O inverno do nosso descontentamento
Shakespeare, Ricardo III
O inverno de meu descontentamento começou uns dias antes de 21 de junho e logo transformou-se em inferno.
Tive nas minhas mãos cada um dos ingredientes para iniciar uma das épocas mais podres de minha vida, com direito a ser testemunha da organização de uma espécie de fracasso público bastante injusto. Fiz bem em me recolher e então comecei a ter um dos maiores delírios de imodéstia de minha vida. Decidi que, desta vez, eu quereria o que efetivamente desejava, que eu tinha o direito de tentar converter em atingível o inatingível, de tornar a aventura ventura. Passei a olhar para o alto. E caminhei ao encontro daquela mulher cheia de modos, que parecia sempre chegar pelo ar; aquela muito linda, de belas expressões e frases cheias de reticências; aquela que me causava espanto ao explicar sempre melhor o que eu dizia, a que me ensinava a não imaginar tanto e considerar que dois e dois podiam resultar em, simplesmente, quatro; aquela que me disse que eu sabia ouvir e fazer-me ouvir e que narrava histórias tristes a seu respeito.
É preciso ter paciência para conhecer qualquer história, senão bastaria contar o início e o fim delas, sempre muito parecidos. Estamos nas preliminares de uma. Hoje, o que tenho a dizer é que a primavera de meu contentamento começou uns dias antes de 22 de setembro.
Parece uma história inventada por Jack London, só que é verídica. Sabendo de minha admiração, o Augusto Maurer me passou o link do filme abaixo a respeito do Endurance. Há também o livro de Caroline Alexander que, para lá de ser uma excelente narrativa, traz as fotos de Frank Hurley em todo o seu esplendor, como pode ser visto em parte no link acima. O irlandês Shackleton perdeu a corrida ao local do Polo Sul para Amundsen, mas sua jornada e competência em salvar todos os seus homens é fascinante. Certo, toda esta admiração pode ser “coisa de menino”, mas como e para que matá-lo em nós?
Era a mais bela capa para o Sul21. Na época, o lay-out de nossa página tinha uma foto grande e a capa do jornal ficara assim por alguns minutos:
Só que, justo naquele domingo, houve a tragédia na boate Kiss e tivemos que mudar tudo. Abaixo, o extraordinário artigo de Nikelen Witter sobre um dos melhores livros de todos os tempos.
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A página inicial da primeira edição de 1813. Ironia desde o princípio: “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa”. (Clique para ampliar).
No final do século XVIII, uma jovem inglesa escreveu um romance. Não era algo incomum em sua época, nem era seu primeiro texto de ficção. Como era de costume, ela fez leituras para sua família que, depois de alguns debates, parece tê-lo aprovado. Sua intenção, inicialmente, era a de fazer um romance epistolar, algo muito em voga no período, mas as cartas minguaram dentro do texto, mesclando-se com a narrativa. O pai da jovem, acreditando no talento da filha mais nova, levou o manuscrito a um editor, que recusou a história. Este poderia ter sido o fim de First Impressions, título do romance recusado, mas, como qualquer escritor sabe: a primeira versão de um livro nunca é sua versão final. A jovem aspirante voltou a trabalhar seu texto, ao mesmo tempo em que escrevia outros. Em 1811, ela publicou seu primeiro romance e, aproveitando o sucesso deste, no dia 28 de janeiro de 1813, há 200 anos atrás, finalmente o texto anteriormente recusado chegou ao público. Tinha um roteiro melhor trabalhado, um texto mais perspicaz e um novo título: Pride and prejudice ou, em nosso idioma, Orgulho e preconceito. Nascia, assim, o romance mais popular de Jane Austen – uma das mais brilhantes escritoras inglesas – e, com ele, uma notoriedade que já perdura por duzentos anos.
Jane Austen: uma moça simples e, curiosamente, muito letrada
A autora
Quem nunca leu nada de Jane Austen pode acabar tendo uma ideia errada de seus leitores-amantes, vendo-os como cegos seguidores de um certo tipo de culto, que elegeu a autora inglesa como musa e deusa. A quantidade (e o tipo) de menções na mídia à escritora, por outro lado, pode fazer com alguns venham a imaginá-la como uma espécie de Norah Efron (**) da virada do século XVIII para o XIX. De fato, já conheci leitores que interpretaram seus livros superficialmente, como quem lê um roteiro hollywoodiano, acreditando que seus romances não passam um conjunto bem amarrado dos clichês do tipo moça encontra rapaz e vice-versa. E, desde sempre, houve aqueles que a acreditaram como autora de livros tipicamente femininos, contos conservadores para “mulherzinhas” sonhadoras. Contudo, nada poderia ser mais enganoso. Primeiro, porque nenhum fã de Austen deixará de lhe fazer críticas na mesma medida em que reconhece sua genialidade. Segundo, porque se as comédias românticas beberam em Austen, fique-se certo que ela nunca bebeu delas. Por fim, dispensar um grande escritor com base num conceito duvidoso de literatura de meninos e meninas, diz mais sobre o leitor do que sobre o livro em questão, então, melhor deixar pra lá.
Keira Knightley e Matthew MacFadyen: A adaptação mais famosa: a de Joe Wright, realizada em 2005
O fato é que Jane Austen continua, após dois séculos de existência de sua obra, um fenômeno tanto de crítica, quanto de público. O número impressionante de adaptações pelas quais seus livros são lembrados e recriados, porém, não é o suficiente para que se compreenda como inglesa de vida obscura tem conseguido manter tanta vitalidade. Arrisco a dizer que, para entender o fenômeno Jane Austen é preciso lê-la e, se me permitem, fazer isso mais de uma vez. O gênio de Austen é o de fazer muito com o mínimo. E tal talento exige um leitor capaz de divertir-se como quem observa pessoas pelos buracos das fechaduras, entendendo-as mais pelo que fazem e dizem, do que por longas apresentações retóricas sobre quem realmente são. Os livros da Jane Austen são como pinturas delicadas, dadas como um presente aos observadores atentos. Sem “efeitos bombásticos” (usando as palavras de Sir Walter Scott, seu grande admirador), Austen dominava como ninguém a arte de representar o cotidiano em suas grandezas e misérias, em sua beleza e mediocridade. O resultado é um espelho atemporal das relações humanas que ultrapassam em muito as relações amorosas entre homens e mulheres. Em Austen, o minúsculo da existência aparece como um caminho que, em qualquer época ou lugar, pode refletir o que somos e onde estamos. Sobretudo, o fato de que, na grande maioria das vezes, não conseguimos estar onde gostaríamos, apesar de nossas melhores intenções.
