Mulheres, me ajudem!

Postado em 16 de agosto de 2005

Sou bastante antiquado e romântico para acreditar que muitas crianças, diante das circunstâncias certas, são leitoras naturais até o momento em que esse instinto é destruído pela mídia.

Harold Bloom, no prólogo de Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades.

Minha filha Bárbara, que está quase com 11 anos, precisa de indicações de livros para meninas pré-adolescentes. Minhas caras leitoras, ela é uma menina como vocês foram: é inteligente, sonhadora, altamente romântica, apaixonada pelas coisas e revela certa tendência para escrever. Nunca pertenci a seu maravilhoso sexo e, apesar de amá-lo incondicionalmente e de dedicar grande parte de meu tempo a entendê-lo, não pretendo mudar. Prova disto é que nem as visitas periódicas e obrigatórias ao proctologista tiraram-me de meu caminho. Assim, sempre li livros para meninos e, até hoje, prefiro o futebol ao balé. Não vou indicar-lhe Os Meninos da Rua Paulo, que foi meu livro mais querido na pré-adolescência, assim como de meu filho. Minha mulher lia uma inacreditável biblioteca para moças de sua avó. São livros da primeira metade do século XX e, se funcionaram para a Claudia, não funcionariam para a Bárbara. Minha ex-mulher, que se chama Suélen (ou Pâmela, não lembro), mal fala comigo.

Por favor, deixem-me comentários salvadores. Quais os livros que você indicaria antes que minha filha seja trucidada pela mídia? Tenho certeza que o fantástico grupo de leitoras que possuo — apenas como leitoras, infelizmente — não me deixará sozinho.

P.S.- Bárbara está gostando de Clarissa, de Erico Verissimo.

Comentários:

