Um conselho para a vida

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Aprenda com John Waters:

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Bamboletras recomenda Ney Matogrosso, Maria Rita Kehl e Hannah Arendt

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A newsletter de quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

É complicado escrever uma apresentação para as sugestões desta semana. Se conseguimos traçar paralelos entre Maria Rita Kehl e Hannah Arendt, como fazer com Ney Matogrosso? O fato é que são três livros bem bons e diferentes. A única coisa em comum entre os três é o fato de que, pela primeira vez, não temos um livro de ficção entre nossas dicas.

Abaixo, mais detalhes.

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Ney Matogrosso — A Biografia, de Julio Maria (Cia. das Letras, 512 páginas, R$ 89,90)

Tendo como aliada apenas a própria intuição, Ney Matogrosso abriu um caminho único na música brasileira. Enfrentou a hostilidade do pai militar e os dogmas da Igreja católica, sobreviveu aos anos de chumbo e ao perigo da aids, manteve-se firme diante das críticas a seu “canto de mulher” e da vigilância das censuras. O jornalista Julio Maria passou cinco anos perseguindo os caminhos trilhados por Ney para contar a história de um dos personagens mais transformadores da cultura do país. Visitou a casa em que ele nasceu em Bela Vista do Mato Grosso do Sul, a vila militar em que viveu a conturbada adolescência com o pai em Campo Grande e o quartel da Aeronáutica que o abrigou como soldado no Rio de Janeiro. Encontrou um irmão mais velho do qual a família não tinha notícias, levantou documentos de agentes que o observaram durante a ditadura e localizou fatos raros da fase Secos & Molhados. Ney Matogrosso – A biografia vai às camadas mais profundas da história de Ney para contar a vida de um artista que pagou caro por defender seus direitos e sua vida artística.

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Ressentimento, de Maria Rita Kehl (Boitempo, 208 páginas, R$ 53,00)

Ressentimento, obra pioneira da psicanalista Maria Rita Kehl, ganha, em 2020, uma nova edição pela Boitempo, com um novo prefácio e projeto gráfico. O livro aborda a conceitualização do ressentimento a partir de quatro pontos de vista: a clínica psicanalítica, a filosofia de Nietzsche e Espinosa, a produção literária e o campo político. Como o ressentimento não é um conceito clássico da psicanálise, Maria Rita Kehl mobiliza tanto as suas observações clínicas quanto seus conhecimentos de outras áreas para definir e explicar a constelação afetiva que o forma. “Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer” – é desse modo que o ressentido se conduz a um beco sem saída: ao não assumir a responsabilidade sobre a própria situação, ele busca apenas uma vingança “imaginária e adiada”. Faz-se notar, assim, a atualidade do tema do ressentimento, presente nos conflitos sociais daqueles que não se veem como agentes da vida social e política. Apenas a partir da tomada de consciência da própria responsabilidade como sujeitos de nossas ações é possível abrir mão da passividade – e dos ganhos secundários – da posição ressentida.

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Pensar sem Corrimão — Compreender, de Hannah Arendt (Bazar do tempo, 640 páginas, R$ 92,00)

Pensadora da crise e do recomeço, Hannah Arendt (1906-1975) produziu uma obra incomparável sobre os acontecimentos do século XX e suas repercussões. Os textos reunidos neste livro atestam a sua capacidade em avaliar com rigor teórico e compromisso ético as principais questões de seu tempo, criando diagnósticos que se tornaram referência nos mais diversos campos das ciências humanas. Produzidos entre os anos 1950 e 1970, esses escritos, em grande parte inéditos, atravessam o período em que a Arendt escreveu suas obras mais importantes. Dessa forma, é visível o diálogo estabelecido entre as reflexões presentes nesta edição – em ensaios, aulas, estudos e entrevistas – e trabalhos como Origens do totalitarismo, Sobre a revolução e A condição humana. Na coletânea estão mais de quarenta textos com propósitos e estilos diferentes: projetos de pesquisa como o que a autora dedica a Marx, uma série de estudos sobre o significado das revoluções modernas, discursos como o de agradecimento pelo recebimento da Medalha Emerson-Thoreau, importante prêmio literário concedido pelo Academia Americana de Artes e Ciências, homenagens a amigos, como o filósofo Martin Heidegger e o poeta W. H. Auden, cartas e entrevistas que trazem detalhes da vida e a obra da autora.

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A nota amarela — seguida de Sobre a escrita — um ensaio à moda de Montaigne, de Gustavo Melo Czekster

A nota amarela — seguida de Sobre a escrita — um ensaio à moda de Montaigne, de Gustavo Melo Czekster

Esta será uma resenha estranha, escrita em formato gonzo. Gonzo é um estilo de texto jornalístico ou cinematográfico no qual o autor abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura com o que é contado.

Pois bem, o romance A Nota Amarela — primeira parte do livro de Czekster — é narrado pela violoncelista Jacqueline du Pré. Trata-se de seus pensamentos durante sua célebre interpretação do Concerto para Violoncelo de Elgar. Claro que tudo o que ela pensa foi criado e (muito) pesquisado por Czekster. Du Pré foi uma grande figura inglesa da música erudita. Linda, cheia de vida, verdadeiramente fulgurante, ela era recém casada com o pianista e regente Daniel Baremboim — até hoje uma figura referencial na área musical. Há um filme de uma interpretação de du Pré para este concerto que foi gravado em 1967 e que serviu de base para boa parte do trabalho. Eu conheço este filme há muitos anos. Acho que o vi pela primeira vez ainda adolescente em alguma TV Educativa e fiquei fascinado. Afinal, uma linda música, tocada com muita emoção por uma bela mulher, o que poderia haver de melhor? O fato é que jamais esqueci dele e tratava de rever o filme a cada reapresentação. Aqui está ele:

Uma vez, nos anos 80, levei uma moça muito bonita, graciosa e radical, pela qual estava me apaixonando, para ver a Ospa tocar este concerto. O programa finalizava com a Sinfonia Nº 9 de Schubert, a Grande. Não é que tenha dado errado, mas… O fato é que fiz enorme propaganda do concerto de Elgar e, no final, ouvi ela dizer que o inglês fora humilhado por Schubert e… Como é que eu tinha dito que detestava autores do século XX que escreviam como se estivessem no XIX se, já de cara, no primeiro concerto em que íamos juntos, eu elogiava um desses “horrores”? E me perguntou ironicamente qual era a obra de Rachmaninov que eu amava. Nenhuma, eu respondi, já perdendo o entusiasmo. Ela gostava da música moderna, divertia-se com Stockhausen, Xenakis, com a Segunda Escola de Viena, etc. Minha história com a moça não interessa, mas ela tinha razão. Costumo não gostar destes autores, contudo há exceções e uma delas é este concerto.

Elgar e sua batuta

Me deu vontade de bater nela com a enorme batuta de Elgar, mas acabamos passando uns bons seis meses juntos, não obstante meu gosto por aquela “vulgaridade”. Então, desde que soube que Czekster se dedicara a esmiuçar a famosa interpretação de du Pré, fiquei encantado e meio enciumado, porque o Concerto era meu e de Jacqueline e fim!

Mais: como se não bastasse, o livro de Czekster tinha outra característica perturbadora. Eu sou uma pessoa avessa a ler filósofos, não gosto. Também sou totalmente hostil a romances-ensaios como, por exemplo, O homem sem qualidades, de Robert Musil. (OK, estou aqui desfiando perigosamente alguns de meus vários desvios de caráter). Só que amo profundamente um filósofo e ele se chama Michel de Montaigne. A forma com que Montaigne aborda seus temas me deixa inteiramente envolvido. Além de possuir um texto maravilhoso, ele mistura histórias pessoais e observações sobre temas menores, partindo para conclusões que às vezes admite duvidosas. É um escritor glorioso. Para cúmulo, ainda tem muito humor e uma capacidade argumentativa absolutamente anormal. É agradável lê-lo. Ele conversa com o leitor como faz Machado. E Czekster escolheu-o para escrever um ensaio “à moda de”. É muita coisa em comum.

Desta forma, mesmo sem abrir o livro, mesmo observando de longe o volume, eu sabia que ele era para mim.

(Desculpe, Czekster, mas me senti como o personagem de A Vida do Outros, o capitão Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) que termina o filme dizendo “É para mim”).

Mas demorei uns dois meses para abrir A Nota Amarela. Olha, gostei demais.

