Manifesto contra o desmatamento do púbis

Por ANDRÉA MORAES (encontrado aqui).

Uma das coisas mais irritantes que escuto das minhas amigas é essa moda de depilar o púbis.

Caraca! Se tantos poetas já chamaram aquilo de flor, por que arrancar o jardim, a vegetação em volta da caverna? Considero isso a mais absoluta falta de romantismo.

Fala sério! O homem que gosta de xana depilada está revelando uma indisfarçável vocação para a pedofilia. Pois se até Lolita tinha pelos, por que exigir que uma mulher adulta os arranque?

E vamos combinar que esses desenhinhos esculpidos com as pinças dos designers de pentelhos, tipo bigodinho de Hitler – argh, que coisa de nazista! – coraçãozinho, estrelinha e quetais são uma prova de falta de imaginação, recurso de quem tem repertório mental mais estreito do que de filme pornô exibido em motel (ainda se vai a isso?) de quinta categoria.

A mulher que se submete à tortura da cera quente e à lâmina que talha sua pele até encravar seus pelos, criando perebas que detonam visualmente o presente que Deus lhe deu, tá precisando de relho. Já que gosta de sofrer pra gozar, então, que apanhe de verdade, nas mãos de uma dominatrix.

Outro dia, uma conhecida me confessou que depila até o ânus. Meu, se o teu marido tem coragem de te fazer a curra, por que iria amarelar diante de uns pelinhos?

Voltando ao púbis, não me venham dizer que deixá-lo careca ou penteado é uma forma de limpeza. Dispenso a assepsia da gilete. Pelo é proteção natural e nada mais garantido do que uma buceta coberta por muitos deles.

E depois, macho que é macho não quer saber nem se você lavou. Costuma ir direto ao ponto. De preferência, o G.

Na hora do oral, é mentira que pelo atrapalha. A gente que é mulher aguenta os deles. Homem que não pode encarar nossos pentelhos tem que chupar com canudinho. Pelo, no oral, é expressão de igualdade entre os sexos.

Essa história de que pelo saindo pra fora do biquini é indecente também não cola. Meu marido mesmo já se queixou que muito homem fica olhando pra minha cara na praia. Aí o ciúme aparece e com ele o impulso agressivo, a cópula tão desejada.

A última vez que depilei a xandanga foi no hospital, antes do parto, cesariana. Então, depilar é coisa de doente, de cirurgia, bisturi, carnificina.

Eu prefiro preservar minha ancestralidade não me rendendo à opressão sexual imposta pelas minhas rivais. Pois se tenho coragem de assumir meus pelos publicamente, imagina o que não sou capaz de fazer entre quatro paredes.

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Festa de Aniversário & As Olimpíadas

Publicado em 30 de agosto de 2004

A festa de meu aniversário deste ano foi diferente. A Claudia escureceu um pouco a sala e colocou um data-show projetando DVDs de jazz e de qualquer coisa que fosse muito boa. O Festival de Newport de 1958, um inacreditável show da Blue Note de 1986 e a segunda gravação das Variações Goldberg por Glenn Gould foram projetados por sobre as cabeças dos comensais. Não sei se o resultado foi bom para todos, mas vi muita gente de pescoço torcido ouvindo e vendo música da melhor qualidade no intervalo entre as conversas. A aparência geral de quem estava lá era de felicidade, exceção feita a meu adorável sobrinho que pedia para acendermos as luzes a pleno, porque, afinal, ele precisava ver com toda a clareza o que estava comendo e, segundo ele, já tínhamos demonstrado a todos que éramos mesmo muito sofisticados… Estou pondo este sobrinho à venda. No final da noite, ficamos eu, a Claudia, a Jussara, o Branco, a Helen, o Alejandro e o Bernardo ouvindo, comentando e conversando sobre música, sobre a fraca temporada cinematográfica e sobre qualquer coisa, enquanto Gould fazia misérias sobre Bach e um quarteto executava Borodin (Quarteto Nº 2). Filipe, não adianta, fingimos ser assim todo o tempo…

Creio que a Claudia não se incomodará se algum de meus 7 leitores quiser organizar festa análoga. É só pagar royalties. Posso fazer a intermediação…

Agora, falando sério: esta festa está se tornando uma necessidade, pois há queridos amigos que vejo exatamente uma vez por ano. E, já que a rotina e o trabalho são algozes tão eficientes na separação de amigos, precisamos agendar o contra-ataque. Fico feliz que este se realize em minha data.

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Passei esta semana mobilizado vendo as Olimpíadas. Robert Scheidt, Daiane dos Santos, o volei feminino e seus 6 match points perdidos, Torben Grael e seu companheiro de que não lembro o nome (Marcelo Ferreira?), o volei de praia com o Emanuel e o Ricardo, o volei masculino, o futebol feminino e seu pênalti não marcado e o absurdo final da Maratona com o anônimo e surpreendente Vanderlei Cordeiro de Lima sendo atrapalhado por um maluco mas levando o bronze. Tudo isto além dos outros.

O problema enfrentado por Vanderlei Cordeiro de Lima pode ser bem compreendido por mim, que há muitos anos (desde 1978) costumo correr pelas ruas e pistas da cidade. De forma amadora, já participei de corridas de rua de 10 e 20 Km e sei o quanto a concentração é fundamental para completarmos qualquer prova. O sentimento de euforia que sentimos ao terminar uma corrida é algo muito bom, porém podemos desistir do esforço pelos menores problemas. Uma pequena queda, uma dorzinha, um mal estar, o fato de que às vezes parece que todas as bundas participantes estão andando mais rápido ou simplesmente a falta de alguém para correr conosco, qualquer motivo pode fazer-nos desistir. Converso com outros e é a mesma coisa. Muitas vezes, depois de percorrermos um ou dois quilômetros, paramos e voltamos para a casa ou para tomar banho no clube. Imaginem então o que este Vanderlei deve ter sentido quando aquele idiota o segurou e o empurrou da pista para a área destinada à assistência. Compreendo perfeitamente a cara de dor e choro que ele fez quando voltou a correr. Não se enganem, sua reação para chegar ao bronze foi coisa de herói.

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Niemeyer 103 e viagem

Oscar Niemeyer fez 103 anos anteontem e eu gostaria de ter montado um post bem legal e bonito, cheio de fotos de obras dele. Não houve tempo. Viram que ele inaugurou um Centro Cultural em Avilés na Espanha? Os espanhóis, que para bobos não servem, inauguraram o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer no dia do aniversário do mestre. Ele participou da festa conectado em rede ao evento. O que isto significa? Simplesmente a consolidação de Avilés em rotas de turismo internacionais. E usaram a grife do genial arquiteto no nome do Centro Cultural.

O comunista Oscar Niemeyer desarma qualquer complexo de vira-latas, é um grande brasileiro e acho que nossas cidades deveriam aproveitar até as anotações de sua lixeira para construir obras suas pelo país. Vejam no filme promocional abaixo o que é o Centro Cultural inaugurado esta semana.

No dia do aniversário, durante a festa, Niemeyer resumiu o ambiente em poucas palavras:

— Estou feliz, meus amigos estão aqui e isso é muito bom!

É uma definição perfeita de Festa, penso. E é uma grande sorte que este homem tenha a saúde que tem, lúcido aos 103. Que permaneça conosco o quanto puder!

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Sim, é deslumbrante, mas não pensem que não vi o Paul Rabbit.

