O clima medonho de ontem — chuvoso e frio — liquidou com a possibilidade de a Reitoria da UFRGS receber um bom público para o concerto de ontem à noite. Uma pena, pois estava excelente.
O programa iniciava com O Moldávia, do checo Smetana, trecho mais conhecido do poema sinfônico Minha Pátria (Má Vlast). Depois, nós sofremos duras consequências de duas obras bem chatas, a Dança do Comediantes da ópera A noiva vendida, também de Smetana, e das 4 Danças eslavas, de Dvorák, até chegarmos à esplêndida Sinfonia Nº 2 de Brahms.
Ao contrário do tempo que fazia lá fora, a segunda de Brahms é tranquila e mesmo seu Adágio não é nada triste, mais parecendo uma Sinfonia Pastoral. Brahms, que sempre sofreu comparações absurdas com Beethoven — na verdade são tão parecidos quando Scarlett Johansson e Monica Bellucci, duas perfeições inteiramente distintas — , teve sua segunda sinfonia posta em comparação à sexta de Ludwig van, a Pastoral, por seus contemporâneos. Mas isso são considerações históricas e absurdas. O que nos interessa é que a interpretação da OSPA sob a regência de Cláudio Cruz esteve com sobras à altura da composição.
Antes da estreia, Brahms brincava com seus amigos dizendo-lhes que nunca tinha composto algo tão triste e ameaçava: “É tão triste que acho que não vou conseguir ouvir até ao fim”. Na verdade, toda a sinfonia está repleta de felicidade brahmsiana, que é algo contido, sereno e, tá bom, pastoral.
Grande noite. Perdeu quem ficou com medo da chuva.
Estava procurando alguma coisa com o Simon Rattle na Filarmônica de Berlim e logo o encontrei regendo a 1ª Sinfonia de Brahms, minha sinfonia preferida. É só um trecho — mas que trecho! — e ao final o YouTube me ofereceu para ver o segundo vídeo, coisa de pai maluco e aparente sucesso na galeria de vídeos… O que me impressiona é o som, o timbre da Filarmônica de Berlim, tão grandioso e distinto do comum das orquestras. É único, assim como o da Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam. Confiram.
Porto Alegre é estranha, às vezes nos oferece muitas coisas, até demasiadas; outras vezes nos deixa na mão. Ontem à noite, ao mesmo tempo, João Donato estava se apreesentando no Teatro São Pedro e a OSPA levava Bach e Mozart à Igreja das Dores. Acho que fiz uma boa escolha, mas balancei seriamente quando a violinista Elena Romanov colocou em seu Facebook belas fotos (incrivelmente feitas num celular) dos músicos ensaiando. Além disso, coisa rara nos templos porto-alegrenses, elogiou a acústica da Igreja.
Porém, fui ver o Donato. Tudo muito simples como deve ser na sala de sua casa ou como seria na nossa. Um palco de resto vazio com um piano no centro. Uma luz, vinda de cima, iluminava o instrumento e a cadeira a sua frente. Só. Então, o músico de 76 anos e excelente forma entrou no palco meio desajeitado sob seu habitual boné — bem daquele jeito que têm os tímidos quando são as estrelas — , fez uma saudação rápida, explicou a primeira música e realizou as primeiras mágicas. Iniciou com extrema simplicidade tocando valsas compostas em sua infância (uma delas para a namorada Lili, de oito anos, composta quando o autor tinha sete) e depois partiu para seu enorme repertório, digamos, adulto.
Donato tem uma trajetória curiosa. Chegou aos EUA antes do pessoal da bossa nova e rapidamente se enturmou com o pessoal do jazz — latino e americano. Foi amigo do grande Horace Silver, de Stan Kenton e parecia que ia estabelecer-se como um grande pianista de jazz. Até os anos 70, Donato compunha apenas temas instrumentais e costumava sair por aí com trios, quartetos e quintetos. Acompanhavam cantores ou formavam uma banda de jazz latino. Se não me engano, foi sei irmão quem o convenceu a procurar parceiros para colocar palavras em suas melodias. Logo, sua imaginação melódica o transformou em parceiro de João Gilberto (sim, ele escreveu letras para Donato), Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, etc.