Czekster dividiu a narrativa em 31 capítulos, que é aproximadamente o número de minutos de duração do Concerto. Numerou-os em ordem descendente, sublinhando os minutos faltantes da execução do mesmo — o autor não faz isso de forma arbitrária, tem suas razões. Como disse, o livro é escrito na primeira pessoa do singular e, no ensaio, o autor deixa claro que leu todos os livros e entrevistas disponíveis de du Pré. Eu li muito menos e é claro que as coisas batem. Jamais saberemos o quanto o texto é du Pré, mas eu creio que é muito. Para nossa sorte, Czekster não fala sobre a doença que vitimou a carreira da violoncelista e a própria. A carreira de du Pré foi curta em razão da esclerose múltipla, que a forçou deixar os palcos aos vinte e oito anos de idade. Ela viveu apenas 42 anos.

Em determinado momento, Jacqueline vê, na plateia, uma mulher com um lenço amarelo, e aquilo a perturba. Ela se pergunta o motivo disso, pensando até se em seu guarda-roupa esta cor aparece ou não. Até que ela lembra que seu professor de violoncelo, o grande William Pleeth, presente ao concerto, um dia lhe dissera que os chineses acreditavam que uma nota amarela seria “a partícula de som perfeito que deu origem ao Universo”. Ela seria a nota perfeita, aquela que o músico deveria alcançar ou se aproximar ao máximo. Porém, toda vez que ela sente que a tal supernota está iminente, sobrevém-lhe enorme angústia e medo.

Escrever sobre os pensamentos de um artista conhecido durante a execução de um concerto é um enorme desafio, uma verdadeira proeza. A coisa poderia ficar realmente chata com constantes referências a ensaios, acelerações, desacelerações, dificuldades técnicas, relação com o palco, olhares do maestro, erros, etc., mas Gustavo mostra-se realmente criativo e não nos entrega — para usar uma expressão da moda — mesmice. O livro é feérico e Jacqueline está dentro de um drama que envolve angústia, dores, digressões, autocrítica, crítica e até certo descolamento daquilo que está fazendo.

E o ensaio sobre a escrita é brilhante, belíssimo. E também quase um thriller. A questão pessoal — penso que real — confessada pelo autor “a la Montaigne” é absolutamente grave e angustiante. Daquelas coisas de fazer a gente engolir o livro.

Recomendo muito.

Gustavo Melo Czekster | Foto: Maia Rubim/Sul21

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Os livros mais vendidos no mês de julho na Bamboletras

Os livros mais vendidos no mês de julho na Bamboletras

Confira os mais vendidos do mês de julho aqui da Bamboletras!

1. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
2. O deus das avencas, de Daniel Galera (Companhia das Letras)
3. Escravidão Volume 2 – Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao Brasil, de Laurentino Gomes (Globo Livros)
4. Doramar ou a Odisseia: Histórias, de Itamar Vieira Júnior (Todavia)
5. Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras)
6. Correntes, de Olga Tokarczuk (Todavia)
7. Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy (Todavia)
8. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
9. Tudo é Rio, de Carla Madeira (Record)
10. Baratas, de Scholastique Mukasonga (Nós)

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Bamboletras recomenda 3 pequenos grandes livros

Bamboletras recomenda 3 pequenos grandes livros

A newsletter de quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Sim, três pequenos grandes livros.

O primeiro, Encaixotando minha biblioteca, é um canto de louvor ao livro escrito por Alberto Manguel. Gente, Manguel é um daqueles argentinos geniais que não dá para desconhecer, ainda mais que ele foi amigo de Borges e diretor da Biblioteca Nacional da Argentina.

Taxitramas é pura diversão de primeira linha. São as incríveis histórias que Mauro Castro colhe em seu táxi. O cara escreve muito bem, é realmente engraçado.

E a terceira sugestão é Cartas para minha avó, de Djamila Ribeiro, uma tocante memória da autora a respeito da sua infância, da avó e de tudo o que circunda uma infância sob o racismo brasileiro.

Abaixo, mais detalhes.

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Encaixotando minha biblioteca, de Alberto Manguel (Cia. das Letras, 184 páginas, R$ 44,90)

Encaixotando minha biblioteca é uma grande declaração de amor aos livros e à leitura. Fala sobre a importância dos livros em nossa vida e como são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade. No verão de 2015, Alberto Manguel se preparou para mais uma mudança: ele sairia de sua casa medieval no Loire, na França, e passaria a morar em um apartamento em Nova York. Sua biblioteca pessoal, com cerca de 35 mil volumes, teria que ser guardada. Nesse momento, o escritor começa a relembrar sua relação com os livros e as bibliotecas (públicas e privadas) que já passaram por sua vida, apresentando aos leitores uma elegia apaixonada. As reflexões de Manguel variam amplamente, desde as adoráveis idiossincrasias dos bibliófilos a análises mais profundas de eventos históricos, como o incêndio da antiga Biblioteca de Alexandria. Com perspicácia e carinho, o autor ressalta a importância dos livros e seu papel único em nossa sociedade.

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Taxitramas, de Mauro Castro (Evangraf, 136 páginas, R$ 39,90)

Uma gostosura em forma de livro. Quero ver você largar as histórias de Mauro Castro depois de começá-las. Entre centenas de personagens, um cardíaco em pânico, uma freira em fuga, uma mulher nua, um homem baleado, um passageiro querendo comprar as meias do taxista, uma mãe que esquece sua filha no banco traseiro, um bêbado distribuindo dinheiro, um sujeito querendo pagar a corrida com camarões, uma mulher violentada, uma vovó entalada, um ex-detento perdido, a busca por uma aborteira, a mulher do marido que foi deixado num motel telefona, a reação a um assalto… Uma sucessão eletrizante de situações engraçadas, trágicas ou bizarras, no limite do verossímil, mas todas baseadas em corridas reais. Respire fundo e embarque!

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Cartas para minha avó, de Djamila Ribeiro (Cia. das Letras, 200 páginas, R$ 34,90)

Um relato memorialístico pungente e sensível sobre ancestralidade, feminismo e antirracismo na criação de filhos. No mais pessoal e delicado de seus livros, a filósofa Djamila Ribeiro revisita sua infância e adolescência para discutir temas como ancestralidade negra e os desafios de criar filhos numa sociedade racista. O relato se dá na forma de cartas para sua saudosa avó Antônia – carinhosa e amorosa, conhecedora de ervas curativas e benzedeira muito requisitada. A cumplicidade que sempre houve entre avó e neta é o que permite que a autora rememore episódios difíceis, como a perda do pai e da mãe, as agressões que sofreu como mulher negra e os desafios para integrar a vida acadêmica. Djamila também fala de relacionamentos amorosos e experiências profissionais, das músicas, das leituras e das amizades que a acompanharam em sua construção pessoal – e da percepção paulatina de que a memória das lutas e das conquistas das pessoas negras que vieram antes de nós é a força que permite seguir adiante.

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Vista chinesa, de Tatiana Salem Levy

Vista chinesa, de Tatiana Salem Levy

Em 2014, antes de uma reunião de trabalho, a arquiteta Júlia, responsável por uma das obras da Olimpíadas de 2016, foi correr até a Vista Chinesa, que é um mirante em estilo chinês localizado no bairro do Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro. O mirante está localizado na Floresta da Tijuca. Os seis quilômetros que ela percorreria em 40 min foram interrompidos por um homem armado que a levou para a floresta a fim de cometer um estupro.

Trata-se de um romance, pois o texto de Tatiana Salem Levy utiliza-se do variado instrumental romanesco, mas Vista Chinesa narra um caso verdadeiro. É óbvio que não é uma leitura fácil, mas também não é a bigorna que poderia ser. Não pensem que a autora desvia-se dos detalhes do estupro. Não, ela descreve claramente a violência sofrida e suas consequências. Descreve os sentimentos da abusada em todo o seu horror, mesmo durante a agressão. Porém, em capítulos curtos e habilmente escritos, desorganiza o tempo cronológico, mostrando a vida de Júlia antes e depois do estupro, a ruptura, o que era a vida antes e o que será depois, assim como o doloroso processo de reconhecimento do estuprador.