Elizabeth (Keira Knightley) e seu pai (Donald Sutherland): raro entendimento
Austen escrevia sobre pessoas e sobre gerações. Falava dos mais velhos acomodados a suas manias, controles, posições e fracassos. E escolhia como protagonistas jovens que precisavam abrir caminho ante tudo isso. Destes jovens, ela se ocupou mais das mulheres, criaturas sem qualquer poder ou destinação que não o casamento; muitas vezes, prisioneiras da ignorância, da vida sem perspectiva ou ilusões, assombradas pela decrepitude física (decretada antes dos 30 anos) e pela ruína econômica. Jane Austen colocava o amor como uma questão importante, mas o via por meio de um caleidoscópio, pois ninguém ama ou é amado solitariamente. O difícil relacionamento amoroso com a família na fase adulta é, para a autora, um tema tão forte quanto à busca de um amor companheiro para construir um novo núcleo familiar.
Porém, ledo engano dos que, sem a terem lido, imaginam-na como uma autora sentimental. Se bem que Mark Twain, que detestava seus livros – especialmente Orgulho e Preconceito –, talvez acreditasse nisso. Já Charlotte Brönte, autora de Jane Eyre, a acusava de ser fria, de não ter fogo ou paixão e classificava seus romances como insípidos. Minha leitura de Jane Austen a percebe como uma racionalista, até mesmo um tanto radical em seus termos. Isso é claro em Razão e sensibilidade e não menos em Orgulho e Preconceito. Os muito românticos podem ficar chocados, mas Jane Austen parece defender a ideia de que o amor é, antes de tudo, uma mistura de desejo, afeto e discernimento. A receita para o desastre está na falta de qualquer um destes. Claro que não se há de ler nenhuma declaração de amor em seus livros como a que Edward Rochester faz a Jane Eyre, porém, para Austen, o amor, mais que por palavras, é demonstrado por ações que nada exigem em troca. Numa sociedade tão apegada ao jogo de favores e cortesias, nada poderia ser maior que o desinteresse na retribuição, que a paz e felicidade do outro como único reconhecimento.
A casa dos Austen em Steventon: nada de herança para mulheres
Vida e morte
A biografia de Jane Austen é bem conhecida, quando não, esmiuçada para explicar a escritora e a impressionante longevidade e popularidade de sua obra. Houve críticos que, inclusive, se utilizaram de sua trajetória para opor-se a seus escritos. Ora, o que, afinal, uma solteirona provinciana poderia saber de amor, de casamentos e, especialmente, das universalidades do gênero humano?
Jane nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, um vilarejo ainda hoje de aspectos rurais, ao norte do condado de Hampshire, no sul da Inglaterra. Originária da gentry, pequena nobreza rural, ela era oriunda de uma numerosa família, sendo a sétima filha do pastor George Austen e de sua esposa Cassandra, o mesmo nome de sua única irmã e confidente. O pai era também reitor e tutor de alunos, os quais recebia e educava em sua casa.
É difícil saber se por atenção às novas exigências da época quanto ao ensino das moças – nos últimos 50 anos do século XVIII, sob influência da burguesia ascendente, se passou a valorizar a educação feminina no mercado de casamentos – ou se por convicção professoral, o fato é que os Austen preocuparam-se em fornecer às duas filhas instrução de alto nível. Cassandra e Jane moraram com uma tutora em Southampton e, mais tarde, no internato de Reading. Sabe-se, porém, que o próprio pai foi um dos grandes educadores dos próprios filhos. Ele mantinha em sua casa uma ampla biblioteca e se orgulhava da família ser ávida na leitura de romances, além de outros tipos de literatura.
O manuscrito de Orgulho e Preconceito: leiloado por 5 milhões de reais em 2011. (Clique para ampliar).
É interessante notar que se as bibliotecas particulares já não eram nenhuma novidade por esta época, o estímulo à leitura, em especial de romances e pelas mulheres, estava ainda sob forte ataque. São bastante conhecidos os textos do período que criticam a chamada “fome por leitura”, a qual, no entanto, espalhava-se pelos alfabetizados num volume cada vez maior. Tais textos eram opositores à leitura feita “por qualquer um”, e acreditavam que nada poderia ser mais pernicioso para a vida de uma moça do que a leitura de romances. Os detratores do gênero acusavam-no de estar repleto de fantasias e aventuras absurdas, que só fariam adicionar à cabeça “fraca” das jovens desejos que nunca poderiam ser satisfeitos, mergulhando-as na melancolia. Pior, poderia fazê-las falhar com seus deveres de boas filhas, irmãs e esposas, tornando-as ávidas de sensações moralmente recrimináveis e passíveis de se lançarem nas mãos dos aproveitadores e inescrupulosos que rondavam as famílias. Em prol da segurança das jovens e das linhagens, devolveu-se grandemente uma literatura moralista, baseada em textos bíblicos, que tinha função de orientar as moças em direção à caridade e a conformação com a vida limitada, que todas tinham pela frente.
Alguns destes livros devem ter passado pela biblioteca do reverendo Austen e Jane os conhecia bem. Pode-se acreditar nisso porque determinadas ideias destes textos estão presentes em seus escritos. Afinal, Jane não se furtava em criticar romances com perspectivas irrealistas da vida ou das relações amorosas. Northanger Abbey, sua obra de juventude publicada postumamente, é justamente sobre as tolices das jovens que se deixam levar pelo imaginário dos romances. Por outro lado, Austen não era nenhuma entusiasta da longa e aplicada leitura dos moralistas. Em Orgulho e preconceito, este detalhe é inserido como parte da personalidade patética de pelo menos dois personagens: o infame Mr. Collins e Mary Bennet, a menos encantadora das cinco irmãs.