Ah, o blog ficará sem atualização até segunda-feira à noite. Seu dono fará uma pequena viagem.

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Odone e Yeda

Sou inteiramente a favor de tirar sarro de gremistas e vice-versa, claro. Talvez a maioria de meus amigos seja gremista. Fizeram, coitados, esta triste opção numa idade em que não tinham discernimento… Mas anteontem, o novo presidente do Grêmio apequenou-se de forma muito severa ao fazer um discurso de posse onde falava mais de nós do que da instituição que estava assumindo. E não foram referências elegantes como as que recebi de meus amigos, foram coisas assim: “Vamos voltar ao Mundial e goleiro algum vai debochar da gente arrastando a bunda no chão”, disse,  em referência à estranha dança comemorativa do goleiro Kidiaba. Depois falou em fiasco, uma verdade que fica mal na boca de um presidente, e voltou a falar na superiodade tricolor, etc. Aqui está um pequeno resumo da coisa. Sim, pequeno resumo, porque ouvi o discurso e houve frases como “perder para um clube africano é mais vergonhoso do que um rebaixamento para Série B”… Frase pra lá de duvidosa e em mais de um sentido.

Fico tranquilo apenas por achar que isso não aconteceria no Inter. Ao menos em discurso de posse.

Ontem mesmo, Fernando Carvalho respondeu à Odone, ex-secretário especial da Copa de 2014 nomeado por Yeda, a quem dediquei o post abaixo. Odone e Yeda são semelhantes, não? Carvalho poderia ter respondido melhor, mas ficou aceitável se pensarmos na pessoa a quem era dirigido o discurso. Uma prova de que há fiascos e fiascos.

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Yeda, a louca

No melhor estilo Thelma e Louise, a desgovernadora Yeda Crusius inovou na inauguração da RST-471. Pegou um Mercedes-Benz conversível e fez-se filmada em ação, como se fosse uma estrela cinematográfica. Eric Clapton e B. B. King são os inocentes responsáveis pela trilha. Será que os donos dos direitos sobre as músicas foram consultados? Duvido muito. Infelizmente, o carro era bom e fez todas as curvas normalmente, contornando cada precipício. Yeda Crusius está viva e depois do passeio tuitou alegremente para o Rio Grande:

Há muito eu pedia para substituir as cerimônias formais de inauguração por uma celebração. Merecemos. Que estrada, que dia!

A estrada é importante, claro. Mas… A desgovernadora, que responde processo movido pelo Ministério Público Federal por formação de quadrilha, celebrou bem celebrado. E, no filme abaixo, aparece como uma celerada fugitiva, alegre e aventureira.

Este post é dedicado a cada um dos gaúchos que tomaram a tresloucada atitude de votar em Yeda no ano de 2006. Parabéns! Agora vejam abaixo o retrato da austeridade que, dizem, foi a tônica dos últimos 4 anos. Som na caixa! Ah, o vídeo foi capturado no site do Governo do Estado.

O alegre senhor de longas melenas brancas é o marido da escritora de autoajuda Lya Luft, não? O título da canção é Riding with the (crazy) King (Queen), informa @icarohistoria.

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Celso Roth, vai

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Inter dá fiasco, perde para o Mazembe e está fora do Mundial

Alexandre Lops
Foto: Alexandre Lops

Publicado originalmente no Sul21

Em Porto Alegre, estouram foguetes e ouve-se buzinas. De gremistas. O que era considerado impossível, mera fantasia de torcedores do tricolor, aconteceu. O Internacional perdeu para o Mazembe, do Congo, por 2 a 0 nesta terça-feira (14), no Estádio Mohammad Bin Zayed, em Abu Dhabi (Emirados Árabes), vendo o sonho do bicampeonato transformar-se numa triste disputa de terceiro lugar.

O campeão da Libertadores, que era favorito absoluto antes do jogo de hoje começar, perdeu várias chances do gol e mereceu perder, com gols de Mulota Kabangu, aos 7min, e Dioko Kaluyituka, aos 40min, ambos da segunda etapa.

Com a vitória, o time do Congo se torna a primeira equipe a quebrar a tradição da decisão ficar entre um time da América do Sul e outro da Europa. Esta será no próximo sábado, contra o vencedor de Inter de Milão e Seongnam, da Coreia do Sul, que se enfrentam nesta quarta. Também no sábado, o clube gaúcho disputa o terceiro lugar contra o perdedor da semifinal de amanhã. Paradoxalmente, este resultado finalmente justifica a posição da FIFA de colocar todos os continentes na disputa pelo Mundial.

O jogo começou com o Inter bem melhor em campo. O colorado valorizava a posse de bola e chegava com perigo. Em dois minutos de bola rolando, Rafael Sobis e Wilson Matias já haviam desperdiçado boas chances. Aos 10min, a equipe de Roth por muito pouco não abriu o placar. Alecsandro tabelou com D’Alessandro e cruzou na medida para Sobis, que chutou para grande defesa do estranho e espetacular goleiro Kidiaba.

Mais preocupado em marcar (a exemplo das quartas de final, contra o Pachuca, o time abusou de faltas), o Mazembe assustou pela primeira vez apenas aos 12min em chute de longe de perigoso Kabangu, defendido por Renan em dois tempos.

Na parte final da primeira etapa, porém, o Mazembe começou a mostrar que não estava a passeio em Abu Dhabi — ao poucos, passou a controlar o Inter, que, por sua vez, mostrou-se impotente para reagir.

Como desgraça pouca é bobagem, a defesa colorada começou o segundo tempo insegura. Logo no primeiro minuto, Kaluyituka girou para cima da marcação e bateu para fora. Aos 7min, o inesquecível Kabangu dominou absolutamente livre na área e bateu com categoria no canto esquerdo de Renan para abrir o placar.

O Inter respondeu debilmente. Aos 15min, Rafael Sobis pegou sobra da zaga, mas novamente parou em Kidiaba. Demonstrando muito nervosismo no banco desde o começo do jogo, Roth fez duas trocas: a de sempre, Alecsandro por Leandro Damião, e a incompreensível, Tinga por Giuliano, em vez de tirar um de seus volantes.

Aos 19min, D’Alessandro cruzou e Sobis cabeceou para fora. Quando o Inter acertava o alvo, o tremendo Kidiaba brilhava. Aos 25min, o goleiro fez excelente defesa após chute forte de Giuliano. Com os colorados mostrando ansiedade e nervosismo, D’Alessandro perdeu o gol mais feito do universo, chutando meio de rosca, uma bola limpa, recebida na marca do pênalti.

Roth ainda fez uma tentativa ridícula sacando Sobis e mandando o juvenil Oscar para o campo aos 30min. Oscar, recém vindo do time B e ainda encantado com a novidade da viagem, agradeceu a chance e nada fez. Apos 40, Kaluyituka carregou pela esquerda em contragolpe, pedalou e driblou na entrada da área e chutou forte no canto para confirmar um dos maiores feitos do futebol africano e um abissal fracasso colorado.

MAZEMBE (2) — Kidiaba, Nkulukuta, Kimwaki, Ekanga e Kasusula; Mihayo, Kaluyituka, Bedi e Kasongo; Kabangu (Kanda) e Singuluma. Técnico: Lamine N’Diaye

INTERNACIONAL (0) — Renan, Nei, Bolívar, Índio e Kleber; Wilson Matias, Guiñazu, Tinga (Giuliano) e D’Alessandro; Rafael Sobis (Oscar) e Alecsandro (Leandro Damião). Técnico: Celso Roth

Árbitro: Bjorn Kuipers (Holanda). Auxiliares: Berry Simons (Holanda) e Sander Van Roekel (Holanda).

