Memória, de Carlos Drummond de Andrade

Memória, de Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

CARLOS+DRUMMOND+DE+ANDRADE

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Manhã

Manhã

É muito bom dormir carinhosamente, acordar cedo, lavar o rosto, sentar na cozinha, observar o gato circular e pedir comida, enquanto se toma café sem leite na cozinha, ouvindo Arthur Grumiaux tocar as sonatas para violino solo de Bach e se vê pela janela que, provavelmente, em algum momento, choverá hoje. Depois de mais carinhos, chegamos ao trabalho, acertamos as primeiras colunas e manchetes do dia, repassamos e cumprimos algumas ordem recebidas e concluímos que ainda nada aconteceu de maior que a cólica da estagiária. Mas que há de se recuperar.

Voltando no tempo, lembro que faço questão de lavar a louça do café, assim como não dou a menor importância à arrumação da cama. Uma cama desarrumada me é mais convidativa que uma toda lisa e abotoada. Até me irrita ver uma cama com tudo no lugar, parece que o cheiro de dormir vai embora assim que se estendem os lençóis.

No trabalho, entro no Facebook e curto a página de Mario Benedetti. Então, o robô do Facebook me propõe curtir a de Jean-Claude van Damme. Isto me tira das brumas matinais.

Claro, a Feira do Livro de Porto Alegre será a mesmice de sempre, porém, dentre as presenças internacionais, haverá duas para as quais me curvo sem restrições. São as do português Francisco José Viegas e do alemão Ingo Schulze. A nominata dos outros estrangeiros não me impressionou. Espero que fechem logo a programação nacional para que eu possa me agendar com antecedência.

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Dia do Professor

teacher-on-a-white-background-vectorNão adianta, eu sempre odiei meus professores. Admiro o sujeito que abraça esta profissão tão difícil e mal paga, mas… Hoje, muita gente lembrou saudosamente de seus melhores mestres. Alguns citaram seis, sete, dez, vinte nomes. Eu não tenho quase nenhum para lembrar, detestei a maioria deles, sempre me pareceram um bando neurótico de pequenas autoridades. Gostava mais daqueles que exerciam a profissão como cômicos, mas eles sempre foram muito impessoais para serem amados.

Tenho apenas duas admirações, uma incondicional, outra com muitas e justificadas restrições. A admiração vai para a Sarinha, minha professora de português no primeiro ano do segundo grau no Colégio Júlio de Castilhos. Ela me inoculou a literatura. Eu não lia durante a infância, só jogava bola. A Sarinha fez tudo com grande economia de meios, chegou ao ponto muito rapidamente. Ela viu como eu — péssimo aluno de boas notas — detestava sentir o poder que ela tinha sobre mim e me disse: “Leia dois livros por mês, de minha escolha”. A cada quinze dias, eu vou te fazer um questionário verbal e tu não precisas assistir as aulas. Te dou a nota pelas respostas que tu me deres”. E indicou o primeiro livro, O Continente, de Erico Verissimo. Eu enlouqueci e li o que ela pedira e mais a continuação, O Retrato. Ela me perguntou tudo sobre O Continente e saí com nota dez. Pedi para que o próximo questionário fosse sobre O Arquipélago, continuação de O Retrato. Nova nota dez. Assistir aulas sempre foi um tormento para mim e a Sarinha me abriu as portas do paraíso.

E assim eu passei o ano inteiro lendo livros para a esperta Sarinha, uma professora de olhos azuis e 1,50m de altura. Passei a idolatrá-la. Ela tinha uma irmã que era professora de inglês de nossa turma, uma jararaca. Voltando à Sarinha, o terceiro livro foi Laranja Mecânica, depois veio Manuel Bandeira, Dostoiévski e Guimarães Rosa, meu maior espanto. Era 1974, um ano feliz. Foi o ano em que conheci a Maria Cristina, a menina com quem depois dividi minha primeira experiência sexual. Dizíamos rindo um para o outro: “Vamos praticar bastante e aprender juntos”.