Desta forma, agregando ou não palavras a sua arte, Donato foi parceiro de Paulo Moura a Fernanda Takai, chegando até Marcelo D2 e Black Eyed Peas… Sim, o cara é um baita instrumentista, arranjador e compositor e há trabalho para ele em qualquer lugar do mundo. O show de ontem, Solo, por exemplo, surgiu de um projeto no Japão que fazia pianistas excursionarem pelo país em apresentações solo. Donato é o cara perfeito para isso. Mas não é o cara perfeito para dizer que é. Poderia até ser um bobo arrogante, pondo na frente da gente seu currículo; porém, com absoluta simplicidade, simpatia e atenção, só diz e apresenta o que são, naquele momento, ele e sua música. OK, fiquei apaixonado…
Apesar da relação de canções constantes do programa, João de forma alguma a obedece. Ele acaba uma, ergue a cabeça, lembra de outra, conta sua história e mostra como é. Às vezes, canta. Outra coisa que me fascinou foi seu comportamento “de músico”. Ele mesmo diz “ah, essa aqui era assim, mas agora ganhou nova introdução e mudei umas coisinhas; vocês sabem que as músicas evoluem, vão mudando, né?”. Então, seu show não têm nenhuma regra e aposto que o próximo será diferente, assim como as coisas que conta.
Gosto de shows com luz de serviço e alguma improvisação. Prefiro deixar de fora o que não é música. E essas coisas com roteiro certinho e decoradinho me irritam. Vou aos teatros para ver o músico e o ser humano que mora nele. Não tenho nada a reclamar de João Donato, não me decepcionei de modo algum.
É sempre difícil escrever sobre uma música que amamos muito e que nos faz lembrar fatos pessoais. A primeira coisa que me vem à mente quando penso no Opus 132 foi aquele momento mágico em que eu, sentado na pior sala de meu passado, ouvi iniciar o Allegro Appassionato (último movimento do quarteto) e vislumbrei que, logo aos primeiros compassos, minha filha, aos cinco anos de idade, entrava girando na sala, improvisando uma valsa que dançava sozinha, de olhos fechados, por puro prazer de ouvir a música… Foi tão marcante que hoje soa-me hipócrita dizer que o movimento principal deste quarteto é o imenso Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart, um agradecimento à divindade pela recuperação que Beethoven obteve após grave enfermidade. Mas é, claro que é. O terceiro movimento, com suas duas explosões de alívio é o centro e razão de ser desta grande e fundamental obra.
Quando os últimos quartetos foram apresentados pela primeira vez, não foram bem recebidos pelo público. Ao receber a notícia, Beethoven deu a célebre resposta:
– Gostarão mais tarde.
Como ele sabia que estava escrevendo para o futuro é algo que consigo mais ou menos entender observando a evolução de sua música. Outro fato que chama a atenção é que, estética e conceitualmente, estes quartetos parecem projetar-se na evolução da história da música para colocarem-se quase 100 anos sua época, talvez logo antes dos grandes quartetos de Schoenberg e Bartók. É um mundo à parte. ISTO é Beethoven, e não seus concertos ou sonatinhas iniciais. Ela refere-se aos últimos quartetos, às últimas sonatas para piano, às Diabeli e certamente à Nona Sinfonia. O restante seria grandioso, mas menos pessoal e significativo. Lembro que quando era adolescente, nós tínhamos que nos aproximar destes quartetos respeitosamente e o Dr. Herbert Caro dizia que talvez fosse necessária maior maturidade para que um jovem pudesse entendê-los. Discordo postumamente do grande Dr. Caro, meu amigo e tradutor de Doutor Fausto, da Montanha Mágica, de Auto-de-Fé e outras tantas obras-primas; acho que sempre ouvi o Op.132 e 130 (o último acompanhado de sua Grande Fuga) da mesma forma e o respeito que sempre tive por estes quartetos emanava deles e não de minha atitude. O fato é que o Op. 132 é uma música que passou a fazer parte de mim muito cedo. Eu, um adolescente na casa de meus pais, costumava ficar deitado, antes de dormir, tentando reproduzir nota a nota o terceiro movimento. Cronometrava para ver se chegava perto de seus 15 minutos… Às vezes, pensava conseguir reproduzi-lo por inteiro. Mas nunca ninguém pode comprovar, nem eu.
Dizer mais o quê?