É um livro corajoso, resultado de entrevistas feitas pela autora com “Júlia”, cujo nome real aparece no final do livro. As vítimas de estupro — compreensivelmente — não gostam de falar nem de lembrar do fato. Aliás, as pessoas também não amam ouvir a respeito. A forma encontrada por Levy foi a de escrever seu livro como se fosse uma carta de Júlia para seus dois filhos, nascidos após o crime. O formato é engenhoso, porque permite um tom muito sutil, ao mesmo tempo brando e extraordinariamente franco, o que deixa o romance ainda mais impactante.

Recomendo fortemente.

Tatiana Salem Levy

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Quatro livros de quatro autores do Fronteiras do Pensamento 2021

Quatro livros de quatro autores do Fronteiras do Pensamento 2021

O Conto da Aia
Margaret Atwood
Rocco
368 páginas

Se O Conto da Aia (1985) já era o livro mais famoso e vendido da canadense Margaret Atwood, a premiada série que tem por base o livro — The Handmaid`s Tale, atualmente na quarta temporada — alçou-o ainda mais. Para completar, a autora lançou em 2019 sua continuação, chamada Os Testamentos. O livro é um clássico moderno e tornou-se referência para quem escreve sobre políticas destinadas a mulheres. Trata-se de uma distopia ferozmente política e sombria, que não pode ser considerada uma ficção científica, pois não é propriamente futurista. A obra explora os temas da subjugação das mulheres e os vários meios pelos quais elas perdem a independência. O Conto da Aia conta a história de Offred e de seu papel como serva. As servas são forçadas a fornecer filhos para as mulheres inférteis de status social mais elevado, as esposas dos Comandantes. A ideia é a de que sejam invisíveis, tornando-se apenas a soma de suas partes biológicas. Desta forma, o corpo de Offred se torna uma causa de desconforto para ela. É um romance cada vez mais importante nos dias atuais, onde mulheres de várias partes do mundo ainda vivem uma realidade ditada pelo determinismo biológico e pela misoginia.

Elisabeth Moss, da série de TV, e Margaret Atwood

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Sapiens – Uma Breve História da Humanidade
Yuval Noah Harari
Cia. das Letras
472 páginas

Harari não para. Aos 45 anos, já é autor de livros fundamentais que certamente você conhece: Sapiens, Homo Deus, 21 Lições para o Século 21, Notas sobre a pandemia… Seu livro mais importante é Sapiens, cuja edição espanhola recebeu um belo e esclarecedor título: De animais a deuses. O livro é dividido em 4 partes. A primeira fala do surgimento na Terra do gênero Homo e de sua evolução até o triunfo do Homo Sapiens sobre as demais espécies. A segunda trata da revolução neolítica, aqui denominada “revolução agrícola”, ou seja, aquele momento que transformou a sociedade de caçadores-coletores nômades em uma de agricultores e pastores, há cerca de 10.000 anos. A terceira já nos remete à modernidade, ao período da primeira globalização e ao surgimento dos grandes impérios mundiais, como o romano e o britânico. Impérios que se baseiam na ambição de tomar, evangelizar ou “civilizar” outros povos. A última seção é dedicada à “revolução científica”, a todas as descobertas dos últimos 500 anos no campo da ciência. Aqui, ele trata dos grandes avanços tecnológicos, desde os gerados pela revolução industrial até os mais recentes na engenharia genética, como a recriação de um cérebro humano dentro de um computador.

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Drogas para Adultos
Carl Hart
Zahar
408 páginas

Neste livro, o professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia argumenta que o uso de drogas deve ser uma questão de escolha pessoal – e que, na maioria dos casos, a escolha pessoal pode levar a resultados positivos. Suas posições podem parecer radicais para alguns, mas também fazem muito sentido – e são apoiadas por ampla pesquisa. Um dos principais motivos pelos quais as drogas têm uma imagem pública tão negativa seria o racismo. Hart observa que, após a Guerra Civil, alguns trabalhadores chineses que trabalhavam na construção de ferrovias chinesas fumavam ópio e estabeleceram “pontos de ópio” para fazê-lo. Com o tempo, mais e mais americanos brancos visitaram estes pontos. Isso, por sua vez, levou a um medo social mais amplo e preconceituoso entre os brancos e até hoje há a ligação, nos EUA, entre drogas e raça. Depois, os negros acabaram ligados à cocaína. Drogas para Adultos defende que as pessoas têm o direito de usar drogas, se assim o desejarem. Na opinião de Hart, seria melhor que elas fossem legais, com testes de pureza e apoio social para aqueles que delas precisam. O que temos agora, em vez disso, é o encarceramento racista em massa e a vergonha social. O livro é uma aula de liberdade pessoal sem estigma social.

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O Novo Iluminismo
Steven Pinker
Cia. das Letras
664 páginas

O Novo Iluminismo é, sobretudo, um livro importante nestes tempos de trevas. É também um livro muito bem escrito, farto em informações, e praticamente impecável em sua coerência. Pinker faz um chamado para a valorização do conhecimento científico como premissa e paradigma a fim de alcançarmos a superação das mazelas e sofrimentos da humanidade em todos os níveis, para a evolução da nossa espécie em direção a uma nova era de prosperidade, paz e solidariedade. Um otimista? Certamente, mas nada ingênuo, pois reconhece as implicações, as barreiras e toda a amplitude político-ideológica que tem de ser superadas. O Novo Iluminismo mapeia as melhorias acontecidas ao longo do último meio século em áreas como o racismo, sexismo, homofobia e bullying, até acidentes de carro, derramamento de óleo, pobreza, lazer, empoderamento feminino e assim por diante. Seus gráficos sugerem que o ateísmo está aumentando e a religiosidade diminuindo nos Estados Unidos. Seus estudos, se forem lidos com atenção, são convincentes, pintando um retrato implacável e insistente de melhoras baseadas no conhecimento. Esta noção faz muita falta em tempos de terraplanismo e de combate às universidades e ao conhecimento.

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Bamboletras recomenda dois livros fundamentais e uma novidade

Bamboletras recomenda dois livros fundamentais e uma novidade

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Nossas sugestões para esta semana gelada são quentes. Ah… Duvida? Pensa que é só uma má frase de efeito? Pois então veja só.

Sugerimos a bela edição de todos os contos de Cortázar e um clássico da literatura brasileira, a obra-prima Crônica da Casa Assassinada. De quebra, uma surpresa: o livro Camaradas, de Jodi Dean. Quem o leu voltou elogiando muito.

Abaixo, mais detalhes.

E cuide-se com o frio. Além dos cuidados com a Covid, agasalhe-se. E, se puder, doe aquele capotão velho e fora de uso porque as ruas estão cheias de sem-teto.

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Todos os Contos, de Julio Cortázar (Cia. das Letras, 1144 páginas, de R$ 269,90)

Precisamos mesmo descrever este tesouro? Pela primeira vez no Brasil, são publicados todos os contos de Cortázar, reunidos em dois volumes de capa dura, numa caixa com projeto gráfico especial. A verdadeira revolução de Cortázar, sabemos, está nos seus contos e histórias curtas. Mas não se trata de uma reedição de todos os livros de contos do escritor, mas de novas traduções feitas por Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista. (Cá pra nós, aqueles velhos livros da Civilização Brasileira às vezes tinham traduções de cortar os pulsos, né?). Então gente, Bestiário, Todos os fogos o fogo, As armas secretas, Octaedro, Fim do jogo, Histórias de cronópios e de famas, todos os livros fundamentais de Cortázar estão aqui e mais. A edição conta ainda com os dois célebres ensaios do autor argentino sobre a escrita de contos, Alguns aspectos do conto, de 1963, e Do conto breve e seus arredores, de 1969, além de um estudo do crítico argentino Jaime Alazraki sobre o Cortázar contista.

Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso (Cia. das Letras, 560 páginas, R$ 84,90)

Este livro é um clássico absoluto da literatura brasileira. Publicado pela primeira vez em 1959, Crônica da casa assassinada conta a história da decadência de uma família tradicional mineira: cada geração se vê mais pobre que a anterior, dilapidando o patrimônio para sobreviver. Os Meneses, porém, continuam sendo respeitados na pequena comunidade onde vivem. A Chácara, a grande casa que gera orgulho mas que também aprisiona, é vista com reverência e desconfiança por todos que conhecem o clã. A história dos Meneses é contada através de diferentes narradores, que se enfrentam e se contradizem, mas que constroem com maestria um retrato profundo da vida familiar. A chegada de Nina — jovem carioca que se muda após se casar com Valdo, um dos irmãos — vai abalar a relação difícil entre eles. É uma história densa, não linear, cheia de ciúmes, rancores e perversões. Como dissemos, é narrado por várias vozes, incluindo membros da família Meneses e habitantes de Vila Velha, cidade onde vivem. Não devemos acreditar em tudo o que lemos ali. Fantasmagórico e envolvente, Crônica da casa assassinada surpreendeu em 1959, por trazer temas pouco comuns à época, como a homossexualidade e as relações incestuosas.

