Böll e a Net fugitiva

Mais de 30 anos após a primeira leitura, estou relendo um livro que adoro. Trata-se de uma obra menor que sempre figuraria nas minhas listas de “dez mais”. No final dos anos 70, li Opiniones de un payaso, de Heinrich Böll, e agora leio Pontos de Vista de um Palhaço (Estação Liberdade, 2008). Após reler obras que se revelaram decepcionantes, não sobrevivendo à segunda abordagem — quem era eu naquela época para incensar essa merda? — , o livro de Böll reafirma suas notáveis qualidades e me surpreende, pois agora sei que eu lembrava de pouca coisa dele.

Escreveria mais, porém agora tenho que trabalhar. Acontece que o Net Virtua da minha casa anda muito arisco, com muitos problemas e escrevo os posts em casa. Não obstante, digo a vocês que apenas um livro sobreviveu bem a uma segunda leitura: O Idiota, de Dostoiévski. E agpra o grande católico (sim, até isso existe) vem unir-se a Dostô.

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Sonâncias III, do genial Marlos Nobre

A Caminhante, que entende do assunto, achou a coreografia simples e bonitinha — não lembro exatamente das palavras que ela usou. Já eu achei que ela acompanha bem o que há de superior: a música do grande pernambucano Marlos Nobre. Fazia muito tempo que não ouvia, só a tenho em vinil e desenvolvi certa preguiça de pegar os bolachões. Tenho 1300 deles. Me dá certo cansaço, pegar, limpar, virar o disco após 20 minutos, pegar, limpar de novo, pôr no plástico e depois na capa para devolver à estante. Mas o assunto é o tio Marlos, né?

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Milton Ribeiro abraça o pancadão

E segue sua nau, ora bolas.

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A mãe de todas as livrarias

Do blog da L&PM

Ela foi considerada pelo Guiness Book of Records como a “livraria mais antiga do mundo”. E não há como contestar o feito: a livraria Bertrand, de Lisboa, foi aberta em 1732 no bairro Chiado. Para receber o certificado (que foi colocado em uma das paredes da loja) foi preciso passar por uma “rigorosa prestação de provas”. Entre elas, a Bertrand teve que confirmar que sua atividade nunca foi interrompida ao longo destes 279 anos.

A portuguesa Bertrand tem 279 anos e é considerada a mais antiga livraria do mundo

A Bertrand Livreiros foi fundada por Pedro Faure, que tinha origem francesa, e hoje é a maior cadeia de livrarias do país, com 53 filiais em Portugal e uma loja virtual que oferece mais de 100 mil títulos. No site da Bertrand, aliás, pode-se ler o manifesto “Somos livros”. O texto (na verdade um poema) cita o terremoto de 1755 que devastou Lisboa, balançou as estruturas da Bertrand, mas, mesmo assim, não foi capaz de fazê-la fechar as portas. Abaixo, o manifesto:

O fim é o princípio.
Uma página que se vira.
Somos a tinta fresca em folha áspera.
A capa dura. Aquilo que procura.
Somos a História.
Desde sempre.
O terremoto de 55 e a revolução de 74.
Somos todos os nomes.
As pessoas do Pessoa,
Alexandre Herculano e Ramalho Ortigão.
O Mundo na mão.
Ponto de encontro.
De quem pensa. De quem faz pensar.
Temos pele enrugada de acontecimento.
As páginas são nossas.
E o pó que descansa na capa também.
Sabemos falar de guerra e paz,
explicar a origem das espécies
e dizer qual a causa das coisas.
Somos o que temos.
A tradição e a vocação.
A atenção. A opinião.
A história de dor e de amor.
Somos o nome do escritor.
A mão do leitor.

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Crônicas do mundo ao revés, de Flávio Aguiar

Publicado ontem no Sul21

Crônicas do mundo ao revés (Boitempo, 141 páginas) é uma excelente reunião de narrativas de diversos gêneros – ficção, memórias, causos e vivências políticas. Quase todas as histórias têm sua nascente na luta política dos anos 60 e sua influência sobre a vida do autor-personagem. De lá partem, descrevendo um longo arco que vai da luta armada ao exílio, do exílio à vida estabelecida no exterior, dela aos causos ouvidos na infância, retornando até às reflexões sobre as origens familiares. O livro é dividido em 4 partes: Tempos difíceis, Palavras difíceis, Causos difíceis e Histórias difíceis, cada uma delas contendo de quatro e seis histórias.

Tempos difíceis — a melhor parte — trata da luta armada vista de dentro. Não são narrativas romantizadas ou idealizadas e nem guardam parentesco com a já antiquada literatura de resistência dos anos 70. São relatos duros e testemunhais que retomam os anos de chumbo de forma nada nostálgica. O medo, o perigo e as particularidades da época estão presentes nos relatos. É concedido ar e fôlego a vozes silenciadas pela tortura ou pelo processo histórico-literário, que não costuma recebê-las frequentemente em seu cânone. O autor é bem sucedido, tecendo narrativas em primeira pessoa que dão proximidade à secura das palavras.

Palavras difíceis é totalmente diferente. O personagem principal já está na Europa e na África, talvez resultado do exílio. Porém, a melhor narrativa é a mais ficcional delas, Singular acontecimento, curioso diálogo com o conto machadiano Singular ocorrência. Se Machado criou o homem que conta a um amigo sobre o caso extraconjugal de um outro amigo, Aguiar cria uma carta em que o escritor X (Machado, certamente), conta a um amigo sobre seu encontro com José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), conhecido como Qorpo Santo, dramaturgo gaúcho que visitou o Rio de Janeiro na tentativa de provar sua sanidade mental. Lá encontrou Machado, ao menos na realidade ficcional. Trata-se de uma pequena joia literária escrita no estilo do Bruxo do Cosme Velho.