Gols: Kabangu, aos sete, e Kaluyituka, aos 40 minutos do segundo tempo.

Cartões amarelos: Nkulukuta (Mazembe); Índio (Inter).

Estádio: Mohammed bin Zayed, Abu Dhabi (Emirados Árabes). Público: 22.131 torcedores.

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Se jogar direitinho, chega à final

É óbvio, é claro. É só jogar direitinho hoje às 14h. O Mazembe é perigoso, mas também é daqueles times que correm de forma desordenada, numa agitação quase caótica, chegando atrasado nas bolas e cometendo muitas faltas. São rápidos, chutam muito e bem e o envelhecido Índio pode sofrer com a correria deles. Porém, insisto, precisamos apenas fazer nosso jogo.

O futebol mudou. O gold standard voltou a ser o estilo Rinus Michels-Cruyff-Rijkaard-van Gaal-Guardiola-Barcelona de fazer a bola rodar e rodar pelo campo até que se abra uma brecha. Nem todos têm um Xavi para fazer a abertura das portas, mas a coisa funciona mesmo conosco. O Inter talvez seja o time brasileiro com maior aptidão para fazer a bola ir de lá para cá, com aquele falso desinteresse de quem pega o dinheiro sem contar, mas é preciso ter uma calma e categoria imensas para isso e calma é hoje tudo o que não sinto. Porque hoje é o “Dia de se livrar do fiasco”, muito mais ameaçador do que o sábado — o “Dia de tentar ser bi mundial”. Lembro de um ditador da Indonésia (Sukarno?) que nomeava os anos: “este é o ano-em-que-deixaremos-de-passar-fome”, “este é o ano-de-desenvolver-a-indústria, aquele é o “ano-de-viver-perigosamente”, ou seja, de eliminar fisicamente a oposição… Ah, os gremistas.

Eles estão mais assustados ainda. Se o Inter for campeão, passamos à frente deles em títulos internacionais de peso, engatamos uma quinta, ganhamos a Recopa do Independiente no meio do ano e adeus tia Chica. A decadência deles em relação a nós neste século ficará muito clara, clara demais, ofuscante, como sempre desejamos… Para completar, eles ontem perderam a primeira posição no ranking da CBF com o reconhecimento dos campeonatos nacionais pré-1971. O novo líder é o Santos, seguido do Palmeiras, e só a RBS poderá criar uma forma de salvar o tricolor, talvez com um “Ranking Monumental”.

Nossa chefe aqui no Sul21 não nos liberou do trabalho, mas haverá uma TV na redação. Até lá, tenho muitas coisas para fazer e, confesso, não terei muito tempo para exercitar meu nervosismo. Melhor assim. O ócio é um algoz torturante, nunca gostei muito dele.

Agora, leiam abaixo como foi a terrível semifinal de 2006 (post de 14 de dezembro de 2006):

Com Alguma Sorte

Para quem não sabe, o dono deste blog está assoberbado de trabalho – sim, aquele que garante sua sobrevivência com razoável dignidade – e, secundariamente, mobilizado pelo inédito Campeonato Mundial que seu time, o Internacional, disputa esta semana no Japão. Calma, mesmo assim, teremos o “Porque hoje é sábado”.

Pois meu dia de ontem começou com a visão de uma Porto Alegre parada, assistindo ao quase-fiasco do Inter contra o Al Ahly. Jogamos muito mal. Os egípcios exerceram forte marcação e nosso time sentiu muito. Alexandre Pato e Iarley ficaram isolados na frente, brigando inutilmente contra os três bons zagueiros adversários, sem o auxílio de Fernandão e Alex, que travavam outra batalha inglória mais atrás. Com todos bem marcados, as tarefas de armação acabavam ficando para os dois volantes de contenção Edinho e Wellington Monteiro, eficientes em suas funções defensivas mas péssimos criadores.

Ora, é sabido que, para jogar futebol, é adequado ter a posse da bola. Os egípcios marcavam bem, recuperavam a bola e então aparecia o outro grande problema. Nosso meio de campo, formado por Edinho, Wellington, Fernandão e Alex, apresentava enormes deficiências de marcação. Alex está fora de forma – é óbvio que deveria jogar Vargas em seu lugar – e Fernandão está desacostumado à posição, pois passou o ano jogando como primeiro e segundo atacante. Então, recuperar a bola era um parto. Não sei como ganhamos o jogo. Ou sei? Foi com muita sorte, com um zagueiro do Al Ahly atrasando uma bola no pé do Pato e com outro um gol de Luís Adriano, um sujeito que nunca tinha feito nada de positivo no time titular e que, mesmo depois do gol, seguiu no padrão de suas péssimas atuações.

Já contra o Barcelona, os problemas serão outros. O Barça joga mais, marca menos e é provável que nosso jogo apareça. Mas, é claro, me preocupa a recuperação da bola. À exceção de Ronaldinho, o Barcelona joga quase sem drilbles, tocando a bola de primeira e com rapidez, em ação coletiva. Se nossa marcação no meio de campo estiver tão deficiente quanto esteve no primeiro jogo, nem precisamos entrar em campo: é derrota certa. E precisamos atacar (ou contra-atacar com perigo), pois não podemos só ficar lá atrás com o Barcelona tranqüilo, rondando nossa área.

Sugiro a todos uma olhada na última Trivela. Há um artigo de Ubiratan Leal que mostra como José Mourinho (Chelsea) e Fabio Capello (Real Madrid) anularam Ronaldinho e venceram seus últimos jogos contra o Barça. Os dois conseguiram atacar e anular Ronaldinho. Concordo que ambos têm times superiores ao do Inter, mas há, embutida no artigo, uma importante lição.

Providência 1 (Ronaldinho): um lateral dedicado à marcação com um volante na sobra. Ceará e Edinho? Ceará e WM?

Providência 2 (a ajuda à Ronaldinho): ambos colocaram atacantes pelo lado direito de ataque – o Chesea botou o Shevchenko e o Real, Robinho – para que os laterais esquerdos Silvinho e Gio (Giovanni von Bronckhorst) não pudessem auxiliá-lo com tranqüilidade.

Providência 3 (forçar o Barça a se defender): ter dois armadores ativos no meio de campo. Como o Barça atua com apenas um volante (Edmílson), isto obrigará Iniesta e Deco a ajudarem na marcação, deixando o ataque dos catalães desconectado do resto do time.

Essas providências – e mais umas poucas outras – fizeram o Barça desaparecer. Mas para que o volante adversário tenha diversão, Fernandão e Alex terão que jogar… e muito! Eu retiraria Alex ou Iarley do time para fazer Vargas entrar. É incrível a consistência que o colombiano dá a nosso meio de campo. Sua presença foi fortemente sentida pelo Al Ahly no final do jogo de quarta-feira. Sua experiência de anos no Boca Juniors ensinou-o a não se omitir, a valorizar o passe e a complicar luta pelo meio de campo, seja jogando bola, seja cometendo faltas. É um jogador precioso que não conta com a simpatia do muitas vezes tolo Abel Braga, um técnico que dá boa dinãmica ao time mas que tem o hábito de fazer escolhas baseadas nas suas preferências pessoais.