Camarada — Um Ensaio sobre Pertencimento Político, de Jodi Dean (Boitempo, 208 páginas, R$ 55,00)

No século XX, milhões de pessoas se dirigiram umas às outras como “camarada”. Hoje, em círculos de esquerda é mais comum ouvir falar em “aliados”. Neste livro, Jodi Dean insiste no fato de que essa mudança exemplifica o problema fundamental da esquerda contemporânea: a sobreposição da identidade política a uma relação de pertencimento político que precisa ser construída, sustentada e defendida. Neste ensaio com recortes e análises bastante originais, Dean nos oferece uma teoria da camaradagem. Camaradas são pessoas que se encontram de um mesmo lado de uma luta política. Unindo-se voluntariamente por justiça, sua relação é caracterizada por disciplina, coragem e entusiasmo. Analisando o igualitarismo da figura do camarada à luz das diferenças de raça e gênero, Dean recorre a um leque de exemplos históricos e literários. Eis um livro curto que articula história, psicanálise e filosofia num texto prazeroso de ler como ensaio de interesse geral.

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Caim, de José Saramago

Caim, de José Saramago

Caim é o que odeia deus.
José Saramago

Quem não sabe quem foi Caim, o que matou Abel e que foi uma espécie de anti-herói bíblico? É dele que trata este romance de Saramago.

Bem, podemos facilmente dividir a obra de Prêmio Nobel José Saramago (1922-2010) entre os livros sérios e os divertimentos. Caim está decididamente entre os divertimentos. Narrativa leve, constantemente cômica e fluida, é uma road novel a pé e em jumento pelo Velho Testamento. Talvez melhor fosse chamar o romance de picaresco, “diz-se picaresco dos romances e das peças de teatro cujo herói é um aventureiro ou um vadio que vai de um lugar a outro, sem destino determinado”. O surpreendente capítulo final — que não será contado aqui — dá uma inesperada grandeza à sucessão de boas piadas contidas no romance.

Como fez em O Evangelho segundo Jesus Cristo, aqui Saramago retoma a Bíblia como base e o faz com graça e inteligência extremas. O livro começa com a história com Adão e Eva no paraíso. Após os eventos que levam à expulsão deles, Caim nasce, cresce, mata o irmão Abel e logra convencer deus de ser Ele o culpado pelo fato de ver e não interferir. Admitindo em parte sua culpa, deus poupa Caim mas dá-lhe uma punição: ele será um errante. E aqui inicia-se o que chamei de road novel: as andanças de Caim pelas histórias do Velho Testamento: Lilith, Jó, Abraão, Noé, etc. O efeito muitas vezes é cômico, mas há um compromisso complexo e indignado além da paródia. Profundas questões morais alternam-se com fatos rotineiros.

Caim chama a atenção da bela e casada (e rica) Lilith e se torna o amante dela. Mas, é dispensado após fazer-lhe um filho e decide seguir pelo mundo. A falta de contentamento parece ser um castigo divino. Errante, sobre um burrinho, Caim começa a viajar por diferentes tempos e lugares.

Em seu caminhar, Caim passa pelas histórias mais conhecidas (só the best of) do Velho Testamento. Saltando no tempo, pois há estradas que apresentam “presentes diferentes”, Saramago dedica um olhar mais do que debochado a cada uma delas. E todas elas possuem um elemento comum além da presença de Caim: um deus mau ou pior do que isso, um deus que parece desejar apenas punir ou vingar-se de sua criação — Caim, Abraão, Jó… — ou que se compraz com limpezas étnicas (expressão minha) — Sodoma e Gomorra, o episódio da arca de Noé…

Com humor corrosivo e paradoxal leveza, Caim não é leitura indicada para carolas ou quetais. Ou é, pois os católicos costumam ignorar o Velho Testamento. Um livro que redime Caim e acusa deus de ser o autor intelectual dos crimes mais hediondos deveria talvez irritar mais os judeus do que os católicos? Não sei e, para dizer a verdade, nem me interessa. O que me importa é a alta diversão proporcionada por Saramago neste romance despretensioso e de final arrebatador.

Entre seus episódios, Saramago vai filtrando heresias como a ideia de que, se antes deus aparecia aos homens, agora ele deixou de fazê-lo pela vergonha gerada por algumas de suas tristes atitudes ou, numa frase do português com destino ao Citador: “A história dos homens é a história de seus desacordos com deus, nem ele nos entende nem nós o entendemos.”

Caim é, enfim, o personagem que Saramago encontrou para levar ao extremo sua ideia de que onde há movimento também há inconformismo e, portanto, uma história que valha a pena contar. E além de revisar o Antigo Testamento, este romance analisa aquela outra fonte de nossa tradição cultural que é a Odisseia. Como Ulisses, Caim também muitas vezes esconde seu nome verdadeiro e se propõe a viver seu destino errático, não sem esconder um ás na manga.

José Saramago (1922-2010)

 

 

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Todo o Salinger com desconto na Bamboletras e mais Mariana Enriquez e Sapatas

Todo o Salinger com desconto na Bamboletras e mais Mariana Enriquez e Sapatas

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Nesta semana temos 3 sugestões matadoras, por assim dizer — pois matador é o nosso presidente, né? Imaginem: toda obra de Salinger com desconto, um romance premiado da fantástica (em todos os sentidos) Mariana Enriquez e mais o essencial de Alison Bechdel. Sim, exageramos, mas este é nosso papel. Fazer o quê?

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O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger (Todavia, 255 páginas, de R$ 59,90 por R$ 50,90)

Neste mês, este clássico do século XX completou 70 anos. E, bem, a Bamboletras está dando 15% de desconto em toda a obra de Salinger. O recluso autor escreveu apenas 4 pequenos livros, mas que livros! São eles O Apanhador, Nove Histórias (maravilhoso), Franny e Zooey e Erguei bem alto a viga, carpinteiros & Seymour — Uma introdução (igualmente imperdível!). Sobre O Apanhador: é Natal e Holden Caulfield conseguiu ser expulso de mais uma escola. Com uns trocados e seu indefectível boné vermelho de caçador, o jovem traça um plano incerto: vagar três dias por Nova York, adiando a volta à casa dos pais. Seus dias e noites serão marcados por encontros confusos, e ocasionalmente comoventes, brigas e dúvidas que irão consumi-lo. Acima de tudo, paira a inimitável voz de Holden, o adolescente raivoso e idealista que quer desbancar o mundo dos “fajutos”, num turbilhão de ressentimentos, humor, frases lapidares, insegurança, bravatas e rebelião juvenil. Esta edição brasileira tem tradução de Caetano W. Galindo e, pela primeira vez, traz a capa original de seu lançamento.

Nossa Parte de Noite, de Mariana Enriquez (Intrínseca, 544 páginas, R$ 79,90)

Quem leu o esplêndido As coisas que perdemos no fogo sabe da alta qualidade da prosa da argentina Mariana Enriquez. Nossa parte de noite ganhou na Espanha o Premio Herralde de Novela e o Premio de la Crítica 2019. Um pai e um filho cruzam a Argentina de carro, de Buenos Aires até as Cataratas do Iguaçu, na fronteira com o Brasil. São os anos da ditadura militar argentina, soldados armados estão no controle e o ambiente é de tensão. A mãe do garoto Gaspar morreu em circunstâncias obscuras, em um suposto acidente. O terror sobrenatural se mistura com terrores bem reais neste romance deslumbrante — em casas cujos interiores sofrem mutações, passagens que escondem monstros inimagináveis, rituais com sacrifícios humanos que envolvem êxtase e dor, andanças na Londres psicodélica dos anos 1960, fetiche por pálpebras humanas, liturgias sexuais enigmáticas e a repressão da ditadura, os desaparecidos, a chegada incerta da democracia e os primeiros casos de aids em Buenos Aires. Um romance que amedronta e envolve na mesma medida. Mariana Enriquez nasceu em 1973 em Buenos Aires. É jornalista, subeditora do jornal Página/12 e professora.