Cena de Becoming Jane, com Anne Hattaway.
Das leituras à escrita, Jane revelou precocemente o talento e o desejo de compor seus próprios textos. Pequenos esquetes representados pela família na reitoria, paródias da literatura da época em que ela exercitava seu humor e capacidade crítica, presentes igualmente nas longas cartas escritas para a irmã Cassandra, nos breves períodos em que ficavam separadas. Os biógrafos apontam que entre 1795 a 1799, Austen também teria desenvolvido o cerne de alguns de seus principais romances, os quais foram, depois, longamente retrabalhados. No início dos anos 1800, fala-se da existência de alguns pequenos interesses de cunho amoroso, porém, nenhum deles seguiu adiante. (Em 2007, esses quase enlaces de Jane Austen, foram costurados num único – Thomas Lefroy – pelo roteiro do filme Becoming Jane, que se utilizou de Orgulho e Preconceito para construir um argumento romântico, numa livre interpretação da vida da escritora).
Estou com saudades de uma pessoa, de uma mulher. Acabei lembrando deste texto de Kafka. Ah, você acha que Kafka é sempre terrível e kafkiano? Negativo, meu amigo, negativo. Confira a seguir:
O Passeio Repentino
Quando à noite parece ter-se tomado a decisão definitiva de permanecer em casa, vestiu-se o roupão, depois do jantar ficou-se sentado à mesa iluminada, às voltas com aquele trabalho ou jogo ao término do qual habitualmente se vai dormir, quando lá fora há um tempo inamistoso que torna natural permanecer em casa, quando já se passou tanto tempo quieto à mesa que ir embora teria de provocar espanto geral, quando até as escadas já estão escuras e a porta do prédio fechada, e quando apesar disso tudo, num mal-estar repentino, fica-se em pé, troca-se o roupão, surge-se imediatamente vestido para ir à rua, se esclarece que é preciso sair, faz-se isso depois de breve despedida, acreditando-se ter deixado maior ou menor irritação conforme a rapidez com que se bate a porta do apartamento, quando se está de novo na rua com membros que respondem com uma mobilidade especial a essa liberdade inesperada que lhes foi concedida, quando se sente, através dessa decisão, concentrada em si mesmo toda a capacidade de decidir, quando se reconhece com um senso maior que o comum que se tem mais energia do que necessidade de produzir e suportar a mais rápida das mudanças, e quando assim se vai às pressas pelas longas ruas – então por essa noite está-se totalmente desligado da família, que desvia seu rumo para o inessencial enquanto, firme de alto a baixo, os contornos com as linhas carregadas, dando tapas na parte traseira das coxas, ascende-se à sua verdadeira estatura.
Tudo fica mais reforçado quando, a essa hora tardia da noite, se procura um amigo para ver como ele vai.
Franz Kafka (Trad. de Modesto Carone) – Retirado do livro “Contemplação / O Foguista” editado pela Brasiliense (1991) e reeditado pela Cia. das Letras .
Nunca pensei que sentiria tanta falta do sol, mas esta sequência de dias chuvosos está realmente insuportável. Hoje, a bola de fogo amarela brincou por brevíssimos momentos no céu da cidade. Eu e o Fernando Guimarães chegamos a brincar no Facebook. Ele disse: “Que estranho: uma bola brilhante, acho que de fogo, começa aparecer no céu de POA. O que será?”. Foram 5 minutos e o sol voltou a se esconder… Triste.
Pois todos nos esquecemos do sol. Amanhã, o Climatempo e todas as previsões prometem “Dia de sol, com nevoeiro ao amanhecer. As nuvens aumentam no decorrer da tarde.” A previsão é de 0 (zero) mm de chuva. Espero que isto signifique um pouco de sol para nós. Meus sete leitores sabem como eu gosto do frio. Mas chuva contínua e gelada por quase uma semana? Francamente, aí já é demais.
Uma vez, estava em Buenos Aires e consegui um ingresso para um superclássico na Bombonera. Sim amiguinhos, vi um Boca X River. Quando o River entrou em campo, a torcida do Boca começou a ofender violenta e continuamente a Enzo Francescoli, atacante uruguaio do River. Ele olhou bem para a torcida, chamou um repórter e disse:
— Viste o medo que eles têm de nós?
Foi esta história que relatei a um amigo ontem. Ele diz que o namorado da ex-mulher conta horrores a respeito dele. E para todo mundo. Diz até que ele não pagava as contas nos restaurantes, que deixava tudo para ela. Sugeri que ele avise ao sujeito que não está interessado nela, de modo nenhum. Ele tem que acalmar o coitado.
Enzo Francescoli, o supercraque encerrou sua carreira no River Plate
No Charles Dickens Museum, há uma citação do autor reproduzida numa das paredes em letras garrafais:
Entradas anuais: 20 libras, gastos do ano: 19,60; resultado: felicidade. Entrada anual: 20 libras; gastos do ano: 20,60; resultado: miséria.
Considero de insuportável pieguice vários livros de Dickens, mas nunca a obra-prima do humor Pickwick Papers, o adorável David Copperfield e este Grandes Esperanças, a meu ver seu melhor romance. É importante dizer que a tradução de Paulo Henriques Britto, cuja capa da Penguin Companhia está ao lado, é disparada a melhor. Então, evitem procurar o livro em edições antigas, até porque o preço está abaixo de quarenta reais, excelente valor para um volume de 704 páginas.
Como muitos romances do autor inglês — e basta visitar o Museu Dickens em Londres para comprovar — , a questão econômica é central. (Não vou contar a história, tá?). Philip Pirrip ou Pip é um órfão que é criado pela irmã que o atormenta e o marido, o bondoso ferreiro Joe Gargery. Ele vivem numa pequena aldeia no interior. A vida de Pip se altera quando um benfeitor misterioso o faz herdeiro de uma grande fortuna, o que o faz conceber a primeira fornada de “grandes esperanças”. A partir do fato, lentamente vão se alterando não apenas o comportamento das pessoas em relação ao personagem como o próprio Pip passa a rejeitar suas origens.