De meu outro mestre-exemplo não declino o nome. Estava na universidade e o cara apoiava o Golpe de 64. Era muito inteligente, muito capaz, tinha farta biografia de realizações, mas era minuciosamente maquiavélico. Por isso era todo aquele sucesso acadêmico. Construíra prédios na UFRGS, fundara departamentos. Devia ter esmagado dezenas de inimigos políticos. Prometia coisas e descumpria: “O que não foi escrito não foi dito”, respondia para nós, os idiotas. Aprendi com ele que se deve esperar pelo pior das pessoas para não haver decepções. Foi algo muito instrutivo. Mesmo assim, sou bondoso e otimista com as pessoas como um cãozinho labrador. Apenas não me surpreendo quando vejo certas mudanças de comportamento. Este professor foi fundamental no meu conhecimento da natureza humana. Seus ensinamentos foram preciosos e não me abandonaram até hoje, 37 anos depois.

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Pena do rival no Dia da Criança

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E tinha pouca gente para ver James Strauss…

E tinha pouca gente para ver James Strauss…

Eu estava cansado após um dia complicado de trabalho, mas não me arrependi de ir e achei um verdadeiro crime a pouca presença de público para assistir ao belíssimo recital de música francesa do flautista James Strauss, acompanhado pela pianista Priscila Malanski e pelo soprano Luciana Kiefer.

Quem não foi ao StudioClio na última quinta-feira, perdeu um flautista que demonstrou vivência, conforto e senso de estilo dentro de um programa fascinante e extremamente difícil. E, olha, não foi coisa pouca, ele tocou por 90 minutos, sem intervalos. Ou seja, o cara não cansa… A flauta que ele utilizou foi a mesma — exatamente a mesma e histórica — usada na estreia Prélude à l’après-midi d’un faune, de Claude Debussy, uma das peças do programa.

A sonoridade de Strauss — sempre adequada e temperada de impressionismo — é a de um artista em pleno domínio de seus meios. Aliás, sua sonoridade parece ter melhorado ainda mais à medida que o recital se desenvolvia. Prova de que ele ficou entusiasmado, apesar dos poucos gatos pingados que o assistiam. A boa acústica do StudioClio também ajuda, mas o fato é que o cara toca demais.

Deixo anotado abaixo o programa, para não esquecer:

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Saint-Saëns: Une flûte invisible
Fauré: Fantaisie for Flute and Piano, Op. 79
Fauré: Morceau de concours for Flute and Piano in F major
Debussy: Syrinx
Debussy: Prélude à l’après-midi d’un faune
Roussel: Joueurs de flûte, Op. 27
Mouquet: Sonata for Flute and Piano, Op. 15 “La flute de Pan”
Donjon: Pastorales
Doyen: Poemes Grecs (1905)
Caplet: Viens! Une Flûte Invisible

Com:
James Strauss (flauta)
Luciana Kiefer (soprano)
Priscila Malanski (piano)

P.S. Ao final, fomos ao Via Imperatore, ali na República…

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Ah, e amanhã, domingo, tem mais, agora com a música de Dimitri Cerco e Philip Glass:

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Porque hoje é sábado

Porque hoje é sábado

As fotos a seguir são do norte-americano nascido em Taiwan Hilo Chen.

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Só tem um detalhe: não são fotos, são pinturas.

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Mas apenas em algumas imagens a sensação de irrealidade fica mais alta.

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Me digam qual é a diferença de olharmos uma mulher real ou um desenho?

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Pensemos, por exemplo, em Charlize Theron.

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Você, um de meus sete leitores, jamais terá Theron — então …

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… qual é a diferença entre vê-la em fotos ou ver um desenho dela?

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Ah, ela tem trabalhos admirados por nós e uma biografia?

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Sim, mas o que nos interessa nestas noites de sexta-feira …

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… é seu trabalho photoshopado para a Playboy em maio de 1999, não?

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E ali, o que é Charlize e o que é ficção? O que há de realmente apalpável nela?

