AmaOspa x Amigo Ospa

Um dia, eu, uma de minhas ex — doravante referida como X. — e o Francisco Marshall fundamos a AmaOspa. A ideia era a de reativar a Associação de Amigos da orquestra.

Mas então nós nos separamos e… Não, eu não me separei do Marshall, me separei da ex. E bem, como eu ia dizendo, rapidinho minha ex casou com um músico da orquestra e eu com minha Elena, violinista da Ospa e meu primeiro amor.

Um dia, ela e o tal músico estavam conversando num intervalo e a Elena comentou:

— Eles fundaram a AmaOspa, mas cá pra nós, o Milton e a X. se puxaram demais, né?

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E agora, pasmem, a ideia ressurgiu. Vejam o vídeo acima. Espero que não acabe em separação, mas em muitos amigos!

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Julia Fischer e Anne-Sophie Mutter, sobre a pandemia e depois

Julia Fischer e Anne-Sophie Mutter, sobre a pandemia e depois

Julia Fischer:

A violinista Julia Fischer uniu sua voz às crescentes demandas para o diminuição das turnês das orquestras quando o Covid terminar e para o investimento maior no desenvolvimento de artistas locais. O que ela disse:

Nunca fui fã de medir o sucesso de uma carreira pelo número de milhas acumuladas. Eu acho que é loucura que cada orquestra ache que precisa tocar em Nova York e Tóquio todos os anos.

Na Ásia em particular, onde o dinheiro é bom, eu poderia ter feito cinco turnês por ano. Mas esse não é o ponto. Sou a favor do intercâmbio cultural, mas precisa ser algo especial. Por que ir a cada três meses?

É muito mais importante reconstruirmos a identificação do público com as orquestras locais. Para nós, de Munique, digo que devemos conhecer mais a Filarmônica de Munique ou a Orquestra Sinfônica da Rádio da Bavária. Precisa ser algo especial quando uma orquestra aparece em turnê.

Também acho errado que os regentes tenham várias orquestras. É algo que nunca entendi. Na minha opinião, um regente deve estar profundamente identificado com sua orquestra. Deve dedicar-se realmente a ela, incluindo nisto a cidade e a sua cultura musical.

Julia Fischer

Anne-Sophie Mutter:

A violinista alemã argumentou ontem que as salas de concerto deveriam ter os mesmos privilégios que as igrejas durante o período de Covid. O que ela disse:

Temos o direito básico à liberdade de arte e de religião. Não consigo entender que a religião tenha prioridade sobre a arte, porque ambos são direitos básicos, não são luxo. A arte nos dá esperança, uma outra visão e uma experiência sensorial compartilhada, como, é claro, um serviço religioso.

Anne-Sophie Mutter

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Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, foi eleito o melhor livro-reportagem pela Associação Paulista de Críticos de Arte em 2013 e o segundo melhor pelos jurados do Prêmio Jabuti de 2014. O tema do livro é o Hospital Colônia de Barbacena (MG), manicômio onde milhares de pacientes foram internados por problemas muitas vezes sem diagnóstico. Ali, eram internadas tanto pessoas com problemas mentais reais, como alcoolistas, homossexuais, prostitutas, meninas engravidadas por patrões, moças que haviam perdido a virgindade antes de casarem, ex-amantes de políticos, inimigos políticos da elite local, vítimas de estupros, pessoas contestadoras, filhos indesejados e muitos negros, claro. No Colônia, eram mal alimentados, passavam seus dias em pátios abertos — nus ou em andrajos –, sofriam com o frio e muitas vezes eram torturados, violentados e mortos. O hospital, na verdade, servia para estocar pessoas não que cometeram crimes, mas que a sociedade ou alguém não queria ver ou conviver. Não há exagero no termo holocausto, ainda mais se considerarmos que morreram 60 mil pessoas no Colônia, dos anos 20 até o início dos anos 80.

O trabalho de Arbex é muito poderoso e completo. Fartamente documentado e com muitas fotos, a jornalista não somente conta a história do hospital como relata casos isolados de sobreviventes — e de suas situações atuais — e de internos que sucumbiram. Também traz depoimentos de psiquiatras e autoridades, muitos dos quais trabalharam no local. Através de um texto elegante e informativo, vemos a enorme violência cometida contra pessoas que eram obrigadas e beber água em esgotos, a dormiram sobre palha — pois as camas ocupavam excessivo espaço — e a viverem como não merecem os animais.

Os mortos? Ora, com o decorrer doa anos e como o índice de mortalidade era altíssimo, o cemitério ao lado já tinha mais espaço. Então, os funcionários criaram um lucrativo negócio. Passaram a vender os corpos para as Faculdades de Medicina do país. Quando a procura era baixa, os corpos eram dissolvidos em ácido.

A narrativa é tão dantesca que a imaginação do mais sádico dos escritores dificilmente alcançaria. O psiquiatra italiano Franco Basaglia, que teve a chance de visitar o Colônia em 1979, comparou o local a um campo de concentração nazista e exigiu seu fechamento imediato. O fechamento do Colônia ocorreu durante a década de 1980.

Além de serem forçados a trabalhar manualmente e dormir sobre palha ou folhas, os internos ainda precisavam lidar com estupros e com as torturas físicas e psicológicas que eram frequentes dentro do Hospital. Muitos pacientes eram submetidos à terapia de choque e à duchas frias sem nenhuma razão aparente. A tortura era aplicada com o propósito de servir apenas como castigo ou devido à perseguições.

Devido a superpopulação, havia falta de roupas e os internos andavam parcialmente ou completamente nus, expostos às baixas temperaturas de Barbacena durante a noite. Em uma tentativa de sobreviver, muitas vezes buscavam aquecer-se dormindo abraçados em círculos concêntricos, trocando periodicamente de lugar a fim de colocar as pessoas das bordas no meio. Ainda assim, muitos morreram por hipotermia.

Além da comida insuficiente, não existia um sistema de água encanada. Muitos banhavam-se ou bebiam de um esgoto a céu aberto. Para proteger seus bebês — que eram separados das mães após algum determinado tempo — grávidas cobriam a si mesmas com fezes, evitando que funcionários e outros pacientes se aproximassem. Doentes eram abandonados em seus leitos para morrer. Ele ficavam cobertos de moscas. Nos telhados, urubus esperavam e muitos mortos foram comidos por eles.

Crianças que cresceram dentro do Colônia jamais aprenderam a falar, ler ou escrever e contavam com a ajuda de outros internos para as atividades mais básicas.

Em 1961, o fotógrafo Luiz Alfredo, da revista O Cruzeiro, retratou a realidade dentro do Hospital, trazendo a público o que ocorria no interior dos muros do Colônia. A reportagem causou impacto, mas foi esquecida.

Em 1979, o jornalista Hiram Firmino, publicou diversas reportagens intituladas Nos porões da loucura, que revelavam a verdadeira loucura que se passava no Hospital Colônia e Helvécio Ratton realizou um filme sobre o mesmo tema intitulado Em Nome da Razão.

Mas quem acabou com tudo isso foram os médicos e suas associações.

Nosso país é assim: extremamente violento, um lugar onde os pobres são indesejados e tão mal informados que votam para eleger seus próprios algozes. O Colônia é apenas uma hipérbole, é o paroxismo da realidade que vemos nas ruas.

Recomendo muito.

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Hoje, os 100 anos de Clarice Lispector

Hoje, os 100 anos de Clarice Lispector

Clarice Lispector (1920-1977) foi uma escritora, contista e cronista brasileira cuja obra — estranha, difícil, experimental, mas fascinante e de excepcional qualidade — ganha cada vez admiradores. Prova disso são as mais variadas homenagens que ela recebe neste 9 e 10 de dezembro, além das que recebe diariamente em nossos memes… Motivo: Clarice faleceu num 9 de dezembro e nasceu num 10 de dezembro. Seu nascimento completa 100 anos hoje. São, pois, dias de Clarice. Como suas preocupações literárias nunca incluíram a narração linear de uma história, seus textos exigem uma postura mais meditativa para receber um leque de ideias e impressões que se multiplicam. Mesmo seus críticos mais hostis dobraram-se à qualidade de sua prosa, ela seria “uma grande escritora à procura de um tema”. E daí? Porém, tais reservas são fartamente compensadas e ultrapassadas por uma legião crescente de leitores. Infelizmente, há ainda outro lado: ela é uma das escritoras preferidas por quem gosta de colocar uma grife em suas postagens com frases falsas de Clarice.

“Naquela terra eu nunca pisei: fui carregada no colo”, dizia Clarice sobre a Ucrânia. Ela foi a terceira filha do casal de judeus Mania e Pinkouss Lispector e, quando nasceu em Tchetchelnik no dia 10 de dezembro de 1920, seus pais percorriam várias aldeias do país em razão da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Ela chegou ao Brasil aos dois meses de idade ainda com o nome de Haia. Aqui quase toda a família de cinco mudou de nome: o pai Pinkouss tornou-se Pedro; Mania virou Marieta; a irmã Leia, Elisa; Haia, Clarice; apenas a outra irmã, Tania, manteve o nome.

Primeiro foram para Maceió, depois, em 1924, para Recife. “O Brasil é minha verdadeira pátria”, sempre afirmava a escritora de beleza eslava. A literatura parece sempre ter estado dentro dela e Clarice começou a escrever logo após aprender as primeiras letras. Fora de casa ouvia e falava português, em casa, o ídiche. A vida era sofrida. A mãe sofria provavelmente de sífilis e não conseguia realizar as tarefas domésticas, papel em que era substituída pelas irmãs, principalmente por Elisa, que cuidava da casa e de todos. O pai tinha dificuldades para manter-se nos empregos. Em 1930, quando Clarice tinha 9 anos, a mãe morreu. Aos 12, pegou emprestado de uma amiga o livro “Reinações de narizinho”, de Monteiro Lobato, e apaixonou-se definitivamente pela literatura. Em 1935, ano em que Clarice completaria 15 anos, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. O motivo parece ter o sido o fato de que Elisa conseguira um emprego público na capital por intervenção de Agamenon Magalhães, então ministro do Trabalho, Indústria e Comércio de Getúlio Vargas. O pai continuava atrás de oportunidades na capital, enquanto Clarice seguiu estudando até formar-se em Direito em 1943: “Me formei por pirraça, só para provar que era capaz de levar até o fim”.

Em 1942, ocorreu a morte do pai, a qual teve consequências traumáticas para Clarice e as irmãs. O fato, causado por uma simples retirada da vesícula biliar com complicações no pós-operatório, deixou Clarice arrasada e acabou por afastá-la definitivamente da religião. No mesmo ano, conhece e apaixona-se pelo escritor Lúcio Cardoso, de quem se torna amiga íntima.

No ano seguinte, aos 23 anos, Clarice casaria com o colega e futuro diplomata Maury Gurgel Valente e, em 1944, publicou Perto do Coração Selvagem. O livro causou espanto e nele foram encontradas pelos críticos influências de James Joyce e Virginia Woolf, autores que Clarice desconhecia… A epígrafe de Joyce e o título, inspirado em citação do livro de Retrato do Artista quando Jovem, também de Joyce, foram sugeridos por Lúcio Cardoso após o livro ter sido escrito.

Em 1944, recém-casada, viajou para Nápoles, onde serviu num hospital da Força Expedicionária Brasileira. De volta ao Brasil, publicou em 1946 O Lustre e, depois de uma longa estada na Suíça e Estados Unidos, fixou-se no Rio de Janeiro.

A partir de então, Clarice passa a surpreender e surpreender. Em seus romances e contos, os acontecimentos e circunstâncias, assim como a própria trama perdem importância. A escritora investe cada vez mais em um radical trabalho de linguagem que busca expressar impressões, detalhes, paixões e estados de espírito, utilizando não apenas os recursos de análise psicológica e do monólogo interior, como também subvertendo a própria língua. Tudo muito, mas muito poético e bem escrito. Costumava partir de livres-associações que vão lentamente à transcendência. Sua ficção não se localiza no tempo e no espaço; as personagens normalmente são mulheres que se colocam em situações limite.

A melhor prosa da autora talvez esteja nos contos de A Legião Estrangeira (1964) e Laços de Família (1972) e em romances como A Paixão Segundo G.H. (1964) e Água-viva (1973). Seus personagens aceitam um universo arbitrário, sem Deus, e permanecem atônitos diante da existência. Outros grandes romances são A Cidade Sitiada (1949), Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969) e A Hora da Estrela (1977), talvez o mais famoso de seus livros – ao lado de Laços de Família – e que conta a história de Macabéa, moça do interior em busca de uma vida na cidade grande.

Evitamos o fácil termo “intimista”. Ele parece ser fraco pois a literatura de Clarice não apenas reflete a intimidade de suas personagens, mas uma indireção que a torna-se íntima de quem a lê. O leitor me é ou torna-se eu, poderia ter escrito Clarice. Longe dos padrões estabelecidos, temos de abdicar da segurança das convenções da literatura tradicional para deixar sua maravilhosa invenção nos levar. A palavra é protagonista tão importante em sua criação que temos a sensação de que vem antes do pensamento: Como poderei saber o que penso até que veja o que digo? (*) Sua arte é de tal forma envolvente, que quando relemos nossas anotações anos depois, não compreendemos mais do que se trata. É melhor recomeçar o livro, reentrar em seu espaço, é melhor ir direto a Clarice de, por exemplo, “Água Viva”: Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.

(*) Os Moedeiros Falsos, André Gide

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Livros de Clarice Lispector:

Perto do coração selvagem (1944)
O lustre (1946)
A cidade sitiada (1949)
Alguns contos (1952)
Laços de família (1960)
A maçã no escuro (1961)
A legião estrangeira (1964)
A paixão segundo G.H. (1964)
O mistério do coelho pensante (1967)
A mulher que matou os peixes (1968)
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969)
Felicidade clandestina (1971)
A imitação da rosa (1973)
Água viva (1973)
A vida íntima de Laura (1974)
A via crucis do corpo (1974)
Onde estivestes de noite (1974)
Visão do esplendor (1975)
A hora da estrela (1975)
Póstumos
Para não esquecer (1978)
Quase de verdade (1978)
Um sopro de vida (pulsações) (1978)
A bela e a fera (1979)
A descoberta do mundo (1984)
Como nasceram as estrelas (1987)
Cartas perto do coração (2001) (cartas trocadas com Fernando Sabino)
Correspondências (2002)
Correio Feminino (2006)
Entrevistas (2007)

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Abaixo, a última entrevista de Clarice, concedida para a TV Cultura de São Paulo no ano de sua morte:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

Parte 5:

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O Drible, de Sérgio Rodrigues

O Drible, de Sérgio Rodrigues

Vou iniciar a resenha pelo final, falando de meu enorme entusiasmo com o livro após a leitura. O Drible é um grande livro. Nunca é leve, mas o final é arrebatador de um modo shakespeareano. Sim, sei do tamanho do elogio.

Vamos a ele. Neto tem por volta de cinquenta anos, trabalha como revisor e é filho de Murilo Filho, célebre cronista esportivo carioca dos anos 60 e 70, que foi amigo de gente como Nelson Rodrigues, Mario Filho, João Saldanha, etc. Neto tem uma relação difícil com o pai, tanto que não se veem há décadas.

Também chamado de Dickens de Campos Sales por seu estilo de escrita e por ser torcedor do América-RJ, time de Campos Sales, Murilo era reverenciado em público, mas odiado em casa. Além da péssima e violenta relação com o filho, sua esposa Elvira jamais suportou sua vida de mulherengo autoritário. O pai sempre ignorou as vontades do filho único e o desprezou sem piedade. As desavenças dos dois começaram na infância e foram se prolongando até a idade adulta, quando, enfim, ambos cortaram relações. Neto nunca obteve a contrapartida de seu amor pelo pai e, agora que o velho passou a pedir por sua presença, espera um pedido de desculpas.

Como disse, um dia, ele recebe uma ligação de Murilo. O velho diz que está morrendo e que deseja voltar a vê-lo. Neto então viaja para o interior do estado do Rio onde o pai mora com o caseiro e sua mulher. Tudo o que Murilo faz é evitar os assuntos pessoais e familiares, desviando o assunto para o futebol. De início, Neto pensa que o homem está gagá, mas a maravilhosa descrição de drible de Pelé em Mazurkiewicz, por exemplo, e a rápida disposição de mudar de assunto quando a conversa fica mais séria, negam a demência.

Murilo então pede ao filho que leia um livro seu, o último que escreveu e que se chama Porque Peralvo não jogou a Copa e, em meio a história do jogador que nasceu na mesma cidade que Murilo, Neto irá descobrir algumas coisas de seu passado e de sua família.

O Drible mistura vozes narrativas e personagens ficcionais a personagens reais. O pai é amigo do grande mundo das celebridades cariocas da época. O filho é absolutamente anônimo e participava de uma dupla pop chamada Kopo Deleche & Kopo Derrum. Neto é tarado por música e faz constantes referências a seriados dos anos 70 — Perdidos no Espaço e O Túnel do Tempo, principalmente — enquanto Murilo Filho é 100% futebolista. De modo totalmente diverso, ambos são passadistas. Só falam de seus assuntos prediletos, preferindo ocultar seus dramas de uma forma muito masculina, sofrendo com eles internamente.

Escrito com um notável trabalho de linguagem, O Drible tem final decididamente grandioso com uma orquestração que leva a verdade a ser espreitada. A inesperada e incrível verdade. Um outro drible.

O livro foi finalista do Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Portugal Telecom. Acho que não ganhou nenhum deles. É inacreditável, mas há que considerar que existe muito preconceito de intelectuais contra o futebol. Pobres deles.

Recomendo fortemente!

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Camille Claudel, a escultora que viveu entre Rodin, o irmão e o manicômio

Camille Claudel, a escultora que viveu entre Rodin, o irmão e o manicômio
A escultora aos 17 anos, em 1881

A data de 8 de dezembro marca o nascimento de Camille Claudel (1864-1943). O cinema parece apreciar a trágica vida desta escultora, tanto que, recentemente, levou sua vida duas vezes às telas. Em 1988, em um filme chamado apenas Camille Claudel, Isabelle Adjani encarnou a aprendiz, assistente e depois amante de Auguste Rodin em extensivos e desesperados 175 minutos. Em 2013, outra belíssima atriz, Juliette Binoche, debulhou-se em lágrimas por 95 minutos em Camille Claudel, 1915. Os filmes são bem diferentes. O primeiro propõe-se a ser uma biografia completa; o segundo foca na internação de Camille no ano de 1915.

De forma esquemática, a biografia de Camille pode ser resumida assim: ela era uma talentosa escultora que, quando tornou-se amante de Rodin, caiu em desgraça junto à sociedade parisiense. Afinal, o escultor era casado, célebre e a ligação foi um escândalo. Após quinze anos de um tortuoso relacionamento, Camille rompeu e mergulhou cada vez mais na solidão e na loucura. Por iniciativa de seu irmão mais novo, o escritor Paul Claudel, foi internada em 1913 num manicômio.