Iuri (esquerda), Débora e o pouco feliz aniversariante.
Hoje é o dia do meu aniversário, mas estou ainda sob o efeito de outro, o do IgorNatusch (2 links). Não tinha planejado fazer festa para mim, mas a Astrid Müller e o Augusto Maurer providenciaram uma ontem. Estou bem, mas deveria estar de luto. Então, como desconfio que uno de los muertos de mi felicidad (como diria Silvio Rodríguez) seja uma das versões de mim, escolhi manter um impossível recolhimento, considerando os queridos amigos que tenho. Gente como o Igor, que tinha uma proposta de aniversário das mais estranhas:
Decidi, pela primeira vez na minha vida, fazer uma festa de aniversário. Completo trinta e três invernos chuvosos no dia 15 de agosto deste ano e decidi fazer uma festinha para comemorar. Todos estão convidados a me encontrar no Largo Glênio Peres na noite fatídica (será uma quinta-feira) trazendo bebidas (isopor ajuda, claro), comidas e lugar para sentar (cangas, cadeira de praia, almofadas, o que quiserem). Evidentemente, todos estão convidados. E a proposta é muito, muito séria.
Eu e a Bárbara nos dirigimos para a festa achando que íamos encontrar o Igor com dois ou três amigos no meio do Largo. Trazíamos um garrafa de bom vinho, abridor e duas taças. Quando dobramos a Borges, vimos que havia uma grande roda de pessoas conversando animadamente. Como o Igor tem 1,90m, foi fácil vê-lo de longe. Logo que cheguei, propus abrir o vinho, mas o pessoal estava todo no quentão. O que era bom, porque parece que estava 5 graus, mas eram 5 graus do bem, sem vento, sem umidade e ninguém tiritava.
O inusitado da festa deixou todo mundo alegre e vários grupos menores foram se formando e alterando durante toda a noite. O álcool rolava em boa velocidade. Logo chegaram vinho e cerveja. Do alto de um edifício, para os lados da Otávio Rocha, vinham alguns flashes, o que indicava a desconfiada presença dos homens da lei. O que fazia aquele estranho grupo ali parado, formando círculos, todos com copos na mão e pegando comida num espetinho ao lado? Mas não fomos abordados.
A coisa ia muito bem quando começou a ficar cômico-poética. Eu vi o cara de longe. Ele vinha completamente bêbado com os braços abertos, como se dançasse. Usava um casaco claro fechado até em cima, tinha uma micro mochila nas costas e uma cara nada rotineira.
Então, parou na frente de nosso grupo e perguntou daquela forma que só os gays muito engraçados conseguem fazê-lo. Mexeu os braços em círculo, deu uma meia volta e disparou em alemão:
— Was ist das? (O que é isso?)
Aparentemente, só eu tinha rudimentos de alemão e respondi:
— É uma festa de aniversário.
Ele deu um sorriso:
— Wie wunderbar! Und warum bin ich nicht trinken? (Maravilhoso! E por que não estou bebendo?)
Fui providenciar uma bebida para o homem, um certo Alexandre, que é esteticista e que se apaixonou imediatamente pela Bárbara. Quando falou com ela, tratou de usar o português.
— Ai, tu é linda e chiquérrima!!!!!! Que roupa perfeita, que cabelo de luxo! Deixa eu dar uma arrumadinha nele?
E começou a arrumar o cabelo de minha filha, que não parava de rir. Depois de terminar, pediu que algum dos rapazes lhe acendesse o cigarro.
Esta é minha foto preferida de infância. Meu pai escreveu atrás dela: 31 de julho de 1965. Então, era aniversário de 13 anos de minha irmã Iracema Gonçalves e eu tinha sete, quase oito anos. O filhote era o Rex, que viveu 18 anos, me suportando até meus 23 anos.
Os dois apaixonados abaixo somos eu e minha mãe, a Dra. Maria Luiza. Como confio na minha memória, não lembro de que ano é a foto, mas acho que eu estou na faixa dos 30 e ela na dos 60, pois ela tinha exatamente 30 anos a mais do que eu.
A terceira é de 2002, foi tirada por Bernardo Jardim Ribeiro, em pé, sobre uma cama da Pousada Don Giovanni, de Bento Gonçalves. Chovia muito, estava quase zero grau e a gente tinha que inventar coisas para passar o tempo. Essa pousada é o máximo. Indico a todos.
Mentira. São 45 livros porque 5 receberam dois votos.
Inspirado por Carlos Willian Leite, do Jornal Opção, de Goiânia, o Sul21 convidou dez romancistas, poetas, ensaístas ou críticos literários para nomearem as cinco piores obras de autores brasileiros que conhecem. Obviamente, a escolha reflete o gosto pessoal e o conhecimento de cada um dos dez “jurados” e não uma condenação irremediável. Trata-se de uma anti-lista, contrária às listas habituais de melhores.
Ampliando a ideia inicial, pedimos que, a cada voto, fosse acrescentada de uma a cinco linhas justificando a escolha. Por iniciativa nossa, informamos aos votantes que não divulgaríamos seus nomes, postura que foi rechaçada por dois deles, Fernando Monteiro e Ronald Augusto, que têm suas iniciais apontadas logo após seus votos. Os outros “jurados” apenas aceitaram as regras sem comentá-las. Deste modo, não podem receber a imputação de terem planejado agir sob o manto do anonimato…
(Carlos André Moreira também pediu que seus votos fossem indicados. Justificativa abaixo (*)).
Por falar em anonimato, o autor desta introdução não votou.
Assim, acrescentamos as iniciais C.A.M. aos respectivos votos. A seguir, então, em ordem alfabética por título, a lista dos 50 livros para morrer antes de ler:
Agosto, de Rubem Fonseca
Tive de ler por obrigação e acabei tomando ojeriza pelo personagem principal do livro: a azia do protagonista.