E, aqui, o movimento que minha filha Bárbara dançou por puro prazer numa noite fantasmagórica:
A Caminhante, que entende do assunto, achou a coreografia simples e bonitinha — não lembro exatamente das palavras que ela usou. Já eu achei que ela acompanha bem o que há de superior: a música do grande pernambucano Marlos Nobre. Fazia muito tempo que não ouvia, só a tenho em vinil e desenvolvi certa preguiça de pegar os bolachões. Tenho 1300 deles. Me dá certo cansaço, pegar, limpar, virar o disco após 20 minutos, pegar, limpar de novo, pôr no plástico e depois na capa para devolver à estante. Mas o assunto é o tio Marlos, né?
Não, não é a Páscoa. É que ontem, aqui em Lisboa, fui assistir ao Tom Koopman com sua orquestra e coral, tocando e cantando a Paixão Segundo São João de Bach. Foi uma maravilha, e lembrei-me muito de ti, muito mesmo, e lamentei que não pudesses assistir isso. O Koopman é uma simpatia, rege energicamente, com mãos e boca, e praticamente canta junto. 1h50 em pé, feroz e motivador, regendo e tocando cravo. A orquestra toda é uma maravilha, também. Enfim. Consigo apreciar essas coisas graças a ti.
Abraço.
H.
Eu não sou tão burro e sei que há imenso exagero no textinho, mas isso não me impede de sair para almoçar nas nuvens.
Hique Gomez, o violinista Kraunus Sang, e Nico Nicolaiewsky, o Maestro Plestkaya, ambos cantores, dão um banho na obra-prima de Adoniran Barbosa. Esta apresentação foi no Teatro Positivo, em Curitiba, no ano de 2008.
A música acima de tudo! Nós da OSBJovem acreditamos nesta afirmativa. Acreditamos que para haver música deve haver músicos, e que para haver músicos deve acima de tudo existir respeito.
Frente a toda esta situação indissociável – onde uma ação imoral encontra respaldo na lei – a dignidade de toda a classe musical deve prevalecer e, assim sendo, a OSBJovem se manifesta de forma pacífica se recusando a tocar, não apenas por estarmos sendo usados para substituir a OSB profissional, o que é fato, mas porque hoje estamos no papel de ser o futuro da música no país, e não queremos que a realidade musical e social continue sem respeito, sem moral e sem diálogo.
Embora em mais de uma ocasião tenha sido colocado que a FOSB e o maestro estão abertos a diálogo, não acreditamos que isso possa resolver a nossa situação como músicos jovens, uma vez que esse mesmo canal de diálogo foi aberto aos profissionais e a FOSB não transigiu, desencadeando este triste cenário em que o meio musical se encontra.
Queremos a partir de hoje, de agora e para sempre, exercer nossa profissão, fazer música em um ambiente saudável e tendo como principio o respeito ao próximo.
Hoje estamos aqui nesta situação e escolhemos agir, escolhemos nos manifestar em prol da música e da verdade, e é com todo o respeito à plateia de hoje e de sempre que não tocaremos hoje.
Temos esperança nas coisas certas, e é com essa esperança que agradecemos e contamos com o apoio de todos vocês.
Schubert foi o mestre do lied, mas não apenas disso. Deixou-nos 9 sinfonias, uma coleção extraordinária de sonatas, além de trios e quartetos da melhor qualidade. Engraçado, a França gosta de produzir trios. Extinto o Beaux Arts Trio, que dominou a cena por mais de 50 anos, apareceu uma série de excelentes trios franceses. Em minha opinião, o melhor é o Trio Wanderer, o qual homenageia em seu nome uma das maiores Fantasias de Schubert. Sim, o Andante con Moto é a música utilizada por Stanley Kubrick em Barry Lyndon. Schubert ficaria feliz .
Mais do que um simples adágio, o Adagietto está incrustrado na complicada e notável 5ª. Claudio Abbado vai bem mais rápido que o habitual. 8min52 contra os 10min35 de Haitink — que obedece rigorosamente o Sehr langsam do compositor — , mas bem mais lento que o ejaculatio praecox de Karajan, com seus parcos 7min54. A orquestra é a do Festival de Lucerna, a gravação de 2004 e Abbado insere-se dentre aqueles regentes modernos que melhor interpretam a obra do compositor austríaco ao lado de Bernard Haitink (o campeão) e Leonard Bernstein.