Apesar da atuação escabelada de Isabelle Adjani e do excesso de lágrimas de Binoche, os dois filmes são corretos do ponto de vista histórico. Camille Claudel, 1915 dá a correta impressão de que a escultora foi vítima de uma injustiça. A personagem de Binoche foi internada indevidamente. Seu trabalho pregresso fica esquecido e tudo indica que a sociedade e seu irmão Paul desejavam apenas livrar-se dela.

Camille Claudel trabalhando com Rodin

Em 1881, com 17 anos, Claudel ingressou na Academia Colarossi, em Paris, uma escola que formava escultores. Entre seus mestres estava Auguste Rodin. É desta época que datam suas primeiras obras conhecidas: A Velha Helena e Paul aos treze anos.

A Velha Helena

Rodin, impressionado pela beleza de seu trabalho, recebeu-a como aprendiz de seu ateliê. Ela colaborou na execução de As Portas do Inferno (Les Portes de l’Enfer) e do monumento Os Burgueses de Calais (Les Bourgeois de Calais).

Com Adjani, filme escabelado e fiel

Ela trabalhou vários anos a serviço de Rodin, por quem era secretamente apaixonada. Ao mesmo tempo, criava suas próprias obras. Por vezes, a produção de um e outro eram tão semelhantes que não se sabia o que era do professor e o que era da aluna. Eles se apaixonaram e Camille Claudel enfrentou duas dificuldades, pois por um lado Rodin não conseguia decidir-se a deixar Rose Beuret e, por outro, alguns afirmam que suas obras seriam executadas pelo mestre. Triste em função das acusações e por Rodin manter outra mulher, Camille tentará se distanciar dele. Percebe-se essa tentativa de autonomia em sua obra tanto na escolha de temas como no tratamento dado a, por exemplo, A Valsa (La Valse) e A Pequena Castelã (La Petite Châtelaine). Esta tentativa de afastamento segue até o rompimento definitivo em 1898. A ruptura é marcada por A Idade Madura (L’Age Mûr).

Então ela sofreu um grande golpe. Rodin escolhe ficar com Rose. Ela concluiu que seu romance com Rodin não passou de uma aventura para ele. Ela se instala no hotel Quai Bourbon e seguiu seu trabalho em grande solidão. Apesar do apoio de amigos, ela não conseguiu superar o luto da separação. Eugène Blot organizou duas grandes exposições, esperando o reconhecimento e benefício financeiro para Claudel. As exposições tiveram grande sucesso de crítica, mas Camille já está doente demais para ouvir os elogios. Ela passa a desejar a morte de Rodin, enquanto revive a infância, com sua mãe tentando impedir que ela se tornasse uma artista.

Com Binoche, filme sóbrio e ficcional

Após 1905, os períodos paranoicos de Camille multiplicam-se. Ela crê em seus delírios. Ela acredita que Rodin roubará suas obras de arte para moldá-las e expô-las como suas. Também suspeita que o Ministério das Belas-Artes da França está em conluio com Rodin, e que desconhecidos querem entrar em sua casa para lhe roubar. Também chora muito, e passa a ter ideias de suicídio. Nesta época vive grande abatimento físico e psicológico, não se alimentando mais e desconfiando de todas as pessoas, achando que qualquer um a matará. Ela se isola, rompendo com os amigos. Mantém-se vendendo as poucas obras que ainda lhe restam.

Seu pai, a única pessoa pela qual guarda afeição, morre em 3 de março de 1913, o que acentua seu estado. Tem crises violentas em que destrói suas obras. Em 10 de março, é internada no manicômio de Ville-Evrard. O irmão Paul Claudel — que trabalha como Embaixador da França em vários países e é muito rico — nega-se a pagar uma pensão hospitalar para a irmã. Ele nada faz para amenizar o sofrimento de Camille, apesar de saber das condições sub-humanas em que viviam os internos da época. Rodin envia-lhe algum dinheiro e expõe algumas das esculturas que sobreviveram à destruição, mas nada faz para liberá-la do hospital. De qualquer maneira, sua iniciativa seria impedida pela mãe de Camille, que o considerava culpado pela ruína e loucura de sua filha. Uma total desgraça. Camille morreu em 1943, aos 78 anos, enterrada anonimamente em vala comum, sem nunca ter recebido uma visita de sua mãe.

A tragédia de Camille Claudel tem ingredientes que a potencializam. A cidade era Paris e ela estava envolvida com Rodin e com seu irmão Paul Claudel, um dos grandes escritores de sua geração na França. É certo que o preconceito de gênero tem seu papel no desespero da escultora. Ela foi sufocada por dois artistas respeitadíssimos em sua época. Um, seu mestre, por quem era apaixonada, a abandonou; outro, seu irmão, que parecia vê-la como um estorvo.

Como afirma o crítico Eugène Blot no filme com Isabelle Adjani, seu gênio criativo ultrapassou a compreensão de sua época.

Do hospital, Camille manteve por algum tempo correspondência com sua família e seus amigos. Às vezes, pedia à sua mãe alguns itens como chá, açúcar em cubinhos e café — “…café brasileiro porque é de excelente qualidade…”. Com seu irmão Paul, a intensidade das cartas chegou ao nível do emocionante. Paul, em seus escritos sobre a irmã, descreve o trabalho da artista:

“Da mesma forma que um homem, no campo, se serve de uma árvore ou de um rochedo ao qual seus olhos se prendem, a fim de acompanhá-lo em sua meditação, uma obra de Camille Claudel no meio do apartamento existe unicamente através de suas formas, assim como essas curiosas rochas colecionadas pelos chineses, como um tipo de monumento do pensamento interior, o tufo de um tema proposto a todos os sonhos. Ao passo que um livro, por exemplo, somos obrigados a ir buscá-lo nas prateleiras de nosso armário, uma música, a tocá-la, ao contrário, a peça trabalhada, de metal, ou de pedra, exala de si mesma seu encantamento, e a casa inteira é por ela penetrada”.

Camille Claudel: “O Abandono”
Camille Claudel: A Idade Madura
Detalhe de A Idade Madura
Camille Claudel: A Valsa
Camille Claudel: A Onda
Camille Claudel: Prière
Camille Claudel: Busto de Rodin

Fontes: http://www.pitoresco.com/, http://www.culturamidia.com.br/, http://www.artelivre.net/, http://www.artcyclopedia.com/ e os filmes citados.

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Bárbara e a neve

Bárbara e a neve

Hoje, por motivos que ignoro, me voltou à lembrança um daqueles momentos lindos da vida. Sim, eu tenho vários, alguns bem recentes, mas hoje lembrei foi deste.

Em fevereiro de 2013, estávamos em Praga, eu e minha filha. Ela tinha 18 anos. Foi uma viagem tranquila e cheia de bons momentos, só que este talvez tenha sido o que ficou gravado mais fortemente em minha memória.

Eu estava comprando ingressos para fazermos a visita às principais sinagogas do bairro judeu. Estava num guichê, pagando nossos ingressos para uma velha senhora, quando esta disse em inglês, com um ar sonhador e apontando vagamente com o indicador direito, como se estivesse numa cena de Fellini:

— I don’t think she ever saw the snow.

Eu me virei e a Bárbara estava girando, olhando para o céu, com as mãos espalmadas. E assim ficou durante os dez mágicos segundos que duram até hoje. Então ela me viu e disse, de um jeito muito feliz:

— Pai, tá nevando.

Foi só isso, mas foi lindo. Ok, coisa de pai. Mas garanto que foi tão bonito que só tirei fotos depois, quando ela já tinha voltado ao normal.

Abaixo, duas fotos daquele dia.

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A história do Viaduto Otávio Rocha, o viaduto da Borges, com belas fotos

A história do Viaduto Otávio Rocha, o viaduto da Borges, com belas fotos

Bernardo Jardim Ribeiro (fotos)
Nubia Silveira e Milton Ribeiro (texto)
Flavia Boni Licht (consultora técnica)

Um dos cartões-postais de Porto Alegre, localizado no cruzamento da Borges de Medeiros com a Duque de Caxias, o exuberante Viaduto Otávio Rocha abriga lojas de discos, lancherias, sebos, ourives, sapataria, barbearia, lanchonetes, floras e artesanato sob seus arcos e escadarias. Não é um simples viaduto para a passagem de carros e pedestres, pois ele possui, em ambos os lados da avenida Borges de Medeiros, amplas escadarias de acesso até o nível do viaduto, sustentadas por grandes arcadas, sob as estão os pequenos estabelecimentos comerciais e instalações sanitárias que citamos.

É um local de visitação obrigatória para quem procura discos raros em nossa cidade. Ainda no âmbito cultural e ao lado das escadarias, há o lendário Teatro de Arena e teve o Tutti até pouco tempo.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Vitor Murari, do Movimento Amigos do Viaduto, relatou a preocupação do movimento em manter a identidade do local como um ponto de cultura. “Há sempre boatos de que a sistemática que regra a relação dos permissionários com a prefeitura vai mudar, mas atualmente nossa preocupação é mesmo com as infiltrações de umidade”, disse.

“Nós cobramos a manutenção da prefeitura, que é a responsável, mas isso muitas vezes demora”. Vitor trabalha no Espaço Cultural Qorpo Santo, sala 1 do Viaduto, onde comercializa CDs, discos, livros e gibis.

Em 19 de setembro de 2008, uma lei municipal determinou que o espaço público superior do Viaduto Otávio Rocha passasse a ser chamado de “Passeio das Quatro Estações”. Cada uma das quatro escadarias passou a ser identificada por placas com o nome das estações do ano:

— Passeio Verão – com início na Rua Jerônimo Coelho e fim na Rua Duque de Caxias, lado direito do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Outono – com início na Rua Jerônimo Coelho e fim na Rua Duque de Caxias, lado esquerdo do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Inverno – com início na Rua Duque de Caxias e fim na Rua Coronel Fernando Machado, lado direito do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Primavera – com início na Rua Duque de Caxias e fim na Rua Coronel Fernando Machado, lado esquerdo do Viaduto, no sentido norte-sul.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

História

O Viaduto Otávio Rocha foi inaugurado em 1932. As obras começaram em 1926, durante o mandato do intendente Otávio Rocha (1924-1928), apesar de já estarem previstas no Plano Diretor de 1914. A decisão de abrir a Avenida Borges de Medeiros, ligando o Centro à Zona Sul da cidade, e construir o Viaduto foi de Otávio Rocha e do presidente do Estado, Borges de Medeiros. Naquela época, o número de porto-alegrenses não ultrapassava os 200 mil.

O projeto é dos engenheiros Manoel Itaquy e Duílio Bernardi. Os elementos ornamentais foram criados pelo escultor Alfredo Adloff. A estrutura do Viaduto é de concreto armado, sendo que o vão central mede 19,20 m. “Por suas marcantes características arquitetônicas e urbanas, bem como pela sua relevância sócio-cultural, o Viaduto foi tombado como patrimônio de Porto Alegre em 1988”, afirma Flavia.

O ator Paulo José, que ajudou a criar o Teatro de Equipe e em 1961 trocou o Rio Grande do Sul pelos palcos paulistas, lembrou do Viaduto Otávio Rocha, no discurso feito em 1999, ao receber da Câmara Municipal o título de Cidadão Porto-Alegrense:

“A família vinha de Bagé, de carro, era noite, eu cochilava no banco traseiro. Acordei quando entrávamos na Avenida Borges de Medeiros, ao lado da Avenida Praia de Belas, e aí eu vi imponente, monumental, maior do que a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e a de São Sebastião juntas, mais alto do que a Ponte Seca, mais bonito do que a casa do meu avô, o Viaduto Otávio Rocha. Depois, pela vida afora, vi outros espaços monumentais impressionantes: a Piazza San Marco, Veneza, o Arco do Triunfo, o Coliseu de Roma, o Palácio de Westminster, mas nenhum deles me fez o coração disparar como aquela visão dos meus oito anos. O Viaduto Otávio Rocha foi o meu primeiro alumbramento.”

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Lei do patrimônio

O presidente Getúlio Vargas e o ministro da Educação Gustavo Capanema assinaram em 25 de novembro de 1937 o Decreto Lei número 25, que organiza o patrimônio histórico nacional. A legislação define como patrimônio histórico e artístico nacional “o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”. Hoje, o tombamento de bens materiais imóveis (prédios) e móveis (mobiliário, obras de arte e elementos de uma construção como um lustre, por exemplo) e o registro de bens imateriais (festas, processos de criação, como o de rendas) ocorrem em quatro níveis: municipal, estadual, nacional e internacional, por meio da Unesco. Alguns bens têm sua importância reconhecida em todos ou quase todos os níveis. O Theatro São Pedro, de Porto Alegre, é um dos bens imóveis que estão tombados pela EPAHC – Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre, IPHAE – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul e IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Débora Magalhães da Costa, diretora da EPAHC, lembra que “muito antigamente só bens excepcionais, grandes monumentos, eram considerados patrimônio histórico”. Hoje, diz ela, são enquadrados nesta categoria “bens que fazem parte da vida de uma comunidade, que representam uma comunidade, uma etnia”. Para reforçar esta ideia, tanto Débora quanto Ana Beltrani, coordenadora técnica do IPHAN, citam o tombamento de 48 casas de madeira da cidade de Antônio Prado, na Serra Gaúcha, que contam a história da imigração italiana, feito pelo Estado e a União.

O bem tombado, ressalta Eduardo Hahn, diretor do IPHAE, não “pode ser destruído ou descaracterizado”. Isso não significa que não possa sofrer algumas intervenções, quando necessário, desde que aprovadas pelo órgão responsável pelo tombamento. Débora dá um exemplo: a Casa Torelly, reconhecida como patrimônio histórico pela Prefeitura, em 1987, hoje sede da Secretaria Municipal de Cultura, precisou passar por algumas adaptações para o seu uso atual. “Tombamento – ressalta Eduardo – não é desapropriação. É reconhecimento”.

Responsabilidades e vantagens

O proprietário particular de um bem tombado ou registrado é responsável pela sua conservação, manutenção e recuperação. O Estado, porém, é corresponsável. E, segundo a lei, se o proprietário não tem condições de cuidar do patrimônio, ele deve abrir um processo, provando a sua situação financeira. Neste caso, os cuidados ficarão a cargo do governo municipal, estadual ou nacional.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

No caso de ter um imóvel tombado pelo município de Porto Alegre, o proprietário pode escolher entre dois benefícios: solicitar o não pagamento do IPTU ou a transferência do índice potencial construtivo, o que lhe dá o direito de construir em outra parte da cidade o equivalente em metros quadrados que poderia ter construído no local tombado. Neste caso, o imóvel passa para a Prefeitura. Mas, como o município não tem interesse em ficar com os imóveis tombados, a Prefeitura retransmite o prédio para o proprietário por meio de um Termo de Cessão, afirma Débora.

Para as edificações privadas que estão na área de preservação do Programa Monumenta – em Porto Alegre, os arredores das praças da Alfândega e da Matriz — são oferecidos empréstimos a juros baixos para a conservação ou recuperação do local. Eduardo Hahn diz que no caso dos bens tombados pelo Estado, o que os proprietários podem ganhar é a isenção do IPTU, se a prefeitura do município concordar. É o caso dos proprietários das casas de Antônio Prado. O Estado também se propõe a investir por meio de renúncia fiscal, através da LIC – Lei de Incentivo à Cultura. Aí, é preciso ter paciência para fazer um projeto, apresentá-lo à Secretaria da Cultura e esperar pela aprovação.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Fiscalização

Este é um ponto sensível nos órgãos de patrimônio histórico. Todos se queixam de falta de estrutura para fazer uma fiscalização correta. Falta pessoal, faltam recursos, falta transporte. “A fiscalização é feita dentro do possível”, afirma Eduardo. “A equipe do Patrimônio Histórico é muito reduzida”. Ana Beltrani reconhece que nem sempre conseguem fiscalizar os bens tombados no interior do Estado. “Muitas vezes, por falta de carro”, diz.

Apesar da Lei de 1937 prever sanções e multas em réis, a moeda da época, Eduardo declara que atualmente “não há legislação que imponha multa ao proprietário que não cuidar do bem tombado”. Pode ser aberto um processo administrativo e, depois de muito tempo, ele ser condenado a fazer obras. Se provar que não tem recursos para isso, o Estado terá de fazê-las.

Mais fotos atuais:

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
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2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Fotos históricas:

Otávio Rocha e Borges de Medeiros tomaram a decisão de abrir uma nova avenida l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Em 1928, começava a nascer o Viaduto da Borges l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
A construção foi prevista pelo Plano Diretor de 1914 l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
O escultor Alfredo Adloff criou os ornamentos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Obra foi concluída em seis anos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Quando da construção do Viaduto, a população de Porto Alegre era de aproximadamente 200 mil habitantes l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
As obras começaram durante o mandato do intendente Otávio Rocha l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Em 1932, a obra foi inaugurada l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizard

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Lupicínio Rodrigues, o homem que chamava seu carro de Vingança

Lupicínio Rodrigues, o homem que chamava seu carro de Vingança
Foto: CP Memória

Lupicínio Rodrigues foi um caso único de compositor de sucesso a viver na região Sul do Brasil durante as décadas de 30, 40 e 50, isto é, no auge da era do rádio. Para dar ideia da dimensão de seu talento, podemos dizer que ele era conhecido como compositor de sambas-canção intimistas numa época em que reinava o samba-exaltação e os boleros de tenores gritadores. E, se quisermos deixá-lo ainda mais fora do mainsteam, podemos acrescentar que Lupi vinha com canções que, apesar de belas, traziam sombras de tragédias íntimas. Outra particularidade sua, era o fato de ser cru nas situações conjugais que descreve. O quadro de originalidade se completa no exame do cantor – de voz pequena, intimista e embargada – e do instrumentista, que nunca foi além da percussão na caixa de fósforos.

A inusitada veracidade dos casos de amor descritos por Lupicínio Rodrigues permitiram que ele criasse a expressão de uso comum “dor-de-cotovelo”. Esta é brilhante, pois une a dor aguda de uma boa batida no cotovelo, assim como caracteriza as pessoas que perderam seus amores e vão aos bares apoiarem-se nas mesas e balcões de bar, afundando suas mágoas em largas doses de uísque. Ela é o melhor resumo da temática principal da obra de Lupi, unindo amores perdidos, dores e a boemia. As canções mais famosas de Lupicínio são variações sobre o tema do amor perdido, como meus sete leitores podem conferir abaixo:

Em Nervos de Aço, ele canta

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer.

Em Vingança,

Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar.

Em Cadeira Vazia,

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia.

Em Esses Moços,

Esses moços, pobres moços
Ah! Se soubessem o que eu sei
Não amavam, não passavam
Aquilo que já passei.

Em Nunca,

Nunca
Nem que o mundo caia sobre mim,
Nem se Deus mandar,
Nem mesmo assim,
As pazes contigo eu farei
Nunca
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei.

Em Aves daninhas,

Se eu vou a uma festa sozinha
Procurando esquecer o meu bem
Nunca falta uma engraçadinha
Perguntando, ele hoje não vem?