A Casa do Poeta Trágico, de Carlos Heitor Cony
Romance artificialmente construído, com pretensões de “clima internacional” que termina por criar situações ridículas como a do casal de amantes, personagens centrais, que passam uma noite inteira trepando nas ruínas de Pompeia porque se distraíram (trepando, já) e não perceberam que o sítio arqueológico havia sido aferrolhado, de acordo com o horário de fechamento dos portões (17h). Tudo bem. O homem e a mulher não se incomodam… Sem colchão, sem lençol, sem travesseiro, sem mais nada, continuam a trepar e só vão sair das ruínas quando os funcionários reabrem Pompeia para os turistas, às 10h da manhã seguinte. É mole? Não. Teria que ser muito dura (a noite). Por cenas como essa, melhor morrer antes de ler. (F.M.)
A Casa das Sete Mulheres, de Letícia Wierzchowski
— Essa pérola do cancioneiro gauchesco tem uma das mais mal escritas primeiras páginas da história da literatura universal. O resto do livro vai pelo mesmo caminho.
— Contar a Guerra dos Farrapos a partir das mulheres próximas ao general Bento Gonçalves não é ideia ruim. Mas é tudo canhestro no livro: a narrativa, o enredo, a construção dos personagens. Uma leitura que dura para sempre, no mau sentido.
A Divina Pastora, de Caldre e Fião
Achado um único exemplar num sebo de Montevidéu pelo livreiro Monquelat de Pelotas. Antes nunca o encontrasse!
A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães
Conto de fadas de superação do interdito social. História irrealista que pretendia demonstrar que as tendências (pseudo) democráticas dependiam apenas da boa vontade cristã das pessoas. Daí a Globo ter exibido a novela que tanto agradou a classe média, sempre politicamente equivocada e alienada.
A Guerrilheira, de Índio Vargas
Embora Índio Vargas seja autor de um dos livros mais importantes sobre a ditadura militar, “Guerra é Guerra, dizia o Torturador”, este aqui parece um esboço que alguém mandou inadvertidamente para a gráfica e foi publicado sem passar por revisão. Falta foco, estrutura, cuidado com a prosa, os episódios desmentem uns aos outros, repetem-se, quando não se perdem em digressões que não acrescentam nada, nem tensão. (C.A.M.)
A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo
— Bobo. A fantasia não dá nem uma novela das seis, o texto é primário. É um crime fazer os adolescentes lerem essa chatice dizendo que se trata de literatura, pior, de um clássico. Esse livro só tem importância dentro da história da literatura brasileira, coisa que o professor pode resumir numa linha e poupar os alunos.
— Clássico absoluto e abominado nas salas de aula brasileiras, mas permanece sendo lido, vendendo e com lugar cativo na alma de cada mau professor deste grande país!
A Quarta Parte do Mundo, de Clovis Bulcão
A orelha promete um “épico eletrizante”, “baseado em fatos reais” (a malfadada passagem de Villegagnon pelo Brasil). Na verdade, “eletrizantes” são as imagens, algumas das mais feias da história da literatura brasileira, como essa: “Uma robusta garça fora ferida e grunhira como um porco”. O autor criou um mundo perigoso, em que os personagens sentem apenas emoções-clichê, como uma “mistura de pavor e ódio”, e em que podem ser “tragados por piratas ou pelos abismos do mar” (tentemos visualizar isso…). Definitivamente não recomendo.
A Suavidade do Vento, de Cristóvão Tezza
Romance fraquíssimo, que nada tem a ver com a sutileza de um Antonioni, em certa tarde, olhando para árvores descabeladamente agitadas: “Como é fotogênico o vento!”, como registrou o mestre italiano da (verdadeira) suavidade na sua “Trilogia da Incomunicabilidade”, bem longe do realismo rastaquera do Tezza desse livro. (F.M.)
As Parceiras, de Lya Luft
Psicologismo mediano misturado com literatura convencional que tenta disfarçar, sem sucesso, um estilo a meio caminho do entretenimento em tom pastel e da autoajuda intimista. Narrativa para lobas fleumáticas. (R.A.)
Bernarda Soledade, a Tigre do Sertão, de Raimundo Carrero
Muito ruim. Influenciado por Lorca (?) até no título, além das situações de “dramaticidade” de estilo juvenil em torno de mulheres confinadas à maneira exatamente de “A Casa de Bernarda Alba” (sem ter, entretanto, conseguido imitar a qualidade do inspirado poeta andaluz). Em tempo: não seria “tigresa”?… (F.M.)
Cai a noite sobre Palomas, de Juremir Machado da Silva
Há uma diferença bastante grande entre construir personagens inteligentes e colocar frases de efeito e nomes de grandes pensadores em suas bocas. Talvez o Juremir não soubesse disso ao escrever o seu primeiro livro. Triste é perceber que segue sem sabê-lo até hoje.
Canto da noite, de Augusto Frederico Schmidt
Para ser justo com o falecido, eu poderia ter mencionado a obra poética inteira como exemplo da pior poesia feita no Brasil. No gênero, o autor talvez tenha sido a maior impostura de todos os tempos. Por ser endinheirado e porque publicava os grandes poetas de seu tempo, era apontado, por eles, como um grande poeta. (R.A.)
Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre
Não é nem romance nem obra sociológica. Até nos faz pensar que no Brasil se praticou e se pratica a democracia racial , via miscigenação e que na casa grande havia senhores bons e na senzala escravos submissos. Cáspite !!!
Contra o Brasil, de Diogo Mainardi
— A história de um picareta que odeia o Brasil e passa o tempo todo citando frases de viajantes e pensadores que desancaram o País e seus habitantes. Acho que ninguém vai querer ler uma autobiografia do Diogo Mainardi, mas por precaução, foi para a lista.
— Mainardi não tem muita preocupação com ideias, propostas, alternativas. Sua intenção é de apenas bater, sua arte é a da objeção. Um livro cuja intenção é a de vender o complexo de vira-latas do autor. Não obtém o riso, não informa, não nada. Merece presença aqui.