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Sei lá, mas fiquei bem interessado no conceito dos trabalhinhos do …

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… certamente perecível Chen.

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Agora, de garantido mesmo, é que a foto abaixo …

Charlize Theron

… é pura Charlize. E basta para ser irresistível.

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Sobre o SC Internacional: Andreas Müller já escreveu, não preciso repisar

Sobre o SC Internacional: Andreas Müller já escreveu, não preciso repisar

INTER_DistintivoPor Andreas Müller

O pior não são as derrotas. Não é a distância do G4 e nem a proximidade do Z4. O pior tampouco é esse time esgotado, nem a incapacidade do clube de ajustá-lo. Não é a dança aparentemente aleatória de técnicos a escalações. Não é mais um ano jogado fora.

O pior, amigos, é a falta de esperança.

Pois esse Inter não nos permite esperar nada. Não dá chance ao menor otimismo. O Inter está desacordado e jogado na sarjeta, carcaça inerte, enquanto uma pequena multidão o cerca esperando por um espasmo, um mexer de órbitas, um sinal mínimo de vida. Que não vem.

O Inter está em oitavo lugar. Mas vive uma crise anímica de lanterna. Porque não dá esperança de nada. A ninguém. O torcedor colorado abre o jornal e vai à tabela do campeonato tentando garimpar pontos nas próximas rodadas. Contra o Náutico? Quem sabe contra o Santos? Ou contra o Grêmio, na imprevisibilidade do clássico? Mas o torcedor não pode esperar nada de nada, nem dos jogos mais fáceis, e fecha o jornal com um nó no estômago, sentindo-se à deriva. Como se só a sorte pudesse lhe trazer um momento de alegria.

O Inter agora procura um novo técnico. E nem isso serve de esperança. Não há, no mundo inteiro, um único nome que inspire o sentimento clássico do colorado da gema – o sentimento de “agora vai”. Porque, no fundo, já está claro que o problema não é o nome do técnico. É algo maior. Anímico, quase espiritual. O que aflige o Inter é uma lassidão, um torpor atordoante. Olhamos para o Inter e o Inter não está lá. Porque falta esperança e, sobretudo, um motivo para tê-la.

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Cena de Fahrenheit 451 (1966), clássico de François Truffaut

Cena de Fahrenheit 451 (1966), clássico de François Truffaut

Com Julie Christie e Oskar Werner. Baseado no romance homônimo de Ray Bradbury (1920-2012) que apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Montag (Werner), trabalha como “bombeiro” (o que na história significa “incendiário de livros”). O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius.

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Fonte das imagens: o blog O homem que sabia demasiado.

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E o Nobel de Literatura de 2013 vai para Alice Munro

E o Nobel de Literatura de 2013 vai para Alice Munro

Alice Munro Nobel

A canadense Alice Munro ganhou o Nobel de Literatura de 2013. Desde 1976, quando o laureado foi Saul Bellow, que um prêmio não me dava tanta satisfação. É raro ficarmos satisfeitos com as escolhas da Academia Sueca. Brodsky (1987) e Seamus Heaney (1995) foram duas boas excepções, mas houve anos de absoluto nonsense: 1989 (Cela), 1992 (Walcott), 1997 (Fo) e 2004 (Jelinek).

Contista admirável, Alice Munro nunca escreveu romances. Estão publicados em Portugal, pela Relógio d’Água, seis dos catorze livros que publicou entre 1968 e 2012. (Cinco estão traduzidos pelo poeta José Miguel Silva; um por Margarida Vale de Gato.) Aos 82 anos, depois de anunciar que se retirava da literatura, o prêmio representa o triunfo do storytelling.

Do blog Da Literatura

P.S. de Milton Ribeiro — No Brasil, a Companhia das Letras lançou O Amor de uma Boa Mulher, Fugitiva e Felicidade Demais, creio. E a Globo lançou Ódio, amizade, namoro, amor, casamento. E acho que é só.