Causos difíceis são histórias humorísticas do interior gaúcho. É o trecho mais fraco de um bom livro que finaliza com quatro Histórias difíceis. Aqui a ficção é abandonada. Na primeira delas, Flávio Aguiar escreve um impecável e emocionante texto de restauração da memória do militar Alfeu de Alcântara Monteiro, uma das mais importantes figuras do movimento da legalidade e das primeiras vítimas do golpe de estado de 1964. Como o próprio autor cita, não há nenhuma praça com seu nome, que parece destinado ao esquecimento. Depois, há três narrativas memorialísticas onde a genealogia mistura-se poeticamente a impressões familiares.

Não, o forte de Crônicas do mundo ao revés não é a unidade. Mas quem disse que esta é necessária? E quem disse que as fraturas e as diferentes vivências de uma existência não fazem boa literatura? Neste livro, Flávio Aguiar recolhe trechos, impressões, atitudes, interesses e posturas que formam um mosaico cujas cores só se completam quando terminamos a leitura.

Sobre o autor

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti: em 1983 com o ensaio A comédia nacional no teatro de José de Alencar, em 2000 com o romance Anita e em 2007 como participante de Latinoamericana – Enciclopédia sobre a América Latina e o Caribe (org. de Emir Sader e Ivana Jinkings), premiado como melhor livro do ano em não ficção.

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Uma vasta lista e a fé de que um dia a páscoa será apenas chocolate… E dieta

“Eu afirmo que somos ambos ateus. Eu só acredito em um deus a menos do que você. Quando você entender por que não acredita em todos os outros deuses possíveis, entenderá por que não acredito no seu.” (Stephen Roberts)

Essa semana, a Justiça espanhola proíbiu uma procissão ateia em Madrid. Era provocação. A manifestação levaria às ruas faixas com dizeres como “Congregação da Cruel Inquisição”, “Irmandade da Santa Pedofilia” e “Confraria do Papa do Santo Latrocínio” com o objetivo de “derrubar a hipocrisia social e moral que representa a Semana Santa Católica”. Era provocação? Claro que sim! Mas também é provocação aquilo que sofremos desde que nascemos e que é ainda passado a nossos filhos goela abaixo — principalmente em escolas não laicas. Porém, quando reagimos, ouvimos os religiosos falando em democracia e em direitos. Direitos para seguirem fazendo seu nojento proselitismo milenar, bem entendido. Mas isso tem diminuído, as estatísticas estão para comprovar. Bom feriado.

http://www.youtube.com/watch?v=A8XLVunDt9k&feature=player_embedded

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Oitavas definidas, enfim. Confira aqui.

Notei alguma demora dos sites esportivos e das TVs em explicar o que houve na noite de hoje. A Band News chegou a noticiar Grêmio x Cerro! Acho que isto aqui explica tudo até a final.

(Cruzeiro x Once Caldas) X (América-Mex x Santos)

x

(Junior x Jaguares) X (Cerro Porteño x Estudiantes)

X

(Libertad x Fluminense) X (LDU x Vélez Sarsfield)

x

(Internacional x Peñarol) X (Universidad Católica x Grêmio)

Ficou claro, não?

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O ex-presidente Lula é um filha-da-puta! Veja e opine!

Vejam o que ele fez, meu Deus. É o fim do mundo! Como é que este homem não está preso? Assassino!

Agradeço ao Gilberto Agostinho por ter me apresentado este descalabro! Já chegou a Praga essa vergonha nacional !!!

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Sugestões de leitura para uma manhã pré-feriadão

Muito boas as leituras matinais do pré-feriado. Sugiro que meus sete queridos e fieis leitores comecem por Roberto Carlos não morreu (ele não morreu assado como uma galinha na estrada de Santos). Depois podem visitar Um mundo carente de terapia. Os que gostarem de futebol, pode ler minha crônica para Inter x Emelec — que incluo nas “boas leituras” apenas para me unir aos dois primeiros. Se quiser enojar-se vá ao amigo Mário Marcos e, se quiser rir, informe-se sobre como o Rio Grande do Sul se protegerá dos termos estrangeiros.

No mais, devo passar o feriado em Porto Alegre pondo alguma coisa em dia. Pois, apesar de curta, êta semaninha de merda que foi essa!

Consolo? Ah, esta foto de puro deboche pascoal que minha filha tirou no colégio:

Garanto que exportei para a Bárbara grande parte do meu espírito zombeteiro. E sou vítima dele, não pensem que não.

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Como ganhar o dia sem fazer nada

Recebi este e-mail hoje:

Oi, Milton,

Não, não é a Páscoa. É que ontem, aqui em Lisboa, fui assistir ao Tom Koopman com sua orquestra e coral, tocando e cantando a Paixão Segundo São João de Bach. Foi uma maravilha, e lembrei-me muito de ti, muito mesmo, e lamentei que não pudesses assistir isso. O Koopman é uma simpatia, rege energicamente, com mãos e boca, e praticamente canta junto. 1h50 em pé, feroz e motivador, regendo e tocando cravo. A orquestra toda é uma maravilha, também. Enfim. Consigo apreciar essas coisas graças a ti.

Abraço.
H.

Eu não sou tão burro e sei que há imenso exagero no textinho, mas isso não me impede de sair para almoçar nas nuvens.

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O Clube do Filme, de David Gilmour

Em primeiro lugar, favor não confundir este David Gilmour canadense, escritor e crítico de cinema, com aquele outro, inglês, que foi guitarrista do Pink Floyd.

O Clube do Filme (Intrínseca, 239 páginas) trata de um caso real e famoso: David Gilmour estava com pouco dinheiro, com as contas pagas pela mulher e morando com o filho de 15 anos, o qual colecionava péssimas notas e tédio na escola. Quem é pai — e nem precisamos estar meio deprimidos, como é o caso aqui — , sabe o efeito que um filho de saco cheio tem sobre nós. A gente simplesmente quer fazer tudo para acabar com aquilo. Gilmour achou que seu filho Jesse não precisaria conviver com o fracasso escolar e, diante da óbvia infelicidade e desespero do filho, propôs-se a ensiná-lo através de filmes, assistindo semanalmente a três deles, escolhidos e comentados pelo pai. Durante o “curso”, o garoto receberia mesada e um teto todo dele, mas deveria manter-se longe das drogas. A intenção de Gilmour era das melhores: desejava garantir uma adolescência suportável a seu filho, longe dos fracassos e da consequente baixa auto-estima.

