Uma vez, publiquei um rumoroso post chamado Ensinando a roubar livros. Tive que retirar do ar este que talvez seja meu post mais comentado até hoje, após receber uma comunicação extra-judicial da Livraria Saraiva. Tenho o texto e garanto-lhes que o melhor são os comentários. São antológicos, maravilhosos, cheios de experiência. O post me granjeou uma fama tão planetária que fui entrevistado pela Folha de São Paulo… Para minha alegria, poucos livreiros parecem ter lido meus sábios ensinamentos e ainda posso entrar e sair de seus estabelecimentos com o título de bom cliente honesto.
Pois dia desses, meu amigo Fernando Guimarães veio tentar me seduzir me provocar para mais um post. É que jornais portugueses estavam novamente tocando neste assunto tão caro à humanidade pós-Gutenberg. Procurem não ler o texto que segue com o pobre olhar do moralismo, mas sim com o horizonte largo da profunda sede de cultura.
~o~
Criminosos improváveis: Como se roubam livros em Portugal
Há de tudo: até padres e coxos atacam nas livrarias portuguesas
A Renault Express não chegou. Foi preciso uma Ford Transit — com uma bagageira que consegue transportar quatro pessoas deitadas — para Antero Braga, ex-administrador da Bertrand, recuperar os livros que o professor disfarçado de cliente fiel lhe roubara durante vinte anos. Um mês depois de a livraria do Chiado ter instalado o sistema de alarmes, este disparou à passagem do insuspeito professor da Escola de Belas Artes, com conta corrente na loja. Mal sabia Antero Braga que acabaria por ganhar o dia: quando a caminhonete estacionou à porta, carregada com mais de mil livros roubados, percebeu que tinha recuperado o dinheiro investido nos alarmes.
Um milhar de livros roubados nem sequer chega a ser recorde. Nos anos 70, o mais famoso ladrão entre os livreiros do Chiado, conseguiu construir uma biblioteca ainda maior: 30 mil volumes. Só precisou de se disfarçar de padre e de uma batina com um forro falso.
As carreiras dos livreiros estão recheadas de flagrantes improváveis: um disfarçado de padre, um padre a sério, um disfarçado de coxo, munido de muletas.
Antero Braga, atual proprietário da livraria Lello, adianta que por ano são roubados “uma centena de livros” na livraria portuense. JoséPinho, da Ler Devagar, aponta para 20 livros roubados por mês. A Bertrand do Chiado só num fim-de-semana viu desaparecer 18 exemplares do mesmo livro. A Almedina suspeita que a taxa de furtos seja semelhante à dos EUA — onde os roubos representam “1,7% do volume de vendas”. Jaime Bulhosa (Pó dos Livros) explica a quebra aos leigos dos números: “Por cada livro roubado, tem de se vender três livros iguais só para cobrir o prejuízo.”
Há os ladrões profissionais — que roubam para vender –, e os amadores — que roubam um livrinho por ano — e até os VIP. “É muito comum apanhar figuras públicas. E o mais vergonhoso ainda é o que roubam. Já vi de tudo, até as anedotas do Herman”, conta Jaime Bulhosa.
O volume dos livros nem intimida os ladrões. Pelo contrário: os calhamaços até são os preferidos: 2666, o mais roubado na Bertrand em 2009, tem mais de mil páginas. Na mesma loja, já roubaram o dicionário Houaiss — três volumes que pesam 11 quilos. A Bíblia — pecado dos pecados — é um dos mais roubados de sempre. José Pinho (Ler Devagar) perseguiu “um ladrão pela baixa de Lisboa durante uma hora”, até dar com os cinco volumes das obras completas de Jorge Luís Borges no caixote do lixo.
Os bestsellers lideram a lista de roubos. Os livros mais caros também são apetecíveis e os livreiros optam por tê-los debaixo de olho — atrás ou à frente do balcão. Mas há quem roube os títulos mais improváveis. Jaime Bulhosa diverte-se a contar no blogue da Pó dos Livros a sua investigação não finalizada sobre um misterioso ladrão culto. “Desconfiamos que seja a mesma pessoa, porque só rouba poesia e música erudita.”
Por Sheila Bastos, no Lagoinha.com
Hoje é o dia em que minha mãe faria 90 anos. Também é o dia em que um de meus melhores amigos, Ricardo Branco, faz 59, mas deixemos a prioridade para ela.
À medida em que vou ficando velho — completo 60 anos em agosto, idade que não sinto, mas que é tristemente real — vai crescendo a certeza de que sou não somente a óbvia mistura genética de meus pais, Maria Luiza e Milton — herdei-lhes atitudes e posturas muito próprias. Parece que a idade acentua suas presenças em mim. Por mais que trabalhassem fora de casa, meus pais sempre se preocuparam com minha educação e a de minha irmã. Sempre penso que a Iracema, um pouco mais velha do que eu, nasceu pronta e perfeita. Ela estudava muito e parecia fazer aquilo com gosto e inteligência. Eu me sentia meio burro em relação a ela. Tinha que ser empurrado.
E era. Minha mãe foi quem mais empurrou o menino que fui e que só se queria estar na rua com os amigos e jogar (mal) futebol. Certamente veio dela meu amor pela literatura. Não que ela fosse uma grande leitora, é que ela respeitava e amava a cultura de forma devocional. Nós tínhamos sempre dinheiro para livros. Eu e minha irmã éramos modestos em nossos pedidos — sempre fomos bem conscientes de que nossa vida confortável não incluía grande fortuna e era fruto direto do trabalho duro e diário de nossos pais –, porém o fato é que nossa mãe era uma pessoa generosa em termos financeiros. Poucas vezes negava meus pedidos de mais grana para qualquer loucura que inventasse. Porém, quando a coisa era para comprar livros, ela vinha de carteira literalmente aberta. Fazia questão que eu lesse. Quando chegava cansada do consultório de dentista onde trabalhava o dia inteiro, perguntava o que eu estava lendo, mesmo que depois não soubesse o que comentar. Ela ganhou esse jogo. Hoje não consigo não estar lendo nenhum livro. E carrego-os aonde vou.
Eu e minha mãe. Se a imagem não aparecer, clique aqui porque este blog está que é um chapéu velho.
Acho que a Maria Luiza cresceu tentando manter alguma magia espiritual em torno de si, mas suas intenções esboroaram-se contra o chão duro das ruas da Azenha e a correria da maternidade. Nós crescemos e ela não obteve de volta o piano da juventude, onde tocava tangos, e muito menos os livros. Estava sempre trabalhando fora ou em casa. Sempre com alguma coisa pendente. Sempre correndo. Foi uma das primeiras dentistas profissionais do RS e foi massacrada pela necessidade de ser a mulher da casa. Em tempos em que não havia feminismo no Brasil, ela fazia dupla ou tripla jornada para não decepcionar ninguém. Quando jovem dentista, no início dos anos 50, foi criticada por não deixar que meu pai a sustentasse financeiramente. Ainda bem que ela jamais concordou com isso, não daria certo. Ela era a chefe da família e ponto.
O que permaneceu da jovem Maria era a forma com que enfrentava a falta de gosto e a vulgaridade. É dela uma frase que uso muito: “Não ouço música descartável”. Adorava Chopin e a música erudita romântica. Tentando abrir uma janela em suas atividades incessantes, meu pai estabeleceu a quarta-feira como “o dia de ir ao cinema”. Talvez aquilo soasse a ela como mais uma atribuição. Com o tempo, ele também perdeu este jogo.
Minha mãe era AMADA por seus clientes de consultório. Eu notava isso naquela época e ainda hoje. Era um sucesso dizer que eu era o filho da dentista da Azenha. A maioria de meus colegas a visitava, pois ela era odontopedriatra. Também estava sempre disposta a ajudar. O tempo esticava-se para dar lugar a tudo que seu 1,55m queria fazer. Mas ela dizia que não tinha feito nada.
A Elena sabe o quanto uso suas expressões cruz-altenses. Cada vez mais. O casamento com meu pai não era lá nenhuma maravilha em alguns aspectos, porém lembro de uma frase muito significativa que ela me disse quando meu pai morreu em 1993. “Ele me deu muito mais amor do que eu dei para ele”. Esta frase, para a pudica e reservada Maria Luiza, equivalia a dar uma voltinha nua pela casa.