Aos cinéfilos: se acharem que são íntimos do Adagietto, lembrem-se de A Morte em Veneza de Luchino Visconti / Thomas Mann. É ela mesmo. É a música de Aschenbach e Tadzio.
Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Uma coisa é a política que envolve a OSPA, a falta de músicos e de uma sede para a orquestra; outra coisa é a música produzida. E esta pode ser arrastada e sonolenta como a da apresentação da 9ª de Beethoven ou espetacular como a 9ª de Mahler, apenas para citar dois concorridos concertos do segundo semestre do ano passado.
Hoje, a OSPA apresenta na Igreja da Ressurreição (Colégio Anchieta), às 20h30, um bom programa sob a regência de Nicolas Rauss (foto):
Dia 29 – 20h30min
2º Concerto Oficial
Obras:
— Jan Sibelius – Finlândia, Op.26
— Joaquín Rodrigo – Concerto de Aranjuez para violão e orquestra
— Jan Sibelius – Sinfonia Nº 2, op. 43, em ré maior
Solista de violão no Aranjuez: Thiago Colombo
Regente: Nicolas Rauss
Finlândia, Op. 26 é um poema sinfônico de Jan (ou Jean) Sibelius cuja primeira versão foi escrita em 1899, sendo posteriormente revisada em 1900. A obra tem origem na turbulência e desolação gerada no país pela dominação imperial russa. Por quase todo o século XIX, o país foi um estado do império russo, que procurava tornar “mais russa” a população finlandesa. Para tanto, o método de convencimento era o de recrutar sistematicamente finlandeses para seu exército, enquanto mantinha forte censura sobre a imprensa e quaisquer manifestações.
Porém, na última década do século, o nacionalismo findandês reapareceu. A independência só chegou em 1918, após a Revolução Bolchevique de 1917. Em outubro de 1899, no meio ao crescimento do nacionalismo, Sibelius escreveu este poema sinfônico logo adotado como segundo hino pela população. Música poderosa, ao mesmo tempo simples e comovente, repleta de melodias e explosões dramáticas, é talvez a peça mais conhecida de Sibelius.
Ainda dentro do nacionalismo, o programa segue com o famosíssimo Concerto de Aranjuez de Joaquín Rodrigo. Também é a obra mais conhecida de Rodrigo, que a escreveu em 1939, inspirado pelos jardins do Palácio Real da cidade. O Aranjuez estabeleceu Rodrigo como um dos mais importantes compositores espanhóis do século XX. O concerto recebeu diversas interpretações e abusos, sendo uma das mais famosas e respeitáveis a do trompetista Miles Davis.
Aranjuez é uma pequena cidade espanhola famosa pela qualidade de seus morangos e pelo Palácio Real de Aranjuez, construído por Filipe II na última metade do século XVI; reconstruído em meados do século XVIII por Fernando VI e que serviu de inspiração para Rodrigo, o qual ficou cego aos 4 anos de idade e que talvez nunca tenha visto os tais jardins do Palácio, pois passou a infância em Sagunto, província de Valência, perto do Mediterrâneo, enquanto que Aranjuez fica próxima à Madrid.
Segundo o compositor, o primeiro movimento está “animado por um vivo espírito rítmico sem que nenhum dos dois temas se sobreponha ao outro ou interrompa seu ritmo incansável”. O segundo movimento — o ultrafamoso tema de Aranjuez — “representa simplesmente um diálogo entre a guitarra e instrumentos solo como o corne inglês, o fagote, o oboé, a trompa, etc.”, e o último movimento, “lembra uma dança cortesã”. Como pouca modéstia, muito olfato e refinada audição, Rodrigo descreveu sua grande música como a captura “da fragrância das magnólias, do canto dos pássaros e do jorro das fontes dos jardins de Aranjuez”. O solista será o excelente violonista gaúcho Thiago Colombo (foto).
Mantendo a coerência do programa, o concerto se encerra com a Sinfonia Nº 2 em ré maior, Op. 43, novamente de Sibelius. Escrita logo após o poema sinfônico Finlândia entre fevereiro e março de 1901, esta sinfonia foi estreada em Helsinque em 1902 com grande sucesso, tanto que foi repetida mais três vezes em oito dias.
