Bamboletras recomenda Pagu, Leibniz e mais Modernismo

Bamboletras recomenda Pagu, Leibniz e mais Modernismo

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Pagu

Olá!

O olhar lânguido de Pagu — bem anos 30 — esconde uma mulher avançada para os padrões da época. Com seu comportamento considerado extravagante, foi escritora, poetisa, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista e militante comunista. Fumava e bebia em público, usava roupas colantes e transparentes, usava cabelos curtos, manteve diversos relacionamentos amorosos, e costumava falar palavrões. Suas atitudes não eram compatíveis com sua origem familiar, conservadora e tradicional. O livro que indicamos é o recém relançado Parque Industrial — mas, vejam só, nossa introdução está por demais longa. Culpa da Pagu!

E teríamos que falar dos outros dois livros, do espetacular Os Órgãos dos Sentidos e do belo, bem escrito e maravilhosamente ilustrado Modernidade em Preto e Branco. Maiores detalhes abaixo.

Excelente semana com boas leituras!

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Parque Industrial, de Pagu (Patrícia Galvão) (Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 49,90)

Romance de estreia de Pagu (Patrícia Galvão), Parque Industrial teve sua primeira edição paga por Oswald de Andrade. É o primeiro romance proletário da literatura brasileira, ou seja, o primeiro que tinha como tema personagens, problemática e ambientação ligados à classe operária. O romance, usando recursos expressivos modernistas, tem influência do estilo de Oswald. É um painel abrangendo personagens da classe operária e de classe média alta. A vida na fábrica, nos cortiços do bairro paulistano do Brás, são o cenário de pequenos dramas cotidianos centralizados no amor, no sexo e no dinheiro. Abordando as consequências da industrialização brasileira do século XX, Parque Industrial se consagrou tanto como retrato de época quanto como um manifesto em favor de seus personagens. Com habilidade sutil, Pagu denuncia as precárias condições enfrentadas pelas trabalhadoras da indústria têxtil paulistana, alinhando a isso as frustrações, traumas e vivências pessoais da mulher proletária. Este livro é passagem obrigatória não só para os leitores de Pagu, mas a quem se interessa pelo panorama social do período.

Os Órgãos dos Sentidos, de Adam Ehrlich Sachs (Todavia, 224 páginas, R$ 69,90)

Em Os órgãos dos sentidos, lançado pela Todavia, o norte-americano Adam Ehrlich Sachs combina obsessão científica e loucura ao imaginar o filósofo e matemático alemão Gottfried Leibniz (1646-1716) envolvido em uma ousada previsão astronômica. A história começa no ano de 1666, quando um astrônomo afirma que um eclipse solar vai acontecer ao meio-dia de 30 de junho, deixando a Europa na escuridão por não mais do que quatro segundos. Esse cientista, responsável por uma previsão tão certeira, seria cego? E se estivesse usando o maior telescópio do mundo? Esses rumores chegam a Leibniz, antes de ele se tornar uma referência da matemática, e assim a narrativa se desenvolve: três horas antes do possível acontecimento, o jovem gênio — em crise existencial — parte em busca do profeta. Uma deliciosa deturpação da História para os leitores da Bamboletras.

Modernidade em Preto e Branco: Arte e Imagem, Raça e Identidade no Brasil, 1890-1945, de Rafael Cardoso (Companhia das Letras, 368 páginas, R$ 99,90)

Modernidade em preto e branco oferece ao leitor não só um novo entendimento a respeito de um dos principais movimentos artísticos do país, mas também uma janela para compreender a primeira metade do século XX. Geralmente entendido como um movimento de elite, o modernismo brasileiro costuma ser associado a um seleto grupo paulistano. Contudo, desde as primeiras favelas das décadas de 1890 e 1900 até a reinvenção do carnaval nos anos 1930 e 1940, e atravessado pelo boom das novas mídias impressas e da fotografia, o modernismo perpassou diversas classes sociais e áreas geográficas. Neste livro, Rafael Cardoso oferece uma releitura radical do movimento, trazendo à luz elementos absolutamente centrais para seu desenrolar — e que não se encontram somente em terras paulistas. Ilustrado com uma centena de imagens, Modernidade em preto e branco combina extensa pesquisa com uma prosa envolvente, que guia o leitor da Bamboletras por diversos âmbitos da sociedade brasileira entre 1890 e 1945.

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Vila Sapo, de José Falero

Vila Sapo, de José Falero

Foi um pouco complicado conseguir o Vila Sapo para ler. Li antes o excelente romance Os Supridores e o livro de crônicas Mas em que mundo tu vive?, mas o livro de estreia tinha passado batido. Consegui um exemplar emprestado e não me decepcionei. É um pequeno livro com 6 contos nada longos, que pode ser lido em uma ou duas sentadas, e que vale a pena. A temática é semelhante à do romance Supridores e não fica longe de várias crônicas do Mas em que mundo.

É estranho ler o primeiro livro de um autor logo após a leitura dos últimos. Tudo fica mais claro. Muitas vezes um livro muito bom como Os Supridores consegue dissimular suas intenções sob uma trama muito presente. Já Vila Sapo — sem ser ruim, de modo algum — deixa transparecer mais cruamente suas razões de ser.

O primeiro conto, Atotô, é uma joia em que três meninos observam e comentam as pessoas que flanam pela Vila até que um acontecimento faz com que eles abandonem seu posto. Dignidade-relâmpago é um sensacional thriller com direito à perseguições. Aconteceu amor é a esplêndida demonstração de coragem de uma jovem mulher e em Um otário com sorte é o narrador que flana em um ônibus contando o que vê até chegar à casa da irmã após um belíssimo primeiro parágrafo. Estes são 4 contos perfeitos. 4 em 6 — sendo que são os 4 mais longos.

Um baita livro. Falero não erra. Ou apenas erra ao vestir tanto a camiseta abaixo. Tá louco!

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Quatro Peças, de Anton Tchékhov

Quatro Peças, de Anton Tchékhov

Com a idade, a sensibilidade do leitor vai se alterando, ao menos foi assim com a minha. Hoje, acho que Tchékhov é o maior dos escritores russos. Este livro, por exemplo, é maravilhoso. São peças de teatro, não é romance nem contos, mas é complicado encontrar livro melhor. O que Tchékhov nos apresenta é a vida. Ele foi inigualável no manejo da arte dos detalhes. Um riso, uma frase, uma descrição e, pronto, temos desvelado um ser humano diante de nossos olhos. Andrei Konchalovsky dizia escrever seus roteiros considerando sobre o que pensaria Tchékhov daquilo. Após lê-lo um livro de Tchékhov também ficamos um bom tempo em sua companhia, no que somos aqui auxiliados pelo excelente tradutor Rubens Figueiredo. Há textos de contextualização para cada peça e cada uma dessas histórias guarda o melhor Tchékhov nas linhas e nas entrelinhas de seus extraordinários diálogos. E a gente fica com a certeza de que o russo poderia realmente fazer tudo, tal seu talento.

Ricardo Piglia escreveu que o segredo de um conto bem escrito é que, na realidade, todo conto narra duas histórias: uma em primeiro plano e outra que se constrói em segredo. A arte do contista estaria em saber cifrar a segunda história nos interstícios da primeira. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de forma elíptica e fragmentária. O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta nos salta aos olhos. Às vezes, o que parece supérfluo para uma história é fundamental para a outra. É o que Tchékhov consegue em suas peças. As pessoas falam e falam de muitas coisas, muitas vezes de banalidades, mas suas banalidades escondem coisas fundamentais. As entrelinhas dos textos chegam a aparecer em negrito piscante para nós…

A sinopse de cada história é curta e, na verdade, é apenas informativo escrever sobre cada uma delas, pois há muitos personagens e o que interessa são os notáveis diálogos.

A Gaivota tem com uma peça dentro dela. Ela é montada para familiares e amigos. O autor é o filho de uma grande atriz. Ela assiste a peça e a acha passadista e medíocre. A peça de Trepliov descreve uma harmonia estética incompatível com as pessoas que a assistem e com a frustração encarada pelo próprio autor, que é bastante ridicularizado. E mais não digo.

