Weblogger e E-mail Surpreendente

Publicado em 30 de setembro de 2003. Vejam como são as coisas…

Sexta-feira, num momento de loucura, resolvi tornar-me assinante do Weblogger. Por R$ 9,90 mensais, eu seria feliz, receberia suporte e serviços diferenciados. Como prêmio pela assinatura, imediatamente os comentários de meu blog deixaram de funcionar. O problema verificou-se na própria sexta e estendeu-se por todo o fim de semana. Quem deu o sinal foi minha irmã, que iria viajar, mas antes desejava deixar um carinho para a Bárbara nos comentários. Não conseguiu. No dia seguinte, telefonei para o Terra atrás do “suporte diferenciado” e eles lavaram as mãos: o Weblogger é uma parceria deles e eu teria que deixar uma mensagem no “Fale Conosco” do site. Até domingo à noite, eu tinha sido olimpicamente ignorado. Somente hoje, segunda-feira, recebi um atencioso e-mail dizendo que tudo estava regularizado. Vou testar.

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Porém, na madrugada de sábado para domingo, fui ver se havia novidades no blog e na caixa de correspondência. O blog continuava na mesma, mas alguns de meus 6 leitores haviam mandado e-mails na impossibilidade de comentários. Havia um novo entre eles… Era simplesmente de Fernando Monteiro, escritor brasileiro, autor do grande Aspades, ETs, etc. (1997). Ele agradecia uma pequena referência (de meia linha) que lhe havia feito no blog e dizia que tinha lido alguns de meus textos. Elogiou-os com imerecida sabedoria, demonstrando claramente que os lera e ainda desejou um feliz aniversário para Bárbara… Inflei, subi aos ares e, feliz como o diabo, dirigi-me ao berço como Linda Blair em “O Exorcista”. Acordei a Claudia para contar-lhe a novidade – ela fez ahã para tudo (no outro dia não lembrava de nada) – e fui dormir muito bem.

Aspades tem trajetória e argumento curiosos. Depois de escrevê-lo, o pernambucano Fernando Monteiro submeteu-o a diversas editoras brasileiras. A maioria delas nem se dignou a responder. Ele ficou a ver navios e, talvez inspirado por eles – os navios, bem entendido -, enviou seu livro a uma editora portuguesa. De lá, não somente recebeu atenção, recebeu também aceitação, e depois publicação e elogios. Só então a brasileira Record resolveu lançar o “inédito” em nosso país… Não fosse triste, daria para rir. Aspades ficou famoso em Portugal, enquanto nós nem imaginávamos sua existência.

A parte principal do livro é a biografia íntima de um cineasta fictício, Vasco Aspades do Carmo. A história pessoal de Aspades se embaralha com sua obra. Acabo de usar o verbo “embaralha” e este talvez nos faça pensar num livro obscuro e complicado, mas não é nada disto. Sua vida e intenções como criador nos são apresentadas em texto de primeira linha, elegante, poético e livre de lugares comuns. Depois, há uma narrativa que seria parte do espólio intelectual do cineasta, já morto. Ao final, há uma série de narrativas curtas, aparentemente desconectadas de Aspades, e que devem ter deixado os editores brasileiros transtornados, apesar de sua perfeita lógica interna. Para esta parte do livro, talvez seja melhor acolher o conselho de Isak Dinesen e aceitar que, em contato com literatura genuína, não é mau renunciar à total compreensão de um texto. O fato de ter sido multirejeitado diz muito sobre a inteligência de nossas editoras. Se fosse você, eu leria Aspades, ETs, etc. não só para estabelecer contato com a obra de Fernando Monteiro, mas para ter o ganho secundário de constatar até onde a burrice e a falta de convivência com a cultura nos pode levar.

Outros livros de Fernando Monteiro:
– A Cabeça no Fundo do Entulho (1999) – Prêmio Bravo! de Literatura
– T. E. Lawrence: Morte num Ano de Sombra (2000)
– A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro (2001)
– O Grau Graumann (2002)

(Um amigo bastante confiável recomendou-me os dois últimos, principalmente Graumann. Acabo de comprá-los.)

Abaixo, coloco trecho de uma entrevista com Fernando Monteiro, onde ele nos explica o surgimento de Aspades. Ciao, até a próxima.

Em outubro de 1995, num sábado, sentei diante do micro e comecei a escrever sobre uma pessoa fictícia, um português, cineasta, intelectual – assim como se iniciasse um ensaio sobre Antonioni, Resnais, Manuel de Oliveira… Vi o homem, claramente: podia dizer onde tinha nascido, como penteava o cabelo com a mão espalmada… e logo estavam vindo os títulos de alguns dos seus filmes. Escrevi 22 laudas nesse primeiro sábado – e, como estava estreando no manejo do computador, acionei algum comando errado… e apagaram-se todas as 22 páginas. Fiquei desesperado. Achava que tinha começado uma “obra-prima”, que tinha perdido o começo do livro definitivo… Entrei em pânico. E resolvi desistir da história, perdida, do cineasta fictício.

No sábado seguinte, no entanto, sentei de novo diante do teclado do micro, e, aí, mudando completamente o tom que havia usado na primeira tentativa, refiz um caminho de pedras, sem nada da sensação estranha daquelas 22 páginas escritas sem quase levantar da cadeira. Reencontrei o cineasta Vasco Aspades pelo caminho pedregoso do esforço cerebral e consciente, e ele foi voltando a tomar corpo diante de mim, eu sinceramente acreditando na “sua” vida, nos “seus” motivos, nas “suas” idéias sobre os filmes e a vida.

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Teoria Geral do Caos (Revisitada)

Post publicado em 19 de abril de 2006

Dizem os matemáticos e físicos que, se colocarmos em uma caixa de fundo plano um grupo de bolinhas em movimento chocando-se elasticamente entre si e as paredes, sem atrito contra a superfície, o resultado será o caos. Ou seja, será impossível calcular as posições futuras que as bolas tomarão. E elas nunca pararão de bater-se umas contra as outras e as paredes. Esta é uma das comprovações da Teoria do Caos. Agora vai outra.

Acordo. Penso confusamente há quanto tempo não mantenho relações sexuais e meio que me desespero. Procuro com o braço minha mulher na cama e ela não está mais lá. Levanto. Procuro-a com os olhos e vejo que ela está no computador. Diz que está ali desde às 4h15 da madrugada, que não conseguiu dormir preocupada com as coisas da construção da casa e com outras do escritório. Olho para ela e concluo que sua libido também não deve estar grande coisa e isto diminui um pouco minha culpa. Apenas nos abraçamos. Vamos tomar café e noto que o leite acabou, pois teima em negar-se a vir sozinho do supermercado até nossa geladeira. Anoto mentalmente que tenho que comprar leite, tenho que comprar leite, que as crianças irão dormir conosco à noite e que não tem leite em casa, não tem leite em casa. Reviso os e-mails e noto que meu filho escreveu um depoimento para mim no Orkut. Não gosto do Orkut e penso que ele deve ter escrito alguma ironia. Divertindo-me, tenho dificuldades em achar as porras dos depoimentos. Encontro-os e, não sem antes de dizer baixinho uns palavrões, tomo um susto: O Father me ensinou quase tudo o que sei sobre o que me interessa. Aquelas mesmas lágrimas voltam a marejar meus olhos. Mas como elas raramente saem, melhor esquecê-las. Como é que alguém pode ser amado vivendo com um tumulto desses na cabeça? Engano quase todo mundo, até meus sete leitores são iludidos, mas sei que minha mulher e irmã sabem que minha tranqüilidade é apenas uma atuação. Olho para a TV e vejo que o filme apresentado no começo de Os Sonhadores, de Bertolucci, é mesmo Paixões que Alucinam, da Samuel Fuller. Penso em como amei este filme e no fato de seu nome original ser Shock Corridor. Mais e-mails de gremistas tirando sarro da minha cara. Saímos de casa. Ligamos para a arquiteta e ficamos sabendo que a concretagem da laje será feita quarta-feira à tarde. À tarde? Mas o ideal seria fazer pela manhã! Ligamos para a empresa que trará as bombas e ficamos sabendo que a arquiteta demorou para combinar o horário e que aquele é um “encaixe”. Claudia implode. Reclama em voz muito alta no escritório ainda vazio e, com toda a educação, liga de novo para a arquiteta. Quando desliga, implode novamente, antes de ligar para a empresa, suplicando que a concretagem seja feita pela manhã. Ouço suas súplicas enquanto ouço a voz de nosso empreteiro no celular. É, seu Milton, não é o melhor horário, eu avisei, mas já que foi marcado assim… Vamos fazer assim. É a minha vez de dizer palavrões. Volto para minha sala. Escrevo um e-mail para a Leila e telefono para o Rafael a fim de me acalmar. Saio do escritório para buscar dinheiro para minha mãe. Reflito sobre a resistência física e financeira que uma pessoa velha tem que ter para suportar tantos remédios e que sempre lembro das senhas bancárias de minha mãe por um triz. Penso que tenho que ir à academia e baixar meu colesterol, mas tais pensamentos são desviados pela constatação da falta de dois e-mails em minha caixa de entrada. Alguém não mandou o texto semanal do Cidades Crônicas e um cliente não me respondeu um e-mail épico que lhe escrevi ontem. Por que as coisas não funcionam se a gente não pressiona? Funcionariam sozinhas sem a gente? Claro que não. Se a concretagem não for feita amanhã, o banco que financia a obra não terá nada para ver e não liberará a segunda parte do dinheiro. Bosta! Vejo uma mulher com um maravilhoso par de tetas pairantes atravessando a rua na minha frente e quero imediatamente transar com ela. Volto para o escritório e procuro os e-mails. Encontro um de minha mulher para a empresa de concretagem com cópia para mim. Daiane, conseguiste (pelo amor de Deus!) mudar o horário da nossa concretagem para o período da manhã? Sei que te ligaram somente na quinta à tardinha mas é muito importante! Não precisaríamos correr nenhum risco, se houvesse empenho de todos. Temos que obrigatoriamente completar uma etapa da obra por causa do financiamento que estamos recebendo e que está vinculado à finalização de cada uma das etapas. Peço-te encarecidamente que nos auxilie a resolver esta situação. Muito obrigada pela paciência e por tentar nos ajudar. Surtou de vez. Está pior do que eu. Lembro daquela psiquiatra que me disse que é importante que os casais façam planos juntos. Então este inferno deve ser o caminho correto. Entro no Internet Banking, que está lento, é claro. Pago uma conta e meu celular toca. Minha mãe diz que está sem dinheiro e que é para eu tirar dinheiro da sua conta e levar-lhe. Respondo-lhe que já fiz isso e que ela espere tranqüila, bem calminha. Mais um e-mail, este do Marcelo Backes. O cliente segue me ignorando. Penso que, quinta-feira, é a minha vez de publicar no Bombordo. Ah, merda. Nem consigo ler o blog, como vou publicar nele? Abro o site do Terra e leio que Tom Cruise irá comer a placenta de seu filho. Para dizer ou fazer isto, algo deve andar pouco nutritivo em sua carreira. Telefone. O cliente! Não, é um amigo pergunta se vou ao jogo. Digo-lhe que sim e combinamos um encontro lá. Almoço tranqüilo com as crianças. Levo a Bárbara à equitação. Pelo caminho, um ataque pelo celular. Ligam minha mulher, o empreiteiro, a arquiteta e o sócio da arquiteta, todos combinando o horário da concretagem. É quando liga também o cliente. Marcamos reunião para o dia seguinte. Para ter um momento de paz, vejo minha filha treinar. De novo o celular, desmarcam um compromisso meu que seria na tarde de amanhã, faço rapidamente sua substituição por outro. No final da aula, ela sobe o morro com o cavalo e some por meia hora. Quando volta, estou meio puto; ela diz que sobe para poder galopar sem ninguém incomodando nem ditando regras. Acho que ela é uma gracinha e que puxou ao pai. Chego em casa decidido a não pensar. Vamos todos ao jogo. Ganhamos por 4 a 0. Como a felicidade não tem graça por escrito, não descrevo nada aqui. Volto para casa, mando as crianças dormirem e me dá vontade de escrever este post.