Outro fator de preocupação é a má forma física de Alexandre Pato. Logo após fazer embaixadas com o ombro (ver aqui), ele sentiu cãibras, o que já havia ocorrido no jogo contra o Palmeiras. Ou seja, seu prazo de validade atual é curto e ele só joga até os 15 minutos do segundo tempo.

Tenho certeza de que podemos fazer uma partida bem melhor do que a que se viu ontem e que podemos ganhar. Porém, é óbvio que o favoritismo é catalão.

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Na época em que existia Fórmula 1…

… eu, sempre do contra, torcia para Piquet, não para Senna. Desejar a vitória de Senna era como torcer pelo politicamente correto. Lembro que adorei ver ao vivo isso aqui. Não lembro da reação de Galvão Bueno, mas deve ter sido muito divertida, pois ele dizia que neste autódromo era impossível ultrapassar.

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Pela complexidade

Ontem, estourou uma bombinha no twitter: uma irritação feminista contra um texto publicado no blog do Luiz Nassif que citava a palavra feminazi para caracterizar certo gênero de feminismo. É claro que o mau gosto é evidente e que a analogia entre feminismo e nazismo é infelicíssima, até porque, até onde sei, só existe um tipo de nazismo e este é terrível.

A briga no twitter e nos posts levam todos a posições exageradas e falsas. As feministas passam a demonstrar ojeriza e incompreensão para com o jornalista. Ele, dias atrás tão legal, avançado e “de esquerda”, transformou-se num monstro. Em resposta, ele e seus defensores tiram sarro, adotando pontos de vista cada vez mais machistas. Os dois grupos correm para os extremos, empurrados pelas figurinhas carimbadas de sempre. Não penso que nenhum dos dois grupos seja tão enlouquecidamente equivocado. Mas tornaram-se nas últimas horas. É claro que “os machistas” não têm razão, digamos, primária na questão — pois nem eles acreditam que a expressão discutida seja justa — , mas foram levados a defender-se em função dos ataques.

Casualmente, estou deliciando-me com Um teto todo seu, de Virginia Woolf. OK, não é um livro feminista tal como entendemos a palavra hoje, apesar de ser um texto que deixa muito claras as injustas posições da mulher na sociedade das primeiras décadas do século XX — seu tema, na verdade, é “As Mulheres e a Literatura”. Mas a lição de equilíbrio e a noção de que há camadas e mais camadas de complexidades sob o tema fica desnudada no livrinho de VW (138 páginas, na edição que leio). Isso é tudo o que não acontece na briga de bugios (*) ora observada. É notável como os grandes autores que permanecem como referência maiores, são aqueles que não têm soluções ou palavras definitivas. Dostoiévski mostra todos os lados das questões sem escolher nenhum; Tchékhov dá uma sucinta aula cada vez que demonstra que há paixão e motivos profundos até num passar da faca na manteiga; Virginia é mais explícita e parte para o intimismo a cada linha, expondo uma confusão que chega ao ponto de ser gloriosa; Freud é humilde e costumava retificar-se e dar a cara ao tapa a cada duas páginas… E há mais exemplos, muitos mais. Mas os contendores de ontem têm certezas absolutas.

O importante é ofender, é amassar o adversário. Não deixa de ser curioso.

(*) Diz-se da briga ou discussão acalorada entre duas ou mais pessoas, onde o xingamento, o palavrão e as ofensas mais pesadas são usadas contra o outro. Os bugios, quando brigam, usam a própria bosta para atingir o adversário.

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O Noticiário Enlouquecido

Publicado em 11 de maio de 2007

Ler o jornal pela manhã pode ser uma experiência bizarra. A gente acaba tendo contato com diferentes gêneros de loucura.

Hoje, desci para pegar o jornal e li a manchete principal:

Papa fala aos jovens: “Façam da castidade um baluarte”. Em São Paulo, ele defendeu a contenção sexual como condição para a realização pessoal mesmo no casamento. Em discurso de meia hora, foi interrompido 24 vezes por aplausos e gritos entusiasmados. Puro gozo religioso. Só imagino a crise no setor moteleiro paulistano.

Bem mais razoáveis, membros da comunidade gay carioca fizeram um protesto. Em frente a uma igreja de Nova Iguaçu, uma drag queen vestida como Bento XVI distribuía folhetos pregando a liberdade sexual. Só há um problema. A fala de Bento estava na capa do jornal, o tíimido contra-ataque estava em letras bem pequeninas, na página 7.

Então, virei o jornal e, na contracapa, deparo-me novamente com a loucura…:

“Gremista mata a facadas o marido, torcedor do Inter.” Parece que o marido começou a dar pontapés na mulher quando viu o time do comediante Muricy Ramalho perder para o Grêmio. Meu colega de sofrimento descontrolou-se ao ver que o São Paulo não repôs Mineiro, Fabão, Lugano e Danilo, deixou na reserva Jorge Wagner e Dagoberto e ainda escalou Leandro, Jadilson e Richarlyson. Colorado, identificou-se demais com o São Paulo, foi gozado pela mulher (gozo futebolístico), tentou matar e acabou morto. Seria mais simples matar-se logo.

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O Questionário de Proust (XIX) – Responde Luigi Augusto de Oliveira

Publicado em 14 de março de 2007

Sim, pedi-lhe uma mini-bio. Recebi como resposta:

Olá, Milton.
Veja se serve a minha biografia oficial. Normalmente não serve, mas é a oficial… Nessa Era de Kali-Google, talvez seja até excessiva:

“Luigi Augusto de Oliveira é mineiro.”

Bem, aí está. Porém, fui ao Kali-Google e, de cara, encontro Luigi Augusto de Oliveira (Brasil, 1969). Poeta e romancista. Autor de livros como Dalma, na rede (1997), Solo para ti (2001), e Crucial e vão (2001)..

Tento de novo e leio Luigi Augusto Oliveira foi vencedor na categoria romance do 1º Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, que teve como júri o romancista Cristóvão Tezza e os escritores André Sant´Anna e Bernardo Ajzenberg. Também fico sabendo que ele foi menção honrosa no Concurso de Narrativas Breves Haroldo Maranhão.

E há coisas como esta e esta por aí. Conheço-o apenas de e-mails trocados. Suas respostas são excelentes. Confiram.

Ah, e seus livros também estão por aí.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

Não creio em defeitos. Creio em atitudes e omissões, adequadas ou não a um contexto.

Como gostaria de morrer?

Sem sofrer senão o imprescindível, mas sem inconsciências ou distrações. Não quero perder o espetáculo, afinal é único e exclusivo.

Qual é seu estado mental mais comum?

A esperar. Mas sem saber o quê, e sem nunca ser o que eu supunha que seria, ou como seria, quando posteriormente me ocorre imaginar que eu supunha algum objeto um pouco menos impreciso. Desculpem a confusão: é frustrante para mim também, e assim eu comunico um pouco desse estado.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Menos o preferido que o mais obsedante: eu.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Entre as que continuam a ser, a biblioteca exagerada que não viverei pala ler/reler bem. Entre as finadas, ter um dia levado a sério o que a grande mídia (e as menores que apenas a acompanham) considera ser a cultura, a arte, o merecedor de atenção.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Não desprezo pessoas, mas atitudes e omissões, e nem sempre por serem inadequadas ao contexto: ao contrário, tendo a admirar estas e a desprezar as demasiado adequadas, eficientes, as que dão “sucesso”… já que o Grande Contexto é um fracasso em todos os sentidos.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Não admiro pessoas, etc.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Um violoncelo.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Só quando falo ou escrevo.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Quando já nem sequer ocorrerá pensar nisso, ou desejá-lo ou a seus subterfúgios.