Corpo Presente, de João Paulo Cuenca
É um mistério o prestígio que Cuenca desfruta como “autor da nova geração”, já que sua obra parece reunir justamente os piores maneirismos da sua geração: abuso de ironia, pretensão acima da qualidade de seu texto, investimento em fórmulas que já não convencem. Este seu primeiro romance é um bom exemplo: um “romance urbano” com um “protagonista deslocado”, perdido em “questões de sobrevivência e sexo”, redigido em uma “escrita cinematográfica”, que na verdade é uma prosa que se pretende densa e nebulosa, mas apenas abusa de orações coordenadas sem parecer que sabe onde quer chegar. Puxa, como ninguém pensou nisso antes? (C.A.M.)
Dois Irmãos, de Milton Hatoum
Já houve um Jorge Amado, e foi suficiente.
Estorvo, de Chico Buarque
— O que dizer quando o título diz tudo? Chico, como escritor, costuma, na minha modesta opinião, emular outros escritores, com resultados sempre inferiores aos do original.
— A prova impressa de que a genialidade em determinado campo artístico não implica em qualquer tipo de brilhantismo nos demais. Compositor de raro talento, Chico é um escritor medíocre, infelizmente. Acho que nem fã de carteirinha aguenta esse árido calhamaço de coisa alguma.
Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho
Outro livro enorme, uma biografia excessivamente ocupada do varejo, do trivial-mínimo, da vida pessoal de Fernando Pessoa, que o autor jura ter visto nas ruas de Lisboa (isto é, a alma penada do poeta), talvez sinalizando que ele, Cavalcanti Filho, escrevesse sobre quantas vezes, por exemplo, um bardo alfacinha é capaz de ir ao banheiro, num único dia, depois de ter repetido o fundo prato da caldeirada do “Martinho das Arcadas”… (F.M.)
Vou contar uma historinha para vocês. Aconteceu ontem na Padaria Pasquali, aqui no bairro Cavalhada, em Porto Alegre.
Eu entrei na fila e comecei a fazer uma coisa que sempre faço quando não há músicos por perto — comecei a cantar: “Daram, daram, dararam, da-ra-ra-ram”.
Claro que vocês, pessoas inteligentes, já sabem o que eu estava cantando. Bem, foi quando uma menina que estava na minha frente, virou-se para mim e disse:
— O começo do terceiro concerto de Bartók…
E ficou totalmente vermelha, envergonhadíssima. Me apresentei, conversamos uns cinco minutos e ela perguntou se eu sabia o motivo pelo qual Bartók, um ateu e socialista, chamara de Adagio Religioso o segundo movimento. Não soube responder.
Trata-se de uma aluna de piano de 16 anos que, depois de perder a vergonha, resumiu brilhantemente o concerto:
Por puro pragmatismo ou esquisitice mental, toda vez que vejo o esforço necessário à montagem de uma obra de grandes proporções, penso nos motivos que levam as pessoas àquilo. No caso de Fidélio, ópera filha única de Beethoven, o caso me parecia mais grave. Uma ópera longa, de um compositor pouco afeito ao gênero, porque não investir em algo mais moderno ou nos cânones Mozart, Rossini ou Wagner? Ademais, acho que nossa época tem pleno direito — e dever — de dar sua interpretação a obras do passado, mas confesso meu preconceito para com óperas. Até Eric Hobsbawm em seu maravilhoso Tempos Fraturados escreve que “… nenhuma das óperas do repertório atual tem menos de oitenta anos, e praticamente nenhuma terá sido escrita por compositores nascidos depois de 1914. (…) A produção operística (…) consiste, na maioria esmagadora, em tentativas de refrescar túmulos eminentes depositando sobre eles diferentes conjuntos de flores”.
Só que meu amado historiador esqueceu de dizer que, não obstante a idade e os trechos do enredo fora de moda ou decididamente tolos, algumas óperas, como Fidélio, têm muito a dizer aos dias atuais. Com toda a razão, o flautista Artur Elias escreveu no Facebook da Associação de Amigos da Ospa que Fidélio trata de temas como “abuso de autoridade, violência de estado, liberdade de expressão, protagonismo da mulher”. Acrescento à lista de Artur pitadas de presos políticos, tudo isso misturado a uma música de primeira linha. Então, este chatíssimo resenhista hostil às óperas foi lá e teve que admitir que ouviu Beethoven… Ops, que gostou muito do que ouviu. Então, recuando de sua posição atacante, vamos a alguns comentários a respeito do que vimos e ouvimos no Theatro São Pedro no último sábado.
Saí da casa de meus pais aos 26 anos. Minha mãe não queria que eu saísse, estava indignada: “Para que morar sozinho se tem tudo em casa? Toda a liberdade?”. Mal conseguíamos conversar.
Depois da mudança, estava em casa, à noite, e a campainha tocou pela primeira vez. Era meu pai. Todo constrangido, trazia um presente.
“É um ferro de passar. Tua mãe acha que tu precisa de um”.
Milton Ribeiro faz tudo por você. Primeiro, ele mostra o cartaz do filme.
Sim, Janela Indiscreta! Então, ele pega sua mão, você entra e… Silêncio, vai começar!
L.B. “Jeff” Jeffries: I get myself half killed for you and you reward me by stealing my assignments.
Gunderson: I didn’t ask you to stand in the middle of that automobile racetrack.
Tradução: L.B. “Jeff” Jeffries: Eu me peguei metade morto e ganhei de prêmio um pé quebrado, porra. Gunderson: Eu não perguntei se tu precisavas ficar no meio da pista bem na frente do automóvel.
Gunderson: It’s about time you got married, before you turn into a lonesome and bitter old man. Jeff: Yeah, can’t you just see me, rushing home to a hot apartment to listen to the automatic laundry and the electric dishwasher and the garbage disposal and the nagging wife… Gunderson: Jeff, wives don’t nag anymore. They discuss. Jeff: Oh, is that so, is that so? Well, maybe in the high-rent district they discuss. In my neighborhood they still nag.