–> E tenho dicas de livros que são ótimas, pois tenho 11 anos e leio todos:Agenda de Carol Diário de Débora Agenda de Carol Fala sério mãe! Rita está crescendo Todos os cinco são muito legais. Vale a pena!
Luiza     Mulheres, me ajudem!     Jun 27 2007
–> Oi, td bom? Encontrei esse seu pedido desesperada por acaso, buscando por um dos livros citados pelas leitoras no google. Eu recomendaria os livros da série vagalume, são uma graça e podem agrdar a Gregos e Troianos. Se ela é romântica, então sem dúvida um livro de contos de Clarice Lispector ou de Lygia Fagundes Teles é um ótimo começo! Contos, pq os romances de Clarice já são bem densos… Mas se ela gostar de aventura ou suspense, aconselho Edgar Alan Poe. Ah, e se vc achar alguma versão pra adolescentes, um clássico tipo “Sonhos de uma noite de verão” seria maravilhoso. Bem, citei esses livros pq eu cresci com eles, mas tenho lido Harry POtter e apesar da mídia ser muito exagerada em cima dele, é um livro legal pra adolescentes da idade dela. Eu sinceramente recomendo! Um abraço e boa sorte!
Roberta     Mulheres, me ajudem!     Sep 1 2006
–> Gostaria de conhecer outras obras suas.
Ruama     Mulheres, me ajudem!     Dec 23 2005
–> Milton, Carolina adorava uma coleçao de contos chamada “Para gostar de ler” com seleçoes de autores muito bons como Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Rubens Campos, Mário Qintana, Cecília Meireles, etc. Também gostava de poesia que copiava em seus cadernos e sabia de memória!´ De minha época eu lia o que encontrava pela biblioteca do Lorde:e os que mais gostava eram os de Érico Veríssimo, Garcia Marques, Ariano Suassuna, Pablo Neruda. Gostava muito também de ler biografias… Bueno, mas vc já teve assessoria demais! Beijinhos na Bárbara.
nora borges     Mulheres, me ajudem!     Aug 25 2005
–> Postado por Milton após sugestão de Leila Couceiro e “roubo” (meu) das Garotas Que Dizem Ni: A leitura daqueles tempos As capas eram chamativas. O tamanho da letra, grandão. As páginas eram poucas e ilustrações apareciam sempre. Tudo isso acabava sendo chamariz para minha curiosidade quando eu era criança. Naquele tempo, bastava ver uma brochura esperando para ser degustada na prateleira “Infanto-Juvenil” que eu já sacava da frase favorita dos petizes: “Compra, mãe?”. Se bem que hoje eu continuo fuçando nas estantes mais coloridas da loja. A única diferença é que não caibo mais nas mesinhas e cadeirinhas disponibilizadas para a leitura dos pequenos – e sou chamada de “tia” por eles. Apesar do apelo natural que um livro voltado ao público infantil carrega, acender a vontade de ler é trabalho árduo quando se tem apenas um punhado de anos. Como competir com videogame, Internet, televisão e brincadeiras com os amigos? E olha que a escola também não colabora muito. Acho o fim aquelas leituras obrigatórias de apenas uma opção – ou seja, todo mundo vai ler exatamente o que a professora acha legal. Eu passei por tudo isso. Confesso que muitas vezes preferia tentar quebrar meu recorde no Enduro a passar a tarde lendo. Mas não há administradores de tempo melhores do que as crianças. O dia, para elas, possui umas 36 horas. Dá para fazer de um tudo – ler, inclusive. Eu conseguia. E, apesar de não haver Harry Potter naquela época, a magia era certa com… … O Gato do Mato e o Cachorro do Morro De Ana Maria Machado Existe um título infantil mais delicioso do que essa riminha aparentemente boba? O Gato do Mato vivia brigando com seu maior inimigo, o Cachorro do Morro, para decidirem quem era o mais valente e destemido da dupla. O problema é que do nada surge um leão para botar o rabinho dos dois entre as pernas. Nas minhas lembranças confusas, este livro figura como o primeiro. … O Gênio do Crime De João Carlos Marinho Quando chegamos naquela fase em que histórias de fadas e bichos viram “coisa de criança” (como se ainda não fôssemos isso), a melhor pedida é esse causo de mistério que fez parte da infância de muita gente – uma vez que foi publicado, pela primeira vez, em 1969. Foi a chance de brincar de detetive mirim e adivinhar quem estava por trás do esquema de falsificação de… figurinhas! … O Menino do Dedo Verde De Maurice Druon Era o meu “Pequeno Príncipe”. O personagem também é descrito como um menino loiro de olhos azuis e que vivia em um mundinho só dele. O dom de Tistu era, claro, o dedo verde – tudo o que ele tocava ganhava vida, principalmente as plantas. Tipo aquela cena de “E.T. – O Extraterrestre” em que o alienígena faz uma flor reviver. E a história, como no cinema, tem final triste e inesperado. … A Curiosidade Premiada De Fernanda Lopes de Almeida Toda criança já passou pela fase dos “Por quês”: para a gente era divertidíssimo saber por que a água é molhada e por que o fogo é quente; para os adultos, porém, deve ser dose. Essa brochura mostra bem o assunto levado até as últimas conseqüências. Glorinha é uma peste que quer saber tudo e incomoda muita gente com tanta curiosidade. Mas consegue, com isso, fazer até os pais aprenderem. … O Escaravelho do Diabo De Lúcia Machado de Almeida Se eu fosse falar de todos os livros que li da “Coleção Vaga-Lume”, precisaria de pelo menos um mês inteiro só versando sobre o tema. Como nem eu nem você agüentaríamos, vou me ater apenas ao principal. A história dava conta de uma série de assassinatos de pessoas ruivas que recebiam um pequenino escaravelho pouco antes de comerem capim pela raiz. Dava medo, mas era ótimo. … A Bolsa Amarela De Lygia Bojunga Outro dia vi esse volume em um sebo e amaldiçoei os céus por não ter um troco sequer na carteira para comprá-lo. Tudo bem: prometi a mim mesma voltar lá depois para reviver a saga da menina que mistura o dia-a-dia com histórias fantásticas de amigos imaginários que só uma criança sensível e imaginativa consegue criar. Faz muito tempo, mas lembro de ter devorado cada página. … Quem Manda Já Morreu De Marcos Rey Outro favorito da coleção “Vaga Lume”. Perceba que eu já adorava histórias tipo “C.S.I” desde pequena. Ali, o herói era o Edu, um rapaz que ajudava seu tio detetive – conhecido como Palha – a desvendar mistérios. O maior deles era a identidade de um tal de Boss. Depois de ler e reler e reler mais uma vez, ainda fiz com letra caprichada todo o suplemento de atividades. Sem a professora mandar. … História Meio Ao Contrário De Ana Maria Machado É tudo de trás pra frente, de ponta-cabeça. E como era divertido! Primeiro, o livro começa com “E eles foram felizes para sempre” e termina com “Era uma vez…”. Depois, a princesa se recusa terminantemente a casar-se com o príncipe encantado. A autora colocou um conto de fadas no espelho e recriou tudo assim, maluco, para a alegria dos pequenos que, como eu, tiveram a sorte de ler. … Marcelo, Marmelo, Martelo De Ruth Rocha Três histórias em um só volume: uma sobre Marcelo, um menino que resolveu criar seu próprio idioma, digamos, básico (cachorro era “latildo” e colher era “mexedor”); uma sobre Teresinha e Gabriela, duas garotinhas bem diferentes, mas que no fundo eram iguais; e uma sobre Carlos Alberto, um moleque mimado e egoísta que não gostava de perder. E tudo isso assim, de uma vez. Maravilha. … O Menino Maluquinho De Ziraldo Certamente o meu livro infantil favorito de todo o universo. Tanto que eu ainda o guardo, apesar da capa rasgada, das folhas soltas, do cheiro de mofo e dos rabiscos de canetinha que meus irmãos fizeram nele quando eram bebês. E o pego de vez em quando para falar oi ao menino que era maluquinho como todos nós éramos, mas que virou um adulto muito legal. Como eu espero ter virado.
Milton Ribeiro     Mulheres, me ajudem!     Aug 21 2005
–> Igual à maioria das mulheres aqui, também li muito e de tudo (inclusive bulas de remédio, livros “de menino” e “de adulto”, enciclopédias, dicionários, revistas da National Geographic), primeiro sem discriminação, e depois aprendendo a discriminar sozinha. Acho que o melhor é ter, em casa, uma biblioteca enorme e variada, e deixar que ela mesma entre lá e pegue o que quiser. Pode até ser que ela leia Lolita ou Grande Sertão : Veredas sem ter total capacidade para entendê-los, mas a gente não ama só o que entende completamente, talvez seja até um pouco o contrário, né ? ;o)
Cynthia     Mulheres, me ajudem!     Aug 20 2005
–> Milton, preste atenção nas bancas de revistas…sai ainda esse mês o lançamento dos Clássicos da literatura brasileira em quadrinhos para o público infanto-juvenil. Uma meia-forma de incentivo à leitura. Beijus
Luma     Mulheres, me ajudem!     Aug 19 2005
–> Amigo, eu pensei uma boa parte do dia no seu post, que preferi responder hoje. Estou dando um curso sobre rodas de leitura para professores, e seu post me fez reencontrar algumas questões importantes. Puxa, lembrei de tanta coisa boa dessa idade… A sua ansiedade e vontade de acertar como pai é simplesmente uma graça… E comove, de tão sincera. Cristo disse uma vez, “não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal.” Infelizmente, não fugimos da mídia… Pelo contrário, precisamos conhecê-la bem para saber combatê-la. E discordo de quem diz que somos tão frágeis ao ponto de ter nossas personalidades distorcidas profundamente. Temos uma porta interna que, se tivemos uma boa formação de caráter e personalidade, só abrimos para quem não vai nos desvirtuar. Ser curioso e sentir necessidade de conhecer de tudo a toda hora é muito comum nessa idade… E como é. Eu me lembro de ter sido assim. E foi aí que eu me lembrei que, na idade da sua filha até os meus 18 anos, eu li de tudo. Li o “Clarissa”, que a sua menina gosta… Li vários livros que falavam de adolescência ( feitos para adolescentes ), como “A Hora do Amor”, e “A marca de uma lágrima”. Li sobre sexo, li contos de mistério, li toda a obra da Agatha Cristhie e todas as bobageiras de banca daquelas Sabrinas e Biancas. E li também Machado de Assis, Maquiavel e Oscar Wilde. E todos eles, dos bons aos ruins, formaram quem eu sou hoje. Mas te digo – o melhor de ler tudo isso foi tê-los eu mesma escolhido. Então… Dê a sua filha a chance de escolher entre muitas opções. Respeite as escolhas dela… E se ela é ótima, como eu acredito que seja, encontrará por si só o seu caminho, o seu estilo, amadurecendo a seu tempo a leitora e a escritora que ela é. Agora, se você quer ser útil nessa hora, penso que o melhor é que mostre a ela o que você gosta e conte da sua paixão por este ou aquele livro. Meu avô fazia isso comigo, e eu me sentia conquistada sem que ele nunca tivesse entregado um livro em minhas mãos. E não há questões de gênero na literatura… Acho que tudo é para todos. Não é não? Perdoe o tom “professoral” da resposta… rs Ando tão chata que nem mesmo me animo a escrever pra não irritar a outros. rs Mas olha, meu coração diz que seu amor pela menina Bárbara é sempre o melhor conselheiro… O amor é sábio. Se é! Beijo enorme, pra você e pra menina. E olha, se não conhece ainda, tente o livro “Como um Romance”, do Daniel Pennac… Acho que ele pode te servir muito. 🙂
Karina     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Oi milton! agora estou vendo sua pergunta. Olha, meu livro Caixa Postal 1989 ganhou todos os prêmios , ele é da José Olympio editora. Ele é um livro adorado pelos jovens. Principalmente pelas meninas. O livro foi escrito em 89, ganhou o jabuti em 93, entre outros prêmios, e até hoje recebo mails de leitores. Há até comunidade de fãs no Orkut. Infelizmente eu não tenho nenhum exemplar em casa pra te enviar, senão, seria um prazer. Tenho outros livros em casa. Se você me passar o endereço terei prazer em presentear.
Angela     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Meu coloradinho favorito, aproveito para dizer que sou bem mais crítico do que tu em relação ao manoel de oliveira! Agora em relação aos conselhos de leitura para a tua filha, permite que te diga que sou homem e, como tu, amante das mulheres, mas não percebo porque é que só por ser homem sou excluído. Pois não me parece que as sugestões que aqui vou deixar sejam inferiores às sugestões das tuas respeitáveis leitoras: Aventuras de Alice no País das Maravilhas. As aventuras de Gulliver. Evidentemente, aconselho os mesmos livros ao pai da aconselhada (aproveito ainda para ir reler, pela enésima vez, o primeiro dos livros que sugeri). Abraço, Paulo
Paulo José Miranda     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Mílton, experimenta Minha vida de menina, da Helen Morley, ela deve gostar. Li o Monólogo até onde foi publicado, eu acho (V parte?). Queria ler o final, mas não achei. Bjins
adelaide     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Milton, compre urgente para ela: – Os livros de Karen Cushman: “Aprendiz de Parteira”, “Catarina, a Menina Passarinha”, “A Balada de Lucy Whipple” e “Matilda do Osso”; – “Ella Enfeitiçada”, de Gail Carson Levine; – A trilogia para jovens de Isabel Allende (A Cidade das Feras, O Reino do Dragão de Ouro e A Floresta dos Pigmeus); – A trilogia de Pippi Meialonga, de Astrid Lindgren, que alguém já sugeriu; – “Harriet, A Espiã” (um clássico!! mas esqueci o nome da autora…) – “O Caçador”, de Ana Lúcia Merege (hehehe); – Se ela for do tipo brincalhão, os livros da série “Witch”, tipo “Como se dar Bem com seus pais”, “Como se dar bem na escola”… – Se ela for do tipo romântico, livros de Marina Colassanti, mas só os de contos voltados para jovens. E nunca mais deixe de me consultar em assuntos importantes como esse, viu? Beijos, me visita! Ana
Ana Lúcia Merege     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Bom como hoje em dia uma menina de 11 anos ja sabe muito bem o q quer pq tenho uma q tem 12, acho q deve seguir um conselho ja dito antes leve ela em alguma livraria e deixe ela mesma escolher sua leitura. beijos
marcia     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Nossa, que coisa complicada. Mesmo pq eu não tenho gdes livros nessa época da vida. Mas aconselho o Mahabharata de Claude Carrière.
Charô aka Suricata     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> ..quanto aos livros ainda não sei,mas qto ao comentário sobre a Rádio imaginária (em teu coment. no Zadig) aqui tens uma locutora voluntária em prontidão! bjo na palma da mão!
Bugra     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> oLÁ Milton, Um dos livros modernos para meninas é o ” O mundo de Sofia” provavelmente você ja o conheça http://www.ime.usp.br/~cesar/projects/lowtech/mundodesofia/ Beijos Stella
Stella     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Engraçado que minha filha de 11 a Amália ama, lê e relê as aventuras de Pipi meiolonga, os contos nordicos, russos, árabes. E por conta do filme leu toda a coleção Desventuras em série. De quebra ainda dei as duas O Genio do crime. Eu vi outro na FNAC que as duas pequenas pediram. Amália tem 11 e Roberta 9. É auqle livro da menina que entra no armário e conta histórias.. agora esqueci.. Mas no geral os contos, ela amou. Beijos Odila
Maria Odila     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu concordo, a mídia anda destruindo a vontade de ler.
Pedro     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, pedirei que Flora opine, mas tenho uma posição quanto a ler: o importante é ler, qualquer coisa, mesmo o que possamos considerar subliteratura, pois após o desenvolvimento do hábito de ler o próprio leitor passará a selecionar bons livros; atualmente meninos e meninas lêem livros comuns, como os de J. R. R. Tolkien, Catherine Clément, Eoin Colfer, Alice Sebold e até mesmo, por estranho que pareça, Mark Twain, Charles Bukowski e Stephen King, preferencialmente os contos destes três últimos autores; por falar em contos, os mini contos de Marina Colassanti costumam fazer sucesso entre a garotada e as crônicas de Veríssimo também. Em tempo: ambos ficamos decepcionados com a Cobra Coral em Porto Alegre, não é?
Manoel Carlos     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Tem uma fase que a leitura cai um pouquinho, por mais que elas gostem de ler; é que o pensamento vagueia e vai longe… Olívia! Eu li toda a coleção Vagalume, da Ática. E todos os clássicos brasileiros. Se fosse eleger um livro mais atual e que as meninas gostam, sem dúvida seria “O mundo de Sofia”, mas diferente da maioria nada contra o “Harry Potter”. Beijus,
Luma     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, minha filha adora Clarice Lispector, Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, mas já tem 18 anos…. Acabei de falar com ela e lembramos que ela leu e adorou “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder quando tinha 11 anos. É uma excelente opção, também dei a ela, nessa época, vários livros de Vinícius e Drummond, acho que são ótimas pedidas, leves, agradáveis de ler…. Lembro que também comprei uns livros infanto-fuvenis de autores clássicos, tinha uma coleção dessas com James Joyce, Fitzgerald, Goethe, tudo com historinhas leves (por incrivel que pareça hehehe), ainda deve existir algo do tipo. Agora, nunca me rendi a esses para-didáticos horriveis que a escola obriga a ler. procurando a gente encontra coisas bacanas e compreensíveis pras meninas. ps.: quando digo para-didáticos, não estou me referindo, claro aos classicos brasileiros, mas umas coisas novas horrorosas que apareceram nos ultimos anos.
Denise Arcoverde     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu li todo José de Alencar, li o Tempo e o Vento (amei, li umas cinco vezes depois de novo) – eu era uma menina de fazenda, me identificava com essas coisas – e sexo não assusta não, é melhor a novela (inevitável) com o Veríssimo do que sem ele. Li tanta coisa que não consigo lembrar…acho que ainda repetia uns Lobatos de vez em quando, vício adquirido aos seis. Júlio Verne. E um monte, inesgotável, de coisas menos famosas, que eu ia catando e lendo. Acho que nessa idade, o importante é dar coisas com muito conteúdo de conhecimentos gerais, porque a memória é fantástica. Eu juro que passei no vestibular por ter lido uma porcariada de escoteiros em férias no Rio Paraguai, Verne, essas coisas. Literatura de verdade eu curtia, mas é claro que depois que reli mais velha eu percebi que não tinha entendido nada. Então vejamos, acho que tem duas coisas: uma são os fatos e informações concretas que nunca mais esquecemos, que podem ser adquiridos em todo tipo de livro, e com maior concentração em literatura “light”, tipo Verne; outra coisa é a noção das coisas humanas, do sentido da vida, essas coisas mais profundas. Para isso, para mim, foi bom ter lido literatura “adulta” quando criança, mesmo sem entender tudo. (por essa razão tenho certo “pé atrás” com Harry Potter e afins, não ensinam muita coisa prática nem muitas coisas humanas – acho que o Lobato tem uma medida mais equilibrada de fantasia e realidade, apesar de as relações humanas nele serem fraquinhas)
Julia     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu lia Júlio Verne, Dumas, a Condessa de Ségur e, depois, M. Deli. Além de todo o Monteiro Lobato. O que eu daria a ela? Capitães de Areia, de Jorge Amado. Os Harry Potter, sem a menor dúvida. Li os dois primeiros, são muito interessantes e tenho uma porção de pacientes-amigos que não perdem um. Acho que os ‘antigos’ clássicos tipo de Júlio Verne, Dumas, etc, ainda a atrairão. Há umas edições adaptadas por gente como Cony e Ferreira Gullar, se não me engano. No mais, leve ela pra Livraria Cultura ( ou outra assemelhada) e deixe que ela mesmo fuce e descubra os livros que quiser ler. Faço isso com minha sobrinha de 9 anos, e ela adora. Uma coisa é certa: ler é experiência de cada um. A gente ajuda, mas ela é quem irá escolher. Beijo grande, Márcia
Márcia     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, meu dileto amigo. Ah, as leitoras que possuímos!! Nossa salvação. Os proctologistas, ô agrura dos cinquent’anos… Como o pedido de socorro só se estende às leitoras, aguardemos, cavalheiros… Amitiés, BetoQ. P.S.: Dia 19 se aproxima, hem?! Festa à vista nos Verbeats. Queria muito estar aí. Milton responde: Calma, Zadig, para que tanta pressa? Serão 48, apenas.
Zadig     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Minha primeira sugestão seria Mme Deli, como a Cláudia. Gostei aos 10 anos, de Os desastres de Sofia da Condessa de Ségur ( rss). Bom, a escola nos obrigva a ler os citados pela Cláudia, mas aos 12 eu lia ( escondido) Jorge Amado! Beijão
Mônica     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005

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Rascunho

Publicado dia 28 de julho de 2005

(É muito chato falar sobre as tragédias de nosso país. Nem o Collor me deixou deprimido como estou agora com a roubalheira e as mentiras dos governantes que receberam meu voto… É, meu voto.   Melhor mudar de assunto. Bem, então vou falar de uma coisa boa.)