Qual é seu maior medo?

Que nada mude. Nem mesmo para pior. Que na velhice eu veja que nem um pouco “disso” que aí está sequer começou a acabar.

Qual é seu maior ressentimento?

Não ter sabido mais cedo e jovem das coisas que eu devia desprezar – e isso era quase tudo.

Que talento desejaria ter?

Ouvido absoluto. Menos pelo ouvido que por ter algo concretamente absoluto.

Qual é seu passatempo favorito?

Desprezar passatempos e cada vez mais aprender a enxergar como quase tudo que nos é ofertado fazer é mero passatempo.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

O mesmo que em todas as demais: a visibilidade. Maria Zambrano disse que, pela etimologia, família são aqueles que enfrentam a fome juntos. Mas as fomes só podem ser bem enfrentadas na quietude, na moita, o que se torna a cada dia mais difícil e condenável socialmente.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

A sofreguidão por passatempos ou por diversão, ou por visibilidades (o “vejam que eu também estou a fazê-lo!”), se não for tudo a mesma coisa.

Onde desejaria viver?

Na mais ensolarada entre as cidades da Escandinávia, mas não das grandes nem das lembradas em qualquer mapa.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Inteligência. Cada vez mais inútil e mesmo prejudicial, socialmente e para o indivíduo em sua inserção social.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

Não creio em qualidades etc.

Quando e onde você foi mais feliz?

No ventre. O “mais” da pergunta é dispensável.

Próximo: Marconi Leal

Obs. do Milton: Sobre a última pergunta, a grande Iris Murdoch diz o seguinte: “A tranqüilidade de espírito, a ausência de ansiedade, a ausência de medo: são estes os ingredientes da felicidade.” Retirado deste excelente blog.

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O Questionário Proust (XVIII)– Responde Marconi Leal

Publicado em 19 de março de 2007

O fim de semana acabou. Finalmente! Eu não aguentava mais. Ah, o trabalho, os compromissos, os telefonemas, a mesa de trabalho bagunçada, a falta de dinheiro, a correria… Pode haver coisa melhor? Estou feliz, enfim! Bem, aí estão as respostas do Marconi Leal. Muito boas, muito boas. Talvez para me agradar, ele responde que gostaria de viver aqui. Só que é exatamente onde eu também queria estar.

Marconi Leal nasceu no Recife, a 30 de janeiro de 1975. Não por vontade própria, mas por puro esquecimento. No caso, esquecimento de sua mãe, que não tomou a pílula. Atualmente, reside em São Paulo, onde desenvolve o trabalho de redator, revisor e escritor, além de uma asma alérgica motivada pela poluição. É autor de O Clube dos Sete,Perigo no Sertão,O País Sem Nome, entre outros. Considera “entre outros” o melhor deles.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

O fato de elas não serem eu.

Como gostaria de morrer?

Respirando.

Qual é seu estado mental mais comum?

O aparelho em jambo me sucede ontem.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Deus.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Certa vez votei no PFL.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Fosse ele uma pessoa, desprezaria o Bush.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Os imitadores de Paulo Francis. Não têm talento, mas são persistentes.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Numa atendente de telemarketing, pra me vingar.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Declarando o IR.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

O William Bonner decapitado.

Qual é seu maior medo?

Medo, nenhum. Pavor: baratas voadoras.

Qual é seu maior ressentimento?

Não tenho ressentimentos. E me ressinto muito disso.

Que talento desejaria ter?

O de ouro.

Qual é seu passatempo favorito?

Discutir com a televisão.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Só os parentes.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Recolher amostra para exame de fezes.

Onde desejaria viver?

Dentro de certa crônica sobre um cinema Marabá.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Virtude no âmbito social? Desconheço.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

O fato de que ele dura no máximo 100 anos.

Quando e onde você foi mais feliz?

Aqui em casa, diante do computador, minutos atrás, antes do Milton Ribeiro me mandar esse questionário.

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O Questionário de Proust (XVII) – Responde Allan Robert

Publicado em 13 de março de 2007

Não sei vocês, mas eu me divirto muito com este questionário. E há os bastidores. Pedi uma mini-biografia de 5 a 10 linhas para o Allan, ele começou o texto dizendo que tinha pouco a dizer mas escreveu 20 linhas ou mais… Tá bom. O Allan mora em Piacenza e é o grande autor do Carta da Itália. Encontrei-o quando estava em Trento, lá em dezembro de 2005. É inacreditável que ele, tão gentil e tranqüilo no meio daquela neve, tenha sido alguém que, na juventude, trocasse socos por quaisquer motivos, como confessa abaixo.

Tem muito pouco a ser dito a meu respeito. Não que eu seja simplório ou modesto, mas raramente me sinto bem no papel de protagonista. Carioca, Flamengo, nascido e crescido em Copacabana até os 13 anos. Depois, Embu, em SP, onde minha mãe, pintora, participou do nascimento do movimento artístico daquela cidade. Passei muito tempo na Via Dutra, morando ora no Rio, ora em SP. Não me formei em Propaganda e Marketing, nem em Economia. A curiosidade me levou a diversos cursos: fotografia, piloto de avião, canto, judo, batik, joalheria, capoeira. Mas nada levado muito a sério, só buscava algumas respostas e diversão. Era capaz de mudar de humor com um olhar errado e trocar socos com qualquer um. Com o tempo aprendi a respeitar o ponto de vista alheio, até porque os socos doem. Casado com a Eloá há vinte anos, pai da Bianca há 14 e da Luiza há 12, sou fiel aos amigos e aos animais. Meu blog começou a partir da necessidade de manter laços que me são caros e dos e-mails que enviava semanalmente aos amigos deixados no Brasil. Não tenho paciência de editar nada do que escrevo e o meu solecismo fica explícito na cacografia que produzo (gosto de pensar que ninguém precisa da gramática para ser criativo, mas no fundo é preguiça mesmo). Já produzi e expus quadros, esculturas e jóias e vendi tudo. Uns trocados com fotografia, mas prefiro tomar água de coco na praia. Quando tinha 17 anos pensava que era fácil ser poeta, mas não me empenhei. Vim para a Itália em 1999 pensando em ficar uns 4 ou 5 anos, mas pensando morreu um burro. Meus melhores momentos acontecem quando estou dormindo: tenho cada sonho. Prefiro ser um observador. Às vezes privilegiado, como um voyeur que, protegido pela porta, se diverte a olhar dentro das casas que as pessoas constroem na alma.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas ?

A arrogância.

Como gostaria de morrer?

Quem disse que eu gostaria de morrer?

Qual é seu estado mental mais comum?

Costumo me perder em divagações e sou muito distraído .

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Não gosto de listas de preferências. Acho que elas reduzem os horizontes.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Charutos, se tiver que escolher algo material, mas ainda acho que a maior extravagância do ser humano é estar vivo.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

A lista seria muito longa .

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Admiro muitas pessoas do meu círculo pessoal. Entre as pessoas famosas não admiro ninguém de maneira especial, mas poderia citar Amyr Klink.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Um tigre, uma gaivota, um professor de literatura .

Em quais ocasiões costuma mentir ?

Qualquer ocasião é boa para mentir. O importante é não perder a oportunidade.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Uma casa de campo na beira do mar.