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Asco, de Horacio Castellanos Moya

Asco, de Horacio Castellanos Moya

AscoNão entendi porque o volume da Rocco não traz o nome completo da excelente novela de Horacio Castellanos Moya, El Asco — Thomas Bernhard en San Salvador, nem ao mesmo O Asco, mas apenas Asco (Ed. Rocco, 111 páginas). Porém, deixando de lado as opções editoriais, a curiosa novela de Moya merece leitura atenta.

Curiosa por ser uma clara imitação de Thomas Bernhard — em estilo, estrutura e temática –, curiosa por Moya confessar isto no título, curiosa por ele ter repassado todo o ódio de Bernhard, aos austríacos em geral e aos habitantes de Salzburgo em especial, para um local do terceiro mundo, a cidade de San Salvador, capital de El Salvador.

Para quem não conhece Bernhard é bom explicar: seus livros são escritos em longos parágrafos — normalmente apenas um –, suas longas frases são fáceis de ler em razão das repetições e variações cuidadosamente realizadas e nelas o escritor destila ódio por páginas e páginas, chegando a tal paroxismo e descontrole que às vezes torna-se engraçado. Também não recua frente ao politicamente incorreto.

Moya foca seu relato no salvadorenho naturalizado canadense Vega, um acadêmico que retorna ao país para o enterro da mãe. Enquanto aguarda os papéis do inventário, Vega descreve suas impressões sobre o país e seus parentes, odiando tudo minuciosamente, mas minuciosamente MESMO. A invenção de Bernhard, aqui tropicalizada, funciona perfeitamente, tanto que o autor sofreu ameaças e preferiu passar bom tempo fora do país. Livrinho fascinante com ótima tradução de Antônio Xerxenesky.

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Ospa com programa jazzístico, poético e zombeteiro

Ospa com programa jazzístico, poético e zombeteiro
Cristina Capparelli mandou bem e sobreviveu
Cristina Capparelli mandou bem e sobreviveu ao concerto que “matou” Gershwin

Com o tempo, a gente vai aprendendo. Os concertos regidos por Manfredo Schmiedt obedecem à seguinte lei de formação: são bem trabalhados, minuciosos, seguros, além de ousados e equilibrados. Não foi diferente ontem. A Ospa rendeu muito frente a boa parte da comunidade musical de Porto Alegre, lá presente para saudar a pianista Cristina Capparelli, solista do Concerto em Fá, de George Gershwin.

O programa começou com Evocação de Augusto Meyer, peça do crasso porto-alegrense Armando Albuquerque, amigo de Meyer, o bom poeta e melhor ensaísta que colocou o mulato Machado de Assis no lugar onde está merecidamente até hoje, ou seja, no Olimpo das letras nacionais. Albuquerque é grande compositor. Tenho seus discos Mosso e Uma ideia de café — títulos sujeitos às flutuações de uma memória vagabunda — e afirmo que são boníssimos. Evocação é um peça curta e muito interessante, com a surpresa de vermos o pianista André Carrara arranhando bastante bem um acordeon durante um solo com a percussão. O diálogo poético entre Meyer e Albuquerque foi um início promissor de concerto.

Não tem problema, ele sabia disso. O norte-americano George Gershwin tinha uma cultura musical limitada, mas era um imenso melodista. Escreveu centenas de canções, sendo uma espécie de Schubert com seus mais de 500 lieder negros. Certo preconceito dos representantes da alta cultura de sua época hesitava em considerá-lo “erudito”. Não foi o caso do grande Maurice Ravel, admirador da música e da fortuna de Gershwin. Há muitas piadas a respeito. Ora, o Concerto em Fá é bem conhecido. Foi uma encomenda da Filarmônica de Nova Iorque, estreada pelo próprio compositor ao piano em 3 de dezembro de 1925 no Carnegie Hall em Nova Iorque. O curioso é que, em fevereiro de 1937, Gershwin tocava o Concerto Em Fá com a Filarmônica de Los Angeles quando sofreu um desmaio. Levado ao hospital, recebeu o diagnóstico de tumor cerebral. Morreu cinco meses depois, aos 39 anos, no auge.

