: impedir Ronaldinho de jogar. Fabiano Eller, Edinho, Vargas e Iarley (o melhor em campo) cumpriram atuações perfeitas e Adriano Gabiru – o jogador mais odiado pela torcida colorada – fez-nos engolir o melhor sapo de todos os tempos. Agora, cada vez que nos lembrarmos do título de hoje, vamos lembrar dele. Um sapo nietzschiano, portanto, retornando eternamente.

E não adianta: em decisões, quase sempre ganha quem se defende melhor. Aí está o principal mérito de Abel Braga e do comando seguro de Fabiano Eller lá atrás. Se a defesa de um dos times mostra-se firme, o adversário se descontrola e acaba tomando um golzinho… Para finalizar o post: quem fez aquela cobrança de falta do Ronaldinho ir para fora fomos eu, a Helen, o Saad, o Vítor, a Bárbara e o Bernardo. Nós desviamos aquela bola para fora com nossos olhos. Tenho certeza.

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Um problemão para Ratzinger

O médico italiano Severino Antinori, aquele mesmo que costuma deixar grávidas mulheres de sessenta anos, anunciou hoje que, no último mês de setembro, realizou uma operação que está destinada a abalar a humanidade. A equipe do irrequieto Antinori teve acesso ao Santo Sudário e, após meses de tentativas, capturou o DNA de Jesus Cristo. O pano que, segundo o dogma, envolveu o Salvador no período entre sua retirada da cruz até a ressurreição, guardava grande quantidade do sangue coagulado de Jesus Cristo, o que permitiu a obtenção de seu DNA. A notícia de hoje, veiculada pelo L`Osservatorio Bugiardo e que está nos principais sites de notícia do mundo, dá conta de que, numa ação de incrível ousadia, Antinori está gerando um clone de Jesus Cristo em uma jovem romana. Em seu comunicado à imprensa, Antinori disse que o Filho de Deus tem DNA normal.

Porta-vozes do Vaticano deram claros sinais de que Ratzinger, o Papa Bento XVI, está indignado com o que considera um desafio a toda a cristandade e exigiu que a mulher que carrega o clone de Cristo em seu ventre seja imediatamente identificada e trazida a sua presença. Há também a possibilidade de que Ratzinger convoque o médico italiano para uma entrevista semelhante àquelas que foram realizadas no passado com Giordano Bruno, Galileu Galilei e, mais recentemente, com Leonardo Boff. O guardião da doutrina voltou a falar na lenta consumação da dignidade humana e deu sinais claros de que estaria disposto a avalizar um aborto deste feto gerado em condições que demonstrariam “um completo desrespeito a todos os católicos do mundo”.

Antinori garantiu total sigilo quanto a identidade da nova Maria, nem que para tanto seja necessária a convocação de novos templários. Ainda declarou que ela — uma mulher ainda virgem, com a finalidade de reproduzir as condições adequadas — e a criança deverão ter uma existência normal. Tablóides ingleses tiveram edições especiais falando sobre a revelação da verdadeira face de Cristo e a oposição do Vaticano. Católicos do mundo inteiro esperam por milagres nas próximas horas. O Opus Dei negou-se a dar declarações porém diz-se que intervirá no caso.

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O mico que veio do espaço

Não sou jornalista nem publicitário, mas penso que meus 51 anos me deram um pingo de sabedoria para poder refletir sobre meus erros e os de outrem. Quando a agência W3Haus (aqui e aqui, posts alusivos no blog da agência) intermediou a compra do nome de uma estrela por parte do Grêmio, deveria ter pensado em todas as piadas e no simbolismo que envolveria um negócio estranho como este. Por exemplo, uma coisa que a agência deveria ter considerado é que nossos clubes costumam pôr estrelas em suas camisetas. É como se desejassem imprimir suas maiores realizações no firmamento. Até aí tudo bem, o ser humano é ridículo mesmo. Só que tais estrelas são conquistadas, nunca compradas. Será que não pensaram que estariam dando de graça uma piada aos colorados e expondo seu cliente ao ridículo ao adquirir uma estrela num ano sem títulos?