Também minha teimosia e autocrítica vêm dela. Quando metia uma coisa ou um assunto na cabeça… Se o assunto não fosse do nosso agrado, melhor fugir. E ela costumava criticar a si mesma com algum desdém, especialidade que mantenho em alto nível. Tudo o que fazia acabava mal, o que era uma tremenda mentira e injustiça dirigidas a grande mulher que ela foi. Construiu uma casa ruim, não deveria ter sido dentista mas outra coisa, fez comida sem gosto, comprou um monte de coisas que não usa, errou nisso, naquilo. Essas coisas foram criando a certeza de que, filho dela, também eu só fazia coisas erradas. A Elena não parece gostar muito de minha autocrítica, só que é um vício complicado de contornar. Ela parecia estar sempre em falta e eu, coincidentemente…
Hoje, por um acaso, esbarrei neste poema de Shakespeare. É sobre o amor, só que fala tanto em faltas, vícios ocultos — que certamente ela não tinha, a não ser o de esconder caixas de Bis no guarda-roupa –, em injúrias dirigidas a si mesmo e em erros, que logo pensei “Putz, hoje é o dia da Maria Luiza mesmo”.
Assim é o meu amor
Quando for teu desejo teres por mim fraco apreço
E colocares meus méritos no centro do desdém,
Ficarei do teu lado, contra mim lutarei,
Provar-te-ei, ainda que traidor, virtuoso.
Usando as minhas faltas, essas que sei de cor,
Contarei uma história falando por teu nome,
E os meus vícios ocultos todos condenarei,
E tu, ao me perderes, alcançarás a glória.
E, ao fazê-lo, eu também serei vitorioso,
Dobrando perante ti meus ternos pensamentos.
E as injúrias que a mim eu mesmo me impuser
Redobrarão meus ganhos, ao te darem proveito.
Assim é o meu amor, assim eu te pertenço,
Pois, ao provar-te certo, me descubro no erro.
W. Shakespeare, trad. Ana Luísa Amaral
Ela faleceu em 2012 após longo e doloroso Alzheimer. Acrescento isso apenas aqui no final porque já quase esqueci desta fase terrível, deixando no lugar a mãe amorosa, presente, interessada e, puxa vida, ativa.
Na época de Bach, a sinfonia era uma peça instrumental que servia como abertura de uma obra musical maior, como uma ópera, uma cantata, um oratório, etc. Foi no classicismo que a sinfonia tomou a forma que conhecemos hoje, com os convencionais quatro movimentos, a forma sonata do primeiro deles, a multiplicidade de executantes para cada instrumento (ou não), a diversidade de timbres. Diferentemente do concerto, a sinfonia não dá destaque especial a nenhum instrumento, sendo que cada um possui várias participações ocasionais. É a música para orquestra, é o “solo de batuta” do maestro.
Quando pensamos no início do gênero sinfônico, é natural que três nomes nos venham logo à cabeça: os de Haydn, Mozart e Beethoven. Em primeiro lugar porque o gênero formatado pela Escola de Mannheim foi consolidado por Haydn, muito bem utilizado por Mozart e levado ao pódio da mais alta expressão por Beethoven.
Primeira parte do Messias: Sinfonia
Porém, como dissemos, antes a palavra “sinfonia” tinha outro significado. Era uma espécie de abertura interpretada pela orquestra. Por exemplo, a maioria das óperas e oratórios de Handel iniciam com um movimento de abertura, escrito habitualmente no pomposo estilo francês. (Falaremos dele a seguir). Handel, ocasionalmente, chamava este movimento de sinfonia, como fez em O Messias, identificando a abertura como Sinfony. Um caso interessante ocorreu quando, em 1789, Mozart fez um arranjo para uma versão em alemão do Messias. Ele simplesmente mudou o nome da abertura de Sinfonia para Abertura. Claro, na época de Mozart, Sinfonia já era outra coisa e ele tratou de evitar confusões.
Primeira parte de O Messias: Abertura
Bach algumas vezes usou o termo Sinfonia (ou Sonata) para peças instrumentais de um único movimento que davam início a uma Cantata. Ouçam a abertura da Cantata BWV 106, Actus Tragicus, de Bach. Em algumas versões ela é chamada de Sonata, outras de Sonatina e ainda em outras de Sinfonia:
— de 0:00 até 2:34
Na França, as aberturas eram peças introdutórias de um único movimento, usualmente na forma A-B-A, onde as seções A têm um andamento lento, normalmente pomposo, enquanto que a seção intermediária, B, era comparativamente fluente e rápida. Com o tempo, este tipo de abertura passou a ser utilizada por compositores como Bach e Handel. São assim os movimentos iniciais das famosas Quatro Aberturas para Orquestra (ou Quatro Suítes Orquestrais) de Bach. No caso, era um movimento introdutório para uma série de danças.
A Suíte barroca de Bach consistia de uma abertura francesa seguida de uma série de movimentos de danças de ritmos diferentes cujas principais eram Allemande, Courante, Sarabanda, Minueto e Giga.
Já a abertura italiana era diferente, mais semelhante a um concerto de Vivaldi, tendo início rápido, uma seção lenta e depois um final novamente rápido. Este o padrão de abertura da ópera italiana. Exemplos desse tipo de sinfonia italiana são as numerosas aberturas das óperas de Alessandro Scarlatti.
Também no início do século XVIII, os três movimentos da abertura italiana separaram-se e começaram a ganhar vida independente. Tornou-se uma obra de concerto sem solistas. Por exemplo, Vivaldi compôs aqueles 477 concertos em três movimentos dos quais já falamos, mas também sinfonias de 3 movimentos, não muito diferentes, em espírito, de seus concertos, apenas sem instrumento solista.
CPE Bach
Essa ideia de sinfonia italiana com três movimentos como uma composição orquestral independente tem intersecção com o classicismo: as primeiras sinfonias de Haydn e Mozart foram compostas nesse formato. Um lindo exemplo de sinfonia em estilo italiano foi composta por um filho genial de Bach, Carl Philipp Emanuel Bach. Notem como ela é antecipatória. O primeiro movimento, de tema curto e afirmativo, parece que nos aponta para Beethoven. Confiram.
— de 10s até 11min10
Johann Stamitz
Mas, então, na Escola de Mannheim, através do compositor Johann Stamitz (1717-1757), foi completada a formulação geral do gênero sinfônico clássico. Foi ele e a Escola de Mannheim que fizeram a junção, permitindo que a sinfonia italiana e a abertura em estilo francês se encontrassem novamente. No modelo italiano, foi inserido um quarto movimento entre os dois últimos. Este movimento adicional foi um minueto, que, até então, tinha sido um movimento quase obrigatório de uma abertura (suíte) de estilo francês. Também passou a ser utilizada a forma sonata, princialmente no primeiro movimento, algo que se firmou como um padrão nas primeiras décadas da sinfonia. Nascia assim a sinfonia clássica.
Haydn acrescentou ainda – não como regra – uma introdução lenta no primeiro movimento desse novo modelo.
Ou seja, Haydn não criou o quarteto para cordas e nem a sinfonia, mas foi o primeiro a dar enorme nobreza aos dois gêneros e a levá-los ao mais alto nível. Também foi o primeiro a usar de forma genial a “forma sonata”, explorando-lhe a dialética.
Mas o que é a forma sonata?
Esta forma, este princípio estrutural, teve sua origem na Itália – Domenico Scalatti utilizou-o muito em suas 555 sonatas – e esteve presente na música ocidental em seu conjunto de 1750 a 1950, vale dizer a partir da primeira escola de Viena (Haydn, Mozart e Beethoven) até a segunda (Schoenberg, Berg e Webern). Teoricamente, aplica-se não a uma obra inteira, mas a um movimento isolado ou fazendo parte de uma obra em vários movimentos. Observe-se que a forma sonata vale para todos os gêneros instrumentais cultivados a partir de 1750 (não somente a sonata, mas também a sinfonia, o concerto, o quarteto de cordas, etc.) e mesmo, em certos casos, para gêneros de música vocal.