Porém, Cristina Capparelli saiu caminhando após o concerto — não foi necessária a intervenção dos maqueiros — e espero que esteja tão bem quanto esteve como solista. Excelente interpretação do concerto de Gershwin. Gostei muito de todos na interpretação do segundo movimento (Adagio — Andante com moto). Os sopros soaram tristes, dignos de uma big band de Duke Ellington, com destaque para o trompetista Tiago Linck, secundados pelo trio de clarinete, flauta e trompa, pilotados por Augusto Maurer, Klaus Volkmann e Israel Oliveira.

A diversão da noite veio por conta de Jacques Ibert e seu Divertissement. Raros “Divertimentos” são tão alegres e zombeteiros quanto este. Para orquestra reduzida, tem início agitado e atlético ao estilo do melhor Hindemith, boa escrita para sopros — e os atuais sopros da Ospa sempre respondem bem às demandas mais complicadas –, citações da Marcha Nupcial, a tangos e tem no coração uma incrível valsinha, bem burlesca, além de um solo anárquico, talvez inspirado no Bloco de Lutas, a cargo de André Carrara. Mais um show dos sopros numa música tão boa e feliz que nem parece francesa.

A Sinfonietta Prima de Ernani Aguiar, finalizou com dignidade o belíssimo programa. Depois de um severo primeiro movimento, temos um lastimoso Lento assai, seguido de uma magoada Marcha-rancho que vai desembocar num Finale daqueles que parecem formar uma mola nas cadeiras de parte da plateia, o que leva algumas pessoas a imediatamente erguerem-se e aplaudirem. E foi feito para isso mesmo.

Então, quem foi à Reitoria da Ufrgs não se arrependeu.

O célebre gaiteiro André Carrara -- pão de queijo e carne de sol.
O célebre gaiteiro André Carrara — pão de queijo e carne de sol | Foto: Augusto Maurer

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Tempos Fraturados, de Eric Hobsbawm

Tempos Fraturados, de Eric Hobsbawm

Tempos Fraturados de Eric HobsbawmExcelente e boêmio livro do grande Hobsbawm, falecido em 2012. Trata-se de 22 ensaios curtos sobre a cultura, a política e a sociedade do século XX. Muitos deles originaram-se de conferências ministradas pelo veterano Hobs – nascido em 1917 – para os mais diversos eventos. Cada um deles poderia ser expandido para formar um volume separado. Há desde análise sobre o papel do caubói na cultura americana e considerações sobre a moda até considerações fundamentais sobre a boliolice (palavra minha) do intelectual público moderno, sobre os guetos onde a grande música e grande literatura foram se esconder e sobre a situação das religiões no mundo. No último caso, as religiões são tratadas como devem ser: como forças políticas.

É difícil escrever uma resenha sobre um livro que trata de 22 temas, mesmo que estes estejam agrupados em 5 seções. Melhor citar o brilhantismo da prosa e das argumentações do mestre. Então, coloco abaixo os títulos de cada um dos ensaios a fim de que cada membro de meu septeto ledor possa avaliar o potencial de interesse que teria Tempos Fraturados (Cia. das Letras, 358 pág, tradução de Berilo Vargas). Depois, como test drive, coloco um trecho de A perspectiva da religião pública.  Pura isca para o debate.

As divisões e ensaios do livro:

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Propaganda italiana do Viagra

Propaganda italiana do Viagra

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Bom dia, Dunga

Bom dia, Dunga
Pois é, acho que serei demitido!
Diga isso logo, Dunga: “Pois é, acho que está na hora de sair!”

Meu caro quase ex-treinador do Inter, sabe o que acabo de ouvir, dito pelo Iuri Müller? “Quinta-feira esclarecedora: agora, o Inter já sabe o campeonato que disputa — o da luta contra o rebaixamento”. Ele tem razão.