Para uma pessoa da minha geração, o fato também lembra aquele dilacerante e várias vezes repetido especial da Rede Globo sobre Elis Regina, produzido em 1983, um ano após sua morte. Chamava-se Agora sou uma estrela. O especial utilizava escritos que a própria Elis deixara em diários e que eram, no programa, interpretados por Irene Ravache. A frase agora sou uma estrela, repetida à exaustão nas propagandas e no especial, tinha claro significado: morri, agora estou no céu, agora sou uma estrela. Aquilo ficou na cabeça de minha geração, mas acredito que a relação não exista apenas para nós, pois se consultarmos os livros de História e relacionarmos todos os povos que pensavam em seus mortos ao olhar para o céu — ou nas religiões que os enviavam e enviam para o mesmo local após a morte –, concluiremos que é coisa atávica.

Há mais: falei que o torcedor gosta de estrelas na camiseta, mas gosta ainda mais de estrelas em campo. Uma equipe cheia delas é “galáctica” como o Real Madrid. Eu compreenderia que uma instituição riquíssima comprasse uma estrela no céu para demonstrar aos outros que já tem tudo o que deseja na Terra, eu entenderia também que um time recém campeão do mundo adquirisse uma estrela para significar que aguarda, quem sabe, agremiações marcianas capazes de vencê-la. Mas não entendo que qualquer endividado clube brasileiro — ainda mais um abstinente de títulos — faça uma compra tão estapafúrdia.

Mas há muito mais: se os compradores de nomes de estrelas tivessem alguma habilidade com a Internet, poderiam descobrir facilmente o mico total, integral, definitivo:

The International Star Registry is not in the business of officially assigning star names; it is in the business of finding people willing to part with their money for a piece of paper that in a scientific sense means precisely nothing.

“We produce a good product, a fun product. We may have planted a seed with people, educated them even slightly about astronomy, about the stars,” said Rocky Mosele, vice president of marketing and advertising for ISR. “For people to say, ‘Well, it’s not official’ — I think people are OK that it’s not official. I’m sure of it. I know because customers call again and again and again.”

Ou seja, o vice-presidente de marketing da ISR, sigla que lembra outra a qualquer gremista desta galáxia, admite que a compra de estrelas é um fun product, uma brincadeira ou talvez um presente de cunho romântico, como fez Nicole Kidman ao presentear Tom Cruise com a estrela “Forever Tom” ou Winona Ryder com Johnny Depp. A compra de nomes de estrelas não é oficial, nem reconhecida pelos astrônomos. A IAU (International Astronomical Union), fundada em 1919, com 8300 membros individuais e 66 países membros, é a única instituição autorizada a nomear corpos celestes. E o Grêmio comprou o seu da ISR.

Basta comparar os linques acima. Com toda a razão, a IAU declara que a ISR é um deplorável truque comercial. Fundada em 1979, a ISR já comercializou 1 milhão de estrelas por US$ 50 cada. Todos os donos receberam belos certificados. Como há mais de 400 bilhões de estrelas disponíveis apenas em nossa galáxia, é um baita negócio.

Porém, mesmo que a culpada seja a agência de propaganda que o induziu a um mico, acreditamos que o Grêmio tenha acesso à rede mundial para descobrir a fama da ISR e seja PLENAMENTE MERECEDOR de todas as piadas (eu descobri a farsa em 5 minutos). Afinal, na noite de 11 de dezembro de 2008, na Sociedade Libanesa, em Porto Alegre, a diretoria do Grêmio anunciou séria, feliz e em grande estilo a adoção de uma certa Estrela Grêmio, localizada na Constelação de Órion, a mais brilhante. Se isso em nenhum momento lhes soou como uma compra de indulgências – cujas vendas fez Martinho Lutero escrever 95 teses em 1517 –, CÉUS, afirmaria que são um bando de tolos. Ou siderados.

Quando os gremistas pensavam estar extinta a voz de Flávio Obino cantando as maravilhas do Trovão Azul e do site, quando silenciaram os comentários sobre a alegre poltrona 36, chega-lhes um curioso problema de outro mundo: a fama de comprador de uma grande e distante estrela paraguaia.

E dizem que nem pode ser vista a olho nu.