Em Se acaso você chegasse,

Se acaso você chegasse
No meu chateau e encontrasse
Aquela mulher
Que você gostou.

Em Volta,

Volta
Vem viver outra vez a meu lado
Não consigo viver sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado.

Em Quem há de dizer,

Quem há de dizer
Que quem você está vendo
Naquela mesa bebendo
É o meu querido amor
.

Nascido em 16 de setembro de 1914, Lupi foi aprendiz de mecânico na Carris, mas nas horas vagas só queria saber de samba. Atrasava-se sistematicamente. Depois serviu no Exército, onde teve de cumprir várias detenções por indisciplina. Motivo: chegava de ressaca nos alojamentos. Como poderia largar seus compromissos imperativos com a boemia e os versos musicados? Para deixá-lo mais comprometido, naquela época, no começo dos anos 30, o mais importante elogio que recebera viera da parte de Noel Rosa.

— Esse garoto é bom. Vai longe!
Já fora do Exército, Lupi conseguiu emprego como bedel da Faculdade de Direito. Mas 1935 não foi apenas o ano do início de seu trabalho na UFRGS e da briga com com seu grande amor, Iná. Foi o ano em que ele venceu o concurso de músicas da Prefeitura com Triste história, escrita em parceria com Alcides Gonçalves. Eram 2 contos de réis a mais no orçamento. Aliás, Alcides era o maior divulgador da música do boêmio Lupicínio. Enquanto Lupi ia de bar em bar, sem sair de Porto Alegre, ele cantava Quem há de dizer, Maria Rosa, Cadeira Vazia e Castigo, entre outras, em seus shows.

Outro canal de difusão era bem mais curioso. Quem levou Se acaso você chegasse ao Rio de Janeiro foram os marinheiros que visitavam a “zona e a zona boêmia” de Porto Alegre, onde suas canções eram bem conhecidas. A música chegou aos ouvidos dos executivos da RCA carioca, que quiseram saber quem era o autor. E Se acaso você chegasse foi gravada em 1938 por um cantor iniciante, Ciro Monteiro.

Foi nessa época que ocorreu o rompimento mal explicado com Alcides Gonçalves. Sempre vítima — fingida ou não — de mulheres enganadoras e volúveis, Lupi seguia compondo com qualidade. Mas a distância dos escritórios das gravadoras, localizados na ex-capital federal, ainda atrapalhava. A forma para driblar a dificuldade foi a de utilizar um recurso muito comum na história da MPB: dar parceria a alguém que não compusera nada, mas que tivesse as chaves das portas das gravadoras.

Foi a consagração. Francisco Alves alcançou grande sucesso com Cadeira Vazia, Nervos de Aço, Esses Moços, Pobres Moços. Mas o maior êxito foi o suprassumo da cornitude: Vingança. A canção foi lançada em 1951 pelo Trio de Ouro e logo depois imortalizada com escárnio e ódio de Linda Batista. Na época, vários casos de suicídio foram atribuídos à carga emocional da canção.

Com Vingança, Lupícinio não apenas libertou-se das parcerias de conveniência, mas viu-lhe abertas as portas das boates paulistas e cariocas. O fluxo inverteu-se: agora eram os cantores que procuravam Lupi. Isaurinha Garcia (Nunca), Nora Ney (Aves daninhas), Luiz Gonzaga (Jardim da Saudade) foram alguns dos cantores famosos que obtiveram canções do compositor.

Aposentado por motivo de saúde da Faculdade de Direito, Lupi passou a uma vida folgada do ponto de vista financeiro. Permaneceu o mesmo boêmio que chegava em casa sempre antes das 4h da manhã por imposição da esposa, mas agora voltava em seu carro, apelidado de Vingança. Segundo relatos, quando casou com Cerenita Azevedo, chegou à cerimônia dormindo, pois passara a noite em monumental farra de despedida de solteiro.

Cantando paixões em seus sambas-canção, teve a morte de sua arte várias vezes anunciada. Em 1960, a Bossa Nova acabaria com Lupi. Só que apareceu Elza Soares e relançou brilhantemente — com direito a scat singing e a todos os recursos vocais da futura mulher de Garrincha — Se acaso você chegasse. Num tempo em que ninguém mais tentava suicídio com Vingança, a regravação de Elza fez sucesso internacional.

No início dos anos 70, o tropicalismo e o rock acabariam com Lupi. Mas quem veio abraçá-lo? Em 1971, João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa gravaram Quem há de dizer? No ano seguinte, Gal Costa lançou uma afinadíssima e emocionante Volta. Em 1974, Caetano matou a pau com uma versão de uma canção de Lupi que já tinha 43 anos de idade: Felicidade. Dias depois, Gil fez o mesmo com Esses Moços, Pobres Moços. E, para completar, Paulinho da Viola deu-nos a versão definitiva de Nervos de Aço.

Quando o grande Lupicínio Rodrigues morreu, no mesmo ano de 1974, era popular não apenas entre os velhos ouvintes do rádio dos anos 30 e 40 como entre os jovens.

* Fonte consultada:
— Fascículo dedicado a Lupicínio Rodrigues da História da Música Popular Brasileira

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Os 26 dias e as histórias que separam Abbey Road do Led Zeppelin II

Os 26 dias e as histórias que separam Abbey Road do Led Zeppelin II
Ainda em fila, John, Ringo, Paul e George esperam o momento de atravessar Abbey Road de volta

Abbey Road foi lançado em 26 de setembro de 1969 na Inglaterra. Led Zeppelin II saiu menos de um mês depois, em 22 de outubro. Coincidências unem os dois esplêndidos discos (ou LPs, pois estamos na época do vinil) que estão em qualquer seleção que relacione os “melhores de todos os tempos”. Curiosamente, o primeiro parece encerrar uma era, enquanto o segundo inaugura outra. Para quem veio de Marte, informamos que Abbey Road foi o 12° álbum lançado pela fundamental banda britânica The Beatles. Já Led Zeppelin II é o 2°  álbum do importante grupo denunciado no título.

Abbey Road foi o último disco dos Beatles a ser gravado e o penúltimo a ser lançado. As canções do último disco, Let It Be, foram gravadas alguns meses antes das sessões de Abbey Road. Este representou uma trégua nas brigas que levaram Let it be a não ser lançado logo após sua gravação. Foi um breve retorno aos velhos tempos, com a recolocação de George Martin como produtor. Mas há ainda claros ecos da confusão em que estava metido o grupo: o vinil tinha (digamos que tem ainda) dois lados bem distintos entre si, com a finalidade de satisfazer aos egos um tanto inchados e ressentidos de John Lennon e Paul McCartney. Apesar dos dois lados terem canções de ambos, o lado A, que começa com Come Together e vai até I want you (She`s so heavy), é a parte do disco concebida por John Lennon e é uma coleção de canções individuais. Já o lado B, o de Paul McCartney, logo após Because, contém uma sequência de músicas propositadamente inacabadas criadas pela dupla.

Curiosamente, cada um dos lados foi brindado por uma obra-prima de George Harrison: o lado Lennon ganhou Something e o lado McCartney recebeu Here comes de sun.

O Led Zeppelin em 1969

Antes de seguirmos com Abbey Road, vejamos o que acontecia na época com o Led Zeppelin. Em outubro de 69, o Led tinha um ano e um mês de vida. A banda era formada pelo guitarrista Jimmy Page, o vocalista Robert Plant, o baixista e tecladista John Paul Jones e o baterista John Bonham. Page começara sua carreira como músico de estúdio em Londres e, em meados da década de 1960, era o guitarrista mais procurado pelas gravadoras na Inglaterra. Entre 1966 e 68, ele foi um dos Yardbirds. Primeiramente, o nome da nova banda era New Yardbirds. Porém, quando as gravações daquele que seria o Led Zeppelin I viraram coisa séria, a banda concluiu que tinha personalidade para merecer um nome sem cordão umbilical. O nome Led Zeppelin surgiu depois que os amigos do The Who — Keith Moon e John Entwistle — comentaram que o supergrupo seria um “balão de chumbo” (do inglês “lead zeppelin”). A palavra “lead” é propositadamente escrita com erro.

O Led Zeppelin é reconhecido como um dos iniciadores do heavy metal e seu LP de 1969 é o mais pesado de todos. Mas não precisamos ser muito atentos para notarmos que a origem do som do grupo está no blues e no folclore inglês. Diferentemente do LP dos Beatles — todo ele gravado no conforto do estúdio de Abbey Road –, o do Led Zeppelin foi feito de forma cigana. Afinal, o grupo passou o ano de 69 excursionando pela Europa e Estados Unidos e cada canção foi gravada, mixada e produzida separadamente em vários estúdios, alguns dos quais eram tecnicamente bastante pobres. Por exemplo, um estúdio em Vancouver foi creditado como “cabana”, pois tinha um equipamento de oito canais que nem sequer possuía conexões para fones de ouvido.

Contrariamente, Abbey Road é o mais bem acabado de todos os discos dos Beatles, comparável somente a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Sua estrutura foi bastante pensada e discutida, e as visões discordantes dos integrantes da banda só contribuíram para a riqueza da criação final. Trata-se da última explosão de criatividade do grupo, capitaneada pelo produtor George Martin. Enquanto isso, Led Zeppelin II tem sua unidade advinda justamente da falta de tempo e de reuniões formais. O baixista John Paul Jones, anos depois, disse que “muitos dos riffs que Page executa nesse álbum haviam surgido no palco, durante as longas improvisações que fazia durante a canção Dazed and Confused. Depois dos shows, os membros da banda tentavam recordar os melhores trechos, que eram imediatamente gravados em algum estúdio nas proximidades. A produção do disco é creditada a Jimmy Page.

A capa do Led Zeppelin II

A capa do Led Zeppelin II tem uma história curta, se comparada com a série de interpretações — loucuras absolutas — suscitadas por Abbey Road. O projeto da capa foi baseado em uma fotografia da Divisão Jagdgeschwader 1 (Esquadrão de Combate nº 1) da Força Aérea Alemã, o famoso “Circo Voador” liderado por Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho da Primeira Guerra Mundial. Depois que a foto foi matizada, os rostos dos quatro integrantes da banda — retirados de uma publicidade de 1969 — foram retocados e colocados na foto. Também foram incluídos os rostos do empresário da banda, Peter Grant. A mulher na foto é Glynis Johns, a atriz que interpretou a mãe de Mary Poppins no filme da Disney. A presença dela é uma piada interna. O nome do engenheiro de gravação era Glyn Johns, ou seja, eram quase homônimos. Também foi incluído o astronauta Neil Armstrong, recém chegado da Lua. A campanha publicitária dizia “Led Zeppelin – A única maneira de voar”.

A foto-base da capa.

Como dissemos, o disco é certamente o trabalho mais pesado da banda. Ele inicia com o agressivo riff de Whole lotta love, seguindo com a What is and what should never be, um gênero de canção que se tornaria típica do Led Zeppelin ao alternar momentos suaves com “pauleiras”. Nos anos que se seguiram a seu lançamento, Led Zeppelin II era citado por críticos musicais como um modelo a ser seguido por bandas de heavy metal. Músicas derivadas do blues como Whole lotta love, Heartbreaker, The lemon song, Moby Dick e Bring it on home foram vistas, na época, como grandes novidades, pois os riffs de guitarra definiam e puxavam as canções, em lugar do refrão. A absoluta ênfase no instrumental era atípica na música popular. O solo de guitarra de Page em Heartbreaker, foi uma grande inspiração para o trabalho posterior de solistas de metal. Como tal, o álbum é geralmente considerado como muito influente no desenvolvimento do rock, sendo um dos precursores do heavy metal, inspirando uma série de outros grupos de rock, incluindo Aerosmith, Iron Maiden, Guns N’ Roses e até seu contemporâneo Black Sabbath.

A famosa capa de Abbey Road

Abbey Road tem a mais famosa capa de um disco. A fotografia da capa do álbum foi tirada do lado de fora dos estúdios Abbey Road em 8 de agosto de 1969 por Iain Macmillan. A sessão durou dez minutos. John Lennon estava apressado e queria tirar a foto e sair logo dali, pois “deveríamos estar gravando e não posando para fotos idiotas”. A ideia da foto de capa foi de Paul McCartney. Macmillan tirou apenas seis fotos sobre um cadeira colocada no meio da rua. Paul McCartney escolheu a que achou melhor. Nove entre cada dez turistas vão até aquele bairro residencial ver a rua e repetir a famosa foto idiota com amigos. O estúdio ainda está lá, funcionando, bem na frente do fusca branco.

A capa foi objeto de toda sorte de rumores e teorias de que Paul estaria morto, vítima de um acidente de carro em 1966. Apesar de ter sido apenas uma brincadeira, vale a pena conhecer a lenda. Como se vê ao lado, na capa do LP, os Beatles estão simplesmente atravessando a rua numa faixa de segurança a poucos metros do Estúdio Abbey Road.

Porém… Ela estaria lotada de “pistas” que demonstrariam que Paul tinha morrido. Paul está descalço — segundo ele, aquele dia fazia muito calor, e ele não estava aguentando ficar com nada nos pés. Além disso, estava fora de passo com os outros três e de olhos fechados. Apesar de ser canhoto, leva o cigarro na mão direita. A placa do fusca (“beetle” em inglês) estacionado é “LMW”. É claro que isso significa “Linda McCartney Widow” ou “Linda McCartney (mulher de Paul) Viúva. O complemento da placa é “281F”, referindo-se ao fato de que McCartney teria 28 anos se (if em inglês) estivesse vivo. (O I em “28IF” é um “1”, mas isso é difícil de se ver na capa). Para piorar, os quatro Beatles da capa representariam o padre (John, cabelos compridos e barba, vestido de branco), o notário responsável pelo funeral (Ringo, de terno preto), o cadáver (Paul, de terno, mas descalço como um cadáver), e o coveiro (George, em jeans e uma camisa de trabalho). Além disso, há um outro carro estacionado, de cor preta, um modelo usado para funerais, voltado para o lado do cemitério próximo a Abbey Road. O homem de pé na calçada, à direita, é Paul Cole, um turista dos EUA que só se deu conta de que tinha participado da capa de disco mais famosa de todos os tempos meses depois.

Aparentemente, Paul McCartney está vivo e produzindo até hoje.

E foi uma capa nada planejada. Durante as gravações, o engenheiro de som Geoff Emerick fumava muito os cigarros da marca Everest. Então, ficou decidido que este seria o nome do disco. Eles até pensaram em fretar um jato e ir até o Everest tirar umas fotos. Mas, como estavam em cima do prazo, decidiram atravessar a rua.

Abbey Road é o disco mais vendido dos Beatles. A abertura vem com Come Together, maravilhosa canção de Lennon. Inicia com um “chuuunc!” (na veia) que era a gíria para o uso de heroína. McCartney e o produtor George Martin deixaram o baixo bem alto de forma a evitar problemas com a justiça. Depois vem a célebre Something, de Harrison. Até Frank Sinatra gravou. Outras músicas famosas do disco são a brincadeira anos 50 feita em Oh! Darling, o coral de Because — ambas de McCartney –, e a outra e esplêndida colaboração de Harrison Here comes the sun. Mas o que distingue Abbey Road de tudo o que fora feito antes pelos Beatles é a sequência de nove canções inacabadas no final do disco: You never give me your money, Sun King (com parte de sua letra feita de palavras que não existem), Mean Mr. Mustard, Polythene Pam, She came in through the bathroom window, Golden slumbers, Carry that weight, The end e Her Majesty. Elas finalizam também a história do grupo.

Já o Led Zeppelin seguiria aprontando por mais sete discos. Alguns deles realmente espetaculares. Mas esta é outra história.

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Atrás do Balcão da Bamboletras (XXX)

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXX)

Ganhamos do Correio do Povo o Prêmio Jacarandá como melhor Instituição Cultural de 2020. Resistimos entregando livros. Pensa que é mole?

Na foto, Caroline Joanello, Sofia Salinos, Gustavo Ventura Gomes, Osvaldo Filho, Bruno Aneres, Eliane Putrique Vicente e eu, com o troféu.

A Lili entrou de gaiata na foto. Está trabalhando remotamente.

Quando houve a bonita cerimônia de entrega do Prêmio Jacarandá na sede do Correio do Povo, a Bamboletras acabou não levando o troféu porque nele estava escrito algo como “Melhor Autor”… O equívoco foi corrigido e hoje eu e Elena fomos buscá-lo.

Fazia muito tempo que não caminhávamos juntos na rua, estávamos felizes e, após pegarmos o troféu, ela me propôs atuarmos como pessoas normais e fomos ao Café À Brasileira ali na Uruguai. A Elena tem saudáveis tendências hedonistas.

Como é bom o espresso deles! Que saudades da vida normal! Depois desta ousada iniciativa, levei a Elena pra casa e fui para a Livraria Bamboletras levar a honraria. Que bom ver reconhecido o enorme esforço de nossa livraria para resistir.

Obrigado, Correio do Povo! Obrigado, equipe da Bamboletras!

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Atrás do balcão da Bamboletras (XXIX)

Atrás do balcão da Bamboletras (XXIX)

O cliente entra na Bamboletras, pede ‘Torto Arado’. Eu ouço ‘Touro Tarado’.

Depois de rápida perplexidade, dou-me conta e respondo:

— Claro, temos. O livro acaba de ganhar o Jabuti, né? Como não teríamos?

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Após linchamento moral, Diógenes Oliveira lança livro que conta sua longa e rica trajetória

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

Publicado em 10 de novembro de 2014 no Sul21

Após uma longa trajetória de lutas — muitas delas travadas com armas na mão ou sob tortura –, Diógenes Oliveira ficou famoso no Rio Grande do Sul por uma verdadeira campanha de difamação, cujas acusações jamais foram comprovadas. A enxurrada de denúncias, que incluíam envolvimento com o crime organizado e financiamento de campanhas políticas através do jogo do bicho, vinham em manchetes de capa acompanhadas de fotos. Após mais de cinco anos respondendo a processos, Diógenes livrou-se de todos. Só que a sequência de absolvições eram veiculadas em pequenas notas nas páginas internas. As marcas deste linchamento moral persistem até hoje.

Diógenes, o Guerrilheiro narra mais de meio século de sua vida. Combateu o Golpe de 64, foi preso e torturado. Fez treinamento militar em Cuba. Passou 20 anos no exílio. Morou em dez países diferentes: Uruguai, Cuba, México, Bélgica, Chile, Guiné Bissau, Coreia do Norte, Líbia e China Continental. Teve presença ativa em quatro golpes ou revoluções: no Brasil, Chile, Portugal e Guiné Bissau. Mas suas últimas lutas ocorreram longe das armas: foi como Secretário de Transportes do Prefeito Olívio Dutra, após a intervenção nas empresas de transporte coletivo em Porto Alegre e durante a CPI da Segurança Pública. Nesta entrevista, Diógenes faz um resumo de seus 72 anos de vida.