Tio Vânia é de enlouquecer de tão perfeita. O personagem-título passou sua vida cuidando de uma fazenda e repassando seus lucros ao dono da mesma, na esperança de garantir o futuro de um familiar. Então o dono, Serebriákov, um “acadêmico e escritor de alto mérito”, sem maiores considerações, resolve outra coisa. A peça é também um olhar sobre a velhice, tanto de Vânia como de Serebriákov, que casado com a jovem, bela e cobiçada Elena.

Três Irmãs é o mais fraco de todos, mas o profundo lirismo das aspirações das irmãs fazem dela uma peça muito bonita e triste. Olga, Irina e Macha, vivem numa província no interior da Rússia, em companhia de seu irmão André. Olga é a professora solteira que vê os anos, a oportunidade de casar e de se mudar passarem. Macha é a esposa de um professor que aos poucos percebe a mediocridade do marido. Irina, a mais nova, que é a única que ainda acredita no futuro. Todas idealizam Moscou como a sua única salvação, o lugar onde haviam passado uma infância feliz.

O Jardim das Cerejeiras é outra maravilha tão grande quanto Tio Vânia. A emancipação dos servos assinada por Alexandre II em 1861 permitiu a eles adquirirem riqueza e status — se trabalhassem –, enquanto alguns aristocratas empobreciam, incapazes de manter suas propriedades sem o trabalho barato da escravidão — e sem o próprio trabalho, pois trabalhar seria indigno deles. O efeito dessas reformas ainda eram sentidos enquanto Tchékhov escreveu a peça quarenta anos depois. Um desses ex-servos avisa e avisa que a casa, a fazenda e o jardim das cerejeiras seriam perdidos pela família, mas ela prefere não acreditar nisso.

Anton Tchékhov (1860-1904)

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Bamboletras recomenda Modernismo e Juremir

Bamboletras recomenda Modernismo e Juremir

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Esta semana sugerimos dois livros sobre o Modernismo brasileiro. O primeiro vem coberto de elogios e é de autoria do sociólogo e professor Sergio Miceli. O segundo é de um personagem do movimento — são inéditos do grande Oswald de Andrade. E o terceiro é a poesia Juremir Machado da Silva o que é garantia de qualidade e cultura.

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Lira Mensageira — Drummond e o grupo modernista mineiro, de Sergio Miceli (Todavia, R$ 74,90, 264 páginas)

Ninguém conhece tão profundamente os mecanismos que regem a vida intelectual do Brasil quanto Sergio Miceli. Este livro dá continuidade a seu projeto. No centro da análise estão Drummond e seus contemporâneos em Minas Gerais. Miceli mostra de forma inovadora os caminhos disponíveis para aqueles literatos que se encontravam no café Estrela. A obra traz olhares sobre o modernismo paulista e a classe política na Era Vargas. Em ensaio com foco nas obras de estreia de Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e outros, Miceli traça um panorama do que seria a Semana de 22, cravejado de tensões que seriam posteriormente diluídas.

Diário Confessional, de Oswald de Andrade (Cia. das Letras, R$ 99,90, 560 páginas)

“Resiste/ Coração de Bronze!”, anota Oswald de Andrade em diferentes momentos nas páginas de seus diários. Os cadernos deixados pelo autor de Serafim Ponte Grande incluem uma seção intitulada “Diário confessional”, que teve início em 1948 e fim em 1954, meses antes de sua morte. Esse material – que permaneceu inédito por cerca de setenta anos – finalmente vem à luz com a publicação do presente volumeNesses registros, somos apresentados a uma figura bem distinta do personagem irreverente que se consagrou em nosso imaginário. Aqui está a mente extraordinária e inquieta, cáustica e ao mesmo tempo amorosa do escritor – mas também passamos a conhecer um homem em crise, profundamente atormentado por incertezas. Documento singular para compreender a cena artística, literária, política e histórica brasileira do período, bem como as transformações que desenharam a cidade de São Paulo na metade do século XX, Diário confessional é o retrato de uma época e de um dos mais notáveis intérpretes da nossa cultura.

Quase (Toda) Poesia, de Juremir Machado da Silva (Sulina, R$ 44,90, 280 páginas)

Conhecemos o grande radialista, jornalista e cronista, o excelente entrevistador, o ótimo romancista e ensaísta Juremir, além, é claro, do santanense. É a hora de conhecer sua poesia. “Publico este livro para marcar meus sessenta anos (29 de janeiro de 2022). Parafraseando outro poeta, já não temo, hoje faço com meus versos o meu viver. E talvez o meu morrer. Tudo é permitido quando o tempo se esvai: rimar ou não, confessar-se, revelar-se, desvelar-se, desnudar-se, recuar.”

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Obras clássicas odiadas por autores famosos (I)

Obras clássicas odiadas por autores famosos (I)

“Fiquei um pouco entediado depois de um tempo. Quer dizer, a estrada parecia ser muito longa.”

Por Emily Temple (tradução do autor do blog)

O mundo literário pode ser uma espécie de câmara de eco. Ou seja, se um número suficiente de pessoas diz que um livro é “ótimo”, o fato se torna oficial. Torna-se um Grande Livro, e olhares horrorizados são dirigidos a quem ousar menosprezá-lo. Reputações como essa podem ser feitas mesmo quando quase ninguém leu o livro em questão, apenas passando alguns “ouvi dizer que é incrível”. Mas mesmo quando todos parecem concordar, é uma aposta segura que existem alguns — em alguns casos mais do que alguns — dissidentes por aí. Eles podem estar apenas escondidos.

Parece uma pena hoje em dia que muitos escritores sentem que não podem expressar publicamente quaisquer sentimentos negativos sobre um livro — isto é ruim para os leitores, que cada vez mais contam com seus autores favoritos para sugestões, e também para a indústria do livro, que corre o risco de exagerar em seus esquecimentos. Entendo por que isso acontece, mas isso é um ensaio para outra hora.

Tudo isso para dizer que é divertido ver um gigante levar uma surra (especialmente se você secretamente não gostou tanto daquele gigante), e ainda mais divertido ver gigantes lutarem — que é mais ou menos como eu me sinto lendo grandes escritores menosprezando o trabalho de outros grandes escritores. Todas as lendas em questão são seguras, o que torna a dissensão literária — e convenhamos, comentários maldosos — um prazer sem culpa.

Então, sem mais delongas, uma seleção de escritores que odiavam livros que se tornaram clássicos e o que diziam sobre eles. Se eles estavam certos ou errados ainda está em debate.

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Virginia Woolf em Ulysses, de James Joyce

De seus diários:

Quarta -feira , 16 de agosto de 1922:
Eu deveria estar lendo Ulysses e inventando o meu a favor e contra. Li 200 páginas até agora — nem um terço — e foram momentos divertidos, estimulantes, encantadores, interessantes os primeiros dois ou três capítulos, até o fim da cena do cemitério. E então tudo ficou entediante, irritante e desiludido como se fosse escrito por um estudante enjoado. Tom, o grande Tom [TS Eliot], acha que isso está no mesmo nível de Guerra e Paz! Um livro analfabeto, mesquinho, parece-me. O livro de um trabalhador autodidata, e todos sabemos como são angustiantes, como são egoístas, insistentes, crus e, em última análise, nauseantes. Quando se pode comer a carne cozida, por que servir-se da crua? Mas acho que se você é anêmico como Tom, há glória no sangue. Posso revisar isso mais tarde sem comprometer minha sagacidade crítica. Eu planto um graveto no chão, marcando a página 200.

Quarta-feira, 6 de setembro de 1922:
terminei Ulysses e acho que é falho. É também genial, eu acho; mas de extração inferior. O livro é difuso. É salobro. É pretensioso. É um subproduto não apenas no sentido óbvio, mas também no sentido literário. Um escritor de primeira linha que quer escrever para ser complicado, que gosta de acrobacias. Lembrou-me o tempo todo de algum garoto de escola inexperiente, cheio de inteligência e poderes, mas tão autoconsciente e egoísta que perde a cabeça, torna-se extravagante, barulhento, inquieto, faz as pessoas gentis sentirem pena ele e deixa as pessoas severas irritadas; esperando que ele cresça com isso. Só que, como Joyce tem 40 anos, isso não parece provável… É totalmente absurdo compará-lo com Tolstói.