A forma sonata é um esquema simétrico em que cada um de seus elementos é respondido com um outro a ele relacionado e que buscam um equilíbrio – que é alcançado na reexposição. Como funciona?
Primeiro é apresentado um tema ou melodia, o qual é seguido de outro. A mudança de um tema para outro é facilmente perceptível. Nas sinfonias de Bruckner, na fronteira que separa os dois temas há um curto silêncio. Bem, estes dois temas juntos são chamados de Exposição.
Depois vem o Desenvolvimento. É onde os temas da exposição são misturados, reaproveitados e reelaborados. Não se trata de livre fantasia, mas de uma recriação dos dois temas, agora misturados, que recebem novos elementos.
Essa tensão apenas será liberada no momento em que o compositor nos mostrar a terceira parte, chamada Recapitulação, onde os dois temas iniciais serão novamente mostrados de forma transformada.
Sem desejar que vocês enlouqueçam, imaginem uma nova história do Chapeuzinho Vermelho que encontramos em um site russo. O primeiro tema (ou melodia) é o Chapeuzinho Vermelho e o segundo é a vovó. Então o compositor mostra ambos, um seguido do outro, Chapeuzinho e vovó. É a Exposição. O Desenvolvimento é a caminhada do Chapeuzinho Vermelho até a vovó. No meio do caminho tem um lobo e toda a sorte de diálogos e pensamentos sobre como chegar inteiro até a casa da vovó. Ela consegue se livrar do lobo e vai para a Recapitulação, representada pela vovó com Chapeuzinho em casa, tranquilamente aquecidas pela lareira.
Dito assim, parece uma bobagem, porém, nas mãos de um compositor de talento – como Haydn, Mozart, Beethoven ou Brahms –, a forma sonata é algo de poder expressivo verdadeiramente formidável. Às vezes, os dois temas são tão diferentes que parece que juntá-los seria como promover a paz entre israelenses e palestinos. Os dois lados são diferentes e têm boas doses de razão, até que a dialética do Desenvolvimento dobra arestas e ”convence-os”. É um prazer enorme – algo realmente filosófico – ouvir o compositor trabalhando os dois lados.
Então, a forma-sonata clássica se estrutura da seguinte maneira:
I) Uma introdução lenta, não obrigatória;
II) Exposição do tema principal (A);
III) Exposição do segundo tema (também conhecido como contra-tema, B) geralmente em contraste com o primeiro;
IV) Final da Exposição, um episódio curto só para entrar no…;
V) Desenvolvimento: a parte mais elaborada da sonata, onde os dois temas surgem muitas vezes em contraponto, gerando certa instabilidade e como que “pedindo” a volta dos temas principais;
VI) Recapitulação de A e B já alterados e preparação para o final, conhecido como…;
VII) Coda.
Grande parte dos primeiros movimentos das sonatas e sinfonias clássicas, românticas e até modernas seguem, rigorosamente ou não, este esquema.
Mas agora vamos tentar deixar esse esquema mais claro mostrando-o como funciona numa Sonata de Mozart, a de Nro. 16, K. 545.
Desta forma, o classicismo procurou realizar plenamente aquilo que os últimos compositores barrocos já aspiravam: a criação de uma arte abstrata, equilibrada, perfeita e absoluta.
Então, nós já falamos sobre a forma sonata e sobre a introdução de um movimento de dança, chamado Minueto, entre o terceiro e quarto movimentos.
Deste modo, o modelo clássico da sinfonia dividia-se então em 4 partes: O primeiro movimento pode ser uma música de caráter ligeiro, um allegro por exemplo. Alguns primeiros movimentos possuem uma curta introdução de caráter mais grave. O segundo movimento é a parte lenta e reflexiva da obra. O terceiro movimento é conhecido como minueto. É a música mais dançável da obra. O quarto e último movimento (finale) tem características semelhantes à do primeiro movimento, mas aqui o caráter é habitualmente triunfante, daquele tipo que busca o aplauso. Sim, há que considerar o ambiente dos concertos.
O compositor mais representativo do espírito clássico foi Haydn (1732-1809), autor de uma obra vastíssima, na qual as possibilidades musicais da Sinfonia foram exploradas com grande riqueza inventiva. A seguir, apresentaremos o primeiro movimento da Sinfonia Nro. 83 de Haydn, conhecida como “A Galinha”. O primeiro movimento vai até os 6min32. Notem como a forma sonata é utilizada. O primeiro tema é decidido e voluntarioso, o segundo, bem, nele vocês certamente entenderão o apelido da sinfonia.
— de 10s até 6min32
O Classicismo já estava maduro quando se destacou no cenário musical a figura de Wolfgang Amadeus Mozart, cuja obra é considerada por alguns como a maior de todo o século XVIII. Ele foi um compositor eminentemente clássico, isto é, do período clássico. Entretanto, muitas das suas peças, em especial as últimas, antecipam a música que depois surgiria com Beethoven.
Como todos sabemos, Mozart nasceu na Áustria e foi um gênio precoce, que desde pequeno se revelou um virtuose do piano. Escreveu com a mesma desenvoltura gêneros instrumentais e vocais, criando uma obra que só não foi mais extensa devido à sua morte prematura.
Mozart conheceu profundamente a obra daquele que chamava de Papa Haydn. Primeiro apenas através de partituras, depois pelo contato pessoal, pois durante a década de 1780, Haydn passou a deixar sua pacata vida na corte da família Esterházy (seus patrões) para visitar Viena nos meses de dezembro e janeiro – época em que os concertos eram frequentes. O primeiro contato pessoal entre ambos aconteceu em dezembro de 1783, durante um concerto beneficente.
Eles chegaram a tocar juntos em quintetos para cordas de Mozart. Mozart no primeiro violino e Haydn no segundo, imaginem. Depois, Haydn viajou para Londres e eles nunca mais se encontraram.
Ao ficar sabendo do falecimento de Mozart em 1791, ainda na Inglaterra, Haydn desabafou a um amigo não acreditar que a “Providência” tenha cessado tão rapidamente a vida de “alguém tão indispensável”.
Os dois se respeitavam muito. Um exemplo: quando mostraram o Quarteto das Dissonâncias, de Mozart, para Haydn, ele disse que era um equívoco, que aquilo não podia ser. Então, lhe disseram: “Mas é de Mozart”. E o velho respondeu: “Bem, neste caso, trata-se de um flagrante erro de minha parte. Eu é que não entendi.”.
A relação musical entre os compositores era tão forte que Haydn passou a ser considerado por muitos como a continuidade de Mozart, após a morte deste. Nesse sentido, o conde Waldstein, ciente de que Beethoven estudaria com Haydn em Viena, escreveu ao jovem alemão que, com sua dedicação, ele receberia “o espírito de Mozart das mãos de Haydn”.
Muito conhecido é o primeiro movimento de sua Sinfonia Nro. 40, mais um exemplo da forma sonata. Esse movimento inundou os escritórios de trabalho e as ruas na primeira década deste século, pois os telefones da marca Nokia, hoje em desuso, tinham uma opção de toque que era exatamente os primeiros compassos do movimento. Ela vai do começo até 8min20.
— de 45seg até 8min20
Porém, amigos, Haydn tinha um problema, ele não conseguia ser infeliz. Quando lhe encomendavam Missas, então, era terrível. Suas missas são belíssimas e criticadíssimas. Em primeiro lugar porque seriam alegres, felizes demais para o serviço religioso. Os padres e reverendos, sem observar a beleza e o equilíbrio delas, não as entendiam. Em segundo lugar, cada uma delas teria (e tem!) tal unidade que seriam inúteis para a igreja — onde normalmente as Missas são interrompidas pelas preces. Deste modo, os movimentos lentos de Haydn podem ter lá seus dramas, mas a maioria deles não nega a alegria de quem tinha um emprego estável com os Esterházy e de quem tinha sido amigo de Mozart e professor de Beethoven.