2014.11.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Entrevista exclusiva com Diógenes Oliveira. | Foto: Ramiro Furquim/Sul21.com.br

“Eu tinha um certo pânico de aparecer na imprensa, porque antes era só paulada. Tudo isso era potencializado nas campanhas eleitorais”.

Milton Ribeiro – O sr. foi manchete por muito tempo.

Diógenes Oliveira – É verdade. A RBS me colocou por semanas continuamente na capa de seus jornais, com fotos e grandes manchetes. Sofri um linchamento moral que deve ter sido inédito, porque eu não era político, nunca fui deputado, nunca foi vereador. Foi desproporcional. Por trás de tudo isso, eles queriam o impeachment do Olívio, isso era o que estava na pauta. Queriam nos acusar de ligações com o crime organizado, queriam tirar o governador algemado do Palácio, essa era a intenção dos caras. Meu livro está cheio de informações, mas, por conselhos de amigos, retirei algumas coisas. Se eu abro tudo, seria um Deus nos acuda.

MR – Comecemos então pelo motivo de publicar o livro neste momento.

Diógenes – Este livro está sendo escrito com dez anos de atraso. Se ele fosse publicado no auge da CPI, seria um best seller. Nos primeiros anos destes acontecimentos, fiquei ilhado por ações judiciais. Na porta da minha casa tinha uma fila de oficiais de justiça.

MR – Tinha inclusive a loira.

Diógenes – Ah, é! (risos) A oficial de justiça loira que me visitava! Os vizinhos brincavam que eu andava bancando o garanhão do bairro. Então, na época, não escrevi o livro porque estava muito enrolado judicialmente, levei vários anos para me desenrolar.

MR – Agora o senhor está totalmente livre das ações?

Diógenes – Sim, porque as acusações eram falsas e eu fui absolvido em todas as ações. Uma segunda razão para o atraso do livro é que eu tinha um certo pânico de aparecer na imprensa, porque antes era só paulada. Tudo isso era potencializado nas campanhas eleitorais. Eu não sabia bem o que fazer, se me escondia, se saía à luz do sol. Quando as coisas se acalmaram e meu nome começou a ficar mais, digamos assim, esmaecido, veio a questão da minha anistia. Eu tramitei um requerimento no Ministério da Justiça durante cinco anos e meio pedindo minha anistia, de acordo com a lei. Tarso Genro era ministro naquela época. Bom, quando veio, eu sofri um novo linchamento midiático por parte do Elio Gaspari.

MR – Em que ano foi isso?

Diógenes – Em 2008, 2007. A CPI foi em 2001, no fim do governo do Olívio. Os anos de 2001 a 2006, foram infernais: manchetes, campanhas eleitorais, novas desconfianças e processos judiciais, tudo em paralelo. Quando isso acalmou, veio a minha anistia em portaria publicada no Diário Oficial da União. Aí o Elio Gaspari desencadeou uma campanha midiática muito violenta contra mim. O Juremir Machado da Silva entrou na trilha do Elio Gaspari. A campanha que o Gaspari desenvolveu foi muito sórdida, porque ele tem uma coluna nacional, publica em duzentos jornais pelo país… Eu juntei toda uma papelada para processá-lo, eu já não aguentava mais. Foi minha ex-mulher que entrou na justiça contra ele, contratou o Fábio Konder Comparato e só não colocou o Elio na cadeira porque não quis. E aí ele parou. Hoje estou com 72 anos. Um filho se formou em jornalismo, outro em direito. Os amigos sempre me perguntavam pela biografia. Ano passado estive muito doente, estive mesmo nos umbrais da morte. Então pensei: é agora ou nunca. E aí resolvemos escrever. Antes era muito cedo e depois talvez fosse tarde demais.

“Tu pra padre já não deu, mas pra alienado eu acho que tu também não serve, tu é um guri esperto. Então eu acho que tu vai ser comunista”.

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

MR – Então vamos voltar no tempo.

Diógenes – Minha família era proprietária de terras, médios proprietários de terra. Eu sou natural de Júlio de Castilhos, antiga Vila Rica, cidade que leva este nome por causa do pai do Antônio Chimango. Ele nasceu lá, o próprio Júlio de Castilhos nasceu lá. Era uma antiga redução jesuítica chamada Nossa Senhora da Natividade. Uma redução que os padres fizeram meio escondida para esconder o gado dos bandeirantes que, quando não conseguiam escravizar os índios, levavam as tropas. Eu não tinha condições de estudar em colégio nenhum, então meus pais resolveram me colocar num seminário, porque era de graça. Mas eu não tinha nenhuma vocação pra aquilo. Fiquei lá uns anos e vim pra Porto Alegre.

MR – A política já fazia parte da sua vida?

Diógenes – Eu tive a sorte de, na minha cidade, haver um único comunista, que era casado com uma prima-irmã do meu pai. O cara me chamou quando soube que eu queria vir para Porto Alegre e disse: “Tu pra padre já não deu, mas pra alienado eu acho que tu também não serve, tu é um guri esperto. Então eu acho que tu vai ser comunista”. E me deu um bilhetinho para que eu procurasse a professora e poetisa Lila Ripoll. Procurei e ela foi minha tutora. Fui pupilo da Lila até depois de entrar para a clandestinidade. Foi ela que me iniciou no marxismo, na bibliografia toda, ela reunia grupos de jovens em sua casa. A Lila era comunista de carteirinha, clássica.

MR – Isso foi o quê, nos anos 50?

Diógenes – Sim, sim. Anos 50. Eu sou de 1942. Tive o privilégio de ter uma boa formação teórica por causa da Lila. Ela era uma pessoa maravilhosa, muito querida pela intelectualidade rio-grandense. Essa foi a minha infância e nisso veio a Legalidade.

MR – O sr. já estava na universidade?

Diógenes – Não, eu era secundarista. Na Rua da Ladeira tinha um colégio, o Monteiro Lobato — não é o de hoje –, onde eu estava estudando. E veio a legalidade, ou seja, a renúncia do presidente Jânio Quadros, aquele tumulto e tal. O Brizola tentou trazer o Jânio pra cá, mas ele tinha outras coisas em vista. E montou-se aqui todo aquele mecanismo de resistência que eu procuro mais ou menos em meu livro. Formou-se um QG da Legalidade onde hoje é prédio do Tudo Fácil. Ali tinha um museu chamado Mata-Borrão. Ali é que se formou o QG da resistência. O movimento da Legalidade foi muito intenso e a participação popular foi muito massiva. Os nossos lideres foram o Pedro Alvarez, o Peri Cunha, que também era coronel, e o Álvaro Ayala. Eu era um pirralho. Tínhamos armas. O Brizola requisitou a produção da Taurus e da Rossi e pegou o que tinha nas casas de caça e pesca. Eu consegui uma pistola italiana para mim, mas a gente desejava mesmo eram os “três oitão” da Taurus. O movimento durou pouco tempo porque o Jango voltou logo. Ele não podia ficar muito tempo fora do país, senão os caras consolidavam outra situação. E ele chegou aqui, se enfurnou no Palácio, não saiu dali, não falou com ninguém, não deu discurso nem nada, fez o acordo do parlamentarismo e foi para Brasília. Depois, ele começou um governo bastante reformista. E nós com uma consciência clara de que haveria, em reação, um golpe militar. Eu tinha dupla militância, militava no Partido Comunista e junto com o pessoal do PTB, do antigo PTB. O PTB sabia que muitos de nós tínhamos essa duplicidade e apoiava. Não houve resistência ao golpe. Nós esperávamos uma ordem, mas o Brizola mandou dispersar todo mundo e entregar as armas. Não queria derramamento de sangue. Ele tinha uma fazenda no Uruguai que ficava na linha imaginária da fronteira. Então, sem sair da propriedade, ele emigrava. E foi o que fez. Emigrou. Nós iniciamos um período muito grave de tentativa de resistência armada ao golpe. Víamos o novo governo como resultado de uma quartelada. Foram inúmeras tentativas, todas elas foram abortadas pelo serviço de inteligência da ditadura e dos Estados Unidos. Não conseguimos nada. Não demos sequer um tiro. Eles abortavam tudo na antevéspera e sempre prendiam as lideranças. Lá por 1965, eu já era conhecido pela repressão e trabalhava na Companhia Estadual de Energia Elétrica.

“Em Montevidéu, concentrava-se a maioria de lideranças. Estavam lá para não serem presos. Dali eu fui para Cuba a fim de fazer treinamento militar”.

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

MR – Que cargo o sr. ocupava na CEEE?

Diógenes – Eu era escriturário concursado, mesmo sendo secundarista. Tanto que só consegui a anistia por ter sido funcionário da CEEE. Quem me deu a documentação necessária para embasar o pedido foi ninguém menos do que a Agência Brasileira de Inteligência. Eles tinham tudo a meu respeito.

MR – E aí em 1965, com 23 anos, o senhor foi para o Uruguai.

Diógenes – Havia milhares de brasileiros por lá, principalmente marinheiros e sargentos. Porque houve aquela tentativa de revolta dos sargentos em Brasília, depois aquela movimentação toda dos marinheiros no Rio de Janeiro e aquela famosa assembleia do sindicado dos metalúrgicos. Em Montevidéu, concentrava-se a maioria de lideranças. Estavam lá para não serem presos. Dali eu fui para Cuba a fim de fazer treinamento militar. Fiquei lá quase um ano e o meu destino seria uma coluna guerrilheira na Bolívia, bem no local onde Che Guevara veio a morrer. Só não fui porque, quando eu descia Sierra Maestra, surgiu a notícia de que o Che havia sido localizado. E, quando isso aconteceu, os americanos imediatamente fizeram o chamado cerco estratégico, em que não entrava nem saia ninguém da região. O cerco estratégico do Che na Bolívia durou meses. Eu e meu grupo retornamos para Montevidéu e procuramos o Brizola. Ele não queria saber da luta armada. Nós tínhamos muitas armas, armaram-nos muito bem. O Brizola queria que nós nos desarmássemos. Mas a gente saiu de Montevidéu com nossas armas. Viemos para Porto Alegre, mas o pessoal achava que eu era muito conhecido aqui, e me mandaram para São Paulo. Cheguei em São Paulo no ano de 67. Lá estava se reestruturando aquele pessoal todo do Uruguai, depois do recuo do Brizola. A grande maioria daqueles sargentos e marinheiros começou a se reorganizar em São Paulo e fundaram a VPR, Vanguarda Popular Revolucionária. Essa organização surgiu em São Paulo porque lá tinha um forte núcleo operário, oriundo do antigo partidão. Tínhamos a hegemonia absoluta do movimento operário de Osasco e de São Caetano, com bases operárias fortíssimas. E, devido a isso e à presença de sargentos das três armas e de marinheiros, é que se fundou a VPR. Então começamos os assaltos a bancos e aos quartéis.

MR – E em um deles o sr. acabou preso?

Diógenes – Eu fui preso na Praça da Árvore em São Paulo. Fui encontrar um companheiro e a polícia estava bem defronte, numa banca de revistas. Me atiraram na caçamba de uma daquelas caminhonetes Veraneio. Eu fiquei um ano preso, seis meses na solitária. Nem mosquito tinha. Seis meses na solitária.

MR – O sr. foi muito torturado?

Diógenes – Sim. Eu tenho um joelho de titânio, resultado do pau de arara. E o olho… Eu tinha uma prótese no olho. Eles tiraram a prótese para dar choque lá dentro. Fiquei com muitas sequelas, coisas que não vou falar. Estava no Carandiru em isolamento absoluto. Quem ia para lá eram os destinados ao corredor da morte.

“Mas aí não deu porque o Marighela nos avisou: ‘Se vocês continuarem enrolando, o passarinho vai voar’”.

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

MR – Fale sobre a atuação da luta armada em São Paulo.

Diógenes – Em São Paulo, nossa atuação se caracterizou basicamente por duas coisas: pegar dinheiro dos bancos e armas dos quartéis. O primeiro quartel que nós pegamos foi a guarnição do Hospital Militar do Bairro do Cambuci. Conseguimos um arsenal razoável lá. E aí o comandante ficou uma arara com a gente. Ele disse que os terroristas eram uns covardes, que tinham assaltado um hospital, uma guarnição de recrutas, que “achavam que tinham almoçado o exército mas que o exército iria jantá-los em breve”. A luta armada em São Paulo teve o episódio da morte do capitão Chandler, um americano que era criminoso de guerra do Vietnã. O Chandler operou no Sul do Vietnã. A especialidade dele eram os interrogatórios rápidos. O método dele era o de botar o cara pelado, deitado numa mesa. Aí, encostava uma barra enferrujada no umbigo do cara. A barra tinha uma graduação em escalada métrica. Eles perguntavam: “Onde é que está o fulano?”. “Não sei”. Para cada “não sei” era um centímetro a mais na barriga. Era falar ou morrer, questão de minutos. Os americanos tiraram-no do Vietnã, condecoraram-no como herói da pátria e o mandaram pro Brasil a fim de ensinar essa técnica para a polícia brasileira. Mandaram o Chandler para São Paulo e o Mitrione para Montevidéu. O Mitrione era chamado de “O Professor de Tortura” e foi morto pelos Tupamaros. E nós pegamos o Chandler. Ela já tinha uma sentença de morte no Vietnã. Só não foi executado porque saiu de lá, fugiu. E nós queríamos pegar o cara vivo e para fazer um julgamento parecido com o que os judeus fizeram com Eichmann. Julgaríamos o cara, certamente o condenaríamos à morte e um dia ele apareceria enforcado na Praça da República. Mas aí não deu porque o Marighela nos avisou: “Se vocês continuarem enrolando, o passarinho vai voar”. Ele já estava com a passagem comprada para voltar aos Estados Unidos. E então foi executado.

MR – O sr. saiu da prisão trocado pelo Cônsul japonês, correto?

Diógenes – Isso, pelo Consul Japonês. Tinha um japonês da VPR que estava preso e estava apodrecendo sob tortura. Ele sabia onde é que o Lamarca estava e não falou. Então alguém teve a ideia de sequestrar o Cônsul do Japão pra trocar pelo preso japonês. Foi nessa lista que eu entrei.

MR – E foi para o México…

Diógenes – O exílio é muito longo, vou tentar ser cronológico. Eu fiquei pouco tempo no México, porque o Lamarca nos deu ordens pra ir imediatamente para Cuba. Então, em Cuba, eu recebi a missão de ir para a Coreia do Norte assistir ao Congresso Mundial da Juventude Coreana do Trabalho — não sei se aquilo terá um dia uma solução pacifica porque o ódio acumulado nos dois lados é muito grande. Da Coreia do Norte me mandaram para o Chile, em razão da vitória do presidente Allende. Militei no Partido Socialista chileno. Fiquei dois anos lá e saí depois do golpe. Fui para o México pela segunda vez e pensei que, bem, vou tentar parar um pouco, sossegar o “pito” por aqui. Fui trabalhar na cidade de Puebla, uma cidade colonial histórica muito linda. Eu trabalhava em um banco de fomento ao artesanato. Mas aí houve grandes calamidades naturais no México. A mulher do presidente, que era nossa benfeitora, nos chamou e avisou “olha, nós não vamos conseguir segurar mais vocês aqui. A oposição está muito violenta contra nós e temos muitos chilenos, não param de vir chilenos. Com dor no coração, eu preciso dizer aos companheiros que arrumem um lugar para ir”.

MR – Quanto tempo o sr. ficou no México?

Diógenes – Não chegou a um ano. Porque foram grandes inundações, muitos flagelados, o governo precisava de recursos. A oposição alegava que o governo estava gastando dinheiro com comunista, com terrorista. Os chilenos ficaram por lá, mas os outros não conseguiram. Aí fui morar na Bélgica. Escolhi o país por causa da comunidade diplomática do Benelux – Bélgica, Luxemburgo e Holanda – e em razão da universidade de Louvain, onde fui aluno do professor Ernest Mandel. Mas não terminei o curso porque estourou a Revolução dos Cravos em Portugal. De todas as da minha vida, foi a revolução mais linda que eu assisti. Fracassou porque Portugal entrou no jogo da Guerra Fria, das superpotências e foi trocado por trinta moedas em uma mesa de negociações. A União Soviética ficou com Angola, que tem alguns dos maiores poços de petróleo do mundo e é um território dos diamantes por excelência. E eu fui para Guiné, porque era muito amigo do Amílcar Cabral, tinha feito amizade com ele em Cuba.

“‘Quantas vezes tu já estiveste aqui?’ e eu respondi que tinha perdido a conta. ‘Então tu não volta mais, porque eu não vou mais te atender.’”

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

MR – Guiné foi uma época feliz de sua vida, não? Lá o sr. sossegou o “pito”?

Diógenes – (risos) Sim, foram oito anos. Guiné era muito pobre, tinha pouquíssimas estradas e ruas asfaltadas, poucas riquezas naturais. Arrumei um emprego no Ministério do Planejamento. Eles tinham um Estado a ser organizado, uma população a ser alfabetizada. Havia alguns cubanos lá, o hospital central era gerido e assistido por médicos cubanos. Guiné só tinha um médico guineense formado. Minha vida era razoavelmente boa lá. Eu me informava das coisas do mundo pelo rádio, não me estressava com horários, a comida era muito boa. Mas fui derrotado pela malária. Fizemos um belo trabalho no governo. Mas, nos últimos tempos da minha presença em Guiné, eu tinha uma média de dois ataques de malária por mês. Eu ia a toda hora para o Instituto de Medicina Tropical de Lisboa a fim de fazer tratamento. Esse instituto tem fama mundial. Foram eles que conseguiram erradicar a doença do sono, a da mosca tsé-tsé. Mas para a malária não conseguiram fazer uma vacina. Então o diretor me chamou e perguntou “Quantas vezes tu já estiveste aqui?” e eu respondi que tinha perdido a conta. “Então tu não volta mais, porque eu não vou mais te atender. Tu não tens cura, tens é que sair da zona infestada”. Não tinha outra solução senão sair. E voltei para o Brasil.

MR – Em que ano voltou?

Diógenes – Muito depois da anistia. A anistia foi em 79, eu voltei para cá no Natal de 83.

“Os funcionários viviam em um regime de escambo, não ganhavam salário, ganhavam mercadoria”.

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

MR – E entraste no PT.

Diógenes – Aqui em Porto Alegre, me contaram que tinha uma gente nova, de um bancário aí. O bancário era o Olívio e eu fui para o PT. Aí, o Olívio acabou eleito prefeito e eu fui por quatro anos Secretário de Transportes. Foi uma época muito agitada. Fizemos a intervenção no sistema de transportes. O sistema estava podre. Um toco de cigarro furava os pneus dos ônibus. Constatamos que aquelas empresas eram tudo, menos empresas de ônibus. Os ônibus eram um interesse periférico. Eu fui nomeado interventor da Trevo. Os funcionários viviam em um regime de escambo, não ganhavam salário, ganhavam mercadoria. O sistema era de vales. O funcionário pegava um vale para comprar remédio, por exemplo. Eles davam o vale e cobravam juros de 30, 40% ao mês.

MR – O sindicato?