Poderia ser um grande livro, um curioso “romance ou caso de formação”, mas Gilmour atrapalha bastante. Ele já começa por nos dar de graça o maior dos spoilers: “olha, o final será açucarado, tudo terminará bem”. Se ele já diz de saída que tudo acabará bem, a gente logo imagina que o “como” seja muito artificioso e original, mas não. A história de Jesse com suas namoradas é bastante rasa e ocupa grande parte do livro. Também o fato de Gilmour usar a primeira pessoa do singular e privilegiar os diálogos é problemático. Muitas das conversas entre os dois têm tom de interrogatório por escrito — tudo com a finalidade de que o leitor se informe. É artificial. Ah, como faz  falta um bom narrador onisciente! É óbvio que o livro seria melhor se fosse um romance autobiográfico narrado na terceira pessoa. Há muito “eu” na narrativa.

Não obstante os problemas, a análise dos filmes por parte do pai e sua repercussão no filho são emocionantes. Há observações cinematográficas preciosas. Mas por que passei subitamente a elogiar o livro? Ora, porque a história é boa e interessante. Então, para terminar esta pequena e despretensiosa resenha, diria que vale a pena ler O Clube do Filme, mas não espere genialidade. É como se um autor médio tivesse recebido a dádiva de um grande tema, infelizmente muito superior a si. Ou como se fosse uma grande canção estivesse sendo interpretada por alguém que mal consegue alcançar as notas. É isso.

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Trem das Onze – Tangos e Tragédias

Hique Gomez, o violinista Kraunus Sang, e Nico Nicolaiewsky, o Maestro Plestkaya, ambos cantores, dão um banho na obra-prima de Adoniran Barbosa. Esta apresentação foi no Teatro Positivo, em Curitiba, no ano de 2008.

http://www.youtube.com/watch?v=mDwRqaCmvOg&feature=player_embedded

Lembrança do Melo.

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Filminho Genial (e engraçado)

Este filminho publicado por Juliana Szabluk em seu Facebook é muito bom. Ah, por que as propagandas não podem ser ousadas…?

http://vimeo.com/16161220

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Porque hoje é sábado, algumas mulheres da esquerda gaúcha

Meus queridos sete leitores! Caríssimos! Como militante desde o final dos anos 70, posso asseverar que uma das maiores mentiras da humanidade é dizer que as mulheres da esquerda são todas inequívocos jaburus.

A atual geração de petistas, comunistas e psolentas vêm confirmar décadas de…

… observações realizadas com extrema pertinácia pelo autor deste blog.

Nossas mulheres não são apenas as mais lidas e inteligentes, são também as…

… mais belas. Até quem faz as coberturas é interessante! Vejam abaixo:

Larissa Riquelme é apenas um rascunho da Rachel Duarte do Sul21.

E como são expressivas! O sorriso irônico de Manuela… Não parece a vocês…

… que me avisa para eu me cuidar a fim de não ser processado novamente?

Há um gênero de homens — limitados, limitados — que faz confusão entre as…

… interessantes e as chatas. Eu não. As de forte personalidade; as que pensam, decidem e falam, …

… as que passam longe da mera peruagem; mantêm mais viva a magia feminina.

As homenageadas de hoje: Vereadora Sofia Cavedon – PT/RS;

Deputada Manuela D`Ávila – PC do B/RS;

Vereadora Mariana Carlos – PT/RS – Cachoeira do Sul;

Vereadora Fernanda Melchionna – PSOL/RS – Porto Alegre;

Jornalista Rachel Duarte – Sul21.

~o~

Observação final e lamentável: a direita trata assim as mulheres, tsc, tsc, tsc.

~o~

Créditos: a primeira foto de Sofia Cavedon, assim como as três de Rachel Duarte são do Ramiro Furquim/Sul21. As outras, sabe-lá.

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"Não adianta ir da Classe D para a C apenas para comprar uma geladeira", diz diretora de Economia da Cultura

Obs.: Essa entrevista foi feita por mim para o Sul21, mas como o assunto é cultura — um dos assuntos mais frequentes neste eclético blog — , deixo-a também aqui para meu 7 fiéis leitores.

Foto de Ramiro Furquim / Sul21

Denise Viana Pereira é a Diretora de Economia da Cultura da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul. Trabalha, pois, com o Secretário Luiz Antônio de Assis Brasil numa das secretarias mais pobres e de maior visibilidade do governo, vendo apenas 0,07% do orçamento estadual e sendo visitada por boa parte dos artistas e produtores do Rio Grande do Sul. Denise é formada em Comunicação Social pela Ufrgs, é especialista em Teoria de Jornalismo e em Economia da Cultura. De 1999 a 2001, integrou a equipe do Instituto Estadual de Música da Secretaria de Estado da Cultura do RS. Nos anos de 2003 e 2004, foi Chefe de Gabinete da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e integrou a Representação Regional Sul do Ministério da Cultura entre 2006 e dezembro de 2010.

Em sua entrevista ao Sul21, Denise Viana Pereira fala sobre a nova lei que substitui a antiga LIC e sobre os planos nada modestos da Cultura do estado.

Sul21: Nos últimos dias, foram aprovados R$ 3,6 milhões em autorizações para captação de patrocínios via LIC. Associada a esta notícia, há a nova legislação de apoio e fomento à cultura, aprovada em dezembro de 2011.

Denise Viana Pereira: Sim, a LIC – Lei de Incentivo à Cultura – foi sancionada em 1996 e começou a funcionar em 1997, indo até agosto de 2010. Após esta data, ela foi suspensa até 7 de dezembro quando foi regulamentada a nova lei de fomento e apoio à Cultura, que se chama Pró-Cultura.

Sul21: A LIC não existe mais?