Vou falar sobre uma ilha de resistência que deveria orgulhar a todos os que amam os livros. O jornal Rascunho, que chega ao número 63 neste mês de julho, é uma publicação mensal de 32 páginas dedicada exclusivamente à literatura. Prestem atenção, 63 meses significam 5 anos e três meses de vida. Para um jornal independente, voltado exclusivamente à literatura e que sempre fez questão de qualidade, é muito.

O escritor pernambucano e colaborador do Rascunho Fernando Monteiro costumava me enviar cirúrgica e gentilmente as edições do jornal que julgava pudesse haver algo de meu interesse; porém, este mês, pensei que talvez até a cortesia de meu amigo  conhecesse limites e resolvi finalmente assinar o jornal. Também pudera! Fernando Monteiro está iniciando a publicação de um romance inédito e completo em suas páginas. <i>O Inglês do Cemitério Inglês</i> chegará aos leitores do Rascunho da mesma forma que se fazia no século XIX, capítulo a capítulo, mensalmente. Não vou comparar Fernando a Machado ou Dostoiévski, mas ele deve estar satisfeitíssimo com o convite do editor Rogério Pereira para secretar, mensalmente e em pleno século XXI, os capítulos de seu novo livro. No mínimo, bem no mínimo, será acrescentado um enorme charme ao Rascunho, além de acenar com uma longevidade ainda maior para um jornal que, repito, dedica-se exclusivamente à literatura.

Como em qualquer publicação onde as pessoas expressam opiniões, o Rascunho gerou polêmicas, algumas tolas, outras pertinentes. O saldo positivo é muito alto. Por exemplo, fiquei muito feliz quando li que o jornal resolvera discutir a obra de João Gilberto Noll. Foram publicadas, lado a lado, uma crítica favorável e outra nem tanto. Como estou entre os “nem tanto”, gostei; afinal, não estou sozinho no mundo. Houve a polêmica sobre Sebastião Uchoa Leite e a revista – coisa inédita – desculpou-se. Já imaginaram a Veja fazendo isso?

Se algum de vocês se interessar, a edição 63 traz duas grandes entrevistas com Affonso Romano de Sant`Anna e Marina Colasanti, e um monte de artigos: um enorme sobre a obra de Mario Quintana, outro sobre Osman Lins (Avalovara), mais Carpinejar, Machado, etc., etc. e até uma crítica sobre o último livro do homem que aquela revista mais detesta no mundo, o homem que quer mamar nas tetas do Estado, o hediondo e repugnante Marcelino Freire.

Não recebo comissão, mas se algum de meus sete leitores quiser assinar o jornal é só mandar um e-mail para [email protected], aos cuidados de Rogério Pereira. Custa R$ 30,00 por semestre. Quando ele  chegar pelo correio – o jornal, não o Rogério -, vocês verão que é baratíssimo. Tenho alguns amigos em Curitiba que já estavam me deixando na dúvida, mas depois do Rascunho, ficou provado definitivamente: não há só bundões em Curitiba.

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Milton Ribeiro's Blogger Gallery of World's Finest Arts III

Já que estou um pouquinho sem tempo para escrever…


Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para o Quixote.

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Relatório Pessoal sobre a Flip 2005

Publicado em 13 de julho de 2005

Quando saímos de Porto Alegre, o termômetro que temos em frente de casa indicava 3 graus, mas quando chegamos a São Paulo estava quente e eu já suava. A Mônica, do Crônicas Mônica, e seu marido vieram nos buscar em Cumbica e fomos direto a Parati. Viagem boa, conversa fácil. Compramos os ingressos para as mesas que nos interessavam e finalizamos o primeiro dia indo ao show de Paulinho da Viola. Um espanto. Duas horas de clássicos e de algumas músicas novas. Nem deu para sentir o inimigo insidioso que preparava-se. Quando saímos do espetáculo, ele já estava armado: um inesperado frio de rachar. Mesmo querendo dar uma de gaúcho e desejando dizer que tantos agasalhos era frescura de cariocas, não havia como negar. Eu tremia e representava mal a coragem gaúcha para o frio.

Então, começamos a nos aquecer com a pinga de Parati. Para quem não está acostumado a beber álcool, aquilo tinha um efeito muito confortável. O frio passava e já não sabia se nossos amigos Mônica e Luiz eram realmente agradáveis e engraçados ou se era apenas mais um dos efeitos das Salinas, Nêgas Fulos, Coqueiros e Santa-Não-Sei-O-Quê que bebíamos. O resultado no outro dia? Nada. Nenhuma dor de cabeça, só uma vontade louca de dormir que nos fez perder as primeiras palestras da FLIP.

Conseguimos apenas assistir à mesa 3, às 15h do dia seguinte. Marina Colasanti, Vilma Arêas e Benedito Nunes falavam sobre Clarice. Apesar do enorme conhecimento de Vilma, foi médio. Ficou a impressão de que se ela estivesse sozinha, seria fantástico. Depois pulamos para a mesa de David Grossman e Michel Ondaatje, que foi monótona para quem não conhecia suas obras. Eles se referiam demasiadamente a questões judaicas bem conhecidas e Grossman parecia muito ressentido com o mundo, enquanto Ondaatje queria falar sobre poesia. Havia um chiado preocupante que parecia sair dos altos falantes. Uma falha técnica? Não! Era a chuva, que viera para acompanhar o frio. Fomos para o Restaurante do Fogo. Ali, eles flambam tudo com cachaça e é aquele fogaréu. Entramos molhados pela chuva fria e começamos a função tomando uma Gabriela, que é uma cachaça licorosa, com cravo e canela. Muito boa. A comida era excelente, apesar das porções resumidas. Resolvemos reforçar o estômago com uma sobremesa. Entramos num bar em que havia música esplêndida de jazz e bossa nova. Os caras eram ótimos mesmo. Não sei quem eram. Comemos e ficamos assistindo ao grupo acompanhados novamente daquele líquido, agora em versão incolor, apesar do apelido de “branquinha”. Ficamos com sono – eu e a Claudia – e fomos para o hotel. Perdi o grande momento em que a Mônica foi convidada a cantar desafinada, ops, Desafinado, Garota de Ipanema e todo o cerne do repertório jobiniano. Ela costuma cantar enquanto caminha, enquanto anda de carro, enquanto come, ela está sempre cantando. Tem uma voz grave, rouca e afinada. Cantava em sua mesa no bar e foi chamada ao palco. O problema é que seu marido começou a fazer gestos indicando que o couvert teria de ser dividido entre ele – agora travestido de empresário – e os músicos; desta forma, sua carreira foi abortada por uma dispensa entre risos. Perdi tudo isto! E, para completar, as fotos estão sob inflexível censura.

No dia seguinte, tornamo-nos intelectuais sérios. Assistimos à melhor palestra da FLIP: Beatriz Sarlo e Roberto Schwarz (Um Lugar para as Idéias). Deveria ter sido gravada. Foi uma inesquecível lição sobre Jorge Luis Borges, Machado de Assis, engajamento, compromisso intelectual e Juan José Saer.

Fomos almoçar no Bartolomeu, que tem boa comida e uma loira gostosa que olhava para mim e que provocou ciúmes não na Claudia, mas no Luiz, pois ele não fora aquinhoado com os mesmos olhares… Depois chegaram outras mulheres lindas – lindas mesmo – e ele dizia: tudo bem, me dá a pior e eu fico satisfeito! Eu e a Mônica ficamos boiando enquanto ele e a Claudia conversavam de forma minuciosa sobre comida. Antes de 2002, não conhecia pessoas assim. A Claudia estava encantada, porque o Luiz “pensava” a comida de forma semelhante a dela. Trocavam receitas e receitas, inventavam pratos, faziam variações mentais a respeito e elas pioravam ou melhoravam. Concordavam em tudo e reviravam os olhos de prazer, enquanto eu e a Mônica observávamos. E informo-lhes que estavam sempre sóbrios. (Descobri um fato que desconhecia. Esses chefs em potencial escolhem seus restaurantes pelo cheiro. É ele que determina se a comida oferecida é boa. Estou definitivamente fora desta especialidade. Sou um insensível.)

Deixamos minha loira e fomos para Orhan Pamuk (Mar de Histórias II: As Mil e uma Noites). A Flip tinha engrenado. O turco Pamuk é uma metralhadora informativa. Explicou-nos a imensa influência de Borges na divulgação das Mil e Uma Noites no mundo e a visão do oriente e do ocidente sobre o livro. Pamuk não esperava pelas perguntas, interrompia o entrevistador, sorria aparentemente sem motivo, mexia pernas e mãos para falar, era de tal forma agitado que era difícil manter a atenção em seu discurso. Depois de uma hora, a Claudia irritou-se e disse que não conseguia mais fixar sua atenção naquele maluco. Foi embora, enquanto eu jogava o corpo para a frente, tentando não perder nada do diferenciado conhecimento daquele homem que estava física e intelectualmente sobre aquela ponte de Istambul que é Àsia de um lado e Europa de outro e que tomava os dois mundos num só olhar. Outra grande palestra. À noite, assistimos a um recital es-pe-ta-cu-lar de Hamilton de Holanda. Garanto-lhes que o homem é um gênio e que nunca tinha visto alguém tocar bandolim daquela maneira.

O dia seguinte começou com a concorrida mesa de Arnaldo Jabor e do rapper MV Bill. Não a assisti, mas toda Parati estava lá. A mesa seguinte teve uma Parati desatenta e dispersa, mas foi do mesmo nível da de Schwarz e Sarlo. Chamava-se Zona de Conflito e foram entrevistados os correspondentes de guerra Jon Lee Anderson (Guerra do Iraque) e Pedro Rosa Mendes (Guerra de Angola). O educadíssmo americano Anderson cedeu grande parte de seu tempo para que o português falasse sobre uma guerra desconhecida e sobre o seu multi-premiado livro Baía dos Tigres, que descreve a guerra. Desculpem, não dá para resumir. Ouvimos um tremendo documento humano sobre uma população paupérima – e em grande parte mutilada pelas minas – subjugada por interesses de vários países, entre eles Portugal, Estados Unidos, Cuba e Brasil (Petrobrás e Odebrecht) e curvado por interesses tribais e de grupos armados como UNITA, MPLA, FNLA, FRELIMO, RENAMO, etc., etc. etc., além de por ditadores riquíssimos que dominam o cenário, o qual é literalmente tão minado e estropiado que criou uma cultura dantesca. Por exemplo, alguns angolanos cortam suas vacas a fim de tirar-lhe alguns bifes, depois, costuram alguns pontos e tratam de recuperá-la, pois não podem sobreviver sem ela. Assim, todos são mutilados. Lembrei do Holy Grail (do Monty Phyton), lembrei daquele guerreiro que quer lutar sem braços e pernas, mas aqui não tratava-se de comédia.