Tradução: Gunderson: É sobre o tempo que não comes ninguém, quem não come ninguém acaba como o Reinaldo Azevedo. Jeff: Sim, como você e os justos da veja. Não quero que minha libido ouça a Grace Kelly dizer automaticamente “Querido, leva o lixo na rua?”. Gunderson: Mulheres não discutem, elas mandam, porra. Jeff: E se tomam uma porrada a discussão acaba com eles na Delegacia da Mulher. E na minha vizinhança ainda, né?
Jeff’s rear window characters:
Tradução: Os caracteres da janela do Windows de Jeff:
Miss Torso, the ballet dancer
Tradução: Uma dançarina gostosa que vai se apaixonar por um baixinho.
Mr. Lars Thorwald and his nagging wife
Tradução: O vizinho assassino com a esposa entrevada, né?
the newly-wed… all of which comment on Jeff-Lisa relationship or reflect its possible future
Tradução: Os recém-casados fofos… Que ficarão todo o tempo fazendo aquilo que Lisa (Grace Kelly) quer fazer com Jeff (James Stewart), apesar de ele só quer saber de fotografia e de coçar o pé.
Stella: Look, Mr. Jeffries, I’m not an educated woman, but I can tell you one thing. When a man and woman see each other and like each other, they oughta come together–wham!–like a couple of taxis on Broadway, and not sit around analyzing each other like two specimens in a bottle. Jeff: There’s an intelligent way to approach marriage. Stella: Intelligence! Nothing has caused the human race so much touble as intelligence. Ha, modern marriage! Jeff: Now we’ve progressed emotionally. Stella: Baloney! Once, it was see somebody, get excited, get married. Now, it’s read a lot of books, fence with a lot of four-syllable words, psychoanalyze each other until you can’t tell the difference between a petting party and a civil service exam.
Tradução: — Eu não sou educada, por isso quero ver sexo neste filme e não masturbações sobre vizinhos. — O casamento é um jeito inteligente de acabar com o sexo. — Inteligência. Os sionistas são mais educados e inteligentes e olha o que eles fazem na Palestina. — Eles são mais desenvolvidos. — Por isso que fodem com os coitados. Ficam excitados. Depois vão para um psicanalista ou um rabino e não sabem mais a diferença entre uma exposição de filhotes e um exame para entrar a serviço do exército.
Garrincha chegou ao Botafogo em 1953. Vinha de Pau Grande, localidade cujo nome se presta a piadas que não faremos. Foi medido, pesado e auscultado. Pesava 67 quilos, tinha 1,69m de altura e os pulmões limpos. Os doutores Oscar Santamaria, clínico geral, e José Nova Monteiro, ortopedista, pediram que ele subisse numa mesa a fim de analisarem suas pernas. Garrincha tinha o joelho direito em varo, virado para dentro, e o esquerdo em valgo, virado para fora, além de um deslocamento da bacia. Sua perna esquerda tinha alguns centímetros a menos que a direita. E era também ligeiramente estrábico. Os médicos ficaram pensativos. Sabiam que o Botafogo precisava desesperadamente de um ponta direita.
Garrincha com uma de suas filhas em Pau Grande. A genética manifesta-se no joelho da menina.
O veterano ponta Paraguaio estava indo para o Fluminense e o técnico Gentil Cardoso estava experimentando uma série de jogadores ruins demais. E falavam bem daquele Garrincha. No domingo seguinte, contra o São Cristóvão, Gentil escalou Mangaratiba em seu time titular. Sim, Mangaratiba, um menino que, cada vez que pegava a bola, ouvia a torcida de General Severiano gritar “Olha o telefone, Mangaratiba!”. Nada pessoal, o problema é que, na partida preliminar, jogara um novo ponta que simplesmente tinha destroçado o adversário e do qual não se sabia nem o nome.
Durante a semana, sem consultar a ninguém, Garrincha resolveu dar um prêmio a si mesmo: uma folga em Pau Grande. A localidade é até hoje um distrito de Magé, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, aos pés da Serra dos Órgãos. Foi lá jogar umas peladas com os amigos. Apareceu para treinar só quinta-feira. Enfurecido, Gentil deixou-o na preso concentração e fez com que ele jogasse novamente nos aspirantes. E ele acabou com o jogo pela segunda vez. No domingo seguinte, Gentil escalou-o como titular para o jogo contra o Bonsucesso. Nos anos 50, eram raras as vitórias de times pequenos sobre os grandes. Naquela tarde, ventava e chovia em General Severiano, mas o verdadeiro mau tempo estava em campo. O Botafogo perdia por 2 x 1, Garrincha fazia uma estreia apagada e, de repente, pênalti para o Botafogo. Os mais experientes – o capitão Geninho, Nilton Santos, Juvenal, o artilheiro Dino – foram saindo de fininho. Então Garrincha pegou a bola e preparou-se para bater a penalidade. Só que ele não era o batedor do Botafogo, era o batedor do Pau Grande. Geninho olhou para Gentil que assentiu com a cabeça. A torcida observava aquela sandice. Então, Garrincha bateu forte, no canto, marcando seu primeiro gol como profissional. E enlouqueceu. Fez mais dois gols, deu passes para outros dois e, a cada um deles, corria para um determinado lugar da arquibancada. Depois do jogo, foi levado nos braços por aqueles para quem corria a cada gol: eram Pincel e Swing, seus melhores amigos de Pau Grande.
A vida em Pau Grande numa série de fotos para a revista O Cruzeiro
O time do Botafogo não era nada bom, tanto que acabou em sexto lugar no Carioca de 1954. Porém, em 1955 e 56, o Botafogo começou a montar o legendário time que tinha em Garrincha – e Didi e Nilton Santos – sua maior estrela. Didi, quando chegou ao Botafogo, vindo do Fluminense, ganhava 70 mil cruzeiros por mês. Sabedores do fato, Nilton Santos e Garrincha pediram reajuste. Nilton passou a ganhar 30 mil. Garricha passou de 16 para 18 mil. Com 18 mil, um casal vivia bem com seus filhos, mas ele tinha também vários irmãos agregados, assim como os tinha Nair, sua mulher. A profissão de jogador não era o que é hoje: não era regulamentada. Os jogadores não tinham direito à férias. Tratava-se de um semi-amadorismo onde os mais previdentes exerciam uma segunda profissão.