DVP: Não existe mais. Ela só permanece para os projetos que ainda estão em tramitação. Os novos processos não ingressam mais via LIC, mas sob o Pró-Cultura. O Pró-Cultura tem no seu bojo dois mecanismos: um mecanismo é o Fundo de Apoio à Cultura, grande conquista que nós aprovamos em 2001 na Assembleia Legislativa e que nunca tinha sido regulamentada, e um mecanismo de compensação fiscal semelhante à antiga LIC. O Pró-Cultura, então, engloba o fomento direto – pelo Fundo – e a compensação fiscal.

Sul21: Como funciona?

DVP: Na lei antiga, a empresa poderia se compensar de 75% do total do projeto descontando o valor de seu ICMS. Na nova lei, o desconto é de 100%. Porém, regra geral, para todo o projeto, o patrocinador fica obrigado a um depósito de 10% no Fundo de Apoio à Cultura, à exceção de projetos para Patrimônio Cultural e Construção de equipamentos culturais, para os quais o depósito é de 5%. Então, há a compensação, a isenção, mas há o incentivo propriamente dito, o qual é depositado no Fundo.

Sul21: Há um teto de isenção fiscal determinado pelo estado?

DVP: Sim, e este é muito baixo. O teto de isenção fiscal é de 28 milhões. Então, 10% são 2,8 milhões. É pouco para o Fundo. No ano passado, foi enviado um projeto de lei que prevê um aumento deste valor para R$ 35 milhões. A lei permite que este teto possa chegar ao máximo de 0,5% da receita líquida do estado. Trata-se de um valor variável, que hoje deve bater nos R$ 70 milhões.

Sul21: Resumidamente, poderia descrever o processo de aprovação do Pró-Cultura com a compensação fiscal?

DVP: O processo é (1) o proponente cadastra-se no site, (2) validação por parte da SEDAC, o que hoje demora 7 dias; (3) então, o proponente tem 15 dias para trazer documentos; (4) de posse dos documentos, fazemos a análise técnica detalhada onde normalmente questionamos coisas que não ficaram claras e então (5) o projeto é enviado para o Conselho Estadual de Cultura, que tem 60 dias para analisar. Após a aprovação, esta é publicada no Diário Oficial do Estado e o autor do projeto recebe uma carta que autoriza a captação, ou seja, o patrocínio por parte das empresas. O prazo mínimo total para a aprovação de um projeto é de 90 dias, por lei. Na prática, sabemos que este tempo não ocorre antes de 4 meses. O que desejamos é chegar cada vez mais próximos dos 90 dias. Estamos em contato com o Conselho para que eles analisem a possibilidade de diminuição de seus prazos. Tudo é muito moroso e há uma comparação inevitável: a Lei Federal é muito mais ágil. Não faz sentido. Temos que nos apropriar do sistema federal.

Sul21: Como é que o novo governo encontrou a SEDAC?

DVP: O secretário Assis Brasil sempre diz que não adianta a gente ficar olhando para o passado. O que a gente quer é que nossa marca seja o diálogo. Queremos manter as portas abertas e até retiramos algumas divisórias que haviam em nossa estrutura física… Queremos receber todos, ouvir todos os que nos procuram. Todos são atendidos. Acabamos inteiramente com certo tom policialesco da SEDAC. Nós éramos vistos pelos produtores culturais, de antemão, como oponentes, quando na verdade ambos são proponentes. Claramente, havia grande distância entre os produtores e o sistema de fomento e financiamento da cultura no estado. Nós queremos o oposto.

Sul21: Quais são objetivos factíveis dos quatro anos da gestão?

DVP: O primeiro objetivo é o de fazer a Casa de Cultura Mario Quintana funcionar a pleno. Resolvendo desde a obra de fixação da fachada até recheá-la de programação. O segundo é o de construir o Teatro da OSPA. Os outros estão associados ao plano de recuperação do orçamento da cultura do estado, que nos tirará deste “quase nada” de recursos que temos hoje. Hoje, temos 0,07% do orçamento do estado. Nossa intenção é a de chegar, ao final dos quatro anos do governo Tarso, a 1,5%. Queremos 0,5% no segundo ano de gestão, 0,75% no terceiro, 1% no quarto e 1,5% para a próxima gestão.

Sul21: Há outros?

DVP: Temos também projetos ligados à utilização do Fundo de Apoio à Cultura. Pretendemos criar editais a fim de selecionar projetos de Casas de Cultura, teatros, cinemas ou bibliotecas para o interior do estado. Queremos equipamentos culturais para o interior. Nós selecionaremos os projetos; desta forma, não seriam equipamentos de propriedade do estado. Nós apoiaremos projetos que permitam aos municípios se equiparem. Imaginamos valores de até R$ 500 mil. Muitas vezes há prédios que poderiam se transformar num teatro ou numa biblioteca. Nossa intenção é participar da reutilização destes espaços para fins culturais.

Sul21: Não há quase mais cinemas no interior.

DVP: Bem, neste sentido nós trabalhamos com a ideia dos cineclubes. Nosso plano de governo inclui a criação de 100 Cines mais Cultura ao longo dos quatro anos de gestão e envolve a criação de 500 Pontos de Cultura lato sensu. Nos Pontos de Cultura, o governo aporta recursos para iniciativas que já existem, dando apoio aos chamados Pontos de Cinema (cineclubes), aos Pontos de Brincar (brinquedotecas), aos Pontos de Leitura (pequenas bibliotecas) e aos Pontos de Memória (museus comunitários ou ações de memória). Estas são ações que o MinC desenvolve. Este ano, deveremos receber R$ 10 milhões para começarmos.

Sul21: E a OSPA? Sem sede, ensaiando no cais do porto, convivendo com falta de músicos, concursos… E o novo Teatro que não sai do papel?