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Os livros mais vendidos em janeiro na Bamboletras

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Bamboletras recomenda Arbex e outros dois grandes livros

Bamboletras recomenda Arbex e outros dois grandes livros

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Três livros bem diferentes entre si são as recomendações da Bamboletras para a semana. O primeiro é mais uma baita reportagem de Daniela Arbex. Como nosso país insiste em produzir tragédias, precisamos de cronistas que as documentem e Arbex é notável nisso. O segundo livro é sobre a saudade de um pai por uma filha que não conheceu. E o terceiro narra brilhantemente um caso de gravidez adolescente.

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Arrastados, de Daniela Arbex (Intrínseca, R$ 59,90, 328 páginas)

Daniela Arbex é uma tremenda repórter. Dela, já tivemos livros perfeitos como Holocausto Brasileiro — sobre o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena — e Todo o dia a mesma noite — sobre o incêndio da boate Kiss. Agora, ela retorna com Brumadinho. No dia 25 de janeiro de 2019, a B1, barragem desativada da Mina do Córrego do Feijão, explorada pela mineradora Vale na cidade de Brumadinho, MG, rompeu. Seu rastro de lama, rejeitos de minério e destruição se estendeu por mais de 300 quilômetros, levando torres de transmissão, trens de carga, pontes, casas, árvores, animais e, na contagem oficial da tragédia, a vida de 270 pessoas. Jornalista investigativa premiada, a mineira Arbex foi a campo para reconstituir em detalhes as primeiras 96 horas da tragédia. Ela entrevistou sobreviventes, familiares das vítimas, bombeiros, médicos-legistas, policiais e moradores das áreas atingidas. Arbex retornou à região para acompanhar o impacto das disputas por indenizações e contrapartidas institucionais para a reparação dos danos materiais. Além da escrita precisa da autora, que reconstitui a trajetória das vítimas e dos trabalhos de resgate com toda a brutalidade da tragédia, mas ao mesmo tempo com extrema delicadeza, o livro apresenta ainda fotografias que ajudam a dimensionar e humanizar a tragédia. Novamente, Arbex constrói memória e impede que mais uma catástrofe brasileira se perca em meio à banalidade do noticiário cotidiano.

Princípio de Karenina, de Afonso Cruz (Cia. das Letras, R$ 59,90, 200 páginas)

Uma carta de amor de um pai à filha que não conheceu, revelando distâncias e aproximações. Uma história de amor impossibilitada pelo medo. Uma reflexão sobre o que somos e o que desejamos ser. “Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo. Esta história, minha e da tua mãe, é também a tua.” Com essa referência à célebre frase que abre o romance Anna Kariênina, de Tolstói, um pai se dirige à filha que não conheceu para lhe contar a sua história – que é também a história dela –, numa longa carta que é uma entrega sincera e emotiva, mas também uma bela reflexão sobre o significado da felicidade. Há um pai que ergue muros de silêncio, uma criada muito velha, uma amante. Estes são alguns dos personagens que testemunham – ou dificultam – a busca desse homem por um amor incondicional. Afonso Cruz é um multipremiado autor português.

Em Carne Viva, de Jacqueline Woodson (Todavia, R$ 59,90, 144 páginas)

Este romance centra-se em duas famílias negras que se uniram quando Iris e Aubrey, um casal de adolescentes ainda no colégio, descobriram que seriam pais. Ao revelar esta nova família singular — e remontar ao massacre racial de Tulsa em 1921 — Jacqueline Woodson explora o desejo sexual, identidade, ambição, gentrificação, educação, classe, status e as mudanças de vida advindas da paternidade. Em Carne Viva olha para o fato de que os jovens, muitas vezes, devem tomar decisões duradouras sobre suas vidas — até mesmo antes de começarem a descobrir quem são e o que querem ser.

Daniela Arbex

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100 anos de Ulysses: ‘Nota sobre o homem feminino’

100 anos de Ulysses: ‘Nota sobre o homem feminino’

Outro fragmento encontrado no meu micro. Sim, no dia 2 de fevereiro, Ulysses completará 100 anos incomodando.

Quando nos encontramos com Leopold Bloom, ele está fazendo café da manhã para sua esposa e falando carinhosamente com um gato. Se você passasse por Bloom na rua, nunca o notaria. Sua vida exterior é circunscrita pelas ruas de Dublin e pelas exigências de sua carreira totalmente inconsequente (publicitário), mas sua vida interior é vasta e cheia de humor. Ele está totalmente à vontade com suas próprias sombras e contradições. Ele aceita o mundo e sente prazer nas menores coisas. Conheceu a tragédia — o suicídio de seu pai, a morte de seu filho recém-nascido — e conheceu a alegria, como marido de Molly e pai de Milly. Ele ama animais, abomina a violência e aceita o fato de que sua esposa está transando com outra pessoa. Esta última parte lhe causa dor, mas ele aprendeu há muito tempo que o mundo é maior do que sua dor e possessão não faz parte de sua compreensão do amor.

Bloom é o filho de um imigrante judeu e, portanto, não é a escolha óbvia para ser o herói de um épico irlandês. Bloom é Dublin por completo, mas ele ainda é um estranho. Seus concidadãos gostam muito dele, mas ele ainda é um mistério e eles não confiam nele. Em suas mentes, ele é passivo e “feminino”. Todos sabem que sua esposa está tendo um caso. O que está errado com ele? Que tipo de homem é esse?

Bloom é rapidamente ridicularizado por expressar essa queixa sentimental, mas ele não parece se importar. Ele tem acesso a uma palavra, a um sentimento, a um universo — o amor — que homens como os seus contemporâneos fazem tudo o que podem para evitar. Porque deixar entrar aquela palavra, esse sentimento, destruiria a fachada de força que eles passam todo o tempo tentando manter.

O labirinto de Ulysses parece ter sido projetado com um propósito, dentre outros: neste dia comum, 16 de junho, um jovem, Stephen Dedalus, conhecerá um homem mais velho, Leopold Bloom, que é totalmente livre das definições de masculinidade que fizeram o mundo tão miserável. Bloom acorda Stephen de seu pesadelo.

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100 anos de Ulysses: ‘Alguma coisa sobre o sexo em Ulysses

100 anos de Ulysses: ‘Alguma coisa sobre o sexo em Ulysses‘

Este fragmento estava no meu micro. Não lembro de tê-lo escrito, mas tenho tantos arquivos esquecidos por aí que sei lá se é meu ou copiado. Minha dúvida vem dos muitos parênteses. Não costumo usá-los tanto assim. Bem, vocês devem saber que Ulysses completa 100 anos no próximo dia 2 de fevereiro, não?

O tema da sexualidade é essencial no Ulysses de James Joyce. Este romance é pontuado de passagens que descreve sexo e, principalmente, falam a respeito. Tal onipresença da sexualidade conduz o leitor através do romance como um tema central: a maioria das ações centra-se no encontro das 16h entre a esposa de Leopold Bloom, Marion (Molly) Bloom e Hugh Boylan. Este encontro é muito significativo durante aquele 16 de junho de 1904. Engraçado meu relógio parou às quatro e meia, ele vem à tarde,  Bloom está sempre com isso na cabeça.  São apenas duas as passagens que se referem ao encontro de Molly com Boylan e, portanto, a seu caso com outro homem.

Desde sua publicação, Ulysses criou grande polêmica devido a suas passagens obscenas. O livro foi classificado como escandaloso e se tornou um objeto de censura. Hoje, não parece tão obsceno, porém o caráter de Leopold Bloom surpreende e é moderno até hoje.

Leopold Bloom tem enorme admiração pela esposa, acha-a linda, parece envaidecido com os elogios que ela recebe, mas não dorme com ela desde a morte de seu filho Rudy, mais de uma década antes. Como alternativa, procura por pequenas “aventuras eróticas” em sua vida cotidiana. No açougue, ele dá uma boa olhada no traseiro de uma mulher. Caminha atrás dela. Agradável ver isso logo de manhã. Em outra passagem, Bloom observa uma bela dama na rua enquanto está conversando com McCoy até que de repente um bonde passa e bloqueia sua visão.

A história está cheia desses pequenos incidentes, que são uma alternativa à antiga vida sexual de Bloom com Molly. Lembrando-se de um momento íntimo com sua esposa, Leopold Bloom, nota uma diferença entre ele mesmo há 10 anos: “Eu. E eu agora. ”. Ele de certa forma se apieda e anseia por afeição física, que ele compensa com a masturbação.