Treinamento anos 50. Com o Botafogo indo de navio para uma excursão na Europa, Zezé Moreira e seus comandados exercitam-se no convés. A seleção de 58 faria o mesmo.
Em 1957, o Botafogo foi Campeão Carioca numa final que ficou marcada a ferro e fogo a alma do torcedor do Fluminense. Didi passou a tarde dando passes para Garrincha, que sistematicamente humilhava seu marcador Altair. O zagueiro Clóvis vinha na cobertura e também era driblado. Aos 40 min do primeiro tempo, já estava 3 x 0. O jogo acabou em 6 x 2. Era impossível não convocar aquele maluco para a Seleção Brasileira. Só que ele quase não foi à Copa da Suécia em 1958. Julinho Botelho era titular absoluto da posição, mas jogava na Itália. Por carta, comunicou a CBD que não achava justo tomar o lugar de um companheiro que jogava no Brasil. Então, seu reserva Joel seria o titular e Garrincha o ponteiro direito reserva. Nos coletivos, era marcado por Nilton Santos, seu companheiro de Botafogo. Nilton detestava aquilo. Era driblado mil vezes durante os treinamentos e pedia para Garrincha não exagerar com ele.
Mané, Nilton Santos e Paulo Valentim nos 6 x 2 contra o Flu. Valentim fez cinco gols.
A grande estrela da Seleção era o atacante Mazzola, que também jogava na Itália. Porém, durante a Copa do Mundo, Vicente Feola, que tinha a fama de dormir durante os treinos de seus jogadores, observou que talvez fosse a hora de tirar Joel, Dida e Mazzola para colocar Garrincha, Vavá e Pelé contra a URSS. O efeito foi notável. Vários jornais noticiaram que os primeiros três minutos daquele jogo foi um dos mais extraordinários massacres do futebol mundial. Foi uma avalanche de bolas na trave e no travessão comandadas por Didi, Pelé e Garrincha. Lev Yashin, grande goleiro russo, disse que já suava, desesperado, quando finalmente Vavá marcou o primeiro gol brasileiro. Aos três minutos.
Uma das bolas na trave de Yashin, esta de Garrincha. Três minutos inesperados.
Foi a Copa de Pelé, que, coadjuvado por Didi e Garrincha apareceu para o mundo marcando um gol inesquecível contra o País de Gales e arrasando também contra a França e a Suécia. Com a conquista da primeira Copa do Mundo, uma parte do complexo de vira-latas do futebol brasileiro foi pelo ralo.
Enquanto bebia (muito) e fumava, o atleta Mané Garrincha seguia colecionando títulos com o Botafogo. Claro, havia problemas. Em 1959, o Botafogo empatou o triangular final contra Flamengo e Vasco e perdeu a final para Angelita Martínez. Sim, Garrincha – e João Goulart – frequentavam demais a vedete Angelita Martínez e, se ela não atrapalhou, também não ajudou muito no desempenho esportivo do “demônio das pernas tortas”. Em seus shows, Angelita cantava a marchinha “Mané Garrincha” que iniciava com os brilhantes versos “Mané, que nasceu em Pau Grande…”.
Angelita Martínez: a deusa que era visitada por Mané Garrincha e João Goulart.
Por falar no local de nascimento de Mané, é importante dizer que ele sempre ia lá após os jogos. Os motivos eram dois, talvez três. Ele ia ver dona Nair e as numerosas filhas do casal. Também jogava peladas com os amigos e bebia, bebia até cair da tradicional cachaça do interior do estado do Rio de Janeiro.
Apesar do comportamento pouco indicado a um atleta, ele estava em alta e permaneceria assim por um bom tempo. Era admiradíssimo como jogador incontrolável e como um ser humano simples, natural, bem brasileiro. A imprensa da época amava seus ditos simplórios, ele era “Mané, a Alegria do Povo”. Tudo contribuía para sua fama, até seus casos amorosos. Além das conquistas nos gramados, além do reconhecimento mundial, as revistas o vendiam como uma máquina de fazer sexo. Falava-se que tinha filho até na Suécia — fato que foi depois confirmado: havia um varão escandinavo.
Com Bellini, em estilo Panair.
E então conheceu Elza Soares, uma explosiva baixinha de 1,57m pela qual largou tudo, família, filhas e amigos. Ela tinha 31 anos e era uma sensação já famosa nacionalmente. Era a cantora de “Se acaso você chegasse”. Garrincha tinha 28 anos e um comportamento infantil fora das camas. Ele foi ao encontro dela para pedir votos no concurso “o jogador mais popular do Rio”. Viu-a e foi para sempre. O prêmio era um Simca Chambord e Garrincha – apesar de raramente buscar seus salários e prêmios por vitória na tesouraria do Botafogo – queria ganhá-lo. Com o apoio de Elza, levou o carro e uma nova mulher.
Alguns músicos da Sinfônica de Viena comemoraram quando, há 15 meses, Jasmine Nakyung Choi foi nomeada para a primeira flauta. Eles viram nisso um sinal de tolerância em uma sociedade muitas vezes discriminatória.
Mas não deu nada certo. No último sábado, seus colegas votaram contra sua permanência. Motivos musicais? Não, aparentemente nada deste gênero.
Jasmine Nakyung Choi
O informadíssimo Norman Lebrecht ouviu fortes rumores de sexismo e racismo. Nada que surpreenda, na verdade. O que surpreende é que Jasmine tocou muito bem, sendo elogiada durante toda a temporada, mesmo num péssimo ambiente.
Mesmo assim, a direção da orquestra convidou-a para permanecer mais um ano, mas ela decidiu afastar-se do grupo hostil e voltar ao mercado de trabalho.
É triste ver Viena reforçar tais estereótipos históricos.