DVP: Hoje temos boas perspectivas. O secretário Assis Brasil é um ex-membro da orquestra e está bastante compromissado com a OSPA. Foi elaborada uma emenda parlamentar de R$ 20 milhões para a construção – o custo do teatro é de R$ 32 milhões. Em um de seus primeiros pronunciamentos, a presidente Dilma Rousseff falou em necessidades de contenção e suspendeu todas as emendas. Algumas destas foram extintas, mas a da OSPA não. O governador Tarso já enviou correspondência para a Ministra da Cultura e para a Comissão de Educação e Cultura do Congresso. Há toda uma mobilização estadual pela manutenção da emenda parlamentar de R$ 20 milhões. Isto garantiria 2/3 da obra. De outra parte, o MinC, em reunião aqui conosco, com a presença do secretário Assis Brasil, comprometeu-se em colocar mais R$ 7,5 milhões ou R$ 10 milhões – dependendo da emenda deste ano – , à razão de 2,5 milhões por ano. Se a emenda de R$ 20 milhões entrar este ano, eles não repassariam a primeira parcela de R$ 2,5 milhões, ficando o primeiro pagamento para 2012. Em resumo, repito, temos boas perspectivas.

Sul21: Houve uma discussão sobre possíveis mudanças no projeto do Teatro a fim de que ele pudesse receber óperas. Propôs-se a criação de um fosso para a orquestra…

DVP: Falando de uma forma rasa, o secretário compreende as críticas – o IAB igualmente não está de acordo com a parte externa do projeto e há esta discussão sobre óperas – , mas sua ideia é a de que o Teatro da OSPA é uma sala sinfônica e não outra coisa. E mesmo que haja discussões — penso que sempre haverá — não podemos atrasar mais 20 anos uma construção que nos faz falta há décadas. Então, temos um projeto pronto, pago, e achamos que ele não deve mais ser alterado. Estamos em outra fase e, se retrocedermos a uma anterior, quando teremos o Teatro?

Sul21: Fomento é política cultural? E a distribuição, divulgação e venda?

DVP: De modo algum fomento é política cultural. O mecanismo de financiamento e fomento não pode ser nossa única atividade; isto é apenas um instrumento. É muito insuficiente e concentra a pouca verba disponível nas capitais e nos artistas conhecidos. Para isso é que agora temos o Fundo de Apoio à Cultura, temos que fortalecê-lo para poder diversificar o tipo de projeto a ser apoiado. Por outro lado, temos que nos preocupar não apenas com os projetos, mas com a criação de hábitos de consumo de toda produção cultural. Temos que apoiar a distribuição, o consumo e a formação de plateias. É um problema igual ou maior do que o de produção, que é o que a LIC fazia exclusivamente. As leis de incentivo fomentam a produção, mas não fomentam a distribuição, elas concorrem muito pouco para a absorção daquilo que criam. Veja o caso do blog da Maria Bethânia: Jorge Furtado foi brilhante ao dizer que se tivessem pedido três vezes o mesmo valor para um filme que ninguém fosse assistir, não iam reclamar de nada, mas como é um blog e há um preconceito com o meio virtual – criado pela grande mídia – ninguém diz que Bethânia estará divulgando uma porção de poetas que ficariam de outro modo inacessíveis. Sou totalmente favorável ao blog dela. Grande parte desta discussão é sufocada pelo desconhecimento que as pessoas têm do contexto da produção e das necessidades culturais.

Sul21: Teu cargo é o de Diretora de Economia da Cultura. O que significa exatamente?

DVP: Como tu disseste, não adianta a gente apenas fomentar a produção. O olhar da economia sobre a cultura nos dá uma noção de que existe uma cadeia produtiva inteira, que vai até o público.

Sul21: Normalmente os artistas não pensam na parte comercial…

DVP: Sim, há que pensar na divulgação, nas vendas, na infraestrutura. Mas o pensamento não pode também ser apenas mercantilista, pois há dois valores envolvidos: o valor econômico do produto cultural e o valor simbólico, que vai transformar a pessoa que assistirá uma orquestra pela primeira vez, que vai fazê-la pensar em coisas sobre as quais jamais tinha antes refletido. É preciso pensar na sustentabilidade da produção.

Sul21: Sim, o espectador sai melhor, mais rico de um filme, peça ou espetáculo, mas como medir a importância desta experiência, deste conhecimento?

DVP: Nós estamos num momento maravilhoso, porque o governador é sensível à cultura. Ele é completamente consciente deste valor simbólico e da importância de termos cidadãos capazes de serem reflexivos e críticos, em contraposição a cidadãos que vêm da classe D para a C apenas para comprar uma geladeira ou uma batedeira e continuar se matando na esquina ou atropelando ciclistas. Se a gente quer mexer na sociedade, temos que necessariamente passar por sua culturalização. E temos a nossa favor a tecnologia, que dá acesso a bens culturais com maior facilidade do que no passado. Antigamente, a montagem de um cineclube era coisa para heróis, hoje tu colocas um DVD debaixo do braço e sai mostrando os filmes. Hoje já temos óperas sendo apresentadas ao vivo em cinemas. O mundo é outro, temos que utilizá-lo.

Sul21: É difícil convencer alguém disso ou a arte ainda funciona do modo como Louis Armstrong definia o jazz: “If you gotta ask, you`ll never know”?

DVP: Sim, é difícil. Mas nós não devemos nos conformar com este corolário do “eu sei a importância que tem e se tu não sabes, nunca vais saber”. Desta forma, tu não convences o outro, tu não dás acesso à cultura. Imagina um professor dizendo ao aluno: “Tu nunca vais entender, meu filho!”. O ser humano muda, avança. Essa é a nossa missão fundamental.

Sul21: Pois é, estamos chegando à educação, não?

DVP: E chegamos… Por exemplo, o trabalhador da área da cultura ganha três vezes mais do que a média da indústria. Há um dado estarrecedor: na Bahia, 54% dos empregados ou são analfabetos ou tem primeiro grau incompleto. No setor cultural, este índice de analfabetismo cai para 34%. Não há estatística análoga para o RS, mas tenho certeza de que no RS o índice de 34% deve ser de gente que tem o terceiro grau incompleto e no entanto… O Acre, a Bahia e Pernambuco estão muito à frente do RS na área cultural. Há muito tempo eles trabalham com conceitos modernos e estão inseridos naquilo que o MinC criou em 2007: o Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura, que trabalha com todos esses conceitos de cadeia produtiva que expus.