Saímos de lá e vimos a Sílvia Chueire. Estava acompanhada do escritor português Paulo José Miranda, que me presenteou com um livro de sua autoria onde a ficção entrelaça-se com metáforas sempre musicais. Li um pouco e parece tratar-se de algo muito bom. Recebeu alguns prêmios, mas esqueci-me deles. Desculpa, Paulo. Os dois foram encantadores e Paulo fez-nos dar risadas com suas histórias, além de revelar-se um exímio conhecedor de futebol.

** Atualização feita no mesmo dia, às 14h40. Nos comentários a este post, o Paulo explica: O prémio que esqueceste é o primeiro prémio José Saramago (que é extensivo a todos os países de língua portuguesa). Mas não tem problema, não! Problema mesmo é essa sua fixação pelo SLB (Benfica). Abraço, Paulo. **

À noite, chegou a vez de Salman Rushdie (O Equilibrista), que fez uma mesa muito alegre, inteligente e comovente. Fez a platéia emocionar-se – é um perfeito ator! – durante a leitura de um trecho de seu último livro em que refere-se a sua Caxemira natal, depois endureceu dizendo que só um idiota escreveria um simples livro pastoril de memórias sobre a Caxemira, que a literatura deve espelhar a realidade e que impôs-se a destruição daquela Caxemira, tal como o fizeram indianos e paquistaneses. Disse que chorava ao escrever a segunda parte do livro e perguntava-se a cada momento se valia a pena torturar-se daquela forma, mas concluíra que tinha de ir em frente. Naquela noite, não houve festa, pois a Claudia e a Mônica tombaram de cansaço.

No último dia, almoçamos num indiano ótimo (Ganges) que a Claudia descobrira pelo cheiro, é claro… Foi nossa melhor refeição, não foi, Luiz? Depois, assistimos à palestra O Sabor da Letras, de Anthony Bourdain, ex-chef do badalado restaurante “Les Halles”, de Nova York, e que escreve sobre gastronomia, além de trafegar na área da literatura policial. O cara, que é excelente escritor, já era conhecido do Luiz e, por sugestão deste, era a leitura da Claudia durante a FLIP. Ela engoliu as 400 páginas do livro Cozinha Confidencial em tempo recorde e chegou entusiasmada, como todos nós, para assistir à mesa. Mas a entrevistadora era uma débil mental. Acho que foi ela quem tornou o excelente Bourdain tão desbocado e desmotivado.

Tiagón perguntou-me ontem: o chef que a Claudia engoliu é o Bourdain? Essa era a mesa que eu mais queria assistir. Li Cozinha Confidencial umas dez vezes… Viram? O cara tem leitores realmente qualificados.

Foi uma boa Flip. De resto, houve as merecidas babações para Clarice, o contínuo frio estranho que impediu as escunas de saírem e que nos atirou para dentro dos restaurantes, bares e casas de espetáculos (todos os músicos bons estavam lá, incrível!) e… para a pinga salvadora. Ah, e houve o susto de Parati, pois a prefeitura de Ouro Preto quer desesperadamente sediar a próxima edição. Porém Liz Calder já disse: no way, ficamos em Parati. O evento é daqui. Alívio dos nativos.

Como no ano passado, retiramos-nos já com saudades e planejando a Flip 2006. Porém, é indiscutível que o fato principal da edição 2005, do ponto de vista pessoal, foi a presença da Mônica. Ela é a pessoa com quem tenho a relação mais curiosa da blogosfera. Em dois anos de amizade, tivemos duas enormes brigas. A primeira, causada por um comentário horrível e desajeitado que fiz em seu blog, durou uma semana; a segunda durou muito mais, houve um afastamento de uns quatro meses e conseguimos conversar somente após a providencial intervenção de sua irmã . Não éramos obrigados a reatar, não somos parentes e nem nos conhecíamos pessoalmente, mas os vínculos que a blogosfera e as palavras criam não podem ser chamados de fracos ou descartáveis. Já amiguinhos de novo, acertamos a viagem dos dois casais através do MSN e foi a decisão mais correta. Estas viagens são de alto risco; podem ser chatas pelo contato intensivo, pelo comportamento inesperado de alguém, pelas manias que se revelam, por coisas que não sabemos avaliar previamente, etc. Fazíamos juntos as refeições e o festerê, mas hospedamo-nos em hotéis separados. Quando a coisa parecia demais, ou seja, quando já estávamos muito tempo juntos, o casal Mônica e Luiz sumia como que por encanto (como eles adivinharam a hora certa?), a ponto de eu pensar se não tinha cometido nenhuma grosseria (quem não é um pouquinho paranóico?). Depois, nos reencontrávamos e a mágica se restabelecia. A Claudia e o Luiz são pessoas encantadoras e tranqüilas, e demonstraram perfeita disponibilidade para conhecerem-se e conviverem, com cachaça ou sem. Sempre houve um sincero interesse de uns pelos outros, rimos muito (o Luiz é um piadista nato) e tudo foi simples como conversar com velhos amigos num bar conhecido. Passamos a noite de domingo na belíssima casa deles em São Paulo e, ao saírmos de madrugada (3h45) para ir ao aeroporto, pisamos – eu, a Claudia e o taxista – em volumosos cocôs de cachorros que decoravam a calçada. Dizem que é sorte.

(Mais, melhor e a origem das fotos: aqui.)

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Retrato do blogueiro quando em Parati

Quando já estava indo embora de um bar na cidade histórica, um artista de rua ofereceu-me esta caricatura. Parece que estou na privada, não?

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Dia dos Pais de Alma Lavada

Ganhei um presente, o mais doce deles. Copio aqui o post que minha filha escreveu em seu blog:

ISSO É UMA HOMENAGEM AO MEU PAI:
Pai eu te amo muito eu não te troquaria por nada nesse mundo!!!!!!!!!
Eu te amo vc q me ajudou todos esses anos!!!
Nunka vou deixar de amalo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu te amo!!!!!!!!
Sempre me compriendeu!!!!!!!!!!!
Meu amor eu ti AMO!!!!!!
I LOVE YOU!!!!!!!!!!!!!!!!!
Pai vc é muito especial para mim!!!!!!!!!!!
Fasso qualquer coisa por vc!!!!!!!!!!!!!
EU TE AMO!!!!!!!!!!!!!Papai!!!!!!!!!!
Lindo efofo e gulochinho!!!!!!!!!!!!
Eu te adoro!!!!!!!!!
Meu amor!!!!!!!!!!!!!!

Bjs especialmente para o meu pai!

Digam-me: ainda preciso de presente? E no blog dela chegam comentários… É um carrossel de emoções…

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Hate post

– Meu computador pessoal ou, mais especificamente seu disco rígido, desistiu de viver. Há cópias de segurança, mas a última é do dia 20 de junho. Como nunca perdi meus arquivos, fazia cópias muito raramente. Um técnico está tentando salvar alguma coisa. Estou num notebook que não é meu. A coisa está toda desconfigurada e sem os programas aos quais me escravizei. Sem meus “Favoritos”, tive que ligar para o Gejfin, pois nem sabia mais como postar.

– Se alguma lista de “Melhores CDs de Rock de Todos os Tempos” não incluir Odelay, do Beck, você saberá que a lista é anacrônica. Não perca tempo com ela.

– Fantástico o último post do Tiagón (link ao lado) sobre masturbação feminina. A franqueza de alguns comentários é surpreendente. Bom isto.

– Meus três próximos posts – a sexta parte do “Monólogo Amoroso”, um diálogo em que um Oficial de Justiça vem intimar uma mulher por ter fingido seus orgasmos por 15 anos (a ação fora impetrada por seu marido) e alguma anotações sobre música – estão (estavam) no disco que foi para o espaço.

– Um arquivo com um projeto importante para meu trabalho profissional também está (estava) lá.

– Para me acalmar, vou correr uns 8 Km em vez de almoçar. Fui.

Atualização das 15h40:

– Não é o HD. Não se sabe o que é. O computador às vezes carrega o S.O.; outras vezes, não. Pode ser a fonte, talvez a memória, etc. Enquanto isto, meus arquivos permanecem seqüestrados.

– Corri 4,8 Km em 28 minutos. Aí, eram mais ou menos 12h40 e me deu uma grande fraqueza. Voltei ao escritório para tomar um banho – há chuveiro aqui – e almoçar. Aconselho todos a correr. Dizem que faz bem para a saúde e, enquanto corremos, organizamos nossa vida, agenda e preparamos posts. Ninguém nos interrompe. Depois, o cansaço é tanto que dá até para receber telefonemas da ex-mulher sem reagir nem pensar e muito menos registrar (o que é ainda melhor para a saúde).

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A Baixinha, a FLIP

Publicado em 5 de julho de 2005

Ela tinha 1,55m. Agora deve ter no máximo 1,50m. Recebeu educação rigorosa em colégios internos de Santa Maria e Porto Alegre. Tão rigorosa que era proibida de tocar tangos no piano do colégio da capital. Uma vez, pegaram-na tocando aquela música do demônio. Seu professor – que hoje está devidamente morto e é até nome de conservatório em nossa cidade – veio por trás e fechou violentamente a tampa do piano sobre suas mãos. Uma bela educação, com efeito. Inesquecível. Ela diz ela que doeu por muito tempo, que talvez tenha quebrado algum osso. Depois, formou-se dentista numa época e num estado onde somente outras três mulheres o eram. Foi trabalhar em Cruz Alta, mas veio outro dentista e a levou casada para Porto Alegre. Trabalhou a vida toda e teve dois filhos, que criou com cuidados (muitos) e preocupações. À noite, ora arrumava as roupas do filho mais novo que jogava futebol a tarde inteira, ora tomava as lições dele e de sua irmã. Muitas vezes ela, de tão cansada, dormia durante as lições e nós ficávamos paradinhos, torcendo para que ela não acordasse. Não sei de mãe melhor e não lembro de nenhum tapa; fomos criados sem as exemplares atitudes do defunto maestro Leo Schneider. Éramos uns duros, pois meu pai gastava horrores no turfe, mas nunca faltou nada em nossa casa, nem amor ao perdulário, que, aliás, era adorado por todos. Eu detestava vê-la bem arrumada, era sinal de que iria ao cinema com meu pai e que ficaríamos sozinhos. Odiava aqueles perfumes e casacos de pele. Ela tinha algumas curiosidades: a liberação de verbas era ilimitada se fosse para comprar livros ou qualquer coisa para nossa educação; porém, se fosse para aquilo que considerava bobagens, poderia haver vetos. Uma vez, eu tinha uns 18 anos e meus pais foram para a praia deixando-me em casa. Chamei uma namorada e passamos a noite juntos. Pela manhã, ouvi meus pais brigando na frente da porta do meu quarto. O tempo estava chuvoso e eles tinham retornado. Minha mãe dizia para meu pai, enquanto protegia a porta do meu quarto e tentava conter a voz: “Ele é um adulto e não interessa se está dormindo com alguém ou não. Sai daqui! Já!”