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Teoria Geral do Caos

Post publicado em 30 de setembro de 2004

Dizem os matemáticos e físicos que, se colocarmos em uma caixa de fundo plano um grupo de bolinhas em movimento chocando-se elasticamente entre si e as paredes e sem atrito com a superfície, o resultado é o caos. Ou seja, é impossível calcular as posições futuras que as bolas tomarão. E elas nunca pararão de bater-se umas contra as outras e as paredes. Esta é uma das comprovações da Teoria do Caos. Agora vai outra.

Saio de casa pela manhã. Tenho uma agenda apertada e determinada. Enquanto dirijo para o centro, ligam para meu celular. Um corretor me diz que querem finalmente alugar minha sala e é preciso providenciar alguma documentação com urgência. Acho que dá para conseguir para hoje. Chego ao escritório e recebo um e-mail do meu sócio pedindo-me alguns folders antigos de nossa pequena empresa. Ele não quer os novos, acha os antigos servem melhor a suas intenções… Respondo-lhe que datam de 1997 e que duvido que tenhamos mais do que um exemplar no arquivo. Ouço meu celular miando, querendo me dizer que a bateria já já vai me deixar na mão. Entra um gremista na minha sala e tenho meu momento de alegria ao falar na nova derrota de seu time e nas delícias da segunda divisão. A pessoa com quem farei a primeira reunião do dia chega e me repassa algumas tarefas fáceis, mas que demandam tempo. Escrevo no Multiply para o Zadig. Tiro um xerox e vou à imobiliária. Fico sabendo que o pretendente quer que eu baixe o preço; deixo para pensar depois, mas na pindaíba em que estou já sei que aceitarei. O celular mia novamente, volto à empresa e começo a reescrever o folder no Word. Abro o blog e engulo feliz e minuciosamente todos os comentários. A primeira versão do folder que tento refazer é de matar. Entro no Internet Banking que está lento, então divirto-me com os novos posts da Mônica e do Fábio Ulanin. Pago as contas e meu celular mia. Não quero recarregá-lo porque já vou sair. Tenho que ir para o restaurante. Vou. Ligam-me no caminho: tem alguém que quer marcar uma festa lá. Ótimo, mas não consigo consultar a agenda, telefonar e dirigir ao mesmo tempo. Digo que ligo depois. Vejo uma mulher com um maravilhoso par de tetas pairantes atravessando a rua na minha frente e quero imediatamente transar com ela. O celular faz três vezes miau e morre. Chego ao restaurante e fico sabendo que estamos quase sem Cocas, pois ontem teve um inexplicável superconsumo, então peço para comprar mais, ponho o celular para carregar e lembro que tenho de ir ao correio mandar Uma Confraria de Tolos para a Rosele mas hoje não vai dar, um caminhão pára na frente e começa a tocar um jingle horroroso e laudatório ao candidato Ôôôônix Lorenzooooni pego o telefone fixo e acerto a festa para o dia 13 de outubro enquanto folheio o abandonado Paul Auster à minha frente volto ao folder e vejo que a coisa começa a tomar forma Diana escreveu to everyone no Multiply mas hoje não não não os clientes começam a chegar e todo sorridente os recebo e hoje é 29 dia do gnocchi Claudia me liga para dizer que vão cantar todas as árias de A Flauta Mágica no Teatro Renascença às 21h Ônix berra que mudar faz bem promete paz e canta coisas que estão longe de Mozart o corretor liga para dizer que a sala tem um problema no registro da água um cliente depois de comer me conta um filme em que tem uma espetacular cena de perseguição desmarcam um compromisso meu à tarde e rapidamente o substituo por outro vou ao banheiro e me dá vontade de escrever este post saio e sento no computador e escrevo enquanto almoço ligeiro tenho que revisar esta coisa à noite que termina assim mesmo sem ponto

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O Questionário de Proust (I) – Responde Fabrício Carpinejar

Em fevereiro de 2007, minha mãe estava no hospital e eu mal podia postar. Não tinha muito tempo. Passei a tarefa a alguns amigos e eles me responderam rapidamente, preenchendo o espaço deixado por mim.

Este é um questionário clássico. Já foi respondido por muitos escritores e, minutos atrás, distribuí alguns e-mails propondo-o a amigos. Expliquei que desejava fazer uma série com eles. Espero que dê certo. E já deu, como vocês lerão no terceiro parágrafo.

Sobre o nome do questionário: Proust respondeu-o duas vezes, em idades diversas e de forma inteiramente diferente. Eu o resumi um pouco, o original é imenso e eu temia que ninguém se motivasse a enfrentá-lo… Algumas perguntas são fáceis, outras são irritantes. É um jogo. A idéia veio daqui. Admiro demais Roberto Bolaño (1953-2003), um gênio.

Desnecessário apresentar o poeta Fabrício Carpinejar. Seu e-mail partiu às 22h39 e a resposta chegou às 22h57. Dezoito minutos. Inaugurar esta série com Fabro é uma enorme honra para mim e meu pequeno blog.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

Deploro quando vejo os meus defeitos nelas.

Como gostaria de morrer?

Sem marcador de página.

Qual é seu estado mental mais comum?

Excitado, prestes a dizer algum segredo.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Riobaldo: a dor o tornou sábio para a alegria de narrar.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Tomar banho nu numa festa.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Já morreu para mim.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Millôr Fernandes.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Vibrador, terminaria com meu complexo de inferioridade (risos).

Em quais ocasiões costuma mentir?

Quando a verdade não encontra saída.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Dormir colado ao cheiro de minha mulher. E acordar com o cheiro dela mais do que com o meu.

Qual é seu maior medo?

Morcegos.

Qual é seu maior ressentimento?

Perder amigos por incompreensão.

Que talento desejaria ter?

Tocar violino.

Qual é seu passatempo favorito?

Jogar futebol.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Aprenderia a fazer churrasco.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

O ressentimento.

Onde desejaria viver?

Vivo onde gosto.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Falar.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

Ouvir.

Quando e onde você foi mais feliz?

Quando minha filha leu um poema meu de um orelhão, com a voz de quem recém aprendeu a ler. Quando minha mulher disse que não mais conseguiria ficar longe de mim. Quando meu filho perguntou por que a couve era flor, se não cheirava bem.

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José e Pilar e os outros

Foi um belo fim-de-semana. Começou lá na sexta-feira com o jantar com a dupla Nikelen Witter e Luís Augusto Farinatti e terminou com o esplêndido documentário José e Pilar. Os dois casais foram entremeados por um filme notável: Código Desconhecido, de Michael Haneke, que, se não é o maior diretor de cinema vivo, merece figurar em qualquer lista que utilize a contundência como critério. Este Código e A Fita Branca são filmes de qualidade indiscutível, penso.

Mas voltemos à sexta-feira. Eu estava exausto de um dia de ar condicionado estragado no Sul21, porém a conversa inteligente, o vinho e a gentileza novamente viraram o jogo a favor de todos. Foi tudo muito agradável e civilizado. Minha filha Bárbara fez o resumo da noite dizendo que achava muito bom ouvir pessoas cultas conversarem. OK, só que acho que a sedução que exercemos sobre ela (já me incluí no “exercemos”, né?) é a de que falamos sobre política e temos posições que já são as dela. De certa forma, nós — apesar de não sermos nada grandiosos — mais ou menos justificamos aquilo uma forma de pensar o mundo. Fico me sentindo culpado por não ter feito referência nenhuma à visita do Ramiro Conceição lá no início do ano, mas aquela era uma fase triste de minha história recente…

José e Pilar não é um filme que fale muito da obra de Saramago, fala mais da repercussão dela, da rotina de um Nobel famoso e de seu relacionamento com a mulher amada, Pilar del Río. Olha, é um documentário estupendo como cinema. Resultado de quatro anos de filmagens — entre 2006 e 2009 — tem como pano de fundo a criação da romance A Viagem do Elefante e a doença do escritor. Saramago, absolutamente inteligente e erudito em suas palestras e livros, mostra uma face mais relaxada e íntima no excelente filme de Miguel Gonçalves Mendes. O filme me foi 100% satisfatório, mas tenho a impressão de que o diretor considerou que o público tivesse conhecimento prévio da vida do autor. Fica inexplicada a forma peculiar que tomaram com Saramago as eternas restrições portuguesas e brasileiras àqueles que se distinguem, fica inexplicado o justificado ódio com que Pilar del Río trata um jornalista português — merecia muito mais — , assim como a natureza de certo silêncio que o “Portugal oficial” tratou de cercar Saramago.