Sul21:Para terminar, para que serve a SEDAC e a que veio?

DVP: A pergunta deve ser respondida fugindo das respostas que passam perto de expressões como “alimento da alma”, etc. A cultura deve ter as três dimensões que o MinC defende: o valor simbólico, o valor econômico e o valor de cidadania, de promotor de direitos. Esse é o nosso norte.

Sul21: Desejamos boa sorte.

DVP: Muito obrigado.

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Minha loucura de volta

Antes, gostava de dias de chuva. Na verdade, a chuva nunca me incomodou muito e não costumo mudar de planos em função dela. Ademais, gosto do barulho dos pneus dos carros na chuva e do reflexo do céu e das luzes no asfalto. Meu gosto pelos dias plúmbeos diminuiu quando as crianças eram pequenas. Como ir aos parques ou passear com eles na chuva? Passei anos torcendo contra a chuva, acompanhando a previsão do tempo, o diabo.

Agora, tardiamente, depois que o Bernardo já chegou aos 20 anos e a Bárbara aos 16, meu gosto pelos dias chuvosos retorna. Ontem, estava bobamente eufórico. Acho que a promessa de frio que vem com a chuva também a faz simpática a mim. Por isso, gosto dos dias secos e frios do inverno e de chuva no verão. O dia de ontem, de calma chuva ininterrupta, estava ótimo. Agora já há uma nesga de sol. Espero que não esquente muito.

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(Boa notícia:) A religião pode estar em risco de extinção em nove países

Nos países mais desenvolvidos, um cancro vai sendo extirpado

Da Hypescience, via Natal Antonini e Caminhando por fora e por dentro:

Um estudo utilizando dados do censo de diversos países mostra que a religião está fadada à extinção em nove nações. A pesquisa encontrou um aumento constante no número de pessoas sem qualquer filiação religiosa.

O modelo matemático da equipe tenta agora explicar a inter-relação entre o número dos não-religiosos e os motivos sociais para ser assim.

O resultado, apresentado no encontro da Sociedade Americana de Física, em Dallas, Estados Unidos, indica que é muito provável que a religião desapareça por completo nesses países, mas não há como ter 100% certeza do assunto.

Os pesquisadores utilizam dados estatísticos tentar explicar uma ampla gama de fenômenos físicos em que uma série de fatores desempenham um papel.
Um dos componentes da equipe, Daniel Abrams, da Universidade de Northwestern, Illinois, Estados Unidos, propôs um modelo semelhante em 2003 para

colocar uma base numérica por trás do declínio das línguas menos faladas do mundo.

Na sua essência, trata-se da competição entre os falantes de línguas diferentes e da “utilidade” de falar em vez da outra.

“A idéia é muito simples”, explica Richard Wiener, da Corporação de Pesquisa em Ciências Avançadas. “Grupos sociais que têm mais membros são mais atraentes do que as minorias para se fazer parte”.

A língua espanhola , por exemplo, é tida como de maior utilidade e confere mais status do que o idioma moribundo quíchua, proveniente do Peru. “Da mesma forma, há algum tipo de status ou de utilidade em ser um membro de uma religião ou não”, compara Weiner.

A equipe tomou dados do censo de um século atrás até hoje, de países em que afiliação religiosa é consultada: Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça.

“Em um grande número de democracias modernas secular, tem havido uma tendência na população em não se identificar com a religião. Na Holanda, o número foi de 40% e o percentual mais alto encontrado foi na República Tcheca: 60%”, conta Wiener.

Após ajustar os parâmetros de mérito relativo social e utilitarista de adesão à categoria “não-religiosa”, chegou-se à conclusão de que todos os países possuem comportamento semelhante.

Nas nove nações, a indicação encontrada foi a de que a religião trilha no caminho da extinção. “É um resultado sugestivo,” avalia Wiener. [BBC]

“É interessante que um modelo bastante simples captura os dados, e se essas ideias simples estão corretas, ele aponta para o fim da religião como conhecemos hoje. Claro que cada indivíduo é único, mas não se pode deixar de notar um comportamento semelhante em todos os lugares persquisados”, conclui.

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Que estudie lo que quiera (Curtíssima fábula moral dedicada a Jair Bolsonaro)

Dedicada a Jair Bolsonaro (PP-RJ)

Cuando Leopoldito era pequeño, quería ser bailarín y sus padres no lo dejaron porque eso era para putos.

Luego quiso ser “estilista-peluquero” y tampoco lo dejaron porque eso era para putos.

Luego quiso ser diseñador de modas y tampoco lo dejaron porque eso era para putos.

Ahora Leopoldito creció, es puto y no sabe hacer nada.

(Via anônimo)

~o~

O Ramiro Conceição cria sua réplica particular e poética:

Cuando Jair Bolsonaro era pequeño,
quería ser bailarín y sus padres no lo dejaron
porque eso era para putos.
Luego quiso ser “estilista-peluquero” y tampoco lo dejaron
porque eso era para putos.
Luego quiso ser diseñador de modas y tampoco lo dejaron
porque eso era para putos.
Ahora Jair Bolsonaro creció,
no es puto, pero deputado.

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Carta de um músico da OSESP sobre a OSB

“Prezados colegas,

Optei por me afastar das discussões sobre os acontecimentos na OSB, por motivos que todos conhecem. Mas lendo algumas mensagens e depois de uma conversa no último sábado com a Léa, preferi me manifestar sobre algumas imprecisões nas informações que os colegas têm sobre nossa reestruturação. Eu sou oboísta da Osesp há trinta anos, fui o presidente da Aposesp à época  da reestruturação e fiz minha dissertação de Mestrado sobre a Osesp,colocando o foco nesse período, tenho informações mais precisas.  Uma colega  menciona no Fórum da Aposesp quatro pontos pouco claros, que são:

1) O nosso maestro foi um dos escolhidos de uma lista tríplice feita pela orquestra.
2) Ele teve o respaldo da comissão da orquestra e de vários músicos para a reestruturação.
3) Nós tivemos 6 meses para nos prepararmos para o teste e a banca era de alto nível sendo que o maestro não fazia parte dessa avaliação.
4) Quem não quis fazer o teste ou não passou, não foi demitido e sim, continuou na Fundação Padre Anchieta tocando na Sinfonia Cultura.