Também conhecida como “Sinfonia da Independência”, este trabalho popular de grandioso final conecta-se a um momento de sanções russas na língua e cultura finlandesa. Desda a estreia, a postura de Sibelius foi amplamente debatida: alguns afirmam que ele não tinha intenções patrióticas e que a Sinfonia seria apenas nacionalista. Hoje, para nós, esta discussão tem valor apenas histórico.
O programa poderia ser finalizado pela Valsa Triste, também de Sibelius, mas o mundo não é perfeito.
Li teu comentário — que transcrevo abaixo — e tenho reparos a ele. Poucos, é verdade; e os que há são relativos à isonomia e à lastimável postura da sobrinha Belô Velloso, filha de Mabel Velloso, irmã de Caetano e Bethânia, e cuja única boa referência foi a de ter vindo ao mundo num 19 de agosto. Ela, na minha opinião, prestou severo desserviço para sua tia famosa.
Mas hoje é DOMINGO e, apesar das imagens, a música e a letra são esplêndidas! (Quase ninguém conhece esta música, mas ela faz parte dos dois últimos CDs de Bethânia — Tua e Encantería — , lançados juntos. A boa MPB é ouvida apenas do exterior. Por que o MinC não age também neste ponto, o qual é muito mais importante: o de proteger a música brasileira de qualidade? Não dá para fazer? Ah, dá, sim. Assim como o cinema e a literatura.).
Até onde compreendi, a cantora baiana está autorizada somente a batalhar no mercado recursos que, se obtidos, fomentarão concretamente, durante um ano, vídeos diários sobre poesia (não estou a par do conteúdo proposto para tais vídeos), mas acredito que, por toda a obra artística de Bethânia, tal iniciativa não tenha qualquer característica de amadorismo.
Até onde compreendi também, as empresas que endossarem livremente tal projeto terão a sua marca associada ao empreendimento cultural bem como um incentivo fiscal, um desconto, em seu imposto de renda.
Até onde compreendi também, tudo se dará sob a total transparência da lei. Até o momento, não percebi, em tudo que li, qualquer falcatrua porventura escondida na decisão do MinC.
Bem, se não há nada ilegal, então resta analisar se houve, ou há, alguma falta ética no acontecido, ou seja, qual a falta ética de Bethânia ou do MinC no episódio em questão?
Até onde compreendo, haveria uma falta ética se, e somente se, algum outro projeto de caráter semelhante não tivesse sido autorizado antes ou tivesse sido indeferido por favorecimento claro ao aprovado agora pelo MinC. E, por outro lado, se Bethânia tivesse claramente se utilizado de tráfico de influência em detrimento de outro projeto superior ao seu.
Vive-se no Brasil um regime democrático, portanto, que os injustiçados apareçam, se pronunciem competentemente!
Mas, por favor, não me venham com argumentos do tipo: “Ah, Bethânia é rica” ou “Ah, 50.000 por mês, que absurdo!” ou “Ah, eu faria o mesmo ‘di gratis’” ou “Filha da puta da Bethânia” ou “Tal grana poderia ser destinada à educação”.
Não, o buraco é muito, muito, mais em baixo e, minhas senhoras e senhores, não se trata aqui de nenhuma baixeza.
Minhas companheiras e companheiros de história, gostaria de lembrá-los de um fato. Amyr Klink, quando do seu projeto de hibernação na Antártica, a duras penas, conseguiu o patrocínio à construção de seu barco por meio da “AÇOS VILLARES”, à época importantíssima empresa brasileira do setor SIDERÚGICO, isto é, da metalurgia do FERRO!!!!. Detalhe, importantíssimo, seu barco foi construído totalmente em ALUMÍNIO!!!!!!
Por que a AÇOS VILLARES não poderia ter obtido qualquer benefício fiscal – como não obteve!!!! – ao financiar tal empreendimento histórico?! Com terrível angústia, Amyr descreve em seu livro de relatos que, sem a VILLARES, seu projeto não teria existido. Outro detalhe: Amyr fora o único ser humano a atravessar a remo o Atlântico Sul.
Diante disso, brota em mim, infelizmente, a seguinte constatação histórica:
o padecer crônico do Brasil não se constitui essencialmente de seus milhões de miseráveis, mas, ao contrário, de sua maligna, insignificante elite miserável!