Parabéns à Dra. Maria Luiza Cunha Ribeiro, minha mãe, que hoje faz 78 anos e que me ajudou em tudo, até em minhas ereções adolescentes.

-=-=-=-=-

Há uma série de autores que me interessam nesta FLIP. E eles não se chamam Jabor, Jô, Suassuna e muito menos Ondaatje. Pretendo assistir a duas palestras por dia, encontrar alguns amigos e respirar a atmosfera da cidade, tão especial durante a FLIP. Se der, pego carona em qualquer escuna e tomo um banho dedicado a meu filho Bernardo, que ama aquelas águas; depois, culpado, ligo para minha filha. Das estrelas, só Rushdie me interessa. Mas há muito mais: o fantástico Roberto Schwarz, o turco Pamuk, o português Pedro Rosa Mendes, o chef Bourdain, o cubano Latour, Paulo Henriques Britto e outros, além de Paulinho da Viola e do bandolim de Hamilton de Holanda. Se a festa permitir, pretendo escrever pequenos posts diários a respeito. Mas os cybers de Parati são de matar. Quem quiser me achar deve procurar aqui:

Pousada do Príncipe
Av. Roberto Silveira, 289
Telefone: (24) 3371.2120

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Um descansado post de feriado

Publicado em 26 de maio de 2005

Me passam esta corrente sobre cinema. OK, lá vão minhas respostas:

1. Qual o último filme que viste no cinema?

A Queda – Os Últimos Dias de Hitler, de Oliver Hirschbiegel.

2. Qual a tua sessão preferida?

A das 8 da noite, seguida de um bom jantar.

3. Qual o primeiro filme que te fascinou?

O Rosto, de Ingmar Bergman.

4. Para que filme gostarias de te ver transportado(a)?

Para qualquer filme onde eu fizesse par romântico com Juliette Binoche. Escolheria aquele onde houvesse mais cenas de amor… A Insustentável Leveza do Ser, provavelmente. A seu lado, receberia de bom grado a visita dos tanques soviéticos.

5. E já agora, qual a personagem de filme que terias gostado de conhecer um dia?

Damiel, de Asas do Desejo, filme de Wim Wenders. Revisei uma imensa lista de mais ou menos 1400 filmes que mantenho e avalio há uns 15 anos – já escrevi sobre esta esquisitice… – e, casualmente, escolhi um personagem vivido no cinema por Bruno Ganz, o mesmo ator que faz o papel de Hitler no primeiro filme citado neste post.

6. E que actor(actriz), realizador(a), argumentista ou produtor(a) gostarias de convidar para jantar?

Convidaria Juliette Binoche, ora. Além de lindíssima, ela é simpática, inteligente, sensível e uma surpreendente piadista, qualidades que costuma demonstrar de sobra em suas entrevistas. É perfeita! O cardápio e o local não interessam.

7. A quem vou passar isto?

Não vou intimar ninguém. É feriado. Repasso a quem queira responder.

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Respondendo a uma pergunta

Me fizeram uma pergunta daquelas nos comentários. De onde tirei a citação engraçadíssima de Heine com que encerrei o post anterior? Tenho a mania de copiar, em um arquivo do Word, citações que poderei utilizar um dia. Só que eu tinha esquecido de copiar a fonte daquela de Heine. A citação era esta:

Eu tenho uma mentalidade pacífica. Meus desejos são: uma cabana modesta, telhado de palha, uma boa cama, boa comida, leite e manteiga; em frente à janela, flores; em frente à porta, algumas belas árvores. E, se o bom Deus quiser me fazer completamente feliz, me permitirá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos nelas pendurados. De coração comovido eu haverei, antes de suas mortes, de perdoar todas as iniquidades que em vida me infligiram – sim, temos de perdoar nossos inimigos, jamais antes, porém, de eles serem enforcados.

Depois de algum trabalho aqui está: a citação foi retirada de “Pensamentos e Idéias” (Gedanken und Einfälle) e encontrei-a no prefácio de “Noites Florentinas” (Florentinische Nächte), Mercado Aberto, 1999, tradução de Marcelo Backes.

“Noites Florentinas” é uma excelente novela e o restante de minhas anotações – um pouco bagunçadas – sobre o livro é este:

É muito prazerosa a troca de papéis que Heine faz em relação ao modelo das 1001 Noites. Se nas 1001 Noites, Sherazade – uma mulher – conta histórias e mais histórias a fim de não morrer, nas NF Maximilian – um homem -, faz o mesmo para que Maria sobreviva. Sei lá se o Rei das 1001 Noites dormiu durante alguma história; mas posso dizer que fiquei quase escandalizado ao descobrir que, ao final da primeira noite, Maria dormia. Eu estava acordadíssimo. Outra surpresa é o clima erótico sugerido por Heine. A história se passa ao pé do leito de Maria e o escritor eleva a temperatura diversas vezes. Relembremos a passagem na qual os amigos “…olharam-se em silêncio por longo tempo. Em ambas as almas surgiam pensamentos que cada qual tratava de dissimular ao outro. A mulher segurou de súbito a mão do homem e a cobriu de beijos ardentes”, depois há o toque dos lábios de Max nos pés de Maria e a frase “Sorrindo cheio de afeto ao olhar afirmativo de Maria…”. Se tais trechos não servem àquilo a que a Playboy se propõe, pelo menos nos fazem sonhar. Alguns capítulos depois, a história de Mademoiselle Laurence também vai fundo neste sentido, apesar do onírico da situação. O trabalho do tradutor-prefaciador Backes é impecável.

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Festa no Apê e outro tópicos menos eruditos

Publicado em 15 de fevereiro de 2005

FESTA NO APÊ: Sábado, enquanto respondia e-mails e comentava no blog da Meg, cantava “Festa no Apê” em altos brados. Dificilmente haverá quem mais depreze música ruim do que eu, só que a coisa colou na minha cabeça e sou uma natureza canora. Para me auxiliar – tenho certeza -, a Claudia ameaçou separar-se de mim imediatamente. Atiraria minhas coisas pela janela. Não deu certo. Depois, mais razoável, pôs a Pequena Missa Solene de Rossini em um volume ensurdecedor para qualquer vivente sem lesões auditivas. Isto fez passar a crise. Na semana passada, li esta frase em um e-mail: “Bons tempos aqueles em que uma festa no apê só incomodava os vizinhos“. Nada mais verdadeiro.

A ORAÇÃO DO ATEU: De sexta para sábado, tive um sonho em que via e ouvia um padre falar mais ou menos assim: Ó Pai, que estás nos céus, colocado lá por nossa fraqueza, medo, culpa e imaginação, feito a nossa imagem e portador de nossos defeitos, olhai por nós, pobres pecadores que não usamos teu nome para nada e que vivemos pelo mundo como cães sem dono. Permita que os cães com dono não nos mordam e que a bondade e desespero enviada por eles a ti, retornem na forma de grandes chuvas de bençãos e não como tens feito ultimamente. Que a beleza de tua figura, formada em cada poro e célula por nosso afeto a nós mesmos e nosso horror ao vazio, possa espalhar-se pelo mundo e transformar-se em vales onde jorrarão o leite e mel (*) necessários a nutrir teu povo… (Aqui acordei conjeturando se isto não daria um post…)

(*) “Vales onde jorram o leite e o mel…”. Da letra de Chico Buarque em Sobre Todas as Coisas, lembram?

O FRACASSO DA LITERATURA: Além de Perto Demais (Closer) – analisado espetacularmente pela Meg e respondido com argúcia ainda maior por mim (*) enquanto cantava Festa no Apê para a Claudia; bem, dizia eu que, além de Perto Demais, você deveria ver urgentemente Menina de Ouro (Million Dollar Baby), de Clint Eastwood. Acho uma pena isto, mas o cinema – e não a literatura – tornou-se nosso maior background cultural comum. Então, a gente tem que correr logo aos bons filmes para não ficar fora das discussões! Vê-se um filme em duas horas, lê-se um livro em alguns dias. As apresentações dos filmes nos cinemas são efêmeras, o livro espera na cabeceira ou na estante até a hora em que você decida-se a lê-lo. É mais difícil, pois, sincronizar leituras, enquanto os filmes são assistidos por muita gente numa mesma época. Discutamos filmes, então.
Observação: Tópico escrito com o auxílio etílico de Jussara Mussi e Ricardo Branco.

(*) Brincadeirinha, Meg. Sabes que só repeti o que disseste.

GÊNIOS ABSOLUTOS: Em minha opinião, William Shakespeare foi o maior gênio do século XVII; no século XVIII, elejo tranqüilamente Johann Sebastian Bach como o maior de todos os homens; já no século XIX, deixaria a láurea (fifty-fifty) nas mãos de Karl Marx e Charles Darwin e, no vizinho século XX, daria o prêmio a Sigmund Freud. Para o século XXI, tenho um candidato por ora imbatível: Hugo de León, técnico do Grêmio. Só um gênio imortal consegue fazer aquele grupo de cabeças-de-bagre jogar. Insuperável!

FIASCO: Se o Inter continuar jogando deste jeito, dedicar-me-ei ao hipismo ou ao golfe. Alguém aí conhece as regras do badminton? Ou seria badmilton?

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Pequena Maratona Cinematográfica

Publicado em 17 de janeiro de 2005

Ontem, fiz uma maratona cinematográfica parecida com as que faz Guiu Lamenha. Às 22h, vi Antes do Pôr-do-sol, de Richard Linklater, e, às 24h, Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. Curiosamente, estes filmes comunicam-se e dialogam. Se em Antes do Pôr-do-sol temos um casal lamentando sua juventude e talvez corrigindo-a, em Os Sonhadores temos três jovens convivendo e amando dentro do turbilhão de maio de 1968. Em comum há a juventude, o fato de ambos terem sido filmados em Paris, o bom humor e a descoberta de filmes instigantes e bons, muito bons. Os extraordinários diálogos do primeiro receberam bela resposta na liberdade e ousadia de Bertolucci. Gostei demais dos dois e a prova viva disto é que minha bunda não ficou quadrada após as 4 horas. Saí do Arteplex alegre, animado, querendo conversar.

-=-=-=-=-=-

Meu início de dezembro foi muito ruim. Aconteceram coisas que nem lhes conto. Neste contexto, fiz um pequeno comentário no blog do Fabrício Carpinejar em que discordava jocosamente da utilização que ele dera à obra-prima de Vermeer “Moça com Brinco de Pérola” ou, como se dizia antigamente, “Moça com Turbante”. Como Fabrício não costuma responder à comentários em seu blog – não teria tempo para mais nada se o fizesse! -, fiquei surpreso ao encontrar esta resposta em meu e-mail. Como a tristeza iguala tudo, não a valorizei muito na época. Hoje, bem melhor, orgulho-me dela. Deveria pô-la num quadro.

oi meu amigo

cordial divergência sempre faz bem, até as que não são cordiais (risos)
eu sempre leio teu blog. é uma das casas que passo no início de meu dia.