Qual é seu maior medo ?

Sobreviver às minhas filhas.

Qual é seu maior ressentimento?

Descobrir que a humanidade não retribui a consideração que tenho por ela.

Que talento desejaria ter?

Poder voar como os pássaros. Ter o dom da escrita.

Qual é seu passatempo favorito ?

Ler e caminhar por lugares desconhecidos.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Acredito que os defeitos fazem parte das pessoas tanto quanto as qualidades.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Viver da miséria ou ignorância alheias.

Onde desejaria viver?

Numa casa de campo na beira do mar.

Qual a virtude mais exagerada socialmente ?

A humildade.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

A lealdade. Por pessoas, idéias ou ideais .

Quando e onde você foi mais feliz?

No Rio, em Salvador, em Ilhabela e em Macaé. Enfim, em qualquer cidade de praia.

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O Questionário de Proust (XVI) – Responde Tiago Casagrande

Publicado em 7 de março de 2007

Apresentar Tiago Casagrande, o Tiagón? Fiquei um bom tempo na frente do monitor pensando em como somos parecidos. Ele não sabe disso. Sinto-me muito próximo a ele. Ele é mais ou menos eu há 22 anos atrás. Espero que dê mais certo… Um exemplo: só li suas respostas hoje, mas já tinha pensado em dizer que meus momentos mais felizes ocorreram enquanto ouvia música e quando vi meus filhos pela primeira vez. Ele respondeu o que eu responderia e colocará seus filhos na resposta quando tivé-los. Estou escrevendo este parágrafo – agora!, em linguagem Tristram Shandiana – e vejo a Olivia no MSN. Peço-lhe para que ela apresente o Tiago. Ela escreve o que segue e não acrescentarei mais nada porque não precisará:

Tiagón é uma mente que transita por entrelinhas de idéias, nisso de captar o que existe em planos outros. Um escritor meio musical ou talvez um músico meio literário perdido – perdidíssimo – entre publicitários. E ele só faz mesmo sentido em sua falta de sentido, olhando o mundo com seus olhos de rei anacrônico feito criança que não sabe ler e vira o livro de ponta-cabeça porque afinal são tudo pequenos desenhos enfileirados. E só não digo que Tiagón é gênio porque gênio é coisa de poeta romântico e crítico bardólatra mal-resolvido.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

Ultimamente os humanos andam me irritando muito. E a maioria desses defeitos pode ser englobada numa categoria “desrespeito”.

Como gostaria de morrer?

Sonhando. Ei, na verdade eu não gostaria de morrer! Essa é uma pergunta capciosa? ;-D

Qual é seu estado mental mais comum?

Ocupado, como um pregão da bolsa de valores. Na minha cabeça tem sempre um monte de gente gritando, confundindo e geralmente me vendendo.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Space Ghost, versão talk show host. Meu alter ego é burro e sem noção de nada.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Um ao vivo pirata do Black Sabbath, gravado em 74. Na época, custou quase uma mensalidade da Famecos (que era, imagina, 350 pilas).

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Provavelmente, o Faustão.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Woody Allen.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Ah, só se fosse alguém muito rico, tipo Príncipe de Dubai, essas coisas. Se é pra voltar pro miserê, me deixa em paz!

Em quais ocasiões costuma mentir?

Em eventos e festinhas de publicitários. Mas só porque é de bom tom.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

A ausência total de angústia. (Soou muito dramático? Dá pra botar um drum roll no final, se achares melhor ;-))

Qual é seu maior medo?

Um ataque simultâneo de mais de 150 espécies de insetos, sendo metade deles (mais um) formada por unidades de ataque voadoras. Agh!

Qual é seu maior ressentimento?

A vitória da Yeda nas últimas eleições. E o futebol do Ronaldinho na final do mundial de clubes passado.

Que talento desejaria ter?

Barba e costeletas.

Qual é seu passatempo favorito?

Ler os blogs da Verbeat! Ler continua refrescando.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Adicionaria uma tia rica, generosa e moribunda. E um primo fanho. Primo fanho é diversão garantida!

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Rabada!

Onde desejaria viver?

Numa Porto Alegre com a segurança de 20 anos atrás. E que tivesse mais bares legais perto da minha casa. E um súper melhorzinho, porque aquele da Carazinho tá muito bagunçado. E num Petrópolis que não tivesse tanta lomba. E o Barranco não cobrasse tão caro.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Vida saudável. Ergométricas, broto de alfafa e despertar às 6h da madrugada não conjugam com o verbo “viver”. Tá todo mundo maluco.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

A sorte.

Quando e onde você foi mais feliz?

Acontece seguido, esteja onde estiver, ouvindo música. De tempos em tempos, surge *aquela* música, que não é só uma grande música mas também tem aquela rara capacidade de traduzir musicalmente o que a palavra “beleza” significa a toda a sensibilidade do nosso córtex. Sendo capaz de desafiar áreas inexploradas da nossa subconsciência. (Inclusive houve hoje; descobrindo “Holy Ghost”, do Owls.) E no momento desse encontro a torrente elétrica que se cria vai levar os harmônicos do som pra tocar pertinho do lugar onde ficam as melhores memórias, e o resultado é uma sensação de plenitude e compreensão alavancada pela música e formada pela fumaça de todas as felicidades das mais felizes memórias. É como se *aquela* música pudesse traduzir os códigos inconscientes do que é mais puro e bom naquilo do que somos formados, sem que o raciocínio estrague tudo. E quando isso acontece, eu me sinto feliz pelo que tenho e pelo que sou. Sem ter que pensar no que “felicidade” significa.

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O Questionário Proust (XV)– Responde Luiz Biajoni

Publicado em 3 de março de 2007

O Biajoni tem razão. Conheço pessoas que dizem que ele é louco. Não é. E olha que eu sei identificar os loucos e os chatos a quilômetros de distância. É um cara legal, daqueles que a gente senta tranqüilo num bar sabendo que só receberá gentileza e boas piadas. Passamos uma tarde e uma noite entre outros amigos, em São Paulo. Como não gostar de alguém que topa qualquer papo, de alguém que tem autêntica curiosidade pelas pessoas, de alguém que ADORA provocar, mas que aceita o contra-ataque com o melhor dos humores? É um ressentimento justo, Biajoni. Te entendo. E, puxa, gostaria de vê-lo muito mais do que uma vez.

E o prazer de estar com o Bia é perfeitamente transposto a seus textos. São leves, fluidos e, quando ele quer, muito provocativos. É bom lê-lo, prova disso é que dá de goleada em mim em número de leitores aqui na Verbeat.

Obs.: Na verdade, acho que estou escrevendo isto só porque ele diz eu sou bonito, apesar de ter denunciado que passo muito trabalho equilibrando uma taturana debaixo do nariz.

– Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

Irritação. Pessoas que se irritam por qualquer coisa me enchem.

– Como gostaria de morrer?

Numa manhãzinha de segunda-feira, para fazer valer uma folga para os amigos. De ataque cardíaco fulminante.

– Qual é seu estado mental mais comum?

Meu estado mental mais comum se chama “lambari”. Parece que tem vários deles atravessando meus pensamentos.

– Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Ulisses, da Odisséia.

– Qual é ou foi sua maior extravagância?

Comprar CDs. Fazendo contas por baixo, gastei um automóvel zero em CDs. (Bom, não podemos contar exatamente como extravagância o fato de ter escrito um livro, né?)

– Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Desprezo o Bush.