Me orgulho de ter tido um chilique — na verdade, quase uma convulsão — quando o Luigi foi reeleito. A culpa da situação é dos conselheiros que evitaram a eleição pelos sócios no final do ano passado. E, secundariamente, tua e do bobão do nosso presidente.

E o time? O time está uma bagunça, né Dunga? Os jogadores não te suportam mais. O Damião só quer fazer lambretas e jogadas de estilo. O vestiário está te queimando, Dunga. Simples assim. Só não vê quem não quer. Acho que só o Dale e alguns veteranos estão do teu lado, o resto…

Acabo de receber o seguinte e-mail:

Vitórias sobre Náutico e Ponte Preta = 6 Pontos.
Empates contra Coritiba e São Paulo = 2 Pontos.
Ficaríamos com 42 pontos. Será que chega pra fugir do rebaixamento?
Se precisar mais, tiraremos de qual adversário?
Já estou começando a me preocupar!

É bom lembrar que o Náutico começou a ganhar alguns jogos…

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Coisas que o Bernardo esquece num reles pen drive

Coisas que o Bernardo esquece num reles pen drive

Sei, fotógrafos tiram muitas fotografias. Então, eu olho o conteúdo de um velho pen drive e encontro uma série de ótimas fotos do meu filho Bernardo Jardim Ribeiro, todas do Lado B do Centro de Porto Alegre.

Há mais, sobre outros temas, mostro pra vocês qualquer dia desses.

Para vê-las em tamanho maior, basta clicar sobre cada uma delas.

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Só para porto-alegrenses: quem quer o livro ‘Está ficando tarde demais’, de Antonio Tabucchi?

Só para porto-alegrenses: quem quer o livro ‘Está ficando tarde demais’, de Antonio Tabucchi?

Esta ficando tarde demais tabucchiSe alguém quiser o livro Está ficando tarde demais, de Antonio Tabucchi, tenho um exemplar SOBRANDO aqui comigo no centro de Porto Alegre. Se alguém quiser vir buscar ou mandar buscar, é um interessante romance. O primeiro que disser nos comentários do blog “Quero, vou buscar”, ganhou, OK? Só não desejo enviar pelo correio e outras chatices, certo? O exemplar está zero quilômetro, é que tenho outro em casa.

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Maria Luiza & Milton (meu pai)

Maria Luiza & Milton (meu pai)

Abaixo, minha mãe, Maria Luiza, aos 21 anos. A foto é de 7 de março de 1949.

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No verso da foto, meu pai escreveu de forma bem portuguesa, cheia de diminutivos carinhosos: “Está ou não está um verdadeiro amorzinho a minha Luizinha neste fotografia?”.

Milton - 2

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A interpretação iconográfica de Francisco Marshall sobre o quadro referido no post anterior

A interpretação iconográfica de Francisco Marshall sobre o quadro referido no post anterior

Obrigado, Chico. Ficou sensacional!
Obrigado, Chico. Ficou sensacional!

Neste post, lancei um desafio ao amigo e professor Francisco Marshall: o de analisar o significado do mural presente na sala do café da manhã do Itaimbé Palace Hotel. O resultado foi espantoso. Como disse a grande artista plástica Maria Tomaselli, “a análise foi um elixir de divertimento, raramente uma obra recebeu tão extensiva e explícita descrição e análise”. E completou zombeteiramente: “tô com inveja”. O detalhe é que o Marshall topou o desafio com o maior bom humor, respondendo muito rapidamente, ontem à noite, enquanto se recupera de uma pneumonia. Com vocês, Francisco Marshall: (ah, melhoras, meu amigo!)

Mais um ah: As fotos acompanham vagamente as partes que vão sendo analisadas.