A mim isto não fez falta nenhuma, mas talvez um observador inexperiente ou marciano não entenda bem o gênero da estupidez envolvida. O fato é que “minhas mulheres” resumem muito bem tudo. Na saída do cinema, a Claudia, encantada com o filme, disse: “Como é bom a gente ouvir alguém brilhante que pensa parecido com a gente!”.

Finalizando: por falar em estupidez, o cinema nacional agora trata de investir na religião. Os trailers pré-José e Pilar foram todos dedicados a espécimes do novo cinema religioso nacional. Comparados aos argentinos, estamos cada vez mais fodidos — saímos da chanchada para a religião. Nada mais próximo. O contraste dos trailers com os 125 minutos seguintes de Saramago foi absolutamente desconcertante. Para sofrer este choque estético, vá ao Arteplex 2 de Porto Alegre antes que mudem.

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John Zorn e grupo no Festival de Marciac, França, 2010

Marc Ribot, guitarra
Jamie Saft, órgão
Trevor Dunn, baixo
Kenny Wollesen, vibrafone
Joey Baron, bateria
Cyro Baptista, percussão

Gosto muito de John Zorn. Simples assim.

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Dmitri Shostakovich (VII) – Os Anos Finais e a Fixação na Morte

As obras do período final da vida de Shostakovich foram compostas sobre um e apenas um assunto: a morte. Ele parecia inteiramente fixado no tema e não é exagero nenhum dizer-se que todas as obras, a partir do opus que comento abaixo, são fundamentalmente sobre a morte. E notem que algumas sinfonias e outras obras anteriores também o eram. O compositor sofreu um ataque cardíaco em 1966, mas desde antes já sofria de uma doença degenerativa que ainda hoje é tema de discussões médicas. A propósito, no dia 27 de setembro de 2006, dois dias após o centenário de seu nascimento, haveria em Londres um seminário sobre sua obra dentro do qual, entre eventos mais agradáveis, médicos se reuniriam com o público a fim de revelar new medical evidences. Ou seja, ninguém sabe exatamente do que sofria Shostakovich. O que se sabe é que, no final dos anos 50, o compositor deixara o piano por dores e descontrole dos movimentos de sua mão direita. Sabe-se mais: o grande Robert Craft, ao conhecer Shostakovich em 1962, disse que “ele era o mais tímido e nervoso ser humano que jamais conhecera”, que “passava todo o tempo mexendo com as mãos e ajeitando os óculos” e que “às vezes, parecia feliz para, no minuto seguinte, estar pronto para chorar”. Rostropovich declarou que, em seus anos finais, Shostakovich apenas desejava “a presença de uma pessoa de quem gostasse, sentada com ele em silêncio, em seu quarto”. Enquanto a doença e a angústia progrediam, Shostakovich era adulado e aclamado em todo o mundo. Não apenas Craft foi conhecê-lo, mas também Benjamim Britten ia visitá-lo e acabaram tão amigos que a Sinfonia Nº 14 é muito influenciada por Britten.

Estes paradoxos entre doença acrescida de angústia e homenagens de onde surgiam novas amizades permaneceram até final da vida de um compositor que seguia produzindo música da melhor qualidade, porém, repito, inteiramente voltada para a morte. A partir da Sinfonia Nº 11, o que temos é a maior e melhor produção de música lúgubre, com explosões de alegria e sarcasmo aqui e ali. Dentro deste espírito, seguem as obras-primas.

Sinfonia Nº 14, Op. 135 (1969)

A Sinfonia Nº 14 — espécie de ciclo de canções — foi dedicada a Britten, que a estreou em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte. O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em A la Santé, An Delvig e A Morte do Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em Les Attentives, ao grotesco em Réponse des Cosaques Zaporogues e à evocação dramática de Loreley. É uma música que trabalha para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para torná-la mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema, mas sempre a ouvi em russo. Então, já que não entendo esta língua, tenho que ouvi-la ao mesmo tempo em que leio uma tradução dos poemas. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis. Não está entre minhas obras preferidas, porém são indiscutíveis seus méritos musicais e sua extrema sinceridade. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca e a estranha Conclusão (Schluss-Stück) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e — puxa vida — muito, mas muito final.

Quarteto Nº 13, Op. 138 (1970)

Um pouco menos funéreo que a Sinfonia Nº 14, este quarteto foi escrito nos intervalos do tratamento ortopédico que conseguiu devolver-lhe do parte do movimento das mãos e antes do segundo ataque cardíaco. O décimo-terceiro quarteto é um longo e triste adágio de cerca de vinte minutos. O quarteto foi dedicado ao violista Vadim Borisovsky, do Quarteto Beethoven, e a viola não somente abre o quarteto como é seu instrumento principal. Trata-se de um belo quarteto cuja tranquilidade só é quebrada por um pequeno scherzando estranhamente aparentado do bebop (sim, isso mesmo).

Sinfonia Nº 15, Op. 141 (1971)

Sem dúvida, a Sinfonia Nº 15 é uma de minhas preferidas no gênero. É difícil estabelecer um conteúdo programático para ela. Trata-se de uma música muito viva, com colorido orquestral atraente, temas facilmente assimiláveis e nada triviais, clímax e pausas meditativas que empolgam e mantém o ouvinte permanentemente atento. E com os contrastes inesperados característicos de Shostakovich. Parece um roteiro de Shakespeare passado à música, trazendo o trágico ao festivo, empurrando a reflexão para junto da zombaria. Bom, já viram que sou um apaixonado desta sinfonia. O primeiro movimento (Allegretto) é uma curiosidade por manter sempre ativo o motivo da cavalgada da abertura Guilherme Tell, de Rossini, e pela participação incessante da percussão. O segundo movimento (Adagio) é circunspecto. Os metais trazem uma melodia sombria, para depois o violoncelo completá-la com um solo dilacerante, a cujas cores será acrescida, mais adiante, a ressonância do contrabaixo. Um novo Alegretto surge repentinamente do Adagio, retomando o clima do primeiro movimento, mas desta vez somos levados pelos solos do fagote, violino, clarinete e flautim. O movimento final, outro adagio, é enigmático. A simbologia está presente com a apresentação de imediato do Prenúncio da Morte, composto por Wagner para a Tetralogia do Anel. O ouvinte wagneriano fica desconcertado ao escutar de imediato esta música conhecida, parece tratar-se de um equívoco, de um erro de partitura. Ao pesado motivo de Wagner são contrapostos temas executados por setores “mais leves” da orquestra, porém, a todo instante, o sinistro aviso retorna e, mais adiante, os metais refletirão angustiada exasperação… A sinfonia esvai-se em delicados sons de percussão, deixando um ponto de interrogação no ar. É desconcertante. O significado do Prenúncio da Morte é óbvio, porém, o que significam a percussão, a orquestração e as melodias jocosas que o cercam? Uma simples experiência sinfônica? Impossível. O desejo de felicidade de alguém cuja vida se encerra? Ou, voltando a Shakespeare, que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa (*)? Porém, a significação, a intenção exata de uma obra instrumental é tão importante? Ou seria mais inteligente fazer como fez Shostakovich, levando-nos bem próximo ao irrespondível para nos abandonar por lá?

(*) Macbeth, William Shakespeare.

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Vamos indiciar a mula-alfa Luiz Carlos Prates?

É questão gravíssima mesmo. Acho que devemos pressionar para que este imbecil fascista do Prates ao menos sirva para alguma coisa. O diálogo é entre a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), Magno Malta (PR-ES) e Paulo Paim (PT-RS). Preconceito é crime, não?

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Telma Scherer, o ciclista e as confusões da Feira do Livro

Na última sexta-feira, entre 18 e 20 horas, enquanto fazia a performance “Não alimente o escritor“, presa a uma casinha de cachorro, a escritora e performer Telma Scherer foi enxotada da Feira com alguma truculência. Com problemas financeiros reais, muito triste — como afirma com escarrada clareza no vídeo abaixo — e não sendo absolutamente doida varrida, Telma acabou vítima da Brigada Militar. Foi levada num camburão para um posto da instituição, sob a vaga acusação de perturbar a ordem e desobedecer a ordem pública, legal, etc.

Eu já sabia do fato, mas só dei-lhe a devida importância quando, segunda-feira, vi um ciclista ser expulso da Feira do Livro com agressividade bem maior do que a utilizada contra Telma Scherer. O menino estava atrapalhando mesmo, caminhando entre as barracas empurrando sua bicicleta e até justificava algumas reclamações de quem se chocava contra a bicicleta. Merecia, no máximo, uma advertência da autoridade, pois, imaginemos, ele estava com aquele capacete meio ridículo dos ciclistas e óculos escuros, talvez viesse de longe e com pouco dinheiro para comprar alguns pockets. Era caso para um tratamento indulgente e educado. Porém o que ocorreu é que ele foi literalmente abalroado por um brigadiano que veio de longe aos gritos de “Para o lado, para o lado”. Como o menino não reagiu imediatamente — custou a ser dar conta que a gritaria era com ele — , o homem seguiu gritando e empurrou o ciclista, que antes apenas olhava com interesse os livros com sua bicicleta. Foi uma cena feia.

Ora, nós estamos numa Feira do Livro. Há estátua de Drummond e Quintana, havia escritores dando palestras sobre ficção russa e um americano falava sobre Clarice Lispector. É um espaço cultural e, goste-se ou não, aprove-se ou não, o anônimo ciclista e a escritora deprimida (com razão, com razão) que resolveu expressar-se em praça pública, devem ser tratados com a gentileza e civilidade que o evento pressupõe. É incrível que após 56 anos anos de Feira não haja um protocolo entre a Câmara Riograndense do Livro e a Brigada Militar para que seus soldados não tratem o povo da Feira como se fossem gente  armada vendendo drogas, apesar de alguns títulos que vi. É incrível que após 56 anos ainda não foi criado um espaço de arte e diálogo a poucos metros de distância da programação oficial. É uma total falta de sensilidade.

Eu tenho críticas à Feira do livro — a oferta de livros muito rotineiros a tornam uma enorme, comum e nauseante livraria média; há nela cada vez mais um perfume de quermesse; há alunos de escolas fazendo passeios bobos sem aproveitar o MARGS, o Memorial, o Erico Verissimo, a Casa de Cultura e o Santander Cultural que estão ao lado — , mas sou grande apreciador das muitas palestras e dos balaios. Como experiente frequentador de um evento que este ano teve 1,7 milhão de pessoas e recorde de vendas (411 mil exemplares vendidos numa capital média como a nossa), afirmo com segurança que tanto Telma quando meu ciclista não atrapalham em absoluto e sim dão um colorido peculiar de protesto e casualidade que deveria ser uma das qualidades da Feira do Livro.