Diógenes – Patronal e pelego. Então o Olívio renovou o sistema. As maiores obras da administração do Olívio na prefeitura foram a renovação do sistema de transportes e o Orçamento Participativo. Ao final do governo Olívio, fui trabalhar na iniciativa privada, abri uma pequena agência de viagens. E veio aquela eleição do Olívio para governador. Quando ele foi fazer a campanha, me chamou pra ajudar a catar dinheiro. Não tínhamos um tostão. Ninguém faz ideia de quanto custa uma campanha política. Por isso, quando ouço falar dos caras que querem o financiamento público de campanha, não digo nada. Isso é pura balela.

MR – Tu foste visto como o grande financista da campanha do Olívio. A agência de viagens era grande? E o Clube de Seguros?

Diógenes – Não, eu apenas sobrevivia daquilo, era uma agência pequena. Hoje, turismo e seguro não são bons negócios. As pessoas fazem tudo no computador. O problema é que o governo do Olívio foi um governo de minoria, de conflito. O Clube de Seguros, ah, o Clube de Seguros! Um companheiro nosso, Daniel Gonçalves, que trabalhava com seguros, disse que “se a gente montar um clube, se fizermos estipulações de seguros, dá pra ganhar bem”. Queríamos fazer apólices em grande escala. Foi assim que o Caburé ficou biliardário. Se eu montar uma apólice de seguro de vida com 200 caras e levar para uma companhia, eles remuneram muito bem.

“Olívio resolveu distribuir essas verbas de forma mais equitativa, mandando-as para os pequenos jornais e rádios do interior do estado. Isso equivaleu a uma declaração de guerra”.

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

MR – Como começou o rolo?

Diógenes – Tu sabes… As verbas de publicidade são disputadas a tapa pela mídia. Os barões das grandes cadeias acham que seus quinhões devem ser proporcionais aos índices de audiência que são, como sabemos, uma caixa preta. O governo Olívio resolveu distribuir essas verbas de forma mais equitativa, mandando-as para os pequenos jornais e rádios do interior do estado. Isso equivaleu a uma declaração de guerra. Eles queriam tirar o Olívio algemado do Palácio. E o bode expiatório de plantão era eu e o Clube. Nunca fui tesoureiro do partido e nem participei do Comitê Financeiro. Inventaram uma CPI da Segurança Pública. Forjaram uma fita onde havia uma imputação, feita pelo Jairo Carneiro, ex-tesoureiro do PT cooptado por eles, de que eu estava envolvido com o jogo do bicho e o crime organizado. Jairo era o inquirido na fita. Esta fita foi montada por três jornalistas da RBS, uns gurizinhos recém contratados. Um dia, eles resolveram que, para fechar a coisa, faltavam algumas informações. Então mandaram o Jairo Carneiro ao escritório do Daniel Gonçalves com o celular ligado para os caras da RBS ouvirem. O Jairo depois disse para a Justiça que, quando entrou no escritório do Daniel, sentiu-se pegajoso, sujo, nojento, fazendo um trabalho indecente. Afinal, o Daniel é um sujeito digno que sempre o tratara com decência. E ele desistiu. Chegou lá e desligou o celular. Depois mentiu pros caras que tinha acabado a bateria. Mas eles foram ao Ministério Público entregar a fita. E o pessoal do MP respondeu: “Olha, doutor Vieira da Cunha, nós queremos ajudar nessas investigações, são denúncias gravíssimas. Mas o senhor sabe que temos que reduzir a fita a um termo e assinar. O senhor é membro do Ministério Público e sabe que nós não podemos trabalhar só na oralidade. O dono da fita tem que degravar e assinar. Façam isso com urgência e “tragam ontem” para mim.

“O Jair perdeu a compostura e, aos berros, com o auditório da CPI lotado, pedia um ‘detector de mentiras’”.

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

MR – E eles não entregaram nada…

Diógenes – Claro! E cometeram um grande erro. Em vez de levar a fita para a CPI, falaram com o Jair Krischke, que era o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos. Ele estava no esquema contra o Olívio. E ele se auto-convocou para uma entrevista com o jornalista Lasier Martins, e disse “Dr. Lasier, quero fazer um comunicado importante ao povo do Rio Grande, mas não vou levar a fita com a comprovação das denúncias”. “Mas como, Dr. Jair?” respondeu o Lasier, “O senhor divulga um caso desses e depois frauda a expectativa criada?”. E o Jair: “Não, vou fazer melhor, vou levar o autor da fita na CPI”. Que era o Jairo. E aí diz o Lasier, “Mas Dr. Jair, não será temerário?”. E ele respondeu “Não, está tudo sob controle”. Foi então que o Jairo chegou lá e desmentiu tudo, revelando a armação da RBS. Eles literalmente enlouqueceram. Ele desmentiu a fita em alto e bom som. O Jair perdeu a compostura e, aos berros, com o auditório da CPI lotado, pedia um “detector de mentiras”. Tudo está contado com detalhes documentais no livro, que termina depois com um capítulo só sobre poesia, para aliviar o leitor dessa sujeira.

MR – E como a Clube de Seguros da Cidadania tinha a sede do Comitê Eleitoral do Olívio?

Diógenes – A sede do Clube foi comprada por nós. O Clube se propunha a fazer estipulação de seguros, que é algo legítimo e legal. Com a receita, nós conseguimos comprar aquela casa na Farrapos e fizemos um comodato com o PT para colocar o comitê do Olívio em nossas salas. Comodato é um aluguel sem ônus: tu te comprometes a manter a casa e pagar os impostos, mas a casa é do outro. Como nós fizemos o comodato, bastava só declarar, porque não entra dinheiro. Eles ficaram malucos, achando que era impossível.

MR – Como se encaixam o jogo do bicho e o crime organizado? Que crime organizado era esse?

Diógenes – Olha, fomos acusados de tudo o que tu possas imaginar. Quando o Jairo Carneiro saiu do PT, antes simulou um assalto ao comitê de campanha. Roubaram só o disco rígido. Imaginem, não pegaram nada, nem a CPU ou monitor quiseram, só o disco rígido. Ali havia orçamentos. Um deles era o dos custos do programa eleitoral na TV, que fora feito junto à Casa de Cinema. Dava um valor redondo de 700 mil reais para o primeiro turno. Claro que nós não tínhamos o dinheiro e pedimos um parcelamento. E a planilha tinha diversas entradas com os nossos pagamentos. Eles mudaram a título da planilha para “Arrecadação do JB (jogo do bicho)”… Veja bem, a CPI tinha como título CPI da Segurança Pública, era pra investigar a situação da segurança pública no estado. E daí derivaram a investigação para cima do Clube, com todas as manchetes em jornais da RBS e a fita gravada. A “prova” era a fita do Jairo, uma montagem. Basicamente, a CPI foi isso.

MR – E hoje?

Diógenes – Hoje tudo passou. Ganhei todos os processos na Justiça e consegui escrever meu livro. Meu advogado me alertou que eles poderiam fazer um mandado de busca e apreensão na sessão de autógrafos em razão da Kalashnikov da capa. Poderiam alegar que é uma afronta ao Estatuto do Desarmamento e apologia à violência. Hoje, sou um velho militante da esquerda e da paz, mas meu livro narra um longo combate, não é um livro água com açúcar para as comadres lerem.

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A construção e a queda do Muro de Berlim

A construção e a queda do Muro de Berlim

No dia 9 de Novembro de 1989, o Muro de Berlim começava a ser derrubado. Ele existia desde 1961 e tem longa história. Após a Segunda Guerra Mundial, o que restou da Alemanha foi dividido em quatro zonas de ocupação, cada uma controlada por uma das quatro potências aliadas: Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética.

A divisão da Alemanha no pós-guerra | Imagem: Wikipedia

A capital, Berlim, ficava no interior da zona soviética e foi igualmente dividida em quatro setores.

A divisão da capital, Berlim | Imagem: Wikipedia

Nos dois anos subsequentes, ocorreram desentendimentos entre os soviéticos e as outras potências de ocupação, incluindo a recusa dos primeiros a participarem dos planos de reconstrução de uma Alemanha autossuficiente. Enquanto isso, Joseph Stalin foi construindo um cinturão protetor da União Soviética através de países satélites em sua fronteira ocidental. O Bloco do Leste — também chamado de Pacto de Varsóvia e no Ocidente de Cortina de Ferro — incluía Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária e Albânia (até meados dos anos 60). Fora do Leste Europeu, Mongólia, Cuba, Vietnã e Coreia do Norte, eram algumas vezes considerados como parte do bloco.

Em 1945, Stalin imaginava — e revelou aos líderes alemães sob seu controle — que enfraqueceria lentamente a posição britânica em sua zona de ocupação, que os Estados Unidos iriam retirar sua ocupação dentro de um ano ou dois e que, em seguida, nada ficaria no caminho de uma Alemanha unificada sob controle soviético.

Nada disso ocorreu e, em 1948, Stalin instituiu o Bloqueio de Berlim, impedindo que alimentos, materiais e suprimentos pudessem chegar a Berlim Ocidental. Os Estados Unidos, Reino Unido, França, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e vários outros países começaram uma imensa “ponte aérea para Berlim”, fornecendo alimentos e outros suprimentos à parte da cidade controlada pelo Ocidente. Em maio de 1949, Stalin acabou com o bloqueio, permitindo a retomada dos embarques por terra do Ocidente para Berlim.

Animação: Mao, Stalin e Ulbricht — líder da RDA –, na festa de 70 anos do segundo.

A República Democrática Alemã (Alemanha Oriental ou RDA), a parte da ex-Alemanha controlada pelos soviéticos,  foi instituída em 7 de outubro de 1949. Sua autonomia era realmente limitada. O Ministério de Negócios Estrangeiros Soviético concedeu autoridade administrativa a Alemanha Oriental, mas os soviéticos participavam de forma clara e inequívoca das estruturas de administração, assim como da polícia militar e secreta. A Alemanha Oriental era muito diferente da Ocidental (República Federal da Alemanha), que se originou nas áreas controladas por norte-americanos, britânicos e franceses e que se desenvolveu como um país capitalista.

O crescimento econômico da Alemanha Ocidental a partir de 1950 fez com que o padrão de vida no país melhorasse continuamente e muitos alemães orientais sonhassem com uma mudança de ares. Aproveitando-se da zona de fronteira entre as duas Alemanhas, o número de cidadãos da RDA que se deslocaram para a Alemanha Ocidental totalizou 197.000 em 1950, 165.000 em 1951, 182.000 em 1952 e 331.000 em 1953. Uma das razões para o aumento acentuado em 1953 foi o receio que a sovietização se intensificasse. E, dentro de Berlim, as pessoas continuavam “fugindo” para o lado ocidental.

Não se falava ainda na construção de um muro que dividisse a cidade, mas no começo de 1961 intensificaram-se os boatos sobre uma grande obra em Berlim Oriental. Dois meses antes da construção, uma jornalista da Alemanha Ocidental fez uma pergunta sobre um muro a Walter Ulbricht, líder da RDA na época: “Eu não sei nada sobre quaisquer planos, sei que os trabalhadores da capital estão ocupados principalmente com a construção de apartamentos e que suas capacidades estão sendo inteiramente utilizadas. Ninguém tem a intenção de construir um muro”.

Falando desta forma, Walter Ulbricht foi o primeiro político a referir-se ao muro. Os serviços secretos faziam seu trabalho e sabia-se  que Ulbricht tinha pedido a Nikita Khrushchev, durante numa conferência dos Estados do Pacto de Varsóvia, permissão para bloquear as fronteiras a Berlim Ocidental, incluindo a interrupção de todas as linhas de transporte público.

Construção do Muro de Berlim em 1961

A construção do muro

No dia 12 de agosto, o Conselho de Ministros da Alemanha Oriental decidiu usar as forças armadas para fechar as fronteiras e instalar gradeamentos. Durante a operação, na madrugada de 13 de agosto de 1961, os militares bloquearam as conexões de trânsito a Berlim Ocidental . Eram apoiados por forças soviéticas. Todas as conexões foram fechadas.

No mesmo dia do início da construção do muro, o chanceler da Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, dirigiu-se à população pelo rádio, pedindo calma e anunciando uma resposta à altura daquilo que chamou de agressão. Adenauer tinha visitado Berlim havia apenas duas semanas. O prefeito de Berlim, Willy Brandt, protestou energicamente contra a construção do muro e a divisão da cidade, mas sem sucesso. No dia 16 de Agosto de 1961 houve uma grande manifestação com 300 mil participantes em frente do Schöneberger Rathaus, em Berlim Ocidental, para protestar contra o muro. Nada foi conseguido.

A reação dos aliados ocidentais foi débil. Só 72 horas depois chegou um protesto oficial a Moscou. Em razão disso, circulavam rumores que a União Soviética havia garantido que a ação não afetaria Berlim ocidental.

A solução não é muito bonita, mas mil vezes melhor do que uma guerra, disse John Kennedy, presidente dos Estados Unidos.

Os alemães orientais param o fluxo de refugiados e desculpam-se com uma cortina de ferro ainda mais densa. Isto não é ilegal, concordou Harold Macmillan, primeiro-ministro britânico.

Contudo, Kennedy mandou forças armadas suplementares e o vice-presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, acompanhou as tropas, protestando contra o chefe de Estado da RDA, Walter Ulbricht. Ele reagiu. Os ânimos ficaram exaltados a ponto de o comandante soviético na RDA pedir moderação a Ulbricht. Eram tempos de Guerra Fria.

O Muro pronto

Havia oito passagens de fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental e, para passar, era necessário permissão. Morreu muita gente nos 28 anos da existência do Muro. Não existem números exatos porque a RDA não prestava informações sobre incidentes fronteiriços. A ordem era matar quem forçasse passagem. O repertório de mortes é digno de uma tragicomédia. Havia as “mortes convencionais” a tiros durante a corrida. Mas também houve pessoas baleadas após saírem das janelas de seus apartamentos, localizados ao lado do muro, pendurados em cordas. Houve também quedas em balões de gás de fabricação caseira. Por incrível que pareça, esses incidentes eram utilizados pela RDA em sua propaganda para justificar a construção do Muro de Berlim.

De qualquer forma, entre 1961 e 1989, 75.000 conseguiram sair da Alemanha Oriental. A deserção era um crime punido com até 2 anos de prisão. Os membros das forças armadas eram mais severamente punidos, com pelo menos 5 anos de prisão.

Gorbachev: abertura muito além do planejado

O fim do Bloco Socialista

Submetida desde os anos 60 a um longo período de estagnação política e econômica que se explica, em grande medida, pela necessidade de desviar recursos da produção (de implementos, alimentos, etc.) para a indústria bélica, com a finalidade de fazer frente aos EUA, a União Soviética conheceria um rápido processo de transformação a partir da posse de Gorbachev como novo secretário-geral do Partido Comunista, em 1985.

Relativamente jovem em comparação com seus antecessores, Gorbachev tinha 54 anos de idade quando chegou ao poder. Ele lançaria um amplo programa de reformas, visando à renovação política e econômica do país e do bloco comunista. Uma vertiginosa sucessão de acontecimentos, contudo, levaria as mudanças para muito além do que pretendia o próprio Gorbachev.

Seu programa de liberalização apenas tornou mais visíveis problemas que há muito vinham se acumulando: a ineficiência da economia, engessada por um planejamento excessivamente centralizado; o peso dos crescentes gastos militares; a inflexibilidade de uma burocracia estatal de proporções monstruosas, que procurava controlar e regulamentar cada atividade produtiva. Para Gorbachev, só haveria futuro para o socialismo se tal estrutura fosse inteiramente reformulada.

Foi nesse contexto que ele lançou, em fevereiro de 1986, o programa conhecido como Glasnost (“transparência”), visando a combater a corrupção e a ineficiência administrativa dentro do Estado soviético, como parte de um projeto maior de abertura política. E, pouco depois, veio um segundo programa — a Perestroika (“reestruturação”) — visando aumentar a produtividade da economia do país. Além disso, Gorbachev passaria a reduzir gradualmente a ajuda econômica aos países do Leste Europeu e a retirar de lá várias das tropas soviéticas.

Gorbachev e Reagan: sorrisos pra todo lado

A política externa soviética também passou por transformações significativas. Procurando estabelecer um novo padrão de entendimento com os países capitalistas, Gorbachev reuniu-se com o presidente dos EUA, Ronald Reagan, em cinco ocasiões diferentes. Nunca dois dirigentes dos Estados Unidos e da União Soviética haviam mantido tantos contatos diretos. Já no primeiro desses encontros, em novembro de 1985, ambos anunciariam a disposição de reduzir seus arsenais nucleares pela metade, em acordo a ser formalizado futuramente. Reagan, que seguia vendo a União Soviética como “o império do mal”, recuou do compromisso, mas as propostas de desarmamento de Gorbachev lhe valeram uma popularidade que nenhum outro líder soviético havia antes obtido no mundo ocidental. Em sua visita aos Estados Unidos, em dezembro de 1987, ele foi entusiasticamente recebido pelo público norte-americano. Sua esposa, Raíssa Gorbachova, também era personalidade internacional.

Na ocasião, foi assinado um tratado inédito de eliminação de mísseis Cruise e Pershing II norte-americanos, em troca da eliminação de SS-20 soviéticos: tratava-se do primeiro acordo de desativação de toda uma classe de armas nucleares. Um ano depois, em pronunciamento realizado na ONU, Gorbachev anunciaria a decisão de reduzir os contingentes militares soviéticos em 20% — o equivalente a quinhentos mil homens — até o final de 1991.

As reformas de Gorbachev previam também a realização de eleições livres para o Congresso, em março de 1989. Era a primeira vez que os soviéticos iriam às urnas escolher seus representantes. Mas todo esse esforço, que visava a dar novos rumos ao socialismo, passou a enfrentar problemas inesperados: dentro da onda liberalizante, grupos nacionalistas, étnicos e religiosos, sufocados por décadas, voltaram a se mobilizar, reclamando a independência de regiões como a Letônia, a Lituânia e a Estônia. Também nos países do Leste Europeu ressurgiram movimentos a favor da autonomia nacional.

A unidade da União Soviética e do bloco comunista sempre fora garantida por um rígido esquema de centralização política: nas ocasiões em que movimentos colocaram em xeque tal esquema — como na Hungria, em 1956, ou na Tchecoslováquia, em 1968 — os soldados do Exército Vermelho e do Pacto de Varsóvia haviam sido convocados. Agora, porém, isso não parecia mais possível. Um a um, os países do Leste Europeu foram ganhando cada vez mais autonomia em relação à União Soviética, desmontando a ordem construída por Stalin ao final da Segunda Guerra Mundial.

O Berliner Mauer (Muro de Berlim) passava por aqui

A queda do Muro

Depois de 28 anos de existência, o Muro de Berlim começou a ser derrubado na noite de 9 de Novembro de 1989. Antes da sua queda, houve grandes manifestações. Pedia-se liberdade para ir e vir. Além disto, já estava acontecendo um enorme fluxo de refugiados ao Ocidente nos países satélites.