– Qual é a pessoa viva que mais admira?

Pô, admiro muita gente. Admiro todos que vivem bem fazendo o que gostam.

– Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Pô, se pudesse, gostaria de voltar “Biajoni reloaded” – tive uma ótima vida até agora, apesar de todas as dificuldades.

– Em quais ocasiões costuma mentir?

Não costumo mentir. Se o faço em alguns momentos é para proteger alguém que amo – ou para não constranger alguém.

– Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Casa com quintal e plantas, não precisar trabalhar, família por perto, livros, discos e filmes à mão, computador bom com internet rápida, comidas e bebidas boas, não ter hora para dormir ou acordar.

– Qual é seu maior medo?

Não dar conta de cuidar das pessoas que dependem de mim.

– Qual é seu maior ressentimento?

Ser considerado maluco por alguns.

– Que talento desejaria ter?

Da música, saber tocar um instrumento.

– Qual é seu passatempo favorito?

Sentar com amigos para uma cerveja e uns beliscos ouvindo discos obscuros e tecendo conspirações.

– Se pudesse, o que mudaria em sua família?

O volume da voz.

– Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

É incrível que ainda exista gente passando fome, pleno século XXI.

– Onde desejaria viver?

Olha… Atualmente penso muito em Minas Gerais.

– Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Minha? Me empolgar e beber demais quando com os amigos.

– Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

A mesma que Schopenhauer: a de (ainda) se sacrificar por outrem.

– Quando e onde você foi mais feliz?

Atualmente. Embora precisasse de mais dinheiro.

:>)

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O Questionário de Proust (XIV) – Responde Serbon

Publicado em 2 de março de 2007

BIOGRAPHIA DO SERBON (por ele mesmo)

Roqueiro, sãopaulino , blogueiro e pai em horário integral; músico bissexto(bissexual é a mãe) e jornalista nas horas vagas. Sergio Bomfim (corruptela de Serbon ou Serbão para os íntimos) encontra-se em crise da meia idade, pois entrou há pouco na chamada Casa dos Enta. Está criando um alter-ego, o Leonardo, que já tem 12 anos, desenha pra caramba e – oh tempora, oh mores! – sempre sacaneia o pai. Serbão já tentou largar o vício de blogar, mas desistiu e segue a política de redução de danos: apenas um post por dia.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

a pieguice. argh!!!!

Como gostaria de morrer?

eu queria morrer dormindo, como meu avô. não desesperado, gritando, com os passageiros do vôo que ele pilotava.

Qual é seu estado mental mais comum?

confuso? não peraí, indeciso. não, confuso mesmo. é, confuso. ou indeciso.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Kramer, do Seinfeld. não trabalha, não faz nada e sabe-se lá como vive, mas é um tremendo cuca-fresca.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

uma vez, quando o real estava pau a pau com o dólar. arrisquei e comprei um vidrinho de caviar. fiquei sem dinheiro pro ônibus. mas gostei. como diria o Mundinho de Dona Flor, “tem gosto e cheiro de xibiu”…

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Nicolas Cage, disparado.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Jim Morrison. ele não morreu não, forjou a própria morte e trocou de identidade. tem um cadáver de uma loba no túmulo de Père Lachaise.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

eu queria voltar como eu mesmo, mas com toda a experiência que tenho agora!!!!

Em quais ocasiões costuma mentir?

em todas as necessárias.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

o dolce far niente. sou devoto de São Domenico De Masi, o santo padroeiro do ócio.

Qual é seu maior medo?

o de não ter medos, pois aí, estarei anestesiado na vida.

Qual é seu maior ressentimento?

minhas histórias de rejeição.

Que talento desejaria ter?

surfar.

Qual é seu passatempo favorito?

internet. é o favorito de 90% dos que lêem blogs, mas só 0,1% admitem.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

gritaríamos menos.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

ir à uma festa, e recolher todas as latinhas de alumínio “pra reciclar”…

Onde desejaria viver?

num cantinho aconchegante.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

aparências…

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

carisma.

Quando e onde você foi mais feliz?

rapaz, pergunta difícil não vale!

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Beethoven – Quarteto de Cordas, Op.59, "Razumovski", Nº 3 – 2º e 4º Mvtos

Para o Dr. Milton Cardoso Ribeiro

Hoje faz 17 anos que meu pai morreu. Esta era uma das músicas que ele mais amava, o terceiro Quarteto Rasumovsky (com “s” ou “z”), especialmente seu tranquilo segundo movimento e o quarto, bem diferente. Infelizmente, não os encontrei com o mesmo quarteto. O 2º vai pelo Alban Berg — esplêndido, esplêndido, esplêndido — e o 4º pelo Borealis, muito bem editado. Nossa, é música de primeira qualidade, nem vou escrever mais.

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Porque às vezes sinto orgulho de minha cidade

Publicado no Sul21, com outro título

A partir deste domingo (13), ônibus com mensagens ateias circularão em Porto Alegre e Salvador. A iniciativa é da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) e apresenta quatro mensagens que expõem um pouco o que pensam os ateus. Segundo a entidade, este é mais um passo dado na direção do reconhecimento dos não crentes como cidadãos plenos e dignos. Serão 10 ônibus em Porto Alegre, financiados por um único doador paulista que prefere permanecer anônimo, e 5 ônibus em Salvador, financiados com recursos da entidade e outros doadores.

O mote da campanha é “Diga não ao preconceito contra ateus”, que aparece em quatro formatos diferentes. Um deles afirma “A fé não dá respostas. Ela só impede perguntas” e outra diz “Religião não define caráter” mostrando uma foto de Hitler, citado como crente, e Charles Chaplin, um ateu. As propagandas permanecerão nos ônibus por um mês. Porém Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, revela que “O prazo pode se estender, se tivermos doações. Somos cerca de 2% dos brasileiros ou 4 milhões de ateus. Muitos têm medo de se expor devido ao preconceito de amigos, chefes e familiares. Isso tem que acabar”.

A campanha traz ainda a foto de um avião atingindo o World Trade Center com os dizeres “Se Deus existe, tudo é permitido”, uma citação alterada da famosa frase de Dostoiévski em Os Irmãos Karamázovi, “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”, dita paradoxalmente pelo ateu Ivan Karamázov no romance. Outra peça afirma “Somos todos ateus com os deuses dos outros”, mostrando imagens de um deusa hindu, um deus egípcio e um deus palestino — Jesus.

Segundo a entidade, o objetivo da campanha não é fazer desconversões em massa, mas conseguir um espaço na sociedade e diminuir o preconceito que existe contra ateus.