Acho que a Brigada Militar está mais acostumada ao MST que, sem cobertura maior da imprensa, deve receber ordens e detenções sem a menor explicação… Também sou de opinião que a Câmara faz um belo trabalho que deve ser melhorado e que não tem relação com os abusos da polícia da desgovernadora. E, bem, acho que nem preciso declarar minha solidariedade à bonita Telma nem ao anônimo ciclista, né? Só não sei se eles voltarão à Feira, se acham mesmo que ela serve para a promoção da leitura e que é um “espaço cultural”.

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Marcelo Adnet ironiza eleitores elitistas e golpistas

É muito bom, mas o final é muito especial. O vídeo é do ComédiaMTV. Se a imagem não aparecer abaixo, clique aqui.

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Quero ser interessante

Este é o melhor título que encontrei para a apresentação de hoje à noite da Orquesta Típica Fernández Fierro. É um grupo trovejante. O ritmo e a formação são para o tango, mas são cheios de riffs mais ou menos copiados de Stravinsky e Bartók, acrescidos de algumas citações de Piazzolla. O cantor é engraçadinho e, coitado, não canta nada. Tudo isso ao custo de R$ 40,00. A única coisa boa é que o show é curto, durando apenas uns 50 minutos. Aproximadamente R$ 1,00 por minuto de tortura.

A postura é a do rock n`roll, com muita gente séria, cabeluda e de óculos escuros. Muita pose já vista: um cantor de costas para a plateia, alguns rostos expressando sofrimento nos agressivos “corais de bandoneóns” e outros um ar descompromissado. A sonoridade, normalmente agradável nos grupos com esta formação, é toldada por alguma desafinação e bagunça.

Para ser interessante, há que fazer mais do que crivar a própria música de grifes. Olha, pode-se apenas tocar bem e a gente já fica feliz, mas não era o caso. No caso da OTFF, os caras escrevem péssima música e ainda erram. Difícil achar algo para elogiar.

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Vertical Lines, do Leather Hands

Som… Som?
Melhor não tê-lo!
Mas se não o tenho
Como sabê-lo?
Se não o tenho
Que de fartura
Quanto silêncio
Como os queremos!

Adaptação do Poema Enjoadinho, de Vinícius de Moraes.

Em outras palavras, melhor desligar o som.

Ou clique aqui para ver.

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Carioca, de Chico Buarque

Post publicado em 11 de maio de 2006.

(Antes do Chico, vamos responder à pergunta proposta no post anterior. Foi este cara.)

Sim, é um trabalho muito bem acabado e Chico agrega-se ao notável grupo de MPB da gravadora Biscoito Fino. Não há lugar melhor para ele. Mas não esperem obras-primas como as do passado. Nem é esta a intenção, creio eu. Ser dublê de escritor e compositor popular exige algumas limitações. Carioca é um trabalho clássico, agradável e bom, que só avança na inclusão de um pequeno rap na segunda melhor canção do CD, Ode aos Ratos, com melodia de Edu Lobo. De resto, é um Chico parecido com o de seu último trabalho. Um Chico que não vai tocar no rádio, mas que todas as pessoas interessadas em MPB conhecerão e assobiarão. Um CD de arranjos perfeitamente convencionais, mas com letras de qualidade superior, a gentileza habitual da casa.

Fico meio nervoso quando me deparo com um CD de apenas trinta e sete minutos de duração. Não dá vontade de comprar. Talvez acostumado com os de música erudita e jazz, acho pouco. E, na primeira audição, tomei um susto ao ouvir o dueto com Mônica Salmaso, pois sabia que aquela era a última canção do disco. Já? É demais exigir que Budapeste seja seguido por uma grande obra musical. Afinal, apesar do que dizem as mulheres, Chico é apenas um ser humano; talvez menor do que a imaginação de alguns deseja e certamente maior do que os poucos hostis querem.

O que me surpreende é a forma como os compositores de música popular envelhecem mal. Se Chico bipartiu sua carreira tornando-se um excelente escritor, sua música parece cada vez mais parida a fórceps. Em vez das composições ficarem mais fáceis e naturais, em vez da construção de uma linguagem e de um estilo, os compositores de música popular ficam, com o tempo, encalacrados. O estranho é que os compositores eruditos fazem o caminho contrário, indo paralelamente e na mesma direção do que seria uma vida ideal: sempre melhorando e evoluindo. Parece que a música popular acompanha o envelhecimento físico de seus protagonistas, enquanto que a erudita evolui plenamente com o tempo. Por quê? Talvez Tom Jobim seja daquelas exceções que sirvam – clichê dos clichês – para confirmar a regra.

(A Claudia chega por trás de mim e, em sua permanente campanha para me desacreditar junto a meus sete leitores, esclarece a questão. Diz ela que a música popular vive da emoção e a erudita da técnica. E que o fenômeno Tom Jobim é facilmente explicado por tratar-se de um autor de melodias e harmonias muito mais elaboradas do que as utilizadas pelo comum dos compositores. Claudinha complementa a questão dizendo que, com o tempo, a emoção se acomoda e a técnica se aprimora. Por que não a conheci antes? Fecho parênteses.)

Outro fato que me surpreende é a ordem das músicas. Será que é puro acaso a colocação das melhores músicas todas juntas? Ouvi o disco umas sete vezes e estou convicto que o melhor está entre as faixas de 1 a 5 e de 10 a 12, ou seja, as melhores ficam no começo e no final, para garantir uma boa primeira e última impressões. As faixas de 6 a 9 baixam o nível do trabalho e me causaram algum mau humor, com destaque para a tentativa desesperada do arranjador Luiz Cláudio Ramos de salvar a melodia de As Atrizes com uma instrumentação pesada e cinematográfica. Se isto lhe é permitido pelo tema da canção, resulta em algo difícil de se suportar sem estendermos a mão ao player em busca da próxima faixa. É difícil compreender a insistência dos arranjadores de música popular quando chamam a atenção para o que há de ruim num trabalho em vez de desviar nossa atenção com improvisos instrumentais e um contigente mais leve.

Perfeitas são as canções Outros Sonhos, Ode aos Ratos, Dura na Queda, Leve e a campeã Imagina, com a participação da grande Mônica Salmaso. A propósito, se alguém puder me explicar porque uma melodia tão etérea e sonhadora ganhou um final de touradas, faça-o.

Ou seja, o mundo não vai mudar, nem o Brasil. Guinga continuará sendo o meu número um de hoje e as rádios continuarão nos torturando com a música-tema do filme Closer, Blower´s Daughter (de Damien Rice), devidamente retorcida por Ana Carolina e “Seu” Jorge. Um desastre. Mais detalhes aqui. É isso aííííííííí…

As Canções de Carioca:

01. Subúrbio (Chico Buarque)
02. Outros Sonhos (Chico Buarque)
03. Ode aos Ratos (Edu Lobo / Chico Buarque)
04. Dura na Queda (Chico Buarque)
05. Porque Era Ela, Porque Era Eu (Chico Buarque)
06. As Atrizes (Chico Buarque)
07. Ela Faz Cinema (Chico Buarque)
08. Bolero Blues (Jorge Helder / Chico Buarque)
09. Renata Maria (Ivan Lins / Chico Buarque)
10. Leve (Carlinhos Vergueiro / Chico Buarque)
11. Sempre (Chico Buarque)
12. Imagina (Tom Jobim / Chico Buarque)

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A Whiter Shade of Pale, com o Procol Harum

Há décadas que eu me divirto com esta música. Hoje a @aiaiai63 e o @inagaki estavam trocando tuitadas e rindo das roupas e do clipe do primeiro filme. Apesar da observação da época — conhecida de mim, que nasci em 1957 — , fico com o segundo filme.

A Whiter Shade of Pale é a canção de estreia dos ingleses do Procol Harum. O compacto foi lançado em 12 de maio de 1967 e chegou à primeira colocação dentre as músicas mais ouvidas na Inglaterra em 8 de junho de 1967, permanecendo lá por seis semanas. Sem muita promoção, atingiu a quinta posição nas paradas americanas.

São conhecidas mais de 900 gravações por outros artistas. A música foi incluída em inúmeras compilações de sucessos da década de 60 e foi usada em trilhas sonoras de muitos filmes, como The Big Chill, Purple Haze, Breaking the Waves, The Boat That Rocked e, com direção de Martin Scorsese, New York Stories. Outras versões da canção são utilizadas em outros filmes como, por exemplo, a de King Curtis em Withnail and I e a de Annie Lennox em The Net.

Os créditos de composição originais foram somente para Gary Brooker e Keith Reid. Em 30 de julho de 2009, Matthew Fisher ganhou, nos tribunais, direitos de co-autoria.

Enjoy!

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A cantora que pensa, e mais

Não sou um cara muito atento à MPB e há poucos artistas que têm o poder de me mobilizar para ouvir seus trabalhos. Talvez sejam eles Hermeto Pascoal, Guinga, Mônica Salmaso e Chico Buarque. Posso então dizer que 2007 foi um grande ano: em 4 meses tivemos o último Guinga, Casa de Villa e agora chega esta perfeição de Mônica Salmaso, Noites de Gala, Samba na Rua.

Muita gente já fez trabalhos interpretando Chico Buarque, mas ninguém chegou a este nível. Em primeiro lugar, ao ver a relação de catorze canções, vemos que Mônica decidiu-se finalmente a enfrentar alguns riscos. Construção, música que originalmente fora insuperavelmente arranjada por Rogério Duprat para o próprio Chico, é o maior deles. Porém, se Mônica e o grupo Pau Brasil – que a acompanha em todas as faixas – não supera o original, a nova interpretação é muito boa e não deixa de lado as dissonâncias e as estranhezas que a canção exige.

Como é Mônica? Ora, é uma cantora de grande técnica e de um virtuosismo não voltado ao espetacular e sim à expressão. Tem voz belíssima, meio entubada, perfeita para as canções intimistas e inadequada às músicas “pra cima”. Sim, é um enorme elogio, mas vá ouvir o CD antes de reclamar que exagero.