Ao longo da história, o leitor descobre vários encontros sexuais de Leopold Bloom com outras mulheres.

Leopold Bloom tem uma correspondência erótica com uma mulher chamada Martha, para o qual ele usa o pseudônimo “Henry Flower”. Ao ler a carta de Martha, pode-se supor que Martha está ansiosa para conhecer Bloom, e também que Bloom deve ter negado esse pedido várias vezes: “Oh, como eu anseio em conhecê-lo. Henry querido, não negue meu pedido antes que minha paciência se esgote.”. No geral, a carta de Martha parece ser muito apaixonada e íntima, já que ela se refere a Bloom como “desobediente”. Bloom, por outro lado, parece estar bastante entediado, ou talvez até incomodado com essa correspondência, o que pode ser visto na passagem em que ele responde à carta de Martha. Sentado em um hotel, ele casualmente escreve sua carta, fingindo que é um anúncio e observando que ninguém perceba que na verdade não é.

No entanto, Leopold Bloom quer manter contato com Martha e tenta “continuar assim”. Ele só pode usar essa correspondência para aumentar sua autoconfiança, já que Martha adora ‘Henry Flower’.

O 13º episódio Nausicaa fala sobre Bloom estar na praia assistindo uma jovem garota chamada Gerty MacDowell. Este episódio pode ser visto como uma das passagens centrais sobre a sexualidade em Ulysses. Também pode ter sido recebido como a passagem mais “obscena” do romance, quando Leopold Bloom observa a uma jovem garota, que provavelmente tem mais ou menos a mesma idade de sua própria filha, com uma conotação erótica. Além disso, o protagonista se masturba na praia, o que teve um caráter ofensivo nos tempos de Joyce.

O capítulo está dividido em duas partes. A primeira parte é contada por um narrador onisciente em um estilo feminino de escrita. A segunda parte de Nausicaa muda novamente para o monólogo interior de Leopold Bloom.

No início do capítulo, Gerty é descrita como extremamente bela, quase parecida com uma deusa: “A palidez do rosto era quase espiritual em sua pureza de marfim, embora sua boca de rosa fosse um arco genuíno de Cupido, grega perfeito”. Esta menina está passando a tarde na praia com duas de suas amigas, até que Leopold Bloom aparece. Gerty percebe e olha para ele de uma maneira bastante romântica. Ela reconhece o rosto triste de Bloom (“[…] o rosto que encontrou seu olhar lá no crepúsculo, pálido e estranhamente desenhado, pareceu-lhe o mais triste que já vira” e sente uma atração por ele baseado na imaginação romântica . Gerty pergunta a si mesma se esse homem pode se casar (“Havia a questão mais importante e ela estava morrendo de vontade de saber se ele era um homem casado ou um viúvo que perdera a esposa”) e, portanto, pensa em uma vida futura com Leopold Bloom: “Mais querida do que o mundo inteiro, ela seria para ele e douraria seus dias de felicidade”. Apesar do fato de que Gerty tem uma perspectiva muito romântica, ela também está ciente de seu impacto sexual no estranho.

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Funeral Blues, de W. H. Auden

Funeral Blues, de W. H. Auden

O poema Funeral Blues foi escrito por Auden em 1936, como a Canção 9 do livro Twelve songs, e costuma ser citado como expressão exemplar de um forte sentimento de perda e de luto. O poema ganhou popularidade internacional devido ao filme Quatro casamentos e um  funeral, numa cena em que o personagem Matthew homenageia seu companheiro morto. Funeral Blues foi musicado por Benjamin Britten. Segue o original e algumas traduções. Ao final, colocamos a famosa cena de Quatro casamentos.

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone, 
Prevent the dog from barking with a juicy bone, 
Silence the pianos and with muffled drum 
Bring out the coffin, let the mourners come. 
 
Let aeroplanes circle moaning overhead 
Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’. 
Put crepe bows round the white necks of the public doves, 
Let the traffic policemen wear black cotton gloves. 
 
He was my North, my South, my East and West, 
My working week and my Sunday rest, 
My noon, my midnight, my talk, my song; 
I thought that love would last forever: I was wrong. 
 
The stars are not wanted now; put out every one, 
Pack up the moon and dismantle the sun, 
Pour away the ocean and sweep up the woods; 
For nothing now can ever come to any good. 
 
April 1936

W. H. Auden (1907-1973)

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Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
 
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
 
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
 
É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
 
(tradução de Nelson Ascher)

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Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
 
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
 
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
 
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
 
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)

.oOo.
 
Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham enlutados.
 
Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu.
no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.
 
Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.
 
Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nada mais vale a pena agora do que resta.
 
(tradução de Vasco Graça Moura)

.oOo.
 
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e abafem o tambor
Tragam o caixão, deixem passar a dor. 
 
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe nos pescoços das pombas da região,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão. 
 
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: “não tinha razão”. 
 
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Pois agora nada mais de bom nos resta.
 
(tradução anônima)

.oOo.

Parem os relógios, cale o telefone 
Evite o latido do cão com um osso 
Emudeça o piano e que o tambor surdo anuncie 
a vinda do caixão, seguido pelo cortejo. 
 
Que os aviões voem em círculos, gemendo 
e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu. 
Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua 
e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu. 
 
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste 
Meus dias úteis, meus finais-de-semana, 
meu meio-dia, meia-noite, minha fala e meu canto. 
Eu pensava que o amor era eterno; estava errado 
 
As estrelas não são mais necessárias; apague-as uma por uma 
Guarde a lua, desmonte o sol 
Despeje o mar e livre-se da floresta 
pois nada mais poderá ser bom como antes era. 
 
(tradução anônima)

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À morte de um canalha, por Mario Benedetti

À morte de um canalha, por Mario Benedetti

(Em 2006, em “homenagem” à morte de Pinochet, o grandíssimo Mario Benedetti (1920-2009) escreveu o poema que segue em tradução livre encontrada na rede).

À morte de um canalha, por Mario Benedetti

Vamos festejá-lo
venham todos
os inocentes
os lesados
os que gritam à noite
os que sonham de dia
os que sofrem no corpo
os que alojam fantasmas
os que pisam descalços
os que blasfemam e ardem
os pobres congelados
os que amam alguém
os que nunca se esquecem
vamos festejá-lo
venham todos
o crápula morreu
acabou-se a alma negra
o ladrão
o suíno
acabou-se para sempre
hip-hurra´
que venham todos
vamos festejá-lo
e não-dizer
a morte
sempre apaga tudo
a tudo purifica
qualquer dia
a morte
não apaga nada
ficam
sempre as cicatrizes
hip-hurra´
morreu o cretino
vamos festejá-lo
e não-chorar por vício
que chorem seus iguais
e que engulam suas lágrimas
acabou-se o monstro prócer
acabou-se para sempre
vamos festejá-lo
a não-ficarmos tíbios
a não-acreditar que este
é um morto qualquer
vamos festejá-lo
e não-ficarmos frouxos
e não-esquecer que este
é um morto de merda

.oOo.

A la muerte de un canalla

Vamos a festejarlo!
vengan todos!
los inocentes, los damnificados
los que gritan de noche
los que sueñan de día
los que sufren el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo!
¡vengan todos!
el crápula se ha muerto!
se acabó el alma negra!
el ladrón
el cochino
se acabó para siempre
hurra!
que vengan todos
¡vamos a festejarlo!
a no decir: la muerte siempre lo borra todo
todo lo purifica cualquier día
la muerte no borra nada!
quedan siempre las cicatrices
hurra!
murió el cretino
vamos a festejarlo!
a no llorar de vicio!
que lloren sus iguales y se traguen sus lágrimas!
se acabó el monstruo prócer!
se acabó para siempre!
vamos a festejarlo!
a no ponernos tibios!
a no creer que éste es un muerto cualquiera
vamos a festerjarlo!
a no volvernos flojos!
a no olvidar que éste
es un muerto de mierda

Por Mario Benedetti
Montevideo, 11 de diciembre 2006.

Mario Benedetti (1920-2009)

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Em 3 sugestões, a Bamboletras reúne passado, presente e futuro

Em 3 sugestões, a Bamboletras reúne passado, presente e futuro

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

As sugestões da semana têm a ver com passado, presente e futuro. Passado que se reflete até hoje na obra Memórias do Esquecimento, de Flávio Tavares. Presente na discussão sobre racismo e feminismo da autoficção da grande Djaimilia Pereira de Almeida, Esse Cabelo. E futuro no livro sobre Edgar Morin que trata dos desafios multidisciplinares do século XXI — num mundo cada vez mais especializado.