Faraco, Monteiro e Backes são grandes amigos. afinidade é escolha.
abraços do teu
Fabrício

Esse negócio do grande poeta me visitar todo dia deve ser exagero ou loucura, mas só o fato de vir aqui de vez em quando me deixa inflado e feliz a mais não poder, ainda mais quando demonstra certo conhecimento das sandices que escrevo. Faraco é, evidentemente, Sergio Faraco, enquanto Monteiro é Fernando Monteiro e Backes é Marcelo Backes. Sou amigo dos dois últimos; Faraco é daquelas pessoas com as quais só converso durante a Feira do Livro, sempre ciceroneado pelo Backes. Nem imagina o meu nome. Mas eu e Fabrício somos admiradores dos três… e da Moça de Vermeer, que volta a meu blog. Não canso dela.

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Dazed and Confused (1969, 1968) – Uma coisa, outra coisa

Incrível o upgrade sofrido por Jimmy Page ao mudar-se do The Yardbirds para um certo Led Zeppelin. São absolutamente chocantes as diferenças na qualidade do grupo e na abordagem da mesma Dazed and Confused e isso com apenas um ano de diferença.

Led Zeppelin – Dazed and Confused (London 1969)

Ou clique aqui.

The Yardbirds – Dazed and Confused (1968)

Ou clique aqui.

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Alex Castro dixit:

Eu comemoro bastante datas, elas só tem que ter algum significado. O nascimento de um cara que provavelmente nem existiu e, se existiu, não nasceu nesse dia e, existindo ou não, deu origem a uma religião assassina… bem, não acho motivo de celebração.

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Fala aê, Ferrari

Este é o cartão de Natal da RBR informando que Papai Noel está mais rápido do que Vettel… A história real foi bem diferente e igual. (Um achado do @calhau)

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Será que sai o PHES de amanhã?

Já não disse que detesto Natal? Fico mei irritado nessas datas. Vamos ver até a noite se terei saco para publicar o Porque hoje é sábado.

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O Fórum Social Mundial se despede

Publicado em 31 de janeiro de 2005

Durante a semana que está acabando hoje, recebemos 120.000 pessoas em Porto Alegre para o Fórum Social Mundial. A cidade inchou, perturbou-se, dobrou-se e, por fim, penso que acolhemos adequadamente os visitantes. Assisti a vários eventos do FSM e tenho críticas à organização, à divulgação e à pauta do evento, mas não desejo nem reforçar as reclamações indignadas do fundamentalismo de direita, nem elogiar indistintamente algo tão polêmico, pois isso incluiria alguns grupos incompreensíveis a mim (principalmente na área ecológica… Grrr…). Posso dizer que passei uma semana muito feliz vendo o colorido das roupas, ouvindo estranhos fonemas e constatando que somos bons neste faz-de-conta de cosmopolitas… Fiz minha parte ao conversar animadamente com muitos alienígenas, sendo que o mais inusitado foi meu contato com vietnamitas numa língua inacreditável, pois eles não falavam nenhum idioma ocidental. Rimos muito e creio tê-los mandado a algum lugar. Fico conjeturando se estão vivos.

Sou dos que lamentam o fato do Fórum sair daqui nos próximos anos. Sei que todos sentirão falta dele, até seus críticos. Nosso prefeito de direita já suplicou: fiquem, voltem! Não vão voltar, claro.

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O Acidente de Minha Filha & Festa de Aniversário de Tiago Casagrande

Publicado em 31 de março de 2005

Minha filha Bárbara ama os cavalos. Há quadros de cavalos em seu quarto, há revistas sobre cavalos na bancada onde estuda, há reclamações indignadas quando vê cavalos maltratados em carroças, há manifestações eufóricas quando vai ou volta da aula de equitação, há cômicos comentários (em minha opinião) sobre a vida particular de cada um dos animais da escola, incluindo os cães. Ela diz que será veterinária. Creio que já se faria um veterinário completo com apenas 20% de sua paixão.

Há dois anos atrás, ela convenceu-me a apoiá-la num de seus maiores sonhos. Desejava sair do balé – de que não gostava – e ir para a equitação. Recebeu a adesão da Claudia, minha atual mulher, que também queria fazer aulas. Shakespeare tem razão ao dizer que “Onde não há prazer, não há proveito”. Depois de conseguirmos a concordância de sua mãe, ela começou as aulas e surpreendeu-nos o imediato aumento de sua concentração para os estudos – antes sempre difíceis – e sua nova forma de organizar a vida. Ela melhorou demais. Nunca se saberá o papel exato que o esporte teve nisto, mas não posso evitar a idéia de causa e efeito. Além disto, o pessoal da escola é muito afetivo e sei que ela adoraria passar seus dias lá, mesmo sem aula.

Pois ontem a Bárbara desconcentrou-se e teve uma queda durante um galope. Eu estava na beira da pista, deitado, lendo o Quixote. Não vi a queda. Quando levantei a cabeça, observei que Gabrielito – o cavalo que ela montava – vinha sozinho e que a Bárbara caminhava atrás, limpando-se da areia. Ela não chorou, apenas referiu-se a uma pequena dor nas costas e preparou-se para reassumir cavalo que, segundo ela, tinha disparado. Pediu ao Sílvio – o dono da escola e professor, grande professor – para apenas andar a passo. Sílvio, experiente nestas coisas, respondeu-lhe que a aula continuava normalmente; ela deveria galopar. Bárbara achou graça e a aula terminou tranqüila, entre risos.

Para a Bárbara é sempre uma vitória enfrentar e superar tal gênero de situação. Depois, conta o ocorrido como se fosse a protagonista de uma grande aventura. E quem há de negar? Mais de uma vez, disse-me que só pessoas corajosas faziam equitação. Então, à noite, ela recebeu uma ligação casual de sua mãe e contou-lhe alegremente o caso.

– Mãe, caí do Gabrielito! Mas não houve nada, só estou com uma dorzinha nas costas.

Como resposta, obteve o seguinte:

– Pergunta para o teu pai se ele não consegue se colocar no meu lugar, pergunta sobre como eu vou me sentir se algo te acontecer, pergunta sobre o que vou dizer a ele.

Minha filha murchou no telefone e desligou. Mas… O que importa não é o que a Bárbara sentiria ou o que todos nós sentiríamos? Ou, por acaso, o que importa é como Ela – um ser dotado de natural e justa precedência divina – se sentiria?

É claro que tenho receio (muito receio, cada vez mais receio) de que algo, um dia, possa ocorrer e não precisaria de nenhum auxílio externo para me culpar. Eu mesmo trataria disto, não me faltaria vontade de morrer e talvez o fizesse. Mas não seria criminoso impedi-la de fazer o que gosta? Qual é o percentual de vítimas de equitação? É muito diferente do percentual de quem sai à noite e é baleado? E a auto-estima recém adquirida pela excelente amazona Bárbara, de dez anos de idade? Não conta? E como ficaria a oposição que, hoje, ela consegue fazer a uma mãe de personalidade totalmente diferente da sua e que não aprendeu nem a andar de bicicleta por preferir viver segura e plastificada? Só porque sua mãe vive num laboratório, preferindo evitar o contato com a realidade e as experiências mais dolorosas, não quer dizer que os outros não possam desejar uma vida real.

Sei lá. Fico tão incomodado com estas coisas que me perco. Prometo a mim mesmo estancar o giro da pimenteira sobre o que sobrou de minha relação, mas não consigo.

Ontem, aquele que é verdadeiramente o maior blogueiro do mundo (desculpa, Rafael Galvão), escreveu isto em seu decálogo:

10. Toda blogagem se dará em paz e exercitará a liberdade de expressão inerente a qualquer democracia. A blogagem estará a salvo de perseguição política, religiosa ou doutrinária de qualquer caráter. O blogueiro será livre para dizer o que lhe venha à telha, desde que, obviamente, não cometa com a linguagem crimes de calúnia ou plágio.

Estou salvo. Vamos então a algo feliz.

(Back to Last Thursday)

É simples fazer uma festa legal. Basta que haja um número suficiente de pessoas legais num ambiente legal e elas logo começam a demonstrar sua legalidade. Funciona sempre. A festa de aniversário do Tiago Casagrande foi assim. Apesar da espetacular entrevista que fiz com ele em 20 de janeiro – não deixo por menos -, ainda não o conhecia pessoalmente. Conheci o Tiago, o Gejfin, a Francesca, a Tatjana, o Rafa e muitos outros que o álcool impede de lembrar. Todos ali tinham 20 anos a menos do que eu e 10 a menos do que a Claudia, mas pessoas legais costumam conversar de igual para igual com crianças e velhos e em um minuto estávamos adaptados. O local – o Bongô, bar da Cidade Baixa de Porto Alegre – era perfeito. As cervejas sempre vieram rápidas e dentro da CNTPpC (Condições Normais de Temperatura e Pressão para Cervejas; isto é, geladíssimas). O preço era adequado. A cozinha era tão boa que voltamos no dia seguinte para conferi-la melhor. A decoração, cheia de capas de discos e de partituras de rock coladas às paredes, fez com que o grupo familiar do segundo dia passasse a desejar que o lavabo da casa que estamos construindo tivesse páginas importantes de grandes livros coladas às suas paredes. O cara poderia fazer suas necessidades lendo o trecho em que Sancho Pança chama pela primeira vez Dom Quixote de O Cavaleiro da Triste Figura ou a Parábola do Grande Inquisidor (Os Irmãos Karamázovi, Dostoiévski) ou o oitavo (discussão sobre o Opus 111 de Beethoven) ou o vigésimo-quinto (Adrian Leverkühn e o demônio) capítulos do Doutor Fausto de Thomas Mann ou uma partitura da Oferenda Musical de Bach… Já pensaram? Porém, pecado mortal, tergiverso. Voltemos à festa.

Em meio à conversa, Tiago disse que sou um excelente leitor, pois tinha-o desnudado (é uma metáfora, bem entendido) em sua entrevista, através de questionamentos que o fizeram perguntar a seu analista se ele, por acaso, era transparente. Bondade e elogio dele, é claro. Muito mais que bom leitor, sempre fui tido por excelente observador. Vi, por exemplo, o olhar comprido e nostálgico que ele lançava a certa moça em nossa mesa. A nostalgia é, em minha opinião, algo que manifesta-se não só como saudade do que passou, mas também como saudade do que virá, ou não. Vi também, deliciado, que a amizade que o une ao Gejfin é daquelas coisas que só casamentos ou nascimentos de filhos farão diminuir em freqüência, nunca em intensidade. Vi também que gostaria cultivar amizade com estes dois; são pessoas generosas, inteligentes, tagarelas, agradáveis, que valem a pena. Agradeço ao vasto mundo por fazer existir tão perto pessoas deste calibre.