Voltando ao CD. Nele há alguns achados como a desconhecida e malandríssima Logo eu e a pouco executada Você você que Chico escreveu para um neto que ainda não havia nascido e que recebe de Mônica Salmaso uma interpretação de indescritível carinho para com seu filho Theo, que se encontrava na sua barriga de sete meses à época da gravação. É arrepiante. Além das citadas, o resto do CD, sempre com o criativo acompanhamento do grupo Pau Brasil – pontuado de silêncios, acústico, presente mas sem pontificar e com um extraordinários violonista e pianista – tem seus melhores momentos em Morena dos Olhos D`Água, Ciranda da Bailarina (em extraordinário registro com bem humoradas marimbas), Partido Alto, Suburbano Coração e O Velho Francisco. Mas as outras não são nada esquecíveis.

Se você está atrás de milagres, esqueça Bento XVI e fique com Mônica Salmaso. Pode comprar hoje! Se não gostar, por favor, não me avise, pois eu ficarei muito desconfiado.

Posso contar uma história? Eu estava assistindo um show de Mônica Salmaso em Parati. Terminado o espetáculo – e foi mesmo um espetáculo -, resolvi comprar um CD dela que não tinha e entrei na fila de autógrafos. OK, eu sou um filha-da-puta e, nos cinco minutos em que fiquei na fila pensei em dizer algo muito marcante a ela, que é uma mulher comunicativa e simpaticíssima. Foram cinco minutos de considerável trabalho para meu limitado cérebro. Pensei ter encontrado a solução quando ecoei uma frase de Adoniran Barbosa que Mônica recém dividira de forma brilhante, conseguindo que sua tristeza e humor (que esqueci) ficasse longe do patético, permanecendo dentro do habitat poético que merecia. Resumi e decorei direitinho o que devia dizer e, quando entreguei-lhe o CD para a assinatura e depois de dizer meu nome, despejei meu discurso. O efeito foi monumental. Ela se levantou subitamente como se o botão de eject tivesse sido abruptamente acionado, deu a volta na mesa e lançou-se sobre mim num daqueles abraços em que a gente fica balançando como se fosse um João Bobo ou como um reencontro de velhos e íntimos amigos, separados há uma década.

— Ai, que felicidade ouvir isso. Aquele trecho é dificílimo, é o centro, o cerne da música e foi o maior trabalho entender como devia ser cantada. Fiquei anos tentando! Você é músico?

E ficamos conversando por alguns minutos, pouquíssimos para mim e longos para o resto da fila que ficou comentando quem era aquele cara que tinha alugado a Mônica… Depois lhe disse rindo que viera a Parati só para ouvi-la. Ela deu uma gargalhada:

– Ô gaúcho mentiroso. Você veio pra FLIP!

Claro, claro.

Oh, eu sei, sei que não deveria contar sem constrangimento uma história em que brilho tanto, mas, acreditem, eu ESTOU constrangido, mas é que me orgulha tanto, sabe…? 

Mas houve outro lançamento relevante. A cantora portuguesa Teresa Salgueiro, do Madredeus, reaparece muito bem, muito bem mesmo, em seu segundo trabalho solo. Ela canta 22 clássicos da MPB de todos os tempos e surpreende por várias razões. A primeira pelo fato de ela ter esquecido em algum lugar seu sotaque português. Sim, alguma coisa ficou – ninguém no Brasil canta “eu voU pra Maracangália, eu voU” – e às vezes o sotaque volta, mas, pô, o que conseguiu foi outro milagre. A segunda é que a voz de Teresa vestiu-se de profana ao abandonar inteiramente a impostação quase clássica exigida pelo grupo português, mostrando que ela pode e faz o que quer. Você imagina Teresa Salgueiro saracoteando, dançando? Bem, se imagina, deve ter uma vida interior muito tumultuada.

Aqui também temos um extraordinário grupo de músicos trabalhando em favor da música. Trata-se do Septeto de João Cristal (prazer em conhecer). O trabalho dos caras é genial. O CD de Teresa está vendendo muito na Europa, principalmente na Alemanha e entre os ibéricos. Gostaria de saber o que pensam os portugueses de sua cantora, agora com sotaque brasileiro. Penso em quando Elis Regina chegou ao Rio de Janeiro e, para horror de alguns gaúchos, começou a chiar…

Se você tiver grana para apenas um CD, compre o de Mônica. Mas se der parcelar no cartão, leve os dois. O Milton garante, apesar repelir quaisquer protestos.

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Exclusivo: o papa em Barcelona

O papa Ratz e suas aventuras pela Catalunha! Não perca! Se a imagem não aparecer, clique aqui.

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A fé que atrasa o mundo

O escritor britânico Christopher Hitchens falou sobre o mal que as religiões causam à política internacional.

Por Gabriel Brust

Na noite em que lançou no Brasil seu mais novo livro, o polêmico escritor Christopher Hitchens despejou uma hora de críticas à fé religiosa em sua palestra no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Para o britânico, que também participou de sessão de autógrafos de Deus Não é Grande – Como a Religião Envenena Tudo, decidir entre a razão e o divino é uma questão urgente.

Embora o debate seja antigo, para Hitchens o momento histórico e a conjuntura internacional — com regimes baseados em religião se multiplicando pelo mundo — exige que ele volte à pauta.

— Precisamos decidir se estamos aqui pelo resultado das leis da Biologia, ou segundo um plano divino, que não tem nada a ver com nossa vontade — afirmou o escritor.

Conhecido por criticar figuras incontestáveis no imaginário político internacional, como a Princesa Diana, Hitchens não tem dúvida sobre qual a decisão a ser tomada.

— A religião foi a tentativa primeira e mais primitiva de tentar descobrir o que é a verdade e o que é o bem. Ela surgiu numa época em que sabíamos muito pouco, na infância aterrorizada de nossa espécie — explicou o autor.

Implacável com a questão religiosa, o autor acabou deixando de lado o debate político, pelo qual ficou mais conhecido em livros como Amor, Pobreza e Guerra e Cartas a Um Jovem Contestador. Ontem, os argumentos de Hitchens foram todos contra a religião. Com o conhecimento de quem trabalhou muito tempo como correspondente internacional, traçou uma espécie de relatório da geopolítica religiosa. No Irã, uma teocracia. Nos Estados Unidos, cristãos influenciando o ensino. Na Rússia, a Igreja Ortodoxa pregando o ódio aos judeus.

O autor diz que o argumento de que a religião forneceu bases morais para o mundo é falso:

— A Bíblia diz que somos feitos de pó, que nascemos do pecado, mas que Deus nos ama. Isso é um truque sadomasoquista, que não se destina à saúde psíquica e moral.

Hitchens não obteve resposta ao lançar um desafio ao público:

— Desafio alguém a me mostrar uma ação moral feita por um crente que não possa ser repetida por um não-crente.

Para finalizar, esclareceu que não é um ateu, mas um antiateísta, alguém que não crê em Deus e também não acha que seria bom se ele existisse:

— Sou um antiateísta, me sinto melhor sabendo que não existe um déspota celeste que nega a nossa liberdade.

P.S.- A propósito, Gabriel, não seria antiteísta em vez de antiateísta?

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Mstislav Rostropovich (1927-2007)

Eu o vi apenas uma vez, em Buenos Aires, no Colón. Tocou os dois concertos de Haydn, solando e regendo. Como bis, alguns movimentos das Suítes para Violoncelo Solo de Bach. Nada mal para quem só teve dinheiro para entrar na galeria mais alta do Colón, de onde podia ver sua reluzente careca tirando um som estupendo do instrumento — e era algo que parecia bater no nosso ouvido e, curiosamente, também no estômago. Mexia-se muito, mas parecia fazer o que fazia com extrema facilidade. Parecia uma brincadeira. Talvez as maiores obras para violoncelo do século XX tenham sido dedicadas e estreadas por Rostropovich. Os dois concertos de Shostakovich, a notável Sinfonia Concertante de Prokofiev — ambos professores seus no Conservatório de Moscou — e a Sonata de Britten foram escritas para ele. Penderecki também batizou um de seus “solos” para violoncelo com um lacônico Para Slava. Tímido, gentil, sério e inteligente, foi antes de tudo um enorme músico.

Era daquela classe de semideuses que hoje parece em vias de extinção e da qual faziam parte Rubinstein, Heifetz, Gilels, Richter e Richter, Oistrakh, Arrau, Carlos Kleiber, Karajan, Leonhardt (este vivo, e como!), Harnoncourt (idem!), Klemperer, Walter, Furtwangler e poucos outros. Com o tempo, surgiu o maestro Rostropovich. Um pouco entediado de tocar cello, queria expandir seu repertório, dizia com simplicidade. E é como regente que faz algumas das melhores gravações dos anos 90. Um belo dia de 1989, após a queda do muro e sem aviso prévio, esse cidadão, que dizia e sabia rir de si mesmo e do mundo, viaja a Berlim, caminha com seu cello até o muro, senta-se e dá um concerto para quem estivesse por ali (foto acima). As Suítes de Bach, claro. A explicação? “Fiz o que meu coração mandou. Era um ajuste de contas”. Abaixo, Slava por Salvador Dali.

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Apesar de terem razão, ecologistas são chatos e preguiçosos

Geralmente as sacolas plásticas têm mais conteúdo do que os ambientalistas.

Ricardo Henriques, vulgo @calhau

Não sei o motivo pelo qual tanta gente chata se interessa por ecologia. É algo complicado. Conheço uns legais, mas afirmo que são minoria. Parece que certos temas são perseguidos por chatos. É algo a ser analisado e combatido, porque o meio ambiente… Não, eu não!

Eu talvez tenha feito a minha parte ao apoiar as decisões daqueles que projetaram nossa casa de forma um pouco diferente e original. Construímos com dificuldades ainda não totalmente pagas um pequeno edifício de dois apartamentos e terraço de uso comum. No primeiro andar ficamos nós, no de cima a família do irmão de minha mulher — que não mora mais lá — , e no térreo é a garagem e os quartos dos guris (Bernardo e Bárbara). Na verdade, quem concebeu as novidades mais econômicas e corretas do ponto de vista ecológico foi o irmão da Claudia, que é engenheiro — essa raça cheia de fantasia, principalmente a que de são objetivos. A construção foi lenta, mas as características que vou tentar descrever abaixo tiveram pouca influência na demora. O que influenciou mesmo foram “os recursos” e a necessidade de obter empréstimos em meio a obra.