O Essencial de Perigosas Sapatas, de Alison Bechdel (Todavia, 395 páginas, R$ 109,90)

Ao longo de mais de duas décadas, Alison Bechdel, autora da premiada graphic novel Fun Home, levou a vida de Mo, Lois, Ginger, Sparrow e de suas amigas a dezenas de jornais. Narrada como uma novela ilustrada, a história se passa em tempo real: as personagens se conhecem, se apaixonam, atam e desatam relacionamentos, trocam de empregos, envelhecem, e suas vidas ao longo de vinte anos refletem as mudanças sociais, culturais e políticas contemporâneas. Selecionadas pela autora, as tiras de O Essencial de Perigosas Sapatas dão a medida do impressionante escopo do trabalho de Bechdel.

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“Foi repugnante”: leia a fulminante avaliação de Tchékhov sobre a noite de estreia de sua primeira peça

“Foi repugnante”: leia a fulminante avaliação de Tchékhov sobre a noite de estreia de sua primeira peça

Hoje é o data do 117º aniversário da morte de Anton Tchékhov. Ele é considerado um dos maiores escritores de contos de todos os tempos, e suas peças, hoje clássicas, estabeleceram as bases para o realismo do teatro contemporâneo. Além disso, ele foi médico praticante durante a maior parte de sua carreira de escritor. O que esse cara não poderia fazer? Mas até Tchékhov ficava constrangido.

Em 1887, ele — até então basicamente um satírico e contista — foi contratado por um gerente de teatro para escrever sua peça de estreia, Ivanov. Escreveu Ivanov em apenas duas semanas e a peça foi imediatamente produzida. Tchékhov ficou puto. Em uma carta para seu irmão Alexandr, logo após a primeira apresentação, Tchékhov criticou os atores como “irreconhecíveis”, “bêbados como sapateiros”, transformando seu texto em algo “tedioso e nojento”. No entanto, o público adorou a peça, que foi aplaudida e elogiadíssima. Tchékhov resumiu seus sentimentos conflitantes sucintamente: “No geral, me sinto cansado e irritado. Foi repugnante, embora a peça tivesse sido um sucesso”.

Aqui está a carta completa e incrível:

Bem, a primeira apresentação acabou. Vou lhe contar tudo em detalhes. Para começar, Korsh me prometeu dez ensaios, mas deu apenas quatro, dos quais apenas dois poderiam ser chamados de ensaios, pois os outros dois eram torneios em que messieurs les artistes se exercitavam em brigas e discordâncias. Davydov e Glama eram os únicos dois que conheciam seus papéis, os outros improvisavam.

Ato um. – Estou atrás do palco em uma pequena caixa que parece uma cela de prisão. Minha família está nervosa. Contrariamente às minhas expectativas, estou calmo. Os atores estão nervosos. Se benzem. A cortina sobe… O ator principal esquece suas falas e diz qualquer coisa. Kiselevsky, em quem eu depositava grande esperança, não proferiu uma única frase corretamente — literalmente nenhuma. Ele disse coisas de sua própria larva… Apesar disso e dos erros do diretor de palco, o primeiro ato foi um grande sucesso.

Ato dois. – Muitas gente no palco. Eles não conhecem suas partes, cometem erros, falam bobagens. Cada palavra me corta como uma faca Mas — ó Musa! — esse ato também foi um sucesso. Houve chamadas para todos os atores e fui chamado duas vezes ao palco antes de fechar a cortina. Parabéns e sucesso.

Terceiro ato. – A atuação não é ruim. Sucesso enorme. Tive de me aproximar da cortina três vezes e, ao fazê-lo, Davydov apertou minha mão e Glama, como Manilov, apertou minha outra mão em seu coração. O triunfo do talento e da virtude…

Quarto ato, cena um. – A plateia, desacostumada a deixar seus lugares e ir ao bar entre duas cenas, reclama. A cortina sobe. Tudo bem: avista-se a mesa da ceia (de casamento). A banda toca floreios. Os padrinhos saem: eles estão bêbados, então você vê que eles acham que devem se comportar como palhaços e dar cambalhotas. A brincadeira e a atmosfera me reduzem ao desespero. Sai então Kiselevsky: é uma passagem poética, comovente, mas o meu Kiselevsky não conhece o seu papel, está bêbado e um breve diálogo poético se transforma em algo tedioso e nojento: o público fica perplexo. No final da peça, o herói morre porque não consegue superar o insulto que recebeu. A audiência não entende essa morte. Aplausos para os atores e para mim. Ouço sons de assobios, abafados pelas batidas de palmas.

No geral, sinto-me cansado e aborrecido. Foi repugnante, embora a peça tivesse sido um sucesso considerável…

Os frequentadores do teatro dizem que nunca tinham visto tal efervescência no teatro, tantos aplausos. E nunca o autor fora chamado para ser aplaudido depois do segundo ato.

Portanto, dramaturgos, se vocês já se irritaram com o resultado de seu trabalho…

Uma rara foto de Tchékhov sorrindo

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Os conselhos de Roberto Bolaño para escrever contos são… bastante selvagens

Os conselhos de Roberto Bolaño para escrever contos são… bastante selvagens

Por Emily Temple, no Lit Hub

Em 2004, Roberto Bolaño, que esta semana completa há 18 anos de morte, publicou uma lista de “conselhos sobre a arte de escrever contos” na coleção de ensaios Entre Paréntesis. O conselho que Bolaño dá aos aspirantes a escritores é muito específico e provavelmente não servirá para todos (escrever quinze contos de cada vez??). É também um pouco tenso — quase ninguém que escreve esse tipo de lista cita explicitamente outros escritores –, mas, em última análise, pode ser resumido a um ponto principal: você deve ler. Bem, você não vai ouvir nenhum argumento contrário sobre isso.

Aqui está a lista completa:

Agora que tenho quarenta e quatro anos, vou oferecer alguns conselhos sobre a arte de escrever contos.

1. Nunca aborde um conto de cada vez. Se alguém abordar um conto de cada vez, poderá estar escrevendo o mesmo conto até o dia de sua morte.

2. É melhor escrever contos três ou cinco de cada vez. Se alguém tiver energia, escreva nove ou quinze de cada vez.

3. Cuidado: a tentação de escrever dois contos de cada vez é tão perigosa quanto escrevê-los um de cada vez. É como nossa interação com os espelhos.

4. É preciso ler Horacio Quiroga, Felisberto Hernández e Jorge Luis Borges. É preciso ler Juan Rulfo e Augusto Monterroso. Qualquer contista que tenha algum apreço por esses autores jamais lerá Camilo José Cela ou Francisco Umbral, mas lerá, sim, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, mas de modo algum Cela ou Umbral.

5. Vou repetir mais uma vez, caso ainda não esteja claro: não considere Cela ou Umbral, de forma alguma.

6. Um contista deve ser corajoso. É um fato triste de reconhecer, mas é assim que as coisas são.

7. Os contistas costumam se gabar de ter lido Petrus Borel (Joseph-Pierre Borel). Na verdade, muitos contistas são notórios por tentarem imitar a escrita de Borel. Que grande erro! Em vez disso, eles deveriam imitar a maneira como Borel se veste. Mas a verdade é que quase nada sabem sobre ele — e nem sobre Théophile Gautier ou Gérard de Nerval.

8. Vamos chegar a um acordo: leia Petrus Borel, vista-se como Petrus Borel, mas leia também Jules Renard e Marcel Schwob. Acima de tudo, leia Schwob, depois vá para Alfonso Reyes e de lá vá para Borges.

9. A verdade é que, com Edgar Allan Poe, todos teríamos material de qualidade mais do que suficiente para ler.

10. Pense no ponto número 9. Pense e reflita sobre ele. Você ainda tem tempo. Pense no número 9. Na medida do possível, faça-o de joelhos dobrados.

11. Deve-se também ler alguns outros livros e autores altamente recomendados — por exemplo, Perì Hýpsous (século I dC; Sobre o Sublime), do notável Pseudo-Longinus  — uma obra clássica sobre a estética e os efeitos de uma boa escrita –; os sonetos do infeliz e corajoso Philip Sidney, cuja biografia Lord Brooke escreveu; The Spoon River Anthology (1916), de Edgar Lee Masters; Suicidios ejemplares (1991), de Enrique Vila-Matas; e nquanto as mulheres dormem (1990), de Javier Marías.