Costumo dizer em minhas aulas de Iconografia e iconologia ou de História da arte que nos interessa a tartaruga em cima da árvore. Tartaruga não sobe em árvore, se está lá, é porque alguém a colocou intencionalmente. É a diferença entre interpretar Botticelli, Tarkovsky, Taviani, Van Damme, Stallone ou Bruce Willis, embora aquele Maverick vermelho possa ter imenso valor simbólico para algum marmanjo na plateia, sobretudo quando explode e este chora. De modo geral, a interpretação faz sentido conforme a intensidade e a qualidade de sua determinação autoral, e há casos em que a interpretação é ridícula exatamente por atribuir significados onde predomina o acaso. Nos painéis do Hotel Itaimbé, trata-se de arte kitsch, comum no interior do Brasil e do mundo, onde se fundem elementos ingênuos com referências da tradição, alguma narrativa e certas pretensões. São interpretáveis, mas temos que considerar alguma fragilidade no sistema, e dar descontos para eventuais inconsistências, ou, pior, para a simplicidade das conclusões.

Este painel tem sentido esquerda-direita e três momentos. Principia de um mundo noturno de silhuetas ferozes, alusivo à rusticidade guerreira dos ancestrais mithistóricos do gaúcho. Das lanças, destaca-se pelo brilho a parte que se assemelha a uma cruz, o que pode ter sido uma solução engenhosa para referir, de passagem, as missões jesuíticas e o papel da igreja na violência colonial. Lanceiros, cavalos, capas, cão: está claríssima a parte escura da obra.

Só faltou ao “fotógrafo” Milton Ribeiro registrar ou publicar a assinatura de quem cometeu a obra, assinada no canto superior esquerdo.

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A parte central é precedida por aurora, junto à figueira. Diante da aurora, a primeira figura é uma jovem nua sobre uma bicicleta com a direção voltada no sentido final da obra. A bicicleta substitui os cavalos, e combina com a graça jovial buscada nesta composição, a qual pode evocar, em alguns espectadores, associações com as Graças (Charites) em geral e com as de Botticelli em particular, mas não vejo relações muito fortes, exceto as que se notam entre o fotógrafo e uma cálida figura tridimensional que ultrapassa minhas capacidades hermenêuticas. A ciclista branca de negras melenas é abraçada por moça ruiva, em um precioso nu frontal. Sempre que ocorre, este tipo de nu é sinal de liberdade e ousadia. As moças desta parte do painel, ninfas, têm cabelos esvoaçantes, que notam que o(a) autor(a) nada sabe de ventos, preferiu movimentos uniformes que acentuariam coreografia, todavia inexistente. A ruiva está com os dois pés no chão e os cabelos voam, tipo do detalhe que consagra a natureza kitsch de uma obra (desculpem, não é pernosticismo: kitsch é um dialeto bem conhecido). A terceira moça do grupo está em destaque, evolui no sentido final (telos) da obra, e conduz guirlanda floral, evocando um pouco (ok, conceda-se Botticelli, com ressalvas) o mundo da ninfa Flora, a Chloris que raptada por Zéfiro virou Flora, descrita no Fasto de 2 de maio de Ovídio (primavera). As primeiras flores são margaridas amarelas, depois, rosinhas de jardim, mas que importa? A parte enigmática está na figura feminina aérea, com os pés na área noturna e a cabeça, com cabelos curtos (?) próxima da face da terceira moça terrestre (ninfa?), como se a soprasse, mas não se nota vento. Ainda na parte aérea, há, após a ninfa floral e intermediando a terceira parte do painel, um putto com um balde do qual derrama-se (aparentemente) água. Não é Eros, pois este teria algum sinal, arco, flecha, carcás, labareda para cima, abelhas, algo assim, mas só tem este balde, que define um novo território, pois suas águas vertem como base da terceira cena. De um modo geral, o painel central permutou a violência histórica por certa graça e vitalidade, em grande contraste.

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Quanto ao violinista, que aparece ao fundo, entre ninfa ruiva e flora loira, pode evocar a fantasia de Chagall (não creio, faltam mais elementos – e sobretudo talento – para se ver esta relação) ou o filme “Um violinista no telhado”, de 1971, cujo poster usava figura muito similar a esta. No caso, pode apontar um terminus post quem (datação mais antiga) para o painel, em 1971, e também uma interferência anedótica, uma concessão do(a) pintor(a) a alguém do entorno, comissionador, amante, amigo(a), mãe, ou o fascínio do(a) autor(a) com o filme, aliás muito bonito mesmo. Fora isto, parece ter como função, no movimento da obra, oferecer uma música mágica para a ninfa Flora que evolui.