O impulso decisivo para a queda do muro foi um mal-entendido. Um boato de que o Conselho de Ministros da Alemanha Oriental tinha abolido totalmente as restrições de viagens ao Oeste fizeram milhares de pessoas marcharem aos postos fronteiriços, pedindo sua imediata abertura. Nem as unidades militares, nem as unidades de controle de passaportes haviam sido instruídas.

Era um boato, mas os guardas da fronteira não sabiam o que fazer. A fronteira abriu-se no posto da Rua Bornholmer, às 23h. Mais alemães viram a abertura da fronteira pela televisão e marcharam para lá. Como muitas pessoas já dormiam quando a fronteira se abriu, na manhã do dia 10 de novembro havia grandes multidões querendo passar.

Os cidadãos da RDA foram recebidos com grande euforia em Berlim Ocidental. Muitas boates perto do Muro serviram cerveja gratuita. Pessoas que nunca tinham se visto antes abraçavam-se. Cidadãos de Berlim Ocidental pularam o Muro e foram para o Portão de Brandenburgo, até então inacessível aos ocidentais.

No dia da queda do Muro, em atitude inteiramente inesperada, o violoncelista soviético e estrela internacional Mstislav Rostropovich, saiu sozinho de seu hotel em Berlim com uma cadeira e seu instrumento. Não avisou ninguém de sua intenção de tocar trechos de uma Suíte para Violoncelo Solo de Johann Sebastian Bach bem na frente do Muro. Tornou-se um dos principais símbolos daquele dia.

Rostropovich no Muro de Berlim

No mesmo dia, começou a demolição do Muro.

(*) Com compilações de várias fontes. O trecho sobre a decadência do Bloco Soviético foi adaptada a partir de texto do blog História, do professor Sérgio Cabeça.

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Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita ergue um brinde a uma das grandes figuras de Porto Alegre

Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita ergue um brinde a uma das grandes figuras de Porto Alegre
A capa da edição da Libretos

Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita é um livro de Paulo César Teixeira que reconstitui a trajetória de Luiz Airton Farias Bastos (1950/2005), homossexual negro que ganhou notoriedade na cena cultural e boêmia da capital gaúcha entre os anos 1970 e 90 como personagem irreverente e inovadora, capaz de antecipar algumas das conquistas sociais e comportamentais que só viriam a se consolidar na segunda década do século XXI.

A Nega Lu surgiu nos bancos escolares do Colégio Infante Dom Henrique, por volta de 1970, época em que Luiz Airton adota o codinome e assume publicamente sua homossexualidade. A despeito da condição de “preto, pobre e puto” (como se autodefinia, com amarga ironia), logo acha lugar na paisagem urbana ao frequentar com estilo espalhafatoso bares, vernissages, shows e concertos no Salão de Atos da UFRGS. “Aonde a gente ia, lá estava a Nega Lu”, escreveu a jornalista Tânia Carvalho. Nega Lu estudou na Aliança Francesa, aprendeu balé clássico com a russa Marina Fedossejeva, ex-bailarina do Kirov (atual Marinski, de São Petersburgo), radicada na capital gaúcha após fugir da Segunda Guerra Mundial.

Cada vez mais integrada à cena cultural, a Nega Lu se destacou nos anos 1970 como solista dos Corais da Ufrgs  e da Ospa. “Com essa voz, pode desmunhecar à vontade”, sentenciou o regente Nestor Wenholz ao aprová-la no teste vocal. O timbre grave e retumbante irá pontuar também, na década seguinte, suas performances desbocadas e dilacerantes como crooner da banda de blues Rabo de Galo.

Foto: Reprodução

Apesar disso, o palco mais apropriado ao estilo da Nega Lu sempre foi o balcão de fórmica do bar Copa 70, de onde ela puxava um coro de bêbados, marcando o ritmo com o estalar dos dedos, entoando clássicos do jazz, como Summertime, de George Gershwin, até o dia clarear. Nos anos 1990, participou das primeiras Paradas Livres promovidas pela militância gay na capital gaúcha, ao mesmo tempo em que trabalhava como garçonete do bar Doce Vício, um dos pontos mais concorridos do circuito LGBT da cidade.

Escrito a partir do depoimento de cerca de 70 pessoas, o livro aborda ainda as paixões platônicas, os romances arrebatadores e a ciranda de amores casuais da Nega Lu, além de recompor os hábitos e costumes das famílias do núcleo negro do Menino Deus, bairro em que Luiz Airton nasceu e sempre viveu. A obra agrega imagens do acervo pessoal do biografado e de ambientes artísticos e boêmios de seu tempo para oferecer ao leitor um panorama completo da trajetória desta personalidade alegre e anticonvencional, que se transformou em ícone afetivo de sucessivas gerações da capital gaúcha.

Conversei com Paulo César Teixeira, autor de Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita. Paulo César é um especialista em reconstituir ambientes urbanos a partir de personagens que refletem as transformações globais e delas são protagonistas em âmbito local. Antes, Esquina Maldita, sobre o gueto boêmio de artistas, hippies e ativistas políticos de Porto Alegre nos anos 1960 e 1970, lançado pela Libretos em 2012. Publicou também Darcy Alves – Vida nas Cordas do Violão, biografia do violonista Darcy Alves (falecido em 2015), parceiro de Lupicínio Rodrigues.

Foto: Reprodução

Sul21 – Como é que surgiu a ideia de fazer o livro sobre a Nega Lu?

Paulo César Teixeira – Bom, primeiro eu a conhecia e, quando divulgava o Esquina Maldita e falava na Nega Lu era um frenesi, provocava uma reação muito grande. Ela era muito carismática, muito popular.

Sul21 – E onde tu a conheceste?

Paulo César Teixeira – Eu a conheci no apartamento de um amigo ali na Duque de Caxias no final dos anos 70. Ele estudava história na UFRGS, eu fazia jornalismo e em seu apartamento se reuniam muitos estudantes da UFRGS e o pessoal da esquina. Para mim, que tinha 17, 18 anos aquilo foi uma pós-graduação em contracultura. Uma dessas personagens, é claro, era a Nega Lu, que era amiga de infância dele. Mas nunca fui muito próximo dela, até porque havia uma diferença de idade.

INFÂNCIA Pg. 24

Nas tardes quentes de carnaval, as famílias abastadas do Menino Deus levantavam poeira das ruas com os filhos aboletados nos capôs dos automóveis. Até 1955 sem calçamento, a Rua Almirante Gonçalves fazia parte do roteiro seguido de perto pelos moradores das casas humildes. Estes, porém, faziam sua própria festa. Da Rua Barão de Teffé, desciam blocos humorísticos e tribos carnavalescas. Airton de Souza Bastos – pai da Nega Lu –, a quem os amigos apelidaram de Mondongo, por causa do beiço grande, empunhava a bandeira da tribo Os Bororós. “Dançava muito bem, não tinha pra ninguém!”, elogia Iracema. Excitado com a agitação, o menino preto – com sandálias de couro, camiseta e fralda plástica, tudo na cor branca – pulava de alegria na calçada ao ver o pai como um dos protagonistas da folia. Do portão, atenta, a mãe vigiava os passos agitados da criança junto aos dois pés de cinamomo que enfeitavam a frente da casa. Lá pelas tantas, animava-se a enroscar serpentinas junto à cintura e em torno da cabecinha do pequeno. Pronto: estava completa a primeira fantasia da Nega Lu!

Sul21 – Ela morava no Menino Deus, não? A fama da Nega Lu começou no bairro?

Paulo César Teixeira – Ela nasceu e morreu na mesma casa, numa rua atrás do supermercado Nacional. Tudo começou lá. Então o livro não é apenas sobre a figura folclórica da bicha louca dos anos 70. Ela encarnava isso, incorporava isso e até alimentava isso. Mas eu queria ver a pessoa por trás. Por exemplo, ninguém conhecia a família dela. Sabiam que ela morava com a avó, que, aliás, passou sua vida morando com a avó, mas ninguém sabia quem era o pai, a mãe, os irmãos. Ela teve uma irmã de leite, que era vizinha de porta e que era filha de um cara importante do Carnaval de Porto Alegre, o Rubem Santos. E essa senhora, a irmã de leite, gosta de escrever, escreve poesia. E a filha dela, Marguerite, que é cantora, me mandou um e-mail uma vez: “Olha, se tu quiser fazer um livro da Nega Lu, fala com a minha mãe, ela pode te ajudar”. Essa foi minha pista.

Foto: Reprodução

Sul21 — Foi tua principal fonte para os anos de formação da Nega Lu?

Paulo César Teixeira – Sim. Essa senhora me escreveu um depoimento numa folha de almaço, escrita a mão, uma coisa linda, onda contava um monte de histórias de infância da Nega Lu. Quem era o pai, a mãe, onde morava, o que fazia quando era criança, na adolescência, nas reuniões dançantes, quando assumiu a homossexualidade. E essa senhora… irmã de leite por quê? Porque a mãe da Nega Lu, que morreu jovem de tuberculose, era uma pessoa doente, não tinha leite. Aí eu entrevistei essa senhora, a mãe de leite da Nega Lu. O livro começa contextualizando o núcleo negro do Menino Deus. Hoje, se a gente fala no bairro Menino Deus, tem uma ideia de um bairro de classe média. E lá existiu e ainda existe um núcleo de famílias negras de descendentes de escravos que se estabeleceram ali. Tem muita macumba, muito carnaval de rua, tudo isso da influência negra. Através dessa senhora, puxo a primeira parte do livro sobre os hábitos e costumes das famílias negras do Menino Deus e de onde surgiu a Nega Lu.

NA ESCOLA Pg. 41

Embora os relatos deem conta de que Luiz Airton não parecia se ofender com as brincadeiras dos colegas a respeito de seu jeito afeminado – “Ele sabia levar as situações com inteligência e respondia sempre com bom humor”, afirma, por exemplo, a professora Beatriz Figueiredo, de Biologia –, é provável que, intimamente, não fosse assim. Ao Jornal do Nuances, ele deixa evidente que, embora não reagisse, sentia-se incomodado:

Na escola, era muita repressão. A gurizada me chamava de marreca, margarida, mulherzinha e por aí afora. Eu não gostava nada, mas no meu tempo de infância não reagia às provocações.

Sul21 – Onde é que ela estudou?

Paulo César Teixeira – Ela estudou num grupo escolar, o Emílio Massot, e aí foi para o Presidente Roosevelt. Depois estudou no Infante Dom Henrique, que era nos fundos do Presidente Roosevelt. A maioria das pessoas fazia o primário no Roosevelt e o ginásio no Infante. Conheci vários colegas da Nega Lu, gente que conviveu com ela. Foi deste modo que eu consegui o perfil dela como estudante.

Sul21 – E ela já era estigmatizada?

Paulo César Teixeira – Eu entrevistei colegas, professores e a diretora. Todos dizem que ele dava a volta por cima. Tenho certeza que era uma figura querida. Então, quando foi para o curso clássico [correspondente ao Ensino Médio, só que voltado às Ciências Humanas], ele assumiu a homossexualidade e mais, assumiu o codinome de Nega Lu. Há uma entrevista dele, para o jornal Nuances nos anos 90, onde ele conta um pouco do colégio.

Foto: Reprodução

Sul21 — Ele participava de festivais de música, não?

Paulo César Teixeira – Sim, ele começou a participar dos festivais de música, porque cantava bem e estávamos bem naquela época dos festivais da Record. Os festivais estavam na moda, cada colégio tinha o seu e os vencedores disputavam uma final no Araújo Vianna. Ele se destacava. O Zé Flávio, dos Almondegas, por exemplo, conheceu a Nega Lu como cantor. Ele cantava mesmo, dava recitais à capela no pátio do colégio, durante o recreio. E vai para a noite, para a esquina maldita e transforma-se numa pessoa conhecida da cidade.

Sul21 – E ele vivia como? Como se sustentava?

Paulo César Teixeira – Bom, ele sempre viveu de biscates. A avó dele sempre segurou tudo. Segurou sempre. Eles não eram miseráveis, mas eram de uma classe média baixa. Os homens da família faziam serviços hidráulicos, o ofício passava de pai para filho. Mas ele era diferenciado. Não sei como, ele estudou francês na Aliança Francesa. Pesquisei na instituição e não existe nenhum registro dele, mas várias pessoas confirmam que ele estudou lá e falava francês muito bem. Uma hipótese é que ele teria estudado como aluno ouvinte. Outra possibilidade, é que o Tatata Pimentel o tenha auxiliado. Tatata era professor do Infante e grande amigo da Nega Lu. Ele (ou ela) tinha a noção de que, por ser negro e pobre, precisava ter cultura, conhecimento, bagagem para poder ser alguém na vida. Ele ensinou isso aos sobrinhos, filhos da irmã dele. Um deles me disse que ele ensinava que ‘’a gente mora num bairro de playboy, então, pra tu não ser rebaixado por eles, tem que aprender política, tu tem que saber música, tu tem que saber o que responder”. Ele aplicava isso para ele mesmo, tanto é que aprende francês.

PROFESSOR TATATA Pg. 41

A Nega Lu não era a única figura que escapava furtivamente ao padrão convencional de masculinidade no Infante Dom Henrique. O professor de francês e inglês Roberto Valfredo Bicca Pimentel, o Tatata Pimentel (falecido em 2012), desfilava no areal do pátio com casacos de cor lilás, antecipando o estilo irreverente com que logo se tornaria conhecido do público como apresentador de televisão. Quem sabe encorajado pelo exemplo de Tatata – nos anos seguintes, eles se tornariam amigos, frequentando juntos redutos da comunidade gay como a boate Flower’s –, Luiz Airton decidiu assumir publicamente sua homossexualidade na escola.

Sul21 — E os biscates?

Paulo César Teixeira – Ela só teve dois empregos com carteira em toda vida. O primeiro deles como cantora de coral. Ela ficou uns oito anos no coral, até o final dos anos 70, e aquilo era uma grana importante para ela, de pouco mais que um salário mínimo. Ao mesmo tempo, ela foi estudar balé clássico com a Marina Fedossejeva. Tem até fotos com ele bem esbelto, dançando. A Marina não cobrava o curso de homens que fossem dançar com ela. Naquela época, o preconceito era muito grande, então ela não cobrava porque precisava deles. As escolas de dança de Porto Alegre disputavam a tapa os homens, porque havia poucos. A turma da Marina fazia espetáculos todo final de ano no Salão de Atos da UFRGS e a Nega Lu participou de alguns deles, mas alguns alunos e ex-colegas me disseram que a russa era racista e tinha uma má vontade muito grande com a Nega. Só o aguentava porque precisava. Outros dizem que não, que ela não era assim. Mas por que a Nega Lu não seguiu carreira no balé clássico se dizem que ela era maravilhosa, que dançava muito bem? Bem, nesta questão ela se dizia uma vítima do racismo.

Foto: Reprodução

TESTE VOCAL Pg. 83

Em março de 1971, Luiz Airton compareceu ao Instituto de Artes, local de testes e ensaios do Coral da UFRGS. Quando o viram chegar, alguns rapazes se dirigiram ao regente Nestor Wennholz:

Maestro, tem um sujeito aí que deseja cantar com a gente, mas é muito desmunhecado, vai ser um desastre, disse o porta-voz dos incomodados.

Deixa comigo, vou fazer um teste bem difícil, respondeu Nestor, achando graça da situação.

Inesperadamente, o rapaz afeminado saiu-se muito bem ao repetir os sons mais graves do piano. Em seguida, o maestro acelerou a melodia para que ele reprisasse as frases musicais, o que o candidato fez com precisão e desenvoltura. “Agora, vou fazer o teste final”, anunciou Nestor. E largou a nota mais aguda de tenor, que a Nega Lu ricocheteou com naturalidade. O regente virou-se para os moços que antes haviam feito troça e agora, boquiabertos, espiavam pela porta entreaberta da sala:

Aprovado. Com essa voz, pode desmunhecar à vontade.

Foto: Reprodução

Sul21 — E tinha a bebida.

Paulo César Teixeira – Certamente, quem conhecia a Nega Lu sabia que ela bebia muito, não tinha cuidado com o corpo. Ela ficava bebendo até 5 da manhã. Como é que ia ter físico para dançar balé? Então, nos anos, 70 é isso. Ela era bailarina, cantora de coral e frequenta a Esquina Maldita. Nos anos 80, quando acaba o coral, ela vai ser cantora de blues numa banda chamada O Rabo de Galo. E, durante três anos, foi a estrela da banda e fez horrores. Brigava, apaixonou-se por um músico e queria casar com ele. Se ela não gostava de alguém na plateia, xingava. Era uma pessoa difícil e adorável, que não se ajudava. Depois do Rabo de Galo, ela vai dar aulas de dança e etiqueta na escola do Carlos La Porta, que é outro capítulo do livro. Ele se diz o primeiro manequim masculino no Rio Grande do Sul. Desfilou com a Yeda Maria Vargas, foi galã de rádio teatro na Farroupilha. Depois foi pra São Paulo, trabalhou numas novelas da TV Tupi e voltou pra Porto Alegre a fim de fundar uma escola de modelos aqui na Rua da Praia.

BALCÃO DE FÓRMICA Pg. 50

Certa vez, a Nega Lu beijou a boca de um namorado dentro do Alaska, o que enfureceu o dono do bar, Alfredo Ribeiro, habitualmente um sujeito calmo, que mal saía de trás do caixa, mas que naquela noite apanhou a garrafa de cerveja mais próxima com a intenção de estourá-la na cabeça de Luiz Airton. Foi impedido pela esposa Diaci: “Tu vais estragar a tua vida por causa deste louco?”. Após o incidente, a Nega Lu evitou botar os pés no Alaska durante algum tempo. Em contrapartida, no Copa 70, ela se sentia em casa, principalmente depois que o proprietário Carlos Rocha abaixava a cortina de metal, por volta de três horas da madrugada. Ela, então, subia no balcão de fórmica para cantar Summertime, clássico de George Gershwin, carro-chefe do repertório que improvisava para fãs e clientes retardatários até quase o nascer do sol.

Sul21 — Aulas de etiqueta?

Paulo César Teixeira – Sim, o La Porta convidou a Nega Lu para ser professora de dança e boas maneiras. Eu entrevistei uma aluna dele e ela me disse que ele ensinava como comer, como cruzar as pernas, etc. Ele ficou lá de 80 a 98, até fechar a escola. Mas sem carteira assinada. Sobrevivia desta forma. Depois que ele sai do La Porta, vem a última fase profissional dele, que é como garçonete do Doce Vício, um bar GLS que tinha ali perto do Colégio Militar, na Vieira de Castro, onde hoje tem um pub. Ela era garçonete, atendia no balcão, era barman, e porteira… É o segundo emprego dela com carteira assinada. Mas aí começam os problemas de saúde.