O que há de diferente em nossa nova casa:

1. As paredes duplas.

Objetivo: manter o conforto térmico sem gastar carradas com ar condicionado.

Construir um prédio com operários brasileiros e com especificações diferentes das habituais é uma coisa para loucos. A nossa construção possui paredes duplas de tijolos maciços. Entre elas, fica o melhor isolante térmico, o ar. Mas os pedreiros demonstraram sempre uma insopitável vontade de preencher o ar entre elas com cimento… Ai, meu Jisuis, até todas as possibilidades de acesso ao vão serem fechadas, tivemos que conviver com a ameaça de ver o conforto térmico planejado ir pelos ares ou ser tapado por cimento. Não foi uma vez que um pedreiro começou a virar baldes de cimento naquele espaço inútil…

Resultado prático: Nulo. Quando esquenta, os habitantes (inclusive eu) abrem as janelas. Quando esfria, tudo é fechado. As paredes duplas são boicotadas pelos habitantes.

2. O telhado de grama.

Objetivo: o mesmo anterior.

Muito comum na Europa e principalmente nos países nórdicos, o telhado de grama fica sobre o terraço impermeabilizado, acrescido de uma geomembrana, utilizada também em lagos artificiais. A grama, assim como nós, precisa manter sua temperatura estável. Para sobreviver, utiliza sua umidade. Claro que, se tivermos um gramado sobre a casa, quem estiver em baixo receberá o ganho secundário de não ter uma potencial estufa em seu teto. Protegido desta forma e com muita fé na ciência — ou seja, com as quatro paredes laterais e o teto livre da canícula — , o irmão da Claudia não previu a colocação de nenhum ar condicionado, não fazendo nem os buracos nas paredes para recebê-los.. Nós, mais céticos, aprovamos as idéias, mas mantivemos nossos buracos… Afinal, nossos termostatos parecem ter sido regulados na Suécia; odiamos o calor excessivo. A curiosidade é que o banco financiador, o Banrisul, por pura ignorância, não aprova projetos com telhados de grama. Apesar de toda a documentação apresentada, eles morrem de medo de infiltrações na construção que lhes servirá de garantia em caso de não pagamento. Ou seja, cidadãos comuns como nós estamos mais avançados do que o estabelecido pelos “técnicos” do banco financiador.

Resultado: Nulo, enquanto não nos livrarmos do Banrisul.

3. Reaproveitamento da água.

Objetivo: óbvio.

A maior parte da água consumida em uma casa é aquela que finaliza nossos nros. 1 e 2 diários ou, sendo mais claro, vai para as privadas. A água das privadas de nosso prédio será aquela que já foi utilizada em nossos banhos, na lavagem de nossa louça, etc. Esta é mais uma idéia do irmão da Claudia – o qual até tem nome, chama-se Natal, uma tragédia que herdou. Ele é engenheiro mecânico e trabalha no DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgotos) de Porto Alegre, conhece estas coisas de hidráulica. Porém, toda vez que um técnico vai em nossa casa fazer algum reparo, pergunta:

— Isto foi projetado pelo professor Pardal?

Resultado: acho que funciona.

4. Sombreamento de áreas do pátio com trepadeiras e plantas frutíferas.

Objetivo: produzir sombra no verão e deixar passar o sol no inverno.

No pátio, temos maracujás e parreira e bergamoteira e alfazemas e trepadeiras e manjericão para o pesto. Com o tempo, descobri que os corretos ecologistas são bons de promessa, não de botar água nas plantas. Sobra sempre para mim que, menos ambientalista e mais político, nego-me a ter um DOI-CODI de plantas em casa. Extingui de vez a Central de Torturas, que só se mantém no terraço, a fim de que sirva de lição para a humanidade não provocar outros holocaustos. Quando começaram as mortes, fui obrigado a assumir toda a plantação — menos a do terraço. Os ecologistas me veem da janela e, por vezes, abanam ou puxam conversa. Só.

Resultado: há alguma felicidade entre as plantas, mas não é devida a quem planejou a coisa.

5. Composteiras e outras bichices.

Os ecologistas cansaram, outros ficaram com medo de ratos e outros animais ferozes. Nunca saíram dos planos.

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O conto que não queria calar

No tempo em que as pessoas comentavam e, portanto, interagiam mais em blogs, os leitores resolveram encrencar com Para não falar de todas as mulheres. Disseram que o conto não tinha final… E três escreveram finais para minha história. Outros também fizeram o mesmo, como dá para deduzir pelos comentários. Eu mesmo escrevi um depois, mas rejeitei. Abaixo, o post com as continuações e sua interessante caixa de comentários.

Alguns de vocês leram Para não falar de todas essas mulheres que publiquei há mais ou menos 10 dias. Por iniciativa do Valter Ferraz, houve três continuações do conto, a dele, a da Adelaide Amorim e a da Lulu.

Isto nunca tinha me acontecido e fico entre o homenageado, o feliz e o desconcertado. Os personagens Luana e Juliano me vieram assim de surpresa, durante um almoço com minha filha. Não tenho grande intimidade com eles. Duas horas depois, enquanto esperava o final de sua aula de equitação, escrevi o conto – que é curtíssimo – em menos de uma hora. Uma semana depois, mesmo achando que o o conto estava completo, rascunhei uma continuação, mas não fiquei satisfeito. Abaixo, estão, em ordem alfabética, a continuação da Adelaide, e a do Valter. A da Lulu vem depois, pois continua a do Valter.

~. ~

Adelaide Amorim deu-lhe continuidade:

Para não falar de todas essas mulheres (continuação)

Luana saiu do restaurante Velho Quintino convencida de que Juliano não passava de um menino mimado, incapaz de perceber as coisas em suas devidas proporções – e, pior que tudo, sem o mínimo senso de humor. Onde já se viu, fazer beicinho por causa de um fora dado em plena hora de almoço num quilo comercial?! Não devia nem ter começado, que aquele não era o lugar adequado. O que é que ele estava pensando? Por quem a tomaria, afinal? Devia ter percebido logo que daquele jeito conseguiria no máximo seu desdém, e que talvez mesmo esse já fosse demais. Na verdade, gostaria de nem estar mais remoendo essa historinha insossa.

Houve quem disfarçadamente acompanhasse o diálogo dos dois, e a olhasse com uma censura velada no olhar. Percebeu isso durante o trajeto em frente ao bufê, enquanto faziam seus pratos. Danem-se os outros. Tinha sido honesta, isso ninguém podia discutir. Dissera a ele tudo que fizera por ouvir. Como dizia sua avó, quem diz o que quer, ouve o que não quer. Um cara que mal tinha começado a fazer barba, estreando o primeiro emprego, imaginar que ela lhe daria atenção, era demais. Não se tocava, o Juliano, francamente. Depois, seus planos de futuro estavam traçados, e não havia de ser por causa de um fedelho daqueles que iria desistir de seus projetos. Crescesse e aparecesse. Que é que um carinha daqueles podia oferecer a uma mulher igual a ela, apta a fazer a felicidade de um homem maduro, experiente e realizado?

Trabalhou o resto da tarde tomada de certo mau humor, como se o almoço não lhe tivesse caído muito bem. Uma dorzinha de cabeça persistente piorava ainda mais seu mal-estar. E mesmo sem se aperceber disso, a presença de Juliano a incomodava como um sapato apertado. Acabou esquecendo o assunto com o telefonema de um amigo jornalista, recém-chegado de uma cidade do interior, cheio de novidades interessantes para contar. Combinaram almoçar no dia seguinte e isso restabeleceu sua disposição habitual.

Às sete chegou a seu apartamento, carregando um sanduíche natural da lanchonete ao lado do trabalho, como fazia quase sempre. Cheia de fome, ligou a secretária para ouvir os recados, enquanto largava os sapatos na área de serviço, deixava a bolsa no cabide do quarto e tirava o relógio e os anéis para lavar as mãos.

Pois não é que a primeira mensagem vinha na voz do boboca do Juliano? Num primeiro impulso, não quis escutar o recado. Deixou a torneira da pia toda aberta, e o ruído da água se misturou com a voz na fita. Só fechou torneira quando o recado chegou ao fim, para ouvir as outras mensagens gravadas. Eram só duas, uma de sua mãe e outra de uma amiga com quem conversava quase todas as noites. Tinha esperado outro recado numa outra voz, mas não havia mais nada para ouvir. Sentou à frente do sanduíche e percebeu que havia perdido a fome.

Desapontada, voltou à sala e tornou a ligar a secretária. Dessa vez ouviu a voz contida de Juliano como se estivessem sentados lado a lado. “Desculpe aquela história lá no restaurante. Não queria chatear você. Você tinha razão. Acho que até devo agradecer pela reação, mesmo que no momento tenha me parecido brusca demais. Foi como uma sacudida, que me abriu os olhos para o mundo que, na minha idade, está cheio de possibilidades que eu, feito um bobo, iria jogar fora. Afinal, ganhei o dia e talvez tenha ganho a minha vida. Obrigado mesmo, valeu, Luana.

Mas não se leve tão a sério. Mesmo que consiga fisgar seu velho milionário, nada impede que a gente possa se divertir juntos. Ainda não estou na idade de assumir compromissos, mas sou um cara cheio de saúde, com uma queda por mulheres gostosinhas. Além disso, você sabe, às vezes a idade e as preocupações que o dinheiro traz prejudicam um pouco o desempenho de um homem nas horas mais críticas.

Pense nisso, querida. Conte comigo. Beijos.”

Desligou a secretária e o clique da tecla pareceu estalar dentro de sua cabeça. A dor tinha voltado, o apetite fora embora de vez e ela empurrou a almofada do sofá para longe. Palhaço, rosnou, irritada. Palhaço, repetiu com menos força. Cafajeste, disse, um pouco mais alto, e repetiu lentamente, escandindo as sílabas.

Da janela chegava um resto da claridade do verão, que ainda não tinha terminado.

~. ~

A do Valter Ferraz é totalmente diferente e começa citando o comentário que Cláudio Costa escreveu em meu blog:

Existem muitas ‘Luanas’ por aí, dessas que sonham com homens mais velhos. Têm explicações racionais – “os mais velhos tratam-nos melhor” – talvez para esconder motivos ocultos, desejos outros. Nem é necessário recorrer ao austríaco Sigmund para pensar nos conflitos edipianos de ‘luanas’ e ‘julianos’: ela, a menina, busca proteção, carinho e experiência; ele, meninão, carece de colo, compreensão e ternura. Sexo também, claro, pois Éros já habita em nós desde os cueiros. Troca, compartilhamento, doação? Nem pensar! São versões de uma novela antiga. Diria, por pura exibição: père-versions. Voltemos à mesa e brindemos: – Evoé!