12. Leia esses livros e também Anton Tchékhov e Raymond Carver, pois um dos dois é o melhor escritor do século XX.

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Bamboletras ensina a como remover um presidente e recomenda Tokarczuk e Schroeder

Bamboletras ensina a como remover um presidente e recomenda Tokarczuk e Schroeder

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Escrever este “Olá” é sempre um desafio. Como encontrar pontos em comum entre os livros sugeridos? Bem, desta vez a gente não conseguiu, mas leia as sinopses abaixo porque não há nada que não seja excelente em nossas sugestões!

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Como remover um presidente, de Rafael Mafei (Cia. das Letras, 450 páginas, R$ 64,90)

Este é um completo e aprofundado estudo das dimensões políticas e jurídicas do impeachment e sua aplicação na lei brasileira. Desde os anos 1990, raramente a América Latina viveu um ano sem um impeachment consumado, ou ao menos sem a ameaça de um. Só no Brasil, houve mais de 250 denúncias de crimes de responsabilidade e o afastamento de dois presidentes. Em Como remover um presidente , o jurista Rafael Mafei reconstitui o desenvolvimento histórico do impeachment — seu surgimento na Inglaterra, sua importância para a Constituição americana e utilização no Brasil —, para então examinar a fundo não apenas os casos de Collor e Dilma, que marcaram o país após a redemocratização, mas também as tentativas contra Vargas, FHC, Lula e Bolsonaro. Um assunto muito atual e que retorna a cada governo, infelizmente.

Correntes, de Olga Tokarczuk (Todavia, 400 páginas, R$ 74,90)

Quem leu Sobre os ossos dos mortos sabe da alta qualidade da ganhadora do Prêmio Nobel de 2018 Olga Tokarczuk. Em Correntes, ela mescla vida pessoal com ficção num livro cheio de surpresas, que inclui relatos vários, comentários e contos que formam um movimentado diário de viagem. Olga é uma das escritoras que melhor explora a autoficção, em que vivências pessoais e ficções se fundem. O livro é composto de 116 pequenos capítulos. O roteiro passa por diferentes museus de anatomia da Europa e nos Estados Unidos. A narrativa é intercalada de observações sobre o ato de viajar, pessoas que a autora encontra no caminho, perrengues, pequenas histórias e imprevistos. Quando ela enviou os originais para seu editor, o caráter fragmentário da narrativa suscitou dúvidas e ele pensou que se tratava de um rascunho vitimado por confusões de “Ctrl C” e “Ctrl V”. A leitura atenta, porém, revela a óbvia concatenação entre os textos. Este é um dos méritos de Tokarczuk: conseguir misturar temas aparentemente isolados (como filosofia, higiene pessoal e Borges, por exemplo) de uma maneira inventiva, inteligente e cativante. E ela recebeu o Nobel, né?

As partes nuas, de Claudia Schroeder (Francisco Alves, 128 páginas, R$ 35,00)

Claudia Schroeder reúne poemas produzidos ao longo dos últimos quatro anos no livro As partes nuas, lançado pela Francisco Alves. Para montar o conjunto, a poetisa contou com a curadoria do poeta Pedro Gonzaga. Dividida em sete partes, a obra traz uma voz que se expressa sem medo, entre a ironia e a ternura, em versos que exploram as facetas de ser mãe, mulher e ser humano — com todos seus sentimentos e pulsões. De acordo com o português José Luís Peixoto, trata-se de um “livro-corpo”. Publicitária há 28 anos, Claudia Schroeder estreou na poesia com Leia-me toda (2010), faz parte da coletânea portuguesa A poesia é para comer (2011) e publicou o infantil A menina que descobriu o sol (2018).

Exemplares autografados pela autora.

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O médico das termas, de Arthur Schnitzler

O médico das termas, de Arthur Schnitzler

O escritor e tradutor Marcelo Backes realizou um belo esforço para tornar Arthur Schnitzler um clássico no Brasil. Não conseguiu, mas deixou-nos um notável legado. Este excelente autor austríaco, contemporâneo de Freud — com quem manteve contato e possui uma série de afinidades –, foi médico, dramaturgo, romancista e contista. Seus temas giram torno de psicologia, sexo e morte. Dele é Breve Romance de Sonho, história que foi utilizada por Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados.

O médico das termas é uma obra tão curta quanto intensa em que Schnitzler expõe as dúvidas sentimentais de um médico que se divide entre duas jovens, Sabine e Katharine, de diferentes classes sociais. O livro é ima joia de perfeição. O Dr. Gräsler é um equivocado contumaz que parece lutar para fracassar. Sua psicologia é de verossimilhança absoluta e o livro seria um clássico a receber reedições e reedições se nossa sociedade fosse mais esperta e leitora. Gräsler parece fugir de quem finalmente o aceita — de quem talvez o ame. Sempre deseja a mulher da qual acaba de desistir, está com uma e quer outra, está com outra e conclui que primeira é a ideal. Paradoxalmente, a frieza expositiva do autor combina muito bem com a quentíssima história. O uso do monólogo interior e a prosa fluida e nua caracterizam o romance.

Médico das termas é a mais baixa categoria na profissão. É aquele médico que atende pessoas em estações de águas termais. Ele fica disponível em hotéis durante a alta temporada, sem nada a fazer na baixa. Então, passa a vida em busca de verões e de hotéis. Trabalha na Europa na durante os meses de calor e depois, quando esfria, vai para a quentinha Lanzarote, na costa da África, próxima do Marrocos.

A partir daqui, meu texto contém spoilers. Após o suicídio de sua irmã solteira Friederike, o Doutor Gräsler passa o verão como médico de spa em uma cidade termal. Lá ele conhece e se apaixona por Sabine, de 27 anos, filha de um cantor de ópera. Sabine deveria ter se tornado cantora a pedido de seu pai, mas depois trabalhou como enfermeira. Seu noivo, um médico, morreu jovem, coitado. Sabine é linda e inteligente. O Dr. Gräsler reconhece que Sabine é a mulher perfeita, mas não consegue abordá-la. Quando as coisas parecem tomar um rumo, vocês já sabem — ele foge para sua cidade natal. Lá ele arranja outro caso com uma simples lojista, mas Katharina lhe parece fácil e vulgar. Ele mora por um tempo com ela, sempre com saudades de Sabine.

Quando volta para o amor de Sabine, é tarde. Esta lhe dá um belo e mais que merecido pé na bunda.

Então, ele retorna correndo para Katharina, seu verdadeiro amor, mas ocorre um problema que nem meu amor aos spoilers faz contar. Deste modo, o médico, desprezador profissional, fica deprimido e sozinho. Neste ínterim descobre casos de sua irmã Friederike, aquela que morreu. E ele, pensando que ela era uma imaculada virgem…

Depois de ver todos os seus planos derreterem — há outros, profissionais — Gräsler casa em alguns dias com uma agradecida Frau Sommer. O inverno está chegando. Ninguém vai mais às termas. O casal vai para outro hotel em Lanzarote, onde está quente e há desocupados para serem tratados. Lá, ele será médico para o veraneio.

Recomendo fortemente, mas acho que agora só em sebos.

Arthur Schnitzler (1862-1931)

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poema de silêncio

poema de silêncio

Tive uma amiga que ambicionava escrever
poemas de silêncio

trabalhou muito até que conseguiu
organizar numa mesa de vidro transparente
doze folhas brancas de papel branco
com uma joia em cima de cada uma
para cada amigo receber
o seu poema de silêncio
quando fosse encontrada no robe branco
da morte branca que nos oferecia

cheguei a tempo de salvá-la
fizeram-lhe a lavagem ao estômago
não me perdoou a alma mal lavada
nunca mais nos vimos
viaja agora de país em país
sem joias sem poemas sem amigos
e telefona-me às vezes depois da meia-noite
quando o silêncio raspa o vidro da janela

Helder Macedo

Helder Macedo (1935)

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“Escreva como se estivesse morrendo”: leia alguns conselhos de escrita de Annie Dillard

“Escreva como se estivesse morrendo”: leia alguns conselhos de escrita de Annie Dillard

Do Lit Hub
Mal traduzido por mim

Annie Dillard, uma das melhores escritoras estadunidenses, é também uma de suas melhores professoras. Em How to Write An Autobiographical Novel, de Alexander Chee, Dillard aparece como uma professora generosa e estimulante que incentiva seus alunos a visualizarem seus livros nas prateleiras das livrarias. Maggie Nelson, questionada no The Rumpus, quais conselhos de redação ela dá a seus alunos com mais frequência. Kevin Barry, quando questionado sobre o melhor conselho de redação que já recebeu: “Annie Dillard disse uma vez que o único conselho de que qualquer escritor precisa é manter suas despesas gerais baixas”. Em comemoração ao seu 76º aniversário, aqui está uma coleção incompleta — mas ainda assim abrangente — de alguns dos melhores conselhos de escrita de Annie Dillard.