Foto: Reprodução

A DANÇA DA DEGOLA Pg. 152

Habituada a exibir seus dotes artísticos, a Nega Lu protagonizou uma das cenas mais hilárias do Doce Vício ao subir numa mesa para oferecer à plateia um show particular de dança. Ela própria contou depois aos amigos o que se sucedeu:

Gente, as pessoas gritavam “Lu! Lu! Lu!”. Eu achei que estava arrasando. Lá pelas tantas, me dei conta de que gritavam para me avisar que a pá do ventilador de teto estava quase me degolando.

Sul21 – Como é que ela se vestia?

Paulo César Teixeira – Ela se vestia como homem. Bem, na banda da Saldanha se vestia de mulher. Mas normalmente se vestia como homem. No Doce Vício, ela começa a dormir sentada. É demitida. O final é triste. A avó morre e ela passa a pedir dinheiro emprestado para comprar remédios. Vira batuqueira. Muito dizem que era uma forma de ganhar um dinheiro. Era cardíaca e obesa. Outros dizem que morreu de aids. Sua irmã me deu o telefone do médico dela. Fui falar com o cara, um infectologista, especialista em aids. Recebi toda a ficha médica. A causa mortis foi um edema agudo do pulmão, mas o médico afirmou que foi por consequência de problemas cardíacos. Ela mal conseguia andar. Porém, quando foi internada por causa do coração, fizeram o exame de HIV e deu negativo. E ela andava pelo corredor da Santa Casa dizendo aos conhecidos que ‘’Quem dá por amor não pega aids’’.

Foto: Reprodução

Sul21 — E os amores?

Paulo César Teixeira — Ele era um cara extremamente volúvel, um caçador noturno. Teve amores platônicos. Ele era apaixonadíssimo pelo Leo Ferlauto, depois pelo Careca da Silva. Mas nunca chegou a morar junto com ninguém, sempre morou com a avó. Ele namorava um alemão que era um agrônomo. Ele queria levar a Nega Lu para a Alemanha e ela não quis por causa da vó, que já estava velha. Também foi convidada a morar no Rio de Janeiro nos anos 80, tinha acertado um teste numa escola de balé, mas também desistiu por causa da avó.

PÚBERES RAPAZES Pg. 125

Nunca pairou dúvida de que Luiz Airton fosse um homossexual absolutamente convicto – “Você nasceu no corpo errado”, disse-lhe uma amiga de infância, e ele acreditou piamente –, mas essa constatação não diminui a complexidade da questão. Mary Mezzari assegura que a Nega Lu também se relacionou com mulheres: “Apesar de ser bicha mesmo, não bissexual, a Nega iniciou sexualmente muita gente, inclusive algumas garotas. Mas, naquela época, na hora do pega pra capar, rolava qualquer negócio”. Outro mito a ser desfeito é o de que, nas relações sexuais com homens, exercia um papel exclusivamente passivo. “As pessoas se enganavam com ela. Na hora do sexo, era muito ativa”, comenta Lucrécia. Uma das lendas que a cercam – citada por Lineu Cotrim – dá conta de que, imediatamente após desvirginar púberes rapazes, ela ritualisticamente soltava o bordão:

Vai, agora és mulher!

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Deixem eu me gabar…

Deixem eu me gabar…

O Jonas Fernando Pohlmann é um querido cliente da Bamboletras que mora em Moçambique.

Quando vem ao Brasil, além de visitar nossa livraria, traz pra gente uma lembrancinha. Bem, até hoje só trouxe lembrançonas!

No ano passado, ele nos presenteou com Balada de Amor ao Vento, ótimo livro de Paulina Chiziane ainda não lançado no Brasil.

E ontem ele nos trouxe O Mapeador de Ausências, de Mia Couto, ainda não publicado entre nós.

Com um detalhe, o livro veio autografado por Mia.

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Um clássico desconhecido: La Divina Increnca, de Juó Bananére

Um clássico desconhecido: La Divina Increnca, de Juó Bananére
Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, criador de Juó

A artograffia muderna é una maniera de scrivê, chi a gêntil scrive uguali come dice.
Juó Bananére

Hoje, se poucos sabem quem foi Juó Bananére, o que dizer de sua obra magna La Divina Increnca? Porém, durante as primeiras décadas do século XX, Juó foi um dos nomes mais famosos da imprensa paulistana e brasileira. Ele foi um personagem fictício, imigrante italiano criado por Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (1892-1933), e que era assunto tanto nas feiras e ruas quanto nos salões da alta sociedade.

Formado em engenharia pela Escola Politécnica da USP, alto e elegante, Alexandre em nada correspondia à imagem de Bananére que o caricaturista Voltolino imortalizou: um sujeito de meia-idade, baixo, gordo e maltrapilho. Bananére escrevia textos que parodiavam o sotaque da grande colônia italiana de São Paulo. Como quase todo imigrante, os italianos recém-chegados eram obrigados a aceitar quaisquer trabalhos. Um deles era o de puxar carroças de frutas para vendê-las. Daí o pseudônimo: um João Bananeiro qualquer virou Juó Bananére. Ele era o autor de versos como estes:

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.

A abobora celestia tambê,
Chi tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Chi non tê na Ingraterra.

O leitor certamente reconhecerá neles uma paródia ao poema Canção do exílio de Gonçalves Dias. Além de brincar com poemas famosos, Juó escrevia os também os seus próprios, além de crônicas satíricas que narravam a vida dos imigrantes e faziam piadas com figuras da época, como os presidentes Venceslau Brás, Hermes da Fonseca, o jurista Ruy Barbosa e muitos outros. Também há paródias inspiradas em romances de Machado de Assis, mantendo sempre a mistura dos idiomas italiano e português.

Por mais de 20 anos, Juó se fez presente nos meios culturais e jornalísticos paulistas. Eterno Gandidato á Gademia Baolista de Letras, ele, infelizmente, nunca obteve uma cadeira para si, apesar dos imensos e macarrônicos elogios que fazia a si mesmo.

Nomes ilustres não lhe pouparam elogios. Oswald de Andrade referiu-se a ele como “o mestre da sátira no Brasil”. O escritor Antônio de Alcântara Machado não deixou por menos: o personagem teria sido “o melhor cronista” de São Paulo.

Apesar de não ter ascendência italiana, Alexandre apaixonou-se pela cultura surgida nos bairros operários que se expandiram na capital paulista, como Brás, Barra Funda, Belenzinho, Mooca e Bexiga — bairro de Adoniran Barbosa, que adorava e deixou-se influenciar por Juó –, após a grande onda imigratória que fez com que a população da cidade passasse rapidamente de 130 mil habitantes em 1895 a 580 mil em 1920. Metade destes habitantes consistiam de imigrantes estrangeiros e outro quarto de seus filhos já nascidos no Brasil.

Como jornalista, Alexandre escrevia artigos para o jornal O Estado de S. Paulo e, em outubro de 1911, começou a assinar uma coluna na revista semanal O Pirralho, um periódico literário, político e de humor recém lançado por Oswald de Andrade. É lá que ele passa a usar o pseudônimo Juó Bananère. O novo jornal tinha uma proposta pré-modernista, movimento literário precursor do Modernismo.

Após a morte de Alexandre, o personagem Juó Bananère ficou esquecido por décadas, sendo eventualmente lembrado pela coletânea La Divina Increnca. Atualmente, reeditados, seus textos têm sido objeto de estudos de historiadores, críticos e teóricos da literatura.

Poema publicado na revista O Pirralho. Criação de Oswald de Andrade. Poema de Juó Bananére

Apesar das colunas nos jornais, a principal obra de Juó foi mesmo o livro La Divina Increnca, paródia de Divina Comédia, de Dante Alighieri, editado pela primeira vez em 1915 e reeditado em 1924, 1966 e 1993. Atualmente a editora Livronovo está procurando viabilizar uma nova edição através de financiamento coletivo.

Juo Bananére

Com efeito, críticos consagrados, como Otto Maria Carpeaux, atribuíram a ele o papel de precursor do modernismo. A inventividade linguística do personagem seria o equivalente tupiniquim às ousadias de James Joyce e ao movimento dadaísta europeu. O professor Carlos Eduardo Capela, de teoria literária da Universidade Federal de Santa Catarina e autor da obra Juó Bananére — Irrisor, Irrisório (2009, Nankin Editorial/Edusp, 538 páginas), não encara as comparações como piadas, mas acredita que tais teses sejam absurdas.

“Há coisas em comum, como o humor. Mas o modernismo é um movimento literário, articulado, tem um manifesto. Já o Bananére é um piadista, nunca quis ser nada além disso. O espaço dele é o efêmero, a coisa pequena, o cotidiano.”  Mais apropriado, acredita ele, é enxergar em Alexandre/ Bananére um rico caso de testemunho histórico e de criação de um personagem.

“Ele confronta um ambiente intelectual conservador e projeta, por via paródia, o desclassificado, os tipos marginais. Hoje se fala muito em dar voz às minorias, mas ele já fazia isso há quase cem anos.”

Sua coluna em O Pirralho chamava-se O diário do Abax’o Piques. Abaixo Piques era o nome da atual Ladeira da Memória, local tombado em 1974 na cidade de São Paulo. Mais tarde, após romper com Oswald de Andrade, Alexandre fundou o Diário do Abax’o Piques — Diario Semanale di Grande Impurtanza, em associação com o ilustrador Voltolino (1884 – 1926). Nele, Juó se intitulava poeta, barbieri i giurnaliste e, em sua logomarca, estava escrito Lasciate ogni speranza. 

Lasciate ogni speranza, voi che entrate (“Deixai qualquer esperança, vós que entrais”) é o famoso verso que se encontra na porta de entrada do Inferno, a primeira parte de La Divina Commedia, a obra-prima de Dante, da literatura italiana e da cultura da Idade Média.

O jornal caracterizava-se por apresentar temas essencialmente políticos, discutidos em tom satírico, por meio de uma linguagem humorística escrachada. O periódico apresentava duas seções fixas Taka – Shumbo Shimbum e um “sumplemento” esportivo – Sport que finalizava cada edição. Os colaboradores usavam pseudônimos para assinar suas colaborações. Ali, Juó Bananére registrava uma linguagem própria à mesclagem cultural que gerou paulistano.

Tal como aconteceu com o Barão de Itararé e seu inventor Aparício Torelly, o Juó Bananére inventado por Alexandre Marcondes Machado acabou por reinventar seu inventor como escritor. Hoje, pode-se dizer que existe Juó Bananére e não Alexandre Marcondes Machado. Juó, com seu italiano de imigrante pobre em São Paulo, aparecia como uma voz viva e afrontosa dos despossuídos do país.

A principal fonte de inspiração de Alexandre Machado estava nas ruas, e era para essas mesmas ruas que retornava a obra pronta, de enorme sucesso, tendo em vista as repercussões em textos de outros autores e relatos de pesquisadores. Está mais do que hora de recuperarmos Bananére como parte de nossa história literária.

Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ju%C3%B3_Banan%C3%A8re
http://www.bookstart.com.br/pt/juo
http://bananere.art.br/increnca.html
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Fernando Pessoa: os 85 anos da morte de vários poetas

Fernando Pessoa: os 85 anos da morte de vários poetas
“Não sou nada (…) À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”

Fernando Pessoa são muitos poetas. Se o Pessoa original nasceu em Lisboa no dia 13 de junho de 1888 e faleceu na mesma cidade, aos 47 anos, em 30 de novembro de 1935, seus heterônimos têm diferentes datas de nascimento e de morte, à exceção de Ricardo Reis, que não tem data de morte. A invenção de tais heterônimos atravessa toda a obra de Pessoa. Heterônimos são autores fictícios que possuem personalidade própria, ao contrário dos pseudônimos. Sendo assim, o autor assume outras personalidades. Cada uma delas seria uma pessoa real, com manifestações artísticas próprias e diversas do autor original, que é chamado de “ortônimo”.

No caso de Pessoa, com o amadurecimento de cada uma das outras personalidades, o autor original tornou-se apenas mais um heterônimo. Os três heterônimos mais conhecidos de Pessoa (e também os de maior obra poética) são Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Um quarto heterônimo importante é o de Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego. Bernardo é considerado uma espécie de semi-heterônimo por ter muitas semelhanças com Pessoa e não possuir uma personalidade distinta, contrariamente aos três primeiros, que possuem até mesmo data de nascimento e morte — à exceção do citado Ricardo Reis.

“Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”

Álvaro de Campos era um engenheiro de educação em língua inglesa e origem portuguesa. Aliás, como o próprio Pessoa. Tinha a sensação de ser estrangeiro onde estivesse. Foi um decadentista influenciado pelo simbolismo que aderiu ao futurismo. Álvaro é o poeta da modernidade, da euforia e do desencanto, é o poeta da irreverência a tudo e a todos. Alguns de seus poemas:

Tacabaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

(…)

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

(…)

Lisbon Revisited

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me
[enfileirem conquistas]
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na

(…)

“Tinha fugido do céu / Era nosso demais para fingir”

Outro era Alberto Caiero. Nascido em Lisboa, Caeiro teria vivido quase toda a vida como camponês, sem maiores estudos formais. Teve apenas a instrução primária, mas é considerado o mestre entre os heterônimos. Depois da morte do pai e da mãe, permaneceu em casa com uma tia-avó, vivendo de modestos rendimentos e morreu de tuberculose. Também é conhecido como o poeta-filósofo, mas rejeitava este título e pregava uma “não-filosofia”. Acreditava que os seres simplesmente são, e nada mais: irritava-se com a metafísica e qualquer tipo de simbologia para a vida.

Poema XX de ‘O guardador de rebanhos’

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

(…)

Poema do Menino Jesus

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem 

“Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes”

Pessoa também era Ricardo Reis, um médico que se definia como latinista e monárquico. De certa maneira, simboliza a herança clássica na literatura ocidental, expressa na simetria, na harmonia e num certo bucolismo, com elementos epicuristas e estoicos. O fim inexorável de todos os seres vivos é uma constante na sua obra, clássica, que é finamente depurada e disciplinada.

Para ser grande, sê inteiro: nada

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Anjos ou Deuses 

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nos e compelindo-nos
Agem outras presenças.
Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,
Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem E nós não desejamos.

“O coração, se pudesse pensar, pararia”

Bernardo Soares é, dentro da ficção de seu próprio Livro do Desassossego, um simples ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Conheceu Fernando Pessoa num pequeno restaurante frequentado por ambos. Foi aí que Bernardo deu a ler a Fernando seu livro, que, mesmo escrito em forma de fragmentos, é considerado uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século XX. Bernardo Soares é muitas vezes considerado um semi-heterônimo porque, como o próprio Pessoa explica: “Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afetividade.”

Do Livro do Desassossego:

“O coração, se pudesse pensar, pararia.”

“Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

“O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”

Também era Fernando Pessoa:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

Mar Português

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

(…)

.oOo.

Fernando Pessoa publicou quatro obras em vida, três em língua inglesa. Mensagem foi o único publicado em língua portuguesa. Ele ocupou diversas profissões. Foi editor, astrólogo, publicitário, jornalista, empresário e crítico literário. Ficou órfão de pai aos 5 anos de idade, o que obrigou a mãe a vender parte de seus bens e mudar-se para uma residência mais modesta. Ela se casou pela segunda vez em 1895, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban (África do Sul), que havia conhecido um ano antes. Foi na África que o poeta passou a maior parte da juventude e recebeu educação inglesa, primeiro num colégio de freiras e depois no Durban High School.

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Em 1901, escreveu seus primeiros poemas em inglês. No ano seguinte, voltou com a família para Lisboa. Porém, em 1903, Fernando retornou sozinho para a África do Sul, mais exatamente para a Durban High School, onde fez um curso de contabilidade e comércio, após ter sido um aluno brilhante no liceu nas disciplinas de Humanidades. Se a sua educação havia sido essencialmente humanista, o que o levou ao comércio? Provavelmente quis munir-se de conhecimentos práticos para ganhar a vida. Em 1905, de volta à Lisboa, matriculou-se na Faculdade de Letras, onde cursou Filosofia. Dois anos depois, abandonou o curso e, em 1912, estreou como crítico literário.

No campo profissional, do comércio, Fernando Pessoa nunca tentou ir muito longe. Foi um conformado empregado de escritórios, um guarda-livros como o seu heterônimo Bernardo Soares. Durante um período de sua vida, produziu textos sem grande brilho para a “Revista de Comércio e Contabilidade”. Na verdade, Pessoa ganhava a vida mais como tradutor de inglês de cartas comerciais. Desempenhava esta atividade para várias casas comerciais, aproveitando-se da dependência de Portugal em relação a Inglaterra.

Em 1925, passou a trabalhar também na área de publicidade e propaganda. Mas a experiência não foi bem sucedida. Em 1927, o poeta criou um slogan para a Coca-Cola, que estava sendo lançada em Portugal. O slogan dizia: “Primeiro estranha-se. Depois entranha-se”. Foi rejeitado.

“Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”

Considerado hoje um poeta genial, colocado na lista de Harold Bloom como um dos 26 melhores e mais influentes escritores de todos os tempos, não mereceu a atenção de seus contemporâneos. Teve dificuldades para publicar seus versos, o que o levou a encher um baú de escritos, tesouro inestimável da literatura mundial.

Este baú, — de mais de 27 mil folhas — foi comprado pelo Estado português em 1979 e depositado na Biblioteca Nacional. Eles vêm sendo estudados e divulgados por uma equipe coordenada por Teresa Rita Lopes, com o apoio da editora Assírio & Alvim. São ensaios, mais de mil poemas dos três grandes heterônimos, um semi-heterônimo desdobrado em dois (Vicente Guedes e Bernardo Soares), mais de setenta pequenos heterônimos sem obra consistente, cartas, contos, teatro, textos políticos, notas, etc. É a obra do fingidor, do polêmico, do cria­dor de vanguardas, do ocultista, do poeta dra­mático, do poeta das quadras populares e do questio­nador em busca de ser, que foi tanto a sua criação que se perdeu de si mesmo.

“As cartas de amor, se há amor, / Têm de ser / Ridículas”

A importância de obra de Pessoa é inequívoca e está comprovada pelas inúmeras reedições, citações, trabalhos acadêmicos, biografias e homenagens. A maior deles talvez tenha sido prestada por José Saramago, autor de O ano da morte de Ricardo Reis, baseado livremente na “vida” deste heterônimo. O poeta mexicano Octavio Paz disse que nada na vida de Pessoa é surpreendente, nada, exceto seus poemas. Na comemoração do centenário do nascimento de Pessoa, em 1988, o seu corpo foi trasladado para o Mosteiro dos Jerônimos, dando-lhe o reconhecimento que não teve em vida. Em Pessoa, coexistem duas vertentes: a tradicional e a modernista. Algumas das suas composições dão continuidade ao lirismo português, com marcas de saudosismo. Outras iniciam o processo de ruptura do modernismo, o que se concretiza nos heterônimos, mesmo que a música da poesia de Fernando Pessoa esteja tanto no tradicionalista como no modernista.

Logo após a morte do poeta, seu irmão João fez uma conferência e afirmou que ninguém na família adivinhava que Fernando Pessoa, “uma pessoa muito inteligente e muito divertida”, “resultaria em génio…”. A verdade é que o mundo também levou muito tempo para descobrir.