O grupo saiu do restaurante na noite fria. Andavam apressados, conversavam animadamente. Menos Juliano. Ía pensando nas palavras de Luana. O quê exatamente ela esperava da vida, meu Deus do céu! pensou quase em voz alta. Há tempo sentia-se apaixonado pela garota. Vinha testando as possibilidades. Naquela noite, depois do vinho animara-se. E ela lhe parecia tão acessível. Enganara-se. Completamente. Ela não lhe deixou esperança alguma. Cortou em meio às palavras que ele começava a lhe dirigir. E sua alegria esfuziante como se nada mais tivesse importância, pelo ao menos a mesma importância que ele emprestava ao fato, achatava-o de encontro aos próprios sentimentos. Reduziam-no a um nada. Um boboca sonhador. À frente em meio ao grupo barulhento, Luana seguia sua vida. Completamente esquecida do quanto magoara e ferira os sentimentos do jovem Juliano. O que ele buscava exatamente nela? Bom, pensou: amor, carinho e companheirismo. Estava farto daquelas saídas alegres, descompromissadas, inúteis. E queria sexo, também. Mas não o sexo fácil que se consegue em qualquer esquina. Não aquele sexo que não resiste à segunda tentativa. Aquele em que a parceira diz não, querendo dizer venha, me come. Não aquele em que burocratica e insensivelmente as mãos vão caminhando, descobrindo, tateando e abrem caminho para o sexo penetrante, impessoal e competente. Um gozo, um boa noite e uma nota de cinquenta. Não, não era esse o sexo que queria. Era aquele de uma noite inteira de dedicação, sem pressa e sem objetivos a ser atendidos, em que o único compromisso é ser feliz, por quanto mais tempo for possível. E tinham as palavras carinhosas, a cabeça descansando no seu peito, o ressonar tranquilo da fêmea que satisfeita dormece. Era isso o que ele queria. O único sentimento bom que tinha e Luana desprezara. Ah! mulheres! Tinha muito o que aprender o jovem Juliano. Resolveu naquela noite ao virar a esquina e se despedir do grupo que tudo agora seria diferente. Muito diverso do que fora até alí. Na calçada do outro lado um saxofone toca um jazz. Invade-lhe a alma. Ele estanca, decide: vai entrar, beber e ouvir. Foi o que fez.

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E a Lulu – que casualmente chama-se Luana Chnaiderman de Almeida — segue assim:

Será que ele lhe era insuportável? Sim, era.

E que idéia, convidá-la para sair, daquele jeito, ali, na fila do buffet. Era melhor ser o mais direta possível nessas horas, porque senão os caras não entendem, e grudam. Deixar tudo claro de uma vez por todas, com simpatia: um cinema, ok; mais que isso, não, já aviso logo de cara que é para não criar expectativa. E a cara que ele fez? Cara de cão sem dono – pior, cão abandonado pelo dono, no meio da chuva, no dia de natal. Vai ficar com essa cara? Ele nem respondeu… dava logo para ver que ele queria uma História. De amor, sessão da tarde, pipoca, essas chatices de menino. Ah… mas como são tolos esses moleques. Imagina se ela ia se apaixonar por um menino como ele? Tenha dó! E além disso ele não tirava os olhos do decote dela, nunca, jamais. Parecia falar com o pingente que caía entre os seios, não com ela, Luana. Não fora para aquilo que ela tinha feito a cirurgia nos seios, não… queria coisas melhores, e haveria de ter. Havia prometido a si mesma: chega de sair com moleques. E respirava aliviada, queria grandes histórias, com Homens Interessantes.

Queria um homem mais velho, que lhe soubesse tocar, grisalho, as mãos calejadas, o coração calejado, que pagasse a conta e abrisse a porta do carro, lhe ensinasse sobre a vida e vinhos e tomasse as decisões. Que soubesse ouvir e falar, tivesse casa, dinheiro, carro. Que lhe contasse histórias de longe e de perto, de outros lugares, que soubesse línguas e fosse educado. Queria uma voz rouca, uma vida já construída, um porto seguro, um olhar cansado e sábio, vivido. Nada dessas besteirinhas apaixonadas de alguém que tem ainda cara de menino. Um Juliano… Nada de dedicação sem fim, de carinho, de ficar olhando enquanto ela dormisse. Queria uma certa indiferença e uma certa malícia, uma certa autoridade de homem mais velho. Sem essa de gente que fica sonhando acordada, olhando olhando, que perde a fala e mal sabe fazer um convite decente. Queria que lhe agarrassem, que lhe arrebatassem, que viessem e dissessem: vem, é por aqui. E a deixassem sem fôlego.

Melhor ser direta nessas horas. Falar logo de uma vez: só saio com homens mais velhos. E ele amuou que parecia que ia derreter por baixo da mesa. Havia até gente reparando, ela notou. E depois, sim, ela falara sem parar, porque o cão abandonado e sem dono era cada vez mais insuportável.

Pô, nunca teve um convite recusado na vida? Ele murchara, foi minguando, não conversava mais com ninguém, até olharam feio para ela. E ela tinha culpa? O olhar dele quase batia no chão, e ele nem quis sair depois com a turma. Ficou sozinho, ela reparou, e tinha como não reparar?

Lembrou do collie que tivera na infância, ele tinha uns olhos tristes assim. O collie morreu. E Luana foi ficando com mais raiva. Quanto maior a raiva, mais falava, jogava o cabelo para lá e para cá, como fazia quando ficava nervosa. A turma inteira conversando e o Juliano lá quieto, sorvendo as palavras… Não podia mais ver aquele menino, diria logo no dia seguinte: Juliano, não podemos nem ser amigos. Não aguento essa sua cara de bebê chorão. Não ia conseguir dormir. Não havia jeito. Decidiu ouvir um jazz, tomar um uísque, antes de voltar para casa. Sempre há homens interessantes e mais velhos, nesses buracos onde se ouve jazz.

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Minha continuação era diferente, talvez mais desesperada por eu ter fixado minha atenção em Juliano durante uma tarde terrível no escritório em que travalhavam… Um dia publico, tá?

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Comentários do blog anterior (primeiro está o comentário, depois o autor; tudo de trás para frente, OK?):

Milton, são 4:00hs da madruga, chove muito aqui na praia. Venho lá do Ery. O cara estraçalhou. Botou um Billy Joel na história. Aí fica difícil, homem. Comecei a brincadeira sem saber que iria dar nisso aqui. Nem poderia imaginar os caminhos que as palavras percorreriam. Ainda faltam alguns amigos a contar suas versões. Mas o que lí até agora me deixou num misto de alegria incontida, vontade de partilhar emoções, mostrar para amigos que não sabem o que é partilhar de um ambiente como esses. Fico muito grato a você por generosamente ter aceito que eu me apropriasse de tua criação, colocasse teus personagens em minha história. Acho que o resultado compensa todo o atrevimento e ousadia de minha parte. Convido a todos a lerem o que o Ery escreveu. Só um lembrete: cliquem no player lá embaixo e leiam o texto com a música ao fundo, imperdível. Parabéns, Ery. Abraço, Milton

valter ferraz Jun 28 2007

Milton, em princípio não me senti capaz. Mas ao aceitar, avistei um desafio muito bom por ser uma experiência inédita pra mim. Os participantes até agora deram mesmo um banho. Concluí minha “tentativa” como sendo uma continuação da sua idéia. Postei hoje. A brincadeira está ótima. E fico cada vez mais curioso pelo “seu final”. Abraço.

Ery Jun 27 2007

Olá Milton Estou surpresa, com tudo que está rendendo a idéia de continuar o seu conto. Já se pronunciam quase que tratados sobre uma questão que me parecia tão simples. Se duvidar, isso ainda vira um assunto de pesquisa científica…rs E sendo franca, a idéia que eu tive era que cada um dos convidados continuasse a estória de onde o anterior parou. Mas o pessoal decidiu dar várias continuações para o seu conto inicial. De qualquer forma, tá muito legal ler todo este pessoal que se propôs a participar da “brincadeira”. Mas por favor, depois das continuações dos amigos blogueiros, gostaria muito de ver a sua. Vou ficar na expectativa. Abraço Leila

Leila Larson Jun 27 2007

Interessante essa história com várias possibilidades. Prova que há várias maneiras de interpretar um discurso. A minha, em relação à Luana, é que ela simplesmente não quer ficar com o rapaz em questão. Se ele lhe agradasse, ela não ia vir a priori com essa história de gostar de homem mais velho. Pelo menos é o que parece. E aí, Sr. Milton? Quanto tempo! Apareça lá na Estante, estou com saudades suas! Beijão, Ana

Ana Lúcia Merege Jun 27 2007

Milton, publique a continuação!!!! 🙂

Serbão Jun 27 2007

Milton, não é por nada não mas é a melhor versão de tudo o que apareceu até agora. O Lord coloca Billie Holiday com My Old flame entremeando o texto, assim ele quebra as nossas pernas. Grandioso. Só isso. Acho que eu estava certo quando comecei esse trem aqui. E um parabéns para aLeila que foi quem teve a idéia. Abraço forte

valter ferraz Jun 27 2007

Milton, Conforme compromisso assumido com o amigo Valter, acabo de postar minha continuação lá no Lord. Abração

lord broken pottery Jun 27 2007

Geeenteee!! que engraçado que tá tudo isso aqui! 🙂 uma brincadeira é uma brincadeira é uma brincadeira. 🙂 só para constar, meu espírito ao entrar no jogo não foi interpretativo, nem literário, porque eu não sou escritora. No espírito de homenagem, ao Milton e ao Valter. Queria dizer isso. e dizer que está divertido, e que os comentários sobre a Luana e o Juliano estão ótimos. e a mim, essa Luana minha xará está dando uma certa aflição, confesso! 🙂 FC, que bonito que ficou seu texto! agora falta a SUA continuação, né Milton? beijinho, lulu.