É preciso lembrar aos colegas que o sistema de escolha por lista tríplice foi uma sugestão minha, copiando o modelo existente nas universidades estaduais paulistas e no Ministério Público. É necessário dizer, também, que o nome do Neschling já era sondado antes mesmo do falecimento do Eleazar de Carvalho, sendo que o Secretário de Cultura de então, Marcos Mendonça, já havia se encontrado com ele no Rio. Fizemos depois intenso “lobby” a favor do nome do Neschling, especialmente porque ele estava em alta aqui depois da gravação do “Il Guarany” com o Plácido Domingo.

Após a nomeação do Neschling, houve reuniões para tomarmos conhecimento da proposta do maestro e ver o que seria possível para que o processo fosse mais brando. O que pudemos influenciar, na verdade, foi a proposta de nomes para comporem a banca, pois a reavaliação se tornou inegociável. Tentamos fazer com que não houvesse audições, mas Neschling, mesmo podendo fazer um raio X e saber que músicos estavam ou não aptos para integrarem a nova estrutura de trabalho, ele quis que todos tivessem a mesma chance em audição, pois senão ele poderia ser acusado de ter feito uma escolha pessoal. Os músicos souberam que haveria audições pelo menos seis meses antes, mas teriam que trabalhar até lá. A sorte é que foram cancelados concertos, sendo o último em 23 de abril, e a partir daí tivemos mais tempo para a nossa preparação. O cancelamento dos concertos se deu porque muitos músicos estavam fazendo reuniões e movimentos para cancelar as audições e boicotar a reestruturação. Houve até maestros que se posicionaram contra, acusando o processo de desumano. Houve colegas da Osesp que tentaram destituir a mim e ao Marcelo Lopes da diretoria da Aposesp, com assembléias com muita emoção, desmaios simulados etc.

Fala-se  da composição das bancas nas provas da Osesp e da OSB. As provas da OSB contaram com nomes tão importantes como os que compuseram as bancas da Osesp, mas infelizmente alguns dos convidados cancelaram a vinda, depois dos protestos. Na época da nossa reestruturação isso também aconteceu, sendo que pelo menos um clarinetista italiano, o Carbonari, deixou de vir.  Abaixo farei alista dos convidados e os presentes às audições da OSB.

Há  também  uma informação equivocada sobre a participação do Neschling nas bancas. Ele não participou fisicamente, pois já havia fechado contratos para reger no exterior, mas trouxe pessoas de sua confiança, como o maestro Roman Brogli ,a Brigitte Bolliger, sua esposa à época e o Emilian Dascal, amigo violista de Saint Gallen. O Roberto era somente um dos membros da banca, não participando somente de minha audição. A banca entrava em contato ao fim de cada etapa das audições e fazia um relato completo ao Neschling sobre cada músico, e então ele decidia quem estava ou não aprovado.

A nossa sorte é que tivemos um grupo na Aposesp que apoiava uma mudança de rumo artístico na orquestra, algo raro na maioria das orquestras. Infelizmente a OSB é uma instituição privada, não tendo um lugar para onde transferir os que não fizessem audição, como fizeram a Osesp e a Filarmônica de MG.

Deve-se levar em consideração que um músico que tem ao menos 45 dias sem qualquer atividade na OSB, pudesse tocar o repertório exigido, nada mais do que um concerto tradicional e excertos, especialmente de obras executadas no ano anterior. Que músico não teria condições de se preparar nesse período? Talvez o colega que negligenciou sua profissão por longo tempo. Outros talvez não tenham concordado porque passariam a ter ensaios à tarde; outros porque teriam que sair de outras orquestras, pois o novo regimento exigiria exclusividade, com exceção das atividades pedagógicas. Outros simplesmente não concordam como pelo modo como foi comunicado o processo, ou como ele próprio desenvolvido. Outros porque já são aposentados e estão em idade avançada e sem ânimo para audicionar mais uma vez na vida.

Uma vantagem do processo da OSB em relação ao da Osesp foi a relação contratual. Lá os músicos já seriam contratados com CLT. Eu tive que desistir de um contrato com a Fundação Padre Anchieta, de 16 anos, CLT, com FGTS e 13°, adicional por tempo de serviço, entre outras vantagens, para embarcar num contrato frágil, sem todas vantagens acima mencionadas, que durou quase nove anos.

Pensem, também, nas mudanças positivas ocorridas nos últimos anos na OSB, promovidas pelos conselheiros, diretores administrativo e artístico. Antes eles ficavam de tempo em tempo com salários atrasados, girando em torno de R$ 2.000. Hoje os salários estão em dia e vão de R$ 9.000 a R$ 11.000. Agora atrasos não mais acontecem e eles têm uma programação muito boa. O  Roberto tem perfil empreendedor. Outros bons maestros, como o Karabtchevsky, que já teve força política, oportunidade e verba, no Municipal de São Paulo (orquestra com grande potencial, mas também com enormes deficiências) e em Porto Alegre, não conseguiu transformar esses grupos em sequer boas orquestras, não construiu teatro novo e a programação era muito limitada, de pouca dificuldade técnica, boa, mas fraca em comparação à da Osesp. Há jovens maestros que também são bons instrumentistas, que assumiram orquestras recentemente e não tinham projetos de requalificação artística, somente criando série pops e diziam que iriam manter todos os músicos, independentemente do nível deles, contando somente com a boa vontade e paciência para transformar água em vinho. Enfim, bom-mocismo e jeito “naive”. Nessas horas  concluindo esse ponto, os maiores empreendedores maestros no Brasil são o Neschling, o Mechetti e o Roberto. Eles são perfeitos? Não. Mas têm esse perfil positivo.