Um dos mais famosos movimentos lentos escritos por Haydn é o Andante da Sinfonia Nro. 101, conhecida como “O Relógio”. É lento, mas não é nada triste. E também é autoexplicativo. De 8min21 até 16min48.
— de 8min21 até 16min48
A origem do minueto remonta a uma dança francesa homônima, tipicamente aristocrática, e que foi muito popular na corte de Luis XIV. Na sinfonia clássica, o minueto é contrastante em relação ao movimento lento que o antecede. Não creio haver maior exemplo de minueto do que este da Sinfonia Nro. 41, Júpiter, de Mozart.
— tudo 6min04
A série de livros de “Manual do Blefador” (Ediouro) dá dicas a pessoas que não querem passar vergonha entre entendidos. Há vários desses livrinhos: sobre música, vinhos, literatura, arte moderna, filosofia, teatro, etc. Eles são ótimos, engraçadíssimos, como demonstra este verbete sobre Haydn, escrito por Peter Gammond:
Haydn.
O pai da sinfonia. Haydn decidiu que as sinfonias deviam ter princípio, meio e fim. Beethoven, em seu estilo grosseiro, desconsiderou e estragou esse belo modelo convencional. O sentimento geral é de que Haydn poderia ser tão bom quanto Mozart se não tivesse sido tão incuravelmente feliz durante a vida. Esse espírito de contentamento insinuou-se por toda sua música e diluiu-a. As últimas sinfonias foram compostas em Londres para ganhar dinheiro vivo e a sombra do contrato que pairava sobre ele acrescentou-lhe aquela pitadinha de desgraça que tanto lhe faltara antes. Talvez somente um homem verdadeiramente sem coração poderia ter composto algo tão assombrosamente feliz quanto o final da Sinfonia Nº 88.
— tudo 3min47
Depois, no Romantismo, a sinfonia passou a ser maior, e de caráter mais emotivo. Beethoven, transformou o minueto em scherzo. Foi o primeiro compositor a colocar um coral no último movimento.
É importante lembrar que, apesar das características citadas, nem todas as sinfonias do período clássico foram compostas seguindo rigorosamente a forma. Existem obras no gênero que possuem 3 ou 5 movimentos. Mas são raros. Também o movimento lento é a terceira parte de algumas sinfonias.
Beethoven, portanto, ainda não é o compositor clássico por excelência, mas o inovador, o abre-alas para o romantismo. Com isso, não pretendemos certamente diminuí-lo, imaginem… Ao contrário, ele foi o fundador de uma era musical que até hoje não se esgotou. Quem ver o filme Eroica, de Simon Cellas Jones, verá na cena final um veterano Haydn, após presenciar a estreia da sinfonia, profetizar, com toda a razão: “A partir de hoje, tudo mudou”.
Vejam a reação do público à estreia de Renato Martins na FM Cultura antes que deletem. Um sucesso. A FM Cultura era uma das coisas boas deste estado.
Vamos tentar dar amplificação a quatro manifestações sobre a nova FM sem Cultura e outra de antes da “modernização”.
1. José Fernando Cardoso, funcionário da rádio.
Gente amiga (2), um último esclarecimento sobre as mudanças na Programação da FM CULTURA, pra que não haja alguma dúvida – e parece que tá ocorrendo um certo ruído, especialmente em relação a uma frase do presidente da FUNDAÇÃO PIRATINI, Orestes de Andrade Júnior, postada aqui no Facebook, de que “ouvimos e construímos uma nova grade junto com os servidores”. Sim, de fato Orestes e alguns membros de sua diretoria nos ouviram: nós, servidores da FUNDAÇÃO lotados na RÁDIO, fizemos três reuniões com eles na semana retrasada – e depois houve mais duas, com o novo diretor, Paulo Inchauspe, e os três programadores musicais, eu, Martinha e Clarisse. Nas reuniões com o Orestes, nos foi apresentada, num primeiro momento, uma nova grade, fechada, que acabaria por sofrer (mínimas) alterações depois de críticas e sugestões nossas. Pra se ter uma ideia, no primeiro modelo de grade não constava o ‘Conversa de Botequim’, simplesmente o programa mais conhecido e reconhecido – pelos ouvintes, músicos, colegas, apoiadores, jornalistas, divulgadores etc. – de toda a história de 28 anos da FM CULTURA. Insistimos que o ‘Conversa’ e o ‘Estação Cultura’ não poderiam cair: conseguimos manter o primeiro – e sugerimos o Demétrio Xavier pra apresentá-lo, já que a direção insistiu que o Luiz Henrique não mais poderia exercer a função -, mas infelizmente perdemos a batalha pelo segundo. Então, dizer que a grade foi construída conosco não é exatamente o que aconteceu – nossa compreensão sobre a discussão é bem diversa. Não concordamos com quase nada do que foi proposto pelos gestores: nem a troca dos apresentadores da Casa por terceirizados, nem a supressão de programas, nem o ‘Clássicos’ sendo jogado lá pra madrugada – é daí que surgiu a frase do “tu e mais 6”, quando uma colega nossa disse que era ouvinte assídua -, nem a inclusão de música estrangeira – que já é contemplada nos programas jornalísticos ‘Café Cultura’, ‘Cultura Na Mesa’, ‘Estação Cultura’ e segmentados –, o que fatalmente vai ocasionar perda de espaço para músicos locais e nacionais -, nem o esvaziamento do ‘Café Cultura’, que terá outro formato, muito mais superficial – risco que corre também o ‘Cultura Na Mesa’. Portanto, concluindo: a grade já estava modificada, 95% do que muda já estava decidido, nos opusemos de maneira muito clara, questionamos se essas medidas não deveriam passar pelo Conselho Deliberativo – eu, o colega Walmor Sperinde e o próprio Orestes, que ocupava uma das cadeiras do colegiado como representante da SECOM, sabemos disso de cor, até porque a FUNDAÇÃO ainda não foi extinta, então seu Estatuto e Diretrizes ainda tão valendo -, mas o atual presidente disse que entende que isso não é necessário. Então o que foi feito é que, a partir de nossa discordância, demonstrada já de cara e de forma veemente, deixou-se uma margem – pequena, minúscula, eu diria – para que sugestões nossas fossem levadas em conta. O que é bem diferente de uma construção conjunta, entre servidores e direção, da nova grade de Programação. O que aconteceu foi isso, perguntem aos demais colegas que lá estavam. Abraço a todos. E a luta continua.
2. Francisco Marshall, historiador.
DE ONDAS E DETRITOS
Se você fosse o dono ou gestor de uma empresa, trocaria uma funcionária culta, bem preparada tecnicamente, dedicada, reconhecida e aclamada por seu público, prestando um serviço relevante para a comunidade, pessoa certa no lugar certo, por seu oposto?
E trocaria um produto sofisticado, relevante, correto, bonito, singular, bem acolhido por seu público, por uma babaquice vulgar estilo camelódromo?
Resposta hoje vigente: “sim, afinal a empresa não é minha, o risco de solapá-la não atinge meu patrimônio, e o acionista maior (meu chefe) gosta mesmo de uma boa babaquice vulgar e aduladora. Ademais, se eu quebrar esta empresa, haverá quem aplauda, como há quem goste de me ver agredindo seus técnicos e seus clientes.”
3. Marcos Abreu, engenheiro de som.
4. Renato Martins, apresentador do Café Cultura, comprovando o “mais do mesmo” em emissora pública.
5. E vejam este post, por favor.
Aqui, o link, vale a pena clicar.. Hoje recebi uma visita pra lá de especial. A professora Isabel Velásquez é mexicana. Vive nos EUA. Leciona linguística na University of Nebraska. Lá ela ouve, diariamente, a FM Cultura! Fã de MPB, não perde um Conversa de Botequim. Apoiado por esta livreira. Participando de um seminário na PUC, as professoras que a acompanharam disseram que há três dias ela quer vir conhecer a livraria que apoia uma rádio cultural. E veio. Disse que a Bamboletras faz parte de seu imaginário cotidiano. Ao ouvir a rádio pensava: como será essa livraria? Agora conhece. Coisa de gente que ama os livros. Foi um lindo encontro!