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Ao acordar, uma descoberta revolucionária…

Bah, fim de semana altamente alcoólico. Sábado à noite, uma festa na casa do Dario, aniversário de sua Cláudia. Foram consumidas duas caixas completas de espumante Freixenet Cordon Negro Brut por não sei quantas pessoas. Poucas, acho. Excelente festa, como sempre acontece por lá.

Domingo pela manhã, a Bárbara acordou às 8 horas para que eu a levasse na equitação. Não dormi até o almoço, que era uma festa da comunidade italiana lá no restaurante da PUC. Comida de primeira, claro. E comida de primeira, sabem como é, exige vinho. Voltei para casa às 15h30. Dormi como um justo. Às 18h, comecei a acordar. Devia estar sonhando com matemática, pois fiz uma descoberta que certamente não é brilhante nem uma novidade, mas, enfim, foi no que pensei.

A diferença da seqüência de números naturais elevados ao quadrado forma uma Progressão Aritmética.

Vejamos:

1 x 1 = 1
2 x 2 = 4
3 x 3 = 9
4 x 4 = 16

A diferença entre 1 e 4 é 3; entre 4 e 9 é 5; entre 9 e 16 é 7. A coisa se preserva com números maiores? Sim. Observem:

20 x 20 = 400
21 x 21 = 441
22 x 22 = 484
23 x 23 = 529
24 x 24 = 576
25 x 25 = 625

Então, 441 – 400 = 41, 484 – 441= 43, 529 – 484 = 45, 576 – 529 = 47, 625 – 576 = 49.

Até aqui eu consegui fazer sem sair da cama.

E segue:

100 x 100 = 10000
101 x 101 = 10201
102 x 102 = 10404

É óbvio? Para mim não era. Consultei aqui em casa e nunca ninguém tinha se dado conta disso. O álcool nos faz pensar bobagens inúteis… Mas o espumante de ontem era muito esperto, Dario!

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Uma semana, um texto: O entardecer de um fauno, de Rafael Galvão

Quando inventei essa coisa de, a cada domingo, republicar em meu blog o melhor post ou texto lido na Internet durante os últimos sete dias, sabia que Rafael Galvão não tardaria. Após uma disputa interna com Marcelo Coelho, escolhi o Rafa com um texto a respeito das novas, porém inexoráveis, limitações experimentadas por um amigo comum: o Hermenauta. Na forma de uma compreensiva missiva enviada a um amigo em dificuldades irremediáveis, Rafael expõe toda sua cultura e tristeza em contido tom elegíaco.

Com vocês, O Entardecer de um Fauno, elegante título certamente baseado em Claude Debussy, autor de Prélude à l’après-midi d’un Faune (Prelúdio à Tarde de um Fauno). Preparem os lenços. É dilacerante.

O entardecer de um fauno

Confesso que ando muito preocupado com o Hermenauta. Um post deu o sinal de que algo está muito errado com o meu amigo:

My own private Cicero

“Velhice” é quando aquelas limitações que você imagina provisórias se revelam mais permanentes do que você gostaria.

É de uma tristeza pungente esse pequeno post do Hermenauta. Ali está, em tons contidos e quase cartesianos, como convém a um engenheiro, toda a dor da velhice. No começo dava para agüentar. Uma falha aqui, outra ali, isso poderia acontecer de vez em quando. Sim, ele diria “Isso nunca me aconteceu antes, querida”, e ela fingiria que acreditaria; mas quando tal limitação se revela permanente não há mais espaço para desculpas; apenas um olhar triste e desconsolado, nada mais que isso, e então palavras são desnecessárias. A tristeza absoluta dispensa explicações.

Em outros tempos, voando para Paris, o Hermenauta procuraria os banheiros do avião para seguir o exemplo de Emanuelle. (Se você não sabe quem foi Emanuelle, não se preocupe. É do tempo do Hermenauta.). Hoje ele apenas se contenta em observar o vaivém de passageiros dispostos a alguma diversão em uma longa e tediosa viagem transatlântica, e a consciência de que o seu tempo não é mais aquele o faz filosofar e lembrar de Cícero.