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A terceira parte reapresenta as “ninfas”. A ciclista, medianeira, está voltada para a cena central, desta feita sem bici, mas ainda nua e sentada; seus cabelos negros escorrem em simetria com as águas que jorram do balde acima. Parece banhar-se; é um nú um tanto mal desenhado… mas não destoa (!). Logo atrás dela, reverberando o contraste que a mesma figura enfrenta na cena anterior, um cão muito doméstico (e desagradável, estes malditos pequineses) tendo ao fundo silhueta de metrópole com arranha-céus; nisto se transformaram um bravo mastim campeiro e lanças heroicas. Notem que os topos dos arranha-céus têm cruzes, como as lanças.

Há frutas na parte superior do painel, uvas e folhas que começam a secar. As outras duas ninfas estão a seguir, alinhadas, seguindo uma escala decadente, e uma delas a loira, final, tem na mão direita uma maçã, símbolo cristão que aqui conota decadência. Elas se cobrem progressivamente, e são sucedidas, no plano visual, por uma figura masculina encapuzada com um manto, aparentemente verde, e traços fisionômicos que indicam um retrato, um homem jovem, de cabelos negros, bigode e cavanhaque. Aposto que é o artista. Ele tem atrás de si sinais outonais (folhas secas, tronco seco) e o retorno da noite. Esta parte a fotografia não cobriu suficientemente. Encerra-se aqui a descrição iconográfica com alguma análise formal.

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Algumas conclusões:
1. O painel apresenta as estações como alegoria do ciclo do tempo, passando do inverno à primavera, verão e outono, e associadas ao desenvolvimento histórico, passando da guerra à paz, o florescimento, o acúmulo nas cidades e a decadência, na qual ainda cabe um olhar retrospectivo (do artista), místico.
2. Colocar muita roupa é sinal de decadência: de acordo.
3. Colocar qualquer roupa, ora.
4. O Milton me deve um Vinho. Note-se o V maiúsculo.
5. …feita a descrição iconográfica, fica mais fácil (se possível…) viajar, fiquem à vontade, eu cansei!

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O espantoso mural do Hotel Itaimbé de Santa Maria

O espantoso mural do Hotel Itaimbé de Santa Maria

Tudo foi perfeito na festa de aniversário da Nikelen Witter, em Santa Maria, para onde fomos no fim-de-semana. Boas conversas, gentilezas e nem vou entrar nos temas gastronômicos. Acho que basta dizer que ganhei 1,3 Kg em dois dias.

Mas houve um momento de choque. Foi quando entramos para tomar o café da manhã no Hotel Itaimbé ou, de forma mais real e pernóstica, no Itaimbé Palace Hotel. A primeira coisa que vimos foi um enorme mural com ninfas de Botticelli tão bombadas quanto as nadadoras da ex-Alemanha Oriental. Uma delas, talvez a famosa Kornelia Ender, curiosamente pilotava uma bicicleta.

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Devido aos faltos trajes da moça, pensei no papel que o selim pudesse ter, mas deixa pra lá. Rindo muito, a querida Elena Romanov quis sentar de costas para a telona. Mas este fotógrafo não perdoou e registrou o fato com alegria. Vejam a moldura, a beleza botticeliana de minha fotografia.

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E estava se divertindo à beça com as bobagens que eu dizia. Elena é violinista e, casualmente, aparecia um de cartola, bem a seu lado.

DSC00232Porém, quando a avisei do moço que tocava de cartola sobre seu ombro esquerdo, a expressão que ela apresentou não foi assim tão feliz.

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James Joyce, 1938

James Joyce, 1938

Fotografia tirada em 1938, por Gisèle Freund, mostrando James Joyce e seu neto em Paris.

James Joyce 1938

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