Guto, na verdade eu acho que há graves problemas no vestiário. Contigo também, mas o mais grave deve ocorrer no vestiário e acima. Os jogadores estão descontentes com o clube ou contigo. Os caras estão se lixando pra ti. Vendo o jogo, nota-se irritação, depressão, jogadores tapando o rosto a todo momento como se estivessem horrorizados com seus erros (ou com a qualidade duvidosa dos adversários), bagunça, pouco empenho, treinamentos sem resultados.
A bola queima os pés de todos os vermelhos, inclusive os de Dale.
Eu, se fosse jogador do clube, estaria puto. Uma diretoria que deixa o setor de armação de jogo exclusivamente nas mãos de D`Alessandro, de 36 anos, não tem planejamento nenhum. Há jogadores que são escalados repetidamente sem nenhum motivo. Com chefes tão ruins, nestas e outras questões, o funcionário perde a motivação, é claro. E há toda uma provável subserviência aos empresários. São eles que mandam no clube, na minha opinião. Nico López faz gols, mas tem dificuldades em manter a titularidade. Pior: sem ele, o Inter jogou 3 partidas sem acertar o gol adversário… Enquanto isso, Cirino tem chances de jogar até a torcida acabar com ele a golpes de vaias. Isso cansa todo mundo.
E os jovens, como chegarão à titularidade num time apavorado? Eles devem entrar em campo com alguma tranquilidade, mas são recebidos por um grupo em pânico. Juan fez alguns bons jogos e também teve dificuldades para ser escalado. Deve ter um mau empresário, coitado. Alguém de fora parecia estar te dizendo para escalar Cirino.
Não adianta, tenho a forte impressão de que pagamos bons salários a treinadores meia-boca para que eles obedeçam calados a interesses alheios aos clubes. O pior é que a vitrine onde estes atletas são mostrados… Daqui a pouco, nem ela vai servir, pois está rachada de lado a lado e (muito) emporcalhada.
Fizeste muito mal em dizer que o time melhoraria em uma “semana de treinos”. Piorou. Falam em contratar Moledo, mas alguém efetivamente observou seu desempenho na Grécia? Não será mais um bom negócio apenas para os negociantes e outros poucos? E por que estamos sem meia-armadores sem que ninguém fale em contratações? E quem é nosso centro-avante?
Mas formar um grupo melhor não adiantará nada se não houver uma reorganização geral interna. Aquilo que se viu sábado, contra o Boa Esporte, só pode vir do vestiário. A bola queima os pés de nossos jogadores, inclusive o de D`Alessandro. A bagunça e a perturbação vem de lá. A torcida? Olha, a torcida está louca para abraçar e amar seu time. Há anos. Mas tá difícil.
Desse jeito, não vamos nem subir. E a Série B é uma BARBADA, repito
Transcrito pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, no despacho responsável por afastar o tucano, obtido e divulgado nesta quinta-feira (18d maio) pelo site Buzzfeed Brasil, a conversa revela como Aécio queria interromper a Operação Lava Jato.
“Ministro da Justiça é ‘um bosta de um caralho'”
Aécio — Esses vazamentos, essa porra toda, é uma ilegalidade.
Joesley — Não vai parar com essa merda?
Aécio — Cara, nós tamos vendo (…) Primeiro temos dois caras frágeis pra caralho nessa história é o Eunício [Oliveira, presidente do Senado] e o Rodrigo [Maia, presidente da Câmara], o Rodrigo especialmente também, tinha que dar uma apertada nele que nós tamos vendo o texto (…) na terça-feira.
Joesley — Texto do quê?
Aécio — Não… São duas coisas, primeiro cortar o pra trás (…) de quem doa e de quem recebeu.
Joesley — E de quem recebeu.
Aécio — Tudo. Acabar com tudo esses crimes de falsidade ideológica, papapá, que é que na, na, na mão [dupla], texto pronto nãnã. O Eunício afirmando que tá com colhão pra votar, nós tamo (sic). Porque o negócio agora não dá para ser mais na surdina, tem que ser o seguinte: todo mundo assinar, o PSDB vai assinar, o PT vai assinar, o PMDB vai assinar, tá montada. A ideia é votar na… Porque o Rodrigo devolveu aquela tal das Dez Medidas, a gente vai votar naquelas dez… Naquela merda das Dez Medidas toda essa porra. O que eu tô sentindo? Trabalhando nisso igual um louco.
Joesley — Lógico.
Aécio — O Rodrigo enquanto não chega nele essa merda direto, né?
Joesley — Todo mundo fica com essa. Não…
Aécio — E, meio de lado, não, meio de leve, meio de raspão, né, não vou morrer. O cara, cê tinha que mandar um, um, cê tem ajudado esses caras pra caralho, tinha que mandar um recado pro Rodrigo, alguém seu, tem que votar essa merda de qualquer maneira, assustar um pouco, eu tô assustando ele, entendeu? Se falar coisa sua aí… forte. Não que isso? Resolvido isso tem que entrar no abuso de autoridade… O que esse Congresso tem que fazer. Agora tá uma zona por quê? O Eunício não é o Renan.
Joesley — Já andaram batendo no Eunício aí, né? Já andaram batendo nas coisas do Eunício, negócio da empresa dele, não sei o quê.
Aécio — Ontem até… Eu voltei com o Michel ontem, só eu e o Michel, pra saber também se o cara vai bancar, entendeu? Diz que banca, porque tem que sancionar essa merda, imagina bota cara.
Joesley — E aí ele chega lá e amarela.
Aécio — Aí o povo vai pra rua e ele amarela . Apesar que a turma no torno dele, o Moreira [Franco], esse povo, o próprio [Eliseu] Padilha não vai deixar escapulir. Então chegando finalmente a porra do texto, tá na mão do Eunício.
(…)
Joesley — Esse é bom?
Aécio — Tá na cadeira (…). O ministro é um bosta de um caralho , que não dá um alô, peba, está passando mal de saúde pede pra sair. Michel tá doido. Veio só eu e ele ontem de São Paulo, mandou um cara lá no Osmar Serraglio, porque ele errou de novo de nomear essa porra desse (…). Porque aí mexia na PF. O que que vai acontecer agora? Vai vim um inquérito de uma porrada de gente, caralho, eles são tão bunda mole que eles não (têm) o cara que vai distribuir os inquéritos para o delegado. Você tem lá cem, sei lá, 2.000 delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né?, do Moreira, que interessa a ele vai pro João.
Joesley — Pro João.
Aécio — É. O Aécio vai pro Zé (…)
[Vozes intercaladas]
Aécio — Tem que tirar esse cara.
Joesley — É, pô. Esse cara já era. Tá doido.
Aécio — E o motivo igual a esse?
Joesley — Claro. Criou o clima.
Aécio — É ele próprio já estava até preparado para sair.
Joesley — Claro. Criou o clima.
“Como vou entrar numa merda dessa sem advogado?”
A TV Globo também divulgou outro trecho da conversa entre os dois que se refere à negociação de R$ 2 milhões pedidos pelo tucano ao empresário. Na conversa, Aécio indica o primo, Frederico Medeiros, para receber o dinheiro, que seria para pagar o advogado de defesa do senador afastado no processo da Lava Jato.
Aécio também cita a irmã, Andrea Neves, que foi presa nesta quinta-feira. Veja o diálogo:
Joesley – Deixa eu te falar dois assuntos aqui, rapidinho. É…a tua irmã teve lá.
Aécio – Obrigado por ter recebido ela lá
Joesley – Tá…ela me falou de fazer dois milhões, pra tratar de advogado …primeira coisa, num dá pra ser isso mais. Tem que ser….
Aécio – É?
Joesley – Tem que ser. Eu acho pelo que a gente tá vendo tudo, pra mim e pra você… vai ser, a primeira coisa
Aécio – Por que os dois que eu tava pensando era trabalhar (no processo)
Joesley – Eu sei, aí é que tá
Aécio – ….. assim ó …. toma não tem, pronto. Primeira coisa. Eu consigo (…) que é pouco, mas é das minhas é das minhas lojinhas, que eu tenho, que caiu a venda pa caralho
Aécio – [Risos]
Joesley – É rapaz, isso aqui era setecentos, oitocentos.