Excelente semana com boas leituras!

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Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida (Todavia, R$ 57,90, 104 páginas)

Romance de estreia da excelente Djaimilia, Esse Cabelo é um livro amoroso e um tanto irônico. Nascida em Angola em 1982 e agora vivendo em uma nação da periferia da Europa, o romance é a história da maturidade de uma mulher negra que é considerada forasteira em seu próprio país e não consegue enxergar a possibilidade de “retornar” a uma pátria que, de fato, jamais foi sua. Obra de estreia de Djaimilia Pereira de Almeida, com pontos de contato com o romance pós-colonial, o ensaio de identidade e a autoficção, este livro traz uma contribuição única a um diálogo global cada vez mais importante sobre racismo, feminismo, colonialismo e independência.

Memórias do Esquecimento, de Flávio Tavares (L&PM, R$ 46,90, 269 páginas)

Vencedor do Prêmio Jabuti, Memórias do Esquecimento é um relato cru sobre a prisão e a tortura após o golpe militar de 1964 no Brasil. Formado em Direito e professor da UnB, o jornalista Flávio Tavares participou da resistência à ditadura e foi preso. Libertado com outros catorze presos políticos em troca do embaixador dos Estados Unidos, em 1969, iniciou longo exílio no qual foi vítima (e sobrevivente) da chamada Operação Condor. Este livro é um testemunho sobre os labirintos de uma época sombria e tortuosa. Da repressão à resistência, da dor à esperança, está tudo aqui, para jamais esquecer. Livraço!

Edgar Morin — Complexidade no Século XXI, org. de Edgard de Assis Carvalho (Sulina, R$ 39,90, 182 páginas)

O objetivo primordial deste livro é problematizar o significado da obra de Edgar Morin na busca da complexidade perdida, nestes tempos sombrios do século XXI, dominados pela fragmentação, pela especialização, pelas desigualdades e contradições da mundialização. Às vésperas de completar 100 anos em 8 de julho deste ano, Edgar Morin é um pensador polifônico, transdisciplinar, empenhado em desvendar os sentidos do futuro num mundo cada vez mais interligado, interconectado, interdependente. Sua vida e suas ideias transparecem a todo tempo em seus ditos e escritos. Daí decorre a religação entre a razão e a emoção, marca indelével da totalidade de sua extensa obra, que considera a racionalidade aberta como matriz para o desvendamento dos múltiplos sentidos. A complexidade no século XXI será necessariamente transdisciplinar, envolvendo terra, a vida, a cultura, a humanidade. Considerado como um utopia realizável, esse horizonte exigirá a formação de pesquisadores que ultrapassem suas competências disciplinares e proponham interpretações universais, ao mesmo tempo globais e locais, capazes de englobar a totalidade dos saberes.

Djaimilia Pereira de Almeida

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De Alexandre Kovacs, do Mundo de K, sobre Abra e Leia

De Alexandre Kovacs, do Mundo de K, sobre Abra e Leia

Por Alexandre Kovacs, no Mundo de K.

Milton Ribeiro – Abra e Leia – Editora Zouk – 150 Páginas – Capa de Emanuelle Farezin – Lançamento: 2021.

Milton Ribeiro é uma das pessoas mais inteligentes e bem-humoradas que você vai encontrar no facebook, mesmo que este humor seja um tanto ácido ou carregado de ironia às vezes, mas não é culpa dele o crescente número de idiotas úteis que desafiam a nossa paciência, espalhando bobagens nas redes sociais. Há alguns anos acompanho os seus artigos como jornalista na mídia tradicional e também nos blogs que ele mantém desde 2003, uma inspiração para todo resenhista. Em 2018, Milton realizou um sonho de adolescência transformando-se em livreiro aos 60 anos, quando adquiriu a tradicional Bamboletras em Porto Alegre. E, no final do ano passado, mais um antigo projeto foi cumprido sob a pressão dos muitos amigos da área de literatura: a publicação de Abra e Leia, seu primeiro livro.

Os 22 contos desta antologia foram escritos ao longo dos anos e não apresentam uma unidade temática, longe disso. Contudo, percebemos em muitas das narrativas os traços biográficos do autor, o conhecimento enciclopédico sobre música erudita, assim como as referências literárias e cinematográficas, sem desmerecer dos assuntos mais populares como o futebol e a sua inusitada paixão colorada. Influenciado por autores clássicos e contemporâneos, Milton sabe como contar uma história, seja em primeira ou terceira pessoa, com uma edição precisa do texto, ele conquista a nossa atenção desde o início, construindo finais que valorizam a imaginação do leitor, sempre mantendo um texto afiado e bem-humorado, sua marca registrada.

Chama a atenção o cuidado na criação dos personagens: Marquinhos é um jogador de futebol da segunda divisão gaúcha que é subornado pelo seu ex-time – o Ipiranga de Erechim – para errar todos os escanteios, faltas e pênaltis na decisão do campeonato. Ele é um pai solteiro, coisa incomum no machismo que impera nesta área e, apesar das dúvidas sobre a paternidade, revela um amor incondicional pelo seu filho Enzo. Neste conto, Marquinhos e Enzo, o grande, a ironia fica um pouco de lado e o autor deixa a emoção correr solta pelo texto, sem clichês.

“[…] Eu sabia falar com a imprensa. Dava mais entrevistas e aparecia mais do que os outros, mesmo medindo 1,63 m. Eu era o baixinho que fazia a ligação entre o meio de campo e o ataque. Quer dizer, jogava em posição de craque, mas não era o caso. Tinha alguma habilidade e batia as faltas, pênaltis e escanteios do time, só que passava mais da metade do tempo machucado. Mas não naquele ano. Como o Enzo dizia na escolinha, aquele era o ano do seu pai. Eu ficava todo orgulhoso, pois tudo o que faço é para ele. / Ganhava cinco mil por mês no Guarany e os caras do Ipiranga me ofereceram vinte e cinco para errar todos os escanteios e faltas na decisão. Pênaltis também, se acontecessem. Eu estava em pânico com essa possibilidade – achava que era impossível errar o gol num pênalti. Se eu treinava diariamente, porra, como ia fazer para bater embaixo da bola a fim de mandá-la para fora? E eu sempre batia coladinho, com jeito. Que merda. Só sei que pedi o dinheiro adiantado, porque depois eles sumiriam, é óbvio. Como eu tinha fama de sério e confiável, me pagaram em dinheiro, um em cima do outro, ali na hora.” – Marquinhos e Enzo, o grande (pp. 15-16)

Já em Passando camisas, conhecemos Ana, uma morena bonita e sensual, daquelas que atraem os olhares masculinos e que recebe cantadas até dos amigos do marido mas, em matéria de traição, parece que é ele, o marido Daniel, que está na dianteira. Ana percebe que algo está errado quando descobre uma nota fiscal no bolso da camisa de Daniel, não de uma joia ou uma lingerie para a possível amante, mas sim de um ferro Ultragliss Diffusion 90 Arno. Nesta narrativa, o autor equilibra humor e ironia com sensibilidade em uma história simples do cotidiano mas que, quando bem contada, como é o caso, se torna um clássico.