Escreva de acordo com seus próprios interesses idiossincráticos:

Por que você nunca encontra nada escrito sobre aquele seu pensamento idiossincrático, sobre seu fascínio por algo que ninguém mais entende? Porque depende de você. Há algo que você acha interessante, por um motivo difícil de explicar? É difícil de explicar porque você nunca leu em nenhuma página. Então aí é que você começa. Você foi feito para dar voz a isso, a seu próprio espanto.

Escreva como se estivesse morrendo. Ao mesmo tempo, suponha que você escreva para um público que consiste apenas em pacientes terminais. O que você começaria a escrever se soubesse que morreria em breve? O que você poderia dizer a um paciente moribundo que não o enfureceria com sua trivialidade?

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Você é o único de você… Sua perspectiva é única, neste momento. Não se preocupe em ser original… Sim, tudo foi escrito, mas também, o que você quer escrever, antes de escrever, era impossível de escrever. Caso contrário, já existiria. Você torna isso possível. Escrevendo.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Encontre inspiração lendo outras pessoas:

Leia por prazer. Se você gosta de Tolstói, leia Tolstói; se você gosta de Dostoiévski, leia Dostoiévski. Force um pouco, mas não leia algo totalmente estranho à sua natureza e depois diga: “Nunca serei capaz de escrever assim”. Claro que você não vai. Leia livros que você gostaria de escrever. Se você quiser escrever literatura, leia literatura. Escreva livros que você gostaria de ler. Siga sua própria estranheza…

Quanto mais você lê, mais você escreve. Quanto melhor o material que você ler, melhor o material que você escreverá. Você pode desenvolver o gosto pela boa literatura gradualmente. Mantenha uma lista dos livros que deseja ler. Você logo aprenderá que “clássicos” são livros infinitamente interessantes. Quase todos eles. Você pode continuar a relê-los por toda a sua vida a cada dez anos, e vários outros aparecerão para você em diferentes estágios de sua vida.

–Do conselho enviado aos alunos da University of North Carolina em Chapel Hill, republicado no Image Journal

Hemingway estudou, como modelos, os romances de Knut Hamsun e Ivan Turguenev. Isaac Bashevis Singer, por acaso, também escolheu Hamsun e Turguenev como modelos. Ralph Ellison estudou Hemingway e Gertrude Stein. Thoreau amava Homer; Eudora Welty amava Tchekhov. Faulkner descreveu sua dívida para com Sherwood Anderson e Joyce; EM Forster, sua dívida para com Jane Austen e Proust. Por outro lado, se você perguntar a um poeta de 21 anos de que poesia ele gosta, ele dirá, sem corar: “Ninguém”. Ele ainda não compreendeu que os poetas gostam de poesia e os romancistas gostam de romances; ele mesmo gosta apenas do papel, de pensar em si mesmo.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Na escrita, a ação é tudo:

Não use construções verbais passivas. Você pode reescrever qualquer frase.

–Do Image Journal

Como obtemos uma escrita vívida? Verbos, primeiro. Verbos precisos. Toda a ação na página, tudo o que acontece, acontece nos verbos. A voz passiva precisa de gerúndios para fazer qualquer coisa acontecer. Mas muitos gerúndios juntos na página contribuem para o zumbido. Não faça isso. Os verbos dizem ao leitor se algo aconteceu uma vez ou continuamente, o que está em movimento, o que está em repouso. Os gerúndios são preguiçosos, não tem que tomar uma decisão e logo, tudo está acontecendo ao mesmo tempo, desordem, caos. Não faça isso. Além disso, más escolhas de verbos significam advérbios. Na maioria das vezes, você não precisa deles. Ele correu rápido ou correu? Ele caminhou devagar ou ele vagueou? . . .

Os advérbios são um sinal de que você usou o verbo errado. Verbos controlam quando algo está acontecendo na mente do leitor.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Em caso de dúvida, volte ao específico e concreto:

Sempre localize o leitor no tempo e no espaço repetidas vezes. Escritores iniciantes correm para os sentimentos, para as vidas interiores. Em vez disso, mantenha as aparências superficiais; acertar os cinco sentidos; dar a história da pessoa e do lugar, e a aparência da pessoa e do lugar. Use nomes e sobrenomes. Ao escrever, coloque tudo em um lugar e um tempo.

Não descreva sentimentos.

O caminho para as emoções do leitor é, estranhamente, através dos sentidos.

–Do Image Journal

Se sua escrita o confunde, investigue a parte confusa:

Examine todas as coisas intensa e implacavelmente. Sondar e pesquisar cada objeto em uma obra de arte; não o abandone, não o percorra, como se fosse compreendido, mas siga-o até que o veja no mistério de sua própria especificidade e força. Os desenhos e pinturas de Giacometti mostram sua perplexidade e persistência. Se ele não tivesse reconhecido sua perplexidade, não teria persistido.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Gaste tudo agora. Não guarde suas melhores ideias para depois:

Gaste tudo, atire, jogue, perca tudo, imediatamente, sempre. Não acumule o que parece bom para um lugar posterior no livro, ou para outro livro; dê, dê tudo, dê agora. O impulso de guardar algo bom para um lugar melhor mais tarde é o sinal para gastá-lo agora. Algo mais surgirá para depois, algo melhor. Essas coisas se enchem por trás, por baixo, como água de poço. Da mesma forma, o impulso de guardar para si mesmo o que aprendeu não é apenas vergonhoso, é destrutivo. Tudo o que você não dá livre e abundantemente se perde para você.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

É o começo de uma obra que o escritor joga fora.

Uma pintura cobre seus rastros. Os pintores trabalham do zero. A versão mais recente de uma pintura sobrepõe as versões anteriores. Os escritores, por outro lado, trabalham da esquerda para a direita. Os capítulos descartáveis ​​estão à esquerda. A última versão de uma obra literária começa em algum lugar no meio da obra e melhora no final. A versão mais antiga permanece fragmentada à esquerda.

Às vezes, o escritor deixa seus primeiros capítulos no lugar por gratidão; ele não pode contemplá-los ou lê-los sem sentir novamente o bendito alívio que o exaltou quando as palavras apareceram pela primeira vez — alívio por ele estar escrevendo alguma coisa. Afinal, aquele começo serviu para levá-lo aonde estava indo; certamente o leitor não precisa disso como base.

–De The Writing Life

… e, em geral, corte cruelmente:

Não use palavras extras. Uma frase é uma máquina; tem um trabalho a fazer. Uma palavra extra em uma frase é como uma peça estranha à máquina…

A unidade da obra é mais importante do que qualquer outra coisa. Essas digressões que eram tão divertidas de escrever devem desaparecer.

–Do Image Journal

Uma tarde, sob sua orientação, trouxemos nossas páginas escritas, mais tesouras e fita adesiva. Agora cortem apenas as melhores frases, [Dillard] disse. E cole-os em uma página em branco. E então, quando você tiver isso, escreva em torno deles, disse ela. Preencha o que está faltando e faça com que alcance o melhor do que você escreveu até agora.

Eu assisti enquanto as frases que não importavam sumiam.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Aponte o leitor para o que é importante:

Se algo em sua narrativa ou poema for importante, dê um espaço proporcional. Quer dizer, centímetros reais. O leitor precisa gastar tempo com um assunto para se preocupar com ele. Não se intimide com suas grandes cenas; estique-as.

–Do Image Journal

Avaliar seu trabalho enquanto você escreve é ​​inútil:

Não há uma relação proporcional, nem inversa, entre a estimativa de um escritor de uma obra em andamento e sua qualidade real. A sensação de que o trabalho é magnífico e a sensação de que é abominável são ambos mosquitos a serem repelidos, ignorados ou mortos, mas não tolerados.