Aécio – Como é que a gente combina?
Joesley – Tem que ver, você vai lá em casa ou ….
Aécio – O FRED
Joesley – Se for o FRED eu ponho um menino meu pra ir. Se for você sou eu. [risos] Só pra…
Aécio – Pode ser desse jeito…risos
Joesley – Entendeu. Tem que ser entre dois, não dá pra ser…
Aécio – Tem que ser um que a gente mata eles antes dele fazer delação [risos]
Joesley – [Risos] Eu e você. Pronto… ou FRED e um cara desses…pronto
Aécio – V amos combinar o FRED com um cara desse . Porque ele sai lá e vai no cara. Isso vai me dar uma ajuda do caralho. Não tenho dinheiro pra pagar nada. (…). Sabe porque eu tenho que segurar esse advogado. (…) Porque não tem mais, não tem ninguém que ajuda
Joesley – E do jeito que tá…
Aécio – Antes de ter mandado a ANDREA lá eu passei dez noites sem dormir direito . Falei não vou não porque o cara já me ajudou pra caralho. Mas não tem jeito, eu vou entrar numa merda dessa sem advogado?
Joesley – Você tá certo.
Aécio – Faz como?
Joesley – Pronto. O menino entra em contato com o FRED.
Aécio – O menino liga pro FRED. O FRED já sai de lá e já deixa na casa do cara e acabou.
Joesley – Pronto. Quinhentos por semana pá pá pá. Eu acho que eu consigo. A partir da semana que vem.
Aécio – Primeiro liga pro FRED
Joesley – Pronto, eles se acertam
O documento conlcui: “Como se vê da transcrição, Joesley e o Senador Aécio Neves, numa reunião intermediada pela irmã do parlamentar, Andrea, que já havia sido a portadora da solicitação da vantagem indevida feita por seu irmão, acertam o pagamento de 2 milhões de reais, em quatro parcelas semanais, a serem recebidos por um intermediário, no caso, seu primo Frederico Medeiros (FRED)”.
Uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público.
Enrique Peñalosa
Na foto, Sir Paul McCartney num trem em Londres, sozinho, esta semana. Entrou nele na estação de King’s Cross, aquela enorme, bem no centrão. Quem o viu disse que estava sozinho e passou o tempo olhando o seu celular e lendo jornal. Paul foi abordado por umas quatro pessoas. Foi educado, não quis fotos e comentou sobre o novo álbum que vai lançar.
É uma imagem mais significava do que as do Chico Buarque comprando pão e o Caetano atravessando a rua.
O pai da sinfonia. O sentimento geral é de que Haydn poderia ser tão bom quanto Mozart se não tivesse sido tão incuravelmente feliz durante a vida. Esse espírito de contentamento insinuou-se por toda sua música e diluiu-a. As últimas sinfonias foram compostas em Londres para ganhar dinheiro vivo e a sombra do contrato que pairava sobre ele acrescentou-lhe aquela pitadinha de desgraça que tanto lhe faltara antes. Talvez somente um homem verdadeiramente sem coração poderia ter composto algo tão assombrosamente feliz quanto o final da Sinfonia Nº 88.
Um ganho secundário do Almoço Clio Musical é a necessidade de estudar. Mesmo que não seja necessária uma dedicação exaustiva, pesquisar, estudar e escrever sempre me animam muito. Ontem, cheguei meio mal-humorado em casa, com aquela sensação ruim de atraso em coisas que precisam de tempo para serem desenvolvidas. Era o final da tarde e ainda dei mil voltas procrastinatórias. Depois, pensei que se começasse apenas a me organizar para o trabalho, ele se encaminharia naturalmente. Claro, a coisa engrenou e comecei a me sentir cada vez melhor e melhor, chegando quase a algum início de euforia. E tudo ficou (bem) encaminhado. Escrevi bastante sobre o tema A Sinfonia, Parte I: das Origens ao Classicismo.
Então, perto das das 22h, fui buscar a Elena no ensaio da Ospa. Para este bobo apaixonado é sempre uma alegria vê-la e revê-la, mesmo que o intervalo seja de segundos. Fiquei esperando por ela e dei risada com um colega seu de Ospa que me disse que “havia abutres rondando meu avião”. Tá bom. Eu e ela voltamos abraçados, caminhando naquela velocidade que fica entre o medo de ser assaltado e a elegância. Jantamos e pensei no tempo que dura a alegria de fazer um trabalho intelectual, mesmo que este não seja uma loucura de complicado e se este pode ser catalisado por outros fatos da vida diária. E concluí que devo repetir e repetir, ainda que sem o incentivo do Almoço Clio. Ou correr pela rua, pois ambas são atividades que me fazem retornar a um melhor equilíbrio.
Hoje pela manhã, dei uma reajustada na alegria. Caminhei até o trabalho com a 9ª de Mahler nos fones. Sim, é uma tragédia, mas o contato com uma uma realização daquelas sempre me deixa feliz. Ao meio-dia, após um almoço rápido, usei a meia-hora restante dando-me novo empurrão lendo De Amor e Trevas, de Amós Oz, na Biblioteca Pública. É muita sorte trabalhar na mesma quadra que a BPE. A gente ganha mal mas tem sorte.
Acho que tenho que dar um jeitinho de tornar mais frequentes esses estímulos que me deixam feliz. Todos eles. Afinal, estou por fazer 60 anos e é, digamos, minha reta final.
Joseph Haydn: o herói desta edição do Almoço Clio Musical.
O fato é que o Inter jogou bem melhor contra o Brasil do que contra o Paraná mesmo que, infantil e maldosamente, a RBS tenha tentado colocar a partida sob suspeição. O fato é que o Beira-Rio perturba nosso time e que ele rende melhor fora de casa, onde as vaias não pegam tanto. Contra o Paraná, terça-feira passada, chegamos ao fundo do poço. Foi uma das piores partidas que jogamos em muitos anos e olha que há um bom leque de apresentações abaixo da crítica.
Consagre-se, Guto, a Série B é uma barbada | Foto: Ricardo Duarte
Já contra o Brasil, mantivemos alguma compostura defensiva e perdemos gols e mais gols que permitiriam acabar a partida com tranquilidade. Cirino e Diego demonstraram pontaria zero em três lances que, ainda bem, não foram capitais para o resultado do jogo. Cirino chegou obter uma coisa impossível: uma rosca de cabeça. Antes da bola chegar, ele já a estava cabeceando. Uma coisa que mostra que o moço não tem a menor capacidade motora. Melhor faria se fosse estudar. Vejam abaixo o “Ensina, Romário” deste domingo com as duas chances perdidas por Cirino (as duas primeiras) e a de Diego:
O esquema adotado por ti, Guto Ferreira, foi aquele conhecido de todos e que deveria ser aplicado em todo time desentrosado ou ruim: o velho 4-4-2 brasileiro e suas variações. Se o time não joga junto, se o time não consegue nem disputar o meio-de-campo com o esquema da moda (4-2-3-1), melhor adotar aquilo que todos conhecem e sabem. Deixa a cultura tática para quando o 4-4-2 estiver mais ou menos treinado ou os passes mais corretos. É pura questão de bom senso.
Sasha não jogou nada, mas Diego e Cirino foram ainda piores. Brenner fez a jogada do gol e só por isso não vou criticá-lo. Charles e Edenílson deram para o gasto. Fabinho é o melhor lateral direito do grupo, por incrível que pareça, mas Winck deve ser testado ali ou na meia. Apesar de não ser uma Brastemp, Klaus é infinitamente superior a Léo Ortiz. Faz o básico. Conjunto a gente não tem, mas no 4-4-2 tivemos jogadores postados em suas posições corretas, sem deixar aquele buraco no meio-de-campo para o adversário trabalhar.
Desta forma, tivemos uma atuação singela e correta, nada demais, mas que, se mantida, será suficiente para levar o Inter para a Série A. Fico feliz de tu teres duas semanas com jogos apenas nos sábados. Poderás trabalhar e talvez dar algumas qualidades a mais a um time que ainda não mostrou que pode vencer em casa.