DOAÇÕES –> AQUI <–

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Dmitri Shostakovich (VIII – Final)

Na primeira parte do último texto, escreverei uma pequena introdução sobre meu diletantismo radical de escolher um compositor para passar centenas de horas a lê-lo e ouvi-lo. Há muita coisa boa e muita porcaria publicada. Já as gravações são quase todas boas. Ele não é compositor para músicos diletantes…

Os piores textos vêm daquelas alas que atribuem ou buscam descobrir alguma posição política no homem e na obra. Tais posturas, encontráveis tanto à direita quanto à esquerda, com predominância daquela, servem apenas para mostrar a ideologia de quem escreve, o que, convenhamos, pouco interessa neste caso. Depois de muito ler, fica clara a grande e falsa exposição que Shostakovich obteve durante da Guerra Fria, no Oriente e no Ocidente. Ambos os lados o utilizaram como exemplo de suas teses. Ele e outros intelectuais soviéticos foram espécies de caixas pretas nas quais se podia adesivar as mais diversas opiniões e posições. Não, Shostakovich nem representava o governo soviético, nem esteve ao lado dos dissidentes Soljenítsin e Sakharov. Se teve inúmeras oportunidades de permanecer no Ocidente e não o fez (argumento da esquerda), também sofreu horrores com Jdanov, Stálin e mesmo depois (argumento da direita); se escreveu ironias ao estado soviético (Cantata Rayok, argumento da direita), também cantou o heroísmo da revolução em obras não encomendadas. Shostakovich parece-me ter sido alguém cujo pensamento político possuía pouca relevância e que agia sempre como artista e ponto. Só isso? Não, em minha opinião, ele era um comunista muito crítico e reto, com uma complexa relação de amor e ódio ao poder da URSS. Apenas Stálin era cem por cento abominado. Era um artista, não um político; não seguia as linhas tortuosas, às vezes indefensáveis, que os partidos frequentemente defendem. Utilizou-se de temas de sua época, porém a perspectiva sob a qual via o mundo era, curiosamente, sempre foi a dos mortos. Dos mortos pelos nazistas, pelos anti-semitas, pelos soviéticos, por Stálin ou pelo passar do tempo, como em toda sua obra final. Como escreveu Fernando Monteiro, toda grande obra gira em torno de três temas: Amor, Deus e Morte. Acho que Shostakovich, teve muito a dizer sobre todos, principalmente sobre os dois últimos temas; o primeiro pela inexistência, o segundo pela onipresença.

Aliás, com o passar do tempo — o qual tem o bom costume de fazer aparecer a verdade e o pouco recomendável hábito de fazer desaparecer nossos pobres corpos –, a discussão sobre o pensamento político de Shostakovich tornar-se-á ociosa e ficará o que interessa: o homem e o compositor; e este era um sujeito brilhante e produtivo, deprimido e eufórico, que torcia interminavelmente os dedos, como mostram os filmes soviéticos, sentado num trem olhando a chuva bater na janela; que homenageava a pureza de alguns revolucionários e criticava ou expelia seu amargor e sarcasmo aos governantes; que permanecia parado por horas em silêncio com os amigos de que gostava — e só com eles.

Por falar em gostar, o que gosto em Shostakovich é sua música. Ela é produto de um artista apaixonado e inacreditavelmente produtivo. A forma com que ele se relacionou com seu tempo serviu à sua música e não o contrário. Escrevia para ser compreendido e para expressar-se, mas não tinha ilusões de mudar seu país e o mundo, que é como parece pensar quem só vê política na arte de Shostakovich. Sua música, antiquada para os modernos e moderna para os anacrônicos (sem ofensas, sem ofensas…), consegue ser visceral e cerebral, e concordo com este artigo quando seu autor fala no quanto a audição de Shostakovich demandou-lhe subjetivamente. Não é música para ser assimilada nas primeiras abordagens e nem esquecida facilmente. São experiências oferecidas por alguém disposto a buscar tudo o que estivesse à mão para expressar o que desejava e que produziu uma obra séria, sarcástica, deprimente, divertida, inteligente, lúdica e extraordinária: às vezes, tudo ao mesmo tempo.

A seguir, comento as três últimas grandes obras de Shostakovich.

Quarteto de Cordas Nº 14, Op. 142 (1972-73)

Este é quase um quarteto para violoncelo solo e trio de cordas, tal é a proeminência dada àquele instrumento. É um quarteto inspiradíssimo, escrito em três movimentos (Allegretto – Adagio – Allegretto), e que tem seu centro dramático em um dilacerante adagio de 9 minutos. Não consigo imaginar uma audição deste quarteto sem a audição em seqüência do Nº 15. Eles, que costumam aparecer juntos, seja em vinil ou em CD, formam, em minha imaginação, uma só música.

Quarteto de Cordas Nº 15, Op. 144 (1974)

Este trabalho, assim como a sonata a seguir, são tidas como obras-primas e seriam os dois principais “réquiens privados” de Shostakovich. Concordo.

O que dizer de um obra escrita em seis movimentos, em que quatro deles são adagio e os outros dois são adagio molto, sendo que, destes dois últimos, um é uma marcha funeral e outro um epílogo…? Ora, no mínimo que é lenta. Porém, como estamos falando do Shostakovich final, estamos falando de uma obra que tem como fundo a morte. Há três movimentos realmente notáveis nesta música: a Serenata: Adagio, a Marcha Fúnebre – Adagio Molto e o musicalmente espetacular Epílogo – Adagio Molto. O Epílogo recebeu vários arranjos sinfônicos e costuma aparecer — separadamente ou não do resto do quarteto — em gravações orquestrais.

Sonata para Viola e piano, Op. 147 (1975) – A Última Composição

Esta é a última composição de Shostakovich e uma de minhas preferidas. Ele começou a escrevê-la em 25 de junho de 1975 e, apesar de ter sido hospitalizado por problemas no coração e nos pulmões neste ínterim, terminou a primeira versão rapidamente, em 6 de julho. Para piorar, os problemas ortopédicos voltaram: “Eu tinha dificuldades para escrever com minha mão direita, foi muito complicado, mas consegui terminar a Sonata para Viola e Piano”. Depois, passou um mês revisando o trabalho em meio aos novos episódios de ordem médica que o levaram a falecer em 9 de agosto.

Sentindo a proximidade da morte, Shostakovich escreveu que procurava repetir a postura estóica de Mussorgsky, que teria enfrentado o inevitável sem auto-comiseração. E, ao ouvirmos esta Sonata, parece que temos mesmo de volta alguma luz dentro da tristeza das últimas obras. A intenção era a de que o primeiro movimento fosse uma espécie de conto, o segundo um scherzo e o terceiro um adágio em homenagem a Beethoven. O resultado é arrasadoramente belo com o som encorpado da viola dominando a sonata.

Os primeiros compassos da Sonata ao Luar, de Beethoven, uma obra que Shostakovich frequentemente executava quando jovem pianista, é citada repetidamente no terceiro movimento, sempre de forma levemente transformada e arrepiante, ao menos no meu caso… O scherzo possui uma marcha e vários motivos dançantes, retirados de uma outra ópera baseada em Gógol — seria sua segunda ópera composta sobre histórias do ucraniano, pois, na sua juventude ele já escrevera O Nariz (1929) — que tinha sido abandonada há mais de trinta anos. Outras alusões são feitas nesta sonata. Há pequenas citações da 9ª Sinfonia (de Shostakovich), da 4ª de Tchaikovski, da 5ª de Beethoven, da Sonata Op.110 de Beethoven, de Stravinsky, Mahler e Brahms. E a abertura da Sonata utiliza trecho do Concerto para Violino de Alban Berg, também conhecido pelo nome de “À memória de um anjo”, o qual é dedicado à filha de Alma Mahler, Manon, morta aos 18 anos, com poliomielite.

Creio não ser apenas invenção deste ouvinte- – há uma constante interferência do inexorável nesta música, talvez sugerida pela intromissão de temas de outros compositores na partitura, talvez sugerida pela atmosfera melancólica da sonata, talvez por meu conhecimento de que ouço um réquiem. O fato é que Shostakovich estava aguardando.

Shostakovich morreu sem ouvir a sonata, que foi estreada num concerto privado no dia 25 de setembro de 1975, data em que faria 69 anos.

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