Sempre me detenho ao olhar suas fotos. Por quê? Hoje soube que ele é o líder — sim, em 2011, trinta anos após sua morte — nas buscas de entretenimento realizadas por crianças. Não entendo.
Mas por motivos diferentes. A oitava era contra a guerra. E a décima, contra o recém-defunto Stalin. Vale a pena comparar o modo de reger do controlado e genial Mravinsky…
Nascida em Veneza, Barbara foi adotada e batizada pela família Strozzi. Provavelmente foi filha “ilegítima” de Giulio Strozzi e Isabella Garzon. Giulio incentivou o talento da filha, até criando uma academia onde Barbara pudesse aprender e apresentar-se. Ele parecia estar interessado em expor seu considerável talento vocal para um público mais amplo. No entanto, a cantora logo substituída pela compositora e seu pai conseguiu que ela estudasse com o compositor Francesco Cavalli.
Por outo lado, é bastante crível que Strozzi possa ter sido uma prostituta. Ou quem sabe era apenas alvo de calúnias por parte de contemporâneos do sexo masculino? Ela nunca casou, mas sua vida amorosa foi movimentada. Há evidências de que pelo menos três de seus quatro filhos tinham por pai o mesmo homem, Giovanni Paolo Vidman, o que seria estranho para uma prostituta. Após a morte de Vidman é provável que Strozzi se sustentasse por meio de seus dotes físicos, por suas composições ou quaisquer expedientes. Ela, aparentemente, não deixou nada para seus filhos.
Strozzi morreu em Pádua em 1677 e há indícios de ter sido enterrada em Eremitani. Quando ela morreu, sem deixar testamento, seu filho Giulio Pietro reivindicou sua inexistente herança.
Quase três quartos das suas obras impressas foram peças vocais escritas para soprano, mas ela também publicou obras para outras vozes. Strozzi efetivamente evoca o espírito de Cavalli, herdeiro de Monteverdi. No entanto, seu estilo é mais lírico e mais dependente dos cantores. Muitos dos textos de suas peças iniciais foram escritos por seu pai, Giulio. Mais tarde, os textos foram escritos por amigos de seu pai.
Neste 8 de março, homenageio a grande Barbara Strozzi, modelo de mulher talentosa e lutadora. Brilhante compositora , cantora, poeta e, talvez, prostituta.
A Cantata BWV 80 de J.S. Bach é daquelas coisas que fazem os dias pararem, os outros compositores se embasbacarem, a gente acreditar na possibilidade de um deus e que justificam os versos finais de Anna Akhmátova que estão inscritos no túmulo de Dmitri Shostakovich:
Música
(…)
Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores tivessem começado a falar.
Na verdade, a Cantata tem uma estrutura simples e quase simétrica de variações sobre um Coral de Lutero. Um coral, um dueto, uma ária, um coral central, outro dueto e mais um coral. Sim, simples, mas e as variações de Bach?
http://www.youtube.com/watch?v=Mlb0cr-k8PY&feature=related
Ou clique aqui.
http://www.youtube.com/watch?v=u_dS1nain9c&feature=related
Ou clique aqui.
http://www.youtube.com/watch?v=L1RcW6L4oic&feature=related
Ou clique aqui.
http://www.youtube.com/watch?v=jV–lwDBhTg&feature=related
Ou clique aqui.
~o~
Para terminar, um show de Hiromi Uehara em Choux à la Crème. Ela não precisa de baixo… Vejam o que ela faz aos 5min20. Um Chick Corea alegre e de saias.
… but I like it, like it. Yes I do. Encontrado no excelente Goodshit que, com seu peculiar humor, faz questão de informar que esta música não tocou no Oscar.
O jornalista cultural Anthony Tommasini, do New York Times pediu para que seus leitores escrevessem seus 10 compositores eruditos favoritos. A coisa terminaria no dia 23 de janeiro, mas ele seguiu recebendo “interessantes reações de seus leitores”. Sua reação favorita veio na forma de uma carta escrita à mão por Lucas Amory, um menino de 8 anos. Lucas é um estudante de piano e filho de dois violistas, Misha Amory, do Quarteto de Cordas Brentano e Hsin-Yun Huang. Abaixo as cartas. São muito, mas muito legais.