Há alguns dados surpreendentes, Guto:
Temos a melhor defesa do campeonato.
Temos a melhor campanha fora de casa da Série B.
O site de estatísticas de futebol Chance de Gol já dá 96,1% de chances do Inter voltar à Série A em 2018.
A Série B, Guto, é uma barbada. Para vencê-la ou para ficar entre os 4 primeiros, é só jogar um pouquinho com um alguma organização. Tu tens tudo para ser o técnico que levou o Inter de Volta para a A. Consagre-se, por favor!
O próximo jogo do Inter é sábado (1) contra o Boa Esporte, às 16h30 no Beira-Rio. Estamos em 4º lugar. O Boa Esporte em 15º. Consagre-se, Guto!
Teoria Geral do Esquecimento, excelente romance de José Eduardo Agualusa resenhado aqui por nós, acaba de receber o International DUBLIN Literary Award, atribuído à edição em inglês do romance, A General Theory of Oblivion.
O angolano José Eduardo Agualusa
“É uma alegria grande”, disse José Eduardo Agualusa ao Público.pt, pouco depois de ser conhecida a notícia de que é o primeiro autor de língua portuguesa a vencer um dos mais prestigiados prêmios literários mundiais. “Uma alegria por haver muito bons livros em competição, porque a atribuição é decidida pelas bibliotecas públicas, o que me parece excelente, e porque é uma forma de dar visibilidade a culturas periféricas, já que as obras escolhidas não têm de ser escritas originalmente em língua inglesa, apenas publicadas em inglês”, completou o escritor.
Criado em 1996, este é, em termos financeiros, o maior prêmio literário para uma obra de ficção publicada em língua inglesa. São cem mil euros, montante a dividir entre autor e tradutor (75 mil para o primeiro, 25 mil para o segundo) quando se trata de uma obra originalmente escrita em outro idioma.
A General Theory of Oblivion concorria com obras do escritor turco (e Nobel da Literatura) Orhan Pamuk (A Strangeness in My Mind, — Uma Sensação Estranha, no Brasil), do moçambicano Mia Couto (A Confissão da Leoa), da irlandesa Anne Enright (Man Booker Prize em 2007), com The Green Road. Dos dez finalistas – que incluíam ainda o vietnamita Viet Thanhn Nguyen (vencedor do Pulitzer em 2016 com The Sympathizer), o austríaco Robert Seethaler (A Whole Life), o norueguês Kim Leine (The Prophets of Eternal Fjord), a mexicana Valeria Luiselli (The Story of My Teeth), a nigeriana Chinelo Okparanta (Under the Udala Trees) e Hanya Yanagihara (A Little Life). Agualusa diz ter lido “apenas o livro do Mia”, de quem é amigo e a quem ligou imediatamente após a notícia da atribuição do prêmio: “Se pudesse, gostaria de ter ganhado com ele.”
Ontem, quando li a escalação do Inter, já comecei a brincar no Facebook: “E daí, coloradagem? Preparados para o bom futebol?”. Pois não há o que resista a um time daqueles, ainda mais sem preparo físico. (Aliás, ontem foi a vez de Nico López ter sua lesão muscular. É um ou dois lesionados por jogo, como aviso há semanas… E lesão muscular é um mês fora, como todos sabem).
Não teve nem pressão inicial, o time apenas sucumbiu contra um Paraná que consegue ser igual. Passes errados, um buraco no meio de campo, nervosismo e, infelizmente, a regra é clara: são apenas 3 substituições.
Quer saber o que eu faria, Guto? Contrataria um preparador físico de primeira linha, colocaria o sub 23 em campo e prepararia os chamados titulares para poderem correr, saltar, amar, viver e sonhar. Treinaria posicionamento e tentaria dar aquele pouquinho de futebol que seria suficiente para disparar num campeonato de nível técnico rasante. E o sub 23 está voando nos campeonatos que disputa. Não pode ser pior que o que vimos ontem. Nada pode ser pior. Fomos derrotados, apesar da sorte de termos somado um ponto. Não há o que comentar. Ninguém joga nada. E temos bons jogadores. Danilo Fernandes, Cuesta, D`Alessandro — coitado, não consegue nem correr –, Pottker, Dourado, Nico, Uendel, etc.
Não creio que tu sejas o cara que escala o time, Guto. Senão, Juan jogaria. Toda vez que ele entra, entra bem. Ontem, eu dava gargalhadas cada vez que Cirino pegava a bola. O cara é um completo inútil! Certamente um empresário o escala. Tu disseste que ele é competitivo… Não seja ridículo, por favor. E ri também quando Nando Gross lembrou Cláudio Cabral e disse: “O Inter treina para aprimorar a ruindade”.
Contratações erradas — nenhum armador, montes de zagueiros lamentáveis –, dispensa do preparador físico João Goulart e treinadores manipuláveis por interesses empresariais é o molho onde estamos nos afogando. Não estou vendo perspectivas sem que mude a diretoria. Não dá para impichar Marcelo Medeiros por vassalagem a Fernando Carvalho?
Olha, Guto, acho que teu reinado será breve. Ninguém escala assim sem ser odiado pela torcida. E sabe a TV? Pois é, todo mundo vê.
E os times da Série B são ridículos. Trata-se do Campeonato mais fácil que disputamos em anos. Era para disparar na frente e bocejar a cada nova vitória.
Menos mal que não há Gre-Nal marcado. Nosso próximo jogo é contra o Brasil-PE no Bento Freitas, sábado, às 16h30. Talvez eu TORÇA para eles. Gosto muito do Xavante.
Recebi este e-mail. Como ainda não pedi permissão para publicar o nome do autor, este fica por enquanto anônimo.
Olá, Milton. Há algum tempo que acompanho seu blog. Como vi no seu curriculum vitae que você possui uma certa sistematização de suas leituras, anotando cada livro lido (com seu número de páginas), e que possui uma vasta bagagem cultural, gostaria de saber como você concilia o trabalho e outras atividades pessoais à leitura de tantas obras literárias e quanto tempo por dia, em média, dedica-se a esse intento. Pergunto isso por me deparar com uma vasta quantidade de clássicos diante de mim e não possuir o tempo que gostaria para apreciá-los. Quantos livros é possível ler em 1 mês? Refiro-me aos grandes: Joyce, Proust, Thomas Mann, Musil, Faulkner… E, para finalizar, já que você sabe quantos livros e páginas leu desde 1971, poderia me dizer quantos foram? Curiosidade de um jovem de 23 anos diante de um abismo de ignorância a ser sobrepujado.
Georges Seurat [ Man Reading ] 1884
Em primeiro lugar, não acho que a tal bagagem seja tão grande. O tamanho que possa ter está mais ligado ao tempo em que estou vivo do que a uma suposta sistematização. Em segundo lugar, leio muita ficção e crítica literária, mas não sei nada de filosofia, política e de muitos outros assuntos. Posso ter conhecimentos hipertrofiados aqui e ali, mas fico constrangido quando me chamam de “pessoa culta” porque não ignoro minhas atrofias acolá. Elas me impedem muitos movimentos. O pouco que li e sei não é fruto de uma fórmula pré-determinada e clara, mas tenho certeza de que começa pelo pequeno hábito de ter SEMPRE um livro à mão. SEMPRE significa SEMPRE. Tá bom, não levo o livro que estou lendo ao futebol nem tomo banho com ele ao lado, mas nas outras circunstâncias há sempre um objeto desses por perto. Por exemplo, no último sábado à noite tive de ir a um bar buscar minha filha e amigas. Eu estava saindo de um cinema, era quase meia-noite. Os pessoas costumam perguntar “Para que sair em pleno sábado à noite com um livro?”. É, mas olha só: eu já estava chegando ao bar onde ela estava me esperando quando recebi um telefonema. Uma amiga tinha recém chegado e elas queriam ficar mais meia hora, uma hora. Sem problemas. Ganhei um tempo de leitura num café. Foi bom.