lulu Jun 27 2007

Vou ver se aqui cabe… Amigos e Amantes As coisas são como são, acontecem porque isso faz parte. A arte é um separar de pequenas coisas, tratadas como se nelas se desse uma metamorfose. Procuremos deixar passar de crisálida a borboleta a história da Juliana, afinal bem simples. Ela é uma rapariga nova e independente, vê-se exactamente como a vêem: é uma presa que anda à caça das suas próprias experiências e já não tem grandes ilusões. Verem-na como presa desenvolveu nela um sentido subtil de ironia, como é inteligente brinca sem ofender nem aleijar e aproveita o que se aproveita. É sempre bom ter relações saudáveis. Acaba de receber uma mensagem no atendedor, a voz de Juliano. Juliano & Luana, se montassem uma empresa, até que não estaria mal, pensou, como quem quer rir, sorri. O amigo estava a dar a volta brilhantemente ao “fora” que lhe dera, era capaz de vir a ter sorte… Agora para a estória dum inventado narrador omnisciente, à procura de dar por concluída a conclusão de ter pegado numa continuação… Luana anda mesmo com um homem mais velho, é delicado e sensível mas não lhe abre a porta do carro nem lhe alimenta vícios, a não ser que o vício dela seja ele. Ela, sem romantismo, vê a história deles, não como uma estória, essa vou eu resumir e deixo-a inacabada: uma história de amor. Começada há dois anos num bar, ouvindo jazz. A música baixou num swing de harmonias e sensibilidades dum trio brilhante, ao lado dela estava ele. Poisou-lhe a mão numa mão que ela abandonara sobre o balcão, piscara-lhe um olho. Ao piscar do olhou retirou a mão que pegou no copo, beberam e continuaram até ao final da música a ouvir o gozo dum perfeita improvisação. Depois ele seduzira-a, nem tinha como contar, fora brilhante. Convidara-a a ir com ele, para lhe poder mostrar uma “colecção de poemas”. Fora e continuavam… amigos e amantes. Abraços.

FC Jun 26 2007

Milton, a Aninha postou um comentário aqui e ainda não apareceu. Dá prá dar uma olhada aí? abração

valter ferraz Jun 26 2007

Luana, que tem 24 anos, exagerou propositadamente ao falar de homens de 40 anos. Talvez ela pense nos 30 anos. Ela tem 24. Juliano tem 22 (uma criança !). Para Luana o sexo vem depois, não é entretenimento para já. Pretende um homem com experiência da vida, em que possa confiar, que case com ela, um homem que pareça apto a ser amigo de sua mulher pela vida fora. É verdade, Luana simpatiza com Juliano. Tem pena. Ele é demasiado novo. Afasta-o para lá. Quando já na rua os quatro seguem ainda juntos só ela fala. Vai excitada, lutando secretamente e mais uma vez vitoriosa, seguindo pela linha que traçou para si. Luana deseja ter o seu lar, e que nele os seus filhos tenham um bom pai, um homem que pela vida fora mostre ser hábil na luta contra as armadilhas da vida.

Fernando M-P Jun 26 2007

Milton, você plantou um pé de contos e ele está entrando na floração! Uma beleza. Todo mundo dando opinião, imaginando e criando novos caminhos. Parece o jardim do Borges, não? 😉 Beijos e parabéns pela boa mão…

adelaide Jun 26 2007

Além de bem escritos, os diferentes capítulos demonstram as possibilidades infinitas de variações sobre um mesmo tema: o tema da busca, da incompletude, do ilógico nas relações afetivas. Cada um de nós, quando menos espera, topa com aspectos desconhecidos dentre de si. Por isso os romances, as novelas, os contos, enfim “A PALAVRA” nos atravessa e desencadeia associações multifacetadas. A Luana, que parecia do Milton, não é mais dele: agora existem outras, fruto da imaginação de cada leitor/escritor… Isso é bonito, não? A propósito, publiquei hoje um texto de um mineiro: À procura da mulher bem resolvida.

Cláudio Costa Jun 26 2007

Penso de maneira semelhante ao Luciano Lazzari. Espero que a Luana páre com essa bobagem demodê de submestimar os mais jovens e descubra que bom mesmo é crescer junto com alguém da mesma idade. Meninas que buscam por homens mais velhos tendem a ser inseguras de si. Ela rejeita o Juliano porque vê nele a própria insegurança, mas ele, ao menos, teve a coragem de convidá-la pra sair, ainda que de um jeito desastrado.

LucianA Jun 26 2007

Engraçado. Não era uma tese e não tenho uma posição definida anti ou pro Luana, nem pensei em minha opinião. Registrei o fato ficcional e fui embora. A mim, não interessam os motivos de Luana, nem os inventei… Talvez esteja apaixonada por outro homem, mais velho ou não; talvez goste de mulheres e use de subterfúgios; talvez apenas ache Juliano um chato; talvez ele seja muito feio ou talvez ela tenha lhe dito a verdade e só goste de caras maduros… O que sei? Será que gosto tanto de Tchekhov que aprendi a desaparecer sem julgar ninguém? Francamente, não tenho opinião sobre a história, ela é apenas um flagrante que acho muito expressivo. Será que devo mesmo mostrar a continuidade que escrevi ou deixo assim? Agora *num* sei mesmo!

Milton Ribeiro Jun 26 2007

Ficaram bem boas. Agora vamos ao pai da criança!

Eduardo.P.L Jun 26 2007

Mirto: Há alguns dias, tenho acompanhado essa movimentação, fui inclusive convidada por um dos participantes a quem dei minha sincera opinião. Mas, como todos sabem email é coisa confidencial. e essa confidencialidade só pode ser quebrada se for uma questão de… digamos, honra ou morte:-)as you know. Mando – ou talvez não seja necessário, pois ela está nas entrelinhas deste comment – minha opinião, fraquíssima e desprovida de valor, pois não tenho cacife nem autoridade para tanto. Mas, de qualquer forma, quero dizer ao querido Claudio Costa que fez uma leitura de forma lacaniana (isso é um perigo, pois Lacan é importante demais) que não vi na resposta de Luana nenhuma, mas nem sequer sombra de *père_version*. Nem do atrativo En nom du père?-))) hohoho. Sabe, gente, e Claudio também, (aliás não estou dizendo nenhuma novidade devem todos saber disso), de repente quando uma mulher diz *não* a um homem é simplesmente um *NÃO* , um dado cultural: todos nós temos o direito de dizer *NÃO*. Se o narrador escreveu que ela apontou a causa de sua negativa: a preferência por homens mais velhos, isso tanto pode ser ou não, também um dado cultural, dar uma ‘aliviada’ a quem leva o nosso *não*. Porque, Claudio, meu querido Doktor Claudio a quem muito admiro, pras cabeças pensantes , nem sempre um *não* oculta outras razões que não a de ser simplesmente… um não. É ou não é? C’est pas vrai? Tal como o autor, o Milton, que é autor dse excelentes textos, contos, e até quase-romances ou seja matéria ficional, eu me sinto algo, um ninquinho assim desconcertada.;-0) Fazer o que? Um beijo a todos e espero que o Milton continue a produzir os bons textos que cria. E dou parabéns a quem aceitou o repto e escreveu..sobre um *não* que a moça tinha todo o direito dizer. Vai que o Juliano, ou Luciano, enfim o HOMEM, tivese er…halitose? Na verdade, ou melhor na ficção, o narrador trata é do efeito desse *não*. Esse pra mim é o *xis* da questão: o que se faz para lidar com um *NÃO* e se iso for da parte de uma mulher, então…:-) mas em todo caso, é como o ser humano (todos nós) lida com o não-poder. Quando esbarra com a fronteira da vontade do outro. Repito, em minha fraquíssima e pobre, paupérrima opinião. Beijo, portanto, para todos do *sequitur* – para o autor do original e outro muito especial para o querido, repito, Dr. Claudio Costa:-) Meg P.S Agora que é sempre legal, não deixar passar uma oportunidade *lúdica*. ah isso é. Mais beijos

Meg (Sub Rosa) Jun 26 2007

Olha, a história principal eu tinha lido a uns dias e tinha achado muito interessante, o problema pra mim são as continuações. Gostei apenas a do Valter. As mulheres foram muito rudes com o rapaz. Não entenderam nem quiseram entender sua situação, assim também como eu não quero entender a situação da Luana. Por que alguém mais velho? Pra dar segurança, dinheiro, estrutura, experência, cultura? Uma pergunta. Ela procura um parceiro pra usurpar os prazeres do corpo e da alma ou um pai? Porque pra mim quem me da dinheiro, experiência, cultura, segurança é meu pai, a menos que fosse orfão e sofresse de todas essas carências não iria procurar por isso. Acho que essa de procurar um tiozinho da sukita não está com nada, ela tem mais e que fica com o garotão, curtir um motel, aproveitarem as férias juntos, quem sabe casar, sofrer a pressão pra adquirirem uma casa e construirem uma família, e ambos crescerem juntos. Assim funciona a ordem natural das coisas, ou ela vai querer um sujeito que quando ela tiver seus 40 anos ele vai estar com 60 (trocando suas fraudas quem sabe) o filho vai achar que se trata do avô e não de um pai, vai crescer em meio a toda liberdade que quiser (sem a proteção do pai), sem ser protegido das adversidades do mundo, quem sabe esse filho(a) vai ser uma Luana no futuro, pois vai carecer muito de um pai, ou quem sabe vai ser um delinquente. Acho que Luana não é a mulher que mereça um Juliano, e ele devesse seguir adiante e entender que o mundo está cheio de pessoas com lesões psíquicas e que mais cedo ou mais tarde ele iria encontrar alguém que se encaixasse em seu perfil. E como diz o ditado: “Enquanto não encontra a pessoa certa, se divirta com as erradas”; É assim que vivi ate agora quando finalmente encontrei a minha pessoa certa. Abraço Milton

Luciano Lazzari Jun 26 2007

Eu já tinha lido todos. Tô querendo saber o que aconteceu depois que os dois entraram no bar. Ao som do jazz. Minha imaginação tá coçando, alguém escreva a continuação aí, please. Abraço. Janaína.

Janaína Jun 26 2007

Milton, acho que ficou muito legal agora ainda mais, com todos na sequência. Quem ler vai ter uma idéia geral, sem quebra. Agora, desconcertado? Fica não, tio. Só quis te homenagear pois o teu conto mexeu comigo. Acho que ainda vem coisa boa por aí. Peço licença para colar pois o pessoal estava pedindo a sequência toda para os novos posts. Posso? Abraço forte, tchê!

valter ferraz Jun 26 2007

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