Velhice é uma coisa medonha, porque embora nunca venha de repente, ninguém está preparado para ela. Ninguém sabe, de verdade, o que são as dores crônicas, a sucessão de problemas, as impossibilidades tantas antes de vivê-las. Velhice é pior que a morte, porque depois da morte você não fica mais pensando no que deixou de fazer, ou no que não pode mais fazer. Na velhice, não. Na velhice o sujeito se alimenta de suas próprias memórias. O Hermenauta, por exemplo, fica relembrando os bons tempos no Posto 9.

Pior do que as falhas, pior do que nervos e vasos cavernosos que se recusam a obedecer as ordens do cérebro e seguir os conselhos das mãos, é citar Cícero. Só os antigos citam Cícero. O velho professor de latim: “Os romanos, senhor! Os romanos eram batutas!” Mas Cícero não era tudo isso que dizem dele. É só lembrar que Nero teve mais trabalho para matar sua mãe Agripina do que para dar cabo do velhote. Quando alguém em meio à tristeza da impossibilidade lembra de Cïcero, é porque não há mais jeito. Está velho, irremediavelmente velho, e tudo o que seu corpo cansado e dolorido pede é uma cadeira de balanço, onde possa acalentar lembranças gloriosas de um passado cada dia mais distante.

Ao mesmo tempo, velhice por si só não é o grande problema. Todos nós, se tivermos sorte, ficaremos velhos. O problema é quando o coração continua jovem, e sente desejos com os quais seu corpo não é mais compatível. Nesses casos a gente cita Cícero. E às vezes, como no caso do Hermenauta, uma certa angústia se manifesta. “Por quê?”, ele se pergunta, “Por que o Grande Designer me deu a experiência necessária somente agora, quando este velho corpo já não responde aos meus desejos?

Resta afirmar então que o círculo da vida (imagine agora a trilha de “O Rei Leão” enquanto lê isso) é sábio. Adolescentes correm atrás de mulheres mais velhas porque elas são mais experientes e normalmente financeiramente independentes, o que torna tudo mais fácil; velhos babam por ninfetas como Scarlett Johansson, peitos enormes que sublimam de maneira profana todo e qualquer complexo de Édipo porque a experiência lhes ensinou que a juventude e a firmeza de carnes são um valor tão desejável quanto efêmero. Mas se é sábia, a natureza não é justa; e por isso o Hermenauta hoje lamenta a sua sina.

Sabe, há histórias que a gente pode contar sempre para dourar essa pílula indigesta. Eu sempre lembro de Rossano Brazzi em “A Condessa Descalça”, vítima de um tenebroso acidente de guerra (e obviamente corno, que capado nenhum casa impunemente com a Ava Gardner). Há uma certa dignidade senil nesses casos — era Aristóteles quem dizia dar graças pelo arrefecimento de seus desejos? Por isso, da próxima vez em que o Hermenauta se vir compelido a inventar uma justificativa, ao invés de desfiar a velha ladainha do “isso nunca me aconteceu antes”, bem poderia colocar a culpa no Bush. “Foi em Mosul. Uma patrulha nos escoltava até o lugar onde iríamos construir uma torre de celular quando…” Irromperia então em lágrimas, soluçaria, mas cuidando em manter a dignidade masculina. Ele vai dar, assim, uma história de que a moça se lembrará pelo resto da vida — e que se tenha a certeza de que ela vai contar essa história ao seu novo namorado, suada e arfante, daqui a alguns dias. Por isso, recomendo ao Hermenauta apenas pegar moças burrinhas — porque uma mulher inteligente vai entender tudo, e a história que ela contará ao namorado será diferente: “Mô, peguei um velho broxa uma vez, tu não imagina o caô que ele tentou jogar em cima de mim”.

Uma vez, ouvi um velhinho no ônibus falar ao cobrador: “Meu filho, no dia que o pau cair, os dedos entrevarem e a língua enrolar, eu dou a bunda, mas da sacanagem eu não saio.” E já que a velhice despertou no Hermenauta todo o seu latinório, não custa lembrá-lo de que outro grande romano, um romano maior que Cícero, o Adriano original, arranjou para si um Antínoo. É nisso que dá andar com esses romanos.

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Monica Bellucci – não quero travar relações com esta mulher

Vejam o que ela lê…

Meu mundo caiu.

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