Na correria em que vivemos, sobram muitos espaços de espera. Fazemos inúmeros deslocamentos durante o dia. Garanto que hoje leio mais fora de casa do que sentado confortavelmente. Leio a qualquer hora e já me acostumei com as súbitas interrupções. Outra coisa, se conseguirmos sentar, os ônibus são locais muito bons para ler. Não consigo ler em pé no ônibus porque carrego uma tralha pesada demais e tenho medo que alguém aperte este notebook onde te escrevo. Já no metrô a coisa volta a ficar possível, desde que abraçado a uma daquelas colunas (“pole reading?”).
Aproveito também meu horário de almoço. A lei me dá 1 hora, por enquanto. Então, falo minha refeição em 30 min e subo correndo até a Biblioteca Pública, perto do meu emprego no centro de Porto Alegre, para ganhar 30 min de leitura. Isto me acalma e reorganiza. É um oásis em meio à loucura diária.
Não sei quanto tempo dedico-me a ler e nem me programo. Eu abandonei a leitura antes de dormir, pois o sono me vence facilmente. Há o time eater do facebook, quase inevitável, mas que deve ser dosado.
[ Charlotte Greenwood ] 1928
Quando jovem, fui mais obsessivo e cuidava para ler um mínimo de 30 páginas por dia. Hoje, um negócio desses é inviável. Leio o que dá, quando dá. Outra coisa: não se force a ler o que não gosta. Não adianta. A gente demora muito lendo coisas chatas, pois é penoso manter a atenção. Shakespeare ensina que “ONDE NÃO HÁ PRAZER NÃO HÁ PROVEITO”. É uma verdade. Se não houver prazer, você vai esquecer do que leu. Ler é diversão. Não adianta, se você achar algum Faulkner um saco, mude de livro ou de autor. Se você passar a amar, por exemplo, Kafka, atire-se sobre ele como se sua vida dependesse disso. Em algum momento, Kafka dialogará com outro livro e fará a indicação de quem deve ser lido logo após. Sim, os livros dialogam entre si. Um cita outro ou você, na sua ânsia de descobrir mais fatos sobre um autor de que gosta, pesquisará em qualquer lugar e encontrará outras obras afins pelo caminho. Terá curiosidade sobre elas e a impressão de que são eles, os livros, que te obrigam a lê-los, se formará. Meu who`s next é inteiramente regido por essas escolhas que “eles” fazem entre si.
Houve uma época em que li todos os romances de Balzac em sequência. Só que isso só pode ser feito se você gostar mesmo do autor. Se você não suportar a pieguice de Dickens, não o enfrente. Com o tempo, algum outro autor lhe dirá que há apenas dois Dickens que são muitíssimo bons: Pickwick e Grandes Esperanças. É importante uma boa primeira abordagem, por isso, inicie Flaubert por Madame Bovary, Balzac por Ilusões Perdidas ou Pai Goriot — talvez A Prima Bette — e Joyce por Ulisses ou Retrato do Artista Quando Jovem; evite começá-los pelo duvidoso Salambô, pelo ridículo A Mulher de Trinta Anos ou por Finnegans Wake, ilegível para 99,9% dos mortais mesmo em português, including me.
Eu só aconselho a amar de paixão dois autores que realmente são fundamentais para quem nasceu no Brasil: Machado de Assis e Guimarães Rosa. Não é difícil amá-los e mesmo a prosa à principio intrincada de Rosa passa a funcionar após algumas páginas de sofrimento. Ela requer alguma adaptação mental do leitor, mas o pequeno esforço vale a pena. E como!
Como escrevi no Curriculum Vitae, tinha anotados todos os livros que li. Parei com isso há uns 5 anos. Tinha tudo num caderno, não no Excel. Fazia uma espécie de tabulação anual. Cada louco com sua mania, OK? Posso te dizer é que lia de 18 a 20.000 páginas por ano quando tinha entre 16 e 30 anos, 3.000 páginas nos anos em que meus filhos nasceram, e que hoje fico lá pelas 7 ou 8.000 paginas. Escrever em 2 blogs toma algum tempo, mas escrever me é sempre prazeroso e sou rápido. É impossível dizer quantos livros se lê por mês, se for poesia dá para ler vários, se for Ulysses, dará mais de um.
Bom, era isso. Para ti, FP, o bom seria começar por Doutor Fausto, de Thomas Mann, traduzido por meu amigo Herbert Caro. É uma das maiores obras literárias que conheço e fala bastante de uma coisa que amamos muito.
Grande abraço.
Dora Carrington [ Portrait of Lytton Strachey ] 1916
Sabem como terminei meu último “Bom dia, Guto”? Assim ó:
O próximo jogo do desfalcado Inter é contra o Santa Cruz, sábado, em Recife, às 16h30. Aguardamos mais lesões musculares.
E tivemos mais duas: Danilo Silva e Ernando. Não, não sou brilhante nem tenho bola de cristal. É que não adianta, gente. Se o Inter contratasse o Messi e o Cristiano Ronaldo, eles encontrariam uma bagunça tão grande lá dentro que (1) não poderiam explorar todo seu potencial num time sem esquema e (2) iriam parar logo no Departamento Médico porque não há preparação física decente no Beira-Rio.
Agora, temos os zagueiros Víctor Cuesta, Danilo Silva e Ernando lesionados; o primeiro, com um problema na coxa esquerda, enquanto os outros dois, na direita. O atacante Pottker também está fora.
Em compensação, Cirino e Léo Ortiz conseguem não se machucar. E como seria bom se isso acontecesse! A zaga contra o Santa Cruz foi Klaus e Léo Ortiz. Sabem como Klaus saiu do time no tempo de Zago? O último jogo de Klaus foi há mais de quatro meses, na vitória por 2 a 0 sobre o Princesa do Solimões, pela Copa do Brasil, quando… Bem, apresentou uma lesão muscular na coxa direita.
Torcida do Inter no Arruda: super animados com o futebol de Marcelo Cirino | Foto: Ricardo Duarte (SC Internacional)
Mas há, apesar de tudo, uma agenda positiva, certamente criada pela ruindade de nossos adversários, talvez maior que a nossa. Dos 8 jogos do Inter até agora, 5 foram fora de casa e 3 no Beira-Rio. Quando equilibrar, talvez, quem sabe, sabe-se lá, estejamos com mais pontos. Na 12ª rodada teremos 6 jogos em casa e 6 fora. Então, nossa posição na tabela será mais real.
O amigo Marcelo Furlan vem com outra análise positiva. No ano passado, pela Serie A, contra o Figueirense, America-MG e Santa Cruz, tivemos 3 derrotas (zero pontos) em três jogos fora. Esse ano, contra os mesmos adversários, jogando novamente fora de casa, foram 1 vitoria e 2 empates (5 pontos). Que coisa, né?
Marcelo Cirino
Está provado. Marcelo Cirino é o homem à prova de ruindade, que nunca sai do time. Guto Ferreira disse na entrevista coletiva que ele seria um jogador competitivo. Sim, para a Série C, claro. Por que Marcelo Cirino não pode ser sacado do time do Inter? É que o Inter é uma instituição de empresários, não é um clube de futebol. Sai Nico, saem quase todos, só não podem sair alguns escolhidos dos deuses, como o Cirino. É que ele tem um empresário mais forte dentro do clube, só pode.
Trouxemos Alex Santana de volta ele não ficou nem no banco. Juan é uma grande promessa e não joga. Winck enche os adversários de gols no sub-23 e não sobe para o time principal. Trocamos o técnico e seguimos jogando sem armadores. Quando Dale sai, por que não é substituído por ninguém da função como Alex, Juan ou Winck??? O que estão fazendo no Beira-Rio???
A torcida jamais quis Cirino. Mas nossa diretoria passou seis meses negociando, o cara chegou e foi titular na hora, mesmo sem jogar nada.
Barrios chega ao Grêmio como maior reforço da temporada e vai para o banco até mostrar merecimento para ser titular.
Jogador chega no Inter — titular mesmo jogando nada.
O jogo de sábado foi vagabundérrimo, sem chances de gols ou lances de emoção. Um horror num campo ruim. Vejam se vocês aguentam ver até o final desses três enormes minutos.
Na terça-feira (20), às 21h30, o Inter pega o Paraná. É para pontuar para entrar no G-4 ou ver a crise crescer.