“À noite, quando voltava para sua pequena casa na periferia, Ana seguia trabalhando. Ali, ela também preparava a comida, limpava a casa, lavava e passava suas roupas e as de Daniel. Ontem, porém, sua rotina foi quebrada. Ao pegar uma camisa de seu marido, Ana sentira um pequeno papel num dos bolsos. Retirou-o e viu tratar-se de uma nota fiscal. Ele tinha comprado um ferro Ultragliss Diffusion 90 Arno por cento e noventa e nove reais. Estranho. Daniel gostava de andar alinhado, mas era muito dinheiro por um ferro de passar. E, além do mais… Cadê o ferro? Observou melhor a data da nota: a compra fora feita há quinze dias e ela não recebera ferro novo nenhum. Faltava muito para seu aniversário e eles não tinham dado presente para nenhum amigo ou parente nos últimos dias – o que significaria aquilo? Será que ele comprara para um amigo que estava sem crédito? Voltou a olhar a nota: compra à vista.” – Passando camisas (pp. 39-40)

Mas é no conto O Violista, o maior em extensão – praticamente uma novela –, no qual encontramos personagens que só poderiam ter sido concebidos por Milton: começando por Romeu, um violista brasileiro que reside em Portugal, contratado pela Orquestra Nacional do Porto e que se prepara para interpretar a Sinfonia Concertante de Mozart para Violino e Viola, uma das poucas peças que valorizam a viola, um instrumento sempre relegado (os detalhes da comparação entre violino e viola são simplesmente deliciosos). A jovem violinista lituana, Saida Rekasiute (certamente inspirada na esposa de Milton, a violinista Elena Romanov): “alguém com 15 anos e 15 quilos a menos do que ele, e, fundamentalmente, com 15 centímetros a mais de altura”. Sebastián Rivero, um maestro prepotente que ameaça a carreira do violista e, finalmente, a moça brasileira, atendente da pizzaria, com a qual Romeu flerta ao telefone.

“Hindemith, Bartók e Mozart foram dos poucos compositores a voltarem suas luzes para a viola. O primeiro tocava vários instrumentos, dentre eles a viola, os outros dois talvez fossem bons corações que se deixaram levar por violistas pedintes, deprimidos com um repertório de terceira linha. / No dia do primeiro ensaio, Romeu foi apresentado à violinista com quem faria o duo. Ela o deixou instantaneamente irritado. Era jovem, muito jovem, alta e bonita, tinha os cabelos e olhos castanhos dos trópicos, mas a pele muito branca e o sotaque de seu inglês denunciavam a origem mais ao norte. Era báltica, lituana. Romeu não deu grande importância à beleza da moça, mas fixou-se em seus pés. Notou que ela estava de sapato baixo. Concluiu que todo seu esforço, dormindo dias e noites sobre a partitura de Mozart, seria solapado por alguém com 15 anos e 15 quilos a menos do que ele, e, fundamentalmente, com 15 centímetros a mais de altura. Ninguém veria um arredondado, pequeno e feio violista brasileiro. E, pior, ela certamente viria de salto alto no dia do concerto.” – O Violista (p. 108)

Um livro muito recomendado e que demonstra um conhecimento e habilidade para mesclar as referências musicais na trama que só encontro em Haruki Murakami na atualidade. A estreia de Milton Ribeiro na literatura nos deixa ansiosos para conhecer os seu próximos lançamentos.

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Sobre o autor: Milton Ribeiro nasceu e vive em Porto Alegre. É livreiro e jornalista da área cultural. É um melômano apaixonado por Bach, cinéfilo devoto de Bergman, proprietário da Livraria Bamboletras e leitor inveterado. Ministra cursos em Centros Culturais como o StudioClio e o Instituto Ling, além de ser colunista da Mundi | Cultura em Revista. Mantém os blogs Milton Ribeiro e PQP Bach. Também é daltônico como Van Gogh e Uderzo. Músicos amigos dizem que teria ouvido absoluto, uma característica 100% inútil, pois não toca nenhum instrumento.

Onde encontrar o livroClique aqui para comprar Abra e Leia de Milton Ribeiro

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Um século lendo Ulysses

Um século lendo Ulysses

Fazem exatamente 100 anos que o intrincado romance de James Joyce, que fortaleceu minha vocação de escritor, chegou à livraria Shakespeare and Company como se fosse o Santo Graal.

De Juan Gabriel Vásquez
Traduzido informalmente pelo dono do blog

Há 100 anos, em Paris, um escritor irlandês à beira do desespero escreveu cartas e telegramas e fez telefonemas para garantir que seu novo romance saísse no dia programado. James Joyce já havia publicado dois livros que teriam sido suficientes para abrir um espaço para ele na história: Dubliners, que às vezes me parece o melhor livro de contos em língua inglesa, e Portrait of the Artist as a Young Man, um romance cujas últimas páginas me fazem estremecer hoje, os mesmos arrepios que me causaram quando os li pela primeira vez, mais ou menos na idade de seu protagonista. Mas em janeiro de 1922, Joyce ficou mais conhecido por um romance que não havia sido publicado na íntegra, mas já era uma lenda: Ulysses. Vários capítulos haviam aparecido em várias revistas, dividindo os leitores da época como estão hoje: metade achou o romance uma obra-prima; a outra metade, que era de uma obscenidade incompreensível. Nenhuma editora ousara publicá-lo, prevendo — corretamente — que receberia ações judiciais e tentativas de censura. Joyce abordou o assunto desconsoladamente a um amigo livreiro e ficou tão surpresa quanto ela quando a ouviu perguntar: “Você daria à Shakespeare and Company a honra de ser sua editora?”

O nome da livreira era Sylvia Beach: uma jovem americana de olhos arregalados e lábios finos que viera a Paris para escapar das restrições de sua família presbiteriana e cuja livraria da Rue de l’Odéon era um ponto de encontro para expatriados. (Hemingway e Pound o frequentavam, também Gertrude Stein, mentora de todos). A ideia de que esta livraria se encarregasse da publicação de Ulysses era inusitado, para dizer o mínimo, mas foi feito: em abril de 1921 Joyce e Sylvia Beach concordaram em publicar mil livros, desde que fossem vendidos antecipadamente, e lembro-me da carta que George Bernard Shaw escreveu quando recebeu um convite para comprar um cópia: “Se você acha que um irlandês, já velho, pagaria 150 francos por um livro, você sabe muito pouco sobre meus compatriotas”. Durante o resto do ano, Joyce se dedicou a terminar aquele romance impossível, corrigindo os capítulos publicados e procurando alguém para limpar os impenetráveis ​​manuscritos dos inéditos. O processo já teria sido bastante difícil mesmo se Joyce não tivesse imposto adicionalmente a data de publicação: 2 de fevereiro.

Era seu aniversário de 40 anos, e Joyce era um homem supersticioso. Ele nunca quis, por exemplo, que o romance fosse publicado em 1921: os números do ano somam 13. No verão ele saiu para beber vinho com um amigo, e não apenas ficou preocupado quando encontrou o conjunto de talheres estranhamente disposto, mas quase lhe deu uma síncope quando o amigo viu passar um rato: era sinal certo de azar. Por volta dos mesmos dias, para piorar a situação, ele teve um ataque de irite que o deixou acamado em um quarto escuro pelas próximas semanas. Mas ele continuou revisando as provas, enviando novos acréscimos ao seu impressor — um bom homem de Dijon que quase enlouqueceu no processo — o tempo todo lembrando-lhe que o romance deveria ser publicado em 2 de fevereiro. No primeiro dia do mês, passeando em um parque com sua esposa, Nora, e a escritora Djuna Barnes, ouviu um homem dizer-lhe: “Você é um escritor abominável”. Mas ele disse isso em latim, e Joyce achou que era um horrível presságio.

Incrivelmente, como diz Borges em um conto, o dia prometido chegou. No dia 2 de fevereiro, às sete da manhã, o motorista do expresso Dijon-Paris trouxe um pacote com os dois primeiros exemplares da primeira edição do Ulysses. Sylvia Beach os esperou na estação de trem, como se fossem dignitários de algum governo estrangeiro, levou um para a casa dos Joyce e levou o outro para mostrá-lo em sua livraria. Richard Ellmann, autor de uma biografia de Joyce que teve um lugar na minha vida que as biografias normalmente não têm, diz que a livraria estava cheia até o final da tarde. Ele conta ainda que Joyce, por sua vez, foi jantar com a família e vários casais de amigos para comemorar o evento, mas só no final do jantar ele se atreveu a tirar o livro do pacote que guardava embaixo do assento. . “Era um volume”, escreve Ellmann, “encadernado nas cores gregas — letras brancas sobre fundo azul — que Joyce considerava como boa sorte.”

Por duas vezes tive nas mãos um exemplar dessa edição. A primeira foi quando eu tinha 21 anos, no verão de 1994, quando o feitiço inexplicável causado por Ulysses estava no auge. Eu havia lido o romance um ano antes com uma espécie de reverência, e ainda não entendo que ligação misteriosa aquele livro hermético estabeleceu comigo. Li-o com uma dedicatória que nunca mais tive, acompanhada de dois livros paralelos que explicavam ou iluminavam todas as referências; hoje ainda acho que é a única maneira de ler este romance cheio de piscadelas e sinais, grandes e pequenos, e que lê-lo sem ajuda bem escolhidas é perda de tempo e explica por que tantos leitores ficam de fora. Em todo o caso, essa leitura dos meus vinte anos teve muito a ver com a consolidação da minha vocação e também — por razões mais pessoais e sem dúvida mais frívolas — com a minha decisão de arranjar um pretexto para ir a Paris.