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Entrevista com a Mônica, do Crônicas Mônica

Estava procurando escrever posts menores, mas aí veio-me a idéia de entrevistar minha amiga Mônica. Na primeira versão que preparei havia 15 perguntas; na segunda, exatas 43; na terceira e última, voltei a razoáveis 20. Razoáveis? Olha o tamanho do post! Mas garanto a vocês, vale a pena ler!

Eu e a Mônica não nos conhecemos pessoal ou telefonicamente. Não uso o MSN e nem foto dela eu vi, mas sabia quão incontrolável ela poderia ser. Comprovei quando recebi as respostas. Havia perguntas nas quais depositava grandes esperanças e vieram respostas secas…, que foram compensadas por réplicas antológicas onde não esperava. Para facilitar a leitura de meus 7 fiéis visitantes, esclareço que a Adorável, citada na pergunta 7, é irmã da Mônica, é blogueira e é também conhecida por . Também explico que a única pessoa da blogosfera que desentendeu-se seriamente com a entrevistada foi exatamente… eu (pergunta 18), mas, como ela diz, hoje somos amigos, gostamos muito um do outro e vamos nos casar assim que ela me enviar uma foto. Para terminar (final da pergunta 19), fecho mais uma vez com a Mônica na indicação do CD El Negro del Blanco (Biscoito Fino), dos maravilhosos Paulo Moura e Yamandú Costa. Chega de papo e vamos à entrevista:

1. Que grau de compromisso tens com o Crônicas Mônica? É algo descartável ou deverá ter longa vida?

Não consigo pensar em nada descartável, pelo carinho. Gosto das pessoas e do blog em si. Levo bastante a sério. Mas posso implicar e acabar com tudo em um dia… jeitinho Mônica de ser.

2. O complemento do título do teu blog é “Uma escrita bem humorada sem compromisso literário”. Não consigo encarar este título de outra forma que não seja uma defesa de alguém que é normalmente muito autocrítico, mas que não quer ou pode dedicar-se 100% àquilo.

Bingo! E mal sabia eu que ao postar, pela primeira vez, já estava assumindo um compromisso danado.

3. Acho que as tuas melhores qualidades são a musicalidade e a falsa anarquia de teus textos. Às vezes uma sobrepuja a outra, mas, sob alguma forma, elas sempre estão lá. De onde tanta música? E esta vontade de quebrar tudo?

Sempre vou ter vontade de quebrar tudo; ao mesmo tempo, respeito as pessoas, me acho “meio” incorreta politicamente, então, nunca quebraria absolutamente tudo. A musicalidade? Bom, essa mora dentro do meu peito.

4. A clareza é outra característica tua. Os posts podem ser lidos rapidamente, mas uma segunda leitura sempre me demonstrou haver ambigüidades bem escondidas em tuas histórias que nos levam a rir ou a sentir compaixão por teus personagens. Quanto tempo te toma um post “daqueles”, isto é, daqueles bem trabalhados?

Acredite Milton, de 10 minutos a 2 horas, depende. Sempre tenho começo, meio e fim delineados na mente. O revisar, corrigir, formatar, muitas vezes toma mais tempo do que escrever (um daqueles bons). As ambigüidades são para os inteligentes…

5. Ainda no terreno dos elogios: afirmo que tens notável habilidade para criar climas, muitas vezes constrangedores, sempre engraçados. A Mônica real brinca também assim? És uma piadista nata?

Sou, sempre fui. Minhas filhas vivem dizendo: Comédia, você!!!!

6. Entrando levemente no terreno das críticas: teus últimos posts parecem ser mais descuidados do que os de três ou quatro meses atrás. Concordas com isto? Houve alguma coisa?

Milton, a última coisa que sou é uma pessoa descuidada. Mas cheguei a uma encruzilhada: paro agora (Wandeca) ou faço algo mais ligeiro, sem muita correção, tanta revisão. Não tenho mais tempo, entende?

7. Quais são teus melhores posts? Seria o famosíssimo da Miss Sujinha, aquele em inglês ou outro?

Na verdade, acho que você gosta da “Miss Sujinha”. Eu gosto também, mas depois de pensar em sua pergunta acabo achando que os posts de que mais gosto, não são os mais engraçados. Gosto de: “Quem matou Dana de Teffé” embora muita gente nem lembre de “O Cruzeiro” ou David Nasser; gosto de Tiazinha (Yolanda Penteado), A Moleca e alguns outros. De alguns não gosto e vejo que o leitor gosta.
Tem um não muito antigo, da Lígia, que transa virtualmente e quebra a perna.
Bom querido, eu tinha duas opções: deleteva tudo e deixava um “Gran finale”, um bom post, ou continuava, com menos tempo.
Vivo fazendo isso:
– ADORÁVEL, querida, nem reli! Leia e corrija pra mim, por favor (quando estou mais apelativa, digo; pelamordedeus). Obviamente, ela adora este trabalho, lê com grande prazer e me liga elogiando: arrumei algumas vírgulas bailarinas, alguns errinhos de gramática e está ótimo!!!
Milton, cansei um pouco de pensar, corrigir, revisar, reler e 90% das pessoas não entender nada.
Pense: ser avó, decorar uma casa, reformar uma outra, o apartamento da filha, decorar, enxoval de noiva e bebê, escrever para uma revista, fazer traduções. O fato da maioria não entender muito, desanima.

8. E o que mais te toca?

Palavras, música, às vezes, um olhar…

9. Qual é a freqüência de publicação em blogs que achas adequada para ti?

Penso que dois posts por semana estaria mais que bom, até porque acho que as pessoas sabem que deixo um post longo, algum tempo, propositadamente. O Crônicas Mônica fica pra depois, quando tiverem tempo. Ou seja, ao mesmo tempo que posso aborrecer o leitor com longos posts, dou-lhes tempo para ler.

10. Quando o teu computador não está infestado de vírus como agora, acordas e já vais ver os comentários e e-mails ou dá tempo para tomar um café?

Meu amigo, eu acordo, medito, tomo café e dou uma olhada antes de me enfiar em uma esteira. Geralmente estou on line, por ter uma filha fora de S. Paulo e outra bem barriguda…mas não necessariamente estou no computador.

11. O surpreendente post sobre a posição sexual 69 foi seguido de um meio anormal sobre “elegância”. O superego ordenou um arrependimento acompanhado de imediata reparação, os leitores te propuseram “coisas” ou o Milton está louco?

Milton é muito lúcido, mas aqui vou discordar. O post 69 é de autoria de Maitê Proença. Acho a escrita dela viva e gosto de gente que diz atrocidades com elegância. A Maitê tem aquele fio tênue entre a elegância e a vulgaridade. Gostei do artigo 69, publiquei…então eu pergunto no final (para fazer graça): Vamos lá! Todo mundo se entregando, quem faz? Quem não faz? Uns disseram: eu não me entrego assim fácil não, outros descreveram o ato completo… vai de gosto do freguês, no caso, do leitor.
Taí, eu gostei do post “Elegância”.
Eu me repito, ( já disse isso antes), se falo de amor, falo de novo, se falo de arsênico, em seguida falo de cicuta. Viagem, outra viagem. Doris Lessing disse (já disse isso também), que os personagens, às vezes chatinhos, a perseguiam. Eu me sinto igual. Como achei que, na medida do possível, Maitê foi elegante, falei de elegância, mas não foi para me redimir não, acredite. Foi um pensamento. Até porque não acho deselegante a modalidade.

12. Aquela série deliciosamente maluca, metade autobiografia, metade livre-associação, acabou? Se acabou, já digo: que merda!

Não acabou não, Lavoisier… aliás, comigo nada termina, tudo se transforma.

13. Levas a vida empurrando as coisas com a barriga ou ela é uma aventura jovem e surpreendente?

Uma aventura jovem, cheia de surpresas, e faço ontem o que preciso fazer amanhã. Adoraria ser um pouco inconseqüente e irresponsável, nunca fui…

14. A vida amorosa é tranqüila e linear ou é cheia de som e fúria?

Cheia de som e fúria.

15. E como convives com a jovem avó que está nascendo? (Escuta, o Francisco já chegou?)

Nossa!! Quase morri na primeira semana, choque! Achava que o “status” de avó não combinava comigo, agora amo a idéia e vai nascer em janeiro. Tenho uma barriga linda aqui perto de mim.

16. É paradoxal. A Mafalda Crescida te caracterizou como uma pessoa que dá conselhos, que auxilia. Eu mesmo já recebi vários conselhos teus e reconheço a pertinência – e a inteligência – de todos eles. És uma mãezona ou não? Porém, também opino que tens uma relação demasiado irônica com o mundo para ser aquela mãezona típica.

Ahhhhhhh, provavelmente a primeira palavra que vou ensinar pro neto é um palavrão. Mas tenho a “Lua em Câncer”, sou mãezona mesmo, cuido das pessoas, mimo-as.
Adoro dar conselhos, mas a experiência, me faz pensar duas vezes para aconselhar, o interlocutor pode não querer conselhos. Muitas vezes vejo com tamanha nitidez que preciso falar…

17. Meu Deus! E uma vez me pediste para fazer um link entre tu e a mesma Mafalda, pois, olha Milton, não parece mas sou muito tímida…

E aí, graças a você, conversamos duas vezes e ela é um amor… Sou tímida mesmo, mas acho que todo o ser humano é, cada um na sua área, do seu jeito próprio. Garanto que você, às vezes, é tímido também.

18. Tenho a impressão de que és como uma daquelas bolas de silicone que se usa para fazer exercícios com as mãos, só que com chumbo no centro. Há maciez no trato, mas cuidado! Esta bola pode voar em direção a alguém?

Posso ser. Especialmente se for vítima de alguma injustiça ou se alguém mexer com minhas filhas, mas acho que isso é natural. Normalmente, sou doce e meu limite de paciência é bem grande. Mas, se mandar a referida bola, mando em partes letais, falo baixo e arraso a pessoa.
Tenho verdadeiro horror a briga virtual, comentários maldosos em janelas, nem pensar…
Uma única vez briguei com uma pessoa virtualmente. Trocamos e-mails, a pessoa se desculpou, eu desculpei e hoje somos bons amigos, gosto dele….ele sabe disso.