–De The Writing Life

Não se compare ao seu amigo mais produtivo:

Faulkner escreveu As I Lay Dying em seis semanas… Algumas pessoas participam de corridas de trenós puxados por cães que duram uma semana, passam pelas Cataratas do Niágara em barris, pilotam aviões pelo Arco do Triunfo. Algumas pessoas não sentem dor no parto. Não há necessidade de considerar os extremos humanos como normas.

–De The Writing Life

Lembre-se de que a publicação é subjetiva:

A publicação não é um indicador de excelência. Isso é o mais difícil de aprender. Quando uma revista rejeita sua história ou poema, não significa que não foi “bom” o suficiente. Isso significa que a revista pensava que seus leitores em particular não precisavam daquela história ou poema. Os editores pensam nos leitores: o que isso traz para o leitor? Também existe um culto à celebridade neste país, e muitas revistas publicam apenas pessoas famosas e rejeitam trabalhos melhores de pessoas desconhecidas.

Você precisa saber essas coisas em algum lugar no fundo da sua mente e precisa esquecê-las e escrever tudo o que for escrever.

–Do Image Journal

Acima de tudo, continue trabalhando:

O talento não é suficiente… Escrever é trabalho. Qualquer um pode fazer isso, qualquer um pode aprender a fazer isso. Não é ciência de foguetes, são hábitos mentais e hábitos de trabalho. Comecei com pessoas muito mais talentosas do que eu, e elas estão mortas ou na prisão ou não estão escrevendo. A diferença entre eu e eles é que estou escrevendo.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

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Bamboletras recomenda o último Bernardo Carvalho e duas boas biografias

Bamboletras recomenda o último Bernardo Carvalho e duas boas biografias

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Duas biografias de grandes intelectuais — Hannah Arendt e Euclides da Cunha — e mais o último romance de Bernardo Carvalho — O último gozo do mundo — fazem a alegria desta semana tiritante.

Mais detalhes abaixo. Boa semana com boas leituras!

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O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho (Cia. das Letras, 144 páginas, R$ 49,90)

A história de uma professora de sociologia que vê seu casamento desmoronar pouco antes do início de uma pandemia global. “O último gozo do mundo” é o décimo terceiro livro de Bernardo Carvalho. Presa de um tempo em que “a leitura do mundo tornou-se descontínua e episódica”, a protagonista desta novela parte, com o filho pequeno, numa jornada para um retiro no interior do Brasil. Lá, mora um homem que prevê o futuro depois de ter sobrevivido ao vírus ameaçador. Um rastro de perplexidade e de perguntas sem respostas vai sendo deixado para trás, numa narrativa enigmática, eletrizante e que se torna mais e mais perturbadora. Podemos distinguir as causas dos efeitos? Como damos sentido a uma narrativa? O que restou de humanidade num Brasil dominado pela morte?

Arendt, entre o amor e o mal: uma biografia, de Ann Heberlein (Cia. das Letras, 256 páginas, R$ 64,90)

Este perfil biográfico entrelaça a vida e a obra de Hannah Arendt, autora de obras fundamentais como Origens do totalitarismo e Eichmann em Jerusalém. Inclui posfácio de Heloisa Starling. A vida de Hannah Arendt se estende por um período imprescindível na história do mundo ocidental, que abrange não apenas a ascensão do regime nazista e as crises da Guerra Fria, mas a formulação de reflexões fundamentais sobre o valor e a culpa da humanidade diante desses episódios. Nesse sentido, suas contribuições intelectuais estão diretamente relacionadas à sua vida, marcada por experiências terríveis, mas também por amor, exílio e saudade.

Euclides da Cunha, uma biografia, de Luís Cláudio Villafañe G. Santos (Todavia, 432 páginas, R$ 89,90)

Euclides da Cunha viveu apenas 43 anos e foi militar, engenheiro, jornalista, cientista, literato e cartógrafo. A despeito da abundância de fontes, alguns episódios de sua vida continuam pouco conhecidos, como a expedição à Amazônia e a passagem pelo Itamaraty. Esta biografia traz ainda novas interpretações para eventos conhecidos, sublinhando contradições entre o discurso e os fatos, o que realça sua profunda humanidade.

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Doramar ou A Odisseia, de Itamar Vieira Junior

Doramar ou A Odisseia, de Itamar Vieira Junior

Torto Arado recebeu merecido reconhecimento público no Brasil. A história de Bibiana e Belonísia é ótima. É um esplêndido livro que gira em torno de vários temas, preferencialmente a escravidão, o racismo e a situação da mulher. Além disso, dentro de um arcabouço poético raras vezes obtido, também abre um Brasil desconhecido das grandes cidades. O livro é portentoso e vendeu 200 mil exemplares em nosso país tão triste e pouco leitor. Se não me engano, Torto Arado é o terceiro livro de Itamar. Antes, ele havia publicado A Oração do Carrasco e Dias. Pois este Doramar é uma revisão ampliada de Oração. Deixando claro: Doramar não é uma apenas uma reedição revisada. Há inéditos nele.

Sim, ainda prefiro Torto Arado, mas, puxa vida, como Doramar é bom! As razões de sua qualidade são parecidas: traz questões sociais de negros, ribeirinhos, índios, mulheres e alcança profunda compaixão e poesia. Mas a poesia de Itamar não torna as coisas sujas mais belas, ela é um filtro catalisador de impressões, empatias e ódios.

Contos como A Floresta do Adeus, Alma, VoltarDoramar ou A Odisseia retomam o tema das mulheres que enfrentam situações adversas. No último conto, o que dá título ao livro, é narrada a história de uma empregada doméstica que, ao sair do trabalho, vê um cão à morte e queda-se ou desaba em pensamentos sobre sua condição de mulher pobre e negra. O profundamente poético e terrível Meu mar (fé) faz lembrar vagamente outra obra-prima, o conto Mijito, de Lucia Berlin. Alma conta a história de uma escrava que foge e inicia uma caminhada obstinada e solitária ao interior do país. Fala da escravidão e tem um final arrepiante. A Oração do Carrasco é sobre um profissional da morte extremamente pragmático, que não contesta a necessidade de seu ofício, mas que não consegue convencer seu filho a abraçar a mesma profissão. Manto da Apresentação traz o artista plástico Arthur Bispo do Rosário. Os outros contos não são esquecíveis.

O resultado é um painel triste e espantoso. Itamar é um artesão, seus contos trazem um misto de lirismo e dureza, sendo de linguagem extremamente trabalhada, mas cujo suor não é passado ao leitor. A finalização de alguns deles — como A Floresta do Adeus — é de um virtuosismo arebatador. Acho que Itamar é o autor mais vendido atualmente no Brasil e tenho a certeza de que este posto foi raras vezes melhor ocupado.

Recomendo fortemente.

Mesmo inferior a Torto Arado, Doramar é excelente. Itamar veio para ficar.

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Os livros mais vendidos em junho na Bamboletras

Os livros mais vendidos em junho na Bamboletras

E vamos aos mais vendidos de junho! Itamar Vieira Júnior, que já ocupava o topo de nossa lista há um bom tempo, agora ocupa a primeira e a segunda colocações. E, como de costume, só temos ótimos livros em nossa lista! Os leitores da Bambô só levam coisa boa. Apareça, aqui há qualidade e curadoria!

1. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
2. Doramar ou a Odisseia: Histórias, de Itamar Vieira Júnior (Todavia)
3. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
4. Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras)
5. Pequena Coreografia do Adeus, de Aline Bei (Companhia das Letras)
6. E se as cidades fossem pensadas por mulheres, de Laura Sito e Mariana Félix (Zouk)
7. João aos pedaços, de Flávio Ilha (Diadorim)
8. Porto Alegre, Cidade Baixa: Um bairro que contém seu passado, de Renato Menegotto (Marcavisual)
9. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
10. Diários: 1909-1923, de Franz Kafka (Todavia)

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se isto não é amor

Amar o dia, detestar o dia,
chamar a noite e desprezá-la logo,
temer o fogo e acercar-se ao fogo,
ter a um tempo pena e alegria.
Estar juntos valor e covardia,
o desprezo cruel e o brando rogo,
ter valente entendimento cego,
atada a razão, livre ousadia.
Buscar lugar em que aliviar os males
e não querer do mal fazer mudança,
desejar sem saber que se deseja.
Ter o gosto e o desgosto iguais
e todo o bem livrado na esperança,
se isto não é amor, não sei o que seja.

María de Zayas y Sotomayor (Madrid, 12 de setembro de 1590 – depois de 1647)

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