A primeira coisa que fiz quando cheguei a Paris, aos 23 anos e com a obsessão devoradora de aprender a escrever romances, foi caminhar até o número 12 da Rue de l’Odéon. A livraria Shakespeare and Company já não existia, claro, e a que existia e existe com o seu nome não é a mesma, ainda que seja uma digna herdeira. Mas havia (e há) a placa que nos conta friamente o que aconteceu ali. Pois bem, em poucas semanas fará 100 anos que uma cópia daquela primeira edição foi exposta como um Santo Graal naquele lugar desaparecido, e nestes dias não pude evitar voltar à minha própria edição, publicada 70 anos depois, e percorrer minhas passagens favoritas: os três primeiros capítulos, o capítulo da biblioteca, a cidade da noite (ainda hilário) e o famoso monólogo de Molly Bloom. Hoje não admiro as coisas que admirava quando tinha 20 anos – nem dificuldades gratuitas nem pirotecnias sem propósito – mas encontrei outras para admirar. E há quase um ano, quando um amigo madrileno me pôs nas mãos um desses exemplares, voltei a sentir uma emoção um tanto ridícula e de qualquer modo incomunicável, porque naquele momento o passado, a amizade e a literatura se misturavam, três coisas que sempre levei muito a sério.

Juan Gabriel Vasquez é escritor. Seu último romance é Olhando para trás (Alfaguara).

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Tudo é Rio, de Carla Madeira

Tudo é Rio, de Carla Madeira

Este livro foi lançado pela primeira vez em 2014 por uma pequena editora. Depois, a Record comprou os direitos de publicação, levando Carla a ser a escritora mais lida do Brasil em 2021 logo após Itamar Viera Junior. Neste ínterim, ela lançou mais dois romances – A Natureza da Mordida e Véspera –, mas o carro-chefe, quem é um tremendo sucesso é este Tudo é rio.

Ninguém pode acusar a mineira Carla Madeira de não ser direta. Sim, ela é direta a ponto de assustar. Mas o contrário da sutileza não é necessariamente a grossura. O livro tem força e impacto e estas são indiscutíveis qualidades. E não falo apenas das descrições das cenas de sexo, mas dos vastos sentimentos à flor da pele. Ou seja, sua literatura não têm muita nuance, fala sempre com clareza. A autora não observa o tempo cronológico, fazendo com que o leitor vá lentamente construindo a situação descrita no início do livro. Como chegaram àquilo? As surpresas aguçam nossa curiosidade a cada capítulo. Aliás, estes são muitos e curtos. A narrativa envolve amores, atração sexual crua, relações familiares, amizades, amores e ódio.

Sem grandes spoilers, podemos dizer que o livro conta a história do triângulo amoroso entre uma mulher, seu marido e uma prostituta. Sabemos sobre a formação do casal, da tragédia que lhes ocorre e da barulhenta entrada do terceiro vértice. Todo o clima e as reações das pessoas parecem ser mais “antigas”. Por exemplo, quando a autora fala em ferro de passar – o romance não contextualiza época ou local –, a gente fica pensando “mas já existia isso na época desta história?”. Há suspense, erotismo e a criação de um belo e estranho clima. Há também uma pergunta que fica no ar e que Chico Buarque já fizera na letra de sua canção Almanaque: “Me diz me diz / Me responde por favor / Pra onde vai o meu amor / Quando o amor acaba”. Mas, no final, ficamos sabendo que…

Tudo é rio tem personagens que tomam atitudes extremas e tal fato fez com que muitos leitores rejeitassem o livro. Eles esperavam que a autora problematizasse mais a violência doméstica. Há agressões a mulheres e crianças, além de uma bem escondida pedofilia. Creio que não cabe à autora punir seus personagens ou fazer um ensaio a respeito. Cabe-lhe contar uma história. Mas é fato que a estrutura novelesca transformou um ato criminoso em uma coisa simples. E a frase final “Deus retornou ao lar” não parece uma ironia e sim um perdão. Ademais, o livro é como aqueles filmes de Tarantino onde os caras fazem o que bem entendem e parece que não há lei ou polícia para impedi-los. Nem vizinhos.

A baixa densidade psicológica dos personagens também leva-nos a pensar num romance antiquado. As frases às vezes parecem de auto-ajuda. As atitudes súbitas das pessoas nos remetem às novelas da Globo: a prostituta é linda, irresistível e de enorme persistência; o homem é macho, calado e violento; a mulher é bondosa e ama os animais; sua mãe é a Rainha do Bom Conselho. Ou seja, o sucesso de Carla Madeira é o mesmo de Nora Roberts, Isabel Allende e Gilberto Braga.

Mas jamais devemos esquecer que ele está calcado na sólida tradição literária de folhetins e fábulas onde o Bem vence o Mal, mesmo que haja violência e Brasil.

Carla Madeira: muita trama nos cabelos e na cabeça

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Bamboletras recomenda China, Jamaica e Santiago

Bamboletras recomenda China, Jamaica e Santiago

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

A China é enorme, a Jamaica é bem menor e Santiago é menor ainda. O livro sobre a China fala do regime político lá implantado há algumas décadas. Jamaica… Bem, Jamaica Kincaid é o nome da autora do drama familiar que é nossa segunda recomendação. E Santiago é o Santiago, nosso super premiado e talentoso vizinho aqui da Cidade Baixa. Ensaio, romance e desenho (ou desdenho), tem para todos os gostos!

Excelente semana com boas leituras!

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O Socialismo do Século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele (Boitempo, R$ 67,00, 312 páginas)

Este livro é um meticuloso trabalho teórico e estatístico. A obra analisa a gigante República Popular da China das últimas duas décadas, locomotiva do sistema econômico mundial. Afinal, o que é o socialismo chinês? É possível afirmar que difere do capitalismo tal qual o conhecemos até aqui, embora ainda seja prematuro defini-lo como alternativa consolidada. Com uma postura crítica, os autores não desconsideram a complexidade da China e fogem de preconceitos ideológicos como enquadrar o país como mais um fracasso socialista ou, na via oposta, como um paraíso do comunismo realizado. Oferecem ao leitor uma abordagem materialista, que analisa a peculiaridade das relações de propriedade e das ferramentas de planejamento vigentes no país. Tudo isso para apontar seu papel crucial como alternativa realista.

Agora veja então, de Jamaica Kincaid (Alfaguara, R$ 69,90, 144 páginas, R$ 69,90)

O Sr. Sweet compõe em seu estúdio, enquanto a Sra. Sweet passa o tempo na cozinha escrevendo. Seus filhos correm pela grande casa. Contudo, a perfeita imagem da família tradicional americana é abalada quando o marido deixa a esposa por uma mulher mais jovem. Através dos fluxos de consciência de múltiplos personagens, Jamaica Kincaid mostra as angústias escondidas que muitas vezes estão por trás de uma aparente perfeição. Aparentemente singelo, mas potente, Agora veja então é uma análise ferina sobre as diversas maneiras como o transcorrer dos anos afeta um casamento. Os personagens, em confronto, se desesperam em situações cotidianas, suas mentes tentando entender linearmente uma realidade que, de fato, não é linear. Escrevendo no passado, no presente e no futuro, Kincaid faz da passagem do tempo sua principal ferramenta narrativa.

Caderno de Desdenho, de Santiago (Libretos, R$ 45,00, 140 páginas)

Santiago é um gênio do desenho e do pensamento. E ele apresenta, neste Caderno de Desdenho, o melhor de sua produção dos últimos 30 anos. com desenhos inéditos e outros publicados em revistas e jornais. Dentre 100 premiações em salões nacionais e internacionais. 16 cartuns vencedores selecionados constam desta obra comemorativa. Desdenhando a pompa e a circunstância, com irreverência nata, Santiago é um artista conectado às questões sociais e sempre alerta contra as injustiças e as artimanhas por parte dos poderosos. Afinal, se o rei está nu, alguém precisa registrar o fato com qualidade e excelência.