Uma coisa  que não pode ser ignorada é a vontade de uma parte considerável da OSB de fazer as audições, sendo que muitos têm sido assediados moralmente e ameaçados de forma violenta por outros colegas contrários ao processo. Também é estranho apoiar certas manifestações por jovens mal influenciados.

Muitos problemas de comunicação aconteceram dos dois lados, houve gente oportunista e outros realmente idealistas. É difícil não apoiar as mudanças artísticas propostas pela direção da OSB, mas também o colega músico se sente no dever de se manifestar apoiando seus colegas que considera injustiçados. O que deve ser evitado, sim, é agir de forma exagerada  emocional e apoiar atitudes pouco “profissionais”, mesmo quando se trata de uma orquestra jovem.

Arcadio

Jurados que vieram;
Michael Faust – flautista da Orquestra de Colônia
Ioan Cristian Braica – contrabaixista da Orquestra de Frankfurt
John Roderick MacDonald – trompetista da Gewandhaus de Leipzig
Mark Timmermann, percussionista do Metropolitan
Fred Pot – cellista da Concertgebow de Amsterdã
Yacov Haendel, engenheiro de gravação, Alemanha
Bart Vanderbogaard, spalla da Orquestra de Roterdan

Jurados que não vieram:
Blair Bollinger – trombonista da Orquestra da Filadélfia
Isaac Duarte – oboísta da Tonhalle de Zurique
Rebecca Young, violista da Filarmônica de NY
Charles Neidich, clarinetista, prof. da Juilliard School

Os da Osesp em 1997:
Issac Duarte
Afonso Venturieri
John Roderick MacDonald
Antonio Meneses
Regis Pasquier
Briget Bolliger
Herbert Meyer
Yves Brustaux
Roman Brogli
David Kreibel”

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Marlos Nobre e a crise na OSB: Carta Aberta a Roberto Minczuk

Assim como a Nelson Freire e Cristina Ortiz, que cancelaram seus concertos com a OSB, esse eu também respeito. Marlos Nobre é um enorme compositor e dá sua visão pessoal sobre a crise na OSB. Abaixo, a íntegra de sua Carta Aberta:

Via Marcelo Delacroix

Roberto, estou angustiado ao escrever esta carta, ao ver um regente como você envolvido nesta situação constrangedora e triste.

Você, Roberto, não teve ninguém perto de você para lhe abrir os olhos ante a imensa tolice que foi toda esta situação criada na Orquestra Sinfônica Brasileira?

Eu lhe escrevo como um Maestro e compositor que conheceu um Roberto ainda nos seus 10 a 12 anos de idade, participando do Concurso de Jovens Instrumentistas que organizei em 1974 nos “Concertos para a Juventude” na Rede Globo e Radio MEC. Nele, você se destacou como jovem talento, promissor o bastante para que eu lhe desse de presente uma trompa novinha em folha (a sua, na época era impraticável). Lembro de, anos depois, no seu concerto de estréia como regente da OSB no Rio, ter sido procurado pelo seu velho e honrado pai, com lágrimas nos olhos, me dizendo que aquela trompa estava guardada em um invólucro de vidro, emoldurando a sala de estar da sua casa paterna. Foi extremamente comovente então, ver seu pai visivelmente feliz vendo sua estreia como regente titular da grande e prestigiosa Orquestra Sinfônica Brasileira. Entre outras obras você então dirigiu a Sinfonia “Eroica” de Beethoven. E a nossa OSB respondeu à altura aos seus gestos, dando na ocasião uma intepretação memorável da obra.

São estes mesmos músicos que agora sofrem com a implacável perseguição e ira absolutamente incompreensíveis de você, como diretor da OSB.

Pois bem, Roberto, assim como seu pai, um velho e honrado músico, eu aprendi que não é possível fazer música senão com o espírito leve, aberto, ligado apenas no dever maior de intérprete que é o de revelar a grande mensagem de amor, compreensão universal e respeito mútuo que emanam de toda grande obra musical. Não é possível aos músicos renderem o máximo de suas qualidades, frente à arrogância, à falta de respeito, à imposição, à desumanidade, à inépcia humana de quem está a lhes impor e não a lhes dar condições de criar a maravilhosa mensagem da Música.

Roberto, aquele menino a quem dei uma trompa hoje é motivo da maior decepção que jamais tive em minha vida. Uma decepão profunda e irreversível. Você, e somente você, é o responsável por uma situação inédita na música sinfônica do Brasil, ao submeter uma orquestra inteira a um vexame público demitindo com requintes de crueldade e desrespeito pelo passado deles, mais da metade de seus componentes através de pretextos os mais inaceitáveis possíveis. Nem o pretexto de maior qualidade musical seriam justificação para um tal elevado grau de agressividade humana, artística e pessoal de que são vitimas nossos músicos da OSB. Você não respeita idade, serviços prestados, idealismo nem humanidade. Todos estes valores essenciais nas relações humanas e artísticas vão para o ar em suas mãos, neste momento triste da história da música no Brasil.

A destruição dos ideais que sempre foram a grande força da Orquestra Sinfônica Brasileira, Roberto, você não conseguirá. Aliás, vejo com tristeza que você está conseguindo se destruir de uma maneira tão perfeita, tão definitiva, tão veemente como jamais o maior inimigo seu seria capaz, nem teria tal grau de imaginação destrutiva.

Sua autodestruição me choca pois me parece que você, Roberto, entrou em tal processo negativo sem volta nem retorno, pois sequer se dá conta que, não só no Brasil, mas em qualquer país do mundo onde você entrar no palco, para dirigir uma orquestra, terá como resposta o desprezo e a desaprovação do público e do mundo musical.

Como compositor não desejo que nenhuma obra minha seja jamais executada por este remedo de Orquestra Sinfônica (que me recuso a chamar de OSB pois esta foi destruída irresponsavelmente por você), dirigida por você.

Não autorizo nenhuma obra minha tocada senão pela verdadeira ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA que aprendemos a amar, a reverenciar e a proteger, de desmandos de eventuais passageiros da desesperança, da agressão moral e do desrespeito.

MARLOS NOBRE – 9 de abril de 2011

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