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A Biblioteca Pública volta ao lar: “Vamos resgatar o público que perdemos e muito mais”, diz diretora

A Biblioteca Pública volta ao lar: “Vamos resgatar o público que perdemos e muito mais”, diz diretora

Publicado em 20 de dezembro de 2015 no Sul21

Na tarde da última segunda-feira (14), a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul foi devolvida à população. Antes, pela manhã, conversamos longamente com sua diretora Morganah Marcon. O clima era de entusiasmo. Afinal, os funcionários e os livros estavam finalmente voltando para a bela casa cuja construção começou em 1912 e aberta ao público no formato atual em 1922. Há 93 anos, portanto. Ela ainda não está 100% pronta, mas já é perfeitamente habitável para eles e mais 250 mil volumes.

É um dos prédios mais bonitos do RS. Há mármores, parquês e mobiliário requintado, além de pinturas e esculturas. O revestimento das paredes internas tem pinturas decorativas. Quando foi inaugurada em 1922, a imprensa da época saudou o prédio como “do mais alto gabarito e elegância”. Quem entrar hoje na renovada Biblioteca não terá dúvidas disso.

A Biblioteca nunca deixou de funcionar, mas o prédio principal, na esquina da Riachuelo com a Ladeira, estava fechado ao público desde 2008.

Morganah Marcon falou-nos sobre a história, as várias funções e os problemas da instituição que começou sua vida em 1871, através da Lei Provincial nº 724, que autorizou o gasto de até oito contos de réis para aquisição de livros, ao mesmo tempo que criou um cargo de bibliotecário e outro de contínuo.

A querida Biblioteca já teve 40 funcionários, hoje conta com apenas 18.  Mas não pensem que eles não têm grandes planos. “Somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido”. 

.oOo.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Tu és diretora da Biblioteca Pública desde 2003. Quando entraste, trabalhavas neste prédio. Quais eram as condições?

Morganah – Sim, eu assumi por convite de Roque Jacoby, Secretário de Cultura na época. O prédio tinha as aberturas, os pisos e os entrepisos bastante comprometidos. Havia também muitos vidros quebrados, outros estavam fora do padrão, enfim, tinha coisas inaceitáveis em um prédio histórico. Também os ornamentos da fachada corriam o risco de cair na calçada. Era um prédio de 1912 que exigia uma grande reforma, um restauro e os recursos disponíveis eram muito pequenos, em torno de R$ 465 mil reais, viabilizado pelo Projeto Monumenta. Não dava para fazer grande coisa, só o mais urgente. Isso foi entre 2006 e 2007, até nem houve a necessidade de sairmos do prédio. Porém, nesse meio tempo, nós montamos um projeto da Lei Rouanet, um projeto na época orçado em R$ 14 milhões e que incluía tudo, inclusive o restauro das pinturas murais. Deste projeto, nós conseguimos captar, em 2008, com o BNDES, R$ 2 milhões e 556 mil. E fizemos algo fundamental, que era a substituição dos entrepisos de madeira. Sob o piso de parquê tinham tábuas e estas estavam comprometidas. Elas pesavam como papel, cheia de cupins. O entrepiso foi substituído por um painel wall, que é um material que não pega cupim e que deve durar o resto da vida. Os parquês originais foram restaurados com um aproveitamento de 99%. Isso foi feito em todo o prédio, com exceção de duas salas.

Sul21 – Vocês ficaram quanto tempo fora daqui?

Morganah – Sete anos, desde 2008. No final de 2007, nós tivemos que sair, lá por outubro ou novembro, porque iam ter que mexer num dos pisos lá embaixo. Então nós saímos para a Casa de Cultura Mario Quintana.

Sul21 – E como é que sobrevive uma biblioteca fora da biblioteca?

Morganah – Foi difícil, foi muito difícil, porque tu perdes um pouco tua identidade, tu perdes a referência. É uma instituição dentro de outra instituição e esse monte de prédios públicos estaduais não tem condições de abrigar uma biblioteca. Ou requer um reforço estrutural muito grande, com investimento de vulto, ou é muito pequeno. Eu vasculhei todos os prédios do estado disponíveis. Todos os setores, mas não todo o acervo, foi para a CCMQ. Na época, ela tinha alguns espaços pouco utilizados. Ao longo desse tempo, nós fizemos outros projetos também, fizemos a higienização do acervo de obras raras, por exemplo. Enfim, a biblioteca sobrevive assim, porque entra governo e sai governo, as verbas para cultura sempre são escassas. Quando abre edital, a gente manda projeto.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Para muita gente, a Biblioteca Pública tinha fechado para sempre.

Morganah – Pois é, mas nós nunca estivemos fechados. Esses dias eu quase dei um beijo num rapaz ali na ferragem… É uma empresa familiar. Eu fui comprar umas lâmpadas e estavam presentes o pai, a mãe e o filho. Eu falei que era diretora da biblioteca, que a gente estava reabrindo e a mãe disse: ‘Ah, a biblioteca estava fechada’’, aí o filho disse ‘Não, a biblioteca nunca esteve fechada’. Aí eu pensei: meu Deus, é a primeira pessoa que eu falo e que tem essa interpretação, que é a correta. Nós nunca fechamos. Nós levamos os serviços todos, o setor de empréstimo de livros, toda a parte de pesquisa no acervo geral, no setor do Rio Grande do Sul, levamos o setor Braille, o acesso à internet gratuito, levamos tudo para a CCMQ.

Sul21 – Já disponibilizavam internet antes de sair?

Morganah – Sim, antes de sair. É algo bastante procurado. Temos Wi-Fi agora, que é uma novidade. Nós levamos todos os setores para a CCMQ. O que nós não levamos foi todo o acervo. Do acervo do RS levamos uma pequena parte, porque ele é muito grande, e deixamos o restante nas estantes aqui, organizados. Então, quando havia a necessidade de um livro que estava aqui, a gente vinha buscar para o pesquisador examinar na CCMQ. Por todo este período, nós nunca deixamos nossos leitores desatendidos. Mas a maioria ficou com essa impressão: a de que a biblioteca estava fechada esse tempo todo. Eu perdi a conta de quantas entrevistas eu dei para rádios, TVs e jornais avisando que nós estávamos na Casa de Cultura Mario Quintana. Eu chego à conclusão que as pessoas não leem, ou só leem o que querem, porque não houve falta de informação. Claro, a biblioteca perdeu visibilidade, é diferente de estar nesse prédio belíssimo, com menos lugares para pesquisar. O público com deficiência visual caiu bastante. Eles talvez não enxerguem a beleza do prédio, mas eles sabem, têm o tato e viviam perguntando: ‘Quando é que vai voltar a biblioteca pra lá?’. Para tu veres a sensação de pertencimento que as pessoas têm por este prédio, por este espaço. Hoje, está tudo aqui novamente.

Sul21 – Quais são os serviços da biblioteca?

Morganah – Além do empréstimo de livros para pesquisa no local, a gente tem também o acervo de pesquisa de documentação do Rio Grande do Sul. A Biblioteca Pública do estado tem a função de ser a guardiã, de preservar e disseminar a memória de tudo o que é produzido no estado do Rio Grande do Sul. A literatura gaúcha, a história, a geografia, tudo deve ficar aqui. Nós temos, por exemplo, documentos de governo, temos a função de preservar e muitos pesquisadores, historiadores e escritores utilizam nossa documentação pra compor suas teses e seus romances históricos. É um acervo de grande porte e com bastante valor sobre o estado do Rio Grande do Sul.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – A produção literária atual vem para cá de alguma forma?

Morganah – Nem tudo. Nós temos a Lei Estadual do Livro, que foi regulamentada em 2003, que obriga as editoras gaúchas a mandarem pelo menos um exemplar do que é publicado, mas quem cumpre realmente são as editoras universitárias e as pequenas editoras. Nós temos também um serviço que a gente oferece e que é cobrado via associação de amigos: a elaboração da ficha catalográfica dos livros. Para algumas editoras, a gente faz de graça e em troca ela nos dá os livros, dois exemplares. Nós também assessoramos a questão do direito autoral, pois não temos escritório de direitos autorais aqui no RS, mas damos toda a orientação sobre como registrar o direito autoral de uma obra. A equipe é pequena, mas a gente se vira.

Sul21 – E as doações?

Morganah – Sim, a gente recebe muitas doações. Claro, no meio dessas doações vem aquilo que não serve… Alguns acham que qualquer coisa dá pra mandar para a Biblioteca. Às vezes é uma Enciclopédia Barsa que o pai tinha na década de 80. Bem, sinto muito, mas o material está desatualizado, então a gente agradece… Mas nas doações vêm muito material precioso, raro. Só com doações, já conseguimos triplicar o número de obras raras. Visitamos as bibliotecas particulares que as pessoas desejam doar e avaliamos. A gente conseguiu muita coisa boa para o setor de obras raras, principalmente de autores gaúchos, primeiras edições fantásticas.

Sul21 – Qual é o tamanho do acervo aqui na Biblioteca?

Morganah – Juntando todas as obras, temos 250 mil livros. De obras raras temos 1.100 títulos já catalogados, mas já vai virar 3.000, contando com o que está sendo catalogado. As obras raras não saem daqui, as pesquisas são locais e usa-se luvas. A parte do Rio Grande do Sul também não sai, porque pode se perder algo. Agora, o público e os pesquisadores poderão entrar e usar o acervo geral para pesquisar com orientação de um funcionário. Antes, quando a gente saiu, o acervo ficava no segundo andar, então o usuário pedia o livro lá embaixo, o funcionário encontrava no catálogo, manualmente, e o livro descia pelo elevador. Ou seja, o usuário não circulava nas estantes e isso é ruim, porque tem muito livro que nunca foi aberto por ninguém. Caminhando pelas estantes, tu podes ver outros títulos que te interessam. No meu entendimento, a biblioteca não serve se não chegar ao seu leitor, então a ideia é abrir o acervo, ao mesmo tempo que o preservamos.

Sul21 – Um acervo que é sempre crescente.

Morganah – O acervo cresceu muito. São muitas doações. A gente tem um público com grande carinho pela biblioteca. Há um pessoal fantástico que compra os livros, lê e traz pra biblioteca, então nós temos obras recentíssimas, que o estado não compra. A última vez que compramos foi em 2006 e dentro daquele limite que não exige licitação. Na época, o estado não pagava os fornecedores em dia e chegamos a fazer um pregão, só que ninguém se apresentou… Aí eu fui me queixar com o presidente da Câmara Rio-grandense do Livro e com o clube dos editores. Eles me disseram que o problema era o estado estava demorando mais de um ano para pagar e ninguém queria esperar todo esse tempo. Eu já passei por vários governos e nunca a cultura foi prioridade. Então sobrevivemos de doações particulares. A Associação de Amigos também compra alguma coisa, principalmente os livros de leitura obrigatória para o Vestibular.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Algum autor vem aqui entregar?

Morganah – Sim, alguns sim, mas normalmente é a gente que tem de correr atrás. Muitos querem só vender, mas outros têm reconhecimento pela biblioteca e trazem suas obras.

Sul21 – O ex-secretário Assis Brasil me deu a informação de que a biblioteca teria sido o último prédio público construído para cultura no estado, mas acho que foi o Araújo Vianna em 1964. De qualquer maneira, se 1912 ou 1964, é muito tempo.

Morganah – É triste ver isso. Eu sou funcionária estadual há 23 anos, vou fazer 13 aqui na biblioteca, então já passei vários governos.

Sul21 – Como entraste no Estado?

Morganah – Como concursada. Fiz o concurso ainda sem me formar, porque não era exigida formação em Biblioteconomia, mas até que fui bem classificada. Então fui para uma biblioteca de bairro. Fiquei lá até 95, quando fui para a Biblioteca Pública.

Sul21 – Qual é o tamanho da equipe da BP?

Morganah – Hoje eu tenho umas 18 pessoas. Quando assumi a direção em 2003, éramos 40. As pessoas vão se aposentando e não são repostas. Tem gente que quer vir trabalhar de bibliotecário, mas só viriam se tivessem função gratificada e a secretaria não tem como disponibilizar.

Sul21 – Quais são as funções do pessoal que trabalha aqui?

Morganah – São cinco setores que atendem o público, dez horas por dia, das 9 às 19h, de segunda à sexta e no sábado das 14 às 18h. Então eu preciso de pelo menos duas pessoas por setor, todos os dias. Esses setores são o multimeios, o braille, a referência, que é a pesquisa no local, o setor do RS e o de empréstimo de livros. Esses atendem o público 10h por dia. Como o funcionário não tem carga de 10h por dia, eu tenho que revezar. Dividimos os horários. Alguns entram cedo e saem às 15h, outros entram às 12h e ficam até as 19h. O horário de 12h é complicado, porque há o almoço. É pouquíssima gente mesmo e bibliotecários então nem se fala: nós somos três. Eu na administração e cuidando de tudo, sistema e biblioteca, duas catalogando e uma voluntária, uma eterna voluntária bibliotecária que eu tenho, graças a Deus, e que é aposentada da UFRGS. Ela nos ajuda muito. Mas é uma equipe reduzida. O acervo cresceu muito, nós fomos para lá com 40 mil livros e voltamos com 60 mil. Conclusão: tenho um acervo de quase 20 mil livros encaixotados que estamos lutando para catalogar. Porque catalogar não é só botar o título, tem que analisar a obra, determinar o assunto. É um trabalho moroso, que tem que ser feito por técnicos e nós não temos técnicos em número suficiente. Eu tenho dois historiadores no setor do RS e duas estagiárias de história. Estagiários nós temos quatro: dois de história e dois de biblioteconomia. São poucos também.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – E há os eventos.

Morganah – Eventos e também parcerias. Eu trouxe para cá o Clube de Leitura, que é quinzenal, e os recitais da Escola da Ospa. O Clube de Leitura são encontros quinzenais onde se discute literatura. Por exemplo, a cada segundo semestre nós damos prioridade para as obras do vestibular, vem muito estudante que precisa saber delas. Há os saraus do braille, etc. Há também apresentações musicais e as palestras no Salão Mourisco. Tudo isso é serviço, ma nada disso traz dinheiro. O que traz um dinheirinho é uma locação através da Associação de Amigos para alguma filmagem, algum comercial. Até a reforma dos banheiros e o Wi-Fi quem pagou foi a Associação de Amigos, com recursos que conseguimos através da gravação de um comercial e de parte de um filme. Claro, sempre um ou dois funcionários acompanham, não se pode arrastar nada, não pode encostar nada na parede, não pode pendurar nada, não pode beber, não pode fazer refeição. Nós estamos num prédio que deve ser preservado.

Sul21 – A Associação de Amigos, como é que funciona?

Morganah – Ela não é tão forte como a do Theatro São Pedro ou a do Margs. O associado paga uma anuidade de R$ 60. Agora poderemos dar um retorno melhor para os associados, inclusive no uso do Salão Mourisco, que pode ser utilizado mediante agendamento. Nós temos uns 60 pagantes, menos até. No ano passado fizemos uma campanha, mas ainda são poucos, bem poucos. A gente fatura alguma coisa através das fichas catalográficas, pelas quais cobramos R$ 30, bem abaixo do preço de mercado. Temos também a taxa de empréstimo anual de R$ 5 de cada sócio, para retirar livros. No multimeios, se o usuário quiser imprimir alguma coisa, cobramos centavos pela impressão, não pelo uso. O uso é gratuito. São vários produtos que geram alguma entrada de dinheiro para a Associação e que reverte para a biblioteca. E as locações que eventualmente acontecem. Nós recebemos recentemente uma escola de música. Locamos o espaço por R$ 200, o que também não é uma fortuna.

Sul21 – O que não está pronto ainda?

Morganah – O restauro da pintura mural é um projeto à parte, é um projeto caro e demorado. Orçaremos com especialistas. Isso é um projeto à parte, é uma coisa que eu acredito que vá demorar uns quinze anos e que será feito com a Biblioteca em funcionamento. Isola uma parede, trabalha ali, depois vai para outra e assim por diante. Além disso, o que falta fazer ainda: o restauro da fachada interna, que não foi feito, e a climatização. As esperas estão prontas, mas temos que adquirir os equipamentos e esse prédio precisa ser climatizado, porque tem muita poeira, muita poluição dos veículos que trafegam ao redor, o que prejudica o acervo. E está pendente a acessibilidade. Nós temos um elevador que dá acesso às pessoas de idade, mas onde não cabe uma cadeira de rodas. Então precisamos de um elevador para cadeirantes. Tudo vai bater lá pelos 8 milhões, que é o que nos falta. Precisamos também de segurança para o acervo, do restauro dos ornamentos, das escadarias, das colunas de mármore e do mobiliário. Há partes do mobiliário que foram comprometidas pelos cupins. O mobiliário precisa ser restaurado. Mas os ornamentos das cadeiras estão todos recuperados, são detalhes caros. E a infraestrutura está toda OK, não há problema de umidade nem de infiltração, o cabeamento idem. A sustentação dos tetos também. Havia problemas graves neste aspecto, como disse antes.

Sul21 – Eu dei uma olhada no site de vocês e ele fala em anexo.

Morganah – Não, o anexo era uma proposta do governo anterior, que era esse prédio da Andrade Neves, onde os Lanceiros Negros estão. Eu tinha conseguido o prédio com recursos do governo federal, mais R$2 milhões e 600 mil de contrapartida do estado. Assim, criaríamos esse anexo. Era o nosso sonho, só que essas coisas de governo…

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Qual é a importância da Biblioteca Pública para o estado?

Morganah – Bom, em primeiro lugar não existe prédio mais belo aqui na cidade, com detalhamento de pinturas, de murais, de mobiliário. É também é um dos templos positivistas de Porto Alegre. Além disto, somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido no estado. Mas eu acho que o mais importante é que as pessoas têm enorme carinho por esse prédio. Todo mundo diz ‘’Ah, que bom que a biblioteca voltou’’. Os funcionários estão radiantes. A gente carregava caixas pesadas neste calor de verão, suava e não se importava. Eu ouço o pessoal daqui dizer “Ah, eu não me importo, eu tô voltando pra casa’’. Aqui é um prédio que, além da história do RS, oferece o acesso à informação, o acesso ao livro gratuitamente. É a maior do estado, a mais representativa, então tínhamos que estar de volta para o nosso público. E eu tenho certeza que, agora, com o retorno, nós vamos resgatar todo aquele público que perdemos com nossa saída e muito mais. A gente espera que as pessoas se apropriem desse espaço, para que ele se torne pequeno. Quando este lindo edifício foi construído, no início do século XX, a população era outra e o acervo era de 8 mil livros. Nós precisamos de uma biblioteca moderna para que aqui fique só a parte histórica, mas isso eu me aposento e não vejo. Espero que a situação do estado melhore.

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Veja fotos internas e externas do prédio restaurado:

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21
14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Foto: Guilherme Santos/Sul21

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Déjà cu

Acompanhando a apuração, acabo de ter um déjà cu.

Déjà cu é aquela sensação de quem já tomou no cu e sabe que vai acontecer de novo.

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