Pois é, hoje vamos de rock. A canção American Pie (1971), de Don McLean, era algo bonitinho e cheio de referências das quais eu mais ou menos me dava conta quando ouvia seus mais de oito minutos. Porém, esta semana, meu colega de trabalho Igor Natusch me mostrou um vídeo onde tudo o que é citado na música é explicado. Vale a pena.
Abaixo, para quem se interessar, está toda a letra de American Pie.
E agora um roquezinho bem legal de que gostava muito na minha adolescência. Dreidel (a máquina lembra o Colégio Júlio de Castilhos, onde estudei; havia uma dessas lá):
E outra canção estupenda do olvidado McLean, esta em homenagem a Van Gogh, Vincent:
Certa vez, um chato de um cético perguntou a Louis Armstrong o que era o jazz e ele respondeu: Man, if you gotta ask, you`ll never know.
Minha mulher ama e conhece muito sobre óperas. Eu não, muito pelo contrário. Não gosto mesmo.
Como morou 7 anos entre Verona, Roma e Londres, pôde passar este período assistindo ao vivo uma ópera por semana. Quando voltou para Porto Alegre, por alguns anos participou de um grupo que se reunia semanalmente a fim de assistir e comentar óperas. Uma pessoa era escolhida para estudar a ópera e fazer o comentário inicial. Depois, a peça era vista de cabo a rabo e tudo terminava num jantar. Então me conheceu e, talvez pelo fato de minha paixão pela música de concerto e de câmara ser tão açambarcante, acabou oprimida e hoje é uma ouvinte mais ou menos conformada daquilo que ouço.
Também contribuiu para seu afastamento uma briga interna com quem administrava o grupo. Alguma dureza é necessária para manter por anos um grupo do gênero, mas os ciúmes e a competição extrapolaram em muito o amor ao bel canto. Os desentendimentos eram recorrentes e voltavam-se principalmente para os que debilmente se insurgiam, se ausentavam ou demonstravam mesmo o mais humilde desejo de mudar alguma coisa.
Para assistir uma ópera é necessária toda uma infraestrutura. O gênero faz menos sentido sem a imagem. É preciso ver cantar, ver o cantor atuar. Deste modo — e já que pouquíssimas óperas são apresentadas nas cidades brasileiras — , é necessário armar-se de um DVD, sentar na frente da TV e ficar ali umas poucas horas. Nem sempre dá, então participar de um grupo com compromissos de horário e discussão é uma boa. Faz acontecer.
A novidade dos últimos anos é ver ópera no cinema, muitas vezes ao vivo. Acho uma solução sensacional, já que nossas cidades são tão ineptas para montar as suas, apesar da paixão de muitos e do excelente material humano.
O fato de minha mulher ter, digamos, “jogado a toalha”, não é uma vitória minha. Na verdade é algo que lamento ter-lhe tirado. Porém ela é muito gregária e, para mim, acompanhá-la é um suplício. O resultado é que fantasio ou durmo. Não gosto do gênero e os motivos não são claros, apenas posso contorná-los. Penso que a maioria dos enredos sejam inverossímeis e talvez cantá-los corresponderia mais ou menos com o fato de atores saírem repentinamente dançando nos musicais. Isto é, acho que a expressão sincera se perde em meio à cantoria empostada e às muitas necessidades do gênero: mostrar voz, mostrar que está sobrando potência, atuar e ainda ser delicado, raivoso, terno, amoroso, rancoroso, engraçado, malvado, interessado, ciumento e tudo. É complicadíssimo e não vejo motivo para todo aquele esforço. I´ll never know. Pior: noto certo desespero dos autores em torcer as melodias para contar a história e os recitativos – frases “semicantadas” que para mim parecem algo como um roubar num jogo (e isso também vale para os das Cantatas e Paixões de Bach) – são de matar. Há também a total proeminência de melodia ou da voz principal na música; coisa que, hoje sei, me irrita. If I gotta think about it, I`ll never know, indeed.
Porém me assusta o fato de tê-la involuntariamente roubado algo que lhe era tão importante. Ainda mais que sua paixão pela música de concerto não me parece tão avassaladora, não obstante sua devoção a Brahms. Um dia, ela vai recuperar o amor pela ópera e eu só espero que não passe a me detestar.
Hoje, ela está na Espanha com sua mãe e depois irá trabalhar em Roma. É claro que esta culpa e este texto é uma expressão em péssimo recitativo de minhas saudades. Até o dia 8.