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A Louca da Casa, de Rosa Montero

A Louca da Casa, de Rosa Montero

Eu não sei como este livro veio parar em minhas mãos. Trata-se de uma edição de 2005 da Ediouro e nunca o vi na Bamboletras e nem o comprei. Não lembro se alguém me deu de presente, mas agradeço muitíssimo a quem o tenha feito, pois é excelente.

A louca da casa é uma homenagem à literatura. O título do livro é extraído de Santa Teresa de Jesus, que chamou a imaginação de “a louca da casa”. E é disso que trata o romance-ensaio: de imaginação, de literatura, de processos, de invenção, de criação, do acaso. Montero aproveita todas estas e outras questões do fazer literário para refletir sobre elas e escrever capítulos cheios de referências e citações de outros autores, além de momentos autobiográficos que nem sempre precisam ser verdadeiros, pois como a própria autora aponta no post scriptum, “ toda autobiografia é ficcional e toda ficção autobiográfica, como dizia Barthes”. Por exemplo, há um caso pessoal a que é contado três vezes, mas cujo final é sempre diferente, para alegria do leitor mais, digamos, experimental, meu caso.

O livro está repleto de referências pessoais, muitas quem sabe fictícias, como o romance com o famoso ator ou a existência da irmã Martina. Seu gênero? Bem, é um romance, um ensaio, uma autobiografia. É a obra mais pessoal de Rosa Montero, uma viagem pelos meandros da fantasia, da criação artística e das memórias mais secretas.

A autora revela seu íntimo e sua relação com a escrita num jogo narrativo em que a literatura e vida pessoal se misturam em um coquetel com biografias de outras pessoas e autobiografia ficcional. Descobrimos que o grande Goethe lisonjeava os poderosos a extremos ridículos, que Tolstói era um louco, que Mark Twain talvez tenha morrido na infância — sim, verdade! –, que Montero teve um caso bizarro e hilário com um ator famoso. Mas não devemos confiar em tudo que a autora conta sobre si mesma: as memórias nem sempre são o que parecem.

É um livro delicioso sobre fantasia e sonhos, sobre os medos e dúvidas dos escritores, mas também dos leitores, mas é, antes de tudo, a quentíssima história de amor e salvação que existe entre os escritores e suas possibilidades. Ao final, como disse um resenhista espanhol, dá vontade de pagar Rosa pelo braço e dizer: “Menina, mas que histórias você acabou de me contar!”.

Este livro recebeu o prêmio Qué Leer 2004 para o melhor livro do ano, o Grinzane Cavour 2005 e o Roman Primeur 2006.

“Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres; mas se um homem escreve um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano”.

Rosa Montero, ao afirmar que nunca teve intenção de escrever sobre mulheres

Rosa Montero

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Virson Holderbaum sobre meu livro Abra e Leia

Virson Holderbaum sobre meu livro Abra e Leia

Eu quase não consegui ler o livro. Como eu moro na praia e os carteiros as vezes não entregam no Campeche por causa dos cachorros, dei o endereço da casa da minha mulher que mora no centro de Floripa , aí quando o livro chegou ela leu, depois os filhos leram e nada de me entregarem. Tive que dar uma ordem geral do tipo me devolvam que o livro é meu! Não foi fácil.

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Augusto Maurer, sobre Abra e Leia

Augusto Maurer, sobre Abra e Leia

Milton,

terminei ontem, com certo alívio, de ler teu livro. Explico. Da aquisição à conclusão da leitura, foram quase 4 meses. Não pensa, com isto, que foi uma leitura pesada, trabalhosa. Ao contrário: peguei o livro umas 4 vezes, no máximo, lendo vários contos de cada vez, cada desfecho levando a um desejo inadiável de ler o próximo. Qual meu temor ? Simples: que se tratasse apenas de mais um bom livro. É, com certeza, um grande livro! É que, sabendo de teu conhecimento literário enciclopédico, não esperava (apenas temia) que fosse diferente. Pura burrice: quem estreia nas letras depois dos 60, sabe muito bem a que veio.

Não vou, aqui, entrar em detalhes sobre cada conto. São tantas as observações que prefiro deixá-las para algum momento futuro, ao redor de uma boa mesa e levemente embriagado. Tb não vou te parabenizar – e sim agradecer pelo acréscimo de algo que valha a pena ser lido no já tão saturado universo do corpus literis. E tb, é claro, à Elena, pelo fundamental incentivo a saíres do armário ou melhor, neste caso, da gaveta.

Grande abraço,

Augusto

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Bamboletras recomenda dois helenistas e um jornalista

Bamboletras recomenda dois helenistas e um jornalista

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Dois livros extraordinários cujas concepções tiveram seus nascedouros na Grécia Antiga. A Casa dos Poetas é uma espécie de BBB grego e Autobiografia do vermelho é mais lírico e experimental. De quebra, recomendamos a biografia do sábio Olyr Zavaschi, jornalista gaúcho querido e professor informal de muita gente boa.

Excelente semana com boas leituras!

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Casa dos Poetas, de Leonardo Antunes (Zouk, 92 páginas, R$ 40,00)

Casa dos Poetas, de Leonardo Antunes, escancara seu DNA grego logo de início. Temos Dioniso, também conhecido como Baco, que entre outras atribuições, é o deus do teatro desde quan­do, na Atenas clássica, Ésquilo, Sófocles e Eurípides passeavam pelos palcos suas tragédias. Temos também a referência explícita a Aristófanes e àquela que é, talvez, a sua comédia mais inventiva: As Rãs. E, não menos importante, o povo brasileiro, convidado para assistir o espetáculo. Do que trata o espetáculo? O título dá a pista. Casa dos Poetas remete à alcunha do reality show de maior audiência na te­levisão brasileira, o Big Brother ou “A casa mais famosa do Brasil”. Como sabem até mesmo quem não acompanha realities ou não assiste televisão, mas vai à padaria, anda de taxi ou está no grupo da família no whats, a ideia do espetáculo é isolar em uma casa um grupo heterogêneo de “descolados” que, filmados o tempo todo, estarão à mercê dos espectadores, que escolhem os elimina­dos até que se aponte o vencedor. Ora, Dioniso é, a contragosto, o mestre de cerimônias e árbitro dessa reality original (ao que eu saiba ainda não foi feito um com esse mote) entre poetas. A peça se passa em tempos pandêmicos e, em respeito aos protocolos, Dioniso usa máscara e a “casa” foi transportada para o compu­tador, cada poeta em seu quadrado, mas, graças à tecnologia 3D, capaz de contracenar com o deus.

Autobiografia do Vermelho — Um Romance em Versos, de Anne Carson (Ed. 34, 192 páginas, R$ 52,00)

A canadense Anne Carson é uma das autoras mais reconhecidas e premiadas da atualidade, seja como helenista, ensaísta, crítica de arte, tradutora ou, principalmente, como poeta. Autobiografia do vermelho, seu livro mais celebrado, reúne todas essas facetas ao recriar, nos nossos tempos, o mito grego de Gerião, um monstro vermelho a quem Héracles teve de exterminar para cumprir um de seus doze trabalhos. Baseada na descoberta, nos anos 1960 e 70, de novos fragmentos da Gerioneida, poema lírico do grego Estesícoro (séculos VII-VI a.C.), Carson compõe este tocante “romance em versos” que transforma Gerião em um menino sensível e absorto e, seguindo o fio de um tempestuoso relacionamento amoroso com Héracles, nos apresenta uma peculiar história de amadurecimento.

Olyr Zavaschi: o legado de um homem cordial, de Mario de Santi (Vienense, 272 páginas, R$ 50,00)

Quem conheceu Olyr, sabe do grande jornalista e pessoa que ele foi. Meio caladão, quando abria a boca era para dizer coisas sábias e para das palpites exatos. Faleceu em 2011, aos 69 anos. Formado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), começou a trabalhar como jornalista em 1968 no Diário de Notícias e ingressou na RBS em 1971. Comandou o processo de informatização dos jornais do Grupo. Foi ainda o responsável pela criação da Agência RBS de Notícias, alimentadora dos periódicos da rede. Sereno e cordial, foi um professor como poucos. Sua vida familiar e profissional está descrita nesta bela biografia de Mario de Santi.

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