19. Quem, dentre escritores, cineastas e músicos, te provoca frisson?

Ai! Esta pensei em dizer; sou eclética, gosto de tudo, mas isso não faz parte de mim. Então: palavrório, agüenta….
Escritores: O escritor promove aquilo que dizia Gilberto Freyre: e a carne se fez verbo! Então…
Machado de Assis : Meu preferido, eu acho, é preciso ter uma certa maturidade para entender a ironia de Machado, do Machado pós-1881. Outro dia eu estava lendo umas crônicas dele, numa seleção muito bem feita, da Editora Global. E lia umas crônicas que ele escreveu por volta do dia 13 de maio de 1888. Simplesmente saborosas, mostrando a realidade da escravidão, das relações menos folclóricas entre escravo e senhor.
Escrever é recorrer aos deuses internos e externos, para dizer algo relevante.
As crônicas, por mais ligeiras que sejam, podem e devem ser relevantes. As de Machado são excepcionais neste sentido. Parece que ele deu uma rasteira no deus Cronos e continua cada vez mais atual.
Oscar Wilde sempre amei. Conta-se que o pai dele, médico, recebia como pagamento de consultas, quando o paciente era pobre, histórias que, mais tarde, iria contar ao pequeno filho Oscar antes do menino pegar no sono.
“Se um homem encara a vida de um ponto de vista artístico, seu cérebro passa a ser seu coração.” O. Wilde.
E Ernest Hemingway, sempre tive fascínio – O Velho e o Mar é um exemplo raro de narrativa poderosa, que jamais envelhece, e que fisga a gente!
Cineastas:
Orson Welles, Alfred Hitchcock, Quentin Tarantino, Frank Capra, e (pode rir) Steven Spielberg . Daqui há dez anos ele será reverenciado.
Lembro do meu amado Paulo Francis acabando com Steven.
(Ficou meio parecido com resposta de Miss? Nietzsche, Maiakovsky , Saint Exupéry e Paulo Coelho. Rss)
Músicos??? Milton Nascimento, (os mineiros todos, Clube da Esquina), misturo compositores e intérpretes: Mozart, Mendelssohn, Chopin, Weber, Liszt e Kachaturian; Camargo Guarnieri, Osvaldo Lacerda, Almeida Prado, Edino Krieger, Villani Côrtes, Ernesto Nazareth, Eduardo Souto e Zequinha de Abreu, Villa Lobos, Tom Jobim, João Gilberto, João Donato.
Os cearenses: de Fagner a Belchior…..
Baianos…nem preciso citar, Caetano, Gil, Caymmi, João Gilberto…
Você há pouco tempo comparou Chico e Edu Lobo, então pensei: mas ele compara um poeta e um maestro?! Acho que você comparava a genialidade dos dois…
Elis Regina, Nana Caymmi, Zizi Possi, Adoniran Barbosa, Dominguinhos. Muita injustiça minha, passaria o dia aqui falando de nossos gênios, sem esquecer de Billie Holliday, Quincy Jones, Cesaria Évora, Nina Simone, Ella… Jim Morinson, Miles Davis, Chick Corea (chega, vou te aborecer, vc saberá do que gosto em breve). Ah! Gosto da Grande Fantasia Triunfal do Hino Nacional.
“Frisson”… atualmente quem me causa frisson é seu conterrâneo, Yamandú Costa. O último CD do Paulo Moura e dele é algo…

20. Como te sentiste respondendo a esta série de perguntas cujo único conector lógico é a numeração?

O conector lógico são números. Quem formulou as perguntas, foi alguém querido, adorei respondê-las.

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Amizades imprescidíveis que me chegaram através da rede (Parte I)

Publicado em 19 de outubro de 2004

Caetano Veloso já perguntava em “Língua” sobre quem haveria de negar que a amizade é superior ao amor. Não vou discorrer a respeito, até porque ambos nos dão ganhos diferentes e não há motivo que nos impila a uma escolha. Fica-se com os dois e fim.

Tenho um grande amigo virtual na pessoa do escritor pernambucano Fernando Monteiro. Foi ele quem me escreveu primeiro e, ainda hoje, creio ser ele quem mais estimula nossa amizade acrescentando-lhe fatos novos. É que realmente não sou o campeão da auto-estima e fico constrangido de encher-lhe o saco… Tudo começou quando, ao responder em um post antigo (de 2 de agosto de 2003) a algumas questões sobre literatura, sentencei que o livro Aspades, ETs, etc., de Fernando, era um dos poucos livros dos últimos 10 anos que mereceriam a honraria de obra-prima. Então ele leu, descobriu meu e-mail e começamos uma animada conversação.

Neste ínterim, ficamos nos conhecendo um pouco mais e Fernando chegou a me citar numa coluna publicada no jornal literário Rascunho.

Há duas semanas, ele voltou a me surpreender. Recebi mais um presente pelo correio – mandei-lhe 2 e recebi uns 10! – e era uma descoberta estarrecedora. Explico: quem me lê sabe de minha admiração por Johann Sebastian Bach, Ingmar Bergman e Anton Tchékhov, entre outros. Num post anterior, escrevi sobre a curiosa ligação que Bergman tinha com Bach. Pois Fernando me manda um artigo de Hélio Pólvora em que está esmiuçada a relação que o filme Gritos e Sussurros, um pontos mais altos de Bergman, tem para com a obra-prima de Tchékhov As Três Irmãs. Após ler o texto ficamos sabendo que, inequivocamente, são obras… irmãs.

Após receber o mimo, escrevi a Fernando o que segue:

Meu amigo!
Muito obrigado pela lembrança. O artigo do Pólvora abriu meus olhos para uma obviedade de que não tinha me dado conta. Bergman deve ter dirigido peças de Tchekhov a vida inteira, nada mais natural então que se inspirasse nele de vez em quando, assim como fez com Strindberg. Será que há alguma coerência em minha paixão por Bach-Bergman-Tchekhov?
Fernando, tenho tratado muito mal todos os meus amigos; na verdade estou passando por apertos de todo o lado. Falo sobre tempo e dinheiro. Nada muito grave, nada que não possa ser resolvido com um pouco de “mais aperto”, mas fico preocupado, durmo mal, etc. Imagine que minha irmã pediu que eu pirateasse 10 CDs de música a minha escolha para lhe dar de aniversário e ainda não gravei nenhum para ela… que nasceu num 31 de julho!
Tenho que mudar minha vida e já. Este negócio de assumir as minhas broncas, as dos outros, de manter blog, coluna esportiva, de aceitar vários convites, de achar que tenho tempo para tudo, para a Claudia, para os filhos, para os amigos, para ser dono de restaurante e de empresa de informática, para escrever um livro (que está rigorosamente parado, morto lá pela página 30) está me atrapalhando muito.
Está na hora de pensar na vida. Desculpe o desabafo.
Grande abraço e, novamente, muito obrigado.
A propósito: quando é que sai o Graumann II?
Milton.

Recebi como resposta:

Milton amigo:
o Graumann II deve sair neste mês — caso não se atrase mais, na W11. Eu queria que saísse com o três, estava disposto a dar uma “corrida” neste, porém o Wagner Carelli preferiu lançar só “As Confissões de Lúcio”, por ora… o que me deu tempo de trabalhar mais no último volume do que, vá lá, pode ser chamada de “trilogia” graumanniana.
A vantagem de lançar juntos seria principalmente o impacto (?) dos dois livros – porém o Wagner me convenceu de que não se podia contar com a certeza dos distribuidores e/ou livreiros comprarem quantidades iguais de ambos, pra começar.
E eu queria — ao mesmo tempo — mais tempo para o 3.
Tempo, tempo – tudo é tempo. Tenha cuidado com o seu, sem dúvida. Principalmente, não se disperse, porque, depois dos 45, tudo vai se tornando urgente.
Abs, Fernando
PS. Bach-Bergman-Tchekohv são três encarnações do mesmo mistério, claro.
F.

E assim continuamos nossas conversas, eu em Porto Alegre, ele no Recife. Nunca nos vimos.

~~~~~
Outro amigo virtual: meu primeiro contato com Alexandre Inagaki foi o pior possível. Ele escreveu um comentário apontando que eu tinha escrito um post que utilizava uma idéia que ele, Inagaki, já utilizara. Foi direto ao ponto, sem agressões ou ironias. Só que a idéia utilizada não era de nenhum de nós, mas de François Truffaut e referia-se aos “Grandes Filmes Doentes” (post de 13 de agosto de 2003). O comentário do Ina foi perdido numa destas crises do blogger, infelizmente. Rebater a suspeita foi fácil. Disse-lhe que havia lido a expressão na página X do livro com a grande entrevista que Truffaut fez com Hitchcock. Ele que olhasse no dele. Devo ter sido irônico e creio ter-lhe perguntado se ele não queria que eu mandasse o livro manuseado que possuo como prova… Fiquei irritado, mas a coisa não prosperou; comecei a ler o extraordinário Pensar Enlouquece e ele começou a me visitar. A desconfiança deu lugar ao respeito, o respeito foi superado pelo bom humor e admiração, os quais permaneceram, só que acompanhados pela confiança. Vim conhecê-lo em Parati, durante a FLIP.

Eu o imaginava como os japoneses das piadas, com tudo pequenino e aquilo proporcional. Mas estava enganado (o “aquilo” eu não vi nem quero, Ok?): o cara tem 1,80m, ou seja, é 9 cm mais alto que eu. E não é magro nem longilíneo. Está naquela fase da vida em que temos que optar: vou ser forte ou gordo? Creio que a segunda opção esteja fustigando nosso blogueiro campeão, mas ele ainda resiste.

Quando me apresentei (sim, parei na frente do japa e perguntei se ele era o célebre Inagaki), tive duas primeiras impressões. A primeiríssima era a de que ele inaugurava, na minha experiência, a classificação do “Japonês Baiano”. Nasceu em Campinas – até torce para um time de lá que logo logo irá para a segunda divisão – mas o ar descansado, de quem dorme 12h todas as noites, aquela cara sorridente, aquela malemolência… ah, é coisa que parece ter origem no mar da Bahia. A segunda primeira impressão foi de que ele entrava com méritos numa outra classificação: aquela que distingue as pessoas cuja inteligência parece ser tanta que esta ameaça sair pelos olhos. Não espero ser compreendido, mas quem conhece minha irmã sabe do que estou falando. E, quando começamos a conversar, vi que ela também podia sair pela boca. Porém daquele jeito tranqüilo, lento, baiano.

Conversamos 3 vezes, nunca longamente. Posso testemunhar que o Ina é daquelas pessoas com as quais a gente se sente tão bem que podemos deixar a conversa morrer e renascer sem a menor pressa. Vamos melhorar a frase anterior: o que quero dizer é que Inagaki nos dá tal impressão de calma, gentileza e espontaneidade, que em sua presença não nos sentimos pressionados a atuar, a falar por falar. Ele está ali, disponível, conversando e ouvindo. Gostei do cara.

Quase 4 meses após nossos encontros, ele vem e escreve um testimonial na minha abandonada conta do Orkut. Como 100 % destes textos, trata-se de um elogio. Sei que vocês, meus 7 leitores, vão pensar que a cópia deste texto aqui equivale a um auto-elogio e, como tal, seria um vitupério que lanço a mim. Porém acreditem, esta voz gentil é realmente a dele, a de sua expressão verbal. Leiam lentamente, em ritmo malemolente; imaginem uma voz baixa e sorridente:

Literato, musicólatra, cortês. Milton Ribeiro é um desses caras que tornam a vida da gente mais rica. Quem lê seus textos é constantemente brindado com doses precisas de emoção, bom humor, erudição, talento. Um dia ainda terei o privilégio de receber em mãos um livro autografado desse cara. Ok, eu já sei que na dedicatória Milton me escreverá algo do tipo “um abraço por trás, viadinho”. Tudo zen: esse cara é meu amigo.

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